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17.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XX

 



-Boa noite, Diogo - saudou. A Paula avisou que eu vinha?

-Boa noite. Entra, o jantar está quase pronto, a Paula está a pôr a mesa.

A criança esticava os braços, chamando a “madinha”, mas Diogo disse:

- Primeiro temos de ir lavar estas mãozinhas e a cara. - E voltando-se para a jovem, acrescentou: Esta Princesa, continua a comer mais com as mãos do que com o talher. Fica à vontade, conheces bem a casa.

Anabela pendurou a mala no cabide junto à porta, despiu o casado e deu-lhe o mesmo destino, seguindo depois para a cozinha, onde Paula acabava de retirar do forno um tabuleiro que cheirava deliciosamente.

-Boa noite, - saudou. Que cheiro maravilhoso.

-Boa noite, Anabela. O jantar está pronto. Não pus a mesa na sala, porque sempre clamas que preferes comer aqui. Estou “em pulgas” para saber o que o doutor Azevedo queria contigo.

A afilhada agarrando-se às suas pernas e exigindo a atenção da “madinha” impediu a jovem de responder. Baixou-se e pegou na menina ao colo, mas logo a mãe disse:

- Dá-ma. Está na hora, dela dormir. Vamos ver se corre bem, ou se a excitação de te ver, não a deixa adormecer.

-Vou, contigo. Quantas histórias temos de ler para ela dormir?

-"Históias não, madinha. À, à, à," - interrompeu a menina.

- O que é isso?

- Agora quer que lhe cantemos todas as noites essa canção. Talvez seja o que cantam na creche.

- Muito bem, Princesa. Vamos ver se a madrinha, ainda se lembra da machadinha – disse Anabela enquanto Paula punha uma fralda na menina e lhe vestia o pijama.

Já deitada, as duas entoaram em coro a canção, enquanto a criança murmurava a silaba final de cada verso como se estivesse acompanhando-as.

Adormeceu a meio da terceira vez que as duas entoavam a canção. Paula aconchegou-lhe a roupa, apagou a luz e as duas saíram do quarto, fechando a porta em silêncio.

-Vá lá, pensei que levasse mais tempo para adormecer, - disse Paula enquanto se dirigiam à cozinha. Às vezes tenho de lhe cantar tanta vez, que quase adormeço primeiro que ela.

 

 

17.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XX

 



Tinham chegado ao restaurante. Fernando estacionou o carro no parque, saiu e dava a volta ao carro, todavia Laura saiu sem esperar que ele se aproximasse para lhe abrir a porta.

- Vamos entrar? - perguntou pegando-lhe no braço pelo cotovelo. Já estão todos à nossa espera.

Não era difícil saber porquê. Afinal ele tomara o caminho mais longo a fim de prolongar o tempo a sós com a jovem.

Durante o jantar, Aníbal, o pai de Laura; e Fernando fizeram as honras da conversa, enquanto a jovem se mantinha atenta ao jantar do pequeno Miguel e  Sara contava à sua avó o quanto tinha gostado de passar aquela semana com a prima e de como Matilde se sentia feliz por ter enfim o pai e a mãe juntos.

- Sabes, avó, eu tenho muitas saudades do meu pai, mas sei que ele foi para o céu, não voltará. Mas eu e a Matilde estivemos a conversar. Ela diz que o tio Fernando gosta da mãe, e que se eles se casassem, podíamos voltar a ser uma família completa.

- E tu não te importavas se a mãe casasse com o tio Fernando? - perguntou a avó

- Claro que não. Eu gosto muito dele. Mas parece que a mãe não.

- Não te preocupes. A tua mãe também gosta dele. Só que ainda se lembra do teu pai. E isso faz com que não se dê conta do que sente pelo tio Fernando.

- Sabes o que eu penso, avó? Os adultos são muito complicados. Não sei se algum dia  vou querer ser adulta.

Perante a risada da avó, todos os olhares se viraram para ela.

-A minha neta acaba de me dizer que não vai querer ser adulta, pois os adultos são muito complicados, - disse Teresa perante os olhares surpresos dos restantes.

 Naquele momento o empregado trouxe as sobremesas.

Pouco depois, pediam os cafés e a conta, entretanto Miguel já cabeceava os olhitos fechados, morto de sono. Laura levantou-se e pegou-lhe ao colo, mas logo Aníbal estendeu os braços e retirou o neto do colo da mãe, dizendo:

-Nós deitamos as crianças não te preocupes. É melhor que vás com o Fernando, amanhã é o teu primeiro dia de trabalho, podem ter alguma coisa a conversar sobre isso.

Laura não disse nada, embora no seu rosto fosse bem visível o quanto as palavras do pai a contrariavam, enquanto Fernando dizia sorrindo.

-Bom, então despedimo-nos aqui, para que vocês também se possam recolher e descansar.

Abraçou o casal com o mesmo carinho com que um filho o faria, deu um beijo no bebé adormecido, e depois baixou-se para ficar ao nível de Sara, e abraçou a menina dizendo:

- Até outro dia, princesa. Dorme bem. Prometo que levo a tua mãe para casa, sã e salva, daqui a pouquinho.

Esperou até que entraram no carro, e só então se dirigiu ao seu automóvel, seguido pela jovem. Não lhe tocou, pois sabia que ela reagiria mal, zangada como estava com os pais.

