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10.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXI




Cinco dias depois, Teresa e os bebés deixavam o hospital, acompanhados pelo pai, que amparava a esposa e carregava um dos bebés no ovo, seguidos  pela enfermeira Sandra, que passara os dias anteriores, sempre junto de Teresa no quarto da maternidade hospitalar e por uma ama, cada uma carregando um ovo com um bebé .

 Por sua vez, João  embora tivesse que ir todos os dias à empresa despachar os assuntos mais urgentes, e entrevistar as possíveis amas, também passara com ela grande parte dos dias, e aos poucos foi perdendo o medo que inicialmente tinha de pegar nos filhos, aprendeu a mudar as fraldas, e até a dar o biberão ao terceiro bebé.

Teresa, tinha a sensação de que não fazia mais nada senão dar de mamar. Os bebés mamavam oito vezes ao dia, e a meio de cada mamada tinha que utilizar a bomba para extrair leite, (colostro) naqueles primeiros dias, para o terceiro. Para facilitar a rotina amamentava sempre dois ao mesmo tempo e João ou Sandra, quando o empresário não estava, dava o biberão ao terceiro.

E foi incentivada por Sandra e pelas enfermeiras de serviço a tentar dormir todo o tempo que podia a fim de poder descansar.

Entretanto os bebés, já saíram do hospital registados. Parecia impossível, mas os dois tinham deixado a escolha dos nomes dos bebés para depois do nascimento, pelo que na hora do registo, João lembrara as palavras da médica no momento em que a menina nascera e dissera que ela se devia chamar Vitória, mas Teresa dissera que o nascimento dos três tinha sido uma vitória por igual e que ela tinha pensado em Maria, por ser devota da Virgem e por a Ela ter rogado muita vez para que os meninos nascessem saudáveis e não precisassem ficar na incubadora quando ela tivesse alta.

Quanto aos meninos, o pai gostaria de que um deles se chamasse David, numa homenagem ao irmão que conhecera há tão pouco tempo e com quem descobrira uma ligação que nunca julgara possível. Até estava a pensar convidá-lo para padrinho. Por seu lado, a mãe desejava que um deles tivesse o nome do pai, pelo que acabaram por ser registados João e David como o pai e o tio. E não era difícil distingui-los, pois apesar de parecidos, não eram gémeos idênticos, mas fraternos.

Em casa, esperava-os Olga, com a outra ama que João já contratara. Tal como ele decidira, havia um quarto preparado para as amas, ao lado do quarto dos bebés e a cama que estivera no quarto de casal, onde dormira a enfermeira Gabriela durante a gravidez  de Teresa, fora levada para o quarto deles, onde a enfermeira passaria a dormir.  Ela chamaria as amas sempre que precisasse de ajuda para os levar a mamar, para os mudar, ou para os acalmar.

Depois que os bebés foram deitados nas suas caminhas, e Teresa se encontrava deitada e sozinha no quarto com o marido, este notou que ela se mostrava apreensiva, pelo que perguntou o que a preocupava.

- Disseste que ficavas aqui, mas levaram a cama para o quarto dos bebés, para a Gabriela. Onde é que tu dormes? – perguntou.

- Contigo. Afinal somos casados há quase cinco meses, Teresa.

- Mas…

- Sei o que estás a pensar. Mas pensa no seguinte. Nós não somos um casal normal. Não namorámos, não noivámos, não tivemos qualquer intimidade, a não ser um ou outro beijo e uma carícia dirigida aos bebés na tua barriga de grávida. 

Não sei se o que sentes por mim, mas posso dizer que desde o início senti uma grande atração por ti, que o meu primeiro pensamento no dia em que te conheci, foi de desejo e que ao longo destes quase nove meses essa atração não só cresceu, como se tornou num sentimento muito mais forte e íntimo que penso seja  aquilo a que chamam de amor.

Assim pensei que pudemos começar a criar laços de intimidade desde agora, aproveitando o tempo de resguardo da melhor maneira. Alem disso gostaria de estar contigo sempre que tenhas de amamentar de noite, gostaria de ser eu a dar o biberão a um dos bebés. Mas se não estás preparada, posso ficar num dos outros quartos. Penso que devia ter-te dito isto no hospital, mas estavas sempre acompanhada.

- Tens razão João, desculpa a minha timidez, afinal, nunca dormi com um homem.

- Sou o teu marido, querida. E de momento vou ficar feliz por partilhar a tua cama.  Por ora será apenas isso, um dia no futuro partilharemos a cama, os sentimentos e tudo o que a vida nos permitir que partilhemos.

- Mas e a Gabriela, e as amas?

- O que é que tem?

- Não vão ficar intimidadas para trazerem os bebés ao quarto, contigo aqui?

- Não te preocupes. Olha, temos aqui um radio transmissor, que nos avisará quando eles acordarem. Então levanto-me, e aguardo levantado que elas venham trazê-los. Não me encontrando deitado, ninguém se vai sentir intimidado.




16.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVI





Embora Inês estivesse espantada com a casa do empresário, especialmente com aquele átrio à saído do elevador, meio estufa meio sala, não fez qualquer comentário. João abriu a porta e acendeu a luz convidando-as a entrar. Depois conduziu-as até ao fundo do corredor dizendo:

-Será melhor que te deites, deves estar muito cansada. A Inês pode ajudar-te.

-Mas este é o teu quarto, - protestou Teresa.

-Agora é o teu. É o maior,  tem mais luz, e dá para o terraço, onde podes apanhar um pouco de sol, quando a enfermeira o aconselhar. Amanhã quando viemos do hospital, se a médica estiver de acordo com o meu plano, mando instalar aqui um biombo e uma cama de modo a que a enfermeira da noite esteja perto de ti se necessitares de alguma coisa.

Pousou a mala no chão e disse:

- Deixo-vos sós para que te possas deitar. Entretanto vou  aquecer-te um copo de leite.

