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2.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIV


Fernando entrou no quarto, abriu o armário, e encontrou um pijama, um robe e uns chinelos. Despiu-se, vestiu o pijama e o robe, calçou os chinelos que lhe deixavam parte do calcanhar de fora, e foi à casa de banho que a dona da casa lhe tinha indicado para utilizar. 

Lá encontrou, um copo, uma pasta de dentes, uma escova, espuma para a barba, loção e lâminas de barbear. Via-se que a sua anfitriã, tinha cuidado de todos os pormenores para lhe proporcionar uma estadia condigna. Como se fora o seu anjo da guarda. E de certo modo era, pois se ali estava, vivo, devia-o a ela. 

Quem sabe quantos carros teriam passado antes dela, sem parar? Podia ser uma emboscada. E ela fizera-o, pondo em risco a sua segurança e a do próprio filho. E continuava a fazê-lo trazendo-o para o remanso do seu lar. Era uma mulher extraordinária. Uma mulher que ele gostaria de ter nos braços, de beijar e de levar pelos caminhos do amor.

 Mas ele não podia permitir-se qualquer veleidade. A última coisa que Helena precisava era de uma aventura. Era mãe. E como mãe solteira, o que precisava era de um homem que assumisse o seu filho e a ajudasse a criá-lo. Coisa que ele não poderia fazer. Como poderia pensar nisso se  nem sequer sabia o próprio nome? 

Não. Decididamente tinha que afastar aquelas ideias da cabeça. E deixar de pensar em cenas eróticas com a doutora. Terminou de lavar os dentes e olhou a sua imagem no espelho com uma certa apreensão. O que haveria para além daquela aparência de homem jovem e bonito? 

Era quase meia-noite, quando se deitou. Mas ainda não tinha sono. Pegou no livro que trouxera da sala e leu duas páginas. Voltou a fechá-lo, preso de um grande desassossego. Apagou a luz e fechou os olhos, tentando conciliar o sono.

Fernando saiu do carro e entrou no átrio do monumental teatro. Estava em cima da hora, quando ele se dirigiu apressado para a sala, onde ia decorrer o concerto. Não sabia exatamente onde estava, mas a enorme sala estava completamente cheia. No palco vazio estava um piano. De súbito as luzes apagaram-se sem ele ter encontrado ainda o seu lugar. Ficou de pé encostado à parede. Procuraria o seu lugar no intervalo.

 Um homem alto entrou no palco, e dirigiu-se para o piano. E de súbito uma música elevou-se no espaço. Fernando levou apenas alguns segundos a identificá-la. Tratava-se da Sinfonia nº 40 de Mozart. Apesar de estar de pé, o que era um tanto incómodo, escutou com muita atenção. A interpretação era muito boa. A música foi-se apoderando dele, e sentiu-se transportado para um mundo mágico, cheio de música e cor. 

Quando a música terminou, a plateia aplaudiu de pé durante largos minutos. Então o pianista pôs-se de pé e virou-se para o público para agradecer, fazendo com que a assistência silenciasse de espanto.
O pianista, não tinha rosto.


26.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVII






A casa estava em silêncio quando chegou. A porta do quarto dele estava aberta, e foi até lá. O quarto estava arrumado. Abriu o armário, e o que temia, concretizou-se. Estava vazio. Com as pernas a tremer e os olhos rasos de água, abriu a porta da casa de banho. A prateleira junto ao espelho estava limpa. Nem o copo com a pasta e a escova de dentes, nem a máquina de barbear, ou a sua água-de-colónia. Não havia rasto da estadia de André naquela casa. Só as lembranças na sua cabeça. Sem qualquer vontade de comer, dirigiu-se à cozinha.
Em cima da mesa, um envelope grande, e uma folha de papel manuscrita. Com as mãos a tremer pegou-lhe e leu.