Ligou o motor mas em vez de pôr o carro a trabalhar, virou-se para ela e disse:

-Vamos, desabafa essa raiva que sentes. Embora não tenha tido culpa nenhuma na situação, eu aguento.

- Parece que sou um traste de quem eles se quem livrar, - disse ela magoada. E tu também tens culpa. Podias dizer que tinhas um compromisso inadiável, e eu teria ido com eles.

- Mas não tinha e não me agradam as mentiras. E tu sabes tão bem como eu, que eles te querem muito, que não lhes agrada a solidão em que vives e se estão sempre a tentar juntar-nos é porque me conhecem de toda a vida, sabem que nunca amei outra mulher que não fosses tu, e que serei um bom pai para os teus filhos. 

Sei que não te sou indiferente, senti o teu coração bater em uníssono com o meu, senti o teu corpo tremer nos meus braços, quando dançámos juntos no casamento do teu irmão e sinto-o sempre que te toco. Se assim não fosse já te tinha deixado em paz, como o fiz quando me mandaste embora, há quase dois anos.

Também sei que ainda não estás preparada para te entregares a um novo amor, mas eu sou paciente.  E quero que saibas que enquanto estiveres na clínica, podes estar descansada, que não terei nenhuma atitude diferente daquela que teria com qualquer outra assistente.

 Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a residência da jovem.

15.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIX


Preparavam-se para sair de casa quando um carro estacionou à porta Laura olhou os pais e inquiriu:

-Quem será? Não estava à espera de ninguém, e vocês?

- Nós também não. Ou pensas que combinávamos jantar fora se estivéssemos à espera de alguém? – respondeu a mãe com um ar de inocência muito convincente

Naquele momento a campainha tocou, e Sara apressou-se a ir abrir.

-É o tio Fernando, - gritou antes de se pendurar no pescoço dele para o beijar.

- Se vinhas ver os noivos, eles já foram – disse Laura aparecendo junto deles.

- Olá -respondeu ele sorrindo. Eles passaram por minha casa, e disseram-me que os teus pais se iam embora amanhã. Vinha despedir-me, mas vejo que vão sair.

- Vamos jantar fora, - apressou-se a dizer dona Teresa. Mas vem connosco, estás convidado, ou já jantaste?

- Na verdade, não.

- Então não se fala mais nisso.  Na verdade, podes levar a Laura contigo, nós levamos as crianças, escusamos de ir tão apertados.

- Mãe! – disse Laura envergonhada. Não seria melhor irem vocês os três, e eu jantava em casa com as crianças? Afinal o Fernando vinha despedir-se de vocês.

-Era só o que faltava. Tens o ano inteiro para jantar com as crianças. Hoje vamos jantar todos juntos, e acabou-se a conversa, - respondeu a mãe.

Vencida, mas não convencida, logo que entraram no carro Laura disse:

-Meu Deus, a minha mãe não faz mais do que empurrar-me para os teus braços. Sinto-me envergonhada

- Porquê?

-Parece que eu sou uma mercadoria que ninguém quer, encalhada na Loja.

- Nada disso. Toda a tua família como a minha sabem de há muito tempo, do meu amor, por ti.  A minha mãe, fartou-se de chorar quando casaste e vivia desgostosa por saber que não conseguia esquecer-te e ia morrer sem chegar a conhecer os netos.

-Mas, eu nunca soube dos teus sentimentos. Para mim eras um irmão, embora não fossemos do mesmo sangue o meu sentimento por ti era o mesmo que tinha pelo Gonçalo.

-Eu sei. Por isso mesmo não lutei por ti na época. Mas hoje é diferente. Estás viúva há mais de três anos, não me podes impedir de ter esperanças.

- Mas eu ainda não esqueci o Quim…

-Nem eu espero que o esqueças. Foi o teu primeiro amor e o pai dos teus filhos.

Mas Laura, eras uma jovem mimada que nada sabia da vida, quando o conheceste e casaste. Hoje és uma mulher que conhece as alegrias e tristezas que a vida acarreta. Sofreste a dor da perda, amadureceste. A jovem que casou com o Quim ficou lá no passado, tenho a certeza que a mulher que és hoje, será capaz de me amar como eu te amo se abrires o coração a uma nova oportunidade.

Laura estava espantada consigo própria. Como é que ela se permitia falar assim abertamente com ele. Será que Fernando tinha razão? Estaria ela a transformar-se numa nova mulher?  



Vejamos se hoje o técnico consegue acabar com a Internet "vai e vem" que tenho há mais de 10 dias

14.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXI

 



A meio da tarde, Helena levou a filha ao centro médico do Fundão a fim de lhe mudarem o penso e verificarem se estava tudo bem, como o cirurgião recomendara Nuno recomendara no dia da alta.

Matilde insistira com a mãe para obter o número do pai, pois estava ansiosa para falar com ele, mas esta não lho dera, não só porque sabia que o pai estava no hospital até às dezasseis horas, mas também porque achava que seria preferível ela falar com o pai pessoalmente uma vez que ele não trabalharia no dia seguinte e iria ter com eles à quinta, a fim de conhecer a família dela e ter uma conversa séria com eles. E então sim os dois teriam tempo para estar juntos e ela dizer ao pai o que desejasse.

 Quando saíram do Centro médico, a garota disse estar com fome e a mãe decidiu que lanchariam ali mesmo na cidade e só depois iriam para a aldeia, onde teriam que jantar cedo pois às dez horas teriam que estar na igreja para o inicio das celebrações da Semana Santa nessa noite com a representação da Última Ceia que incluía a lavagem de pés dos membros da irmandade. 