- Mas…

- Sem discussão Teresa. Já viste a casa. Sabes que posso ficar comodamente instalado em qualquer dos outros quartos. E se não te sentes à vontade com a enfermeira no quarto, pudemos comprar um intercomunicador e instalá-la no quarto ao lado. Confia em mim. Farei tudo para que passes uma gravidez o melhor possível.

Quando ele saiu, Teresa sentou-se na cama e começou a despir-se, enquanto Inês abria a mala e tirava uma camisa de dormir, o robe e os chinelos

Ajudou-a a trocar a roupa e depois perguntou:

- Consegues ir sozinha à casa de banho?

- Claro. Podes trazer-me os meus objetos de higiene?

- Já os tenho aqui - disse mostrando a bolsa.

Só na casa de banho, Inês se atreveu a comentar o que lhe ia na cabeça.

- Menina, que casa! Nunca imaginei nada igual. E que cuidados ele tem contigo. Esse homem está apaixonado por ti.

- Não digas asneiras. Está preocupado com os filhos. Imagina um homem com a sua posição social, sem poder ter descendentes a quem deixar todo o esforço do seu trabalho. E de repente dizem-lhe que vai ser pai, não de um, mas três filhos embora o risco de não ter nenhum seja grande. Ficou apavorado e fará tudo para que nada corra mal. Mas isso não tem nada a ver comigo, muito menos com estar apaixonado, que ideia.

- Pode ser que tenhas razão, mas não estou convencida disso. Se me dás licença vou abrir a cama, e arrumar o resto das roupas. Com tudo isto, já são dez e vinte.

Meia hora mais tarde, já Inês tinha visto toda a casa e despedia-se da amiga que lhe disse:

-Obrigado por tudo. Fica em casa amanhã, precisas descansar. Depois que a doutora Laura me atender, telefono-te.

- Ela disse para estares lá às onze horas, não esqueças, - disse despedindo-se com um abraço

João acompanhou-a até ao parque, onde tinha o carro e quando voltou ao quarto, verificou que Teresa tinha adormecido.

 


5.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLI

                                        


Após alguns minutos de indecisão, Olga entrou no gabinete do empresário e encontrou-o de costas junto à janela. Conhecia-o bem demais, para não saber que era a atitude que tomava quando alguma coisa o incomodava. Não se atreveu a perguntar sobre a visita do advogado, limitou-se a recolher o tabuleiro com as chávenas vazias e a perguntar:

- Precisas de alguma coisa?

Sobressaltado voltou-se. Perdido nos seus pensamentos não dera pela entrada da sua assistente.

- Não. Pousa isso e senta-te. Preciso falar contigo, - disse encaminhando-se para a sua secretária e sentando-se.

Olga obedeceu e aguardou. O patrão parecia-lhe tão transtornado, que apesar de toda a confiança que os unia, não se atreveu a fazer-lhe perguntas. Depois de um curto silêncio ele perguntou:

- Tu tens mais dez anos do que eu, verdade?

- Quase onze, sabes bem disso, - respondeu Olga sem descortinar a razão de semelhante pergunta.

- E aos dez, onze anos,  as crianças já guardam recordações que ficam para a vida. Sempre moraste naquela casa?

Cada vez mais intrigada, ela respondeu;

-Nasci lá. Meu pai recebeu-a do meu avô, como prenda de casamento.

- Tu lembras-te da minha mãe?

- Sim.

- Como era ela? Não me refiro ao físico, mas como pessoa.

- Porque queres saber isso agora, se nunca permitiste a ninguém que te falasse dela? O que aconteceu? Quem era aquele advogado, e porque é que quando eu entrei vocês pareciam dois galos de combate antes de uma luta?

- Mais tarde eu te conto, agora por favor, responde à minha pergunta.

- Sim lembro-me bem da tua mãe. Era uma mulher de sorriso doce com uns olhos iguais aos teus, mas tão tristes, que pareciam estar sempre cheios de lágrimas, embora na verdade nunca me lembre de a ver chorar. Devia ser por causa das brigas que tinha com o teu pai.

- O quê? Ele maltratava-a? – perguntou levantando-se e encaminhando-se de novo para a janela.

- Queres saber se lhe batia? Penso que não, pelo menos nem eu nem a mãe, demos alguma vez por ela ter marcas físicas. Nas sabes bem que muitas vezes nem são os maus tratos físicos os que causam mais danos, A minha mãe, dizia que a pobre vivia enclausurada por causa dos ciúmes doentios do marido. Ela só saía de casa acompanhada por ele, e não podia falar com ninguém. Mesmo connosco só o fazia, quando ele estava na oficina. Hoje quando penso nisso, acho que ela tinha chegado a um ponto que só tinha dois caminhos à sua frente. Ou fugia para onde ele não a encontrasse, ou acabava com a vida. E nós nunca acreditámos que ela fugiu com um amante. Isso foi invenção do teu pai. Um dia no fim da manhã, quando cheguei da escola, encontrei a mãe a dar-te o biberão. Disse-me que a vizinha lhe pediu se ficava contigo enquanto ia ao posto médico onde tinha uma consulta. Nunca voltou. Mais tarde a mãe disse que desconfiara de alguma coisa, porque se despediu de ti a chorar.

- Meu Deus, e ele sempre me fez acreditar que ela era uma galdéria, capaz de nos abandonar para correr atrás de um dos seus amantes. E mesmo na hora da morte, quando me pediu perdão por não ter sido um bom pai, me disse que a culpa de ele ter sido assim fora dela, que toda a vida a amara e que depois que ela o abandonara se sentira morto por dentro e talvez por isso não tivesse sabido ser bom pai.

- Talvez ele acreditasse nisso. A minha mãe sempre dizia que aquilo não eram ciúmes, era doença.

-Mas vocês cuidavam da casa. Eu sempre pensei que eram amigas dele.

- O teu pai não era homem que tivesse amizade com ninguém. E nós cuidávamos da casa, das roupas, da comida, por ti. Diz-me quantas vezes te lembras do teu pai cozinhar para vós? Tu não terás memória disso, mas até quase aos quatro anos comias e dormias na nossa casa, como se fosses meu irmão. E durante esses quatro anos ele nunca bateu à nossa porta para perguntar como estavas.  Um dia, sem qualquer explicação chegou lá, pegou-te num braço, levou-te para casa e nunca mais te deixou ficar connosco passando a levar-te com ele para a oficina. Mas porque nós víamos a pouca importância que ele te ligava, é que lá íamos fazer a comida e limpar a casa. Era por ti, não por ele.

