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1.6.20

ISABEL - PARTE XIV


                                       


Aproximou-se e beijou-os.
- Boa tarde. Como estão? Compraram as flores para a Marta?
- Calma - respondeu Amélia. Comprámos as flores e estamos óptimos. A ti nem vale a pena perguntar. Que "bronze"! Menina estás maravilhosa. Não é verdade, amor?
- Claro que é. Não acredito que tenhas voltado sem namorado. Será que os homens em Lagos andam todos cegos?
- Então, parem com isso. Vou ficar envergonhada.
Risada geral. Amélia e Afonso faziam um belo par. Conheceram-se cinco anos antes e não tardou muito a perceberem que se amavam. Daí até irem viver juntos foi um piscar de olhos. Nem um nem outro fez questão do casamento.
“Não é por assinar papéis que me sinto mais casada ou mais feliz” costumava dizer Amélia. E acrescentava “Há quem tenha namorado, e quem tenha marido. Eu tenho um "namorido" que é muito mais original”
- Vais connosco, -  disse Amélia. Já conduziste que chegue hoje.
Afonso abriu a porta traseira e fazendo uma vénia exagerada disse:
- Queira vossa alteza entrar.
Riram de novo. Já no carro Amélia disse:
- De verdade que passaste as férias sozinha? Casa e praia? Nem uma ida a um bar, nem um jantar com amigos?
- Que amigos Amélia? Eu nunca tinha ido a Lagos. E não fui para férias à procura de diversão. Fui descansar. E tu sabes que não sou entusiasta de bares e discotecas. 
- Claro irmã; - riu Afonso. Enganou-se no itinerário. Não devia ter ido para a praia, mas para um convento.
A chegada à casa de Paulo impediu Isabel de responder.
Paulo veio recebê-los mal tocaram a campainha. Era um homem de quase cinquenta anos de estatura média. Era completamente calvo, mas isso não lhe trazia nenhuma espécie de complexo. Depois dos cumprimentos disse:
- Entrem, a Marta está a acabar de se arranjar e a Maria está na sala. Tomaremos uma bebida enquanto aguardamos.
Os três seguiram-no e entraram na sala. A jovem, que, estava sentada num dos dois sofás, levantou-se e veio até eles. Era muito bonita.
- Que bom que vieram – disse beijando-os. Agarrou nas flores e acrescentou:
-Vou ter saudades vossas. Volto já. Vou colocá-las em água.
As duas visitantes trocaram um olhar e depois Isabel perguntou dirigindo-se a Paulo:
- Mas para onde é que vocês vão? E porquê?
- Como sabem, a Maria vai este ano para a Universidade. O curso que ela escolheu só tem vagas em Braga. A Marta é de Braga e lá residem os meus sogros. E a vida em Lisboa está cada dia mais estressante...
- Assim decidimos ir todos para Braga.
A voz feminina soara nas suas costas e os três voltaram-se. Na porta Marta olhava-os com um sorriso. Era mais alta que o marido, e mais elegante, mas igualmente simpática. Depois dos cumprimentos habituais disse:

*****************************************************************************************

E hoje é o dia das crianças! E porque é delas o reino dos céus, e o futuro da humanidade, que elas possam ser felizes e que os céus tornem os adultos mais humanos e mais justos, a fim de que o futuro da humanidade, não continue a morrer de fome, frio, guerras que não promoveu, maus tratos de quem devia protegê-lo, etc.
Feliz dia da criança!










2.11.19

2 DE NOVEMBRO - DIA DE FINADOS


Dia de Finados

Passam tristes em romagem piedosa
Levam nos ramos as mais belas flores
Veste-se a natureza de sombrias cores
Porque também ela está triste e chorosa.

Também vou nesta romagem atormentada
pois já morreram os meus sonhos e amores
De tudo que eu tive, hoje só restam as dores
sepultadas na minha alma amargurada


Curvada, ante mim própria sou a campa
A minha ilusão de viver era tanta
Que um dia a própria vida a matou.
Agora em cada dia de finados
Levo aos meus sonhos, mortos e chorados
pétalas de uma flor que já murchou.


