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3.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXIII

Epílogo

Giovanna, acabara de prender o véu nos cabelos de Eva, quando Isabella entrou para dizer que a limusina já tinha chegado. Eva  ainda não sabia onde ia ser o casamento. André fizera questão de manter o segredo para surpreendê-la, e ninguém na família quisera quebrar a ordem.
Nunca, nem nos seus sonhos mais românticos, ela sonhara viver, como vivera aqueles dez dias. Dois dias antes, chegara o resto da família, que viera de Itália, bem como toda a família portuguesa, que vivia em Braga. E todos sem exceção a acolheram com todo o carinho. Na última noite, André fora dormir no hotel, donde seguiria para a igreja, com a família. Com ela ficaram a futura cunhada Giovana e Isabela, a sobrinha mais velha, filha de Pietro, para a ajudarem a preparar-se para a cerimonia. Agora, seguiam a caminho do local onde o casamento se  realizaria.
Quando a limusina parou junto do portão do orfanato, e viu os portões abertos, guardados por dois seguranças, e o grupo de meninos, rigorosamente vestidos, segurando folhas de palmeira formando um arco para ela passar, a emoção foi tão grande que quase não conseguia andar.
O sogro aproximou-se e deu-lhe o braço para a conduzir à capela, em cujo altar André aguardava ansioso.
Para Eva tudo era um sonho. As meninas todas vestidas a rigor, (saberia mais tarde que tinha sido o noivo e os seus pais, que tinham oferecido as roupas às crianças do orfanato) aguardavam-na perto da capela, muito compenetradas do seu papel de damas de honor, a Irmã Maria interpretando Avé – Maria, de Schubert. André, no altar, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, ladeado pelo irmão e cunhada, que iam ser os seus padrinhos, a capela engalanada, a Irmã Madalena no altar, acompanhada de um tio de André, que se seriam os  padrinhos dela. 
A cerimonia decorreu de forma muito emotiva. Quando o padre, os declarou marido e mulher e disse ao noivo que podia beijar a noiva, o beijo foi tão intenso, que todos os presentes aplaudiram. O copo-de-água, no refeitório do orfanato, totalmente engalanado, a alegria das crianças, tudo contribuiu para um dia excecional que ela não esqueceria nem que vivesse várias vidas. Por fim, a emocionada despedida da Irmã Madalena, que só voltaria a ver quando viessem de férias a Portugal e da sua nova família, que iria reencontrar na Toscana, quando voltassem da lua-de-mel, cujo destino ela ainda desconhecia, mas a julgar pelo que vivera até ao momento, seria a continuação de um belo sonho, disso não tinha dúvidas.



 Fim 

Elvira Carvalho

                                      INFORMANDO

Para quem me lê há pouco tempo, devo dizer que as minhas histórias quase todas partem de um assunto que não me agrada, e para o qual quero chamar a atenção, nesta por exemplo, o tema era os malefícios do jogo (lembro-me da minha avó contar uma história de um homem que perdeu a casa e a mulher numa mesa de jogo, nos anos trinta do século passado) e do branqueamento do dinheiro, de atividades ilícitas, através do jogo. À volta desses dois temas criei esta história. Noutras o tema foram a fome, a guerra e os mutilados por bombas em África, a guerra no Afeganistão, a traição entre casais, a inseminação através de esperma de um dador anónimo, a violência doméstica, e as suas consequências na vida adulta das crianças que a sofreram, os acidentes por alcoolismo, etc. 
 As exceções são a "Rosa", retrato de uma época entre 1945 e 1975, que tentei retratar o mais fiel possível, (assisti a muitas das situações lá descritas), bem como em "As Cores do Amor," uma história romanceada entre 1973/1975 onde se descreve o antes e depois do 25 de Abril e o despoletar da guerra em Luanda, que vivi nesse tempo. O "Casamento por Procuração", retrato de uma época entre 1960/1974  cheia destes casamentos, e onde se lembram as fugas de salto para França e as condições quase sub-humanas em que viviam os emigrantes portugueses nos Bidonville, e "Renascer," 1971/1974 todas elas parte da nossa história no século passado. 
Posto isto, resta-me acrescentar que desta vez exagerei no romantismo. Na verdade agi como a fada madrinha para Eva.
Afinal, dizem que quando a idade pesa mais do que nós, ( e eu já estou nessa fase) voltamos a ser crianças. E elas acreditam em fadas.
Agradeço a vossa compreensão.


A nova história tem apenas um capítulo pronto e eu não gosto de fazer publicações antes de entrar na reta final. Por isso e como alguns me pediram "À Média Luz", escrita na mesma época de Dívida de Jogo" será essa que entra para a semana.