- Obrigado Olga.  Vou sair. Amanhã ou depois conto-te tudo. Tudo isto é muito doloroso para mim.  Agora preciso arrumar ideias, respirar ar puro.

 

14.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXII


Mais tarde, Teresa recordaria aquela primeira saída com o empresário como um dia especial. O almoço decorrera em harmonia, como se efetivamente fossem velhos amigos. João falou do seu trabalho, dentro da firma que ele mesmo criara, do jogo que lançara na véspera, de como se sentia feliz e divertido enquanto criador de jogos, que iriam divertir muita gente em todo o mundo.

Teresa disse que era mais ou menos a mesma sensação que ela sentia, quando conseguiam um novo creme ou uma nova massa.

- És pasteleira? Foi o que cursaste?

- Não. Cheguei ao último ano de Economia.  Fui até há pouco tempo a gerente. Tenho um pasteleiro, um homem fantástico, que me ensinou muitos dos segredos de pastelaria e com quem gosto de experimentar novas criações. Mário é um homem incrível, sem ele não teria conseguido o sucesso que consegui. Foi ele que ao levar-me até ao seio da sua família, evitou a minha solidão, quando a minha tia-avó Julieta morreu.

João, remexeu-se na cadeira. Quem raio era aquele Mário, de quem ela falava com tanto entusiasmo. Sentiu-se incomodado. Ele não podia estar com ciúmes do pasteleiro, ou podia? Alheia aos pensamentos do empresário, Teresa continuou:

-Fui até há pouco tempo a gerente. Agora estou afastada. Contratei a filha do Mário como gerente. É minha amiga, tenho plena confiança nela, e sei que o pai a ajudará nalgum problema que possa surgir como me ajudou a mim, tantas vezes. Há cinco anos que trabalho de segunda a sábado mais de doze horas por dia. Resolvi fazer uma pausa durante um ano ou dois. Graças a Deus o negócio vai muito bem, posso dar-me a esse luxo.

Tinham acabado a refeição, e Teresa sentia-se feliz porque não se sentira enjoada, nem com vómitos como ao pequeno almoço.

O empregado retirou o serviço deixando a carta das sobremesas e eles escolheram “Ananás dos Açores confitado”

Depois do café que apenas João tomou, ele pediu e  pagou a conta. Saíram do restaurante e caminharam lado a lado, em direção ao Mercedes que os esperava no parque. Apesar do empresário não lhe ter tocado, Teresa estava por demais consciente do homem que seguia a seu lado. Já no automóvel, ele disse:

-Gostava de te mostrar a minha empresa. É sábado, não haverá ninguém lá senão o porteiro e os seguranças. Queres ir, ou sentes-te muito cansada?

-Estou um pouco cansada sim, mas o pior é o sono. Estou tão sonolenta que sou capaz de me deixar dormir no carro.

- Se assim é, faz a vontade ao corpo. Eu vou devagar, e quando chegarmos já estarás mais desperta.

Pôs o carro a trabalhar e fez a manobra para seguir em direção a Sintra. A volta era maior, mas se ela adormecesse dava-lhe um pouco mais de tempo para descansar. Sentia-se bem junto dela, não queria ir já levá-la a casa. Era a primeira vez que se sentia tão bem junto de uma mulher que não era sua amante.  Bom, também se sentia bem quando saía com Olga. Mas Olga não contava. Era como uma irmã mais velha. Naquele momento ouviu uma respiração diferente e olhou a sua companheira. Teresa tinha adormecido.

Tinha no rosto uma expressão suave, nada semelhante à tensão que demonstrava na ida para o almoço. Parece que a sua estratégia para ganhar a confiança dela, estava a resultar.


2.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVII



Vinte minutos mais tarde, Olga entrava no gabinete.

-Desculpa interromper-te. O Artur Simões ligou. Diz que finalmente conseguiu acabar a aplicação das traduções em simultâneo, e pede se podes ir lá abaixo à secção para fazerem um teste.

 -Diz-lhe que vou lá depois do almoço. Como é que estão os preparativos para a festa? Já enviaste os convites para a imprensa?

-Tudo em ordem, não te preocupes. Já enviei para os principais jornais, para a rádio e televisão. Também para os nossos principais clientes. Pareces-me preocupado, mas penso que não tem nada a ver com o lançamento do jogo. Aconteceu alguma coisa que me queiras contar?

-Estou preocupado sim, mas tens razão, não se refere à festa. Acabei de telefonar à Teresa Sobral e convidei-a para a festa.

- E ela não aceitou o convite!

- Como sabes?

-Elementar, meu caro chefe. Sou mulher!

- Sim? Sabes que não acredito nessa história de que vocês têm um sexto sentido.

- Não é preciso um sentido a mais, nem tão pouco uma bola de cristal. Depois do choque que ela deve ter sofrido ao descobrir o que aconteceu, o que mais deve desejar é estar em paz e refletir na estranha situação em que uns incompetentes a meteram.

- Eu estou na mesma situação…

- Eu sei. Mas para os homens tudo é mais fácil. Não me refiro a que vocês tenham menos sentimentos, ou que não sofram. Mas vocês não sabem o que é carregar nove meses um filho dentro de nós. Ter que viver com os efeitos que as cargas hormonais provocam no corpo e no sistema sensorial, os desejos, os receios de que alguma coisa corra mal, a dilatação do ventre, as estrias, as dores dos rins, o cansaço, os pés inchados, etc.

-Como é que sabes tudo isso, se nunca engravidaste?

