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1.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXI


- Ainda não me respondeste.
- Sim?  É que quando me beijas, esqueço-me até do meu nome.
- Casas comigo?
- Sim.
- Quando?
- Quando quiseres.
- