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11.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIX




- Mas isso é uma ótima noticia, – disse soltando-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Doente e quase no fim da vida, não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. Mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir, se ele quiser voltar é claro.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados, e o sinto agora. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria, ainda que eu lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca termos ido para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, mas porque te amo, e  de ti quero muito mais do que uma sessão de sexo. Quero o teu coração, a tua alma, toda aquela capacidade de amar que demonstraste em relação ao teu pai, e que fez com que me apaixonasse por ti. Em troca, prometo cumprir com amor e dedicação os votos matrimoniais até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo amor?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te embora, agora! Também desejo ser tua, mas não o vou conseguir, enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Duas semanas depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro  de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinham chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até essa noite, quando Gabriel se apresentou em sua casa, com um anel de noivado, informando-o do amor que sentia por Sandra, do seu desejo de casar o mais rápido possível, pedindo-lhe por isso a sua bênção para o casamento. 
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita tinta correu. Chegaram a escrever, que Gabriel se casava com a filha do homem que enviara injustamente para a prisão, a fim de evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
Com a bênção paterna, casaram algumas semanas depois.
A pedido da noiva, o casamento foi uma cerimonia simples e intima, tendo por testemunhas o seu pai, o inspetor Pedro e os padrinhos. 
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa ávida de mexericos, os brindava.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que desde aquela noite em que a vira dançar o tango, sonhara com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes do conhecido tango,  “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho


8.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Gabriel chegou nessa noite, e foi direto para casa dela. Estava cheio de saudades. Fizera todos os possíveis para a esquecer, durante aqueles dias, procurara divertir-se com outras mulheres, mas nenhuma conseguiu romper a armadura com que aquele novo sentimento o revestira. Tinha que reconhecer que estava irremediavelmente apaixonado pela sua secretária. Uma mulher admirável, com uma alma grandiosa, que por lealdade ao amor filial era capaz de tudo, até de se arriscar a ser presa. E ele queria essa capacidade de amar e de se dar, para ele. Mais do que querer. Necessitava-o com toda a sua alma. Resistira. Claro que resistira, nunca pensara em casamento, nunca sentira aquela necessidade de ter, e de se dar a uma determinada pessoa. Nos seus relacionamentos anteriores, nunca esteve nada em jogo, que não fosse o sexo, quanto mais prazeroso melhor. Com ela foi diferente desde o primeiro momento, e não porque não lhe despertasse a libido. Durante aqueles meses, tomara mais duches gelados do que em toda a sua vida. Mas sempre soube, que no dia em que se deitasse com ela, não se contentaria com menos do que o resto da sua vida. E era disso que ele tinha medo. Disso que fugira. Aqueles dias de ausência, acabaram com toda a sua resistência. Estava ansioso por chegar, por apertá-las nos braços e beijá-la até se cansar. Até se cansar? Tinha a certeza de que nunca se cansaria. Apanhou um táxi no aeroporto, e deu a morada dela. Ansioso por a ver, tocou a campainha, uma, duas, três vezes.
Sandra franqueou-lhe a passagem, surpresa com a mala que carregava. Ele entrou, largou a mala, e pegando-lhe num braço puxou-a para si, baixou a cabeça e beijou-a. Um leve toque na boca, como que um roçar de ave, que a fez suspirar e entreabrir os lábios, e logo ele a invadiu num beijo urgente e desesperado, que os deixou sem fôlego. Sandra apertava o seu corpo contra o dele, numa entrega que o enlouquecia. Finalmente afastou-a um pouco, sem deixar de a fitar, nem de a abraçar.
- Amo-te Sandra. Sabes isso, não sabes? – perguntou a voz enrouquecida pela paixão.
Ela confirmou com um gesto mudo, tentando esconder o rosto no peito masculino.
Gabriel levantou-lhe o queixo e perguntou preocupado com a sombra de tristeza, no rosto dela.
-Também me amas, mas…? 
-Não pode haver futuro para nós, enquanto o nome de meu pai, não for reabilitado. Não quero que os meus filhos saibam que o avô esteve preso, acusado de ter roubado a empresa do pai.
- Sandra, eu acredito na inocência dele. Mas não sei se conseguiremos prová-lo ao fim destes anos todos. Por favor, não condenes tu também o nosso amor.
- Talvez não seja tão difícil assim. O inspetor Pedro procurou-me hoje. Acredita que descobriu quem fez o desfalque, e pediu para arranjar um advogado e o por em contacto com ele.


