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10.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XVII

 


-Tudo bem, doutor, a dona Angelina e o senhor Anselmo, já aí estão, mas como só acabam os tratamentos hoje eu vou dizer-lhes para irem primeiro fazê-los, e têm a consulta no fim.

-Obrigado. Vamos, Anabela?– perguntou afastando-se em direção ao seu gabinete.

Paula ergueu as sobrancelhas em sinal de interrogação e a jovem respondeu com um encolher de ombros, apressando-se a seguir o médico.

Já no gabinete, o médico despiu o casaco que pendurou num cabide, pegou na bata que lá estava pendurada e voltando-se para a jovem, disse:

-Sente-se por favor.

Anabela sentou-se sem saber bem, o que esperar daquele encontro, ou porque o velho médico queria tanto falar com ela. Sentou-se e aguardou que o clínico fizesse o mesmo.

- Decerto está curiosa para saber porque quero tanto falar consigo ao ponto de pensar em pedir à Paula que a chamasse, se o acaso não tivesse feito com que a encontrasse hoje.

-Na verdade…

-Já me explico. Mas antes devo dizer-lhe que tenho acompanhado o percurso da sua vida desde que saiu desta clínica para se formar, coisa que fez com brilhantismo. Conheço a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Também sei que tem estado de férias sem vencimento por causa de problemas familiares. Sei, porque ouvi por acaso o comentário da Paula com a Judite, que está a pensar candidatar-se a uma vaga de enfermagem em Londres, porque a família do seu falecido marido lhe tem feito a vida negra. É verdade?

-Sim. Eles culpam-me pelos disparates do filho, quando eu fui uma vítima dos vícios dele.

- Percebo que se queira afastar daqui por uns tempos embora pense que o que devia fazer era dirigir-se à polícia e pedir que eles fiquem proibidos de se aproximarem de si. Mas existe outra solução que lhe vou expor. O meu sobrinho Tiago, médico cirurgião, estava integrado numa ONG, em serviço na República Centro Africana, quando foi gravemente ferido. 

Esteve em coma durante mais de um mês, foi submetido a várias cirurgias e finalmente teve alta no final do mês passado. E embora os especialistas digam que a cirurgia à coluna correu bem e ele pode voltar a andar, o facto é que ele continua sem conseguir mexer as pernas.

 Na verdade, perdeu a vontade de viver, não só, por não poder movimentar as pernas, mas porque tem algumas outras cicatrizes no corpo e a pior de todas, na alma, pois a noiva com quem pretendia casar na próxima primavera rompeu com ele, quando o viu ferido.

Desde então ele isolou-se numa casa que herdou da madrinha, na Lousã, e não quer ver ninguém, nem sequer os pais que estão desesperados.  Já lhe arranjámos três enfermeiras, mas a que aguentou mais tempo, esteve três dias. Ora, eu pensei que se alguém é capaz de lidar com ele e fazer com que recupere a saúde, esse alguém é a Anabela. 


2.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XIV

 


Gonçalo regressou ao gabinete e continuou a atender os doentes, mas o rosto de Matilde não lhe saía da cabeça. Num breve intervalo sem doentes, abriu a carteira e tirou uma fotografia observando-a de sobrolho franzido. Era uma fotografia da sua irmã quando criança, mas qualquer um que a visse diria que era daquela menina de nome Matilde Caldeira, que se encontrava agora no bloco operatório. E aquela sensação esquisita que ele sentira dias antes quando aquela mulher chocara com ele, junto à escola da sobrinha, e se repetira horas antes ao vê-la junto da maca da filha?

Voltou a guardar a foto na carteira quando lhe trouxeram a inscrição de um novo doente.

Algumas horas mais tarde, terminado o turno entrou no automóvel, mas em vez de o pôr a trabalhar e se dirigir a casa, mais uma vez retirou a foto da irmã da carteira e ficou observando-a pensativo. Não conseguia tirar aquela menina do pensamento, aqueles olhos azuis tão brilhantes e luminosos. Ele nunca vira outros assim a não ser na sua mãe e irmã. Aliás aquela criança desconhecida, era mais parecida com a sua irmã, do que Sara, a filha dela. Será que a sua mãe tinha algum familiar que ele desconhecia a viver em Lisboa?

Saiu do carro e voltou ao hospital. Tinha de falar com aquela mulher. Talvez ela pensasse que ele tinha enlouquecido, mas conhecia-se. Sabia que não iria conseguir sossegar sem saber se a menina e a mãe tinham alguma ligação à sua família. Subiu ao terceiro andar, onde esperava encontrar as duas, pois tinha visto no computador que a laparoscopia tinha terminado duas horas antes e a mãe deveria estar com ela até às vinte, hora limite das visitas.

Ainda não sabia bem como iria abordar o assunto, talvez a mulher pensasse que ele estava louco, mas algo dentro de si lhe dizia que fosse em frente.

Entrou no quarto e com um rápido olhar, verificou que a paciente dormia, enquanto a mãe se encontrava sentada num cadeirão junto à janela. 

Leu rapidamente as anotações na papeleta aos pés da cama, vendo pelo canto do olho como a mulher se punha de pé, mas não se aproximava. Teve a certeza que apesar de já não ter a bata nem o estetoscópio ela o reconhecera como o médico que mandara a filha para a cirurgia. Ficara muito nervosa.

-- Aconteceu alguma coisa com a minha filha, doutor? - perguntou com voz rouca. - Ela está bem, não está?