- Desculpa, mas às vezes não me pareces o homem inteligente que sei que és. Um psiquiatra precisa ser louco, para tratar os seus doentes? Um bombeiro, precisa atear um fogo, para aprender a apagá-lo? Uma mulher casada, apaixonada pelo seu marido, tem nele e no seu amor, um suporte para viver as vicissitudes da gravidez; uma mulher que decide ser mãe solteira, só pode contar com ela mesma. E no caso da Teresa Sobral, todos os problemas da gravidez são acrescidos pela incompetência de alguém, que a colocou numa corda bamba, da qual receia cair a qualquer momento. Como querias que ela aceitasse vir para uma festa onde não conhece ninguém e onde se ia tornar objeto de exposição para os teus funcionários e para os convidados?

- Foi mais ou menos isso que ela alegou para não aceitar. Mas Olga, nós temos de conviver. Afinal ambos somos igualmente pais da criança que está para nascer e ambos a queremos.

- E é só pela criança, que achas necessária essa convivência?

- O que é que estás a insinuar?

- Nada chefe, - disse sorrindo ao ver o empresário franzir o sobrolho. Sabia bem o quanto ele se irritava, quando o chamava assim. – Só que me parece que estás tão ou mais interessado na mãe, que no filho. O homem que não acreditava no amor. Pois sim! Desta vez parece que andou por aqui o menino das flechas.

- Estás doida.  Vinhas dar o recado do Artur? Pois já tens a resposta. E se não tens mais nada que fazer, revê tudo para a festa. Anda desaparece.

Olga apressou-se a sair do gabinete, sorrindo.  A verdade é que o empresário estava diferente desde aquela tarde em que conhecera a futura mãe do seu filho.

Enquanto isso João levantava-se e dirigia-se à janela, inquieto.


31.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVI



Olhou o relógio. Quase meio dia. Pousou o livro na mesinha em frente ao sofá e ia levantar-se para preparar o almoço, quando o telemóvel tocou.

- Estou…

- Bom dia, Teresa! Sou o João Teixeira. Podes atender, ou estás muito ocupada?

Não precisava ter-se identificado, apesar de só terem conversado uma vez ela reconheceu de imediato a voz grave e um pouco rouca do empresário

-Posso atender.

-Como estás?

- Estou bem, só um pouco surpresa, não estava à espera da tua chamada, tão cedo.

-Cedo? Mas é quase hora de almoço…

- Não me referia à hora...

- Eu sei. Estou a ligar, para saber como vais: E também para te fazer um convite. Na Sexta-feira, vamos lançar um novo jogo de computador. É a continuação de um jogo lançado há anos e de grande sucesso, pelo que este está sendo esperado com grande expectativa e vai ser lançado em simultâneo em vários países. Vamos fazer aqui uma festa e gostava que viesses. Não poderei ir buscar-te, mas mando um motorista apanhar-te na morada que me indicares. Vens?

- Desculpa recusar o convite, mas deves compreender que não me sentiria bem numa festa onde não conheço ninguém a não seres tu, se é que podemos dizer que nos conhecemos. Além de que nunca fui muito amiga de festas e na atualidade a única coisa que quero é descansar. De qualquer modo obrigado pelo convite.

- Para te ser sincero, não fosse a minha presença obrigatória, enquanto criador do jogo, e também não iria.  De qualquer modo, não podemos criar uma relação de amizade, se não nos encontrarmos de vez em quando. Aceitas jantar comigo no sábado?

- Desculpa mais uma vez, mas ando muito sonolenta, deito-me com as galinhas, como dizem na aldeia.

- Nesse caso trocamos o jantar pelo almoço.

- Não acho que seja uma boa ideia. És muito conhecido, se algum jornalista nos vê juntos começam logo a querer saber quem sou, o que faço, e quando descobrirem que estou grávida nunca mais me deixam em paz.

- Confia em mim.  

- Nunca desistes?

- Daquilo que é importante para mim, nunca.

- Está bem.

- Está bem o quê? Eu não desistir ou tu almoçares comigo?

- Está bem, almoço contigo.

-Então sábado vou buscar-te ao meio-dia. Tens que me dar a morada.

- Vais dizer-me, que sendo tu um expert de computadores, não sabes já onde moro?

- Se vamos ter um filho, e por ele vamos ter que conviver, a primeira coisa que temos de aprender é a confiar um no outro. Eu disse-te que confiaria em ti, recordas-te? Logo por muita vontade que tivesse de verificar as informações que me deste ou de descobrir a tua morada, não o faria, pois isso seria uma prova de que não confio em ti, ou não sou de confiança.

Embora incrédula ela deu-lhe a morada e despediram-se depois dele confirmar que a iria buscar no sábado ao meio-dia.

