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15.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LV

 

Os dois homens, entraram na sala, enquanto Anabela se dirigia à cozinha para avisar Isilda de que podia levar a merenda à salinha e perguntar se ela precisaria de alguma ajuda para o jantar. Depois subiu ao seu quarto despiu a bata, tomou um duche e vestiu um conjunto de lã cor-de-mel.

Como Isilda dissera que não precisava da sua ajuda, e o dia apesar do frio intenso, se apresentava bonito, resolveu dar uma volta pela quinta. Hesitou entre o casaco de fazenda grossa, castanho e o casaco parka verde-azeitona, acabando por escolher o último por ser mais quente. Calçou as botas e sentindo-se confortável, desceu as escadas e saiu. 

Olhou o relógio. Quatro e meia da tarde. No fim do ano, os dias eram bem curtos e não tardaria a cair a noite. De qualquer modo ela não sairia da quinta, precisava apenas esticar um pouco as pernas e para ser sincera consigo mesma, também não se sentia muito à-vontade com os dois homens. Peter era simpático, extrovertido e um pouco brincalhão, diferente de Tiago que era um homem sério e muito intenso. Curioso como dois homens tão diferentes podiam ter uma relação de amizade, tão forte. Talvez fosse verdade a história de que polos opostos se atraem.

A bem da verdade, não era Peter quem a inibia, mas sim Tiago. Ela não sabia que se teria passado naqueles dois dias que esteve ausente, para as festas de Natal, mas embora Isilda, não se tivesse apercebido de nada especial, ela sabia que alguma coisa acontecera, e tinha de ter sido muito importante, porque o doente que ela deixara, não era o mesmo que encontrara. 

 A indiferença que ela lia nos olhos dele, tinha sido substituída por algo que ela juraria ser... desejo, talvez paixão. A rebeldia tão frequente anteriormente, tinha desaparecido. Tiago estava muito mais calmo, aceitava sem contestar e executava com entusiasmo todos os exercícios que ela lhe mandava fazer. Às vezes, Anabela tinha mesmo de se impor, a fim de que o entusiasmo masculino, não o levasse a cometer nenhum excesso que viesse a prejudicar o que já tinham conseguido.

Tinha de telefonar ao doutor Azevedo. A sua presença ali, já não se justificava, embora Tiago ainda tivesse de fazer mais algum tempo de fisioterapia, já podia fazê-lo em qualquer clínica, pois mesmo que ainda não pudesse conduzir, Joaquim que era um verdadeiro faz-tudo na propriedade, podia conduzir por ele. Afinal era ele que o fazia, sempre que era necessário ir às compras.

A noite caíra e com ela o frio intensificara-se. Anabela levantou o capuz, tentando proteger-se e iniciou o regresso a casa. Talvez Isilda precisasse de ajuda na cozinha.  Na quinta, o jantar era servido mais cedo que na cidade, e eles tinha em casa um convidado.

13.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVIII

 




Os dias na aldeia passavam rapidamente. Os pais de Helena simpatizaram com Fernando, que também parecia à-vontade com eles. Os dois homens, e o menino,  tinham enfeitado a casa, enquanto ela e a mãe se dedicavam a juntar todos os ingredientes para uma ceia de Natal, repleta de boas iguarias.

E chegou enfim a noite santa. A família ia cear mais ou menos na hora do costume, queriam estar despachados quando chegasse a hora de irem à missa do galo. Depois da missa abririam os presentes.

António, o pai de Helena, tinha ligado a televisão a fim de ver o telejornal. De súbito, uma notícia, chamou-lhes a atenção. A Orquestra Nova do Porto, que se encontrava em digressão pelos Estados Unidos, apresentara às autoridades de Nova Iorque uma denúncia por desaparecimento do seu pianista, o jovem Fernando Corte-Real, que ali faria a sua estreia como solista, na primeira parte de um concerto. 

O jovem que por motivos pessoais, não viajara com os restantes membros da orquestra, fizera-o no dia seguinte.
Havia o registo da chegada dele, ao hotel em Los Angeles, cidade onde a orquestra deu o seu primeiro concerto, no passado dia quinze, mas ele não foi visto depois do registo, nem apareceu nos ensaios nem na hora da atuação.

E  também não apareceu para o concerto em Nova Iorque que se realizara nas vésperas. O pianista que é tido pelos colegas como um homem muito talentoso e responsável, não aparece nem dá notícias, desde o seu registo no hotel de Los Angeles, no passado dia cinco de Dezembro.
 No fim da notícia, a foto do pianista, tirou todas as dúvidas aos dois jovens.

-Meu Deus – disse Helena apertando a mão de Fernando cujo rosto estava extremamente pálido. Como é possível, teres feito o registo no hotel em Los Angeles, se nessa data estavas hospitalizado em Lisboa?
Felizmente os pais dela, estavam distraídos com as gracinhas do neto e não se aperceberam de nada.
- Desculpem-nos, - disse Helena. O Fernando não está bem, tenho que lhe dar um analgésico. Sequelas do acidente que teve no princípio do mês.

- Mas não comeram quase nada!- protestou a mãe dela.
- Já comemos quando voltarmos. Ou depois mais tarde. Não se preocupem. Porta-te bem com os avós, Diogo.
Ele dirigiu-se ao quarto que lhe tinham destinado, e ela seguiu-o




Nota:

Amigos, os pais da Margarida vão entrar de férias, e nós vamos aproveitar para tentar espairecer e recarregar baterias. Os recentes problemas de saúde, meus e do marido, aliado aos meus problemas de visão e ao resultado da biopsia do marido que nunca mais chega, têm-nos deixado de rastos. E depois há esta princesinha que adoramos, mas que como é normal está cada dia mais traquina e cansa mais. Como sabem tentamos ir de férias quando os pais tiveram  os primeiros quinze dias de férias em Agosto, mas problemas de saúde obrigaram-nos a regressar. Esperamos melhor sorte desta vez. Os posts estão programados até ao fim do mês, porque lá não tenho internet.



3.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE I



A manhã ainda não tinha alvorecido no horizonte quando Teresa se levantou. Enfiou um robe e foi à cozinha onde pôs duas fatias de pão na torradeira, tirou do frigorífico duas laranjas e preparou um sumo. Saboreou o pequeno almoço com gosto.  Quando terminou, lavou o prato e o copo e foi para a casa de banho.
Escovou os dentes, prendeu os seus longos cabelos castanhos no alto da cabeça, cobriu-os com uma touca, despiu-se e entrou no duche. Quando terminou enrolou ao corpo uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, donde tirou um conjunto de roupa interior de algodão aos quadrados.
Retirou a toalha do corpo e vestiu-o. Olhou-se ao espelho. Não eram peças finas, de seda e rendas, mas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao corpo, eram cómodas, e isso era o que lhe importava, não pretendia seduzir ninguém. Vestiu umas calças de ganga, e um camiseiro branco. Tirou a touca, desprendeu o cabelo, escovou-o e prendeu-o numa trança. Calçou uns ténis brancos, puxou a roupa da cama para trás, e abriu um pouco a janela a fim de arejar o quarto, saindo em seguida.
Na cozinha, pegou nas chaves da casa, e no telemóvel que meteu no bolso das calças e abrindo a porta que dava para as traseiras, saiu. Contornou a habitação, uma casa térrea, pintada de branco como quase todas as outras da aldeia, passou pela porta principal e seguiu em direção ao fundo da rua.
O sol apenas despontava no horizonte, mas ali acordava-se cedo. A maioria dos homens, já se encontrava nos terrenos, cavando ou regando, que Junho estava no fim, e era necessário aproveitar aquelas horas, já que pelo meio-dia, o calor começava a apertar e de tarde era impossível fazer trabalhos ao ar livre.
- Bom dia Teresa! – saudou uma mulher que dava milho às galinhas no seu quintal.
- Bom dia, dona Arminda. Como vai a senhora?
- Como Deus quer, filha, como Deus quer. Sempre com o coração apertado com muitas saudades da minha Lena, mas que fazer? Deus quis assim, há que aceitar, a Sua vontade!
- É a vida dona Arminda. Cada um procura o sítio onde pode ter melhor vida. O que interessa é que ela e a família estejam bem. E não tarda chega Agosto e estão aí todos para matar saudades. Vou andando. Até logo
- Vai com Deus - respondeu a mulher
 Teresa continuou o seu caminho. Ao chegar ao fundo da rua, a principal da aldeia, virou à esquerda, e entrou num pedaço de terreno onde pontuavam apenas meia dúzia de oliveiras, e a erva crescia solta, por todo o terreno  que se estendia até ao ribeiro, onde tantas vezes em menina se banhara nos dias de maior canícula.
Ao chegar ao leito do mesmo, agora quase seco devido ao calor intenso que se fizera sentir durante todo o mês, sentou-se numa pedra e olhou ao seu redor. Na sua frente do outro lado do ribeiro, para lá dos campos de milho, erguiam-se as montanhas. Atrás de si, o campo inculto que atravessara, e que lhe pertencia, destoava dos campos de outros vizinhos, todos cultivados com os mais diversos legumes, que o cercavam.
-Bom dia, Teresa! Por cá de novo?
Levantou a cabeça. Ali perto um homem de cabelos brancos com umas quantas cebolas numa mão e o boné na outra, os pequenos olhos meio escondidos entre as rugas, mirava-a.

6.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a secretária do causídico, aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – perguntou a secretária, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Voltaram a entrar no gabinete, onde o advogado retomou a leitura do documento. Quando terminou, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património, que o meu marido, deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal a casa era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses na casa, com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, estou apenas a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou ainda que seja de maioridade, se  é incapaz de sobreviver sozinha, o que, como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo, terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. O resto,  suponho que o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado, na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?

23.11.19

PARA MEDITAR

Perguntaram ao Dalai Lama...
"O que mais o surpreende na humanidade?"
E ele respondeu:
Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.