- Está, não se preocupe. Aliás não estou aqui como médico, o meu turno já terminou. Preciso de falar consigo de algo que é de vital importância para mim, mas este não é o local nem a hora. Queria apenas que me prometesse que podemos conversar, quando a sua filha tiver alta.

- Se não tem a ver com a saúde dela, não entendo o que possa ter a falar comigo, se mal nos conhecemos.

- Eu sei que parece loucura, e que estou a por em perigo o meu emprego e a minha carreira, caso a senhora decida participar de mim, ou me acuse de assédio, todavia juro-lhe que não lhe vou causar qualquer dano, nem quero molestá-la de forma alguma.

Helena estava aterrorizada. Inicialmente pensara que ele tivesse descoberto que Matilde era sua filha, mas logo afastou esse pensamento. Percebeu que ele não se lembrava dela, e sentiu raiva de si própria por todos os anos em que guardou as memórias daquele amor.

Ele caminhou até à janela. Apoiou as costas no parapeito e fitou-a. Ela aguentou-lhe o olhar e viu nele tristeza e dor. Surpreendeu-se.

- Desde que chocou comigo naquele dia em frente à escola, sinto-me confuso.  Não consigo deixar de pensar que de algum modo a senhora está ligada a mim, ou à minha família, mas não consigo recordar de que maneira. E hoje ao conhecer a sua filha, o meu coração disparou e a confusão aumentou. Não sei explicar, mas foi como se o coração soubesse algo, que a memória desconhece.

Sentindo que as pernas ameaçavam deixar de lhe sustentar o corpo, Helena sentou-se enquanto ele abria a carteira e retirava a foto da irmã. Estendeu-lha.

-Por favor, senhora. Veja, esta foto.

Com a mão a tremer Helena pegou na foto e olhou. A parecença com Matilde era assombrosa. Não fora as roupas e ela diria que de algum modo ele tinha fotografado a sua filha.

- É… sua filha? – perguntou quase sem voz.

- Não tenho filhos, sou solteiro. É uma foto antiga da minha irmã, mais ou menos com a idade da sua filha. Percebe a minha confusão, e porque preciso falar consigo? – perguntou Gonçalo quando ela lhe devolveu a foto.

Nesse momento Matilde gemeu e a mãe apressou-se a dirigir-se para a cabeceira de cama, dizendo.

- Por favor, vá-se embora!

Sem responder ele saiu do quarto. Ela debruçada sobre a cama da filha, sentiu um aperto no peito ao vê-lo sair com os ombros inclinados como se carregasse nas costas, o peso de uma grande dor.

 

23.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXII

 


-Boa tarde Olga.  Alguma novidade? – perguntou o empresário ao passar pela secretária da sua assistente.

- Comunicaram do armazém para avisar que já seguiu a encomenda do Survive II, para a Holanda. E o dr. Afonso diz que precisa falar contigo, por causa do contrato dos estagiários.  Mas diz-me, como correu a consulta da Teresa, está tudo bem com ela e os bebés.

- Vem, falamos no meu gabinete, - disse abrindo a porta.

Uma vez lá dentro, João despiu o casaco e pendurou-o num cabide, afrouxou e tirou a gravata, e pendurou-a também.

-Senta-te mulher, - disse ao ver que Olga  continuava de pé. - Estou cansado de te dizer, que quando estamos sós, não tens que aguardar ordem para te sentares.

Ela obedeceu e esperou que ele falasse.

A médica disse que está tudo bem. A Teresa, está com bom peso, e os bebés já estão formados. Até já vimos que um é menino. Os outros dois tinham o sexo escondido. Parece que daqui para a frente é só crescerem e desenvolverem os órgãos internos. Imaginas o que é um bebé que da cabeça aos pés, mede cinco centímetros?

- Mais pequeno que qualquer boneco. Os meus parabéns. E a gravidez continua a ser de risco?

-Sim, mas segundo a médica, parece que a partir de agora o risco de aborto diminuiu e embora a Teresa tenha que continuar com muito descanso não precisa passar o resto da gravidez de cama a não ser que surja qualquer problema. Pelo menos por agora pois também lhe disse que depois das vinte e quatro semanas é provável que volte a estar o tempo todo deitada, para tentar aguentar os bebés o máximo de tempo possível, pois se nascerem muito antes das trinta e seis semanas, provavelmente precisarão de incubadora. E sabes a novidade maior. Convenci a Teresa a casar comigo. Finalmente vou saber o que é pertencer a uma família, a minha.

- Que bom João.  Fico tão feliz por ti, que tenho vontade de abraçar-te.

- E o que esperas para o fazer? - retorquiu pondo-se de pé.

Ela também o fez e os dois abraçaram-se emocionados.

- Lembras-te do que te disse a primeira vez que me falaste da Teresa depois da primeira visita dela? - perguntou Olga com a voz embargada, enquanto se sentava de novo. 

-Sinceramente, não.

-Eu disse: "Deus os fez, Deus os juntou" Acredito nisso, sabes? E acredito que vão ser uma família feliz. E para quando é o casamento?

- Por tudo o que te disse, o mais breve possível. Espero que dentro de duas, três semanas no máximo. Amanhã vou começar a tratar de tudo, e espero que me ajudes, pois, receio esquecer-me de algo importante. Vai ser uma cerimónia íntima, com pouco mais que os padrinhos, lá em cima no átrio. Depois dos bebés nascerem, casamos pela igreja e fazemos então a festa que não é possível agora, dadas as circunstâncias. E, claro, que conto contigo para minha madrinha.

-E eu sinto-me honrada pelo convite. Parece-me que tens tudo mais ou menos delineado, por isso só tens que me dizer o que queres que eu faça.  A propósito, não me mostraste o anel de noivado.

