- O porteiro acaba de informar que está a subir a Teresa
Sobral para a entrevista das dezasseis horas. Não está na minha agenda,
esqueceste de me avisar? – perguntou.
- Como assim? Não marquei nenhuma entrevista para esta
tarde, - disse João olhando-a com estranheza. - Para falar verdade, nunca ouvi
tal nome. Será alguma cliente?
- Não sei, mas já deve estar lá fora. O que faço?
- Atende-a, pergunta-lhe qual o assunto e se for uma
cliente encaminha-a para a secção de vendas. O Afonso também não telefonou hoje?
- Não. Sabes que ele só aparecerá quando conseguir uma
informação válida. Bom vou ver o que quer a visita.
Olga saiu fechando a porta atrás de si e dirigiu-se para a
sua secretária. A mulher que se encontrava de costas junto da janela, voltou-se
e aproximou-se.
- Boa tarde! Venho falar como senhor João Teixeira.
- Boa tarde. Diz-me o seu nome por favor? – perguntou Olga
pegando na sua agenda.
- Teresa Sobral. Mas não perca tempo a procurar, não está
aí. Por favor, pode informar o seu chefe
de que preciso muito de falar com ele?
- Não, sem saber qual o assunto. O doutor João é um homem
muito ocupado, ainda há minutos me informou de que não devia interrompê-lo, e que devia passar a informação de que ele não estava.
-É uma pena, porque vou entrar na mesma, - disse
encaminhando-se resolutamente para a porta, surpreendendo Olga que levou alguns
segundos a reagir, o bastante para que Teresa abrisse a porta e se introduzisse
no gabinete, perante o olhar atónito do homem que se encontrava sentado à
secretária.
- Desculpa, surpreendeu-me e entrou sem autorização, -
disse Olga da porta. - Chamo os seguranças?
- Não. Já que a senhora se deu a tanto trabalho para falar comigo, tenho curiosidade em saber o que a trouxe
aqui. Volta para o teu lugar. Se for caso disso, eu mesmo chamo os seguranças.
A secretária saiu e por momentos reinou o silêncio no
escritório. Depois João disse:
- Por favor, sente-se e diga-me ao que vem. Se é cliente deveria
ter-se dirigido à secção de vendas e se pretende um emprego às Relações Públicas.
Ela sentou-se. Entre os dois a enorme secretária em madeira de mogno, e o silêncio. Nervosa,
Teresa remexia as mãos no colo sem saber como dizer ao que vinha. Pela primeira
vez desde que saíra de casa, pensou que talvez se tivesse precipitado e estivesse a fazer asneira, mas
já não havia como voltar atrás.
- Então, senhora, estou à espera.
Ela respirou fundo e disse:
-Eu também estou à espera, e se tudo correr bem vou esperar por nove meses…
João levantou-se de um salto, deu a volta à secretária e
aproximou-se dela.
-Quem é você? E o que quis dizer com isso?
- Eu, sou a mulher que o senhor procura. Fui informada pelo meu
médico do erro que o Centro Clínico cometeu ao fazer o procedimento, que me deixou grávida. Aquela que recebeu a doação de um material genético que não tinha sido doado. Também fui
informada de que o senhor queria saber quem tinha sido a recetora, e que
ameaçava o Centro com os tribunais e a imprensa. Sei que é poderoso e que o
pode fazer, todavia vim informá-lo de que não tenho qualquer culpa do que aconteceu,
a criança que trago no ventre é meu filho, e não estou disposta a perdê-lo
porque o senhor decidiu armar um arraial, que me deixou de rastos e me fez
abortar.
As palavras saíam-lhe aos borbotões, como água que brota da
rocha.