Bom fim de semana

7.10.19

CONVERSA DE AUTOCARRO


Na Sexta-Feira, depois de mais uma sessão de fisioterapia, apanhei o autocarro com de costume para regressar a casa. Na paragem seguinte entram várias pessoas que se vão sentar na parte de trás do autocarro portanto por trás de mim que me encontrava no primeiro banco logo a seguir à porta de saída. Quando o carro arrancou, oiço uma voz forte e mesmo sem querer ouvi o seguinte:
Voz forte : - Só mesmo à chapada.
Voz masculina, mais suave: - Temos que respeitar as mulheres.
Voz forte - Eu respeito as mulheres. Respeito-as mais do que elas se respeitam umas às outras. Só sabem falar da vida umas das outras, a minha vontade quando oiço certas coisas é dar-lhes um par de chapadas.
A voz suave disse qualquer coisa que eu não consegui entender e a voz forte retorquiu:
-Ó pá não me lixes, paciência tem limites.

Na paragem seguinte saiu muita gente, os dois saíram de certeza porque não voltei a ouvi-los. E vim para casa a pensar que há homens com uma noção muito errada do que é o respeito.


                                       *************

Vamos a ver se esta semana consigo pôr as visitas em dia. Por mais que o deseje, a coisa não está fácil. O olho direito anda muito choroso, o esquerdo não vê.  Telefonei ao médico a perguntar se podia pôr as gotas de Frisolona que ponho no esquerdo nos dois olhos, ele disse que não, mandou comprar gotas de Ocular para pôr no direito e mandou-me descansar

9.9.19

VIDAS CRUZADAS- PARTE I

Reedição 






A história que hoje aqui se inicia, decorre no final dos anos cinquenta do século passado.  Muitas das coisas que vos relato, seriam impensáveis hoje em dia. Na verdade, penso que nunca em século algum, a história da humanidade evoluiu tanto, como nos últimos sessenta anos.

                                  
                                                 I
Aquele dia, de início de Junho apresentava um sol radioso e quente num céu sem nuvens, quando Pedro saíra do emprego, duas horas antes do horário habitual de saída.
 Era um homem jovem, completara vinte e oito anos no mês anterior. Alto, moreno, de grandes olhos castanhos, e cabelo castanho tão escuro que por vezes chegava a parecer preto, tinha uma boca grande, de lábios carnudos, que ao sorrir mostravam uma fileira de dentes perfeitos e acentuavam a covinha do queixo. Um daqueles homens que fazem suspirar as mulheres, e as põem a sonhar. Ele, no entanto, parecia nunca ter-se visto ao espelho, já que não mostrava dar-se conta do belo homem que era. Saía de casa para o trabalho e deste para casa, onde vivia com a sua velha mãe, que adorava. Na verdade, quando ele nascera, já há muito a mãe tinha perdido as esperanças de vir a ter algum dia um filho, pois já ultrapassara os quarenta e três anos. Fora até aconselhada por algumas vizinhas a não deixar ir adiante uma gravidez tão tardia. Podia ser perigoso. Profundamente religiosa, como a maioria das mulheres da época, sempre respondia, que segundo a Bíblia, Sara era muito mais velha quando ficou grávida, e que a Deus nada era impossível. E a verdade é que a gestação e o parto decorreram sem problemas.
Cinco anos depois dessa enorme alegria, quis Deus chamar o seu companheiro de toda a vida, o seu grande amor, e Alice viu-se sozinha com o filho para criar.
A vida era difícil mas o falecido, que fora militar,  deixou uma boa quantia, fruto de  um seguro de vida que ela nem sabia que ele tinha. Depois, sempre fora uma mulher poupada, tinha amealhado ao longo dos anos algumas economias, e assim Pedro recebeu uma boa educação, e se não foi para a Universidade foi porque não se interessou por isso e preferiu empregar-se logo que fez o quinto ano na Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, no Barreiro, cidade onde vivia.
O jovem adorava a mãe, que ele sabia ter feito todos os possíveis para lhe suprimir a falta do pai, de quem nem se recordava muito bem.
 Quando fora às sortes, entregou os papéis como amparo de mãe, e assim vira-se livre de uma mais que provável ida para o Ultramar. Nunca pedira nada demais à vida, sempre se sentira feliz com o que tinha. Ultimamente porém, algo de estranho se passava com ele.



