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3.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE I



A manhã ainda não tinha alvorecido no horizonte quando Teresa se levantou. Enfiou um robe e foi à cozinha onde pôs duas fatias de pão na torradeira, tirou do frigorífico duas laranjas e preparou um sumo. Saboreou o pequeno almoço com gosto.  Quando terminou, lavou o prato e o copo e foi para a casa de banho.
Escovou os dentes, prendeu os seus longos cabelos castanhos no alto da cabeça, cobriu-os com uma touca, despiu-se e entrou no duche. Quando terminou enrolou ao corpo uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, donde tirou um conjunto de roupa interior de algodão aos quadrados.
Retirou a toalha do corpo e vestiu-o. Olhou-se ao espelho. Não eram peças finas, de seda e rendas, mas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao corpo, eram cómodas, e isso era o que lhe importava, não pretendia seduzir ninguém. Vestiu umas calças de ganga, e um camiseiro branco. Tirou a touca, desprendeu o cabelo, escovou-o e prendeu-o numa trança. Calçou uns ténis brancos, puxou a roupa da cama para trás, e abriu um pouco a janela a fim de arejar o quarto, saindo em seguida.
Na cozinha, pegou nas chaves da casa, e no telemóvel que meteu no bolso das calças e abrindo a porta que dava para as traseiras, saiu. Contornou a habitação, uma casa térrea, pintada de branco como quase todas as outras da aldeia, passou pela porta principal e seguiu em direção ao fundo da rua.
O sol apenas despontava no horizonte, mas ali acordava-se cedo. A maioria dos homens, já se encontrava nos terrenos, cavando ou regando, que Junho estava no fim, e era necessário aproveitar aquelas horas, já que pelo meio-dia, o calor começava a apertar e de tarde era impossível fazer trabalhos ao ar livre.
- Bom dia Teresa! – saudou uma mulher que dava milho às galinhas no seu quintal.
- Bom dia, dona Arminda. Como vai a senhora?
- Como Deus quer, filha, como Deus quer. Sempre com o coração apertado com muitas saudades da minha Lena, mas que fazer? Deus quis assim, há que aceitar, a Sua vontade!
- É a vida dona Arminda. Cada um procura o sítio onde pode ter melhor vida. O que interessa é que ela e a família estejam bem. E não tarda chega Agosto e estão aí todos para matar saudades. Vou andando. Até logo
- Vai com Deus - respondeu a mulher
 Teresa continuou o seu caminho. Ao chegar ao fundo da rua, a principal da aldeia, virou à esquerda, e entrou num pedaço de terreno onde pontuavam apenas meia dúzia de oliveiras, e a erva crescia solta, por todo o terreno  que se estendia até ao ribeiro, onde tantas vezes em menina se banhara nos dias de maior canícula.
Ao chegar ao leito do mesmo, agora quase seco devido ao calor intenso que se fizera sentir durante todo o mês, sentou-se numa pedra e olhou ao seu redor. Na sua frente do outro lado do ribeiro, para lá dos campos de milho, erguiam-se as montanhas. Atrás de si, o campo inculto que atravessara, e que lhe pertencia, destoava dos campos de outros vizinhos, todos cultivados com os mais diversos legumes, que o cercavam.
-Bom dia, Teresa! Por cá de novo?
Levantou a cabeça. Ali perto um homem de cabelos brancos com umas quantas cebolas numa mão e o boné na outra, os pequenos olhos meio escondidos entre as rugas, mirava-a.