- Meu Deus, o anel. Como é que me esqueci disso? Anda, veste o casaco e vamos à ourivesaria.

-Agora? Esqueceste o doutor Afonso?

- Olha, liga para o departamento jurídico e passa-me a chamada.

Minutos depois estava em contacto com o advogado.

- Boa tarde, Afonso. Que se passa com os estagiários?

- Estão a terminar o estágio. E dos três, dois são mesmo muito bons e gostava de continuar com eles, o problema é que só temos vaga para um.

- Traga-os amanhã ao meu gabinete às dez e resolvemos isso. Agora preciso sair.

25.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVII

                                                       



Cerca das onze horas, na segunda feira seguinte, Olga entrou no Gabinete de João, que se encontrava embrenhado no trabalho com o seu computador.

Levantou a cabeça e olhou-a arqueando uma sobrancelha.

- Precisas de algo? – perguntou

- Acaba de telefonar o advogado um tal David Varanda, que diz ser advogado. Quer que lhe marque uma entrevista contigo, mas em relação ao assunto, diz que é pessoal e confidencial. É o terceiro dia que telefona, a semana passada,  apresentou-se apenas como David Varanda, eu pensei que era alguém a querer um convite pessoal para a festa. Mas hoje diz-me ser advogado. Insiste em que tem que falar contigo, que é urgente, e que se trata de um assunto pessoal e confidencial.

-O que lhe disseste?

- Que tens a agenda completamente cheia, que ia falar contigo e ver o que podia fazer. Pedi-lhe para voltar a ligar ao fim do dia.

- Muito bem. Telefona para o gabinete jurídico, pergunta ao Afonso se conhece algum advogado com esse nome. E se não conhecer que investigue na Ordem, se ele existe.

- Pensas que pode ter mentido quanto à profissão?

- Sabes como são os jornalistas? Sabem que não recebo nenhum podem ter inventado uma profissão diferente, e um assunto confidencial, a fim de chegarem até mim.

-O que receias?

-Não sei. Não tenho quaisquer assuntos que possam ser tratados por advogados, fora do gabinete jurídico. O Afonso é o meu homem de confiança para todos os assuntos legais. Portanto só pode vir em representação de outro alguém e o assunto não terá nada a ver com a empresa. Mas não consigo descortinar nada.

- Virá da parte da Teresa Sobral?

-Não. A Teresa tem receio de que alguém descubra o que se passa, não quer saber de jornalistas e não teria lógica contratar um advogado, se não deseja que o nosso caso se resolva nos tribunais. 

-E da Glória? Como terminou a vossa relação.

-Com um cheque chorudo! Seria muito estúpida se o fosse gastar com um advogado, sabendo que não lhe tinha feito qualquer promessa. Não, o gato tem que estar noutro lugar. Bom, telefona ao Afonso, e quando tiveres a resposta, resolveremos o que fazer.

Olga saiu. Ele pensou em Teresa. Como estaria? Continuaria a passar mal?

No dia anterior fora a uma florista, comprara um ramo de rosas brancas, a que juntara um cartão, agradecendo o dia de sábado.

Duas horas depois, ela enviara uma mensagem de agradecimento. Ele teria gostado que tivesse telefonado, para poderem conversar um pouco, mas relevou. Sabia que se queria ter sucesso no que se propusera, não podia pressioná-la, teria que ir com calma para ganhar a sua confiança.

O regresso de Olga ao gabinete, desviou a sua atenção.

- O homem é mesmo advogado, o Afonso diz que já se cruzou com ele algumas vezes no tribunal. O que lhe digo quando ele voltar a ligar?

- Marca para amanhã às onze horas.

Olga consultou a agenda.

- A essa hora não dá. Tens uma reunião com o Gustavo Sequeira.

- Bom, é um cliente demasiado importante para desmarcar. E às quinze?

- Nada.

-Então marca para essa hora.

 