29.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XII





- O empresário João Teixeira!
- O Ronaldo da informática? Meu Deus, Teresa! E agora? O que vais fazer?
- Não sei. Desde logo pedir conselho ao teu marido, saber que tipo de proteção posso esperar da justiça. Depois por certo entrar em contacto com o homem. Não vou ficar à espera de ver o que faz. Não consigo viver com esta espada pendendo sobre a minha cabeça.
- Mas não pode tirar-te a criança. Se ela tem o seu material genético, também tem o teu. Foi o teu óvulo que foi fecundado e é no teu útero que se está a desenvolver. É tão filho dele como teu. Mesmo um juiz terá isso em conta.
-Não sei, se é assim tão simples. Estou aterrorizada. Imagina que o homem ficou estéril após a tal doença? Não vai querer ficar sem a única hipótese de ser pai. Qualquer juiz vai ter isso em conta. E provavelmente atribuir-lhe a guarda do bebé! Afinal eles não decidem isso quando um casal com filhos se divorcia? Eles não entregam a criança à guarda daquele que tem mais hipótese de dar uma melhor vida à criança? Imagina no meu caso.
-Mas tu tens uma excelente situação financeira, podes dar uma boa vida a duas ou três crianças.
-Uma gota de água comparada com a dele, segundo me disseram. E depois um juiz pode sempre alegar que eu posso ter outros filhos enquanto a ele lhe roubaram a única hipótese de ser pai. Não sei que faça, este filho foi tão desejado que não quero sequer pensar na hipótese de perdê-lo, mas não podemos parti-lo ao meio como na sentença de Salomão.
- Mas um juiz também pode decidir que fiquem com a guarda partilhada da criança.
- Já pensei nisso. Iria ter que conviver com uma pessoa, que até agora nunca vi, que não sei como vai influenciar a educação do bebé, nem se a criança mais tarde, quando tiver discernimento, para compreender a história do seu nascimento, não vai optar por ficar com o pai. Não é de modo algum a vida que sonhei para nós dois, mas dadas as circunstâncias poderá ser a melhor decisão.  
- Não podes angustiar-te assim. Pensa no bebé! Uma grávida precisa estar calma. Se por causa da tua ansiedade abortares, não resolves o problema e vais ficar toda a viva a culpares-te por isso. Vou fazer-te um chá de valeriana, a ver se te acalmas.
Levantou-se e Teresa fez o mesmo seguindo-a para a cozinha.   
- Queres que telefone ao Gustavo e pergunte se te pode receber? – perguntou Inês enquanto punha a água ao lume para o chá. - Mas porque não ficas para almoçar connosco e falas com ele, depois do almoço? Estás demasiado nervosa agora, para conduzir. E depois o Martim está quase a acordar, vai ficar muito feliz se vir a madrinha.
- Eu fico. Preciso saber o que a lei diz nestes casos, para tomar uma decisão. Vou telefonar ao teu pai e pedir-lhe se ele pode continuar à frente da pastelaria. Com toda esta confusão não sei, quando poderei voltar a assumir a gerência. Achas que o teu pai estaria interessado em deixar o forno e assumir o lugar? É claro que teria de contratar outro pasteleiro, mas preferia isso do que contratar um gerente. Tenho total confiança no teu pai e era menos uma preocupação.


23.6.20

ISABEL - PARTE XXX



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do lançamento do seu novo livro, que seria já no final do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, nem bem se podia chamar um trabalho, embora ele o levasse a sério, era um favor feito a um empresário amigo do seu pai. Luís precisava de conviver naquele local para observar as rotinas dos empregados, já que as personagens da novela que estava a escrever, estavam ali empregadas, e o amigo de seu pai, fora surpreendido pelo pedido de transferência do seu director comercial, e apesar das várias entrevistas, não tinha ainda encontrado a pessoa com o perfil adequado ao lugar. Assim e com a intervenção do seu pai, tinham chegado a um acordo e Nuno Fraga ocupara o lugar 
Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que não fosse, tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Procurara o seu nome na lista telefónica mas não o encontrou, o que não lhe causou qualquer surpresa. Atualmente poucas pessoas dispunham de um telefone fixo. Da próxima vez que o destino os juntasse teria que arranjar maneira de descobrir o número do seu telemóvel.Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, faltava já só dez dias para a data do lançamento.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara até ali. Claro que ele continuaria por lá, mas agora terminada a sua missão, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Acabara por descobrir que escrever uma novela, era muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-o ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compunham cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, que lhe tinham pedido inicialmente, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir outros, etc. Percebeu porque se adaptam grandes obras literárias a novelas mas raramente um bom escritor escreve novelas para a Televisão. Na prática o escritor pode ter uma excelente ideia, mas se ela não fizer subir as audiências, ver-se-à obrigado a enveredar por um caminho que não lhe diz nada, apenas para cair no gosto popular.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, apenas como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando viu Isabel no centro comercial, prestes a entrar no supermercado. Pensou que ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou andava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto. Aproximou-se.
- Boa noite Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.


E como hoje é vésperas de S. João, festejem-no em casa e não joguem a vossa saúde na roleta da sorte. Para não terem más surpresas.







17.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE V




Gabriel chegou à academia dez minutos antes do começo do espetáculo.
Encontrava-se acompanhado de um amigo, empresário, com quem tinha alguns negócios, e da esposa do amigo. Tinha recebido o convite na semana anterior, mas acabara por esquecê-lo, só voltando a recordá-lo, quando o amigo lhe telefonara. Na verdade se não fosse por se tratar de um espetáculo beneficente, não teria ido, não era apreciador daquele tipo de espetáculo, danças de salão, para ele, só como interveniente, e com uma bela mulher nos braços. Porém ali estava numa noite de sexta-feira, disposto a passar umas horas aborrecidas, em prol de uma boa causa. Pouco depois as luzes na sala, apagaram-se e um a um os seis pares foram entrando na pista. Recostado na cadeira, com os olhos semicerrados e uma posição indolente, Gabriel não parecia muito entusiasmado.
De súbito, alguma coisa lhe chamou a atenção. Endireitou-se e fixou o olhar no último par que acabara de entrar. Melhor, não no par, mas na bela figura feminina que envergava um lindo vestido vermelho. Havia qualquer coisa de familiar naquela mulher. Seria o tom do cabelo, preso no alto da cabeça, num coque embelezado por uma fita preta, adornada com uma rosa do mesmo tom do vestido?
Quando os pares se posicionaram nos seus lugares, o número seis ficou mais perto do local onde Gabriel se encontrava, e ele assombrado julgou  reconhecer Sandra na esbelta bailarina.
- Não pode ser, - murmurou.
Aquele “monumento” não podia ser o “estafermo” da Sandra. Ou seria? E como dançava, Santo Deus. Ele não conseguia desviar os olhos da bela figura feminina.
Após uma primeira apresentação, em que os seis pares dançaram a Valsa e o Foxtrot, os bailarinos retiram-se e um apresentador fez uma breve explicação sobre a origem das danças de salão. Logo depois entraram dois pares que dançaram primeiro uma Polca e depois o Bolero.
Depois entraram outros dois pares e Gabriel disfarçou um gesto de enfado. Ele queria ver de novo a mulher de vermelho.
Depois de mais duas danças, desta vez a Salsa e o Chá Chá Chá, eis que voltam os últimos dois pares. Começam por dançar a Rumba, e Gabriel não conseguia  desgrudar os olhos da figura feminina, que na pista se movimentava com graciosidade e agressividade, insistente e romântica, num jogo de sedução, visando conquistar o parceiro, que é afinal o sentido da própria Rumba. A dança terminou sob um acalorado aplauso para logo de seguida se ouvirem os primeiros acordes dum Tango.
O Tango era a dança preferida de Gabriel, pelo papel dominante que o homem desempenhava na dança. Mas quando os pares se posicionaram na posição inicial do Tango, ele notou que a bailarina, arqueava ligeiramente o corpo, como que resistindo a deixar-se dominar.
Sorriu. Além de bela, tinha personalidade.

