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6.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XL






Olhou o relógio. Já passava das quatro da tarde. Precisava despachar-se. Dirigiu-se ao quarto, retirou uma mala de cima do guarda-fatos e colocou-a em cima da cama. Começou a procurar a roupa para a viagem. Calças de ganga, T-shirt, calções, fatos de banho, páreos, lenços, pijamas e roupa interior. Não pensava em saídas noturnas, precisava descansar, não de divertimentos.  Começou a arrumar tudo na mala. Antes de a fechar pensou melhor, e foi buscar um vestido de seda estampado com motivos florais. Era um vestido simples mas elegante, ideal para uma saída à noite se algum dia isso lhe apetecesse.
Fechou a mala e foi buscar um saco onde colocou dois pares de sandálias rasas, chinelos de praia, chinelos de quarto, ténis, e um par de sandálias vermelhas, de salto alto, que faziam conjunto com o vestido de seda. Antes de fechar o saco procurou lembrar-se se faltava alguma coisa. Convencida que o que faltava eram só as coisas de última hora como os produtos de higiene e um ou dois dos últimos livros que tinha comprado e ainda não tivera tempo para ler, fechou a mala e o saco e colocou-os no chão.
Sentou-se em cima da cama e relembrou a conversa com a madrasta. Como o pai tinha sido cruel! Porque não se limitara a dar parte à polícia do roubo, sem acusar o empregado? Mais uma vez tentava lembrar de António no escritório da empresa do pai, e mais uma vez não o encontrou nas suas memórias. Também não admirava. Naquela época ela odiava aquele escritório, pensava que era por causa dele que o pai não lhe dedicava tempo nem atenção. Lembrava isso sim que no escritório trabalhavam dois homens e uma mulher. Um dos homens era mais velho, o outro bem como a mulher eram mais jovens. Mas não conseguia recordar o rosto de nenhum dos três. Suspirando levantou-se e voltou à cozinha. Abriu o frigorífico. Lá não havia mais nada senão a caixa da “pizza” guardada na antevéspera. Retirou-a e jogou-a no caixote do lixo. Depois abriu o congelador e lá também não havia nada. Ultimamente nem sequer tinha tido tempo de ir às compras. Desligou o frigorífico, a fim de o deixar a descongelar para limpar depois do jantar. Lavou as duas chávenas do chá limpou-as e guardou-as. Deu uma olhada à sala, ajeitou as almofadas no sofá, fechou a persiana, e pensando que estava tudo em ordem foi ao quarto, retirou da cómoda um conjunto de roupa interior de algodão rosa. E com ele na mão foi para a casa de banho a fim de tomar duche e despachar-se para estar em casa do pai a horas do jantar.
Meia hora mais tarde, saiu de casa envergando um vestido de alças e um casaquinho do mesmo tecido. Levava o cabelo apanhado, e calçava sandálias de salto alto.
Tinha a chave da casa do pai, mas desde que saíra de casa para viver sozinha nunca mais a utilizara. Aquela fora a sua casa até esse dia, agora era a casa do pai. Tocou a campainha e aguardou que a empregada viesse abrir mas foi Miguel, quem a abriu a porta, cheio de alegria. Paula baixou-se e abraçou o menino com todo o carinho.
-Onde estão todos? – perguntou entrando em casa pela mão do menino.
-  A mãe está no quarto, o pai no escritório. Vou avisá-los que já chegaste.


Aviso: Como sabem acabo o tratamento no dia 13. Dia 14 vou fazer exames para ver se a córnea recuperou ou não para a nova cirurgia. Se estiver bem o médico deverá marca-la para os dias que se seguem. Para que esta história não se torne eterna, haverá alguns dias em que sairão dois capítulos. Um ao início do dia e outro às 20 horas. Espero que não se zanguem.




Deixo-vos com a minha última foto. Como vêm o olho está quase tão aberto como o outro.
Só que não vê.