17.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VII





Quinze minutos mais tarde, Olga introduzia o advogado no gabinete e preparava-se para fechar a porta quando João disse:
- Entra e fecha a porta. Quero que oiças o que vou dizer ao Afonso.
- Queres que tome nota …
-Não, senta-te, - disse estendendo a mão ao advogado.
- Boa tarde. Como foi no tribunal?
- Como esperávamos. Condenado.
- Bom, não foi por isso que te chamei. Estás comigo praticamente há quase quinze anos, embora no começo, eu fosse apenas mais um cliente e trabalhasses por conta própria. Já vais perceber, - disse ao ver o advogado arquear uma sobrancelha.  
-Até chegarmos aqui, passamos por muita coisa, de que não vou falar porque decerto recordam bem. E recordarão com certeza, quando há onze anos me foi diagnosticado um cancro no testículo.
Os primeiros tratamentos não resultaram e o médico avisou-me que teria de partir para  outro muito mais agressivo. Disse-me que só não o tinha começado de início, porque  mais de 80% dos homens que o faziam ficavam estéreis. Ele tinha a certeza que com aquele tratamento, me curaria, todavia eu tinha que saber da sua agressividade, e que havia um alto risco de me tornar estéril, pelo que me aconselhou a procurar um centro de recolha e doação de esperma, e fazer uma colheita, para meu uso exclusivo no futuro. Deves recordar-te disso, Afonso, já que te pedi que elaborasses os documentos, que determinavam que aquela recolha não podia ser utilizada nem em doações, nem em experiências laboratoriais e que se destinava ao meu uso exclusivo. Esperava utilizá-lo quando me casasse. Bom, esta tarde, telefonaram-me do Centro Clínico onde reservei a colheita,  informando-me que houve um erro de registo, e que por lapso a minha recolha, foi considerada doação, e já utilizada. Como devem calcular fiquei furioso, tentei que me informassem do nome da recetora, mas afirmam que elas estão protegidas pelo segredo que a lei impõe e nada mais me podiam dizer.
- E tens absoluta necessidade dessa reserva para seres pai? Os testes que fizeste pós tratamento não te disseram que a tua fertilidade não foi afetada?  - perguntou Olga.
- Quando fiz os testes no fim do tratamento, o médico informou-me que não tinha ficado estéril, mas que a mobilidade dos espermatozoides tinha diminuído muito, o que podia tornar muito difícil uma gravidez. Entretanto passaram onze anos,  e, embora repita com frequência, exames de controle, por causa do cancro, testes de fertilidade não voltei a fazer e não sei se agora haverá alguma hipótese de fertilidade. Mas ainda que assim seja, não quero acordar todos os dias, a pensar que algures há um filho meu, que poderá estar em dificuldades e eu sem o poder ajudar.
-E o que vais fazer? – perguntou o advogado. - Podes processá-los, um erro desses é gravíssimo. Ganharás a causa, terás direito a uma indemnização e o centro será multado.
Mas isso não te dá de volta o teu material genético. Além disso será um escândalo, a imprensa vai esmiuçar o caso até à saciedade, a tua vida particular andará na praça pública. Não creio que isso seja bom para ti.
- Eu sei. E espero não ter de chegar a esse ponto, mas se necessário não hesitarei. Quero que vás até lá, e consigas informar-te de tudo, sobre essa mulher. Ameaça-os de uma ida para o tribunal, diz-lhes que estou disposto a lutar até conseguir fechar-lhes as portas, enfim tu és o advogado, sabes melhor que eu o que terás de fazer. Quero um documento escrito da informação que me deram por telefone. Delega no Paulo os assuntos que tenhas em mãos, e durante o tempo que estiveres a tratar deste assunto, qualquer coisa que precises, pede à Olga. Não quero que a tua assistente tenha conhecimento do caso. Pelo menos até ver se conseguimos resolver isto a bem, deve ficar entre nós os três.
- Sabes que existe uma lei que protege o anonimato de dadores e recetores ?
-Sei. Mas será que essa lei se aplica, quando o dador não o é? Estuda o caso, usa os métodos que achares convenientes, mas consegue o nome dessa mulher.
- E se o não conseguir? - perguntou o advogado
-Então partiremos para a denúncia, e para os tribunais e vou fazer tudo para lhes retirar a licença de exercício, e os obrigar a fechar as portas. Porém tenho esperança de que não chegaremos a isso. Há sempre alguma alma caridosa que a troco de uma boa maquia, se esquece dos seus princípios...
- E dá com a língua nos dentes como dizia a minha mãe, - completou Olga.

15.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE VI


Visivelmente irritado, João Teixeira, desligou a chamada. Levantou-se e foi até à janela, de onde observou a rua lá em baixo, onde as pessoas se cruzavam em passo acelerado, como formigas em carreiros diferentes.
Depois de uns momentos, voltou para a secretária. Alto, bem constituído, vestia um fato azul, cujo casaco repousava nas costas da cadeira, e camisa branca que acentuava a largura dos seus ombros. Sentou-se e passou os dedos pelos cabelos castanho-escuro, já salpicados por alguns fios brancos, afastando da testa uma madeixa rebelde. Parecia preocupado e irritado.
Carregou no botão que o ligava ao gabinete da sua assistente.
Quase no mesmo instante, ouviu-se uma batida na porta e uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, de cabelo curto e fato creme, entrou no gabinete com um bloco.
- Ainda não acabei o relatório que me pediste, - disse.
-Não foi por isso que te chamei. Liga para o departamento jurídico, e pergunta se o Afonso Cardoso está, e se estiver diz-lhe que estou à sua espera no meu gabinete.
- E se não estiver, pode ser outro advogado?
-Não.
-Pareces irritado. Aconteceu alguma coisa?
- Desculpa, agora não dá para falar nisso. Mais tarde te conto!
- Muito bem, vou ver se encontro o advogado. Não era hoje que ele tinha uma audiência, por causa dos tipos que fizeram aquelas cópias piratas?
- Tens razão. Então é provável que ainda esteja no tribunal. Envia-lhe uma mensagem para o telemóvel, caso ainda não tenha regressado.
- Precisas de mais alguma coisa?
- De momento não, obrigado.
Olga era a sua assistente. Mas era muito mais do que uma secretária, era o seu braço direito como soe dizer-se.  Conheceu-a quando tinha dezoito anos e a cabeça tão cheia de projetos, quanto de sonhos. Era sua vizinha e contrariamente ao seu pai, que levava a vida a insistir com ele, para ir trabalhar na sua oficina de mecânica, e a queixar-se do “madraço” do filho, que estava sempre agarrado ao computador e não queria fazer nada, Olga incentivava-o a aperfeiçoar a sua ideia, e ajudou-o a registar o seu jogo e a  comercializá-lo através de uma reputada distribuidora.  João tinha fé no jogo, mas nem em sonhos, pensou que o seu sucesso fosse tão retumbante, nem que lhe desse tanto dinheiro.
Assim que começou com a empresa, na altura num barracão alugado, convidou Olga para sua secretária. Nessa época, ela estava a trabalhar numa empresa de venda a retalho, mas aceitou imediatamente a sua proposta. Isso, tinha sido há quase dezasseis anos, e desde essa época muita coisa tinha acontecido na sua vida.
Tinha criado um império,  geria um negócio que movimentava muitos milhões, e empregava quase meio milhar de trabalhadores entre engenheiros eletrotécnicos e de computadores, engenheiros de controle, analistas de sistema, especialistas em jogos digitais e toda uma vasta gama de outros técnicos, que produziam não só peças e programas, como computadores e telemóveis, numa empresa que era, no seu género, a maior da Península.
 Ouviu-se um toque na porta e de seguida Olga entrou.
- Aqui tens o relatório que pediste. Telefonou a Rita Sampaio, da Academia Moderna, diz que estão com problemas no programa que lhe instalámos. Não conseguem entrar no stock das sucursais de Almada e Setúbal.  Mandei o Aníbal Guerreiro para lá. E já falei com o Afonso. A audiência terminou há momentos, ele está a caminho.
-Fá-lo entrar assim que chegue.

