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4.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVII



Três dias depois, uma Paula furiosa, irrompeu no escritório de António, seguida de perto pela secretária que se desculpava por não ter conseguido impedi-la, e perguntava  se chamava o segurança.
-Não é necessário chamar o segurança. Pode voltar ao seu lugar. Se precisar de si chamo.
A empregada saiu fechando a porta atrás de si.
- Senta-te e diz-me ao que vieste. Mas antes deixa-me perguntar-te uma coisa. És sempre assim tão impetuosa?
- Disseste que podia confiar em ti. Que ias salvar o meu pai em troca da festa da tua irmã. E a Cidália acaba de me dizer que resgataste a hipoteca e ficaste com todos os documentos da “Casa Nova”.
- Quem é a Cidália?
- A mulher do meu pai. Mas isso não importa. Só vim para te dizer que não prestas. Não tens palavra.
- Antes que o teu génio te faça dizer alguma coisa de que tenhas que te arrepender, respira fundo, tenta acalmar-te e diz-me como é essa mulher? É tua amiga?
- Minha amiga? Muito mais que isso. Cidália foi para mim a melhor das mães.
- Muito bem. E ela não te disse que pedi ao teu pai para não despedir ninguém, e continuar à frente da empresa até ao final do mês? Que só nessa altura legalizaríamos a transação em cartório?
- E depois, o que quer isso dizer? Que queres prolongar a agonia dele? Que diabo pode ele ter-te feito para o odiares assim?
Irritado ele pôs-se de pé. Contornou a mesa e chegou junto dela.
- Diz-me que não pensaste a sério no que acabas de dizer. Não me faças pensar que és igual ao teu pai.
O seu rosto estava tenso, o olhar brilhava de raiva, os punhos crispados.
Paula, teve a certeza de que a suas palavras o tinham magoado. E de súbito percebeu porque ele não tinha querido que o pai despedisse o pessoal, fechasse a empresa ou fizesse qualquer alteração até ao fim do mês, porque era a data da festa da irmã. Ele ia restituir ao pai os documentos, nessa altura, mas por alguma razão, que ela não conhecia, queria fazê-lo sofrer durante o tempo que faltava. Levantou-se e ergueu para ele um olhar suplicante.
- Desculpa. Já percebi que fiz asneira. Disseste para confiar em ti, mas é tão difícil confiar em alguém que não conhecemos, especialmente…
Voltou a sentar-se, sem terminar a frase.
Satisfeito com o pedido de desculpas, ele voltou para o seu lugar, dizendo:
- Especialmente quando fomos traídos por aqueles que amamos, não é verdade?
-O que queres dizer com isso? Que sabes, da minha vida?
- Refiro-me ao pouco-caso que o teu pai te ligava depois da morte da tua mãe. Pelo que disseste da tua madrasta, acredito que o seu casamento foi a melhor coisa que te podia ter acontecido. Não me olhes espantada. Eu lembro-me da menina triste e solitária que eras, embora tu não te lembres de mim. E agora, em que ficamos? Conto ou não contigo para proporcionar à minha irmã uma festa de sonho?


Porque amanhã é um dia especial esta história continua no sábado.