2.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXII





Entraram no hotel de mãos dadas, e André dirigiu-se imediatamente para os sofás da sala de recepção, onde se encontravam algumas pessoas que se levantaram com a sua chegada.
- Eva, apresento-te a minha família. Mãe, pai, irmã e sobrinhas. O resto chega no próximo fim-de-semana, a tempo para o casamento. Família, esta é Eva a minha noiva.
Viu-se submergida num mar de abraços e beijos. Toda a família, a acarinhando como se fosse parte integrante dela. A ela que nunca soubera o que era ter família. Não conseguiu conter as lágrimas.
- Então querida, o tempo é de risos, não de lágrimas - disse Sofia a mãe de André.
- Estou espantada. O André não me disse nada. Pensei que íamos jantar sozinhos!
- Não sabia se me ias perdoar. Trouxe a cavalaria, para te convencer, se eu não conseguisse – disse rindo.
- A julgar pelo que vemos, foste convincente, - disse a irmã, provocando o riso geral.
- É melhor irmos para a sala, ou ficamos sem jantar, - lembrou o pai. 
Eva, nunca iria esquecer, o jantar maravilhoso, e a simpatia de toda a família. A determinada altura, Giovanna, a futura cunhada, perguntou:
-Já pensaram onde vão fazer o casamento?
- Eva confiou em mim, e eu quero que seja um dia de sonho para ela. Conto convosco para tratarem das roupas e adereços. Do resto cuido eu. E o papá, se me quiser ajudar.
- Ficaria zangado se me excluísses.
- Então amanhã vamos às compras, - animou-se Isabella.
- A Eva está empregada. Tem que ir à clínica para apresentar a demissão. Depois podem começar.
- Não é tão simples assim. Tenho que dar um mês à empresa para arranjar substituta, - disse Eva
- Um mês? Nem penses nisso! Se for necessário, pagas a indemnização à empresa.
Depois de conversar com ela, André escolheu o momento do regresso a casa, perto da meia-noite, para anunciar à família a gravidez da noiva. E a alegria foi geral.



1.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXI


- Ainda não me respondeste.
- Sim?  É que quando me beijas, esqueço-me até do meu nome.
- Casas comigo?
- Sim.
- Quando?
- Quando quiseres.
- Amanhã?
Riu-se.
- Não se faz um casamento de um dia para o outro.
- Dez dias, "cara".
-É muito pouco.
- Não me subestimes. Deixas-me tratar de tudo. E garanto-te que casamos em dez dias.
 - Quero ver isso.
-Combinado. Dentro de dez dias.
   Ele olhou o relógio.
 - Vai mudar de roupa. Escolhe uma roupa bonita. Vamos jantar fora. Não te demores, ou ficamos sem jantar.
- Não me apetecia sair. Podíamos jantar em casa.
- Não se faz um jantar de noivado em casa. Vai, os convidados esperam-nos.
Apressou-se a fazer o que ele pedia. Convidados? Que convidados? Escolheu um vestido-túnica de lã preto, bem curto, e umas meias opacas da mesma cor. Completou o conjunto com botins de salto e um casaco cor de tijolo. Escovou o cabelo, pegou na bolsa, e considerou-se pronta.
Sentiu-se recompensada com o olhar de admiração com que ele a brindou.
- Estás linda. Vamos, antes que acabe por desistir do jantar. – Disse ajudando-a a vestir o casaco.
Na rua, ela entregou-lhe as chaves do carro e ele abriu-lhe a porta para ela entrar. Depois deu a volta ao carro, sentou-se ao volante mas em vez de por o motor a trabalhar, meteu a mão no bolso, e tirou uma pequena caixa.
- Tinha-me esquecido. Uma noiva não pode ir para o seu jantar sem anel.
Ela abriu a pequena caixa e retirou o anel  mais bonito que alguma vez tinha visto. Abraçou-o emocionada, sem conter as lágrimas.
- Vá lá "amore mio", se não paras de chorar, os convidados vão pensar que te vais casar obrigada.
E para esconder a sua própria emoção, pôs o motor a trabalhar e arrancou.
- Há uma coisa muito importante de que não falamos. Onde vamos morar? Eu gostaria de viver em Itália. Eu e o meu irmão temos a maior vinha, da Toscana,  perto de Greve in Chianti, cidade onde mora a minha família. Agora que deixei a polícia, é lógico que me dedique  a gerir a minha parte na vinha e liberte um pouco o meu irmão. Teríamos que viver com os meus pais, enquanto procuramos comprar a nossa própria casa. Pensas que podes viver lá?
-Poderei viver até no Polo Norte, se tu lá estiveres, amor. 
Parou o carro junto ao melhor hotel da cidade. Deu-me um beijo rápido e disse sorrindo:
-Diz-me isso, quando chegarmos a casa. Para que possa agradecer-te  de forma mais conveniente.



Nota:
Como os leitores antigos sabem, esta história é uma reedição, e na época em que a escrevi a Itália não estava como hoje a ser assolada por este vírus.