11.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XIX



Isabel acabou de aspirar a casa e preparava-se para tomar banho quando Natália chegou com a menina. Ela contou à vizinha a visita do empresário e pediu-lhe se podia ficar com a criança, para que pudesse ir jantar com ele e saber o que o homem pensava fazer. Depois deu banho à menina, vestiu-a e deu-lhe a comida. De seguida, meteu-a no parque com alguns brinquedos e foi tomar banho. Estava-se a meio de Outubro, os dias continuavam quentes, mas as noites arrefeciam bastante, e por isso vestiu um vestido preto, em lã, que se ajustava ao seu corpo e lhe estilizava a silhueta, e um casaco curto de xadrez preto e branco. Acabava de se vestir quando a campainha tocou. Faltavam ainda vinte minutos para as oito, só podia ser a vizinha, Isabel foi abrir, e Natália dirigiu-se ao parque onde Matilde se tinha deixado dormir agarrada ao ursinho de peluche.
-Deixou-se dormir. Vou deitá-la. Precisa mudar de roupa? – perguntou.
-Mudei-lhe a fralda depois do jantar, ainda não há meia hora, - respondeu.-  Vou acabar de me arranjar.
-Vá sim Isabel, não se preocupe, eu cuido dela.
Isabel voltou ao quarto, procurou uns sapatos de salto alto, calçou-os e depois sentou-se em frente do espelho, apanhou o cabelo num coque, e maquilhou levemente o rosto, acentuando um pouco as maçãs do rosto, e realçando os seus olhos cor-de-chocolate.
Quando Ricardo chegou às oito horas, Isabel não parecia a mesma mulher que ele tinha visto nessa tarde. Estava muito elegante, embora sem perder o ser ar natural. Ao olhá-la, não pôde deixar de pensar que a gata borralheira se tinha transformado numa princesa.
Saíram, e ele conduziu-a ao carro. Nervosa, ela queria saber logo o que ele tinha decidido, e mal o carro se pôs em movimento, não se conteve.
-Disse-me que precisava falar comigo…
- Falaremos disso durante o jantar. Agora se não te importas, vamos deixar o tratamento cerimonioso de lado. Já nos conhecemos, e temos em comum o futuro de uma criança para decidir. De acordo?- perguntou
-De acordo – respondeu.
Tinham chegado ao parque do restaurante em Belém. Não era um grande restaurante mas tinha uma excelente vista para o Tejo e para a Torre. Saíram do carro e Ricardo deu- lhe o braço para entrarem no local.
-Boa noite, senhor.
- Boa noite. Reservei mesa para dois, em nome de Ricardo Medina
O empregado conduziu-os para uma mesa num local discreto junto à janela, e entregou-lhes a ementa. Ela porém pousou a sua quando ele abriu a dele e perguntou:
- Tens preferência por algum prato em especial? – perguntou ele.
- Não, mas gosto mais de peixe, do que de carne.
- Então vamos ver o que há hoje de peixe; salmão no forno, bacalhau com castanhas, beringela recheada com atum, pescada gratinada em cama de espinafres, filetes de robalo com batata- doce, e medalhões de pescada com bacon. Agrada-te alguma coisa?
- Salmão no forno.
- Muito bem. Eu prefiro o bacalhau.
Fechou a lista e imediatamente o empregado se aproximou. Ele fez o pedido, escolheu um Marquês de Borba tinto, e esperou que o empregado se afastasse para iniciar a conversa.

10.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XVIII





Na semana que se seguiu, Isabel conseguiu enfim um emprego, ia começar na segunda-feira a trabalhar como secretária,numa empresa de transportes. Certo que era temporário, pois ia substituir a secretária, que se encontrava de baixa, com uma gravidez de risco. Seriam apenas onze meses, entre o tempo de gravidez que faltava e os meses de licença pós parto, mas pelo menos durante esse tempo podia respirar descansada, não fora o facto de Ricardo ter deixado uma espada suspensa sobre a sua cabeça. As últimas palavras do empresário soaram-lhe como uma ameaça. Se arrependimento matasse ela estaria morta. Porque havia de ter feito o que a irmã pediu? Porque havia de o ter procurado? Bem, na verdade, ela sabia porque o tinha feito. A irmã sempre sentira a falta do pai. E ela não queria que Matilde fosse uma reedição de Susana. Mas que seria dela, se ele resolvesse pedir a guarda da menina em tribunal? Certo que ele dissera que não o faria. Mas poderia ela confiar na sua palavra? A irmã tinha-se apaixonado e confiado no namorado. E onde é que isso a levara? Entretanto passara-se aquele fim-de-semana, a semana seguinte, e chegara-se de novo a sábado, sem que ele voltasse a dar notícias.
Naquela tarde, Isabel aproveitava o facto de Natália ter levado a menina ao parque, para fazer uma limpeza à casa. Vestia umas velhas calças de ganga, e um camiseiro que em tempos teria sido vermelho, mas que agora se apresentava bastante desbotado. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, coberto por um lenço florido atado na nuca. Nos pés, uns chinelos já meio gastos.
Acabou de aspirar a sala, puxou o aspirador para o corredor e preparava-se para o desligar da tomada a fim de ir aspirar o quarto, quando a campainha tocou. Pensando que era Natália que voltava do parque, abriu a porta e corou ao ver Ricardo, que se encontrava do outro lado.
- Devia ter avisado, vejo que não venho em boa altura.
- De facto, costumo aproveitar a ida da Matilde ao parque para fazer estas limpezas, pois ela tem medo do barulho do aspirador.
- Precisamos falar mas posso voltar mais tarde. Porque não vem jantar comigo? Posso apanhá-la às oito horas. A ama pode ficar com a Matilde.
-Não é ama. É uma vizinha de há muitos anos que gosta muito dela e me ajuda. Se não se importa, realmente a mim dá-me jeito acabar a limpeza antes que elas voltem.
-Combinado. Volto às oito horas.
Deu a volta e foi-se embora.