“Mia Cara Eva”
Quando leres esta missiva, já estarei  a voar para Londres. Perdoa a minha cobardia, devia partir antes de nos amarmos. Mas... amo-te tanto que perdi o controlo.
Deixo-te com a tua casa. Sim, Eva, a casa nunca deixou de ser tua. No envelope, estão os documentos da doação, que te fiz, no mesmo momento em que o advogado me entregou a posse dela. Podes confirmar com ele.
 “Ti amo, amore mio” mas tenho que partir. Perdoa que não te possa dar explicações.
Levo comigo, a tua recordação, que guardo como o mais precioso dos tesouros. Deixo-te com uma súplica.
Não duvides nunca, do meu amor.
André

Deixou cair a missiva, escondendo o rosto entre as mãos e chorou desesperada. Não entendia. Se era verdade, que a amava, que podia haver de tão forte que o fizesse partir? Será que era casado? Teria uma família à sua espera? Ele dissera-lhe que não era casado. Mas se não era isso que poderia haver de tão forte que o obrigava a partir, sem uma explicação?
Abriu o envelope, e lá estavam os documentos da casa, e um documento de doação da mesma  para o seu nome. Verificou a data. Vinte e seis de Maio. Dez dias depois, da leitura do testamento. Então era verdade, o que lhe dissera. Ele não pretendia cobrar a dívida se o falecido não o tivesse feito em testamento.
Levantou-se. Estava na hora de regressar ao emprego, e não almoçara. Doía-lhe a cabeça, tinha os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Retirou uma garrafa de água do frigorífico e lavou repetidamente o rosto com a água gelada, para atenuar as marcas do seu desespero.
Pegou nas chaves e saiu.



E agora um teste, só para os novos leitores que não conhecem a história.  
Quem será afinal este André? E o que o fez partir se realmente ama  Eva?
Será que alguém tem ideia? 

13.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VIII




Terminado o jantar, Eva começou a retirar a loiça da mesa, perguntando:
-Faço café para os dois?
- Se não te importares! – respondeu observando-a dissimuladamente.
Ela procurou no armário a embalagem de cápsulas, e as chávenas e tirou os cafés.
-A que horas, tens que estar no casino? – perguntou ela.
- Não sou empregado do casino, Eva. Sou jogador profissional sim, mas trabalho por conta própria. Posso ir todos os dias, e geralmente vou, mas posso estar  alguns dias, sem aparecer. Por isso não paro muito tempo num mesmo sítio. Hoje estou aqui, amanhã ou daqui a um mês posso estar na Itália, no Mónaco, ou em qualquer outro lugar do planeta, desde que haja um bom casino. Como te disse sou um cidadão do mundo.
- Mas para isso não é preciso ter muito dinheiro? Ou ganhas sempre?
Ele sorriu divertido com a sua ingenuidade.
- Nenhum jogador ganha sempre, a menos que faça batota, mas isso é crime e é severamente punido.  Eu nunca me arriscaria a fazer batota. Pode-se dizer que nos ganhos há dois componentes que funcionam em pleno. A concentração e a sorte. A condição mais importante para o profissional, é retirar-se da mesa a tempo, quer esteja a ganhar, ou a perder. Porque a verdade é essa, umas vezes ganhamos e outras perdemos.
- Quer dizer que não escolheste essa profissão pensando enriquecer?
- De modo algum. Na verdade nunca desejei ser rico. Sou um bocado aventureiro, desfruto do que a vida me dá. Não sou rico, mas digamos que tenho o suficiente para não me preocupar com o futuro. O dinheiro do jogo, só entra nas minhas contas, no sentido em que o que perco num dia, tem que ser igual ou inferior ao que ganhei no anterior. Essa é a diferença entre um jogador profissional, e um “agarrado” como era o teu marido. Nós jogamos pelo prazer único do jogo, racionalmente, sem emoção. Homens dominados pelo vício são capazes de vender a alma ao diabo, pelo jogo. É uma dependência com a da heroína ou de outra droga qualquer. Nunca suspeitaste que o teu marido era viciado no jogo?
- Não. É claro que as chegadas a casa quase de madrugada e a falta de dinheiro, me fizeram acreditar que alguma coisa não estava bem. Suspeitei que ele me traía, que havia outra mulher na sua vida. No dia em que quis discutir com ele, o nosso casamento, saiu de casa batendo a porta e não voltou. De madrugada, a polícia bateu-me à porta, avisando da sua morte. Pensei que tinha sido um acidente, até que o agente me informou, que ele tinha subido àquele terraço com intenções claras de se matar, e que várias pessoas, incluindo a própria polícia, tinham tentado sem sucesso demovê-lo de atirar-se de lá. 