7.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Mais um mês se passou, sem qualquer novidade digna de relevo na vida de Sandra. Continuava a ser uma excelente secretária, e a ver Gabriel quase todas as noites, num convívio que se ia a pouco-e-pouco tornando mais difícil, com o homem fugindo dos seus sentimentos e ela sofrendo em silêncio, numa espera feita de ansiedade e desespero. Continuava a ir ver o pai sempre que as visitas eram permitidas, e cada dia o achava mais desanimado. 
Gabriel  que viajara para o estrangeiro, já estava ausente há quatro dias, quando o inspetor se apresentou naquela tarde, no escritório, finalmente portador de uma boa notícia. Tinha conseguido a prova para reabrir o processo e libertar o pai de Sandra.
Reunira as provas precisas contra Fernando e podia agora provar sem qualquer dúvida que fora ele quem se apoderara do dinheiro e forjara as provas que haveriam de condenar o contabilista. O homem tinha o vício do jogo, mas era um jogador azarado. Perdera grandes somas de dinheiro, e estava a ser ameaçado de morte, pelo que o dinheiro do desfalque servira para pagar essas dívidas. O dinheiro mal entrara na sua conta, fora direcionado, para o pagamento das mesmas.
- Então e agora? – perguntou a jovem.
Agora vamos entregar ao juiz, o resultado desta investigação, e esperar que ele ordene a reabertura do processo e revogue a sentença que ditou a prisão do seu pai.
- E isso ainda vai levar muito tempo?
Algum. E há outra coisa. Eu não posso fazer isso, toda esta investigação, foi feita de modo particular, a pedido do Gabriel, de quem sou amigo desde criança. Isto tem que ser tratado por um advogado. Vocês têm algum?
- Não. Na verdade, na altura meu pai, foi defendido por um advogado nomeado oficialmente. O ano passado consultei um de renome, mas cobra muito caro. E eu só posso contar com o meu ordenado.
- Todavia vai ter que nomear um, para que possa tratar do caso e apresentar ao juiz as provas que inocentam o seu pai. Quando o tiver, ele que entre em contacto comigo e eu lhe entregarei todas as provas que consegui. Agora o mais importante, é que seu pai vai poder provar a sua inocência, sair em liberdade, e provavelmente até, ser indemnizado por danos morais. E o Gabriel, quando volta?
- Não sei. Penso que chegará esta noite, ou amanhã de manhã. Tem uma reunião agendada com uns clientes importantes para amanhã à tarde, e não me pediu para cancelá-la.
- Diga-lhe que me telefone logo que possível.


6.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e uma horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar naquele gabinete, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro-me que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Todavia para ter acesso à conta, ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura, pois não se pode acusar uma pessoa sem ter provas para manter a acusação. Só com provas consistentes, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que esse Fernando, teve acesso à senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha única, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice,  a secretária, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- E como vão conseguir isso, agora tanto tempo depois?
-Para nós seria impossível, mas não para um investigador da Judiciária, e o Pedro é dos melhores. Pode levar algum tempo, mas ele consegue, podes acreditar.
- Obrigado. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim, Sandra. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