3.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVI






-Suponho que ficarás para a festa - disse Gabi quando o almoço terminou
-Só até ver que tudo está a correr normalmente. Depois deixo-vos, que a festa é vossa, não minha.
- Eu gostaria de te pedir um favor especial. Podes ajudar a vestir-me?
-Claro que sim. Queres subir agora?
- Sim. Já passa da uma e meia, daqui a pouco estão aí os primeiros convidados.
-Vamos então. Mas espera, deixa-me ir ao carro buscar o meu vestido?. Posso vestir-me no teu quarto, não posso?
-Decerto que sim. Vai lá então buscá-lo.
Paula saiu e voltou pouco depois com o vestido e uma pequena bolsa. Subiram as escadas e entraram num dos quartos de hóspedes, em cuja cama se encontrava estendido o vestido de Gabi.
Paula pendurou o seu  no armário, e aproximou-se do leito para admirar o belo vestido.
-Não é lindo?- perguntou Gabriela.
- Maravilhoso.
-Era o mais belo da loja. Quando o Eduardo me pediu para escolher um vestido para uma cerimónia, que o Júlio queria oferecer à noiva, calculei logo o que ele e o meu irmão estavam a tramar. Os homens julgam-se muito inteligentes, mas não têm jeito nenhum para inventar uma história credível.
A jovem ia falando enquanto tirava as calças e a túnica que envergava, ficando apenas com umas minúsculas cuequinhas e o sutiã.  Paula pegou no vestido, uma maravilha de seda e renda em tom de champanhe, abriu o fecho e ajudou a jovem a vesti-lo. Tratava-se de um modelo comprido, sem mangas, de cintura vincada, a parte superior em renda e a longa saia em seda. O modelo apresentava um discreto decote em V na parte da frente, que se tornava muito mais generoso na parte de trás deixando as costas quase totalmente nuas, pelo que a jovem teve que tirar o sutiã.
-Estás linda, -elogiou Paula.
- Obrigada. Importas-te de me colocar a tiara? E diz-me uma coisa, há quanto tempo conheces o meu irmão?
- Há quinze dias, desde que foi à minha empresa contratar-me para realizar esta festa, - respondeu enquanto retirava da caixa uma bonita tiara de flores e pérolas e lha colocava na cabeça. Porque perguntas?
- Fiquei surpresa quando soube quem eras.
-Porque o teu irmão odeia o meu pai?
-O que sabes disso?
-Nada, a não ser isso. E tu?
Após uma breve hesitação Gabi respondeu:
-Era muito jovem quando tudo aconteceu e nem ele nem a minha mãe me quiseram dizer o que se passava. Só sei que foi por causa do teu pai que o meu irmão emigrou e esteve muitos anos longe de nós. Meu Deus são duas e meia. Onde estarão os meus sapatos?
Paula percebeu que estava a mentir. Ela sabia o que se tinha passado mas era evidente que não lho ia dizer. Por isso retirou os sapatos da caixa e passou-lhos dizendo:
-Se já não precisas de mim, vou-me arranjar. Preciso saber se o músico e o serviço de restaurante já cá estão e se está tudo em ordem.
-Claro. Adorei conhecer-te e espero que venhamos a ser boas amigas.

14.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE I





Eram muito diferentes os dois homens que se encontravam naquele escritório, embora fossem os dois empresários do mesmo ramo.
António, o mais jovem, era um homem alto, de ombros largos. Andaria perto dos quarenta anos, tinha cabelo de um tom, algures entre o castanho-escuro e o preto, ponteado por algumas cãs, e os olhos tão negros como dois poços sem fundo. No rosto moreno, sobressaía a boca bem desenhada, de lábios grossos, que muito raramente se abriam num sorriso franco e bonito. O queixo quadrado voluntarioso era parte integrante do seu carater forte. Vestia com elegância um fato cinzento e era um poderoso empresário, dono da maior imobiliária do país, e também de uma cadeia de restaurantes. 
O segundo homem era alto, magro, de pele clara e o pouco cabelo que a calvície deixara era castanho claro quase loiro. Vestia um elegante fato castanho, estava pálido e nervoso. Era dono da segunda maior imobiliária do país, mas não parecia de modo algum um homem feliz.
- Estas são as minhas condições, - disse o mais jovem. Posso ajudá-lo a reerguer a sua empresa, ou afundá-lo de vez. A decisão é sua.
- É cruel e imoral.
O homem mais jovem soltou uma gargalhada seca.
- Imoral? E não foi imoral o que você fez comigo há dezoito anos? Quando me expulsou da sua empresa tratando-me como um reles ladrão? E não é imoral, ter vindo recorrer precisamente a mim, para o salvar da sua má e irresponsável gestão? Acaso sabe o que eu sofri e lutei numa terra estranha, sem ninguém para me apoiar, a fim de conseguir chegar onde hoje estou?
-A minha gestão não seria tão má se por trás não estivesses tu e a tua vingança.
-Talvez. Mas agora já sabe a minha resposta. Vai dar-me um enorme gozo casar com a filha do homem, que me acusou de ser ladrão. E me obrigou a deixar família e amigos, para não ver nos seus olhos a censura por algo que não fiz.
- Não conheces a Paula. Ela não vai aceitar.
E eu executo a hipoteca, e anexo a sua empresa à minha. Sem problemas. E agora se não se importa tenho uma reunião dentro de dez minutos. Tem oito dias para me dar uma resposta. Boa tarde. 
Chamou a secretária e pediu: 
- Menina Tavares acompanhe o senhor Maldonado por favor. E faça entrar o cliente que espero, logo que ele chegue.
 