3.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVI






-Suponho que ficarás para a festa - disse Gabi quando o almoço terminou
-Só até ver que tudo está a correr normalmente. Depois deixo-vos, que a festa é vossa, não minha.
- Eu gostaria de te pedir um favor especial. Podes ajudar a vestir-me?
-Claro que sim. Queres subir agora?
- Sim. Já passa da uma e meia, daqui a pouco estão aí os primeiros convidados.
-Vamos então. Mas espera, deixa-me ir ao carro buscar o meu vestido?. Posso vestir-me no teu quarto, não posso?
-Decerto que sim. Vai lá então buscá-lo.
Paula saiu e voltou pouco depois com o vestido e uma pequena bolsa. Subiram as escadas e entraram num dos quartos de hóspedes, em cuja cama se encontrava estendido o vestido de Gabi.
Paula pendurou o seu  no armário, e aproximou-se do leito para admirar o belo vestido.
-Não é lindo?- perguntou Gabriela.
- Maravilhoso.
-Era o mais belo da loja. Quando o Eduardo me pediu para escolher um vestido para uma cerimónia, que o Júlio queria oferecer à noiva, calculei logo o que ele e o meu irmão estavam a tramar. Os homens julgam-se muito inteligentes, mas não têm jeito nenhum para inventar uma história credível.
A jovem ia falando enquanto tirava as calças e a túnica que envergava, ficando apenas com umas minúsculas cuequinhas e o sutiã.  Paula pegou no vestido, uma maravilha de seda e renda em tom de champanhe, abriu o fecho e ajudou a jovem a vesti-lo. Tratava-se de um modelo comprido, sem mangas, de cintura vincada, a parte superior em renda e a longa saia em seda. O modelo apresentava um discreto decote em V na parte da frente, que se tornava muito mais generoso na parte de trás deixando as costas quase totalmente nuas, pelo que a jovem teve que tirar o sutiã.
-Estás linda, -elogiou Paula.
- Obrigada. Importas-te de me colocar a tiara? E diz-me uma coisa, há quanto tempo conheces o meu irmão?
- Há quinze dias, desde que foi à minha empresa contratar-me para realizar esta festa, - respondeu enquanto retirava da caixa uma bonita tiara de flores e pérolas e lha colocava na cabeça. Porque perguntas?
- Fiquei surpresa quando soube quem eras.
-Porque o teu irmão odeia o meu pai?
-O que sabes disso?
-Nada, a não ser isso. E tu?
Após uma breve hesitação Gabi respondeu:
-Era muito jovem quando tudo aconteceu e nem ele nem a minha mãe me quiseram dizer o que se passava. Só sei que foi por causa do teu pai que o meu irmão emigrou e esteve muitos anos longe de nós. Meu Deus são duas e meia. Onde estarão os meus sapatos?
Paula percebeu que estava a mentir. Ela sabia o que se tinha passado mas era evidente que não lho ia dizer. Por isso retirou os sapatos da caixa e passou-lhos dizendo:
-Se já não precisas de mim, vou-me arranjar. Preciso saber se o músico e o serviço de restaurante já cá estão e se está tudo em ordem.
-Claro. Adorei conhecer-te e espero que venhamos a ser boas amigas.