5.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XV




Quase dois meses depois, pouco passava das dezassete horas, quando o inspetor ligou.
Sandra passou a chamada para Gabriel, e ficou ansiosa para saber se havia alguma novidade, mas não se atreveu a entrar no gabinete sem ser chamada. Minutos mais tarde, a luz na sua secretária acendeu-se e ela levantou-se e entrou no gabinete dele. Não perguntou nada, mas a interrogação estava patente nos seus olhos.
- Nada de concreto, mas parece que o Pedro detetou qualquer coisa numa das vídeo gravações, quer que eu veja e o esclareça. Combinei ir a sua casa, logo à noite. Queres ir?
- Não. Não trabalhava cá na altura, não sei como poderia ser útil. Precisas de alguma coisa?
- Não. Sabia que estavas ansiosa, por isso te chamei. Nada mais por agora.
Ela saiu. Estava quase na sua hora de saída, devia começar a arrumar as coisas, mas só pensava, no que seria, que o inspetor tinha encontrado. Algum dia, conseguiria provar a inocência do pai, e limpar o seu nome? Coitado do pai.  Estava cada dia mais abatido, cada dia mais desiludido com a justiça. Por isso ela preferiu não lhe contar nada, nem mesmo quando ele lhe disse que um inspetor o tinha visitado, e feito uma série de perguntas. Tinha medo de lhe criar ilusões que não se concretizando, só serviriam, para um maior sofrimento.
Por fim fechou o computador, arrumou as pastas, fechou gavetas, e pegando na mala, saiu.
Ainda precisava passar pelo supermercado, para fazer umas compras. Depois iria mergulhar na rotina de todos os dias. Desde que seu pai fora condenado, a vida de Sandra virou do avesso. Teve que abandonar o seu sonho de vir tornar-se profissional de dança, de entrar em competições, ganhando dinheiro para abrir a sua própria academia; e procurar emprego.  As visitas ao pai, o desejo de conseguir provar a sua inocência, o emprego na empresa onde o pai trabalhara, e por fim aquela apresentação na academia, que voltou a baralhar tudo, mostrando-lhe uma faceta do seu chefe, com a qual nunca sequer sonhara, mas que calou fundo na sua alma sofrida e a conquistou.
Acabara de arrumar a cozinha. Olhou o relógio. Dez horas. Será que ele vinha esta noite? E se viesse traria boas notícias? Como respondendo à sua pergunta a campainha fez-se ouvir e ela apressou-se a ir abrir a porta.






4.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. 
Parecia, porque não raras vezes, depois daquele dia, Gabriel visitava Sandra à noite. Como se houvesse prévia combinação, chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto a jovem ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora.  O que o levava a agir assim, nem ele próprio entendia. O que sabia é que às vezes na solidão da sua grande e luxuosa sala, sentia uma necessidade premente de conversar com ela, saudade do calor humano que sentia na modesta sala de Sandra. 
 Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que ele sentia necessidade de estar com uma mulher, que não fosse sua amante, e no entanto nunca houvera nada entre eles, nem sequer uma insinuação de ordem mais intima. Durante as horas de expediente, as suas relações, eram agora as de qualquer chefe, com a sua secretária. Educadas e profissionais. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia em casa dela, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar.  Todavia sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. E provavelmente ela não lhe iria perdoar nunca, e ele não arriscaria de modo algum, perder aquela sensação de bem estar consigo e com os outros, tão desconhecida até uns meses atrás. 
Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, despedia-se e regressava a casa.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Depois que teve a certeza de que ele não era culpado do desfalque que tinha jogado o seu pai, na prisão; e que estava sinceramente disposto a ajudá-la a descobrir a verdade, o seu coração solitário e carente não resistiu. Apaixonou-se como uma adolescente. Todavia não tinha ilusões, nem acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, acredita que Gabriel terá por ela um sentimento semelhante ao seu, embora talvez ele não o reconheça. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Por sua vez, ele sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de casamento. Por isso vivem assim, a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E entretanto passaram três semanas e o inspetor Pedro, ainda não dera sinal de vida.


Nota: devem notar que tenho estado mais ausente nos últimos dias. Tenho estado com ardores nos olhos e muito chorosa, pelo que estou no computador o mínimo possível. Felizmente a história é uma reposição, pois há quase uma semana que só consigo escrever alguns comentários e pouco mais.