20.5.19

UM PRESENTE INESPERADO





                                                    Prólogo


O dia apresentava-se invernoso naquele final de Novembro. Chovera quase todo o dia e o céu continuava muito escuro. Ao longe no horizonte, um arco-íris, punha uma nota de cor, na negrura das nuvens. O vento soprava forte, e o mar rugia, atirando as vagas de encontro à Falésia, como se estivesse lutando para derrubá-la.
Sobre ela, uma figura solitária, indiferente ao tempo, quiçá até à própria vida, parecia observar fascinada a dança louca das vagas.
Tinha vinte e dois anos, e uma vida de sofrimento atrás de si. Toda a vida foi uma inadaptada. Não conhecera o pai, de quem sempre sentira a falta, e embora a mãe se matasse a trabalhar para criar as duas filhas, ela nunca se sentiu feliz com a vida que tinha. Sentia-se infeliz por não ter roupas bonitas e caras como as suas amigas. Ela tinha que se contentar em usar as roupas que Isabel usara anos antes e que a mãe guardara religiosamente para ela. Tinham dez anos de diferença, quando chegava a vez dela já ninguém vestia semelhantes roupas.
Como ela gostaria de ser como a sua irmã Isabel, que se contentava com a vida que tinha e era feliz. Ela, Susana, vivia corroída pela inveja. Invejava as amigas que tinham o pai vivo, as que iam para a escola de carro, as que usavam roupas de marca, até o feitio manso da irmã ela invejava. E sonhava que um dia tudo ia mudar na sua vida.
Tinha quinze anos quando a mãe morreu e ficou sozinha com Isabel. A irmã assumiu as despesas da casa, e ela continuou a estudar, acabou o secundário e pensou entrar no mercado de trabalho, mas Isabel insistiu que lhe pagaria os estudos e que ela precisava continuar a estudar. Matriculou-se na Faculdade de Ciências, mas numa saída com colegas no segundo ano, conheceu Ricardo de Souto Medina, um empresário, rico e bem-parecido, por quem se apaixonou.
Ricardo, trinta e sete anos, sentiu-se lisonjeado com o fascínio que a jovem tinha por ele. Começaram a sair juntos, mas se Susana sonhava com o amor, e um casamento que lhe desse enfim a vida a que ela julgava ter direito, Ricardo pensava apenas em se divertir e aproveitar o que ela estivesse disposta a dar-lhe. Quando a novidade deixou de o ser, desapareceu, e não deu mais noticias.
Desiludida e deprimida, não queria sair de casa, deixou os estudos. Sentia-se mal, tinha náuseas, não lhe apetecia comer.
Quando Isabel preocupada conseguiu convencê-la a ir ao médico, descobriu que estava grávida de doze semanas. Ficou ainda pior.
A gravidez foi um suplício, dividia-se entre o amor pelo ser que ia dar ao mundo e a raiva por sentir que não tinha condições para criar um filho, nem queria que ele tivesse a mesma vida medíocre que ela tinha.
Um dia quase no fim da gravidez, encontrou Ricardo num Centro Comercial. Sentiu um baque no peito. Quem sabe, ele vendo-a grávida, voltasse para ela? Porque ele tinha de saber que o filho era dele. Dirigiu-se-lhe, mas ele fingiu não reconhecê-la. Ficou de rastos. Uma semana depois dava à luz uma menina, que Isabel adorava, mas de quem ela não conseguia gostar. Aliás ela não conseguia gostar de ninguém, nem sequer de si mesma. A única coisa que lhe apetecia era desaparecer.
Lentamente começou a caminhar na direção da falésia. Lá em baixo o mar agitado parecia chamar por ela. Susana… Susana…
De súbito o seu corpo voou, e por breves instantes sentiu-se livre e feliz. Logo depois foi tragada pelas águas revoltas, enquanto uma gaivota grasnava sobre a falésia.

9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLV


Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália. Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros, não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter nada de especial para dizer. E ela esperava a chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.  
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o menino  eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar, telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.