11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVIII



- Não vai ser uma surpresa agradável para eles, mas desde que manifestaram a intenção de lutarem pela  guarda das meninas, com o argumento de que um homem só, não pode cuidar delas, fiquei sem vontade nenhuma de ser agradável com eles. Amanhã tenho um julgamento não poderei ficar em casa. Logo que eles cheguem apresento-te e deixo-vos. Espero que não sejam desagradáveis contigo, mas se o forem, quero que procedas como dona e senhora da casa e os obrigues a respeitar-te como tal. Não podemos, nem seria justo impedi-los de privarem com as netas. Afinal são o seu consolo, depois da morte da filha. Mas eles têm que nos respeitar.  Eu virei para casa, logo que o julgamento acabe. Vou pedir à Graça que fique por perto se precisares de ajuda.
- Não será preciso. Vai correr tudo bem, não te preocupes. Agora e antes de arrumar as minhas coisas, gostava de te pedir uma coisa. Acabo de descobrir que há um pequeno quarto que comunica com aquele que devemos partilhar. Gostaria de o utilizar  para mim. Percebo o teu argumento sobre as crianças, mas não consigo pensar naquele quarto como meu. Peço-te que te ponhas no meu lugar. Não é fácil partilhar a nossa intimidade com outra pessoa, especialmente se a essa pessoa não nos liga mais que um contrato, ou mesmo um sentimento de gratidão. Desculpa a minha sinceridade, mas sinto-me como se fosse partilhar o quarto com o patrão. 
Estava nervosa, as suas mãos não paravam de gesticular, a sua face estava vermelha.
- Mas aquele quarto é muito pequeno. Era o quartinho das bebés, E nem sequer tem uma cama.
- Tem um sofá. E agora que não há nenhum bebé podemos arrumar o berço noutro lado E pôr ali um armário para as minhas roupas.
- Não confias em mim?
- Claro que confio. Mas tenta perceber a minha posição. Nós tínhamos acordado em quartos separados.
- Bom, se ficas mais descansada, o quarto é teu. Mas hoje não temos tempo para tratar disso e amanhã com a visita dos meus ex-sogros, e o julgamento também não. Prometo que no sábado  trataremos de deixar aquele quarto minimamente confortável. Entretanto fica no principal. Eu fico aqui no escritório. De qualquer modo vou precisar preparar o julgamento de amanhã. E depois este sofá é bastante confortável.


reedição




                                                     