1.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXI


- Ainda não me respondeste.
- Sim?  É que quando me beijas, esqueço-me até do meu nome.
- Casas comigo?
- Sim.
- Quando?
- Quando quiseres.
- Amanhã?
Riu-se.
- Não se faz um casamento de um dia para o outro.
- Dez dias, "cara".
-É muito pouco.
- Não me subestimes. Deixas-me tratar de tudo. E garanto-te que casamos em dez dias.
 - Quero ver isso.
-Combinado. Dentro de dez dias.
   Ele olhou o relógio.
 - Vai mudar de roupa. Escolhe uma roupa bonita. Vamos jantar fora. Não te demores, ou ficamos sem jantar.
- Não me apetecia sair. Podíamos jantar em casa.
- Não se faz um jantar de noivado em casa. Vai, os convidados esperam-nos.
Apressou-se a fazer o que ele pedia. Convidados? Que convidados? Escolheu um vestido-túnica de lã preto, bem curto, e umas meias opacas da mesma cor. Completou o conjunto com botins de salto e um casaco cor de tijolo. Escovou o cabelo, pegou na bolsa, e considerou-se pronta.
Sentiu-se recompensada com o olhar de admiração com que ele a brindou.
- Estás linda. Vamos, antes que acabe por desistir do jantar. – Disse ajudando-a a vestir o casaco.
Na rua, ela entregou-lhe as chaves do carro e ele abriu-lhe a porta para ela entrar. Depois deu a volta ao carro, sentou-se ao volante mas em vez de por o motor a trabalhar, meteu a mão no bolso, e tirou uma pequena caixa.
- Tinha-me esquecido. Uma noiva não pode ir para o seu jantar sem anel.
Ela abriu a pequena caixa e retirou o anel  mais bonito que alguma vez tinha visto. Abraçou-o emocionada, sem conter as lágrimas.
- Vá lá "amore mio", se não paras de chorar, os convidados vão pensar que te vais casar obrigada.
E para esconder a sua própria emoção, pôs o motor a trabalhar e arrancou.
- Há uma coisa muito importante de que não falamos. Onde vamos morar? Eu gostaria de viver em Itália. Eu e o meu irmão temos a maior vinha, da Toscana,  perto de Greve in Chianti, cidade onde mora a minha família. Agora que deixei a polícia, é lógico que me dedique  a gerir a minha parte na vinha e liberte um pouco o meu irmão. Teríamos que viver com os meus pais, enquanto procuramos comprar a nossa própria casa. Pensas que podes viver lá?
-Poderei viver até no Polo Norte, se tu lá estiveres, amor. 
Parou o carro junto ao melhor hotel da cidade. Deu-me um beijo rápido e disse sorrindo:
-Diz-me isso, quando chegarmos a casa. Para que possa agradecer-te  de forma mais conveniente.



Nota:
Como os leitores antigos sabem, esta história é uma reedição, e na época em que a escrevi a Itália não estava como hoje a ser assolada por este vírus.

Aproveito para responder a algumas perguntas que me fizeram nos comentários de ontem.
1ª Qual será a nova profissão do André, a resposta está neste episódio.
2º Mas ele era ou não jogador e ganhou ou não a casa ao marido dela.
Claro que ele era jogador. Não poderia levar meses de investigação em nenhum casino apenas como mirone. Levantaria suspeitas. E não ele nunca jogou com o marido dela, a explicação foi dada num episódio que talvez não tenham lido. O marido dela andou desesperado pelas mesas fazendo a oferta a troco de uma quantia para continuar a jogar. André deu-lhe essa quantia, e ele voltou a perder.

16.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX



Tinham passado à sala, onde, em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Tremo só de pensar o que te podia acontecer se tivesses caído em algumas mãos que conheço. Agora, se me dás licença, vou-me vestir e sair. Tens outras chaves, além das tuas, que me emprestes?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua auto estima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
A clínica onde trabalhava, fechava duas horas para almoço. Habitualmente, ela vinha almoçar a casa, já que a clínica ficava perto e sempre aproveitava parte do tempo para adiantar as coisas para o jantar. Nessa noite decidiu que não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-à? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.