Antes disso, Sérgio e Sofia, que não trabalhavam no dia seguinte por ser feriado, chegariam à quinta, onde já se encontravam os seus filhos, para passarem a Páscoa na casa paterna. Os pais de Sofia também viriam mas chegariam apenas no sábado pela hora do almoço. 

Entretanto também no dia seguinte chegariam à aldeia, Rita e o marido, bem como os pais de ambos que ali iam passar a Páscoa, pois o velho Alberto Santos, mais conhecido pelo Ti Alberto Ferreiro, avó da Rita, estava muito doente e a família queria estar com ele, pois receavam ser a última Páscoa, do idoso.

 Lena ainda não contara a Rita, tudo o que soubera de Gonçalo na véspera, apesar da grande amizade que as unia, pois era uma longa e complicada história que pensava não devia ser contada pelo telefone.

Enquanto Lena e a filha, regressavam à quinta, a primeira pensando no que o irmão e cunhada diriam, quando soubessem dos últimos acontecimentos, e a segunda sonhando com a visita do recém descoberto pai.

Mais tarde, todos reunidos à mesa para jantar, foi Sérgio quem após mais um comentário da sobrinha sobre o pai, perguntou:

- Que história é essa, Lena? Como é que Matilde diz que o pai vai chegar amanhã? 

-É uma história longa e complicada para contar agora, mas é verdade que encontrámos o Gonçalo. Foi ele quem atendeu a Matilde no hospital antes da cirurgia. 

- E assim sem mais nem menos disse-lhe que era o pai dela? - perguntou o irmão com ironia. Onde é que ele esteve estes anos todos? 

-Já te disse que é uma história longa e complicada que não vou poder contar agora. A vida, nos separou e ela nos juntou de novo. Ele pediu-me em casamento e quer dar o seu nome à filha. 

Estará aqui amanhã para  passar o dia com ela, conhecer-vos a todos e poderás fazer-lhe as perguntas que desejares. Tudo o que sei já contei à mãe.  E agradecia-te que não fizesses comentários sarcásticos sobre este assunto na frente da Matilde.

- A Lena tem razão, amor - disse Sofia. A tua irmã é uma mulher adulta e responsável, absolutamente capaz de saber discernir o que que sabe o que é melhor para as duas. E depois já viste como a Matilde está feliz? 





5.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVII


Helena estava na estrada que levava à casa paterna na manhã seguinte, pouco passava das oito da manhã. Enquanto isso ela ia recordando, o que acontecera no dia anterior.

Emocionada com o sofrimento que Gonçalo expressara nas confidências que lhe fizera, ela decidira aceitar o convite dele para jantar. Assim ligara à filha e depois de saber que ela estava bem, dissera-lhe que só regressaria de manhã, estava com dores de cabeça e achava melhor não conduzir de noite. O mesmo dissera a sua mãe, quando Matilde passara o telefone à avó.

De seguida mandou uma mensagem à Rita dizendo-lhe que tinha seguido o seu conselho e por isso estava em Lisboa. Não precisava mais explicações a amiga compreenderia, e ela não corria o risco de que Rita telefonasse para saber da afilhada, e dissesse alguma coisa que não devia.

Não que ela quisesse enganar deliberadamente a família, porém não era algo que se dissesse pelo telefone. Contar-lhes-ia tudo no dia seguinte.

Jantaram num pequeno restaurante perto da praça do Chile. Durante o jantar, Gonçalo não se cansava de fazer perguntas sobre a sua filha, que ela fora respondendo com todo o amor e orgulho que sentia pela filha. Depois ele falara da sua família.

Da irmã, tão jovem e já viúva, do quanto ela sofrera com a morte súbita do marido, quando se encontrava grávida do segundo filho, dos pais que continuavam a viver em Braga.

Depois ele dissera que ia contar à família sobre elas, e que gostaria que mais tarde o acompanhassem de modo a que se conhecessem.

“Deves saber que a minha mãe e a minha irmã, vão querer logo marcar a data do casamento assim que te conheçam. Há mais de dez anos que tentam casar-me. Principalmente a minha mãe. Creio que já me apresentou todas as jovens em idade de casar, desde Braga ao Porto. Imagina agora sabendo da nossa história.” Dissera-lhe ele sorrindo.

Ela sabia que quando contasse aos pais e a Rita, o que ele lhe contara e a proposta de casamento que lhe fizera, eles também iam exercer pressão para que aceitasse.

Mais tarde, ele voltara a perguntar se ela não tinha fotos da filha, para que através delas ele pudesse acompanhar o crescimento da menina. E para mostrar à família.

Ela respondera que sim. Tinha muitas fotos e vídeos de várias fases do crescimento de Matilde em formato digital.

Trocaram então os endereços eletrónicos, e ela prometeu que nessa mesma noite lhos enviaria.

Quando chegara a Lisboa, para se encontrar com Gonçalo, Helena deixara o seu automóvel estacionado à sua porta e fora de metro. Não sabia o que ele lhe ia dizer, e não queria que ele soubesse onde morava, coisa fácil se fosse de carro e ele a seguisse.

Porém depois do jantar, ele ofereceu-se para a levar a casa, e ela tivera que lhe dar a morada.

Quando Gonçalo estacionou junto à sua porta, e antes que ela saísse do carro, ele segurou a sua mão entre as dele e murmurou um emocionado obrigado.

