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21.6.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XXII

 


Encontravam-se sentados num banco de jardim num dos locais menos frequentados do parque, longe da zona onde estavam os baloiços e os escorregas, que faziam as crianças encher o ar de risos e gritos. Depois de alguma troca de mensagens, Lena aceitara encontrar-se com Gonçalo naquele local, já que não podia convidá-lo para sua casa, e um restaurante ou café, cheio de turistas nas férias da Páscoa, não lhe pareciam ser um bom local por recear exaltar-se com Gonçalo.

Ela não entendia porque ele procedia como se não a conhecesse e insistisse que tinham de falar. Quase lhe disse que não queria qualquer conversa com ele, mas então lembrou-se do enorme desejo que a filha tinha em saber quem era o pai, e conteve-se.

Dias antes, quando se preparava para levar a filha do hospital para casa, perguntara ao médico, se a filha poderia viajar para a aldeia e como ele não vira inconveniente, desde que tomasse os cuidados por ele recomendados, no dia seguinte viajaram para a aldeia, onde Matilde tinha todos os cuidados e mimos da mãe e avós.

E até os primos, já de férias com os avós, embora sem a presença dos pais, que por razões profissionais, só chegariam no fim de semana, respeitaram as limitações dela, limitando-se a fazer-lhe companhia em casa, ou a acompanha-la nos curtos passeios, sem as brincadeiras do costume.

Nesse mesmo domingo, depois do almoço, enquanto a filha descansava na cama, Helena mandara a primeira mensagem a Gonçalo. Nela lhe agradecia o livro que oferecera à filha, o cuidado que tivera com a menina.

Não telefonara, porque receava o desabar dos seus sentimentos e a raiva que sentia por ele fingir que não a conhecia.

Ele respondera. Pedira mais uma vez para falar com ela, era muito importante.

Ela não respondera e Gonçalo enviara outra mensagem. Decidido a resolver o problema que o atormentava há tantos anos, ele suplicara-lhe, pelo amor que ela tinha à filha.

Era uma chantagem sentimental, ela percebeu, mas também decidida a acabar com aquela história, tanto mais que agora sabia que em qualquer lugar ou a qualquer hora se podiam cruzar, ela aceitara.

Ele respondera agradecendo e informando que nessa semana estava no hospital das oito da manhã às quatro da tarde, pelo que só se poderiam encontrar depois dessa hora. Mais mensagens foram trocadas até que o dia, o local, e a hora foram combinados.

Assim ali estavam os dois naquela Quinta feira Santa, sentados num local público, mas suficientemente isolados para poderem conversar.

-Boa tarde - saudou Gonçalo ao chegar ao local indicado estendendo-lhe a mão num cumprimento social, acrescentando em seguida. Obrigado.

 

- Penso que antes de mais me deve uma explicação para esta quase perseguição para que o escute, - disse nervosa, o corpo tremendo com aquele aperto de mão.

Sentaram-se. Por motivos diferentes ambos estavam tensos, sem saber bem o que um podia esperar do outro ligados por um passado comum que apenas um recordavam. Então depois de uns segundos de silêncio, que a Helena pareceram intermináveis ele começou.

Para que perceba a minha insistência e o meu desespero tenho que lhe dizer que há quase 14 anos tive um terrível acidente de moto. Sobrevivi por milagre depois de mês e meio em coma no hospital…

 

5.11.19

UMA HISTÓRIA PARA REFLETIR



No Domingo, o Padre da minha paróquia na homilia contou uma história de que muito gostei. Cheguei a casa e escrevi-a
como ele a contou. Como não sabia se a autoria da história, era dele ou de outra pessoa, procurei na Internet e com poucas alterações encontrei-a em vários sites, sempre como sendo de autor desconhecido.  Aqui a deixo tal como ele a contou.