Elvira Carvalho

16.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE II





Atravessou o átrio do hospital, seguido pelo olhar de enfermeiras e auxiliares. Não era por acaso que Gil Gaspar tinha uma figura tão impressionante. Ele fora nos últimos anos do século passado e nos primeiros deste século, um futebolista famoso, um dos melhores do mundo, pago a peso de ouro. E como tal conhecera bem os efeitos que a fama causava nas mulheres. Elas andavam à sua volta, como abelhas em volta de flores. E ele descobrira, que a fama consegue ser mais afrodisíaca que o dinheiro. E divertia-se com elas, aceitava o que lhe davam, mas não fazia promessas nem prendia o coração a nenhuma. Até que conheceu Sara. Ela parecera-lhe totalmente diferente das outras mulheres com quem se relacionara até à data, com o seu ar tímido e meio envergonhado. E ele ficara tão encantado que em menos de seis meses estavam casados. Fora um casamento feliz durante os primeiros anos. O casal frequentava a alta sociedade, era convidado para tudo quanto era festa, pois todos queriam contar com aquele que há três anos consecutivos, ganhava o titulo, de o melhor jogador do mundo, embora ele não se fizesse presente na maioria desses eventos, porque a vida de um atleta do seu nível, exige uma vida regrada e muita concentração durante grande parte do ano, coisa que não era compatível com uma vida de festas, como era desejo da mulher.
 Gil era perfecionista, muito rigoroso com a sua preparação física e mental, e começara uma nova época de sucesso, quando teve a primeira lesão grave, que o manteve afastado dos relvados durante mais de três meses. Fora operado ao joelho e durante o resto do tempo passara horas e horas no ginásio em exercícios de recuperação e quando chegava a casa só queria atirar-se na cama e descansar. 
Seria normal que uma mulher apaixonada, entendesse o sofrimento do marido e o apoiasse. Todavia a fama tinha dado volta à cabeça da sua mulher. Sara, preocupava-se mais com o facto de que ele não pudesse voltar a ser o mesmo jogador famoso, do que com o seu sofrimento real, embora nessa altura, ele ainda não se tivesse apercebido disso. "O amor é cego", dizem, e nessa época ele estava muito apaixonado. Felizmente todo o seu esforço foi recompensado e Gil voltou aos relvados e voltou a encantar público e críticos com a magia do seu talento, terminando a época de novo em grande. Todavia menos de seis meses depois, Gil voltou a lesionar o mesmo joelho, e o cirurgião que o operara, dissera-lhe que ele jamais seria o mesmo génio com a bola, depois daquela lesão. Poderia recuperar, podia mesmo voltar aos relvados, mas nunca mais conseguiria alcançar o mesmo nível, que tivera até aí. Consciente disso, depois da recuperação, Gil decidiu abandonar o futebol. Queria que, quando se lembrassem dele, se recordassem do extraordinário jogador que fora, e não acabar a carreira arrastando-se pelos relvados, em exibições medíocres como já vira acontecer com outros atletas. 
Sara não aceitou bem a sua decisão. Ela gostava da sensação de se sentir invejada, quando aparecia em público, e era fotografada para tudo quanto era revista, como a mulher do famoso Gil Gaspar, e receava que depois do seu abandono, a vida já não tivesse o mesmo brilho que até aí.  Ele, porém, estava decidido e nada nem ninguém o podia demover. Felizmente estava a poucos meses de terminar o contrato, e, ainda em tratamento de recuperação, informou o seu agente que se ia retirar logo que terminasse o contrato.
Com o futuro não se preocupava, pois acumulara uma boa fortuna, não só como jogador, mas também dando a cara em campanhas publicitárias que lhe renderam muito dinheiro.



10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.



27.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXIII


Paula levou o irmão à escola, cumprimentou o professor e aguardou que o autocarro partisse. De seguida foi a casa, buscar o seu vestido para a festa dessa tarde. Depois seguiu para Sintra. Embora a festa fosse às dezasseis horas, os convidados deveriam começar a chegar uma hora antes, e ela tinha que verificar se não se esquecera de nada. Também colocar as flores que tinha encomendado para adornar todo o espaço. Na véspera, ela e Margarida tinham deixado tudo pronto. Exceto os arranjos florais que só seriam colocados no sítio, umas horas antes da cerimónia a fim de se manterem viçosos.
Introduziu o código que lhe permitia a entrada e estacionou junto à garagem. Saiu do veículo e dirigiu-se à casa. Preparava-se para tocar quando a porta se abriu, e encontrou-se na presença do anfitrião.
-Bom dia, -saudou.
- Bom dia, Paula. Vieste cedo, - disse afastando-se para lhe dar entrada. Não lhe tocou com qualquer cumprimento que não fosse oral.
- Preciso colocar as flores para adornar o espaço e dar uma última olhada para ver se não me esqueci de nada. A propósito, sabes se a florista, já veio trazer as flores?
-Uma carrada delas. Estão na tenda nas traseiras. Já te ajudo a levá-las mas antes quero apresentar-te a minha mãe.
Colocou-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a sala.
A senhora que se encontrava na sala a ler, levantou a cabeça encanecida, e olhou com certa surpresa, ao ver o filho entrar com uma jovem desconhecida. Pôs-se de pé, e a jovem pode observar que era de baixa estatura e magra. O seu rosto, de tez morena, mostrava-se bastante enrugado para a idade que Paula calculava tivesse a mãe do empresário. Notou que a única semelhança com o filho eram os olhos negros. Enquanto a mãe tinha um ar frágil que inspirava simpatia, o filho era a antítese. Alto, forte, tão seguro de si, que roçava a arrogância.
- Mãe; venho apresentar-te uma amiga, Paula Maldonado. É a responsável pela organização da festa de hoje. Paula, esta é a minha mãe, Teresa Ferreira.
Paula adiantou-se para cumprimentar a senhora, e esta abriu os braços para acolhê-la. Abraçou-a com carinho, dizendo:
- É um prazer conhecê-la. Fez um trabalho magnífico. A minha Gabi nunca mais vai esquecer este dia.
-Obrigada. A senhora é muito gentil. Agora se me dá licença, tenho um monte de flores para colocar nas jarras,- disse tentando esconder a emoção, que a calorosa acolhida da senhora despertara nela.
Dirigiu-se à tenda, para tratar das flores. Tinha pedido à florista a elaboração dos ramos, e a quantidade de flores por ramo, e se estivesse tudo certo, era só colocar um ramo em cada recipiente, que já tinha deixado nos lugares onde iam ficar.  Examinou os ramos e sorriu satisfeita. Pegou em alguns de braçada, e voltou-se para deparar com António que chegava naquele momento.
-São para levar para o local de cerimónia?
- Só os ramos, e os três arranjos brancos. Os restantes são para as mesas aqui.
-Está bem. Já tos levo.
Ela afastou-se dando volta à casa, para se dirigir ao jardim, onde estava montado o altar. Aí chegada, foi metendo os ramos nos jarrões colocados no caminho junto às cadeiras dos convidados.
Minutos depois, chegou o empresário com os restantes ramos.
-De que te ris, -perguntou poisando os ramos na beira do lago.
-Parecias uma jarra, com pernas, -respondeu sorrindo ao mesmo tempo que recolhia os ramos e os colocava nas restantes jarras. Levou depois os três pequenos arranjos para a mesa que serviria de altar, virou-se, analisou o local e deu-se por satisfeita.
- Bom, aqui está tudo em ordem, falta o outro lado. Estás muito pensativo, - disse ao chegar perto do anfitrião que continuava perto do lago.
-Entregaste o envelope? - perguntou ele.
-Sim claro. Logo de manhã.