Aproveito para responder a algumas perguntas que me fizeram nos comentários de ontem.
1ª Qual será a nova profissão do André, a resposta está neste episódio.
2º Mas ele era ou não jogador e ganhou ou não a casa ao marido dela.
Claro que ele era jogador. Não poderia levar meses de investigação em nenhum casino apenas como mirone. Levantaria suspeitas. E não ele nunca jogou com o marido dela, a explicação foi dada num episódio que talvez não tenham lido. O marido dela andou desesperado pelas mesas fazendo a oferta a troco de uma quantia para continuar a jogar. André deu-lhe essa quantia, e ele voltou a perder.

31.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XX






Vim para Portugal, porque havia informações de que podiam estar a atuar aqui, alguns desses criminosos. O meu trabalho, era identificá-los e denunciá-los à polícia para que fossem presos. Porém quando o meu trabalho foi feito aqui, recebi ordens para avisar a polícia de que devia mantê-los sob discreta vigilância, mas não os podiam prender, pois os cabecilhas estariam em Londres. Se estes fossem presos, os outros deixariam de atuar durante uns tempos, ou iriam para algum casino menos conhecido em algum país noutro continente, o que inutilizaria meses de investigação. Recebi ordens para viajar com urgência para Londres, verificar se a notícia era real, e identificá-los a fim da detenção se fazer em simultâneo nos dois países. Levei três meses para o conseguir. Temos ordens rigorosas de que absolutamente ninguém pode saber a que nos dedicamos. A minha própria família, nunca soube qual era minha verdadeira profissão e nem queiras saber os sermões que me davam quando os visitava. 
- Mas como é que se descobrem esses criminosos?
- Precisamos observar todos os jogadores que perdem grandes quantias, e os que ganham grandes quantias. Temos que descartar os que perdem e ganham em simultâneo. Esses normalmente, são jogadores profissionais, que jogam pelo prazer de o fazer, e não têm interesse. Também descartamos os viciados como o teu marido.  Agora os que perdem todos os dias grandes importâncias sem preocupações, e nunca ganham, são suspeitos, a investigar, especialmente se no mesmo casino, houver outros a ganhar todos os dias grandes quantias. É esse o esquema de lavagem de dinheiro. Só temos que provar, a ligação entre quem perde, e quem ganha.
Tomou-lhe o rosto nas mãos e beijou-a suavemente com carinho. Depois continuou
- Foi o meu último trabalho. Apresentei a minha demissão. Nunca mais me quero separar de ti. Foram três meses horríveis. Tive saudades do teu sorriso, dos teus beijos, do teu cheiro.
- Nós também tivemos saudades tuas, - disse ela pegando-lhe na mão, e pousando-a sobre o seu ventre.
Levantou-se de um salto.
- Queres dizer... que vamos ter um filho? Vou ser pai? – Perguntou redopiando com ela pela sala.
- Pára por favor! Pões-me tonta.
 - Casas comigo? - Perguntou beijando-a com toda a paixão contida naqueles meses de ausência. 

30.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIX



As semanas foram passando, uma após outra, mais de quinze, sem nada de relevante na vida de Eva,  a não ser os enjoos matinais que foram decrescendo de dia para dia até que acabaram por desaparecer. Os seus seios estavam  maiores e mais arredondados, a cintura um pouco mais larga, os olhos tinham um brilho diferente. Transformações normais, quando uma mulher está grávida. Novembro chegara ao fim, faltava menos de um mês para o Natal, havia a alegria e azáfama própria da quadra, mas ela sentia-se cada dia mais triste. No dia seguinte faria quatro meses, que André partira, e continuava sem notícias dele.  A sua única alegria, era pelo filho que trazia no ventre, e que já amava de todo o coração. Naquela tarde, pela primeira vez sentira o bebé mexer-se, e isso encheu o seu coração de alegria.
Ficou tão contente, que antes de chegar a casa, passou por uma loja de artigos de bebé, e comprou as primeiras roupinhas. Abriu a porta, e quase desmaiou de susto ao ver André na porta da cozinha.
- Hoje demoraste “cara mia” – disse tentando abraçá-la.
 Afastou-se furiosa.
- O que estás a fazer aqui? Como é que entraste?
- Pela porta. Esqueceste que tenho uma chave? Voltei Eva. Sei que deves estar zangada, mas agora já tudo acabou. Vim para me explicar.  
- Gostava que o tivesses feito antes de partires. Agora já não estou interessada.
 Empalideceu o rosto masculino? Ela diria que sim.
- Não estás a ser justa “amore mio” Se há coisa de que te dei provas, foi do meu amor.
- Pára de me falares em italiano. Sabes quanto tempo esperei por notícias tuas? Quase quatro meses. Dias em que esperei hora a hora, minuto a minuto, um telefonema, um postal, um “e-mail”, qualquer coisa, que me desse a certeza de que não tinha sido um brinquedo para ti. Noites em que não dormi, porque queria acreditar em ti e o desespero do teu silêncio não me deixava   - terminou num soluço.
Em duas passadas, André estava junto dela e abraçava-a com carinho.
- Eu sei que tens razão, Eva. Mas deixa que me explique. Por favor.
Tirou-lhe o saco da mão, que colocou em cima da mesa, despiu-lhe o casaco,  e empurrou-a suavemente para o sofá.
- Lembras-te que te disse no início, que tinha chegado a Portugal havia pouco tempo, e poderia em breve estar noutro país? Deverias pensar que era um aventureiro e que o fazia de moto próprio. A verdade é que tinha de o fazer por causa da minha profissão.
- A tua profissão? Jogador profissional? Grande profissão, - disse irónica.
- Jogador profissional sim, mas como disfarce. A verdade é que fui até há dois dias polícia. Mas não um polícia qualquer. Era  Agente Especial Internacional.
- Agente Especial? Como o James Bond? – perguntou incrédula, embora desejasse parecer irónica
Ele sorriu encantado com a ingenuidade dela.  
-Não querida, não ando por aí a saltar de aviões de arma na mão, a caçar espiões.
O meu trabalho era descobrir as quadrilhas ligadas aos cartéis da droga, ou da venda de armas, que fazem lavagem de dinheiro nos grandes casinos de todo o mundo.