                                                 *************************



Um velho professor foi de férias aos Açores.  Um dia, passeava por um belo jardim, quando um homem jovem aproximou-se dele, cumprimentou-o e perguntou:
- O senhor lembra-se de mim?
O velhote olhou, mas não reconheceu o outro homem.
-Fui seu aluno na primária, lá no continente - diz o homem.  -Também sou professor.
- Olha que bom, - responde o velhote. - E de algum modo eu contribui para que escolhesse essa profissão?
O homem mais jovem pegou-lhe no braço, e disse:
- Venha daí, vamos sentar-nos.
Sentaram-se num banco e o mais novo falou:
-Quando eu andava na segunda classe, um dia um colega chegou à escola com um relógio novo. Era um relógio muito bonito, e eu nem relógio tinha, a minha família era muito pobre, o dinheiro mal chegava para comer. Não sei o que me deu, mas na hora do recreio fui ao vestiário e surripiei o relógio do bolso do casaco do meu colega.
A seguir entrámos na aula e o outro miúdo queixou-se do roubo. O senhor disse que ninguém saía da aula antes do relógio aparecer, e pediu que quem o tirou, o devolvesse. Fiquei apavorado, pensando na vergonha que meus pais iam sentir, na confiança dos colegas que ia perder e não tive coragem de entregar o relógio. Então o senhor mandou que todos nos levantássemos, fizéssemos uma fila indiana e fechássemos os olhos. O senhor ia meter a mão nos bolsos de cada um a fim de encontrar o relógio, mas ninguém podia abrir os olhos sob pena de ser castigado. Fiquei na fila a tremer esperando o momento em que encontrasse o relógio e me denunciasse. Mas o senhor pegou o relógio e continuou até ao fim da fila, e só então disse que podíamos abrir os olhos, já tinha o relógio. Entregou-o ao dono, mas não disse a ninguém quem o tinha. Naquele momento senti que tinha renascido. Eu tinha-me tornado um ladrão, tinha perdido a minha dignidade, e de repente o senhor devolveu a minha dignidade. A sua atitude era uma lição para mim, e naquele mesmo momento jurei a mim mesmo, que ia ser professor. Queria ser como o senhor. 
Calou-se emocionado e por fim perguntou:
-Porque o Senhor nunca me disse nada, nem mesmo quando estávamos sós?
- Meu jovem, - respondeu o velhote com um sorriso. - Até hoje, nunca soube quem tinha tirado o relógio. É que não foram só vocês que ficaram de olhos fechados. Antes de começar a meter as mãos nos vossos bolsos, também eu fechei os meus.




10.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXI





Estacionou o automóvel junto à porta e saiu. Percorreu com o olhar o vasto jardim, e franziu a testa, pensando se a jovem já se teria ido embora, porém logo deparou com o carro cinza estacionado junto à porta da garagem e um sorriso distendeu os seus bem desenhados lábios. Subiu os três degraus até ao alpendre e abriu a porta. Ouviu vozes na cozinha e encaminhou-se para lá. Paula e a governanta conversavam animadamente sentadas à mesa, com uma chávena de chá e um pires de biscoitos na frente.
- Bom dia, – saudou.
- Bom dia, senhor. Não o ouvimos chegar, - disse a empregada levantando-se  apressada.
Paula também se levantou. Vestia um fato de calças e casaco de seda azul, com decote em bico, e calçava sandálias de salto. Elegante e muito feminina.
- O que achas do jardim? -perguntou o recém chegado.
- Muito bonito mas não serve para o evento.
- Não? – Admirou-se ele
- Se vieres comigo explico-te.
Saíram e caminharam até ao lago circundado de bonitas flores.
- Bom, supõe que ponho o altar entre aquelas duas árvores, lá ao fundo junto ao muro. Teríamos que por duas filas de cadeiras para os convidados que segundo a lista que me enviaste é de oitenta pessoas. Duas filas de quarenta cadeiras que poderíamos por naquela parte, ali há poucas flores, podem ser transplantadas para outro local e tapar os estragos com pedaços de relva natural. Até aqui tudo bem, mas onde vou colocar as mesas para a festa? Usando mesas redondas precisaríamos de dez mesas grandes, para os convidados mais duas para apoio. Tinha que destruir todo o jardim.
- Já viste a parte de trás da casa? Tem um espaço bastante grande todo relvado até à piscina, que delimita a área entre o lazer e quinta propriamente dita. Não podíamos fazer a cerimónia aqui e a festa lá?
- Vamos ver.
Caminhando lado a lado contornaram a bonita moradia, um belo edifício de dois pisos.
- É uma bela casa- disse a jovem.
-Gostas? Comprei-a há dois anos. Inicialmente porque era um bom negócio, pensava voltar a vendê-la, mas depois decidi ficar com ela. É um local sossegado, tem bons ares, muito espaço para as crianças, é o ideal para uma família, não achas?
Não respondeu de imediato. Não sabia o que se passava com ela em relação ao empresário. Começara por sentir um sentimento de raiva quando soube o que ele fizera ao pai, exacerbado quando o pai lhe pediu para casar com ele. Entretanto a raiva fora sendo substituída primeiro pela curiosidade, depois pela admiração, e mais tarde por uma inquietação, quando falava ou pensava nele. E pensava nele vezes demais para o seu gosto, tanto mais que quase esquecera, Adolfo, o médico com quem mantivera uma relação de quatro anos e cuja traição a levara a querer distância de todos os homens.
De súbito, António agarrou-lhe no braço e parou, obrigando-a a fazer o mesmo.
- Que aconteceu? – Perguntou abrindo os olhos de espanto sem saber se era por ele ter interrompido os seus pensamentos, se pelo choque elétrico que percorria o seu corpo, com a sensação que a mão dele provocara no seu corpo.
- Diz-me tu, - respondeu. -Porque de repente fiquei com a sensação que te ausentaste e me deixaste a falar sozinho.