30.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII





- Estou a ver. E porque desistiu do disfarce?
- O senhor Gabriel descobriu-me. Na academia de dança.
- À sim, essa parte ele já me contou. E então o que fez, além de ser a eficiente  secretária do Gabriel?
- Eu, - voltou a olhar o rosto de Gabriel, como que pedindo desculpa. – Revirei as gavetas do escritório, pesquisei as pastas, tentei até entrar no seu computador, mas não descobri a password.
- E…
- Nada, senhor.
- Sabe que me espanta a sua ingenuidade? Então pensa que se o Gabriel, tivesse feito o que pensou, ele deixaria as provas aqui à mão de semear, à espera que alguém as viesse procurar? E mais, sabe que com essa confissão, pode ser despedida e denunciada pelo que fez?
Sandra limitou-se a acenar com a cabeça.
-Por favor Pedro, - interrompeu Gabriel - conhecendo as suas razões, eu nunca faria isso! 
- Sei que não. Conheço - te há muitos anos. E conheço o cordeiro que se esconde, sob a pele de lobo. Só quero que a Sandra tenha noção do risco que correu, porque o que fez é crime.  Agora diz-me, já tinhas câmaras de vigilância na altura do desfalque?
- Já.
E tens todas as gravações guardadas, ou são apagadas ao fim de algum tempo?
-Creio que estejam todas guardadas, mas sinceramente não sei. Foi o meu sócio que tratou do contrato com a empresa de segurança, e eles é que tratam disso. Mas podemos já saber disso. É só chamar o segurança de serviço - disse pegando no telefone, e chamando-o.
- E quem mais podia ter acesso à conta da empresa, sem seres tu, e o teu sócio? - perguntou o inspetor.
- Naquela altura, a firma não funcionava como agora.  Inicialmente a sociedade era composta pelo António e pelo meu pai. Eu entrei pouco tempo antes do desfalque, quando morreu o meu pai, e herdei a sua parte. A firma estava antiquada, em muitas coisas, e a segurança informática, não era lá grande coisa. O contabilista e a secretária, tinham acesso à conta, tal como eu e o meu sócio.
- A secretária? Tua, ou do teu sócio? E o que foi feito dessa secretária?
-A Alice assessorava-nos aos dois. Era uma senhora de meia-idade, que estava na firma desde a sua fundação. Faleceu há dois anos de ataque cardíaco.
Bateram à porta e o segurança entrou.
- Boas-tardes, - saudou
 - Boa-tarde, Francisco. Gostaria de saber o que fazem vocês às cassetes de video vigilância, - perguntou Gabriel
- Estão todas arquivadas por ano e mês, lá no depósito. Desde o início até agora.
- Obrigado. Pode retirar-se.
O segurança saiu fechando a porta. Gabriel perguntou então ao inspetor:
- Pensas que pode estar lá qualquer coisa que escapou aos investigadores? Porque eles examinaram-nas.  
- Não sei. Mas pode acontecer, se a data do desvio não coincidir com a data em que vocês deram por isso. Diz-me uma coisa, tens confiança no teu ex-sócio?
- Absoluta.
- E com que frequência vocês verificavam o saldo da empresa?
- Bom, recordo que na altura, eu ainda estava a tentar inteirar-me do que acontecia por aqui. Preocupava-me mais com os projetos que meu pai tinha deixado a meio do que com as contas. Isso estava mais com o António e nessa altura ele também andava um bocado em baixo não só com a morte do meu pai de quem era amigo há anos, como com a própria saúde.
- Isso torna possível que o desfalque tenha ocorrido algum tempo antes de vocês darem por isso, - concluiu o inspetor ficando por momentos pensativo. Depois de alguns segundos em que o silêncio reinou no gabinete, retomou a palavra e disse olhando para a jovem:
- Não prometo inocentar o seu pai, mas posso prometer que vou fazer todos os possíveis para descobrir a verdade sobre o desfalque. Vou ter que analisar as cassetes da video vigilância, desde o dia em que foi detetado o desvio até três meses antes. Calculo que por muito em baixo que estivesse o teu sócio, não levaria mais de três meses sem verificar o saldo da conta. Espero que as tenhas todas amanhã à tarde, Gabriel. Passarei por aqui no fim do trabalho, a recolhê-las. Peço que mantenham segredo absoluto sobre as nossas intenções, e não quero que ninguém saiba que a Sandra é filha do antigo contabilista. Para todos os efeitos, tudo tem que continuar como até hoje. Entendido?
-Sim - disseram os dois em uníssono.
- Então creio que podemos ir. – voltou-se para Gabriel. – Não te esqueças de ter as cassetes separadas para eu levar amanhã à tarde. Sandra, tenho que ir visitar o seu pai. Ele está onde?
- Em Monsanto.
-Muito bem. Vamos?
E os três encaminharam-se para a saída, onde se despediram e partiram cada qual para seu lado.

