Durante as horas que se seguiram, Paula andou pela festa, cumprimentou alguns conhecidos, conversou um pouco com o Padre Celso, verificou se tudo estava a correr como ela tinha planeado e tendo a certeza disso, pelas dezoito horas despediu-se e abandonou a festa. Nunca em toda a sua vida lhe custara tanto, a passar, o tempo que estivera numa festa. Queria voltar a falar com o empresário, mas ele ignorou-a por completo, não lhe dando hipóteses de se aproximar. Assim abandonou o local sem se despedir dele. Entrou no seu carro, pôs o motor a trabalhar e arrancou, mas apesar de se sentir cansada não se dirigiu para casa, mas para o seu escritório. A tarde estava quente, o sol brilhava com intensidade, mas para ela o dia tinha perdido todo o encanto. Já no seu escritório, verificou as notas que Irene lhe deixara em cima da sua secretária, e depois pegou num bloco e escreveu. “Não aceites nenhum trabalho para o próximo mês. Vou de férias. Depois telefono-te” Arrancou a folha do bloco fechou, a porta e já na sala da sua secretária prendeu a folha no monitor do computador e saiu fechando a porta.
Em casa, dirigiu-se ao quarto, despiu o vestido que usara
na festa, entrou na casa de banho, e abriu a torneira da banheira.
Habitualmente tomava duche mas quando se sentia cansada e
nervosa como agora, preferia um demorado e relaxante banho de espuma.
Sentia-se tão cansada que quase adormeceu na banheira. Acordou com o arrefecimento da água e saiu envolvendo o corpo nu numa toalha. Sentou-se no banquinho em frente ao espelho a secar a sua farta cabeleira. Quando terminou mirou-se no mesmo, com um olhar
analítico. Reparou nos círculos violáceos à volta dos olhos, fruto do cansaço e
das poucas horas de sono dormidas ultimamente. “Meu Deus, vou dormir uma semana
seguida” pensou. Secou-se, espalhou uma fina camada de creme hidratante pelo
corpo e vestiu um curto top de alças e os calções do pijama. Levantou-se e dirigiu-se ao quarto, onde se deixou
cair sobre a cama sem nem mesmo puxar a roupa para trás. Dois minutos depois, qual bela adormecida, dormia profundamente.
Acordou com o som irritante do telemóvel. Abriu os olhos
e surpreendeu-se com a luminosidade que invadia o quarto. Adormecera sem fechar
a persiana e o cortinado não era barreira para o sol intenso que brilhava lá no
alto. Saltou da cama para apanhar o aparelho que ficara em cima da cómoda,
precisamente no momento em que ele deixou de tocar. Viu que a chamada era de
Cidália, e constatou pelo registo que era a sétima vez que lhe ligava.
Olhou o relógio e verificou que já passava das catorze
horas. Tinha-se deitado na véspera, ainda não eram vinte horas. Dormira mais de
dezoito horas seguidas. Passou a mão pelo cabelo. E dirigiu-se à casa de banho.
Telefonaria à madrasta depois da higiene matinal.
Meia hora mais tarde, sentada à mesa da cozinha, com uma
chávena de chá e um prato de biscoitos na frente, recordava a festa do dia
anterior, e tudo o que nela acontecera, quando o telemóvel voltou a tocar.
Depois de um olhar rápido para o visor atendeu a chamada
- Estou…
-Paula? Graças a Deus, desde ontem à noite estou a ligar.
Pensei que te tinha acontecido alguma coisa.
- Não me aconteceu nada. Estava mais cansada do que
julgava, dormi desde ontem ao final da tarde até há minutos. Aconteceu alguma
coisa?
-Não sei. Estou confusa. O teu pai acabou de sair.
Telefonaram do acampamento a pedir se podia ir buscar o Miguel. O motorista que
os levou teve um acidente, não podia ir buscá-los. Estavam a pedir aos pais se o
podiam fazer. E eu gostava de falar contigo. Posso ir aí, ou estavas a pensar
sair?
-Podes vir quando quiseres. Hoje não saio, preciso
preparar algumas coisas vou de férias amanhã.
-Ok. Vou para aí. Até já.