28.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLII





Antes de ir para casa, passou pelo hospital. O quadro clínico de Tiago evoluía favoravelmente, embora continuasse inconsciente. Continuava na UTI por precaução até fazer as vinte e quatro horas e só depois se não houvesse agravamento passaria para um quarto.
- E visitas?- Perguntou
-Enquanto estiver na UTI, uma pessoa, apenas um minuto às três horas.
-Obrigado.
Voltou para casa.
Quando chegou, já encontrou Clara impecavelmente vestida na cozinha. Tinha uma chávena de chá na mão, e falava com Antónia.
- Bom dia. Devias ter descansado um pouco mais.
- Tenho que ir ao hospital.
- Deixei as crianças na escola e fui lá. Disseram-me que o estado do Tiago está a evoluir muito bem. Depois de comeres podes descansar mais um pouco, porque só poderás vê-lo às três horas e como ontem. Apenas um minuto.
Propositadamente ou não, Antónia saiu dizendo que ia colher uns legumes para o almoço.
- Queres uma chávena de chá? Ou café, - perguntou a jovem.
- Faço-te companhia com o chá, - disse ele tirando uma chávena do armário, e sentando-se.
- Obrigado, por todo o apoio que me deste – disse ela enquanto pegava no bule e despejava o chá na caneca dele. – Foste um amor não só no hospital, como aqui. Não tinha o direito de te ter pedido para ficares comigo, mas estava com medo. Fechava os olhos e via o meu irmão, lívido como um cadáver, ligado, aquelas máquinas.
- Não fiques preocupada, eu entendi perfeitamente. Acredites ou não, eu gosto muito do teu irmão. Agora sobe e vai dormir um pouco.
- Não seria capaz. Prefiro ficar por aqui, Vou fazer um bolo, preciso de me manter ocupada. Descansaste menos do que eu, porque não vais tu dormir um pouco até ao almoço. Eu vou buscar as crianças. E depois leva-mo-las à escola, e vamos ao hospital. Vais comigo, não vais?
-Claro, querida, não te deixarei sozinha até que o Tiago esteja em casa, são e salvo.
Ela levantou a mão para lhe acariciar a face. Ele segurou-a e depositou-lhe um beijo na palma, fazendo com que ela estremecesse ao mesmo tempo que o seu rosto se tornava escarlate.
- Há muito tempo que não via uma mulher enrubescida- disse sorrindo. – És maravilhosa. Bom,- acrescentou levantando-se. Vou fazer a barba. Sabes o que me disse a Soraia, quando me despedi à porta da escola? “Hoje picas, pai”- disse imitando a voz da filha.
Clara não pode evitar rir-se e ele saiu feliz por ter conseguido desanuviar o rosto feminino.
Subiu ao quarto e escanhoou o rosto. De seguida passou o after shave. Mirou-se e não se achou mal. Enquanto se olhava pensou como o amor mudava tudo. Vinte e quatro horas antes andava irritado, sem vontade de fazer nada, questionando todas as suas atitudes até ao momento. Depois daquela noite, em que descobriu que afinal o sentimento que tinha por Clara, era muito mais que desejo, a vida parecia-lhe mais colorida apesar do momento doloroso porque passavam. Agora ele acreditava num futuro feliz. Amava a mulher e sabia que ela lhe retribuía, ela mesma lho confessara. Agora o que tinha a fazer era esperar que aquela tempestade passasse e então poderiam entender-se, amar-se, e até quem sabe aumentar a família.
Ah! Se isso acontecesse, ele ia ser o homem mais feliz do mundo. Porque ia poder viver com essa criança o que não vivera com Bernardo, muito menos com Soraia. O seu nascimento, o primeiro choro, o primeiro sorriso.
“Acorda” - disse dando uma leve palmada na sua própria face. “Não é hora de te pores a sonhar”
Voltou ao quarto, vestiu a camisa e olhou o relógio. Onze e meia. “Está quase na hora de ir buscar os miúdos para o almoço “ – pensou enquanto fechava a porta e se dirigia para o piso inferior.


Gente, desde quarta-feira que ando numa roda viva, com visitas de estudo, jornadas do património cultural, hoje acabei de chegar da festa da UTIB a nossa Universidade, e amanhã tenho aulas de manhã e uma tertúlia poética à tarde.Terça-feira as coisas acalmam e espero retomar as visitas normais.As minhas desculpas.