11.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI



Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que o homem era sincero e podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o seu coração era muito ingénuo, e já a enganara uma vez, quando a levara a confiar no marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele poisou as chaves com que abrira a porta, em cima da mesa, virou-lhe as costas e começou a caminhar para a saída.
O facto de ele pousar as chaves que ela mesma lhe entregara, fez com que a levasse a confiar nele.
-Espera – disse pondo-se de pé. - Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. 
A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa, bem como a cozinha e a casa de banho, foi remodelada e mobilada por nós, antes do casamento. Aqui é uma salinha de leitura,  que comunica com o quarto principal e o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, como podes ver, estão mobiladas com um estilo diferente. Clássico, os móveis são antigos, já  estavam assim, quando o Alfredo herdou a casa, da madrinha, e não lhe mexemos, em parte porque o dinheiro para a reforma não abundava, e em parte porque enquanto não viessem os filhos, não precisaríamos delas. Aqui em frente temos uma casa de banho e  a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o quarto de hóspedes.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não! Hoje, amanhã, ou daqui a um mês, a dor e a vergonha, do que aconteceu, não diminuirão. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que já estou a ouvir os comentários. "Há uma semana enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou."
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Não me preocupa o que pensem, estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude à bocado. Penso que estavas à beira de um ataque de nervos e foi a melhor maneira que encontrei para te tranquilizar.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. Como te disse sou jogador profissional, uma profissão noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois voltou à sala e pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.

“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso daquilo que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim poderás ainda ser feliz. Adeus.”

Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


9.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IV


Ele não respondeu. Limitou-se a segurá-la pelo cotovelo, e empurrá-la suavemente para a porta do elevador que acabava de se abrir.
Com um safanão ela libertou-se.
-Não me toque. Pode ser que o safado do meu marido, se tenha julgado no direito, de me transformar num troféu de jogo. Ultimamente andava tão esquisito que nada me admira. Posso ter perdido a minha casa, e ser obrigada a viver seis meses consigo. Mas não lhe dou o direito de me tocar.
Brilharam de raiva os olhos cinzentos.
-Oiça, entendo que esteja em choque. Mas não lhe quero fazer qualquer mal. Acredite ou não, o melhor que lhe podia ter acontecido, foi ter sido eu a aceitar a proposta maluca do seu marido. Não lhe passa pela cabeça, o perigo em que o vício dele a colocou. Nas mesas de jogo, há gente de toda a espécie. Alguns são capazes de mandar matar com a mesma calma com que a senhora pede um bolo, ou um café. E agora vai dizer-me como veio até aqui?
Pela primeira vez, ela olhou o rosto do homem. Não se podia dizer que era um homem bonito. Interessante sim. E duro. Sem bem saber porquê, teve a sensação, de que aquele homem zangado, podia ser muito perigoso. Talvez fosse pelas maçãs do rosto demasiado salientes, ou pelo queixo quadrado, talvez pelos olhos cinzentos, tão claros que lhe lembraram dois pedaços de gelo, ou quem sabe, pela linha dura da boca bem desenhada. Apesar de falar corretamente a língua portuguesa, tinha uma pronuncia diferente. Era estrangeiro certamente.
-Vim de carro - murmurou
Começou a andar rumo ao parque e ele colocou-se a seu lado. Caminharam em silêncio até ao automóvel. Em silêncio ele estendeu a mão, e ela entregou-lhe as chaves. O homem não tentou ser gentil, nem lhe abriu a porta, dirigindo-se diretamente para o lado do condutor e sentando-se ao volante. Colocou o cinto e então olhou-a:
- E a morada é…
Ela disse o nome da rua, e remeteu-se ao silêncio. Estava desejosa de estar sozinha para ler a carta do marido. Maldito fosse ele. E pensar que lhe parecera tão amoroso, quando o conhecera. Razão tinha a Irmã Madalena, quando a aconselhara a prolongar o noivado. Por qualquer razão que ela desconhecia, a freira, não confiava nele. Olhou de relance para o homem a seu lado. Como era mesmo o seu nome? Ela lembrava-se que o advogado o mencionara, mas estava tão nervosa que não o memorizou.
O carro parou e só então ela se apercebeu de que tinha chegado a casa. Saíram do veículo e ele estendeu-lhe as chaves. Ela guardou-as na mala, e retirou as de casa, que lhe estendeu com  ar provocador.
-Ó desculpe, tenho as chaves da "sua" casa, - disse com ironia.

3.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE V



                                                                                               Foto do museu de Loulé

Miguel dirigiu-se à porta, abriu-a e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie  de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir,  doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.