13.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE I


- Aqui tem senhor!
O homem levantou a cabeça, e olhou a mulher que na sua frente lhe estendia uma pasta. A sua secretária. Caramba, cada vez que olhava para ela, ficava a pensar, o que teria passado pela cabeça do gestor dos recursos humanos, para lhe enviar aquela … ele nem sabia bem como classificar a mulher que estava na sua frente.
- Obrigado. Pode deixar aí, se precisar de si, chamo.
A mulher deixou a pasta em cima da secretária e afastou-se em direção ao seu gabinete de trabalho. Ao chegar à porta, parou e disse.
- Recordo que tem uma reunião com o seu advogado para daqui a meia hora.
Abriu a porta e saiu.
O homem ficou por momentos a olhar a porta fechada. Com tanta mulher bonita, no mundo, porque haviam de lhe ter mandado aquela, como secretária?
No seu gabinete, Sandra retomou o trabalho. Tinha vinte e seis anos, o cabelo castanho arruivado, estava apanhado num coque, e vestia um fato saia e casaco cinzento, que seria considerado o último grito da moda… há mais de cinquenta anos.
No rosto redondo, e sem qualquer tipo de maquilhagem, pontificavam dois belíssimos olhos verdes, a única coisa que chamava logo a atenção nela, mas que talvez sabendo-o, ela mantinha quase sempre meio oculto, como se estivesse permanentemente preocupada com a biqueira dos seus sapatos. Parecia uma figura saída de algum quadro de museu.
Pelo menos era o que Gabriel, o seu atraente chefe pensava. Mas de uma coisa ele estava certo. Jamais tivera uma secretária tão eficiente… no trabalho. A anterior era um desastre como secretária. Parecia que todas as suas aptidões estavam voltadas para a cama.
O homem sorriu ao recordar-se de Lúcia. Deu-lhe um certo trabalho, separar-se dela. Era realmente muito boa na cama. Mas um homem não pode ser escravo dos seus apetites sexuais, e por muito que gostasse de mulheres, não tinha nenhuma vontade de se prender a nenhuma. Pelo menos, Sandra era uma excelente secretária, e com ela não corria riscos.




Bom dia amigos. Espero que estejam todos bem, e com fé de que havemos de vencer isto.  Abraço-vos virtualmente com o mesmo carinho que o faria pessoalmente se isso fosse possível.

10.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVII




Na manhã seguinte, pouco passava das nove horas, quando Alcides chegou a casa do Gil, onde Laura já o aguardava, pronta para irem à esquadra participar o desaparecimento do irmão.
Depois de o fazer, e tendo o advogado posto a hipótese de rapto,  foi-lhes notificado que se iria iniciar uma investigação, e o agente levou-os para outro gabinete, onde durante quase uma hora, um investigador fez com que respondessem  a inúmeras perguntas sobre os hábitos do desaparecido, seus negócios, familiares e amigos. Ao saber que o desaparecido tinha contratado segurança pessoal para acompanhar a filha e a ama, o investigador quis saber se essa decisão tinha sido tomada por terem havido ameaças de rapto, se o desaparecido tinha inimigos, e o advogado teve que informar que essa segurança se devia ao temor que Gil tinha, de que o violento ex-marido de Inês , tentasse alguma retaliação sobre a ama ou a bebé, e então foi-lhes pedido o nome completo do homem, bem como da ama.
Quando terminaram foi-lhes dito que deveriam manter-se contactáveis e disponíveis para quaisquer esclarecimentos adicionais que os investigadores achassem necessários. E que por sua vez, eles deveriam informar imediatamente, se houvesse algum contacto, ou se viessem a lembrar-se de algum facto que pudesse ter relevância para a investigação. O investigador informou-os também de que deveriam manter o desaparecimento em segredo, pois se realmente tivesse havido um rapto, e os raptores soubessem que a polícia já estava a investigar, podiam ficar nervosos e quem iria sofrer as consequências seria o próprio Gil.
- Resta-me ainda informá-los, - acrescentou por fim o agente - que todos os anos temos vários adultos, que por qualquer razão desaparecem, e quando os encontramos pedem-nos para informar que estão bem, mas não querem que se saibam onde estão.
-Tenho a certeza de que não é o caso do meu irmão – afirmou Laura convicta, - ele é muito apegado à filha bebé, que está prestes a fazer um ano, e mesmo quando em negócios viaja para o estrangeiro, está sempre a telefonar para casa e a fazer chamadas de vídeo para a ver.
Saíram do posto da polícia, não sem antes Laura ter assinado a participação, perto das onze horas.
Como tinham combinado na véspera, Alcides dirigiu-se em seguida ao banco, e Laura foi para a Fundação onde já a aguardavam alguns
doentes.
Durante duas horas dedicou-se inteiramente às consultas, quase tudo estados gripais, e felizmente nenhum muito grave. Como era quarta feira, era dia de dentista, de tarde o consultório estaria ocupado pelo seu colega Eduardo Mendes, pelo que depois do almoço, não voltaria à Fundação.
Pegou no telemóvel e telefonou ao irmão
- Estou, Marco?
- Sim. Há novidades?
- Não. Vocês almoçam no restaurante do costume?
- Sim, claro.
- Pede mesa para quatro. Precisamos falar. Estamos aí em dez minutos.