1.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XV



Horas depois, já quase noite, Tiago regressou. Durante o jantar, ele e Ricardo fizeram as honras da conversa, enquanto Clara apenas se preocupava com a refeição das crianças.
Tiago, foi uma revelação para o cunhado, surpreso com a educação e maturidade do jovem.
Depois do jantar, na sala, Tiago sentou cada um dos meninos nos seus joelhos e começou a contar-lhes histórias engraçadas, imitando alguns animais, fazendo com que as crianças rissem e também os quisessem imitar.
Feliz, por ver a alegria dos filhos, Ricardo olhou para Clara que lhe retribuiu um olhar firme, como se lhe dissesse: “Eu não te disse que o meu irmão era um bom miúdo? Aí o tens. Vê com os teus próprios olhos”.
Algum tempo depois, Clara ergueu-se e disse:
- Vamos lá, meninos, preparar para dormir.
Tiago deu um beijo a cada um e colocou-os no chão. Soraia, voltou-se para o pai e perguntou:
-Vens pai?
- Ontem não nos contaste uma história, - acrescentou o irmão.
-É claro que vou convosco, - disse o pai, pondo-se de pé. E ontem não houve história, porque vocês adormeceram à saída da festa.
As crianças apressaram-se a sair da sala seguidos pelo pai, e por Clara.
Entraram no quarto, e dirigiram-se para a casa de banho, a fim de escovar os dentes, sem necessidade que nenhum dos adultos lhe mandasse, o que levou Clara a pensar, que eles já tinham bem presente esse hábito. Enquanto eles estavam na casa de banho, vigiados pelo pai, Clara abriu as camas e colocou em cima de cada uma, os respetivos pijamas.
Mais tarde, as crianças, já deitadas, Ricardo pegou num livro e sentando-se na cama do filho começou a ler.
-Hoje é dia de te sentares aqui, na minha cama, - reclamou a menina. - No sábado ficaste aí.
Ricardo fez uma festa na cabeça do filho, e foi sentar-se na cama da filha. Enquanto ele lia, Clara ia mentalmente alterando toda a decoração do quarto, de modo a fazer com que os meninos não entrassem em disputa, e estivessem mais perto um do outro.
Quando eles adormeceram os dois saíram do quarto e regressaram à sala.
Tiago pôs-se de pé assim que eles entraram.
- Desculpem-me, mas também me vou deitar. Estou cansado. Posso usar a piscina amanhã?
- Claro, - disse Ricardo. A partir de agora esta casa, também é tua. Só não gostaria que trouxesses amigos para cá. Gosto de preservar a intimidade da família.
- Obrigado. Fica descansado, também me apraz essa intimidade. Boa noite.
O silêncio instalou-se entre os dois, depois que Tiago saiu. Por fim Clara, dando sequência aos seus pensamentos disse:
- Pelo que entendi da nossa conversa, tens esta semana de férias, não é verdade?
-Sim. Porquê?
- Não me agrada o quarto das crianças. Não se trata de comprar novos móveis. Creio que posso fazer com que fique mais agradável para eles com uma pequena mudança. Se os entretivesses de manhã no jardim ou na piscina, eu cuidava disso.
-Muito bem. Depois, enquanto dormem a sesta, se não estiveres muito cansada, podemos ir à vossa antiga casa, para ver o que queres trazer, e o que vais entregar à tal instituição, a fim de desocupares a casa e entregares a chave ao senhorio.
- Amanhã se vê. Gosto de ler antes de adormecer, vou à biblioteca escolher um livro. Boa noite Ricardo.
-Boa noite Clara.
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E porque hoje é o dia internacional do idoso



Provavelmente as cabeças grisalhas vão ter hoje uns mimos. E depois? O que é que este dia muda na sua vida cada vez mais difícil, não só pelas mazelas da idade, mas porque aos poucos foram perdendo os poucos recursos que tinham, seja por via estatal, seja, porque os mais novos se viram obrigados a emigrar e não podem por isso ajudá-los, nos 364 dias restantes? Os idosos não precisam de um dia. Precisam de medicamentos, de companhia, e de um mínimo para viverem ou morrerem com dignidade.



30.10.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE IX


                                                 Foto da net

 Pouco depois, aprestava-se Miguel para sair, quando a jovem disse:
- Queria lavar a minha roupa. Mas não encontro detergente. Não há?
-Sinceramente não sei. Quando cá estou, é a D. Adélia, uma senhora que já trabalhava para a minha avó, quem vem duas vezes por semana, fazer limpeza e tratar das roupas.
- Preferia ser eu mesma a cuidar das minhas.
-Quer que lhe traga um detergente?
-Se fizesse o favor…
- Bom. Mas vou demorar. Ah, e já agora, tinha pensado encomendar uma pizza para o jantar. Gosta?
- Penso que sim, - respondeu a jovem a medo.
- Então até logo. Lamento não ter televisão, mas a única coisa que me interessa para além da pintura, é a leitura. Já lhe disse que pode ler o que quiser?
Ela assentiu com a cabeça e Miguel saiu fechando a porta com suavidade. A jovem foi até à estante e retirou um livro ao acaso.
Sentou-se no sofá e tentou embrenhar-se na leitura.
Enquanto isso, Miguel dirigiu-se à cidade e procurou uma tabacaria, onde comprou dois dos mais importantes jornais diários. Depois procurou um recanto mais sossegado num café e começou a folhear os jornais. Procurava alguma notícia sobre a jovem, mas não encontrou nada. Pensando que talvez já tivesse saído, dias atrás, voltou  à tabacaria, e  perguntou se tinha os jornais dos últimos dias.
-Não. Os que não se vendem num dia, são devolvidos no dia seguinte. Se quiser consultar outros, só na biblioteca.
Miguel agradeceu e dirigiu-se à biblioteca onde durante mais de uma hora folheou os jornais da última semana, sem que tivesse visto alguma notícia que se pudesse relacionar com a jovem.
Desiludido, saiu e foi ao supermercado, onde fez algumas compras. Depois dirigiu-se à loja, onde já estiver de manhã, e pediu à empregada roupa de dormir, para uma jovem.
Torceu o nariz para as peças demasiado reduzidas e sensuais que a empregada, lhe apresentou e pediu algo mais simples, justificando que se tratava de uma prenda para a filha.
A empregada, sorriu, e foi buscar umas caixas onde repousavam uns juvenis pijamas, compostos por top e calções, e umas camisas de dormir, que mais pareciam umas t-shirt, compridas. Comprou também um roupão de algodão acetinado, branco. Efectuadas as compras que achou necessárias, colocou tudo no carro e dirigiu-se para casa, não sem antes passar pela pizzaria.