28.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE VIII






Dez minutos depois…
- Doutor Mesquita, o doutor Araújo em linha. 
- Obrigado.
Ouviu o clique da passagem da chamada, e só então falou:
- Ricardo, preciso de ti com urgência. Estás muito ocupado?
- Na verdade estou. Aconteceu alguma coisa com a compra do hotel?
- Não. Vais almoçar com a tua mulher?
- Não. Porquê?
- Então podíamos almoçar juntos. Ainda almoças naquele restaurante perto do teu escritório?
- Quando não vou a casa, sim.
- Vou lá ter. À uma?
-Combinado.
Desligou a chamada, no momento em que uma mulher jovem irrompeu pelo gabinete, seguida da sua secretária.
- Desculpe doutor, eu informei a menina Cristina de que não podia entrar sem autorização, mas não me obedeceu.
- Está bem, Rita, pode regressar ao seu lugar.
Assim que a secretária fechou a porta voltou-se para a jovem e disse:
 - Nunca mais, ouve bem, nunca mais invadas o meu local de trabalho sem que para isso tenhas sido convidada. Ou juro-te que chamo o segurança para te expulsar.
A mulher, loira e bonita, sacudiu a sua magnífica cabeleira, e fazendo beicinho, murmurou com voz rouca:
- Mas amor, há mais de uma semana que não te vejo. Morro de saudades. Telefono, e aquele sargento que tens lá fora diz-me sempre que não estás.
Enquanto falava, aproximou-se dele e passou-lhe os braços à roda do pescoço, tentando inebriá-lo com o seu perfume. Sem se impressionar, Pedro levantou as mãos e retirou os braços que o enlaçavam. 
- Estive fora e só regressei hoje. Ia telefonar-te esta tarde, precisamos de falar, mas este não é o local nem a hora para semelhante conversa. Espera-me esta noite. Vou buscar-te às oito. Agora por favor, sai.
- Assim? Sem um beijo? – Perguntou aproximando-se.
- Preciso repetir-te que este é o meu local de trabalho, - retorquiu aproximando-se da porta e abrindo-a.
Furiosa, Cristina saiu fazendo soar o salto dos sapatos no mármore como se fossem marteladas.
Pedro fechou a porta e sentando-se pegou de novo no relatório que o investigador lhe enviara.  Depois dobrou-o e meteu-o no bolso do casaco. Olhou o relógio. Meio-dia e vinte. Tirou a gravata da gaveta recolocando-a no lugar, Apertou o nó, vestiu o casaco e agarrando nas chaves, saiu.



2.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE I


Eram seis horas, de uma radiosa e calorenta tarde de Junho quando João Santos entrou em casa. Fechou a porta atrás de si, atirou as chaves para cima do móvel de entrada e dirigiu-se ao quarto. Era um amplo quarto de casal, onde reinava uma enorme cama. Em cima da cómoda, mesmo ao lado de uma bonita jarra, onde em tempos sempre houvera belas e frescas flores, mas que agora se apresentava tristemente vazia, uma moldura mostrava uma foto de casamento. Ele porém não se deteve no quarto. Dirigiu-se à porta à esquerda, que ligava o quarto à casa de banho e abriu-a. Uma vez lá dentro, rapidamente se despiu e enfiou debaixo do chuveiro. Durante um minuto, ficou quieto, sentindo a água fria correr pelo corpo, numa carícia suave. Precisava daquilo para eliminar do corpo, não só o calor, mas também o cansaço. Depois fechou a água e esfregou vigorosamente o corpo. Acabado o duche, enrolou uma toalha à cintura e olhou-se no espelho.
A imagem que este lhe devolvia, era a de um homem ainda jovem, moreno de cabelos e olhos castanhos. Era alto, tinha ombros largos e uma figura bem proporcionada. Não se considerava um homem bonito. A testa alta, o cabelo liso, os olhos vivos e inteligentes, eram rasgados e não muito grandes, o que lhe dava um ar exótico, quase oriental. A boca embora bem desenhada, tinha lábios finos, e o queixo forte era na sua opinião demasiado quadrado. Não, não era aquilo que os padrões de beleza chamavam um homem bonito, mas tinha carisma e uma presença forte que se impunha onde quer que estivesse.
Passou ao quarto, procurou uns calções de algodão que vestiu sobre o corpo nu. Pegou na moldura, onde se via com a esposa, e ficou olhando-a com tristeza. Passou o dedo pelo rosto da mulher que a seu lado sorria feliz, e murmurou:
- Porquê Odete, porquê?
Poisou a moldura no sítio. O seu rosto apresentava uma tristeza pouco comum. Descalço e de tronco nu, foi até à cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma cerveja, e dirigiu-se para a sala onde se deixou cair no sofá. Abriu a garrafa, bebeu um gole, e poisou-a em cima da mesa. 