Com o coração acelerado ela apressou-se a sair do carro, prometendo que lhe telefonava quando contasse toda a história à filha.

Agora, a caminho de casa, preparava-se para contar à filha e depois à restante família tudo o que Gonçalo lhe contara.

9.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVII

 


No umbral estava um homem mais ou menos da sua estatura, de pele clara, cabelo castanho aloirado, e olhos cinzentos. Vestia umas calças de ganga e um T-shirt imaculadamente branca.

Os dois cumprimentaram-se com um aperto de mão.

-Entra - disse Gonçalo afastando-se para deixar entrar o amigo.

 Fechou a porta ao mesmo tempo que dizia:

-Vamos para a cozinha. Podemos conversar enquanto preparo qualquer coisa para comer. Esqueci-me de jantar. Suponho que tu já jantaste.

- Claro. E tu deves estar pior do que eu pensava para te esqueceres de jantar. Podes começar, que sou todo-ouvidos.

Gonçalo abriu o frigorífico, retirou uma embalagem de queijo, outra de presunto que colocou em cima da mesa. De uma caixa sobre o balcão retirou uma carcaça, abriu-a colocou-lhe dentro uma fatia de presunto e outra de queijo e colocou o pão na tostadeira. Voltou a abrir o frigorífico e tirou um refrigerante.

-Queres tomar alguma coisa? Uma cerveja, ou algo mais forte? – perguntou ao amigo.

- Por agora não. Não me digas que isso vai ser o teu jantar?

-Mais logo, antes de me deitar, como mais qualquer coisa, por agora isto chega, - disse sentando-se à mesa

Fernando não respondeu. Conhecia o amigo desde criança e sabia que alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa que ele tardava a contar o que demonstrava bem como estava perturbado. Paciente esperou que ele desabafasse. Coisa que ele não fez até acabar de comer. Então levantou—se e disse:

-Desculpa ter-te estragado a noite. Dá para perceber que estou meio perdido. Anda vamos para a sala que já te conto tudo. Não queres mesmo tomar nada? -perguntou quando entraram na sala.

A ver o aceno negativo do amigo, esperou que ele se sentasse no sofá e sentou-se no cadeirão em frente. Então Gonçalo começou a falar de todo o desassossego que tomara conta dele desde que duas semanas atrás aquela desconhecida chocara com ele, até aos acontecimentos desse mesmo dia.  Falava baixo, como se estivesse sozinho apenas pensando em voz alta. Fernando não se atreveu a interrompê-lo.

Depois de alguns segundos em silêncio, perguntou:

 - O que pensas disto? O sério e responsável Gonçalo Bacelar, está ou não ficando louco?

- Dizes que a sua presença te perturba, mas, no entanto, isso não te trouxe nenhuma memória dela? O seu rosto não te diz nada?

-Não. Todavia quando ela levantou os olhos para mim naquele dia, foi como se o meu corpo, tivesse sido atravessado por uma descarga elétrica. E hoje? Via-a aflita com a filha e não podia encará-la para que não lesse no meu olhar o desejo que tinha de abraçá-la e consola-la.

-E ela? Parecia---te perturbada?

- Como não? Tu não estarias perturbado, se tivesses um filho doente?

-De certo que sim, mas e no primeiro encontro? Disseste que te pareceu ler surpresa e medo no seu olhar.  Porque ela teria esses sentimentos se não te conhecia de lado nenhum?


26.10.20

CILADAS DA VIDA -PARTE L




Nessa mesma tarde, com a preciosa e eficiente ajuda da Olga, João pode respirar de alívio. Teresa estivera na consulta, acompanhada da enfermeira Sandra, fizera análises, onde fora detetado um princípio de anemia, mas viera para casa depois da doutora Laura Aguilar se ter convencido que a doente teria o apoio constante de uma enfermeira que a faria seguir à risca, tudo o que ela lhe prescrevera. Ainda assim queria voltar a vê-la dentro de dez dias.

Olga conseguira não uma, mas três enfermeiras. Uma ficaria na empresa, a outra substituiria Sandra durante as noites, e a terceira faria as folgas das outras duas.

Dividira o quarto com dois biombos e mandara instalar uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa, de modo a que a enfermeira pudesse descansar perto de Teresa sem, contudo, perderem a privacidade.

Também mandou retirar toda a roupa do patrão para outro quarto e se encarregara de comprar ela mesma todos os ingredientes necessários para as refeições de Teresa, que Sandra confecionaria nos próximos dias.

Apesar da sua vida ter dado uma grande volta com os acontecimentos das últimas quarenta e oito horas, João pensava que tinha razões para se sentir feliz. Ele que sempre se sentira solitário, ganhara um irmão, com quem lhe parecera fácil desenvolver um clima de amizade fraternal e tinha Teresa, onde sonhara tê-la, desde o primeiro momento que a vira e soubera que ela tinha dentro de si o seu filho. Na sua casa. E para mais em vez de um filho ia ter três, de uma só vez. Iriam ser uma família, ele tinha a certeza, embora não soubesse ainda como convencer Teresa, de que o lugar dela, era a seu lado, criando os filhos dos dois.

Acabou o jantar, e foi ao quarto saber como ela estava. Cruzou-se com a nova enfermeira que levava o tabuleiro em que servira o jantar para a cozinha. Disse-lhe:

-Tem o seu jantar no forno. Pode jantar sossegada, enquanto isso eu faço companhia à dona Teresa.