21.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIV





O homem, preocupado, sem saber que fazer, e quase sem tempo para adiar uma resolução, pois a data agendada para a próxima exposição aproximava-se. A jovem, assustada, perdida, sabe-se lá em que infernos interiores, quase não jantaram nessa noite, apesar de toda a simpatia do empregado do restaurante e do belo aspecto do peixe assado pedido para o jantar. Depois em casa, rapidamente a jovem recolheu ao quarto. Mas estranhamente, ou não, a porta do quarto ficou aberta, e a luz acesa, acabando por adormecer assim.
Na sala Miguel continuava perdido nos seus pensamentos, buscando uma solução para o problema em que se tinha metido.
O melhor, cogitou, será levá-la para Lisboa. Lá existem bons psiquiatras, poderá ser tratada lá. Depois se verá. Mas levá-la daqui, que pode ser a sua terra, não será demasiado arriscado? – Interrogava-se.
Por fim tomou uma decisão. No dia seguinte teria uma conversa franca com o médico, e faria o que ele achasse melhor para a jovem, ainda que isso o contrariasse. Mais calmo, preparou-se para dormir. Como a porta do quarto estava aberta e a luz acesa, chamou pela jovem julgando-a acordada. Ela não respondeu. Hesitou, um pouco e depois dirigiu-se ao quarto. Ela dormia, meia destapada, a farta cabeleira espalhada na almofada. Por alguns instantes ficou contemplando-a. A imagem era demasiado bela para o  olhar de qualquer homem, mas Miguel atribuiu a sua admiração ao facto  de ser pintor. Os seus olhos estavam treinados para tudo o que era belo. E o abandono da jovem que dormia confiante, era de grande beleza. Depois suavemente puxou-lhe a roupa para cima, apagou a luz, e saiu do quarto murmurando:
-Tão jovem e tão sofrida!
Acordou perto das onze. Sentou-se no sofá, e enquanto calçava os chinelos, olhou para o quarto. A porta continuava aberta, mas a cama estava feita, pelo que deduziu que a jovem se teria levantado à muito.
Encontrou-a sentada à mesa da cozinha fazendo rabiscos no caderno de desenho. Vestia, umas calças de ganga, e um camiseiro turquesa. O cabelo apanhado numa só trança, caía-lhe sobre o ombro direito.
“Caramba, parece uma miúda”, pensou enquanto saudava:
-Bom dia Mariana. Dormiu bem?
- Bom dia Miguel. Dormi sim. E parece que o Miguel também. Pelo menos quando me levantei, dormia.
- Adormeci tarde, - desculpou-se sorrindo. Bom, vou tomar o meu duche. Temos que almoçar mais cedo, por causa da consulta. Está preparada?
Ela assentiu com a cabeça.
-Ainda bem.
E saiu dirigindo-se à arrecadação junto à casa de banho. 
Dias depois da chegada da jovem, ele  tinha comprado um armário, que mandou colocar na arrecadação, para onde mudou todas as suas roupas. Não tinha lógica, e nem lhe parecia  correto,  ir para o quarto da jovem, sempre que precisava mudar de roupa. 
Mariana fechou o caderno e dirigiu-se à sala. Apanhou a roupa espalhada no chão, sacudiu-a,  dobrou-a cuidadosamente, guardando-a no gavetão do sofá. Depois fechou-o e colocou-lhe por cima a manta alentejana, e as almofadas de croché.   



  




3.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE V



                                                                                               Foto do museu de Loulé

Miguel dirigiu-se à porta, abriu-a e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie  de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir,  doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.


15.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXI




Amanhecera há bastante tempo quando ela acordou. Ainda sonolenta olhou à sua volta com estranheza, e logo se lembrou de onde estava. Sentou-se na cama e olhou o lugar onde João dormira. A almofada ainda conservava a forma da sua cabeça. Estendeu a mão e tocou-lhe. Estava fria, o que queria dizer que já devia ter acordado há bastante tempo. Foi até ao armário e retirou a roupa para vestir. Com ela na mão foi para a casa de banho. Tomou um duche rápido, enrolou-se na toalha e secou o cabelo.
Depois vestiu-se e voltou ao quarto. Puxou os lençóis para arejar a cama e saiu do quarto. Na cozinha encontrou João, mas nem sinal das duas idosas.
-Bom dia, - saudou.
- Bom dia. Dormiste bem?
-Que nem uma pedra. Onde estão tua mãe e a tia Margarida?
- Foram à missa das oito. Senta-te. Deves ter fome. Queres torradas?
-Sim.
-Com manteiga ou doce? – Perguntou enquanto metia duas fatias de pão na torradeira.
- Manteiga. A que horas vamos regressar? – Perguntou despejando num copo o sumo de laranja.
-Ainda não pensei nisso. Tens pressa?
- Gostava de ir ver a minha mãe, coisa que não poderei fazer, se chegarmos muito tarde.
-A tua mãe passou bem a noite e está bem. E o teu pai chega esta noite.
-Como sabes?
Está no contrato com a empresa de enfermagem. A enfermeira deve ligar-me de manhã e à noite, para me fazer o relatório do estado da doente, - disse pondo na sua frente as torradas e o recipiente com a manteiga, acrescentando em seguida. Se quiseres, podemos ir à praia da Costa Nova. É uma zona muito bonita, com as suas casas de riscas que lembram estranhos e gigantescos pijamas. Trouxeste fato de banho?
- Não.
- Podemos passar pelo fórum e comprar, se quiseres ir claro.
- Preferia ficar aqui pela cidade. Não me apetece a praia.
- Então não vamos.
- Porquê, João?
- Porquê… o quê, - perguntou arqueando o sobrolho.
- Porque viemos, porque tens estado a tratar-me como se eu fosse uma princesa?
Um sorriso rasgado espelhou-se-lhe no rosto.
-Ah, isso? Se calhar é porque penso que és mesmo uma princesa.
- Deixa-te de tolices. Estou a falar a sério
- Eu também Alteza, eu também, - retorquiu sorrindo