28.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIV



Deixou-se cair na cadeira, e ocultou o rosto nas mãos. As palavras de Clara foram como um punhal que se lhe cravara no peito. Doera-lhe. É claro que ele amava os filhos. Não em demasia, ninguém ama demais, simplesmente porque não existe medida para o amor. Ou se existia, ele desconhecia. Mas que importava isso? Ele nunca soubera muito de amor, o que sabia, era que daria a sua vida por qualquer um deles, se necessário. Apesar disso, tinha a noção, de que só o seu amor não lhes bastaria. Ele sabia que decisão tomar, para salvar a vida dos seus homens, em caso de perigo eminente, mas não sabia como cuidar de uma criança no dia-a-dia. Ele seria capaz de prestar os primeiros socorros a um dos seus homens que fosse ferido, mas ficava sem ação, quando um dos seus filhos caía e se feria.  No quartel, diziam que ele era um homem frio, a quem nada nem ninguém fazia perder o controlo. Não era verdade. Quantas vezes, apertou os punhos, e cerrou os dentes para não gritar, o que lhe ia na alma?
Aprendera de menino a amordaçar a dor, cada vez que a madrasta mandava para o lixo um brinquedo, só porque reparara que ele gostava muito dele, cada vez que o pai se ausentava do país, e ela o atormentava. Ele aprendera a odiar, numa idade em que as crianças não devem conhecer outro sentimento, que não o amor. A ida para casa da avó materna, fora um alívio, mas também nela não encontrou o amor que o fizesse esquecer o que ficava para trás. A avó perdera o marido e a filha, no curto espaço de um ano, e desde aí fechara-se no seu mundo de sofrimento, recordações e saudade, alheando-se de tudo o que se passava à sua volta. Ricardo crescera assim num mundo inóspito, onde o único oásis era Antónia, a empregada da avó. Ela fora o único ser, que gostara verdadeiramente dele. Ela e o Farrusco, um S. Bernardo escanzelado, que aparecera um dia na quinta e que por lá ficara. Mais tarde, quando ingressara no Colégio Militar, regressara à casa paterna, mas Ricardo nunca tivera coragem de contar ao pai, o que a sua mulher lhe fazia, quando ele não estava por perto. Nem mesmo depois da morte dela, quando ele já tinha vinte anos. Para quê atormentar mais o pai, se o mal já estava feito e era irremediável?
Tendo compreendido o ciúme doentio da madrasta, Ricardo afastara-se gradualmente do pai. Deixou de procurar a sua companhia quando ambos estavam em casa, e procurou estar nela o menos tempo possível. Quando Irene morreu, ele e o pai eram pouco mais que dois conhecidos de ocasião. Talvez por isso, o pai não lhe tivesse contado, quando descobriu que era portador de um cancro no Pâncreas. E como ele se sentia melhor no quartel que em casa, só se apercebeu quando era demasiado tarde. O pai já tinha morrido há onze anos e ele ainda se culpava, por não ter estado presente quando o pai mais precisara dele.
Clara tinha razão. Ele tinha que repensar toda a sua vida. Afinal, acabara por fazer o mesmo que o seu pai. Pusera a vida e o futuro dos seus filhos nas mãos de uma desconhecida, querendo que ela os tratasse e cuidasse como filhos. E se ela fizesse com eles o que Irene, fizera com ele? É certo que o relatório do investigador, dizia que era pessoa estimada por todos e que cuidara do irmão como todo o desvelo, e fora isso que o levara a contratá-la. Mas o irmão era do seu sangue, os seus filhos não lhe eram nada.
Não, Clara não era como Irene. Se o fosse não lhe tinha dito tudo o que lhe dissera minutos antes. Ou diria? Ricardo nunca se sentira tão inseguro.
Sossegou-se ao pensar que Antónia lhe diria se alguma coisa corresse mal. Ela estava com ele, desde que a avó morrera e Ricardo herdara aquela quinta. Na altura, Alfredo o marido dela, trabalhava numa herdade vizinha, e a pequena quinta estava abandonada. Ricardo mandara construir uma casa mais pequena, um pouco afastada da principal, contratara Alfredo como caseiro, e os dois ficaram a viver ali.
Antónia tivera um filho que morreu de meningite com dois anos de idade. Depois disso, ou por impossibilidade, ou por vontade própria, não voltara a ser mãe. Mas o seu instinto maternal era muito forte. Fora o mais parecido com uma mãe que ele tivera.
Ela adorava os seus filhos e tinha a certeza de que lhe diria imediatamente se notasse algum comportamento impróprio de Clara.
Essa certeza, fazia com que partisse mais descansado. Antónia, era a única mulher no mundo em quem ele confiava.


Esta história volta Segunda-feira. E ontem foi dia de novos exames médicos. Resultados só  a 7 de Outubro. Bom fim-de-semana

