- Tenho a dona Paula Maldonado ao telefone. Pode atender?
-Sim, claro. Passe-me a chamada por favor.
- Estou: Bom dia Paula. Porque não ligaste para o meu
telemóvel?
- Não é uma chamada pessoal. Prefiro tratar os negócios
pelo telefone. Preciso conhecer o local da festa, com urgência. O espaço
temporal é demasiado curto e ainda não me disseste onde se vai realizar a
festa.
- Falaste numa festa ao ar livre e eu gostei da ideia.
Tenho uma casa em Sintra, numa pequena quinta. Só lá vou aos fins-de-semana, mas tem um bonito
jardim, com um pequeno lago, penso que seria o ideal.
-Preciso vê-lo. Saber onde fica a igreja mais próxima, ir
falar com o padre, uma infinidade de coisas.
-Eu mesmo gostaria de te levar lá, mas vou ter uma
reunião dentro de meia hora com o meu sócio. Não podes deixar a visita para
mais tarde?
- Prefiro ir já.
-Muito bem. Vou enviar-te a morada. E telefonar à
governanta para que te mostre o jardim. Entretanto logo que termine a reunião
vou lá ter. Almoçamos e depois podemos ir juntos falar com o padre. Além disso,-
apressou-se a dizer, antes que ela recusasse. – Gostava de te mostrar a casa, e
de ter uma ideia do que pensas fazer.
- Bom, manda então a morada. E vou falar com o padre,
sozinha. Não quero correr o risco de encontrar alguém conhecido, e alimentar
boatos em revistas cor-de-rosa. Vou desligar. Até logo!
António desligou a chamada, enviou a mensagem com a morada e
ficou pensativo. A ele também não lhe agradavam os boatos, mas não desdenharia nada
de sair nas revistas como noivo dela, se isso fosse verdade. Pelo contrário ia
sentir-se muito feliz. Cada dia que passava, mais pensava nela. E não tinha
nada a ver com a vingança que durante tantos anos alimentou contra o pai dela.
Na verdade sempre que pensava na jovem, conseguia
imaginar muita coisa, mas nada que a ligasse ao pai e ao seu desejo de se
vingar. Desejo que aliás pôs de parte,
por ela. Nunca em toda a sua vida sentiu algo parecido por outra mulher.
Estaria apaixonado?
Foi interrompido nos seus pensamentos, por uma batida na
porta, e logo Susana, a sua secretária entrou dizendo:
- Chegou o senhor Júlio Correia, e doutor Eduardo Soares.
- Faça-os entrar. E pode retirar-se. Se precisar de si,
chamo.
Os dois homens entraram no escritório, e a secretária
retirou-se fechando a porta atrás de si.
António levantou-se e os três homens, cumprimentaram-se de forma amistosa.
- Sentem-se. Querem tomar alguma coisa?- Perguntou
António.
- Não, - disse o seu sócio. – Deves lembrar-te que nunca
bebo de manhã.
-Eu também não, acabei de beber um café, -disse Eduardo,
antecipando-se à pergunta do cunhado.
- Então vamos lá trabalhar. Já marcaram a escritura em
Faro?
- Está agendada para depois de amanhã às quinze. Vais
connosco não é verdade?- Perguntou Júlio.
- Bom, não era necessário, mas o Eduardo diz que fazes
questão na minha presença.
- Sinto-me mais confiante assim. Somos amigos, mas também
somos sócios, e lembras-te de quando tinhas o boletim premiado? No mesmo dia quiseste
que fossemos a um advogado para firmar uma sociedade. Quando te disse que não era necessário, porque confiava em ti, disseste. “Amigos, amigos,
negócios à parte.” Hoje digo-te o mesmo.
-Não é a mesma coisa, além de que o Eduardo estará lá com
o doutor Alcides, teu advogado, e podes ter a certeza que eles terão muita
atenção a todos os pormenores da compra. Irei convosco se fazes questão, mas
esse negócio tal como os outros relacionados com os automóveis, terá que ser dirigido por ti, eu já tenho imenso trabalho com os
restaurantes e a Imobiliária.
-Então está combinado. Vamos depois de amanhã às nove
horas.Outra coisa. Sabes que vou casar no final do próximo mês?
- Perguntou Júlio.
- Penso que já tinha ouvido alguma coisa sobre o assunto.
Os meus parabéns.
- Obrigado. Eu ficaria muito feliz se aceitasses ser o
meu padrinho.
Aceitas?
- E eu sinto-me honrado com o convite. Claro que aceito,
- disse levantando-se e abraçando o amigo. – Depois conversamos sobre isso.
Agora tenho que sair, tenho um compromisso em Sintra.