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7.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVI







Olga bateu levemente à porta do escritório e entrou de seguida.
- O porteiro acaba de informar que está a subir a Teresa Sobral para a entrevista das dezasseis horas. Não está na minha agenda, esqueceste de me avisar? – perguntou.
- Como assim? Não marquei nenhuma entrevista para esta tarde, - disse João olhando-a com estranheza. - Para falar verdade, nunca ouvi tal nome. Será alguma cliente?
- Não sei, mas já deve estar lá fora. O que faço?
- Atende-a, pergunta-lhe qual o assunto e se for uma cliente encaminha-a para a secção de vendas. O Afonso também não telefonou hoje?
- Não. Sabes que ele só aparecerá quando conseguir uma informação válida. Bom vou ver o que quer a visita.
Olga saiu fechando a porta atrás de si e dirigiu-se para a sua secretária. A mulher que se encontrava de costas junto da janela, voltou-se e aproximou-se.
- Boa tarde! Venho falar como senhor João Teixeira.
- Boa tarde. Diz-me o seu nome por favor? – perguntou Olga pegando na sua agenda.
- Teresa Sobral. Mas não perca tempo a procurar, não está aí. Por favor, pode informar o seu chefe de que preciso muito de falar com ele?
- Não, sem saber qual o assunto. O doutor João é um homem muito ocupado, ainda há minutos me informou de que não devia interrompê-lo, e que devia passar a informação de que ele não estava.
-É uma pena, porque vou entrar na mesma, - disse encaminhando-se resolutamente para a porta, surpreendendo Olga que levou alguns segundos a reagir, o bastante para que Teresa abrisse a porta e se introduzisse no gabinete, perante o olhar atónito do homem que se encontrava sentado à secretária.
- Desculpa, surpreendeu-me e entrou sem autorização, - disse Olga da porta. - Chamo os seguranças?
- Não. Já que a senhora se deu a tanto trabalho para falar comigo, tenho curiosidade em saber o que a trouxe aqui. Volta para o teu lugar. Se for caso disso, eu mesmo chamo os seguranças.
A secretária saiu e por momentos reinou o silêncio no escritório. Depois João disse:
- Por favor, sente-se e diga-me ao que vem. Se é cliente deveria ter-se dirigido à secção de vendas e se pretende um emprego às Relações Públicas.
Ela sentou-se. Entre os dois a enorme secretária em madeira de mogno, e o silêncio.  Nervosa, Teresa remexia as mãos no colo sem saber como dizer ao que vinha. Pela primeira vez desde que saíra de casa, pensou que talvez se tivesse precipitado e estivesse a fazer asneira, mas já não havia como voltar atrás.
- Então, senhora, estou à espera.
Ela respirou fundo e disse:
-Eu também estou à espera, e se tudo correr bem vou esperar por nove meses…
João levantou-se de um salto, deu a volta à secretária e aproximou-se dela.
-Quem é você? E o que quis dizer com isso?
- Eu, sou a mulher que o senhor procura. Fui informada pelo meu médico do erro que o Centro Clínico cometeu ao fazer o procedimento, que me deixou grávida. Aquela que recebeu a doação de um material genético que não tinha sido doado. Também fui informada de que o senhor queria saber quem tinha sido a recetora, e que ameaçava o Centro com os tribunais e a imprensa. Sei que é poderoso e que o pode fazer, todavia vim informá-lo de que não tenho qualquer culpa do que aconteceu, a criança que trago no ventre é meu filho, e não estou disposta a perdê-lo porque o senhor decidiu armar um arraial, que me deixou de rastos e me fez abortar.
As palavras saíam-lhe aos borbotões, como água que brota da rocha.


25.6.20

ISABEL - PARTE XXXII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura e na gastronomia. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
E o jantar continuou entre animada conversa.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
Luís pagou a conta e desceram juntos para o piso inferior. 
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro, - disse ele enquanto se encaminhavam para a saída. - Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
- Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
Saíram do edifício e já no parque, ela estendeu-lhe a mão dizendo:
- Agora tenho mesmo de ir.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente, baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu íntimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria-lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois encaminhou-se para a estação do metro que o levaria de regresso à sua nova casa, pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que  tinha contado praticamente toda a sua vida pessoal e profissional, a  Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele, continuando assim a ser um quase desconhecido.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. E, se como dizia Amélia,  "a vida é como brisa de verão em fim de tarde,  passa rápida e poucos dão por ela". Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Decidiu-se.  Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela iria lutar por consegui-lo. Assim Deus lhe desse coragem!

                                               