27.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVIII



Três semanas se passaram.
 Eva,  perdeu o sorriso que ultimamente voltara a iluminar o seu rosto.  Saía de casa, para o trabalho e deste para casa. Ainda não tinha tido coragem de ir ao orfanato, e naquele sábado tinha que o fazer, pois a Irmã Madalena, telefonara-lhe na véspera preocupada com o seu desaparecimento. Ficaria decerto mais preocupada quando a visse. 
A jovem, perdera o apetite, emagrecera, e nos últimos dias, todas as manhãs tinha enjoos. Fez as contas, e verificou alarmada que o período já lhe devia ter aparecido há doze dias atrás. Doze dias de atraso, ela que era mais certa que um relógio suíço? Uma gravidez, era só o que lhe faltava agora, para agravar a sua situação. Foi à farmácia e comprou dois testes. Fez o primeiro e o resultado positivo repetiu-se no segundo. Como fora possível ter sido tão inconsciente? Como não se lembrara de que interrompera a tomada da pílula depois de ter ficado viúva? Logo ela que sempre se atormentara com o facto de não conhecer os pais, ia trazer ao mundo um filho sem pai. Sim porque apesar de tudo, nem por um momento pensou em abortar.
Embora sem vontade, obrigou-se a almoçar, pensando no pequeno ser que tinha no ventre. E depois do almoço, meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Estava tão necessitada de colo.
A Irmã Madalena, percebeu isso mesmo, mal a viu. Talvez por isso o abraço com que a recebeu foi mais carinhoso que nunca. Depois no seu gabinete, esperou paciente, que a jovem desabafasse.
- E quando cheguei para almoçar, tinha desaparecido, deixando-me esta carta e os documentos de doação da casa, - terminou ela estendendo à freira a missiva que André lhe deixara.
A freira, leu-a em silêncio e devolveu-lha.
- Isso foi há três semanas, e desde aí, nem uma palavra. Que lhe parece Irmã?
- Sinceramente não sei que te diga, Eva. Ao contrário do que aconteceu quando me apresentaste Alfredo, eu gostei do André quando o conheci. Senti que era de confiança, e descansei pensando que não faria nada que te magoasse. O que fez, devolvendo-te a casa, não é de uma pessoa sem escrúpulos. Na carta diz claramente que te ama. Mas quem ama confia, não abandona sem uma explicação. É nestas alturas que eu gostava de ter uma bola de cristal, que me permitisse ver o futuro. Confia em Deus filha. ELE fará o que é melhor para ti. Se te serve de consolo,  pensa no que podia ter acontecido com a atitude maluca do teu marido. Podias ter caído nas mãos de um crápula, ficares sem a casa, teres desaparecido num qualquer antro pecaminoso. E com a Graça de Deus, nada de grave aconteceu. És jovem, tens a tua casa, e o teu emprego, és livre...
- O pior Irmã, - interrompeu-a a jovem soluçando -  é que… estou grávida.
- Valha-nos Deus! - disse a freira abrindo os braços, onde a jovem se refugiou. 