1.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIV




- E o espaço? Onde se realizará a festa? Não consigo fazer um projeto sem conhecer o espaço. Também preciso saber se a festa é diurna ou noturna. Se bem, que tendo renovação de votos terá que ser de dia, os sacerdotes, não trabalham de noite a não ser para dar a extrema-unção, a algum moribundo. E sendo assim, até pode ser ao ar livre. No fim do mês teremos entrado no Verão, uma festa ao ar livre seria uma boa ideia.

Parecia ter esquecido tudo o que acontecera antes, a discussão, a raiva, até o homem que a observava com um meio sorriso nos lábios, pensando que o segredo do seu sucesso, era a alma que ela punha naquilo que fazia. Por fim levantou a cabeça e olhou-o.

-Algum dos teus restaurantes tem um jardim bonito? – Perguntou

António olhou o relógio e disse:

- Tenho que me apressar, tenho uma reunião importante dentro de meia hora. Receberás amanhã todas as informações que desejas, para poderes iniciar os teus projetos. Pôs-se de pé e aproximou-se dela que também se levantara.

Apertou entre as suas, a mão que ela lhe estendia, dizendo:
-Acredites ou não; gostei de conhecer-te. É uma pena que o teu pai não te mereça.
Voltou-lhe as costas e saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a desconcertada.
Quando trinta segundos mais tarde, Irene entrou depois de uma ligeira batida na porta, ainda a encontrou de pé no mesmo sítio.
- E então, o que queria o nosso homem?
- Uma festa para o fim do mês.
- Que pena não poderes aceitar!
-Aceitei. Vai mandar por correio eletrónico, a lista dos convidados e o local.
- Aceitaste? Mas e a festa do casal Ferraz?
-É dia dezoito. Ficam doze dias até ao fim do mês. Vou conseguir nem que passe as noites sem dormir. É demasiado importante.
- Se tu o dizes… só espero que não adoeças a meio do trabalho. Há meses que não paras. E já agora que tipo de festa é que ele quer.
-A celebração de umas bodas de estanho com renovação de votos, para ofertar à irmã. A propósito, já fizeste a encomenda dos adereços para a festa do casal Ferraz? Pediste urgência?
-Está tudo tratado. Entregam depois de amanhã.
- E o conjunto musical escolhido, está disponível nesse dia?
- Estarão lá, não te preocupes.
- Ótimo. Telefona à Margarida Souto e pergunta se ela tem algum tempo disponível este mês, depois do dia dezoito. Preciso da sua colaboração
-Vou já tratar disso. Mas antes satisfaz a minha curiosidade. O homem é arrogante ou simpático?
- Nunca ouviste dizer que a curiosidade matou o gato? Vai lá telefonar à Margarida que o modo de ser do cliente não nos deve interessar.
- Pronto, está bem, - disse encaminhando-se para a porta. – É que não entendo como foste aceitar mais essa festa, se estás de rastos com tanto trabalho.
Não, ela não podia entender que daquele trabalho, dependia a salvação da sua família, porque Irene não ia adivinhar que o seu pai estava arruinado, e ela não tinha nenhuma intenção de lhe contar.