7.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVIII




Tinham-se conhecido, muitos anos atrás. Miguel tinha dezanove anos, era estudante. Olga, quarenta e era uma mulher  muito bela, alegre, que vivia dos favores que o seu corpo proporcionava aos homens. Ganhara fama a sua beleza, e era procurada pelos homens mais ricos da cidade. Mas também por jovens estudantes, que gastavam no seu leito, a maior fatia das suas mesadas. Miguel fora um desses estudantes.
Era muito novo, quase um rapazinho. Ele apaixonou-se pela bela mulher, que lhe ensinava todos os prazeres do sexo, despertando-lhe, sentidos e emoções, nunca antes experimentados.
Ela gostou do rapaz que a tratava com cuidado e carinho, fazendo-a esquecer-se da realidade da sua vida, para se sentir apenas uma mulher amada. Foi tão intenso, que Miguel, um sonhador com alma de poeta, como ela costumava dizer, chegou a pedir-lhe para ficarem juntos, mesmo que para isso  tivesse de abandonar os estudos, e ir trabalhar para a sustentar. Ela não se iludia. Sabia que mais dia, menos dia, Miguel ia encontrar alguém,da sua idade, e nunca mais punha os pés na sua casa.
E isso aconteceu, uns tempos depois, quando Miguel se apaixonou por uma colega na universidade. Lembrar-se-ia sempre, da tarde em que chegou com o ar mais sério do mundo, e lhe contou, pedindo-lhe desculpa, por ter traído o seu amor.
Para ela não foi nenhum drama. Nunca tivera ilusões. E aquilo, era o rumo natural da vida.
Pensou que ele nunca mais ia aparecer. Seria o que faria qualquer outro no seu lugar. Mas Miguel não era qualquer um. Era um ser especial como ela não conhecera outro na sua vida.
Apesar de nunca mais, se ter deitado  na sua cama, de vez em quando,  Miguel aparecia por lá. De manhã, sabendo que estava sempre sozinha nessa altura.
Conversavam um pouco, bebiam um chá e ia-se embora antes da hora  do almoço. E foi assim ao longo dos anos, antes e depois, dela ter largado a 
"vida", e se ter tornado uma simples e idosa dona de casa.
 Às vezes não aparecia durante um ano ou mais. Mas quando alguma coisa o incomodava, era com ela que ia desabafar. Como quando os pais morreram. Ou como agora.
- Não te atormentes. A história é totalmente diferente. Desde logo, porque uma mulher de vinte anos é muito mais madura, do que tu eras nessa idade. Não confunde sentimentos, sabe muito bem o que quer. Depois, nem tu nem eu nos amávamos, embora na altura pudesses ter pensado que sim. Tu ficaste deslumbrado, pela mulher mais velha, que te despertava os sentidos. Eu, gostava do  rapazito, que me tratava como se eu fosse uma princesa. Nada mais. 
Entre nós, nunca houve amor, Miguel. Atracção física, troca de experiências, um pouco de carinho, talvez. Mas, amor não. Nenhum de nós traiu o outro, porque não há traição, onde não há amor.
Anda, vai para casa. Escuta o teu coração. E se realmente, amas a rapariga, aproveita a oportunidade que a vida te dá e sê feliz. O tempo passa rápido, e quando damos conta, a vida está no ocaso como o sol no fim do dia.
Miguel não queria ir para casa, Não naquela noite. A tensão, a que obrigara o corpo, deixara-o de rastos. Estava muito cansado, sentia-se sem forças, não queria tomar uma decisão que ia mudar a sua vida naquele momento. Podia vir a arrepender-se.E traria mais sofrimento para a vida da jovem. Perguntou:
- Posso, ficar aqui, esta noite?
- Claro que sim. Vou buscar um cobertor que a noite está fria.
Quando voltou, já Miguel dormia estendido no sofá. Tirou-lhe os sapatos, estendeu sobre ele o cobertor, apagou a luz e retirou-se em seguida.







4.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIV




Os dois homens, tinham acabado de sair do hospital, e dirigiam-se para o carro.
-Falaste com o cardiologista da mãe?
- Falei. Disse que está tudo a correr bem, e que se tudo continuar assim, dentro de dois dias, lhe vai dar alta. Não vejo a hora de a ter em casa. Além desta canseira todos os dias de viagem, as horas que passo sem estar a seu lado, estou sempre preocupado a pensar no pior.
- O que importa é que está tudo bem e em breve ela vai para casa. Vamos jantar? Não comi nada desde o almoço e estou cheio de fome, -disse pondo o carro em marcha e dirigindo-se para a saída do hospital.
-Eu fui ao bar do hospital a meio da tarde para lanchar. Estar muitas horas sem comer faz mal, e não tinha piada, a tua mãe ficar boa e eu adoecer.
- Fizeste bem, mas eu estive grande parte da tarde com a Helena no hospital, e depois fui levá-la ao hotel e fui ver a mãe. Não tive tempo de comer. Vamos jantar ao Nacional, desde que a mãe veio para o hospital, só temos comido carne, e eles são famosos com os pratos de bacalhau.
Estacionou o carro junto ao restaurante e entraram. Cláudio escolheu um bacalhau no forno, o pai optou por um bacalhau à Gomes de Sá, acompanhado por um tinto Dão Campolargo.
- Parece que essa Helena te impressionou, filho.
-Talvez. Consegui convencê-la a almoçar comigo amanhã. Depois se verá. Pode ser que me desiluda e tudo acabe amanhã mesmo, ou que pelo contrário me interesse e tente saber onde posso encontrá-la depois.
- Eu e a tua mãe estamos desejosos que te interesses a sério por alguém. Já vai sendo tempo de sermos avós.
- O que vocês querem é verem-se livres de mim, - disse a rir.
Acabaram a refeição em silêncio. Cláudio pensava que o casamento era algo muito sério. Admirava a relação de amor que ligava os seus pais. Era difícil na atualidade encontrar casais assim. Os seus amigos que tinham casado, ou estavam divorciados ou iam a caminho disso. Alguns já iam no segundo divórcio. Ele não queria correr esse risco. Para casar teria que encontrar alguém especial.
Apesar de os dias serem ainda grandes no final de Agosto, já se notava a diferença, em relação ao mês anterior e quando saíram do restaurante já tinha anoitecido. E até chegarem a casa ainda tinham mais de uma hora de estrada.
Pouco depois entravam na EN 31 de regresso a casa. No dia seguinte pela manhã, fariam a viagem em sentido inverso. Era assim todos os dias desde que há uma semana, Carmo, tinha entrado no hospital em Coimbra para uma Cirurgia de Revascularização Miocárdica.