7.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLI



-Está lá fora o senhor Jorge Maldonado para falar consigo.
António levantou os olhos e olhou a sua secretária, tão surpreso como se ela lhe anunciasse que o Papa o queria ver.
-Disse-lhe que estava muito ocupado?
-Disse. Mas ele diz que não se vai embora sem falar consigo.
-Está bem. Faça-o entrar e deixe-nos sós.
-Bom dia- saudou Jorge ao entrar no gabinete.
- A que devo a honra da sua visita? – perguntou António sem se levantar, nem corresponder ao cumprimento.
Jorge Maldonado avançou até parar em frente da secretária, meteu a mão no bolso, retirou um papel, desdobrou-o e colocou-o bem na frente do empresário.
-Vim devolver isto. Deve ter ido por engano, pois não me pertence.
-A Paula não lhe disse, que era uma indemnização pelos danos causados?
- Claro que disse. Todavia o valor do resgate que pagaste pela hipoteca cobre os prejuízos.
-A “Casa Nova” está sem fundo de maneio, para se reerguer. E eu tinha prometido um empréstimo…
- A troco da minha filha casar contigo. Ela garantiu-me que não o vai fazer. E ainda que assim fosse, quem empresta uma tal quantia, sem documentos assinados, e garantia de reaver o empréstimo? Nem o mais altruísta dos homens, quanto mais tu, que apenas desejas vingar-te pelo mal que te fiz. Não, o que pretendias era humilhar-me, continuando assim a tua vingança. Mas deixa que te diga uma coisa. Nada do que tu faças, me causará tanto dano, quanto o remorso com que a minha consciência me tem atormentado ao longo destes anos.
Sem se conter, António soltou uma gargalhada.
-Remorsos? Ora, não me faça perder tempo, que não tenho disposição para anedotas. Para alguém ter remorsos precisa ter sentimentos e isso é coisa que nunca teve. Lembra-se do modo como nos tratava a mim e aos meus colegas de trabalho? Do abandono a que votava a sua filha? Alguma vez reparou na tristeza dela? Na solidão que sentia? Meu Deus era uma menina triste, sofrida, porque sentia que o pai não a amava. Mas o senhor não reparava em nada nem em ninguém. E o que fez comigo não tem perdão. Não esperou que a polícia investigasse o roubo. Foi logo acusando-me de ficar com o dinheiro, manchando a única coisa valiosa que eu tinha. Um nome honrado. Por isso não me venha falar de remorsos. Leve o maldito cheque, ou deixe-o ficar, mas desapareça. Não quero voltar a vê-lo.
Sem uma palavra, Jorge Maldonado, virou-lhe as costas, dirigiu-se à porta e abriu-a. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
-Custa a crer que te tivesses apaixonado por aquela miúda triste e desengonçada.
Não lhe deu tempo para responder. Saiu e fechou a porta deixando o empresário perplexo . “O homem é doido”, pensou. Só uma mente doentia podia pensar que ele, com dezanove anos se tinha apaixonado por uma menina de nove anos. Aquilo era mais uma ofensa à sua integridade moral. Ele, simplesmente tinha pena da solidão da menina. Era por pena que às vezes sentia vontade de lhe pegar ao colo e a acarinhar, tal como fazia com a sua irmã quando a sentia triste. Apaixonado por ela. “O homem é doido”, - repetiu em voz baixa. - Quem pensa ele que eu sou? Um tarado? 
Apaixonado estava desde que há cinco anos, a encontrara no banco, mas que importava isso, ela não acreditava nele.
Irritado pegou no cheque que Jorge deixara sobre a mesa, e rasgou-o em mil pedacinhos.



Atenção ao capítulo 40 que saiu ontem à noite.  E não esqueçam a informação que lá está.


4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVII





Durante as horas que se seguiram, Paula andou pela festa, cumprimentou alguns conhecidos, conversou um pouco com o Padre Celso, verificou se tudo estava a correr como ela tinha planeado e tendo a certeza disso, pelas dezoito horas despediu-se e abandonou a festa. Nunca em toda a sua vida lhe custara tanto, a passar, o tempo que estivera numa festa. Queria voltar a falar com o empresário, mas ele ignorou-a por completo, não lhe dando hipóteses de se aproximar. Assim abandonou o local sem se despedir dele. Entrou no seu carro, pôs o motor a trabalhar e arrancou, mas apesar de se sentir cansada não se dirigiu para casa, mas para o seu escritório. A tarde estava quente, o sol brilhava com intensidade, mas para ela o dia tinha perdido todo o encanto. Já no seu escritório, verificou as notas que Irene lhe deixara em cima da sua secretária, e depois pegou num bloco e escreveu. “Não aceites nenhum trabalho para o próximo mês. Vou de férias. Depois telefono-te” Arrancou a folha do bloco fechou, a porta e já na sala da sua secretária prendeu a folha no monitor do computador e saiu fechando a porta.
Em casa, dirigiu-se ao quarto, despiu o vestido que usara na festa, entrou na casa de banho, e abriu a torneira da banheira.
Habitualmente tomava duche mas quando se sentia cansada e nervosa como agora, preferia um demorado e relaxante banho de espuma.
Sentia-se tão cansada que quase adormeceu na banheira. Acordou com o arrefecimento da água e saiu envolvendo o corpo nu numa toalha. Sentou-se no banquinho em frente ao espelho a secar a sua farta cabeleira. Quando terminou mirou-se no mesmo, com um olhar analítico. Reparou nos círculos violáceos à volta dos olhos, fruto do cansaço e das poucas horas de sono dormidas ultimamente. “Meu Deus, vou dormir uma semana seguida” pensou. Secou-se, espalhou uma fina camada de creme hidratante pelo corpo e vestiu um curto top de alças e os calções do pijama.  Levantou-se e dirigiu-se ao quarto, onde se deixou cair sobre a cama sem nem mesmo puxar a roupa para trás. Dois minutos depois, qual bela adormecida, dormia profundamente.
Acordou com o som irritante do telemóvel. Abriu os olhos e surpreendeu-se com a luminosidade que invadia o quarto. Adormecera sem fechar a persiana e o cortinado não era barreira para o sol intenso que brilhava lá no alto. Saltou da cama para apanhar o aparelho que ficara em cima da cómoda, precisamente no momento em que ele deixou de tocar. Viu que a chamada era de Cidália, e constatou pelo registo que era a sétima vez que lhe ligava.
Olhou o relógio e verificou que já passava das catorze horas. Tinha-se deitado na véspera, ainda não eram vinte horas. Dormira mais de dezoito horas seguidas. Passou a mão pelo cabelo. E dirigiu-se à casa de banho. Telefonaria à madrasta depois da higiene matinal.
Meia hora mais tarde, sentada à mesa da cozinha, com uma chávena de chá e um prato de biscoitos na frente, recordava a festa do dia anterior, e tudo o que nela acontecera, quando o telemóvel voltou a tocar. Depois de um olhar rápido para o visor atendeu a chamada
- Estou…
-Paula? Graças a Deus, desde ontem à noite estou a ligar. Pensei que te tinha acontecido alguma coisa.
- Não me aconteceu nada. Estava mais cansada do que julgava, dormi desde ontem ao final da tarde até há minutos. Aconteceu alguma coisa?
-Não sei. Estou confusa. O teu pai acabou de sair. Telefonaram do acampamento a pedir se podia ir buscar o Miguel. O motorista que os levou teve um acidente, não podia ir buscá-los. Estavam a pedir aos pais se o podiam fazer. E eu gostava de falar contigo. Posso ir aí, ou estavas a pensar sair?
-Podes vir quando quiseres. Hoje não saio, preciso preparar algumas coisas vou de férias amanhã.
-Ok. Vou para aí. Até já.