26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

25.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVI





Não saíram de casa nesse domingo. André sabia como levar uma mulher à loucura, e Eva procurava retribuir-lhe na mesma medida. Apesar de não ter grande experiência, era muito intuitiva. Alfredo, nunca fora um bom amante, sabia-o agora. Centrava-se no seu próprio prazer, e não se preocupava com a companheira. Com André era tudo tão diferente, tão intimo, tão partilhado, que era muito mais do que uma relação sexual. Era um amplexo de almas.
 Fizeram amor no quarto, na sala, no chuveiro. Fizeram as refeições entre beijos, sorrisos cúmplices, e por fim adormeceram abraçados no quarto dele.
Na manhã seguinte, ela levantou-se e foi para o seu quarto, tomar banho, e vestir-se para ir para o trabalho. Quando chegou à cozinha, André acabava de pôr as torradas e o sumo de laranja na mesa. Tomaram juntos, o pequeno-almoço e quando ela se preparava para sair, ele segurou-lhe o rosto entre as mãos e sussurrou-lhe emocionado:
-“Ti amo, cara ” Aconteça o que acontecer, nunca te esqueças disso.
Depois sem desviar o olhar dos olhos femininos, abraçou-a apertando-a contra o peito e pediu:
- Diz-mo. Diz-mo de novo, antes de saíres. Preciso de o ouvir.
Estava ansioso. Ela não entendia o que se passava, mas percebeu quanto era importante para ele, e disse-lho pondo em cada palavra todo o sentimento que lhe inundava o peito.
- Amo-te André. Amo-te de corpo e alma, como nunca amei ninguém.
Em resposta André beijou-a como se não houvesse amanhã e ela saiu para o trabalho, com uma esquisita sensação de perda e um aperto no peito, que não sabia explicar.
Mais tarde, na clínica, pensava em tudo o que vivera naquele domingo. Tinha sido um dia de sonho. André era um amante excecional. Com ele aprendeu, que não havia carícias proibidas, nem sentimentos de vergonha, entre duas pessoas que se amam. E adorava o jeito dele, de misturar palavras em italiano e português quando se emocionava.  
Deveria estar feliz. Mas a verdade é que não estava. Lembrava-se que dias antes, André parecia fugir dela. Porquê? Se a amava, como dissera e lhe demonstrara, porque fugia dela? E depois, a cena dessa manhã, fora muito esquisita. Era como se estivesse a despedir-se dela. Esperou ansiosa pela hora do almoço. Tinha tantas perguntas para lhe fazer.



Acabei de saber que o meu amigo Esteban Lob partiu no Domingo rumo ao reino celestial. Luz e Paz para si meu amigo. 
Estou muito triste. 

24.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XV







Naquele domingo, Eva levantou-se cedo, mas não saiu de casa. Estava decidida a ter uma conversa séria, com André. Tentava entender as razões da mudança de comportamento dele, mas não encontrava nenhuma. Estava desesperada. Ela já tinha visto um filme semelhante com Alfredo, e sabia como tinha acabado. Toda a segurança que julgara sentir naqueles três meses de sonho, se evaporara.
Tomou banho, vestiu uns calções brancos, e um top azul-claro. Apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, e calçou umas sandálias sem salto.
Eram dez horas, quando ele apareceu na cozinha. Vestia calças de ganga pretas e um polo vermelho justo, que punha em evidência a sua impressionante figura.
- Bom dia. Não saíste hoje? - perguntou
-Pois, parece que não. Dava-te jeito que tivesse saído? Porquê, André? O que foi que aconteceu entre nós? Pensei que éramos amigos. Que podia confiar em ti. E de repente parece que recuei no tempo. Estou a viver o mesmo pesadelo. Interrogo-me a cada momento, se vou acabar de novo, numa mesa de jogo.
Crispou-se o rosto masculino.
- Não te atrevas a comparar-me com o teu falecido marido, - disse com raiva, dando dois passos e agarrando-a pelos ombros.
- Não? Então explica-me a diferença, - desafiou-o.-  Porque a sensação que eu tenho, é que estás a agir exatamente como ele.
Largou-a. Deixou cair os braços ao longo do corpo, e virou-lhe as costas.
- Não posso. Não agora. Tens que confiar em mim, – disse com voz rouca.
- Deus é testemunha que o desejo de todo o coração, - disse encostando o rosto às costas dele, e passando-lhe os braços à volta do peito. Sentiu o tremor do corpo masculino, o retesar dos músculos e teve a certeza de que não lhe era indiferente. Então porque fugia dela? Eram os dois livres e adultos. E ela desejava-o.
De súbito, ele voltou-se, apertou-a contra si e beijou-a. Um beijo intenso, urgente e sôfrego, como se quisesse arrebatar-lhe a própria alma. As mãos masculinas, inquietas, percorriam-lhe o corpo, em suaves e precisas carícias, que acordavam e faziam vibrar o corpo feminino.
-Quero fazer amor contigo, “cara mia” – sussurrou-lhe enquanto lhe mordiscava o lóbulo da orelha, uma mão apertando-a contra si, a outra acariciando-lhe a pele sob o top.
- Sim, André, sim – gemeu ansiosa.
Então pegou-lhe ao colo e levou-a para o seu quarto.