27.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE X



Meia hora mais tarde, Paula tinha delineado o que seria a festa de aniversário de casamento de um conhecido casal da alta sociedade portuguesa, e tomava notas sobre tudo o que ia precisar, para o evento, quando Irene a sua secretária a interrompeu.  
-Acaba de chegar a encomenda que fizeste para a festa de Cascais. E ligaram dos escritórios da imobiliária “Um sonho, uma casa” para marcarem uma entrevista contigo. Parece que é o próprio dono que quer negociar contigo a realização de um evento.
Paula ficou a olhar para a sua secretária surpreendida. A sua primeira reação seria dizer que tinha a agenda preenchida para os próximos meses. Parece que de um momento para o outro, tudo à sua volta tudo girava em volta daquele homem. Primeiro foi a visita da madrasta, depois o pai, agora era o próprio empresário.
-Tinhas-me dito – continuou a secretária, alheia aos seus pensamentos, - para não fazer marcações para as próximas três semana, que ias tirar umas férias, quando terminasses a festa no Estoril, dos Ferraz, mas como é um empresário importante, não sei se queres adiar as férias, pelo que pedi para ligarem mais tarde, porque não estavas e tínhamos a agenda cheia para o mês todo. Se voltarem a ligar o que é que eu faço?
-Diz-lhe que poderei atendê-lo, amanhã às quinze horas.
- Mas amanhã não ias estar todo o dia lá no salão de festas,em Cascais, por causa da festa dos Couceiro, no próximo Domingo?
- Ia. Mas tenho interesse em saber o que esse senhor quer. O salão pertence à paróquia, vou falar com o padre e pedir-lhe se posso ir à noite acabar o que faltar.
- Bom, tu é que sabes. Mas estás a pensar desistir das férias? Tens trabalhado demais.
- Enquanto conseguir executar os trabalhos dentro do prazo, não é demais. Leva esta lista e confere se não falta nada do que pedi na encomenda que vieram entregar. E depois põe tudo na mala do meu carro.
Irene saiu e Paula voltou a enfronhar-se no trabalho. Durante mais de uma hora, fez esboços, tomou nota de materiais, viu preços. Por fim numerou cada esboço, cada lista de material, voltou a fazer contas e acrescentou ao esboço o orçamento. Tudo pronto carregou no botão da secretária.
- Já conferi a encomenda e já está no teu carro, - disse Irene ao avançar para a secretária da sua chefe.
- Tens aqui estes três esboços, orçamentados. Envia-os por fax, para o escritório do senhor Ferraz, para aprovação. Pede urgência na resposta a fim de que possamos ter tudo pronto para a festa.  Leva estas listas, cada uma está numerada com o mesmo número do esboço. Dependendo do que eles escolherem, fazes a encomenda do material. Contactas os fornecedores do costume. Depois é necessário contactar os jornalistas das principais revistas cor-de-rosa. Vê se consegues algumas para essa data.
-Muito bem. Vou mandar os esboços agora e depois do almoço, contato os jornalistas. Não deve haver problema, uma festa destas à borla, ninguém rejeita. O resto só depois de saber qual o esboço que eles vão aprovar. E o “catering”, é o mesmo do costume? Tratas tu disso?
-Não. Desta vez o cliente não quer os nossos serviços a esse nível. Diz que já tem tudo tratado, logo é menos uma preocupação que temos. Vou almoçar e depois sigo para Cascais. Em princípio, não volto hoje ao escritório. Qualquer urgência, liga-me.
-Ok. Bom trabalho.



NOTÍCIAS
Como sabem, estive ontem à tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.

7.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VII





Três dias depois, João tinha acabado de atender a última doente daquela semana, pois no seu consultório só dava consultas às terças e quintas, e era precisamente quinta-feira, quando a sua assistente entrou no gabinete para lhe dizer que estavam duas senhoras na sala que queriam, porque queriam uma consulta para esse dia.
- Tentei marcar a consulta pela agenda, mas a senhora mais nova disse que era urgente e que é sua esposa.
Odete estava ali? Teve vontade de se levantar para a ir receber. Porém não fez um movimento. Com o ar mais indiferente que conseguiu arranjar, disse:
-À sim, ela tinha-me avisado que vinha e eu acabei esquecendo de lhe dizer. Mande-as entrar, e pode sair, mas não esqueça de fechar a porta da rua.
- Muito bem doutor. Bom fim-de-semana, para o senhor.
Ela saiu e João continuou a fazer anotações na ficha que tinha na frente, tentando aquietar o coração. Ia ver de novo a sua mulher depois de mais de três anos de silêncio absoluto da parte dela.
Uns segundos depois, uma leve batida na porta e esta abriu-se para dar passagem à sua mulher e à mãe. O seu olhar percorreu-a da cabeça aos pés. Estava mais bonita, mais madura, mas tinha um ar sério e triste que lhe tocou o coração.
- Boa noite João.
- Que surpresa Odete. Podias ter telefonado antes de vires, e não passavas pelo constrangimento de teres que dar explicações, à minha assistente.
- Se eu telefonasse atendias-nos?
- Porque não havia de atender? Acima de tudo sou um profissional. Que se passa? Estás doente?
-Não. É a minha mãe. Tem passado mal, tem dores no peito, dificuldade em respirar, cansa-se com facilidade. A médica de família, mandou fazer um Ecocardiograma e um registo de Holter e aconselhou a consulta com um cardiologista. Mas a consulta no hospital está demorada, e eu sei que és um dos melhores cardiologistas do país. Por isso aqui estamos.
Com o maior profissionalismo perguntou:
- Trouxeram os exames?
Ela tirou-os da mala e estendeu-lhos. Ele examinou-os, fez algumas anotações numa nova ficha e disse:
- Preciso examiná-la. Por favor senta-a na marquesa e ajuda-a a despir-se da cintura para cima. 
Durante algum tempo, ele concentrou-se na auscultação da sogra. 
Terminada a auscultação disse:
-Por favor deite-se aqui. Vamos fazer um ecocardiograma, preciso ver com exatidão o que há com o seu coração.




Aviso a quem me acompanha. No próximo dia 8 por ser o Dia Internacional da Mulher, a história será outra. Esta continuará no dia 9.