5.12.19

CONTOS DE NATAL - O MENSAGEIRO



-O Pai Natal desapareceu!O Pai Natal desapareceu!- alertou, Jeremias, o chefe dos duendes.
Todos os duendes ficaram muito assustados com a notícia.
Era véspera de Natal e os presentes estavam quase todos prontos para serem distribuídos, mas... faltava o Pai Natal!
- Que vamos fazer? - perguntou um duende.
-Temos que o procurar.
-Sim! - disse o chefe - Germano pega num trenó e vai, com o Rudolfo, ver se encontras o Pai Natal.
- Mas, já são 9 horas da noite. E se não o encontrar?
- Nesse caso tenho que usar o segredo.
Esperaram que o Germano e o Rudolfo voltassem com notícias.
- Não encontrei o Pai Natal - disse o Germano muito triste.
- Bom! Nesse caso tenho mesmo que usar o tal segredo! - concluiu o Jeremias.
O Pai Natal estava muito preocupado porque já era quase meia-noite. Também estava muito cansado e com muito frio e, estava amarrado a uma cadeira numa casa de madeira.
No canto da casa estava um adulto sentado e falava com ele:
- Pois é Pai Natal! Agora como é que vais fazer para distribuíres os teus presentes? Este ano não...
O Pai Natal olhou para ele. Estava de boca aberta, pronto para dizer a próxima palavra, mas imóvel. O Pai Natal sorriu, olhou para o relógio que estava em cima da mesa, fechou os olhos, contou até dez e voltou a olhar para o relógio. Percebeu o que tinha acontecido e esperou.
Uma luz apareceu e, como por magia, desamarrou-o
- Pai Natal! O que lhe aconteceu? - perguntou o chefe dos duendes.
- Vamos ao meu gabinete e eu conto-lhe tudo - murmurou o Pai Natal.
No gabinete o Pai Natal revelou-lhe que tinha sido raptado.
-Raptado!? Mas porquê?
-Foi alguém que não gosta do Natal porque não tem família.
-Coitada dessa pessoa! Tenho pena dela!
-Mas isso vai ficar resolvido.
- Como, Pai Natal?
- Trouxe-a para trabalhar connosco.
- Foi uma boa ideia. Pai Natal, tenho uma coisa para lhe dizer.
- Diz!
- O senhor estava desaparecido e eu usei aquela coisa que só deve ser usada em caso de emergência. Peço desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Fizeste bem! Eu percebi que a tinhas usado.
- Mas pode ficar descansado, Pai Natal. Eu usei-a, sozinho, no meu gabinete. Ninguém ficou a saber que temos pó mágico capaz de parar o tempo! Graças a isso ainda vamos a tempo.
- Pois, ninguém dará por nada. Mas há uma coisa que todos deviam saber.
- O quê, Pai Natal?
- Que sou um mensageiro do Menino Jesus! Foi ele que enviou uma estrela para me salvar! Eu apenas distribuo os seus presentes.  É a ele que todas as crianças devem agradecer!


DANIELA DO CARMO    in Chiado Editora " Natal em Palavras" (Colectânea de Contos de Natal) 

7.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVIII


No gabinete, Teresa deixou-se cair na cadeira sem forças.
O que acontecera não podia ter acontecido de jeito nenhum. Quisera provocá-lo, dar-lhe a entender que podia haver alguém na sua vida, fazer com que sofresse. E bastara o contacto da boca dele na sua mão, para que o cérebro deixasse de fazer o que lhe competia, o coração empreendesse uma louca corrida, e todo o seu corpo reagisse, numa tremedeira inoportuna.  Como podia fugir daqueles sentimentos?  Tinha a certeza que ele sentira aquilo que lhe provocara. Como não? Conhecia-a como ninguém. Estava perdida.
Esperou com ansiedade o fim da manhã, para deixar o trabalho.
Tinha que estar às três na escola do filho. Era a festa de Natal, Martim ia entrar na récita e não cabia em si de tanto entusiasmo.
Tinha-lhe pedido quase a chorar para o ir ver, e não queria causar-lhe uma decepção.
Passou-lhe pela cabeça uma ideia peregrina. Que faria Rui se soubesse que tinha um filho?
Será que se importaria? Quereria conhecer o menino? Assumiria o papel de pai? Ele nunca assumira a relação deles. Nunca lhe falara de si, dos seus sonhos, dos seus anseios. Nunca lhe falara da família, nunca lhe dissera quem eram ou onde moravam. Só se importava com ela, na cama. Aí convertia-se num amante excecional, sempre preocupado em levar a companheira à loucura. Mas nem isso fora suficiente para continuar a seu lado Por fim acabou a manhã de trabalho.
A festa na escola, foi muito emotiva. As crianças cantaram, dançaram, e recitarem pequenos poemas. Estavam no palco com naturalidade e alegria. Por último, recriaram a história do nascimento do Deus Menino.
No fim, todas estavam muito felizes e os pais orgulhosos do talento dos seus rebentos.
Finalmente despediram-se de Tiago e do filho, e saíram pois Teresa ainda queria fazer umas compras, já que faltavam poucos dias para o Natal.
No carro, o garoto não se conseguia calar com as peripécias da festa.
Era uma criança muito extrovertida, muito alegre, fazia amigos com facilidade, e era muito popular. Teresa agradecia a Deus por o filho ser como era.
"Pensa em mim", - dissera Rui naquela manhã. Como podia deixar de pensar nele, se Martim era fisicamente o seu retrato? - Interrogava-se enquanto passava a mão na cabeça do filho, numa terna carícia.