Só para os que estão a ler a história pela primeira vez.
Parece evidente que o Gabriel não teve nada a ver com o desfalque.  Então quem vos parece que tenha sido? Alice? António, o ex-sócio de Gabriel? Outro empregado? Ou Sandra está completamente enganada em relação ao pai?

E amanhã é de novo um dia especial, pelo que esta história continua a 4 de Maio.


28.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XII






No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando a hora da reunião.
Gabriel, chegou um pouco antes da hora marcada, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Cinco minutos mais tarde chegou Sandra. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. O empresário ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana anterior. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel  apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fez. Parece que andou por aqui, vasculhando o escritório dele, tentando encontrar alguma prova para ilibar o seu pai. Isso quer dizer que está convencida que seu pai é mesmo inocente. Posso saber o que lhe dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim própria, senhor.
- Muito bem. Porém deve saber, que na maioria das vezes, as nossas certezas são falsas. Às vezes a pessoa tem tentações a que não consegue resistir.
- Não o meu pai. E se o senhor não acredita que ele está inocente, não vai ajudar-me em nada. O melhor é ir-me embora, - disse levantando-se.
- Por favor sente-se e acalme-se. O Gabriel pediu-me ajuda e eu vim. Isso significa que quero ajudar. Deve compreender que na minha profissão, somos desconfiados por natureza e não conheço o seu pai. Tudo o que lhe possa perguntar, será o mesmo que perguntaria em qualquer outro caso em que estivesse envolvido, na certeza de que procurarei acima de tudo a verdade. Nem por amizade ou mesmo laços familiares eu falsearia um resultado. Entendeu? 
-Sim. Peço desculpa!
-Não precisa. Sei que para si a situação é muito dolorosa. Voltando à nossa conversa. Que mais lhe disse o seu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse-me que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha roubado o dinheiro.
-E ele desconfiava de alguém em particular?
- Não.
- E a Sandra? Desconfiou de alguém?
Ela enrubesceu e olhou para Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, talvez estivesse magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- Sim. Quando descobri que o senhor Gabriel Santana, comprou a parte do seu sócio, poucos meses depois da condenação do meu pai, acreditei que ele poderia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte.
- E por isso conseguiu o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. A empresa onde trabalhara até pouco tempo antes, mudara a sede para o norte do país e eu não podia afastar-me de Lisboa, por causa das visitas ao meu pai e então despedi-me. Procurava emprego, quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- É muito bonita, Sandra. Esperava apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado? - perguntou o inspetor olhando para o amigo com estranheza. 
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


E porque amanhã é um dia de festa, não haverá esta história. Mas por favor não faltem. Estão todos convidados.