- Como te sentes? – perguntou sentando-se na beira do leito.

- Estou bem. Com os comprimidos do enjoo, quase não tenho náuseas, mas preocupa-me toda a confusão que estou a causar na tua vida. Achas mesmo necessário uma enfermeira durante a noite? Vai estar quase sempre a dormir.!

- Acho. Imagina que vais à casa de banho e tens uma tontura? A Sandra comprou uma arrastadeira quando foi aviar o ácido fólico. A enfermeira poderá pôr-te a arrastadeira durante a noite, como fazem nos hospitais. Promete-me que não te levantarás sem que seja absolutamente necessário, e sem que ela esteja contigo.

- Se achas necessário prometo. Embora ainda pense que não era necessário.

-Tens que te cuidar.  Não só pelos bebés mas também por ti. A vida dessas crianças é muito importante, mas não podem importar mais do que a tua. Acredita, nenhuma criança é feliz, crescendo sem mãe.

Havia tal amargura nas suas palavras, que Teresa teve a certeza de que ele se referia a si próprio.

Tentando desviar a conversa disse:

- Tens uma excelente assistente.

- Olga, está comigo desde que comecei a minha atividade, num velho armazém sem quaisquer condições. É muito mais que uma assistente, é o meu braço direito. Somos quase irmãos, já que nos primeiros anos da minha vida, foi a sua mãe quem me criou. De modo que tenho a certeza, ela já te estima por saber que estás a gerar os meus filhos e tenho a certeza, será de grande ajuda para ti se lhe deres hipótese.

- Já tinha reparado que havia uma grande ligação entre os dois.

- E o que achaste das enfermeiras?  A Sandra trabalha connosco há quatro anos, sei que é uma profissional competente. A Gabriela e a Rosa, espero que sejam igualmente boas profissionais pelo menos têm bons currículos, mas és tu quem vai avaliá-las. Qualquer coisa que não te agrade, dizes-me. Quero que te sintas o mais confortável possível, para que em breve deixes de estar nessa situação de risco. Pelos bebés e por ti, - disse acariciando a mão que repousava sobre a colcha.

- Porque puseste uma enfermeira nova no lugar da Sandra em vez de vir para aqui? Porque durante a maior parte do dia eu estarei lá em baixo a trabalhar, e sentir-me-ei muito mais descansado tendo aqui uma profissional que trabalha para mim há anos, e em quem tenho plena confiança. De noite é diferente, porque estarei no quarto ao lado disponível para qualquer eventualidade.

Nesse momento a enfermeira Gabriela regressou do jantar e João despediu-se desejando uma boa noite e saiu deixando atrás de si, uma Teresa preocupada com a sensação que uma simples carícia na mão lhe provocara. Decididamente as suas hormonas estavam doidas...

12.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIV



Atendeu ao terceiro toque.

- Olá Teresa, que feliz coincidência. Estava a pensar ligar-te para saber como estás.

-Estou bem, mas preciso falar contigo. Podes vir a minha casa?

- Claro, vou já para aí. Mas … aconteceu alguma coisa?

- Nada de grave, só que preciso de conversar contigo, ainda hoje.

- Vou a caminho, até já.

Desligou a chamada, e pouco depois Inês entrava com um tabuleiro com o jantar.

- Acabei de telefonar ao João Teixeira. Uma vez que vou ser internada amanhã, quero falar com ele hoje,  e não é notícia que se dê por telefone - disse sentando-se e enquanto a amiga lhe ajeitava as almofadas nas costas para lhe por o tabuleiro com o jantar no colo.

- Bom, então é hoje que eu vou conhecê-lo. Mas agora quero isso tudo comido antes que arrefeça, ou que ele apareça e já não comas. Sabes bem o que a médica disse.  E não te preocupes nem tentes levantar-te, que eu abro a porta quando ele chegar. Entretanto vou telefonar ao Gustavo.

- E fizeste alguma coisa para o teu jantar? – perguntou Teresa, quando a amiga já ia saindo do quarto.

- Não te preocupes, encomendei uma pizza, deve estar a chegar.

Dois minutos depois a campainha tocou e logo depois Inês apareceu com a caixa da pizza na mão. 

-Vou jantar enquanto a tua visita não chega.

Quinze minutos depois, quando João chegou, já Teresa tinha jantado, e encontrava-se no leito, meio deitada meio sentada, recostada em almofadas.  Ela tinha desejado levantar-se e recebê-lo na sala, mas Inês não deixou, argumentando que ela não tinha que ter vergonha, afinal no dia seguinte seria internada e ele decerto iria vê-la deitada no hospital.

Se ele estranhou ver uma desconhecida abrir-lhe a porta, não o demonstrou. Limitou-se a dizer:

-Boa noite. Venho visitar a menina Teresa Sobral.

-Boa noite. Venha, ela está à sua espera.

Inês acompanhou-o ao quarto e preparava-se para se retirar quando Teresa lhe pediu para ficar.

- João, apresento-te a minha melhor amiga e comadre, Inês Machado.  Inês, este é João Teixeira, o pai biológico.

Esperou que os dois se cumprimentassem, e continuou.

-João, o que tenho para te contar não é fácil por isso prefiro que a Inês fique aqui. Mas por favor sentem-se - disse indicando com a mão a cama. Desde  há duas semanas que não me sentia muito bem, mas desde sábado, praticamente tenho vomitado tudo o que como. Tinha-te dito que iria marcar consulta com a minha ginecologista, mas ela está de férias, então a Inês conseguiu consulta com a médica dela. Tive consulta esta tarde e… nem sei como dizer-te.