24.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XI






-Vai-te embora, Ana.
A voz saiu-lhe seca e rude como um tiro. Assustada, a jovem largou-lhe o braço e deu um passo atrás.
- Outra vez? Estás muito instável. Não pensei que depois de cinco anos voltasses assim. Não podes ser o Simão. És apenas parecido com ele. O Simão que eu conheço não me trataria assim. 
Afastou-se a correr, para que ele não visse as lágrimas que embaciavam o seu belo olhar.
Ele ficou no jardim vendo-a afastar-se. Doía-lhe o corpo e a alma. Sentia-se impotente para dominar os seus sentimentos. Apertou os punhos. Que podia fazer? Correr atrás dela e confessar-lhe… o inconfessável? Não podia fazê-lo. Ia odiá-lo. E com ela toda a sua família. Tinha que se dominar. Disfarçar. Fingir.
Mas ele nunca fora bom a fingir. Desde menino sempre quis saber a verdade das coisas e ser verdadeiro com os seus sentimentos e as pessoas que o rodeavam. Sentou-se e fechou os olhos.
Sobressaltou-se ao sentir uma mão no ombro.
- Que se passa, filho? Porque não entras e te divertes como os teus irmãos? Convivem tão pouco.
- Não se passa nada, pai. Estava aqui a recordar. A lembrar da primeira vez que entrei nesta casa, para cá morar. Até aí, vivia com os meus avós.
-Sim? Tinhas cinco anos. Não julguei possível que te recordasses.
-Pois. Mas na verdade até lembro, da primeira tarefa que me deste. Disseste para vir para o jardim com os manos, tomar conta deles, e ter especial cuidado com a Ana porque era ainda um bebé.
- E tu passaste a manhã toda com ela ao colo, - sorriu Afonso
- Ela gostava. E eu sentia-me tão importante com isso.
O pai sorriu e mudando de conversa, perguntou:
-Quando é que pensas, deixar Paris e voltar para casa? A mãe sofre, com a tua ausência.
- Sinceramente ainda não pensei nisso.
- Tens alguém lá que te prenda? – Perguntou encarando-o.
-Não. – Respondeu com firmeza, devolvendo o olhar
- Então filho, juro que não te entendo. Sei que Paris é uma cidade linda, com uma grande concentração de artistas de todo o mundo, muitas tertúlias, muita boémia. Mas será que um homem pode ser feliz só com isso? Já realizaste algumas exposições e todas foram um êxito. O teu nome anda sempre associado ao talento. Então, o quê, ou quem, te mantém exilado da tua pátria e daqueles que te amam?
Engoliu em seco. Mas não respondeu.
Afonso sentiu que havia qualquer coisa que impedia o filho de regressar. Qualquer coisa de muito doloroso. Era advogado há muitos anos. Conhecia a natureza humana. Estava habituado a descobrir nos silêncios, coisas que lhe queriam esconder. E o filho escondia-lhe alguma coisa. Talvez precisasse da sua ajuda e não se atrevesse a pedir. Tinha que estar alerta.
- Vamos Simão. Está na hora do jantar.
E os dois homens entraram em casa.

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9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIV




Naquele momento Francisca entrou na sala. Trocara o fato do casamento por um conjunto de calça e blusa azul-escuro, de corte simples mas elegante. Sem maquilhagem, a farta cabeleira presa numa trança, de sabrinas, parecia ainda mais jovem.
O homem levantou-se e avançou para ela.  
- Estás mais calma? Não te preocupes, vai dar tudo certo. Ouves as crianças? Estão muito felizes com a brincadeira no jardim. Podes ir até lá, ou vê-las aqui da janela. A Graça está com elas. Tem tanto jeito para lidar com crianças que me admira de ainda não ter engravidado. – Olhou o relógio. São onze e quarenta, encomendei o almoço para o meio-dia e trinta. Vou tomar um duche, e trocar de roupa.
Afastou-se sem lhe dar tempo a responder. Francisca foi até à janela. Viu a cunhada com a pequenita no baloiço. Marta, a mais crescida descia o escorrega, seguida por João, rindo com aquela alegria que só as crianças têm. Abriu a porta e saiu para o jardim.
Simão perdia-se na perseguição de uma bela borboleta. Correu para ela mal a viu.
-Mãe, a “tia” Graça, disse que logo não voltamos para casa dos avós. É verdade que vamos ficar aqui para sempre?
- Sim filho, é verdade. A mãe já te tinha dito que estava a preparar o vosso quarto para ficarem a viver com a mãe.
- Mas não contaste que ias casar com o “tio” Afonso. Nem aos avós.
-Sabes filho, às vezes as pessoas têm segredos que não podem contar às outras. Mas depois vem um dia em que deixa de ser segredo e já se pode contar.
- Então o vosso casamento é segredo? Assim como o pai ser uma estrelinha no céu?
- Sim filho.
O menino com um ar sério disse:
- Fica descansada, não conto a ninguém.
Francisca acariciou-lhe a cabeça sorrindo.
-Vai brincar filho.
A criança não se afastou. Como se alguma coisa o preocupasse.
Perguntou:
- Também vais ser mãe da Ana e da Marta?
-De certo modo, sim filho. Tu sabes que todas as crianças devem ter um pai e uma mãe. A mãe delas, como o vosso pai é agora uma estrelinha no céu. Eu tentarei fazer o meu melhor, para que elas não se sintam tristes.
Naquele momento, chegou o almoço. Graça retirou a sobrinha do baloiço, e Francisca chamou as crianças que estavam no escorrega. Depois todos tomaram o caminho de casa.