Porque amanhã é domingo, e na Segunda, o Sexta faz anos, esta história continua no dia 30,



10.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXI





Estacionou o automóvel junto à porta e saiu. Percorreu com o olhar o vasto jardim, e franziu a testa, pensando se a jovem já se teria ido embora, porém logo deparou com o carro cinza estacionado junto à porta da garagem e um sorriso distendeu os seus bem desenhados lábios. Subiu os três degraus até ao alpendre e abriu a porta. Ouviu vozes na cozinha e encaminhou-se para lá. Paula e a governanta conversavam animadamente sentadas à mesa, com uma chávena de chá e um pires de biscoitos na frente.
- Bom dia, – saudou.
- Bom dia, senhor. Não o ouvimos chegar, - disse a empregada levantando-se  apressada.
Paula também se levantou. Vestia um fato de calças e casaco de seda azul, com decote em bico, e calçava sandálias de salto. Elegante e muito feminina.
- O que achas do jardim? -perguntou o recém chegado.
- Muito bonito mas não serve para o evento.
- Não? – Admirou-se ele
- Se vieres comigo explico-te.
Saíram e caminharam até ao lago circundado de bonitas flores.
- Bom, supõe que ponho o altar entre aquelas duas árvores, lá ao fundo junto ao muro. Teríamos que por duas filas de cadeiras para os convidados que segundo a lista que me enviaste é de oitenta pessoas. Duas filas de quarenta cadeiras que poderíamos por naquela parte, ali há poucas flores, podem ser transplantadas para outro local e tapar os estragos com pedaços de relva natural. Até aqui tudo bem, mas onde vou colocar as mesas para a festa? Usando mesas redondas precisaríamos de dez mesas grandes, para os convidados mais duas para apoio. Tinha que destruir todo o jardim.
- Já viste a parte de trás da casa? Tem um espaço bastante grande todo relvado até à piscina, que delimita a área entre o lazer e quinta propriamente dita. Não podíamos fazer a cerimónia aqui e a festa lá?
- Vamos ver.
Caminhando lado a lado contornaram a bonita moradia, um belo edifício de dois pisos.
- É uma bela casa- disse a jovem.
-Gostas? Comprei-a há dois anos. Inicialmente porque era um bom negócio, pensava voltar a vendê-la, mas depois decidi ficar com ela. É um local sossegado, tem bons ares, muito espaço para as crianças, é o ideal para uma família, não achas?
Não respondeu de imediato. Não sabia o que se passava com ela em relação ao empresário. Começara por sentir um sentimento de raiva quando soube o que ele fizera ao pai, exacerbado quando o pai lhe pediu para casar com ele. Entretanto a raiva fora sendo substituída primeiro pela curiosidade, depois pela admiração, e mais tarde por uma inquietação, quando falava ou pensava nele. E pensava nele vezes demais para o seu gosto, tanto mais que quase esquecera, Adolfo, o médico com quem mantivera uma relação de quatro anos e cuja traição a levara a querer distância de todos os homens.
De súbito, António agarrou-lhe no braço e parou, obrigando-a a fazer o mesmo.
- Que aconteceu? – Perguntou abrindo os olhos de espanto sem saber se era por ele ter interrompido os seus pensamentos, se pelo choque elétrico que percorria o seu corpo, com a sensação que a mão dele provocara no seu corpo.
- Diz-me tu, - respondeu. -Porque de repente fiquei com a sensação que te ausentaste e me deixaste a falar sozinho.