- Que se passa? Alguma má formação do bebé? Tens que abortar? – perguntou levantando-se.

-Não. O que se passa, é que em vez de um bebé, eu estou a gerar três; e como ultimamente tenho passado mal e não tenho conseguido alimentar-me como deve ser, tenho perdido peso e a médica quer internar-me amanhã, pois se não recuperar rapidamente peso, posso vir a abortar.

- T…rês? – Gaguejou ele deixando-se cair pesadamente sobre a cama. - Meu Deus! Tens a certeza?

-Temos. Ouvimos os seus corações a bater - disse Inês.

- Mas porque é que vais ser internada?

- Porque é uma gravidez de alto risco, a médica diz que preciso repouso absoluto, ganhar peso e ter alguém que cuide de mim, e não tenho ninguém.

- Eu cuido de ti. A Inês arranja uma mala com aquilo que achares que precisas, e vais comigo.  Amanhã acompanho-te à médica e pergunto-lhe se podes ficar em casa. Sabes que tenho um posto médico com enfermeira diariamente e médico uma vez por semana, no edifício. Pois bem ela cuidará de ti de dia e contratarei outra enfermeira  para a noite. Não te preocupes vai correr tudo bem.

 

 

 

25.6.20

ISABEL - PARTE XXXII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura e na gastronomia. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
E o jantar continuou entre animada conversa.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
Luís pagou a conta e desceram juntos para o piso inferior. 
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro, - disse ele enquanto se encaminhavam para a saída. - Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
- Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
Saíram do edifício e já no parque, ela estendeu-lhe a mão dizendo:
- Agora tenho mesmo de ir.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente, baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu íntimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria-lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois encaminhou-se para a estação do metro que o levaria de regresso à sua nova casa, pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que  tinha contado praticamente toda a sua vida pessoal e profissional, a  Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele, continuando assim a ser um quase desconhecido.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. E, se como dizia Amélia,  "a vida é como brisa de verão em fim de tarde,  passa rápida e poucos dão por ela". Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Decidiu-se.  Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela iria lutar por consegui-lo. Assim Deus lhe desse coragem!

                                               


2.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXII





Entraram no hotel de mãos dadas, e André dirigiu-se imediatamente para os sofás da sala de recepção, onde se encontravam algumas pessoas que se levantaram com a sua chegada.
- Eva, apresento-te a minha família. Mãe, pai, irmã e sobrinhas. O resto chega no próximo fim-de-semana, a tempo para o casamento. Família, esta é Eva a minha noiva.
Viu-se submergida num mar de abraços e beijos. Toda a família, a acarinhando como se fosse parte integrante dela. A ela que nunca soubera o que era ter família. Não conseguiu conter as lágrimas.
- Então querida, o tempo é de risos, não de lágrimas - disse Sofia a mãe de André.
- Estou espantada. O André não me disse nada. Pensei que íamos jantar sozinhos!
- Não sabia se me ias perdoar. Trouxe a cavalaria, para te convencer, se eu não conseguisse – disse rindo.
- A julgar pelo que vemos, foste convincente, - disse a irmã, provocando o riso geral.
- É melhor irmos para a sala, ou ficamos sem jantar, - lembrou o pai. 
Eva, nunca iria esquecer, o jantar maravilhoso, e a simpatia de toda a família. A determinada altura, Giovanna, a futura cunhada, perguntou:
-Já pensaram onde vão fazer o casamento?
- Eva confiou em mim, e eu quero que seja um dia de sonho para ela. Conto convosco para tratarem das roupas e adereços. Do resto cuido eu. E o papá, se me quiser ajudar.
- Ficaria zangado se me excluísses.
- Então amanhã vamos às compras, - animou-se Isabella.
- A Eva está empregada. Tem que ir à clínica para apresentar a demissão. Depois podem começar.
- Não é tão simples assim. Tenho que dar um mês à empresa para arranjar substituta, - disse Eva
- Um mês? Nem penses nisso! Se for necessário, pagas a indemnização à empresa.
Depois de conversar com ela, André escolheu o momento do regresso a casa, perto da meia-noite, para anunciar à família a gravidez da noiva. E a alegria foi geral.