Amigos consegui hoje consulta por causa da dor no braço que me tem deixado louca.
A médica diz que lhe parece ser uma tendinite e mandou fazer 10 dias de anti-inflamatório Naproxene, um relaxante muscular,  Sirdalud, e gelo. e mandou fazer RX à cervical, ombro e braço. E ecografia  tecido moles, ombro e braço. 


6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.



                                               

24.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE VI




- Vens almoçar, Teresa?- perguntou Luísa espreitando à porta do seu gabinete.
- Se esperares dois minutos para acabar isto, vou. Não queres entrar?
- Não vale a pena. Vou indo para o refeitório. Espero lá por ti. – Disse fechando a porta.
Teresa acabou de imprimir o documento, procurou uma pasta e arquivou-o.  Pôs-se de pé. Era uma mulher muito bonita. Alta, esguia, sem ser demasiado magra, morena, de cabelo castanho doirado, que nesse momento tinha preso no alto da cabeça, num elegante carrapito. O rosto oval, os olhos amendoados, a boca pequena e carnuda, o ar sereno que ostentava, tudo contribuía para fazer dela uma mulher muito bonita. Vestia um camiseiro vermelho, e uma saia justa preta, que lhe moldava o corpo até aos joelhos, deixando à mostra um perfeito par de pernas. Completava o conjunto com uns sapatos pretos de salto alto que estilizavam ainda mais a sua figura.
Alisou a saia, e saiu do gabinete em direção ao refeitório, onde a amiga já a esperava.
Esta era também uma mulher bonita, embora junto de Teresa, a sua beleza ficasse um tanto ofuscada. Porém Luísa não se importava. Era a sua melhor amiga, a madrinha do seu filho, e sua confidente.
Eram amigas de longa data. Teresa tinha partilhado um quarto com a amiga, muitos anos atrás, quando estava na Faculdade, e Luísa já trabalhava na "Tudilar". Depois Teresa apaixonou-se e foi viver com o namorado, Luísa casou, pouco depois, mas sempre continuaram amigas. Anos mais tarde, teve a sorte de se empregar na mesma empresa, embora tivessem posições diferentes. Luísa era a secretária do chefe, Teresa a Gestora de Recursos Humanos.
- Sabes que vamos reunir esta tarde com o novo dono? – Perguntou Luísa, enquanto cortava uma porção do seu bife.
Teresa respondeu com outra pergunta:
-Então sempre é verdade que a empresa vai  ser vendida?
- Não tem outra hipótese. É vender ou declarar falência.
- E tu sabes quem são os novos donos?
-Não. Até agora, só conheço o advogado do homem.  Sei que se chama Mário qualquer coisa, que não lembro. Eu chamo-lhe o senhor Mistério.
- Porquê senhor Mistério?
- Porque nem o chefe parece saber muito sobre ele. Dizem que vive a maior parte do tempo no estrangeiro onde tem diversos negócios, embora o advogado diga que ele tem um escritório em Lisboa, mas parece que pouco pára por cá. Deve ser um velho excêntrico, que não sabe o que fazer ao dinheiro.
- Sabes se vai remodelar alguma coisa, prescindir de pessoal ou isso?
- Não. O advogado não deixou transparecer nada sobre as intenções do seu cliente. Deus queira que não seja daqueles que despedem toda a gente e metem pessoal novo.
-A que horas vêm?- Perguntou Teresa
Às dezassete. O advogado diz que ele quer conhecer todos os empregados ainda hoje, - retorquiu Luísa.
Tinham acabado a refeição e dirigiam-se para os seus gabinetes.