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Este Simão é um menino especial, não acham? Fiquem atentos a ele... .

7.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE X





Quando o filho mais novo acordou, ela já tinha tomado uma decisão. Assim depois de lhes ter dado o lanche, foi com eles ao jardim da aldeia. E enquanto as crianças brincavam telefonou à amiga, dizendo-lhe que aceitava a sua proposta. Graça ficou radiante, disse que nessa mesma noite falava com o irmão, e depois falavam. 
Francisca desligou com a sensação de que tinha feito asneira, mas a decisão estava tomada. Temia e desejava que o homem não fosse na cantiga da irmã. Temia, porque as crianças estavam a precisar de roupas que ela não sabia quando poderia comprar. Mas ao mesmo tempo sentia-se como se, com a sua decisão se estivesse a vender e desejava que Afonso não aceitasse. De tal modo se encontrava dividida, que nessa noite, não conseguiu dormir. Na manhã seguinte, Graça telefonou-lhe. Afonso estava de acordo, pedia-lhe para se encontrarem nessa tarde, a fim de tratarem do assunto, queria saber a que horas e onde ela podia ir buscá-la para a levar até ao irmão. Francisca disse que estaria às três da tarde na paragem do autocarro perto do café onde se tinham encontrado na véspera. Depois foi ter com a mãe e disse-lhe que precisava de ir à cidade para uma entrevista de emprego. Escolheu um saia-casaco discreto, cinzento anilado, e um camiseiro azul claro. Mala e sapatos pretos, sem maquilhagem, cabelo apanhado. Parecia mais nova.
Desceu do autocarro e olhou em volta. Graça esperava-a no outro lado do passeio junto ao carro. Beijaram-se.
- Estás muito bonita. Confesso que tive medo que não telefonasses. Anda, vou levar-te até ao meu irmão. Não te assustes com o seu ar sério. No fundo aquilo é só fachada.
Entraram no carro e rodaram pela cidade durante alguns minutos que a Francisca pareceram intermináveis. Por fim,  Graça estacionou junto de um edifício de escritórios, dizendo:
-Chegámos. Estás preparada?
Ela assentiu em silêncio e seguiu a amiga até ao elevador. Sentia as pernas a tremer, e tinha vontade de fugir dali. De súbito viu-se em frente de uma porta que a amiga empurrava e entraram. Atrás de uma mesa, uma jovem empregada. 
- Boa tarde Luísa. 
- Boa tarde, dona Graça.
O meu irmão está só?
- Sim. Disse para a fazer entrar logo que chegasse.
- Obrigado. Não precisa anunciar-me – disse pegando no braço de amiga e avançando para o gabinete. Abriu a porta.
- Boa tarde, Afonso. Esta é a minha amiga Francisca. Deixo-vos sós para conversarem. Telefona-me quando acabarem.
E saiu fechando a porta atrás de si.


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1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem. 