7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XVIII


Olhou-se ao espelho enquanto escovava os longos cabelos escuros, recém-lavados. Ainda estava indecisa sobre como levá-los ao jantar. Soltos ou presos?
Tinha aceitado o convite para jantar que Salvador lhe fizera no dia anterior. Ele dissera que era um jantar informal, em casa do irmão.
Anete, tinha ficado feliz por conhecer a sua família. Salvador agradava-lhe. Nunca se tinha sentido assim entusiasmada por outro homem. Mas não podia iludir-se. Ele decerto contara à família que tinha encontrado alguém muito parecido com a cunhada, e e eles sentiram a mesma curiosidade que ela sentia. Tinha que ser isso. Se ele tivesse interesse em levá-la a jantar, o faria para qualquer outro lado onde estivessem sós. Depois no dia em que saíram juntos, e ele a acompanhou a casa, nem sequer tentou beijá-la.
Acabou de escovar o cabelo, e olhou-se de novo ao espelho. Não decididamente não ia levar os cabelos soltos. Com mãos experientes, puxou-os para o seu lado direito e começou a entrança-los.
Com a trança pronta repousando sobre o ombro direito, mirou-se de novo no espelho. Gostou do resultado. Olhou o relógio. Sete horas. Salvador dissera que vinha buscá-la às sete e meia. Em cima da cama repousava a roupa que escolhera para aquele jantar.
Passou uma sombra nos olhos para lhes dar mais profundidade, um ligeiro toque de cor nas maçãs do rosto, e um pouco de brilho nos lábios. Nunca gostara de grandes maquilhagens, e nem aquele jantar se prestava a isso.
Terminada a maquilhagem envergou o fato que escolhera. Era composto por umas calças, e um casaco de seda, azul celeste, cujo decote em bico pouco pronunciado realçava o colo sem se tornar indiscreto.
Optou por uns sapatos pretos, de salto em cunha e não muito altos.
O Outono ia adiantado, dentro em pouco chegaria o Inverno, as noites estavam frias, pelo que retirou do armário um casaco comprido castanho-mel.
A campainha tocou nesse momento. A jovem enfiou o casaco, pegou na mala, e saiu abotoando o agasalho enquanto descia as escadas.
Sentiu-se reconfortada com o olhar de admiração masculino, e sorriu enquanto ele pousava ao de leve os lábios na sua face, numa saudação social.
-Boa-noite. Estás muito bonita.
- Obrigado. Tu também estás muito bem.
E estava. Com as calças antracite, a camisola de gola alta branca que ressaltava o rosto moreno, e o casaco desportivo de cor  de camelo, cujo tom se confundia com a cor dos seus olhos. 
A curta viagem até à casa dos seus anfitriões decorreu em silêncio, cada um entregue aos seus próprios pensamentos. Só quando estacionou o carro, Salvador falou:
-Antes de entrar, gostaria de te pedir que não lhes contasses como nos conhecemos. Isto é, não gostaria que eles soubessem das minhas suspeitas sobre a fidelidade da minha cunhada.
- Por quem me tomas? -Perguntou zangada.  - Nunca iria falar sobre uma coisa dessas.                                                                         