7.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLI



-Está lá fora o senhor Jorge Maldonado para falar consigo.
António levantou os olhos e olhou a sua secretária, tão surpreso como se ela lhe anunciasse que o Papa o queria ver.
-Disse-lhe que estava muito ocupado?
-Disse. Mas ele diz que não se vai embora sem falar consigo.
-Está bem. Faça-o entrar e deixe-nos sós.
-Bom dia- saudou Jorge ao entrar no gabinete.
- A que devo a honra da sua visita? – perguntou António sem se levantar, nem corresponder ao cumprimento.
Jorge Maldonado avançou até parar em frente da secretária, meteu a mão no bolso, retirou um papel, desdobrou-o e colocou-o bem na frente do empresário.
-Vim devolver isto. Deve ter ido por engano, pois não me pertence.
-A Paula não lhe disse, que era uma indemnização pelos danos causados?
- Claro que disse. Todavia o valor do resgate que pagaste pela hipoteca cobre os prejuízos.
-A “Casa Nova” está sem fundo de maneio, para se reerguer. E eu tinha prometido um empréstimo…
- A troco da minha filha casar contigo. Ela garantiu-me que não o vai fazer. E ainda que assim fosse, quem empresta uma tal quantia, sem documentos assinados, e garantia de reaver o empréstimo? Nem o mais altruísta dos homens, quanto mais tu, que apenas desejas vingar-te pelo mal que te fiz. Não, o que pretendias era humilhar-me, continuando assim a tua vingança. Mas deixa que te diga uma coisa. Nada do que tu faças, me causará tanto dano, quanto o remorso com que a minha consciência me tem atormentado ao longo destes anos.
Sem se conter, António soltou uma gargalhada.
-Remorsos? Ora, não me faça perder tempo, que não tenho disposição para anedotas. Para alguém ter remorsos precisa ter sentimentos e isso é coisa que nunca teve. Lembra-se do modo como nos tratava a mim e aos meus colegas de trabalho? Do abandono a que votava a sua filha? Alguma vez reparou na tristeza dela? Na solidão que sentia? Meu Deus era uma menina triste, sofrida, porque sentia que o pai não a amava. Mas o senhor não reparava em nada nem em ninguém. E o que fez comigo não tem perdão. Não esperou que a polícia investigasse o roubo. Foi logo acusando-me de ficar com o dinheiro, manchando a única coisa valiosa que eu tinha. Um nome honrado. Por isso não me venha falar de remorsos. Leve o maldito cheque, ou deixe-o ficar, mas desapareça. Não quero voltar a vê-lo.
Sem uma palavra, Jorge Maldonado, virou-lhe as costas, dirigiu-se à porta e abriu-a. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
-Custa a crer que te tivesses apaixonado por aquela miúda triste e desengonçada.
Não lhe deu tempo para responder. Saiu e fechou a porta deixando o empresário perplexo . “O homem é doido”, pensou. Só uma mente doentia podia pensar que ele, com dezanove anos se tinha apaixonado por uma menina de nove anos. Aquilo era mais uma ofensa à sua integridade moral. Ele, simplesmente tinha pena da solidão da menina. Era por pena que às vezes sentia vontade de lhe pegar ao colo e a acarinhar, tal como fazia com a sua irmã quando a sentia triste. Apaixonado por ela. “O homem é doido”, - repetiu em voz baixa. - Quem pensa ele que eu sou? Um tarado? 
Apaixonado estava desde que há cinco anos, a encontrara no banco, mas que importava isso, ela não acreditava nele.
Irritado pegou no cheque que Jorge deixara sobre a mesa, e rasgou-o em mil pedacinhos.



Atenção ao capítulo 40 que saiu ontem à noite.  E não esqueçam a informação que lá está.


17.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVII



- Boa tarde Irene. Por favor liga à Margarida Souto, e pergunta-lhe se ela pode ir jantar comigo esta noite. Preciso da sua ajuda para a festa do António Ferreira, - disse Paula mal entrou na sua empresa.
Sem esperar resposta da secretária dirigiu-se ao seu gabinete, ligou o computador e passou as fotos do jardim da casa em Sintra para o mesmo.
Estudava as imagens quando Irene a interrompeu.
- Tenho a Margarida na linha. Ela quer falar contigo.
- Obrigada. Passa a chamada, - disse.
- Guida? Boa tarde.
-Boa tarde, Paula. A Irene diz que precisas de mim com urgência. Onde é o incêndio?
- Em Sintra no fim do mês. Uma boda de estanho, que deve ser de sonho, mas o tempo é muito curto. Só para teres uma ideia, só hoje conheci o espaço e tenho que ter o plano pronto amanhã para que o cliente aprove ou não, porque depois de amanhã ele vai viajar. Se puderes vir jantar comigo esta noite, vemos as fotos, e trocamos ideias. Pode ser?
- O Gustavo está no Porto, pelo que não tenho nenhum programa combinado. Conta comigo. Queres que vá agora já para aí, ou encontra-mo-nos mais tarde em tua casa?
- Podes vir já? A sério? Isso seria o ideal.
-Ok. Dentro de meia hora o mais tardar estou aí.
- Obrigada. Fico à espera.
Desligou a chamada e voltou a estudar as fotos. Vinte e cinco minutos mais tarde, a sua secretária introduzia no gabinete a decoradora.
Margarida era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Possuía um rosto agradável, era de baixa estatura, e um corpo mais roliço do que os códigos da moda ditavam. O seu maior encanto era a simpatia que irradiava como uma auréola de toda a sua figura. Paula conhecera-a dez anos atrás, na Universidade, quando Margarida começara a namorar Gustavo, seu amigo e vizinho. A empatia entre as duas foi instantânea e em breve eram grandes amigas, apesar de não frequentarem o mesmo curso. Mais tarde quando a jovem casara com Gustavo, ela fora convidada para madrinha e desde aí os laços de amizade entre os três, estreitaram-se ainda mais.
Margarida fora sua confidente, quando se apaixonara por Adolfo com quem curiosamente a amiga nunca simpatizara. Costumava dizer que não vislumbrava sinceridade nos seus olhos. Quatro anos mais tarde, Paula viria a dar-lhe razão.
-Bom, aqui tens o bombeiro de serviço, - disse com um rasgado sorriso, depois de beijar a amiga.
-Vem ver estas fotos. São de um local onde tenho que realizar uma boda de estanho no final do mês.
- É uma bela casa. É de alguém que conheço?
- Talvez. Conheces o empresário António Ferreira?
- O “rei da Cozinha Portuguesa”?- perguntou a decoradora, que lançou um assobio de admiração perante o sinal de assentimento da amiga. - Mas o homem é casado? Nunca o vi acompanhado.
- A festa é para a irmã dele. Mas senta-te que conto-te tudo. Além da tua ajuda, preciso desabafar.

Esta história volta Segunda-feira. Uma Santa e Feliz Páscoa para todos