Para os que me perguntam pela saúde.
Eis o resultado da TAC






20.2.18

ENTRE DUAS DATAS - PARTE III




                                                                foto da net



Os últimos homens galgavam as escadas a correr. Mais gritos, mais risos, mais lágrimas. Os olhos de Clara ficaram presos num belo moço que subia lentamente as escadas, como se não tivesse pressa de chegar. Filho de uma viúva, moradora ali ao lado na Telha, antigo companheiro de brincadeiras, o jovem  alto e robusto, parecia carregar nas costas o  peso do universo.
 Aproximou-se dele, e saudou:
- Olá Pedro, como estás?
-Olá rapariga, - respondeu no seu vozeirão forte. - Como queres que esteja, um homem como eu? Não vês tu? Toda esta gente está feliz, contente, e olha para mim? Que diferença entre este dia e o outro no ano passado. Também eu nessa altura galguei estas escadas quase sem as ver. Também eu tinha aqui a minha mulher, à minha espera. E hoje... hoje...
As últimas palavras morreram num som rouco que mais parecia um soluço.
- Olha Pedro, é verdade que estiveram quase a afundar-se durante um temporal? - Clara tentava assim afastar maus pensamentos da mente do jovem.
- É verdade sim. Foi quando saímos dos bancos de pesca, da ilha de Baffin, a caminho da Gronelândia. Fomos apanhados por um violento temporal. Partiu-se um guincho, e ao cair apanhou o barco inclinado por uma vaga maior, provocou um pequeno rombo no casco do navio e começámos a meter água. O motor parou. Todos estávamos assustados. Chegámos a pensar que não saíamos dali com vida. O vento forte, e as vagas altas, atiravam o barco de um lado para o outro, como de dançasse uma música infernal. Uns rezavam em voz alta, outros apertavam ao peito as fotografias da família. E entretanto afundávamo-nos irremediavelmente. Foi então que o Santos, o contramestre gritou:
- "Que fazeis aí parados, homens de Deus? Deixai-vos de choros idiotas, ou ides servir de jantar aos peixes. Venham aqui ajudar, rápido. Mulheres que fossem, não estavam tão assustadas." Não sei o que cada um sentiu. Mas lutando contra o vento, presos a cordas por causa das ondas que varriam o convés, descemos ao porão e tentámos tapar o buraco. Eu fui para a bomba tirar a água, o Santos, o Ti'Amadeu, e mais seis homens lá conseguiram depois de muito esforço tapar o buraco. Incrível como um rombo tão pequeno metia tanta água, e fazia tanta pressão. O Jorge da Rita agarrou uns desperdícios, e de escopro e martelo foi calafetando à volta da tábua nova que os homens tinham pregado sobre a de estava a deixar passar a água. Tivemos ainda que lutar com o temporal durante um bom par de horas, mas a questão da água fora resolvida.

Continua 


17.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXX


Os três homens puseram-se de pé, quando eles entraram, na sala, e por momentos ficaram em silêncio, a olhar para os recém-chegados. Melhor dizendo a olhar Ana Clara. Por muito que tivessem ouvido falar na semelhança entre as duas, ainda assim a surpresa foi grande. Anete encarregou-se de os apresentar, e depois o dono da casa aproximou-se de Ana Clara.
-Sê bem-vinda, filha. Quero que saibas, que estamos muito felizes por te conhecermos, e que esta casa estará sempre aberta para vos receber, - disse estendendo-lhe os braços, onde a jovem se refugiou emocionada.
 Talvez para quebrar um pouco a emoção, Luís disse:
-Tenho que ir à pastelaria onde tomei o pequeno-almoço. Não sei o que me puseram no café que estou a ver dobrado.   
Todos riram e as apresentações prosseguiram em clima mais leve, até que chegou a vez da dona da casa, que entretanto viera da cozinha para cumprimentar as visitas.
- Estás muito bonita. Se existe um outro mundo, onde se pode ver o que se passa por cá, Antónia deve estar tão feliz como eu, por vos ver juntas.
- Anete, disse-me que a senhora conheceu a minha mãe biológica.
- E verdade. Viveu connosco algum tempo. Tinhas três meses quando se foram embora. Andei remexendo as fotografias antigas, e encontrei duas da Antónia. Depois do almoço, mostro-vos.
Entretanto Teresa, fora ao quintal buscar os filhos, para lhes apresentar as crianças recém-chegadas. Com a naturalidade própria da infância, os dois meninos logo quiseram mostrar aos outros o quintal, e os quatro foram brincar, alheios à emoção dos adultos.
Depois as quatro mulheres voltaram para a cozinha, deixando os homens em animada conversa na sala.
Um quarto de hora mais tarde, a campainha tocou e Anete apressou-se a ir abrir. Na sua frente, com um bonito ramo de rosas, Salvador saudou-a sorrindo.
- Desculpa se me atrasei, mas foi premeditado. Queria que a família vivesse a emoção deste encontro sem a presença de estranhos – disse saudando-a com um breve beijo nas faces, saudação social tão em voga nos dias de hoje.
- Tu não és um estranho. És o cunhado da minha irmã.
- Sei, e tu és a cunhada do meu irmão. Não me esqueci, - disse sorrindo.
- Entra, daqui a pouco a família vem ver quem está à porta.
-Obrigado, - disse e estendeu-lhe o bonito ramo.
- São para mim? – Perguntou espantada
- Não, são para a tua mãe. É a dona da casa, e foi dela a ideia de me convidar, segundo me disseram.
Anete levou-o até à sala, para o apresentar aos irmãos. Não pôde deixar de reparar no olhar inquisitivo com que o brindaram, depois de olharem para o ramo de flores. Deu por si a pensar.
“ Não têm emenda. Pobre Salvador, não sabe que acaba de mexer num vespeiro” 
Sorriu dizendo.
- Vou entregar as flores à sua legítima dona. Tenho a certeza que vai querer agradecer-te. E não deixes que os meus irmãos te incomodem.
Saiu, em direção da cozinha, e pouco depois, a dona da casa, vinha saudá-lo.