2.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE II



 




Dirigiu-se à casa de banho. A mãe, arrumou o quarto, abriu o armário e tirou o vestido de noiva que colocou em cima da cama. Depois saiu.
Na sala as irmãs, cunhadas e sobrinhos esperavam. Entrou no quarto de casal, onde o marido andava às voltas com o nó da gravata, e procurou no armário o fato que ia levar ao casamento da filha. Estava muito nervosa. A falar verdade não lhe agradava nada aquele casamento arranjado entre o marido e o pai do noivo. Não se conformava. Nem percebia porque a filha tinha aceitado aquele disparate.  


20.10.14

ROSA PARTE V


Dois dias depois, Rosa estava na cidade grande. Quase sem dinheiro, o ourives dissera que os brincos não valiam grande coisa, e pagou por eles tão pouco que quase nada sobrara depois de comprar o bilhete para a capital.
A cidade era enorme e ela não sabia para onde ir nem o que fazer. Caminhou por uma rua enorme, tão grande que era maior que a sua aldeia, batendo a todas as portas, pedindo trabalho. Mas as pessoas olhavam-na de alto a baixo como se ela não regulasse bem da cabeça e fechavam-lhe a porta na cara. Algumas até lhe acicatavam os cães. Realmente o seu aspeto não era muito agradável. A saia castanha de casimira até ao tornozelo estava bastante amassada da longa viagem de comboio, a blusa de pano-cru, com uma gola redonda, em cuja orla a avó fizera um enfeite, estava enxovalhada, as tamancas de madeira e couro e a cesta de vime escuro, onde transportava algumas peças de roupa, completavam a sua indumentária.
Faminta e cansada, sentou-se num banco de um jardim sem saber o que fazer ou para onde ir.
Pouco depois, uma mulher de meia-idade sentou-se a seu lado no banco e meteu conversa com ela. Perguntou-lhe o nome, a idade, se estava sozinha em Lisboa, se não tinha família.
Desorientada e carente, Rosa contou de onde viera, falou da morte da avó, única parente que tivera até aí, do seu desejo de arranjar trabalho, afinal a cidade era tão grande, tinha tanta casa, mal haveria de ser que ninguém precisasse de uma criada. E ela sabia fazer tudo menos comida, que nunca cozinhara e só sabia fazer chá.
Depois de a ouvir, a mulher disse que tinha trabalho para ela. Era só acompanhá-la até à sua casa.
Rosa sentiu que lhe nascia uma alma nova, quase teve vontade de abraçar a mulher.
Quando lá chegaram, esta levou-a para um quarto como Rosa nunca tinha visto. Era espaçoso, tinha uma grande cama de casal, coberta por uma colcha adamascada em tons de vinho, reposteiros do mesmo tecido, duas mesas-de-cabeceiras e um armário com as portas em espelho de alto-a-baixo. Ao lado uma porta. A mulher abriu a porta e Rosa viu um quarto de banho parecido com aquele que tinha visto na casa grande lá da aldeia. A mulher disse-lhe para se lavar e vestir as roupas que estavam no armário. Deviam ser mais ou menos do seu tamanho.
- As tuas não servem. Não se usam na cidade nem fazem jus à tua beleza. Daqui por meia hora, venho buscar-te para o jantar.


continua

Que vos parece? Será que a Rosa encontrou um anjo, ou uma bruxa?

A ROSA volta na próxima terça-feira

A todos os amigos que me honraram com a sua presença e comentário, no evento abaixo, agradeço de todo o coração. Muito obrigada.