Informando: Tive uma consulta telefónica com a minha médica hoje, Segunda-feira por causa do que aconteceu na Sexta-feira. Ela está convencida que se tratou de uma vertigem provocada pelo não diretamente pela crise do refluxo tido durante a noite, mas pela má noite e falta de descanso que as dores me provocaram. 
Disse que o desequilíbrio, as coisas a andar à roda e o falta de força nas duas pernas, fazem crer tratar-se disso. Disse-me que ficaria preocupada, se a falta de força fosse só numa das pernas. De qualquer modo disse-me os sinais a que devia estar atenta, além de medir a Tensão Arterial diariamente, falta de força num dos lados, problemas de visão, náuseas, vómitos,  etc. Estou certa de que ela tem razão. 
Obrigado a todos pelo vosso cuidado.

23.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIV







Três meses depois, Eva estava irremediavelmente apaixonada por André. Naqueles três meses de convivência, ele mostrou-se sempre um companheiro fantástico. Juntos conheceram Sintra, com os seus majestosos monumentos, os seus românticos recantos, as tradicionais queijadas, os deliciosos travesseiros.
Tomaram banho na Praia das Maçãs, encantaram-se com a beleza das Azenhas do Mar, descobriram a histórica Ericeira; e Mafra, em cuja Tapada passearam, almoçaram e se deixaram enredar pela história de outros tempos.
Ainda em Mafra, visitaram o Convento que inspirou José Saramago, o Nobel da Literatura Portuguesa. Mas também do outro lado do Tejo, visitaram o Cristo-Rei, a bela Igreja  de Nossa Senhora do Bom Sucesso, a Casa da Cerca, onde ficaram duplamente encantados com o belo jardim botânico e com a maravilhosa vista para Lisboa, desceram ao Ginjal e almoçaram ali mesmo no restaurante Ponto Final, embalados pela suave melodia das águas do Tejo. 
Também foram até Palmela, a terra das vinhas, pelas quais André pareceu interessar-se vivamente, percorreram a rota dos Moinhos na Serra dos Louros,visitaram o Castelo.
Visitaram Sesimbra, e também Setúbal, onde se deliciaram com o choco frito, o Parque Natural da Serra da Arrábida, a bela praia do Portinho. Todos os fins-de-semana, desde aquele primeiro sábado, partiam à descoberta de uma localidade.
Nesse meio tempo, André fora com a jovem ao orfanato onde conheceu a Irmã Madalena, de que a jovem tanto falava. Curiosamente, ou talvez não, a empatia entre os dois foi evidente.
Se Eva se apaixonara pelo homem que se revelara, um companheiro inteligente e divertido, gentil e cavalheiro, o homem experiente que ele era, ficava doido, com aquela mulher-menina, que mostrava uma inocência difícil de igualar, pese o seu corpo, onde tudo estava no lugar certo, e o seu rosto cuja beleza era indesmentível. A tensão entre eles crescia. Os toques tão naturais no início, eram agora evitados a todo o custo, como se ambos soubessem que qualquer toque provocaria um fogo sem limite na paixão que os devorava.
André percebera já que a sua paixão era retribuída pela jovem. Porém ele tinha jurado que não lhe faria mal. E não era livre. Na próxima semana, partiria para Londres. Não sabia por quanto tempo.
Depois disso, sim, seria livre. Decidiu-o, quando percebeu o sentimento que ela lhe inspirava. Por isso evitava a todo o custo, qualquer situação que não conseguisse controlar.
E para isso, passou a sair de casa antes dela chegar do emprego, jantar fora, e só voltar para casa de madrugada, quando tinha a certeza, que Eva já dormia.


Espero que os meus amigos estejam todos bem. Eu tive um grande susto na Sexta feira. Quando me levantei, não me segurava nas pernas, não tinha equilíbrio e sentia a mão esquerda dormente. Só a mão dormente não me afligiria, pois tenho muitas vezes, as mãos e as pernas dormentes,  devido a problemas de coluna. Mas o resto sim. Pensei imediatamente no AVC, embora a Tensão Arterial estivesse normal. Felizmente esse estado durou apenas uma hora e o resto do dia bem como sábado e Domingo estive bem. Não sei se o que aconteceu foi por ter dormido em má posição, ou se pela crise de refluxo que tive na véspera, mas digo-vos que foi um susto do caraças.