1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE I




A terra era pequena mas agradável. Rodeadas de extensos pinhais, algumas casas térreas, dispostas em quadrado, formavam uma praça, quase totalmente ocupada por um cuidado jardim. No meio deste, um pequeno lago, com uma bela planta aquática, bancos pintados de vermelho, estrategicamente colocados sob a protectora sombra das árvores, e um coreto, onde aos domingos se exibia a banda dos bombeiros, ou o senhor Alberto com o seu acordeão. Na parte de cima do jardim, para quem entra na vila, uma pequena igreja dedicada à Imaculada Conceição.
 Do outro lado da igreja, a estrada que avança para o centro da localidade, a parte nova da terra, onde pontificam os prédios altos, as ruas mais largas, a escola, as lojas e centros de diversão.
Na igreja, habitualmente deserta àquela hora, da manhã realizava-se naquele dia um casamento.
Junto ao altar, um homem alto, impecavelmente vestido de escuro, e uma mulher de mediana estatura, envergando um saia-casaco azul celeste, trocavam as alianças.
Assistiam ao acto além dos padrinhos, uma mulher aparentando mais de trinta anos, que tinha a seu lado três crianças, e um bebé ao colo, e ainda três mulheres de meia-idade, que costumavam ajudar o padre a manter a igreja impecável, procedendo à limpeza do local, ou trocando as flores envelhecidas.
No altar, o homem curvou-se e depositou um leve beijo na testa da mulher. Por fim o padre procedeu à bênção final, e os noivos dirigiram-se com os padrinhos à sacristia, para a assinatura do registo do casamento. As crianças que até aí se tinham mantido mais ou menos sossegadas, saltaram do banco e correram para a sacristia, sem fazer caso da mulher que os chamava de volta. Uma pequenita loirinha, que não teria ainda completado os três anos, correu a agarrar-se às pernas do homem, que terminando a sua assinatura lhe pegou ao colo, e deixou que ela lhe envolvesse o pescoço num amoroso abraço 
Terminada a cerimónia de assinatura, saíram para o adro sob o olhar curioso das três mulheres. Aí despediram-se dos padrinhos e entraram no carro juntamente com a mulher que transportava o bebé adormecido e as restantes  crianças.

reedição

Um Bom feriado para todos


E um Novembro calmo e feliz para todos.

18.6.18

O DIREITO À VERDADE - I


Esta escultura, recebe-nos na entrada do cemitério de S. Gonçalo em Lagos..
Não que esta história se passe em Lagos, mas é um bonito monumento composto por painéis. Chama-se A Passagem e simboliza exatamente isso .
A nossa passagem do mundo real da matéria, visível, para o mundo espiritual, o invisível.  


                                                           I


A urna desceu à terra, na presença de dois grupos distintos de pessoas. Em tamanho e em idade. De um lado, meia dúzia de pessoas de meia-idade. Do outro, um grupo mais numeroso de jovens, na frente dos quais se encontrava uma jovem alta, esbelta, morena, de cabelos e olhos tão negros quanto a roupa que tinha vestido.
Abeirou-se da sepultura, baixou-se e apanhou um punhado de terra. Ergueu-se e jogou sobre a urna uma singela gerbera cor-de-rosa, e de seguida o punhado de terra. Depois virou as costas e afastou-se, enquanto os dois homens pegavam nas pás e começavam s fechar a sepultura. Não queria vê-los, mas sentia no peito cada pá de terra que eles lançavam, enquanto lágrimas silenciosas corriam pelo seu rosto pálido. Sentiu que alguém lhe passava um braço pelos ombros, enlaçando-a em silêncio. Levantou o rosto e olhou o seu tio. Era um homem de sessenta e cinco anos, mas o seu rosto precocemente envelhecido, emoldurado por uma cabeleira totalmente encanecida, faziam com que aparentasse mais idade.
Alberto fora casado, com uma irmã da sua mãe. A sua tia Ana, falecera há dez anos, com a mesma doença que agora levara a irmã. O maldito cancro.
Os homens acabaram o trabalho de sepultamento e colocaram sobre a terra, as coroas, e demais ramos de flores. As pessoas começavam a abandonar o local, não sem antes lhe darem um abraço e algumas palavras de conforto, que não aliviavam a sua dor, mas que ela não deixava de agradecer.
- Vamos, querida, levo-te a casa, - disse Alberto. Já não há nada que a gente possa fazer por ela, a não ser rezar pela sua alma.
Helena concordou com a cabeça. Tinha dificuldade em se expressar. Começara a caminhar para o portão, mas de súbito parou e disse:
- Preciso falar primeiro com o agente funerário. Não sei se é preciso alguma coisa mais.
-Espera aqui, vou lá falar com ele,  - disse Alberto.
Voltou pouco depois.
-Ele diz, que a agência trata de todos os trâmites, com a junta de freguesia, onde nasceu, para assinalar o óbito no registo, e com a Segurança Nacional, para que possas receber o subsídio. Normalmente leva oito ou dez dias até receberem a resposta, e então telefonam-te para te devolverem todos os documentos que lhes deixaste. Agora vamos, Lena. Estás de rastos, precisas descansar.
- Custa-me tanto voltar para casa, tio. Como é que eu vou viver, sem ela?
-Embora agora te pareça que o mundo desabou sobre a tua cabeça, vais encontrar forças para seguir em frente. Com tristeza, com muita saudade, mas continuamos. Como pensas que eu vivo? Há dez anos quando perdi a tua tia, encontrei força no teu primo para suportar a dor de ficar sem a única mulher que amei, Pior foi há três meses, quando o teu primo morreu naquele estúpido acidente.
- Perdoa, tio. Sou muito egoísta. Esqueci-me de que tu também estás com o coração ferido.
- Não te desculpes querida. Eu entendo, - disse abrindo-lhe a porta do carro.

