Estacionou o automóvel junto à porta e saiu. Percorreu com o olhar o vasto jardim, e franziu a testa, pensando se a jovem já se teria ido embora, porém logo deparou com o carro cinza estacionado junto à porta da garagem e um sorriso distendeu os seus bem desenhados lábios. Subiu os três degraus até ao alpendre e abriu a porta. Ouviu vozes na cozinha e encaminhou-se para lá. Paula e a governanta conversavam animadamente sentadas à mesa, com uma chávena de chá e um pires de biscoitos na frente.
- Bom dia, – saudou.
- Bom dia, senhor. Não o ouvimos chegar, - disse a
empregada levantando-se apressada.
Paula também se levantou. Vestia um fato de calças e
casaco de seda azul, com decote em bico, e calçava sandálias de salto. Elegante
e muito feminina.
- O que achas do jardim? -perguntou o recém chegado.
- Muito bonito mas não serve para o evento.
- Não? – Admirou-se ele
- Se vieres comigo explico-te.
Saíram e caminharam até ao lago circundado de bonitas
flores.
- Bom, supõe que ponho o altar entre aquelas duas árvores, lá ao fundo junto ao muro.
Teríamos que por duas filas de cadeiras para os convidados que segundo a lista
que me enviaste é de oitenta pessoas. Duas filas de quarenta cadeiras que
poderíamos por naquela parte, ali há poucas flores, podem ser transplantadas
para outro local e tapar os estragos com pedaços de relva natural. Até aqui
tudo bem, mas onde vou colocar as mesas para a festa? Usando mesas redondas
precisaríamos de dez mesas grandes, para os convidados mais duas para apoio.
Tinha que destruir todo o jardim.
- Já viste a parte de trás da casa? Tem um espaço
bastante grande todo relvado até à piscina, que delimita a área entre o lazer e quinta propriamente dita. Não podíamos fazer a cerimónia aqui
e a festa lá?
- Vamos ver.
Caminhando lado a lado contornaram a bonita moradia, um belo
edifício de dois pisos.
- É uma bela casa- disse a jovem.
-Gostas? Comprei-a há dois anos. Inicialmente porque era
um bom negócio, pensava voltar a vendê-la, mas depois decidi ficar com ela. É
um local sossegado, tem bons ares, muito espaço para as crianças, é o ideal
para uma família, não achas?
Não respondeu de imediato. Não sabia o que se passava com
ela em relação ao empresário. Começara por sentir um sentimento de raiva quando
soube o que ele fizera ao pai, exacerbado quando o pai lhe pediu para casar com
ele. Entretanto a raiva fora sendo substituída primeiro pela curiosidade,
depois pela admiração, e mais tarde por uma inquietação, quando falava ou pensava
nele. E pensava nele vezes demais para o seu gosto, tanto mais que quase esquecera, Adolfo, o médico com quem mantivera uma relação de quatro anos e cuja traição
a levara a querer distância de todos os homens.
De súbito, António agarrou-lhe no braço e parou,
obrigando-a a fazer o mesmo.
- Que aconteceu? – Perguntou abrindo os olhos de espanto
sem saber se era por ele ter interrompido os seus pensamentos, se pelo choque
elétrico que percorria o seu corpo, com a sensação que a mão dele provocara no
seu corpo.
- Diz-me tu, - respondeu. -Porque de repente fiquei com a
sensação que te ausentaste e me deixaste a falar sozinho.