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ESTRANHO CONTRATO - PARTE I




A terra era pequena mas agradável. Rodeadas de extensos pinhais, algumas casas térreas, dispostas em quadrado, formavam uma praça, quase totalmente ocupada por um cuidado jardim. No meio deste, um pequeno lago, com uma bela planta aquática, bancos pintados de vermelho, estrategicamente colocados sob a protectora sombra das árvores, e um coreto, onde aos domingos se exibia a banda dos bombeiros, ou o senhor Alberto com o seu acordeão. Na parte de cima do jardim, para quem entra na vila, uma pequena igreja dedicada à Imaculada Conceição.
 Do outro lado da igreja, a estrada que avança para o centro da localidade, a parte nova da terra, onde pontificam os prédios altos, as ruas mais largas, a escola, as lojas e centros de diversão.
Na igreja, habitualmente deserta àquela hora, da manhã realizava-se naquele dia um casamento.
Junto ao altar, um homem alto, impecavelmente vestido de escuro, e uma mulher de mediana estatura, envergando um saia-casaco azul celeste, trocavam as alianças.
Assistiam ao acto além dos padrinhos, uma mulher aparentando mais de trinta anos, que tinha a seu lado três crianças, e um bebé ao colo, e ainda três mulheres de meia-idade, que costumavam ajudar o padre a manter a igreja impecável, procedendo à limpeza do local, ou trocando as flores envelhecidas.
No altar, o homem curvou-se e depositou um leve beijo na testa da mulher. Por fim o padre procedeu à bênção final, e os noivos dirigiram-se com os padrinhos à sacristia, para a assinatura do registo do casamento. As crianças que até aí se tinham mantido mais ou menos sossegadas, saltaram do banco e correram para a sacristia, sem fazer caso da mulher que os chamava de volta. Uma pequenita loirinha, que não teria ainda completado os três anos, correu a agarrar-se às pernas do homem, que terminando a sua assinatura lhe pegou ao colo, e deixou que ela lhe envolvesse o pescoço num amoroso abraço 
Terminada a cerimónia de assinatura, saíram para o adro sob o olhar curioso das três mulheres. Aí despediram-se dos padrinhos e entraram no carro juntamente com a mulher que transportava o bebé adormecido e as restantes  crianças.

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Um Bom feriado para todos


E um Novembro calmo e feliz para todos.

7.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XX




- Bom, temos que pensar no local, onde vamos fazer a gravação. Em casa, no jardim, ou na piscina? Qual preferem?
- No jardim – disse Bernardo.
- E tu Soraia?
- Não podíamos fazer um bocadinho em cada lado como no cinema?
- Vamos fazer a gravação da mensagem num local. Depois podemos fazer uma gravação convosco a brincar, no baloiço ou na piscina. Pedimos a ajuda do Tiago, querem? Só não podem dizer nada ao vosso pai. Lembrem-se que é segredo.
As crianças prometeram guardar segredo, e pouco depois contavam a Tiago que fingiu não saber de nada, e disse que ia ajudá-los. Assim nessa tarde, no jardim, Bernardo, falava a Tiago do seu pai, como se este não o conhecesse. E na verdade não conhecia, pois o menino falava do pai, como ele, o via com os olhos do coração e do amor que lhe tinha. Lembrou, da primeira vez que o pai o levou à praia, do medo que teve das ondas e de como o pai o levou pela mão para dentro delas, do jogo de bola, dos castelos de areia e das bolas de Berlim, num dia que tinha ficado na sua curta memória. E terminou dizendo:
-Amo-te muito pai.
Depois foi a vez de Soraia, falar dele. A menina não lembrava de nada para além da chegada aquela casa, talvez porque era muito pequena, ou porque a sua memória não quisesse recordar algo que a fazia sofrer.
Disse que o momento mais feliz da sua vida, fora quando o pai a trouxera para casa e lhe dera um mano. Lembrou das vezes em que sentia vontade de chorar e o pai a abraçava, e lhe fazia passar a vontade de chorar. E tal como Bernardo terminou com uma declaração de amor.
 Clara gravara tudo no telemóvel. Depois mostrou-lhes o vídeo e as crianças adoraram. Combinaram que de tarde, após a sesta fariam a gravação deles no jardim e na piscina. Mais tarde, Tiago passaria os vídeos para a pendrive, que eles ofereceriam ao pai só na hora da partida. Para que ele não partisse tão triste.
E tal como combinado, de tarde fizeram uma gravação que começou no quarto das crianças, quando acordaram, continuou na cozinha a lanchar e depois mo jardim, onde andaram de baloiço e escorrega, para terminar com Tiago brincando com eles, na piscina em divertida brincadeira. De vez em quando as crianças olhavam para Clara e atiravam um beijo. Aquilo emocionou-a porque não fora ensaiado, e porque não tinha a certeza se elas estavam a mandar um beijo ou pai, ou se o faziam para ela, por lhes ter proporcionado aqueles momentos tão divertidos.
Finalmente Clara deixou de gravar. Tinha feito três pequenos vídeos. Um dentro de casa, outro no jardim e outro na piscina. Os que fizera de manhã, Tiago já tinha passado, para o computador. O irmão teria que usar um programa para ligar os vários vídeos de modo a fazer com que ficasse apenas um. Ela não sabia fazer isso.
Depois do duche, Tiago passou as gravações para o seu computador e mostrou às crianças, que não cabiam em si de contentes.
-Logo à noite, trato disto, e amanhã já estará pronto. Tenho que ir comprar uma pen, pois não tenho nenhuma nova. Posso ir antes de almoço – disse o jovem.
- Obrigada, mano. Não teria conseguido isto sem a tua ajuda.
- Não foi nada demais. Eles merecem – disse acariciando as pequenas cabeças.
-Meninos não se esqueçam que isto é um segredo nosso. O pai não deve saber nada, para não estragar a surpresa, - recomendou-lhes Clara.
 As crianças prometeram guardar segredo e os quatro dirigiram-se à sala, onde esperariam por Ricardo que devia estar a chegar. Pouco depois, Clara levantou-se e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou Antónia a acabar o jantar.
- Antónia, vim pedir-lhe um favor. Se o senhor lhe perguntar alguma coisa, como se as crianças se portaram bem, por favor não lhe conte que estive a filmá-las. É uma surpresa que as crianças querem fazer ao pai na hora da partida. Um vídeo para o acompanhar na ausência.
-Fique descansada senhora. Não estragarei a surpresa, embora acredite que o senhor virá tão cansado que não fará qualquer pergunta.
- Obrigada Antónia.
Voltou para a sala. Hesitara antes de ir falar com Antónia. Mas se ela conhecia Ricardo desde criança e fora como ele dizia, o mais parecido com uma mãe que tivera, ela deveria saber como e porquê Ricardo casara com ela. 