20.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIII


Uma lágrima desceu silenciosa, até desaparecer no canto da sua boca. Ele estendeu a mão e apertou a dela.
- Que é lá isso? Uma mulher de coragem, não chora. Levanta a cabeça, sorri, e vai em frente. És ainda uma menina, Eva. Não pareces mais velha que a minha sobrinha Isabella, e ela só tem dezasseis anos. Tens uma vida pela frente. Queres um conselho? Tira essas alianças do dedo. Esquece que foste casada, e prepara-te para desfrutar o que a vida ainda tem para te dar.
- Falar é fácil. Mas seguir em frente quando tudo à nossa volta ruiu, é muito mais difícil. Como posso não me inquietar, se não sei o que me vai acontecer quando passarem os seis meses e deixar esta casa? Sem o amparo de pai ou mãe, o que me resta? Voltar para o orfanato?
- Daqui por seis meses, “cara mia”? Quem sabe o que pode acontecer até lá. Vive o dia-a-dia, desfruta o presente e esquece as angústias a longo prazo. Em seis meses pode acontecer um terramoto, cair um meteorito, acabar o mundo.  Olha, porque não vamos amanhã até à outra banda, talvez Setúbal, ou Sesimbra, almoçamos por lá, aproveitamos um pouco de praia, ou simplesmente passeamos pela Arrábida? Não trabalhas ao Sábado, pois não?
- Não. Mas queres mesmo sair comigo?
- Porque não havia de querer? Não sou homem de fazer uma coisa quando quero outra. Ou, se preferires, podemos ficar por aqui, ir até Sintra, ou Ericeira. Dizem que é muito bonito, e provavelmente será melhor por causa do trânsito na ponte. Não sei, tu decides. Gostava de conhecer um pouco dos arredores de Lisboa. Até agora sempre que estive em Portugal, foi no norte, junto da família da minha mãe.
Sentia-se tentada. Afinal tirando a viagem em lua-de-mel, à Madeira, o que é que ela conhecia do país?
- Está bem. Deixemos a Arrábida e Sesimbra para outra altura. Prefiro ir a Sintra. Há muito tempo, que ando a pensar ir até lá.
Começou a passar a loiça por água e a metê-la na máquina. Ele levantou-se.
- Bom, só falta combinar a hora. Dez horas, é tarde?
- Por mim, qualquer hora é boa.
- Dez horas, então.
E saiu deixando-a só. Meia hora mais tarde saía de casa, despedindo-se com um simples até amanhã, deixando a jovem cada vez mais perplexa. Devia haver ali qualquer coisa que lhe escapava. Aquele homem, era demasiado bom para ser real. E ela já passara da idade em que acreditava no Pai Natal.


E o calendário assinala hoje o dia  da Felicidade. É uma ironia que o dia da felicidade, seja assinalado,  quando a doença grassa e mata por todo o lado.
E como hoje começa a Primavera, O meu desejo é que ela renove não só a natureza, mas também a própria vida, acabando com o maldito vírus.  


19.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII



A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha um "Spaghetti" como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga, terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos todos os anos, passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que eu ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, eu e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma  senhora, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. Consegues entender isto? É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?

  

E porque hoje é o dia do Pai, para todos os que o são, e por aqui passem, o meu desejo de que tenham um dia o melhor possível e que S. José os proteja.

18.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XI



- Meu Deus, filha. E vais viver com um desconhecido? É muito perigoso.
- Não vou, Irmã. Já estou a viver.
E Eva contou à irmã a conversa que tinha tido com André antes dele se mudar lá para casa, o juramento de que não lhe faria mal, e a maneira educada e correta como ele a tratara, depois que se mudara lá para casa.
- Sinto-me tentada a confiar nele, mas isso não impede que me sinta angustiada com o meu futuro. A casa era a minha segurança e agora sinto-me sem chão.
-Pelo que contas, não parece ser nenhum bandido, mas sabes como às vezes, as aparências enganam. Todavia, também sabes, que se precisares, tens aqui sempre uma cama e um prato de comida, não sabes?
Emocionada, Eva apenas acenou afirmativamente com a cabeça.
A Irmã, abraçou-a e acariciou-lhe a cabeça com ternura.
- Vou rezar por ti. Pedir à mãe do Céu que te proteja.
- Obrigada Irmã. Precisava desabafar. Agora já me sinto mais tranquila.
- Vem sempre que puderes. Fico preocupada contigo. Se puderes, faz com que esse homem te acompanhe, quando cá voltares. Quando se olha o nosso semelhante, olho no olho, dissipam-se dúvidas. Anda, vamos à cozinha. Tenho a certeza de que não almoçaste.
Eva almoçou no refeitório depois de cumprimentar a cozinheira, e continuando a conversa com a Irmã Madalena.
Meia hora mais tarde despediam-se ao portão. Eva estava mais tranquila. Precisamente o contrário da freira, que de imediato se dirigiu à capela para rezar pela sua protegida.
À tarde, Eva passou pelo supermercado para fazer algumas compras básicas. Tinha a dispensa praticamente vazia. Porém quando chegou a casa, ficou surpreendida ao encontrar André, na cozinha. Vestia umas calças de ganga justas, um polo azul, tinha posto o avental dela, que dada a sua estatura lhe ficava bem pequeno e lhe dava um ar de ator de filme cómico. E estava descalço.
- Que estás a fazer? – perguntou-lhe contendo a vontade de rir
- Não se vê logo? - respondeu-lhe com ar trocista.- O jantar.
- Tens por hábito cozinhares as tuas próprias refeições?
-Às vezes. Quando me dá saudades da comida da minha "nonna". Sabes que ninguém faz um prato de massa como ela? A propósito, espero que gostes de comida italiana. Estou a fazer para os dois.
-Quem é a "nonna"?
-Minha avó paterna. Não fiques aí parada, o jantar está quase pronto.
Eva poisou o saco com as compras sobre o balcão, virou costas e foi para o quarto. Tomou um duche rápido, vestiu um macacão de algodão florido, e passou a escova no cabelo, lembrando da cena que acabara de ver na cozinha e perguntando-se se aquele homem existia mesmo, ou se tudo não passava de uma ilusão da sua imaginação delirante.