2.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE I


Eram seis horas, de uma radiosa e calorenta tarde de Junho quando João Santos entrou em casa. Fechou a porta atrás de si, atirou as chaves para cima do móvel de entrada e dirigiu-se ao quarto. Era um amplo quarto de casal, onde reinava uma enorme cama. Em cima da cómoda, mesmo ao lado de uma bonita jarra, onde em tempos sempre houvera belas e frescas flores, mas que agora se apresentava tristemente vazia, uma moldura mostrava uma foto de casamento. Ele porém não se deteve no quarto. Dirigiu-se à porta à esquerda, que ligava o quarto à casa de banho e abriu-a. Uma vez lá dentro, rapidamente se despiu e enfiou debaixo do chuveiro. Durante um minuto, ficou quieto, sentindo a água fria correr pelo corpo, numa carícia suave. Precisava daquilo para eliminar do corpo, não só o calor, mas também o cansaço. Depois fechou a água e esfregou vigorosamente o corpo. Acabado o duche, enrolou uma toalha à cintura e olhou-se no espelho.
A imagem que este lhe devolvia, era a de um homem ainda jovem, moreno de cabelos e olhos castanhos. Era alto, tinha ombros largos e uma figura bem proporcionada. Não se considerava um homem bonito. A testa alta, o cabelo liso, os olhos vivos e inteligentes, eram rasgados e não muito grandes, o que lhe dava um ar exótico, quase oriental. A boca embora bem desenhada, tinha lábios finos, e o queixo forte era na sua opinião demasiado quadrado. Não, não era aquilo que os padrões de beleza chamavam um homem bonito, mas tinha carisma e uma presença forte que se impunha onde quer que estivesse.
Passou ao quarto, procurou uns calções de algodão que vestiu sobre o corpo nu. Pegou na moldura, onde se via com a esposa, e ficou olhando-a com tristeza. Passou o dedo pelo rosto da mulher que a seu lado sorria feliz, e murmurou:
- Porquê Odete, porquê?
Poisou a moldura no sítio. O seu rosto apresentava uma tristeza pouco comum. Descalço e de tronco nu, foi até à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma cerveja, e dirigiu-se para a sala onde se deixou cair no sofá. Abriu a garrafa, bebeu um gole, e poisou-a em cima da mesa. 