25.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE IX



Uma hora depois, Clara entrou na biblioteca com as crianças que correram para o pai, para o abraçar.
Ele beijou-os, e depois afastando os papéis que tinha à sua frente, ergueu-os e sentou-os na secretária.
- Olá. Parecem muito contentes hoje. Por onde andaram?
-Estivemos no jardim, - disse a menina.
-Andámos de baloiço, e brincámos à cabra-cega, e a Clara quase caiu na piscina, - acrescentou o irmão rindo.
- Muito bem. Mas vocês lembram-se da conversa que tivemos ontem? Antes de sairmos para a igreja,  quando vos disse que a Clara ia ser a vossa mãe?
- Eu lembro, - disse o rapazinho baixando os olhos
- E eu. Desculpa pai, - disse a menina meio envergonhada
Antes que ele dissesse algo mais, Clara adiantou-se e disse-lhes:
-Vá meninos, agora que já viram o vosso pai, dêem-lhe um beijinho gostoso e vão ter com a Antónia, que já deve ter o vosso lanche pronto.
Ricardo beijou as crianças pondo-as em seguida no chão. Elas saíram a correr e Clara fechou a porta atrás delas.
Então virou-se para ele e disse:
-Começo a pensar que cometemos um erro com este casamento precipitado. Não sei onde estava com a cabeça para aceder a isto. Ricardo, nós só nos vimos, três vezes antes da cerimónia. No dia da entrevista, quando assinámos o acordo no advogado, e quando assinamos os papéis no registo. Em nenhuma dessas ocasiões, as crianças estiveram presentes.  Nem quero acreditar que lhes ias pedir para me chamarem mãe. Como queres que o façam, se sou uma desconhecida? Por favor não os obrigues a isso. Deixa que me torne amiga deles, e que me tratem como a uma amiga, pelo nome. Eles mudarão de tratamento, quando  sentirem que os amo e que me porto como mãe.
-Tens razão. Devia ter começado por vos apresentar antes mesmo da cerimónia, mas a verdade é que foi tudo muito rápido.
- Agora vou ter com eles, mas gostaria de te pedir que disponhas do tempo em que irão dormir a sesta, depois do almoço, para que possamos conversar sobre eles, como são, do que gostam, do que já viveram. Não posso cuidar deles, se não estiver a par do que lhes aconteceu antes. O pesadelo da Soraia esta noite deixou-me muito preocupada. É costume tê-los?
- Uma vez mais estás certa. Teremos uma longa conversa, mais logo. Não vai ser fácil, reabrir feridas, mas compreendo que seja necessário, para bem deles.
Vendo que o rosto masculino se contraía, Clara voltou costas e saiu. Ricardo pousou os cotovelos na secretária e ocultou o rosto nas mãos.
Não lhe tinha passado pela cabeça, contar a ninguém os seus desenganos amorosos, muito menos a uma mulher. Isso fragilizava-o. Não gostava de recordar que fora tão idiota, que se deixara enganar com a mesma facilidade com que se engana uma criança. Mas como falar do filho sem contar toda a verdade? 
- Que se lixe - murmurou. Afinal que me importa o juízo que ela faça de mim?  
O que pretendo é que cumpra o contrato, cuidando bem deles, não  conquistá-la.