27.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XVIII


Casas na Telha, hoje quase uma terra fantasma.

No inicio do ano da graça de 1949, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria.  E melhor que isso, com electricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires, o morador mais antigo, dos três que ficaram.
Em Abril, nasce a segunda  filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua aguardando o filho tão desejado.
E finalmente chegou o mês de Junho, o mês em que Gravelina daria à luz o segundo filho, acontecimento que se deu no dia 20. E o Manuel sofre nova decepção. A mulher dava à luz outra menina. 

Outra "racha" disse quando a parteira lhe comunicou o facto, e virou costas sem sequer querer ver a filha. Mas se ele tinha o coração ao pé da boca e sempre reagia a quente, esse mesmo coração era do tamanho do mundo, e logo se impunha. Não findou o dia, e ele já estava de novo encantado com a filha mais nova.
No inicio da nova safra, o Carlos, muda-se com a família, para a Seca de Alcochete, e em Outubro, o Manuel descobre que a mulher está de novo prenhe. Mais uma vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira de conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o gerente, e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta do casarão.
O gerente ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?”
Manuel não se importou. Começou por roçar os silvados e os chorões. Depois à volta da casa construiu uma capoeira onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão.

Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas.
Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez prenhe.

E chegámos à segunda metade do século XX.
Que começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome.  No país, cada vez se levantam mais vozes, contra o governo fascista. Porque o povo está cada dia mais pobre. E a repressão vai aumentando.
Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.
Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga.  Vai continuar a tentar ter um filho homem, ou vai desistir desse sonho, que na época é o sonho de todos os homens?

3.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XVIII


                                          Foto do google


Aproximou-se e beijou-os.
- Boa tarde. Como estão? Compraram as flores para a Marta?
- Calma - respondeu Amélia. Comprámos as flores e estamos óptimos. A ti nem vale a pena perguntar. Que "bronze"! Menina estás maravilhosa. Não é verdade, amor?
- Claro que é. Não acredito que tenhas voltado sem namorado. Será que os homens em Lagos andam todos cegos?
- Então, parem com isso. Vou ficar envergonhada.
Risada geral. Amélia e Afonso faziam um belo par. Conheceram-se três anos antes e não tardou muito a perceberem que se amavam. Daí até irem viver juntos foi um piscar de olhos. Nem um nem outro fez questão do casamento.
“Não é por assinar papéis que me sinto mais casada ou mais feliz” costumava dizer Amélia. E acrescentava “Há quem tenha namorado, e quem tenha marido. Eu tenho um namorido que é muito mais original”
- Vais connosco, -  disse Amélia. Já conduziste que chegue hoje.
Afonso abriu a porta traseira e fazendo uma vénia exagerada disse:
- Queira vossa alteza entrar.
Riram de novo. Já no carro Amélia disse:
- De verdade que passaste as férias sozinha? Casa e praia? Nem uma ida a um bar, nem um jantar com amigos?
- Que amigos Amélia? Eu nunca tinha ido a Lagos. E não fui para férias à procura de diversão. Fui descansar. E tu sabes que não sou entusiasta de bares e discotecas. 
- Claro irmã; - riu Afonso. Enganou-se no itinerário. Não devia ir para a praia mas para um convento.
A chegada à casa de Paulo impediu Isabel de responder.
Paulo veio recebê-los mal tocaram a campainha. Era um homem de quase 50 anos estatura média. Era completamente calvo, mas isso não lhe trazia nenhuma espécie de complexo. Depois dos cumprimentos disse:
- Entrem, a Marta está a acabar de se arranjar e a Maria está na sala. Tomaremos uma bebida enquanto aguardamos.
Os três seguiram-no e entraram na sala. A jovem, que, estava sentada num dos dois sofás, levantou-se e veio até eles. Era muito bonita.
- Que bom que vieram – disse beijando-os. Agarrou nas flores e acrescentou saindo da sala:
-Vou ter saudades vossas. Volto já. Vou pô-las em água