27.2.18

CARLOTA - PARTE V


O comportamento de Francisco começou a mudar seis meses depois. Primeiro foram as saídas à noite. Depois o dinheiro que lhe dava para a casa que foi encurtando até deixar por completo de lhe entregar dinheiro. Carlota fazia limpezas em duas lojas, mas o ordenado não chegava para as despesas da casa. Começou a questionar o marido, e ele tornou-se agressivo. 
A poucos dias de comemorarem um ano de casados, levou a primeira sova. 
Ficou com um olho negro, e várias equimoses espalhadas pelo corpo. Tudo porque ela queria dinheiro para pagar, a conta no talho e na mercearia.  
Por vergonha escondeu de todos o que se passava.  Até mesmo quando questionada pela irmã, ela disse que tinha caído na rua. Dias depois, o marido chegou a casa com um ramo de flores, pediu-lhe desculpa, jurou que nunca mais lhe fazia mal, deu-lhe dinheiro, e durante algum tempo tratou-a com carinho, parecendo o homem dos primeiros tempos de casado.
Para mal dela, essas alterações, tornaram-se rotina. Ora lhe batia, ora lhe suplicava perdão e jurava mudar de comportamento. Ora lhe dava dinheiro, ora lho tirava e a deixava sem um tostão em casa. Carlota contou à irmã o que se passava, e disse-lhe que se queria separar do marido. A irmã disse-lhe que era uma vergonha, nunca ninguém na família se separara, o povo ia dizer que ela era uma perdida, e depois ela sabia que “quem se obriga a amar, obriga-se a padecer”. Carlota chorou, mas resignou-se, especialmente depois que descobriu que estava grávida.
Infelizmente não teve tempo para contar ao marido o que se passava. Naquela noite, ele disse-lhe que ia sair e pediu-lhe o dinheiro, que dias antes, entregara para a casa. Ela negou, e depois de duas violentas bofetadas, o marido dirigiu-se à gaveta onde ela guardava o dinheiro.
Com as notas na mão encaminhou-se para a porta. Carlota tentou impedi-lo e ele deu-lhe um encontrão que a derrubou na sua frente. Como se não chegasse ainda lhe deu um pontapé, que a apanhou em cheio na barriga.
Depois abriu a porta e saiu. A jovem ficou no chão contorcendo-se com dores. O filho, aflito, sem forças para a levantar, chamou uma vizinha.
A mulher ajudou-a a erguer-se e ao fazê-lo, Carlota deu-se conta que estava com uma hemorragia. A vizinha ofereceu-se para ir ao café chamar uma ambulância, (naquele tempo poucas pessoas tinham telefone em casa).
No hospital Carlota soube que acabara de perder o filho que esperava.  Ficou internada, pois surgiram complicações, foi operada e informada de que não mais podia engravidar.
O marido ia vê-la todos os dias. Chorava, pedia perdão, fazia promessas. Ela já não acreditava nele. Pensava que ele tinha uma amante. E se assim era, pois que fosse para junto dela. Soube depois que não havia tal amante. O marido era viciado no jogo. Contou-lhe a vizinha quando a visitou no hospital. Fora um sobrinho que lhe contara, “ele está empregado num desses sítios onde se joga,  e diz que já o viu perder muito dinheiro” dissera ela.
De qualquer modo ela estava decidida. Não voltaria para casa. Só precisava falar com, a irmã, e  pedir se lhe cuidava do filho. Ela não tinha dinheiro para alugar uma casa, para  viver com ele. Nessa altura, dava graças a Deus, por Francisco nunca ter cumprido a promessa de perfilhar o garoto.
Assim, não podia exercer qualquer chantagem por causa dos direitos sobre o filho.
Depois, ela havia de se arranjar. O trabalho nunca lhe metera medo.



17.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXX


Os três homens puseram-se de pé, quando eles entraram, na sala, e por momentos ficaram em silêncio, a olhar para os recém-chegados. Melhor dizendo a olhar Ana Clara. Por muito que tivessem ouvido falar na semelhança entre as duas, ainda assim a surpresa foi grande. Anete encarregou-se de os apresentar, e depois o dono da casa aproximou-se de Ana Clara.
-Sê bem-vinda, filha. Quero que saibas, que estamos muito felizes por te conhecermos, e que esta casa estará sempre aberta para vos receber, - disse estendendo-lhe os braços, onde a jovem se refugiou emocionada.
 Talvez para quebrar um pouco a emoção, Luís disse:
-Tenho que ir à pastelaria onde tomei o pequeno-almoço. Não sei o que me puseram no café que estou a ver dobrado.   
Todos riram e as apresentações prosseguiram em clima mais leve, até que chegou a vez da dona da casa, que entretanto viera da cozinha para cumprimentar as visitas.
- Estás muito bonita. Se existe um outro mundo, onde se pode ver o que se passa por cá, Antónia deve estar tão feliz como eu, por vos ver juntas.
- Anete, disse-me que a senhora conheceu a minha mãe biológica.
- E verdade. Viveu connosco algum tempo. Tinhas três meses quando se foram embora. Andei remexendo as fotografias antigas, e encontrei duas da Antónia. Depois do almoço, mostro-vos.
Entretanto Teresa, fora ao quintal buscar os filhos, para lhes apresentar as crianças recém-chegadas. Com a naturalidade própria da infância, os dois meninos logo quiseram mostrar aos outros o quintal, e os quatro foram brincar, alheios à emoção dos adultos.
Depois as quatro mulheres voltaram para a cozinha, deixando os homens em animada conversa na sala.
Um quarto de hora mais tarde, a campainha tocou e Anete apressou-se a ir abrir. Na sua frente, com um bonito ramo de rosas, Salvador saudou-a sorrindo.
- Desculpa se me atrasei, mas foi premeditado. Queria que a família vivesse a emoção deste encontro sem a presença de estranhos – disse saudando-a com um breve beijo nas faces, saudação social tão em voga nos dias de hoje.
- Tu não és um estranho. És o cunhado da minha irmã.
- Sei, e tu és a cunhada do meu irmão. Não me esqueci, - disse sorrindo.
- Entra, daqui a pouco a família vem ver quem está à porta.
-Obrigado, - disse e estendeu-lhe o bonito ramo.
- São para mim? – Perguntou espantada
- Não, são para a tua mãe. É a dona da casa, e foi dela a ideia de me convidar, segundo me disseram.
Anete levou-o até à sala, para o apresentar aos irmãos. Não pôde deixar de reparar no olhar inquisitivo com que o brindaram, depois de olharem para o ramo de flores. Deu por si a pensar.
“ Não têm emenda. Pobre Salvador, não sabe que acaba de mexer num vespeiro” 
Sorriu dizendo.
- Vou entregar as flores à sua legítima dona. Tenho a certeza que vai querer agradecer-te. E não deixes que os meus irmãos te incomodem.
Saiu, em direção da cozinha, e pouco depois, a dona da casa, vinha saudá-lo.