1.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXI


- Ainda não me respondeste.
- Sim?  É que quando me beijas, esqueço-me até do meu nome.
- Casas comigo?
- Sim.
- Quando?
- Quando quiseres.
- Amanhã?
Riu-se.
- Não se faz um casamento de um dia para o outro.
- Dez dias, "cara".
-É muito pouco.
- Não me subestimes. Deixas-me tratar de tudo. E garanto-te que casamos em dez dias.
 - Quero ver isso.
-Combinado. Dentro de dez dias.
   Ele olhou o relógio.
 - Vai mudar de roupa. Escolhe uma roupa bonita. Vamos jantar fora. Não te demores, ou ficamos sem jantar.
- Não me apetecia sair. Podíamos jantar em casa.
- Não se faz um jantar de noivado em casa. Vai, os convidados esperam-nos.
Apressou-se a fazer o que ele pedia. Convidados? Que convidados? Escolheu um vestido-túnica de lã preto, bem curto, e umas meias opacas da mesma cor. Completou o conjunto com botins de salto e um casaco cor de tijolo. Escovou o cabelo, pegou na bolsa, e considerou-se pronta.
Sentiu-se recompensada com o olhar de admiração com que ele a brindou.
- Estás linda. Vamos, antes que acabe por desistir do jantar. – Disse ajudando-a a vestir o casaco.
Na rua, ela entregou-lhe as chaves do carro e ele abriu-lhe a porta para ela entrar. Depois deu a volta ao carro, sentou-se ao volante mas em vez de por o motor a trabalhar, meteu a mão no bolso, e tirou uma pequena caixa.
- Tinha-me esquecido. Uma noiva não pode ir para o seu jantar sem anel.
Ela abriu a pequena caixa e retirou o anel  mais bonito que alguma vez tinha visto. Abraçou-o emocionada, sem conter as lágrimas.
- Vá lá "amore mio", se não paras de chorar, os convidados vão pensar que te vais casar obrigada.
E para esconder a sua própria emoção, pôs o motor a trabalhar e arrancou.
- Há uma coisa muito importante de que não falamos. Onde vamos morar? Eu gostaria de viver em Itália. Eu e o meu irmão temos a maior vinha, da Toscana,  perto de Greve in Chianti, cidade onde mora a minha família. Agora que deixei a polícia, é lógico que me dedique  a gerir a minha parte na vinha e liberte um pouco o meu irmão. Teríamos que viver com os meus pais, enquanto procuramos comprar a nossa própria casa. Pensas que podes viver lá?
-Poderei viver até no Polo Norte, se tu lá estiveres, amor. 
Parou o carro junto ao melhor hotel da cidade. Deu-me um beijo rápido e disse sorrindo:
-Diz-me isso, quando chegarmos a casa. Para que possa agradecer-te  de forma mais conveniente.



Nota:
Como os leitores antigos sabem, esta história é uma reedição, e na época em que a escrevi a Itália não estava como hoje a ser assolada por este vírus.

Aproveito para responder a algumas perguntas que me fizeram nos comentários de ontem.
1ª Qual será a nova profissão do André, a resposta está neste episódio.
2º Mas ele era ou não jogador e ganhou ou não a casa ao marido dela.
Claro que ele era jogador. Não poderia levar meses de investigação em nenhum casino apenas como mirone. Levantaria suspeitas. E não ele nunca jogou com o marido dela, a explicação foi dada num episódio que talvez não tenham lido. O marido dela andou desesperado pelas mesas fazendo a oferta a troco de uma quantia para continuar a jogar. André deu-lhe essa quantia, e ele voltou a perder.

12.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando duas horas depois, André voltou, a primeira coisa que viu, assim que Eva lhe abriu a porta, foi o seu rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados, indicadores claros de ter levado o tempo a chorar. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres por a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a por a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango,- disse ele ao voltar minutos depois.- Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Nunca ninguém tivera com ela gesto tão delicado, nem sequer o marido no tempo de namoro, muito menos depois de casados. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família, já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou será que temia que ele a embebedasse, para depois abusar dela?


5.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXV


As horas decorriam com lentidão e cheias de preocupação em casa do Gil. As empregadas mantinham-se caladas e Inês tentava acalmar Mariana, sem muito sucesso. Era como se a menina se apercebesse do ambiente pesado que se vivia em casa e isso a assustasse.
No fim das consultas, Laura dirigira-se a casa do irmão, disposta a não sair dali, enquanto não soubessem notícias dele. E pouco depois Alcides, o noivo, reuniu-se-lhe. Ambos, tinham tentado vezes sem conta, entrar em contacto com o desaparecido, mas o telemóvel mantinha-se desligado. Quase à hora do jantar, chegaram Marco e a esposa, Isabel, que apresentava um ar cansado, provocado sem dúvida pelo seu avantajado ventre, de grávida de sete meses.
Enquanto jantavam, procuravam tomar decisões sobre o que fazer para tentar encontrar Gil. Interrogavam-se sobre o que lhe teria acontecido, quando Alcides disse:
- Já vos passou pela cabeça, que o Gil pode ter sido raptado?
Os outros pararam de comer e olharam-no incrédulos.
- Não me olhem assim. Por mais que pense só me ocorre essa possibilidade. Vejamos, ele telefonou às dez e meia da noite a dizer que estava na autoestrada a caminho de casa. E que ia chegar tarde. Portanto vinha pela A1. Mesmo que a essa hora ainda estivesse na zona do Porto, e contando que com a tempestade, não poderia conduzir a grande velocidade, chegaria a casa o mais tardar às três da manhã. Mas não chegou. Segundo informação da polícia não há qualquer registo de acidente, e o carro dele não foi encontrado. Vamos supor que ele decidiu sair da autoestrada e pernoitar em qualquer sítio por causa da tempestade. Poderia não telefonar durante a madrugada, mas tê-lo-ia feito logo de manhã. E teria vindo para casa de seguida. O Gil sempre foi um homem muito responsável, e depois do nascimento da Mariana tornou-se ainda mais. Por outro lado, o vosso irmão, que já era dono de uma fortuna considerável, não só por via dos grandes contratos de futebol que teve, como do que recebeu em publicidade, mas também porque tem um excepcional diretor de recursos financeiro, que aplicou uma boa parte do seu dinheiro em negócios que já quadruplicaram o investimento inicial. E com o êxito dos seus livros, e a venda dos direitos para o cinema, será talvez neste momento, o homem mais rico do País e um dos mais ricos da Europa. Não é isso mais que suficiente, para pensarmos num rapto?
- Mas… se assim fosse não deveriam já ter ligado para pedir o valor do resgate?- perguntou Laura.
- Talvez, mas nem sempre os raptores telefonam imediatamente. Devem pensar que quanto mais tempo passar, mais a família fica preocupada e mais fácil é, cederem às suas exigências.
- E o que devemos fazer?- interrogou Marco
Se realmente houve um rapto, não podemos fazer nada a não ser esperar. Entretanto, amanhã vou à polícia e denuncio o seu desaparecimento. Como já terão passado mais de vinte e quatro horas, e dado o seu perfil, é possível que a polícia inicie de imediato as buscas.  Convém que um de vós como família, me acompanhe à esquadra.
- Eu vou contigo, - disse Laura de imediato.
- Amanhã de manhã, tenho uma reunião com um cliente. Mas se achas necessário eu também vou - disse Marco.
- Não será preciso, basta a Laura, a polícia vai querer falar contigo assim que inicie uma investigação, mas isso será mais tarde. 
Fez uma pausa, enrugando a testa como se estivesse a pensar nos passos a seguir, e continuou:
- Depois como seu advogado e procurador, vou ao banco saber se houve algum movimento na sua conta. E pedir que nos avisem de imediato se isso acontecer.  Feito isso, só nos resta esperar.
O resto da refeição decorreu em silêncio. Nenhum  se atrevia a dizer em voz alta o que lhes ia na cabeça, mas todos tinham a certeza de que algo muito grave tinha acontecido.
Pouco depois do jantar, Marco disse que ia regressar a casa, alegando que a esposa estava muito cansada e precisava descansar. Perto da meia noite, também Alcides se despediu, pois Laura decidira ficar a viver em casa do irmão, até que houvessem notícias.