Nota: Deixei de me preocupar com a ida ao Santa Maria no dia 19. Telefonaram-me ontem a cancelar a consulta. Espero que façam o mesmo para a semana, já que tenho outra marcada para dia 25. O meu olho não está vermelho nem inchado nem dói. E continuo a fazer as quatro qualidades de gotas e a pomada. O edema deve levar +ou- dois meses até desaparecer, e os pontos do transplante não deverão ser tirados antes de três meses. 

17.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE X





Apesar de todas as preocupações, não só conseguiu dormir, como só acordou, quase às oito da manhã. Tomou banho, vestiu-se, arrumou o quarto, e foi para a cozinha, onde fez um sumo de laranja e umas torradas. Contrariamente ao habitual, não ligou o rádio para não acordar o homem que devia estar a dormir no quarto de hóspedes.
Saiu de casa às nove horas. 
Habitualmente ia a pé para o emprego, a clínica não ficava longe de casa, mas como tinha decidido ir ao orfanato ver a Irmã Madalena, na hora do almoço, decidiu levar o carro.
O trabalho na clínica não era fácil de suportar naqueles dias. As pessoas conheciam-na, sabiam do suicídio do marido. Queriam mostrar-lhe que estavam solidárias com a sua dor. Não faziam por mal, mas quando mais falavam, mais a faziam recordar o momento difícil que estava a passar.
Quando a clínica fechou a porta para o almoço, ela meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Comeria alguma coisa depois, se tivesse tempo.
A Irmã Madalena, supervisionava um grupo de crianças, que brincavam no pátio. Abraçou-a com carinho.
-Que bom que vieste, Eva. Tenho estado tão preocupada contigo. Como estás filha?
- Como Deus quer, Irmã. Preciso muito de falar consigo. Não tem ninguém para cuidar dos meninos?
- Claro que sim, filha. Podes ir chamar a Irmã Maria? Deve estar na biblioteca.
Eva encontrou-a, no corredor, antes mesmo de chegar à biblioteca. Transmitiu-lhe o recado e seguiram as duas para o pátio. Depois, a Irmã Madalena levou-a até ao seu gabinete, onde Eva lhe contou tudo o que tinha acontecido depois do último encontro que tiveram no funeral de Alfredo. Por fim estendeu-lhe a carta que o advogado lhe entregara. A Irmã estava espantada. Abriu os braços e a jovem refugiou-se neles.
- Pobre menina. Como deves estar a sofrer! Tu sabes que não me agradou o teu casamento com o Alfredo. Havia qualquer coisa nele que não me agradava. Mas tu estavas tão feliz, que pensei que me tinha enganado. 
-E fui feliz durante uns meses, Irmã. Depois o comportamento dele alterou-se. Passou a sair quase todas as noites, chegava tarde a casa. Às vezes vinha eufórico, mas a maioria das vezes, vinha aborrecido. Perguntava-lhe se o podia ajudar mas ele não se abria. E o dinheiro desaparecia. Ultimamente era com o meu ordenado que governava a casa.
Pensei que ele tinha uma amante. Quis falar com ele, obrigá-lo a confessar. Deixou-me a falar sozinha e foi atirar-se daquele terraço. Nunca imaginei que fosse jogo, muito menos que fosse capaz de jogar a casa e a própria mulher.

16.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX



Tinham passado à sala, onde, em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Tremo só de pensar o que te podia acontecer se tivesses caído em algumas mãos que conheço. Agora, se me dás licença, vou-me vestir e sair. Tens outras chaves, além das tuas, que me emprestes?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua auto estima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
A clínica onde trabalhava, fechava duas horas para almoço. Habitualmente, ela vinha almoçar a casa, já que a clínica ficava perto e sempre aproveitava parte do tempo para adiantar as coisas para o jantar. Nessa noite decidiu que não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-à? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.