6.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIV




Saiu, deu a volta ao monumento e deparou com uma feira de camponeses onde vendiam de tudo ao ar livre. Desde a broa de milho às flores, passando por coelhos, galinhas e pintos, mel, bolos secos, nabos, cenouras e batatas, a par de toalhas bordadas e das mais variadas peças de renda. Antes de regressar às Termas e a casa da tia, parou numa banca e comprou um frasco de mel de rosmaninho. A tia ia ralhar com ele de certeza, e dizer que não faltava mel lá em casa, mas ele achou que lhe devia levar um miminho. 
Depois do almoço, pegou o jornal diário que ainda não lera nesse dia, e dirigiu-se à margem do rio. E eis que vê a jovem sentada a ler, precisamente no banco que ele adoptara desde que chegara como o seu preferido. Porém a  jovem estava acompanhada por uma senhora de meia-idade, que fazia renda, enquanto o garoto brincava na frente das duas. Pedro hesitou. E agora? Iria cumprimentá-la? E se a senhora não gostasse. Olhou em volta, procurando onde sentar-se, quando o garoto o descobriu e veio a correr ter com ele. Pegou-lhe na mão e conduziu-o até junto das senhoras dizendo:

- Olha mãe, o amigo que encontrei ontem. Vês, eu não dizia que ele era simpático?

A senhora levantou os olhos da renda e olhou-o com um ar inquisitivo, durante um longo minuto.

Depois sorriu e disse:

- Este meu filho! É sempre a mesma coisa, está sempre a importunar os outros...

- Por quem é minha senhora. O seu filho é uma criança encantadora.

- Não quer sentar-se? Podemos conversar um pouco.

O convite era tudo o que desejava ouvir, mas antes de aceitar, Pedro olhou de relance para Rita. Esta parecia dizer-lhe com o olhar para ficar, e ele sentiu-se no céu. Foi uma conversa muito agradável que se prolongou durante algumas horas. Pedro ficou a saber que eram de Castelo Branco e que estavam ali, porque a D. Célia, a mãe dos jovens, estava a fazer tratamentos termais. Ficou a saber que a jovem tinha acabado os seus estudos, que gostaria de ser professora, e que embora parecesse muito jovem, tinha vinte e dois anos. O pai não pudera acompanhá-las, porque tinha muito trabalho. Era engenheiro numa multinacional. Estavam hospedadas no hotel Vouga, ali mesmo na margem oposta do rio.

Pedro falou de si, do seu emprego, da mãe, e da tia Palmira, em casa de quem estava a passar férias.



3.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XVIII


                                          Foto do google


Aproximou-se e beijou-os.
- Boa tarde. Como estão? Compraram as flores para a Marta?
- Calma - respondeu Amélia. Comprámos as flores e estamos óptimos. A ti nem vale a pena perguntar. Que "bronze"! Menina estás maravilhosa. Não é verdade, amor?
- Claro que é. Não acredito que tenhas voltado sem namorado. Será que os homens em Lagos andam todos cegos?
- Então, parem com isso. Vou ficar envergonhada.
Risada geral. Amélia e Afonso faziam um belo par. Conheceram-se três anos antes e não tardou muito a perceberem que se amavam. Daí até irem viver juntos foi um piscar de olhos. Nem um nem outro fez questão do casamento.
“Não é por assinar papéis que me sinto mais casada ou mais feliz” costumava dizer Amélia. E acrescentava “Há quem tenha namorado, e quem tenha marido. Eu tenho um namorido que é muito mais original”
- Vais connosco, -  disse Amélia. Já conduziste que chegue hoje.
Afonso abriu a porta traseira e fazendo uma vénia exagerada disse:
- Queira vossa alteza entrar.
Riram de novo. Já no carro Amélia disse:
- De verdade que passaste as férias sozinha? Casa e praia? Nem uma ida a um bar, nem um jantar com amigos?
- Que amigos Amélia? Eu nunca tinha ido a Lagos. E não fui para férias à procura de diversão. Fui descansar. E tu sabes que não sou entusiasta de bares e discotecas. 
- Claro irmã; - riu Afonso. Enganou-se no itinerário. Não devia ir para a praia mas para um convento.
A chegada à casa de Paulo impediu Isabel de responder.
Paulo veio recebê-los mal tocaram a campainha. Era um homem de quase 50 anos estatura média. Era completamente calvo, mas isso não lhe trazia nenhuma espécie de complexo. Depois dos cumprimentos disse:
- Entrem, a Marta está a acabar de se arranjar e a Maria está na sala. Tomaremos uma bebida enquanto aguardamos.
Os três seguiram-no e entraram na sala. A jovem, que, estava sentada num dos dois sofás, levantou-se e veio até eles. Era muito bonita.
- Que bom que vieram – disse beijando-os. Agarrou nas flores e acrescentou saindo da sala:
-Vou ter saudades vossas. Volto já. Vou pô-las em água