27.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XI




No dia seguinte, à noite. Sandra estava sentada no sofá, as pernas debaixo do corpo, coberto por um robe de seda azul-celeste. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, e olhava sem ver  a televisão, na qual passava um filme. Ouviu ao longe um som de campainha, mas absorta nos seus pensamentos, nem se apercebeu de que não era no filme, já que a TV estava sem som.
A campainha voltou a tocar, desta vez, mais insistente, e ela pôs-se de pé, e descalça dirigiu-se à porta. Abriu-a um pouco sem tirar a corrente, e arregalou os olhos de espanto ao ver Gabriel do outro lado. Voltou a fechar a porta, tirou a corrente e então abriu-a.
- Boa-noite – saudou ele.
- Boa-noite, - respondeu sem atinar com o motivo daquela visita
- Posso entrar? Preciso falar contigo.
Sem responder, ela afastou-se para o deixar passar, fechou a porta e dirigiu-se para a sala.
 - Desculpa, sei que é tarde, mas como disse preciso falar contigo.Liguei-te algumas vezes mas não atendeste, e temos de conversar.
Olhou-a da cabeça aos pés. Onde tinha ficado a mulher rebelde, bela e sensual que ele vira no dia anterior na pista de dança? A mulher que estava na sua frente,  parecia uma miúda perdida e sem proteção.
 Sentiu um desejo estranho de a abraçar, de lhe dar a proteção que ela precisava, mas não se atreveu sequer a estender a mão para lhe tocar. Cerrou os olhos, confuso. Que raio se estava a passar com ele?
- Deve estar no silêncio, não esperava ligações. Quer tomar alguma coisa? Não tenho bebidas alcoólicas, mas um café ou chá, posso fazer num minuto.
-Aceito um café, obrigado.
- Vou buscar.
Afastou-se em direção à cozinha. Ele recostou-se no sofá e cerrou os olhos. Sentia-se bem ali. A sala era pequena, mas confortável, e tinha um não sei quê de lar que lhe agradou. Minutos depois, ela voltou com uma bandeja onde fumegava uma chávena do aromático café, e um açucareiro. Sem usar o açúcar, ele agarrou na chávena.
- Não me acompanhas?
- Nunca bebo café à noite.
Decorreram uns minutos em silêncio. Depois ele perguntou:
- Foste ver o teu pai?
- Fui.
- E como estava?
- Como queria que estivesse? Cada dia mais desmoralizado, - disse sem evitar que uma lágrima lhe rolasse pela face.
- Olha, é por isso que vim. Falei com o Pedro, um amigo meu, que é investigador da Judiciária. Ele diz que oficialmente não pode fazer nada, houve uma investigação e uma acusação, o julgamento foi feito a sentença está a ser cumprida. Para reabrir o processo seria necessária uma nova prova, ou um indício muito forte de erro judiciário.
- Eu sei. Foi o que me disse o advogado.
- Mas o meu amigo, está disposto a ajudar-nos, embora não de forma oficial, sob uma condição.
Ela levantou para ele os seus belos olhos verdes, num olhar interrogativo, mas não fez perguntas.
- Ele está livre amanhã. Quer conhecer-te, falar contigo. Só depois decide se nos vai ajudar ou não. Penso que ele precisa ter a certeza de que tu estás certa da inocência do teu pai, não sei. Sei que foi a condição que impôs. Achas que nos podemos encontrar, com ele, por exemplo às dezasseis horas?
- Sim, claro que sim? Onde?
- Ainda não pensei. Ele sugeriu um local sossegado, onde pudéssemos falar à vontade.
- Aqui?
-Não, aqui não, - respondeu rapidamente sem nem mesmo pensar, porque lhe repugnava a ideia de levar outro homem para a casa dela.  Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vou pensar e telefono-te amanhã perto do meio-dia. Vai descansar. 
E saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a atordoada. Que se passaria com ele? Será que tinha mesmo acreditado na inocência do pai e ia ajudá-la?
Ou era uma manobra para afastar de si as suspeitas? Não sabia o que pensar mas uma coisa tinha ficado clara. Ele não iria despedi-la. E isso dava-lhe uma certa tranquilidade.


24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



23.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE IX





Abriu a porta e desviou-se para lhe dar passagem. Ela acendeu a luz, e ele olhou com curiosidade para o apartamento. Sandra encaminhou-se para a sala. Depositou a mala numa cadeira.
- Sente-se. Posso oferecer-lhe um café?
- Agora não, obrigado. Não estamos numa visita social. Estou à espera do que tenhas para me dizer.
- É complicado. O meu nome como sabe, é Sandra Martins Machado. O apelido Machado diz-lhe alguma coisa?
- Não. É um apelido vulgar. Porquê?
- Porque há  quase quatro anos, o seu contabilista Joaquim Machado, foi acusado e condenado por ter desfalcado a sua empresa em mais de meio milhão de euros.
- Sim. E o que é que isso tem a ver contigo?
- Joaquim Machado é o meu pai. Nunca fez qualquer desfalque e está preso. É inocente, e vocês acusaram-no, - disse retomando o choro
 Ele levantou-se. Começava a perceber a dor e a raiva da jovem, mas ainda não entendia porquê, e o que pretendia ao infiltrasse na empresa.
- Desculpa, não fomos nós que julgamos e condenamos o teu pai. Nós só demos parte do desfalque. O resto foi trabalho da polícia, e do tribunal.
- O meu pai está inocente. Era incapaz de roubar um cêntimo que fosse. E se houve desfalque alguém o fez. Não ele, que na cadeia,  morre um pouco todos os dias, não de remorsos mas de vergonha.
- E se houve? O que queres dizer com isso? Julgas que não houve desfalque algum? Que nós fizemos uma participação falsa à polícia? É isso que pensas?
- Não. Acredito que tenha havido o desvio dessa verba, de outra forma a polícia tê-lo-ia descoberto. Mas qualquer outro o podia fazer. Até mesmo um dos dois sócios.
- Estás doida? - perguntou incrédulo
- Será que estou? Porque é que o senhor comprou a parte do seu sócio, menos de um ano depois de meu pai ser preso?
- Boa! Agora entendi, - Gabriel quase gritou enraivecido de tal modo se sentia insultado. - Quer dizer que pensas que eu desfalquei a empresa, para obrigar o meu sócio a vender, a sua parte, e ficar com a totalidade da mesma? Era isso que procuravas, infiltrando-te como minha secretária, e vestida daquele jeito ridículo? Uma prova para me acusares?
Tinha-se levantado, e passeava pela sala como leão enjaulado. Estava verdadeiramente zangado. Mais do que isso. Estava furioso.
 Ela começava a pensar que se excedera.
- Desculpe, - balbuciou. - Mas o senhor pediu sinceridade. Por outro lado, estou cada dia mais desesperada, já não sei o que fazer, para provar a inocência do meu pai. Porque ele está inocente, posso apostar a minha vida nisso.
Ele parou. No meio da ira que o invadia, pensou vagamente que era extraordinária, a garra com que ela defendia o seu progenitor. E de súbito, ocorreu-lhe uma ideia peregrina.  Era uma confiança assim, que ele sempre procurara, e nunca encontrara em mulher alguma. E naquele momento decidiu que faria qualquer coisa, para que ela confiasse nele com a mesma fé que depositava no pai. 
-Suponho que não acreditarás se te disser que não tenho nada a ver com esse desvio, - disse irónico, tentando esconder quanto aquela situação o estava a afetar.