7.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA. -PARTE XXII






Terminado que foi, aquele arremedo de lua-de-mel, o casal instalou-se provisoriamente no moderno apartamento do empresário no Parque das Nações. Pedro tinha decidido vendê-lo e comprar uma casa num local mais afastado da cidade. Uma casa com espaço suficiente para juntar a família sem que a sua privacidade saísse prejudicada. E que tivesse um jardim, onde o menino pudesse brincar em segurança.
Já tinha conversado sobre isso com Joana, e por isso naquela manhã ao regressar ao escritório, a primeira ordem que deu à sua secretária, foi a de pesquisar casas à venda nas zonas que previamente escolhera.
Entretanto no escritório, depois de ler a correspondência e tratar dos assuntos mais urgentes, Pedro dedicou-se a uma pesquisa que pareceria estranha a quem dela tivesse conhecimento. Pesquisou, artigos sobre violação, os traumas, as reações e os medos das vítimas. Depois procurou maneiras de agir, em páginas de psicólogos e sexólogos.
Depois de horas em que pesquisou e leu tudo o que encontrou sobre o assunto, levantou-se e foi até à janela. Pensou na volta que a sua vida dera em tão pouco tempo. Onde quer que o primo estivesse, deveria estar a divertir-se imenso com a última partida que lhe pregara.
Não que ele estivesse arrependido. Não estava. Pelo menos por enquanto. Joana era uma mulher de fibra e muito orgulhosa. Mantinha que só aceitava o seu dinheiro para a mãe e o sobrinho.
Ainda na véspera, reiterara a sua posição de manter a firma recém-criada e de continuar com a confeção de doces e salgados para festas várias. De momento continuaria a trabalhar na casa onde habitara, e onde vivia a mãe com o neto e a ama que ele contratara para o menino. Tinham decidido não separar o menino da avó naquela fase em que a mãe se encontrava tão fragilizada.  Continuando a trabalhar lá, não só fazia companhia à mãe, como vigiava o menino, o comportamento da ama, e continuava a contar com a ajuda de Antónia, sua vizinha, amiga, e agora também madrinha de casamento.   Ele gostaria mais, que ela encerrasse a firma e se dedicasse apenas à família e à vida no lar. Não precisava trabalhar, podia ter quantas empregadas necessitasse. Outra qualquer daria pulos de alegria de poder gastar o que quisesse. Ela não. Era muito independente, e essa independência poderia ser um sinal de que não iria prolongar o casamento para além dos dois anos, negociados no acordo.
Sentiu um aperto no peito, ao pensar nisso. Mas porque havia de temer? Afinal dentro de alguns meses, sairia a adoção do menino. E não era só isso  que lhe interessava?

21.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... Interrompeu-se abruptamente. O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem viu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho


Esta história chegou ao fim. Gostaria que aqueles que me leram assiduamente, ( e penso que terão sido muito mais do que os que comentaram, a acreditar nas visualizações deste conto, que contava desde o primeiro episódio até ontem com 3215.) me dessem a vossa opinião sobre ele no seu todo.
Uma noite de inverno, será a nova história que vos vou contar de segunda até ao fim do mês. Mais pequena, e muito diferente das duas últimas, mas que espero vos agrade.

BOM FIM DE SEMANA