11.7.14

ISABEL PARTE XIII




                                             Foto da net

Um pouco antes das sete e meia, a campainha da porta tocou. Isabel deu um último retoque nos lábios, pegou na mala e saiu. Ao sair do elevador, encontrou D. Rosa, a porteira, que  a saudou com simpatia. E mesmo em frente à porta do prédio, o carro dos amigos, esperava-a. Dirigiu-se para lá.
- Boa tarde,- disse beijando-os. Como estão? Compraram as flores para a Marta?
- Calma - respondeu Amélia. Compramos as flores e estamos ótimos. A ti nem vale a pena perguntar. Menina, estás maravilhosa. Não é verdade, amor?
- Claro que é. Não acredito que tenhas voltado sem namorado. Será que os homens em Lagos andavam todos cegos?
- Então, parem com isso. Vou ficar envergonhada.
Risada geral. Amélia e Afonso faziam um belo par. Conheceram-se três anos antes e não tardou muito a perceberem que se amavam. Daí até irem viver juntos foi um piscar de olhos. Nem um nem outro fez, questão do casamento.
“Não é por assinar papéis que me sinto mais casada ou mais feliz” costumava dizer Amélia. E acrescentava “Há quem tenha namorado, e quem tenha marido. Eu tenho um namorido que é muito mais original”
- Vais connosco,- disse Amélia. Já conduziste que chegue hoje.
Afonso abriu a porta traseira e fazendo uma vénia exagerada disse:
- Queira vossa alteza entrar.
Riram de novo. Já no carro Amélia disse:
- De verdade que passaste as férias sozinha? Casa e praia? Nem uma ida a um bar, nem um jantar com amigos?
- Que amigos Amélia? Nunca tinha ido a Lagos. E não fui para férias, divertir-me. Fui descansar.
- Claro, irmã - riu Afonso. Enganou-se no itinerário. Não devia ir para a praia mas para um convento.
A chegada a casa de Paulo, impediu Isabel de responder.
Paulo veio recebê-los mal tocaram a campainha. Era um homem de 45 anos estatura média. Era completamente calvo, mas isso não lhe trazia nenhuma espécie de complexo. Depois dos cumprimentos disse:
- Entrem, a Marta está a acabar de se arranjar e a Maria está na sala. Tomaremos uma bebida enquanto aguardamos.
Os três seguiram-no e entraram na sala. A jovem, que, estava sentada num dos dois sofás existentes, levantou-se e veio até eles. Era muito bonita.
- Que bom que vieram – disse beijando-os. Agarrou nas flores e acrescentou saindo da sala:
-Vou ter saudades vossas. Volto já. Vou pô-las em água
As duas mulheres trocaram um olhar e depois Isabel perguntou dirigindo-se a Paulo:
- Mas para onde é que vocês vão? E porquê?
- Como sabem a Maria vai este ano para a Universidade. O curso que ela escolheu só tem vagas em Braga. A Marta é de Braga e lá residem os meus sogros. A vida em Lisboa está cada dia mais estressante.
- Assim decidimos ir todos para Braga.
A voz feminina soara nas suas costas e os três voltaram-se. Na porta Marta olhava-os com um sorriso. Era mais alta que o marido, e mais esguia, mas igualmente simpática. Depois dos cumprimentos habituais disse:
- É claro que vamos ter saudades vossas. Mas quando estivermos instalados mando a morada, e depois Braga não é o fim do mundo. Fico muito feliz por terem vindo. O Paulo gostava de convidar o seu sucessor para jantar. Mas parece que não vive em Lisboa e ainda não chegou. Na verdade não nos lembramos dele. Os pais são nossos amigos, mas o filho parece que é um tanto aventureiro. Viajou muito. As visitas aos pais são esporádicas e rápidas. A mãe disse-me há dias que tinha esperança que ele agora assentasse. Coitada é mãe.
Fez uma pausa e acrescentou:

- Vamos para a mesa.

Continua


Próximo capitulo na Segunda Feira
Bom fim de semana