21.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IV





Pousou o telemóvel sobre a mesa-de-cabeceira, e dirigiu-se  à casa de banho.  Despiu-se, enfiou a roupa que acabara de despir,  no cesto da roupa suja, abriu a torneira da água e meteu-se debaixo do chuveiro.  Depois do duche, enxugou-se, enfiou o robe sobre o corpo nu e regressou ao quarto. Retirou do armário umas calças de ganga e um suéter que vestiu. Voltou à casa de banho, pendurou o roupão no cabide atrás da porta  e olhou com desconfiança a imagem que o espelho lhe devolvia. Pese toda a atração que provocava no sexo oposto, Gil nunca se considerara um homem bonito. Podia reconhecer que no conjunto dos seus traços, tinha um aspeto agradável, mas bonito não era. Todavia a imagem que naquele momento, o espelho lhe devolvia, nada tinha que merecesse um segundo olhar.  Certo que continuava a ter um porte atlético, mas os olhos mortiços e rodeados de olheiras, o olhar cansado, a barba incipiente de quem passara o dia sem se barbear, o ricto amargo na boca e o cabelo húmido, estavam longe de lhe dar um ar muito atraente. Respirou fundo, passou os dedos pelos cabelos, puxando para trás uma madeixa rebelde, endireitou a gola do suéter azul, e apertou o cinto nas calças de ganga. Por fim saiu da casa de banho, desceu as escadas e dirigiu-se ao seu escritório. 
O jantar seria às oito como era hábito, ainda tinha tempo para ver o correio, e verificar alguns documentos que precisaria para o dia seguinte. Depois ao serão analisaria a proposta que Luna, a sua agente lhe fizera chegar. Precisava embrenhar-se no trabalho a fim de esquecer por algum tempo, o hospital, Sara e Mariana a sua filha. Gostava de pensar nela dando-lhe o nome que iria ter, e não como uma bebé. Era uma estupidez, o seu lado prático reconhecia-o, mas no seu coração era como se ao pronunciar-lhe o nome lhe enviasse um sopro de vida que a fortalecesse.
Mariana, fora o nome da sua mãe. Uma mulher humilde e trabalhadora que criara sozinha os três filhos, já que o marido, um mulherengo incorrigível, a quem ela ia perdoando todas as traições, acabara por troca-la por outra mulher mais jovem, logo após o nascimento de Laura, a mais nova dos três irmãos. Por isso, ele escolhera esse nome para a filha. Como uma homenagem e um agradecimento à mulher que tanto os amou e tanto se sacrificou por eles. Pena que tivesse morrido tão jovem, sem que ele pudesse dar-lhe a velhice que ela merecia, mas o maldito cancro acabara com ela em menos de um ano, precisamente na altura, em que ele ia assinar o primeiro grande contrato da sua vida. Graças a isso pôde montar a pequena empresa de artigos desportivos, com que o irmão sonhava e pagar a Universidade à irmã.
Depois foram oito anos em que somou verbas astronómicas não só com o futebol, mas também com os contratos publicitários. O nome de Gil Gaspar, tornou-se no toque de Midas. Foi já nos anos finais dessa época dourada que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher.
Sara era uma jovem completamente desconhecida, muito bonita e com uma excelente figura, que sonhava vir a ser modelo, e que um agente de publicidade descobrira e convidara para fazer par com ele numa campanha publicitária.
Era uma beleza, mas mais do que isso foi a sua timidez e o seu ar ingénuo que os encantara, a ele e ao fotógrafo.
O anúncio fora um êxito, e a agência convidara-a para alguns desfiles, mas o mundo da moda é um mar de intrigas e interesses, onde é preciso muito mais do que uma carinha bonita e algum talento, para se chegar ao cume.