11.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos, Gabriel não gostava de ver uma mulher a chorar.  
Sentia-se atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua insignificante secretária era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão. Nunca se sentira tão desconcertado. Principalmente porque sentia um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la. Por outro lado, sentia-se enganado, enraivecido e com vontade de denunciá-la à polícia.
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem vim. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro foi fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar..
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia, e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento que o deixou atônito.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
-Não. Vim com a Inês.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não. Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tem qualquer interesse o que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão cansada!
- Chegamos.
Ele estacionou, saiu e deu a volta ao carro. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Ele abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

12.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XV




Foto minha


Acabou de se vestir e olhou-se no espelho do roupeiro. Por momentos ficou indecisa entre um ténis brancos e uns sapatos rasos, azuis, tipo sabrina. Acabou por escolher estes e juntou o ténis ao restante calçado, num saco de lona azul com riscas brancas.
Fechou a mala e colocou o saco com os sapatos em cima.
O telemóvel tocou de novo.
- Bom dia. Está tudo bem? – Perguntou Amélia
- Bom dia. Sim, está. E contigo? Alguma coisa urgente? Vi que ligaste quando estava no banho.
- Queria saber a que horas chegas. O Paulo esteve cá. Quer que vamos a um jantar de despedida esta noite em sua casa.
- Está bem. Chego cedo. E ele? Disse se já tem substituto?
- Diz que sim, mas ainda não chegou. Parece que é um filho de um amigo do Paulo.  Segundo ele não vivia em Lisboa.
- Está bem. Logo falamos. Estou a acabar de arrumar as coisas. Dentro de uma hora mais ou menos, estou a caminho.
- Então até logo. Boa viagem.
-Obrigado.
Terminada a chamada dirigiu-se à casa de banho com uma pequena bolsa, na qual guardou os objectos de higiene pessoal.
Depois de transportar tudo para o carro, percorreu a casa a ver se tinha esquecido alguma coisa,  colocou os óculos escuros, guardou o telemóvel na bolsa que colocou a tiracolo, pegou  nas chaves e saiu. Tocou a campainha do lado e entregou à senhora as chaves da casa. Esta desejou-lhe boa viagem e deu-lhe um cartão com o número do telefone. “ Pode precisar quando voltar para estes lados” disse.
Isabel agradeceu e finalmente meteu-se no carro e subiu a rua em direcção à parte alta da cidade. Aí poderia seguir para a A 22 a chamada “via do Infante”, mas Isabel pretendia tomar o rumo contrário e seguir em direcção à marginal. Queria olhar a baixa e o mar pela última vez.  Sairia da cidade pela marginal,  na direcção do Chinicato, e aí entraria na "via do Infante".
  . E foi o que fez. Passou pelo parque de campismo, viu a estátua de S. Gonçalo, passou pelo forte Pau da Bandeira, pelas muralhas de castelo sempre procurando um sítio para estacionar. Conseguiu o tão precioso lugar bem em frente do mercado municipal quase por trás do banco onde estivera sentada no dia anterior.








Amigos/as.  O site Maria Capaz, acaba de publicar um pequeno conto meu.
Se puderem passem por lá. O tema do conto é a violência a que muitas mulheres estão sujeitas. AQUI o link  para o conto. Muito obrigado a todos.

27.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE V



                                                                                               Foto do museu de Loulé

Miguel dirigiu-se à porta e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie  de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir,  doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.