22.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos nem sentimentos, nas relações com o sexo oposto, vê-la a chorar,  desestabilizou o seu sistema emocional.  
Estava atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua eficiente mas insignificante secretária, era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão, seguida de um choro angustiante.
Sentia-se enganado, estava furioso e ao mesmo tempo desconcertado. Principalmente porque um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la, lutava contra a vontade que sentia de denunciá-la à polícia. 
Tirou do bolso das calças um lenço imaculadamente branco. 
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem estava. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro,  é apenas mais uma demonstração da tua arte de fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar.
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia para o resto da noite, mas não se preocupou em dar explicações e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento era impressionante. Não era possível que fosse fingimento. Ninguém conseguia fingir com tal arte, sem que a sua expressão corporal o denunciasse.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
- Não. Vim com uma colega.
- E não tens que a avisar?
- Quando terminamos a exibição, disse-lhe que estava muito cansada e ia chamar um táxi. Deve pensar que já estou em casa.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não! Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tenho qualquer interesse no que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão perdida e tão cansada!
- Chegamos - disse ele estacionando o carro. 
Virou-se para a olhar. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Pálida, os olhos vermelhos, o rosto borrado pela maquilhagem desfeita pelas lágrimas, era a expressão do desalento. Gabriel saiu do carro, deu a volta ao mesmo, abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

21.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VII


Sentaram-se. Ela voltou o rosto para a pista, para não ter de o olhar. Ele irritou-se. Inclinou-se para a frente e vociferou.
-Vais ou não falar, raios! Que diabo te passou pela cabeça para ires para o escritório, armada em camafeu? Para me ridicularizares?
- O regulamento da empresa, é omisso quanto a vestuário. Além disso fui contratada como secretária e sempre exerci exemplarmente a minha função.
- Olha para mim, Sandra. Quero entender o que se passa. Estás há seis meses como minha secretária. Sabes tudo o que se passa naquela empresa. E hoje descubro, por acaso, que me tens andado a enganar. Quem és tu? Uma espia comercial? Que diabo pretendias? Roubar algum dos meus projetos? E quem está por trás de ti?
-Espia comercial? O senhor não está bom da cabeça - disse nervosa.
Ele sorriu. Mais do que um sorriso parecia um esgar.
- Então é isso. Não negues, ficaste nervosa. Como é, queres falar agora, ou chamo a polícia e denuncio-te? - disse tirando o telemóvel, como se pretendesse fazer uma chamada.
Sentiu um nó na garganta, e um aperto no peito, como se toda a dor daqueles quase quatro anos, em que o pai estava preso, aí se tivessem concentrado.
- Faça como entender. Mais um, menos um pouco importa. Mandar inocentes para a prisão, deve ser mesmo o maior dos seus projetos – disse com raiva. 
Todos os músculos do homem se tornaram rígidos com o insulto. A sua voz soou cortante. 
- Levanta-te. Sem fitas nem escândalo. Vamos até ao jardim. Aqui está muita gente.
-E se eu não quiser ir?
- Tu não tens limites, pois não? Primeiro insultas-me, depois desafias-me.  Queres mesmo que te mostre do que sou capaz?
Ela não respondeu. Levantou-se e dirigiu-se ao jardim, seguida de perto por ele.
Afastaram-se da porta, procurando um local mais sossegado.
- Senta-te e fala. Que indireta, foi aquela lá dentro?
- Que indireta? Não me lembro.
As mãos dele cravaram-se como garras nos ombros femininos, apertando com tal força, que as lágrimas lhe chegaram aos olhos.
- Por favor, - suplicou. Está a magoar-me.
Afrouxou a pressão.
- Não brinques comigo, Sandra. Aquela firma, é toda a minha vida. Lutei muito por ela, e privei-me de muita coisa para que chegasse ao que é hoje.  Não vou permitir que ninguém me roube o que é meu. Não estou para brincadeiras. Quero saber, quem te paga, e o que é que tinhas que dar em troca. Agora, ou chamo a polícia e denuncio-te.
- Ninguém me paga, para que eu revele seja o que for da sua maldita empresa. Sou uma espia, sim.  Mas trabalho por conta própria. Há seis meses que tento encontrar uma coisa muito importante na sua empresa. Infelizmente sem o conseguir.
Exausta, ocultou o rosto nas mãos e desatou a chorar.



20.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VI




Depois de um intervalo, os seis pares voltaram à pista, e em conjunto dançaram sucessivamente o Samba, o Merengue, o Maxixe, e o Mambo.
Quando terminaram, o público foi informado de que a exibição terminara, podiam utilizar a pista para dançarem, a festa ia continuar e ainda iam sortear um prémio entre todos os bilhetes vendidos. O casal, amigo de Gabriel, queria ir dançar, e ele disse-lhes que não se preocupassem consigo, que ia até ao bar.
Encaminhou-se para o extremo do balcão, pediu uma bebida e ficou observando os pares que evoluíam na pista, ou se espalhavam pelas mesas. Esperava ver de perto a mulher de vermelho. Para tirar da cabeça, a ideia absurda de que podia ser Sandra. Por muito familiar que lhe tivesse parecido o seu perfil, uma mulher com aquele corpo, não podia ser aquele ser ridículo, que os recursos humanos lhe tinham arranjado como secretária.
De súbito a sua atenção fixou-se na mulher elegantemente vestida, com um vestido negro, o cabelo castanho, com uns reflexos avermelhados, solto sobre os ombros, que chegava ao balcão e pedia um refresco. Aproximou-se dela, e então teve a certeza absoluta, de que se tratava da sua secretária.
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro, e inclinando-se murmurou-lhe quase ao ouvido:
-Se, eu sofresse do coração, decerto teria um enfarte esta noite.
Ela soltou-se rapidamente, os enormes olhos verdes cravados nos dele.
-Que faz aqui? – perguntou, o rosto vermelho a voz tremente
-Quem diria, que tinhas tantos dotes. Deixa-me adivinhar, secretária e atriz de dia, bailarina e que mais de noite? – perguntou sarcástico.
Ela levantou a mão com evidente intenção de o esbofetear, mas ele foi mais rápido, e prendeu-lhe o pulso dizendo:
- Nem sonhes. Pega a tua bebida e vamos sentar-nos.
- Não sei quem lhe disse que eu estava aqui, mas não vou consigo a lado nenhum.
-Tens a certeza? Queres ver-te envolvida  num escândalo? Por mim fica à vontade. Se não te importas de sair amanhã nos jornais de mexericos, como uma das minhas amantes, que resolveu fazer um escândalo numa festa de beneficência…
-Era capaz disso? – perguntou furiosa, os belos olhos verdes faiscantes
- Não duvides - respondeu com voz rouca, segurando-lhe o braço e empurrando-a para uma mesa.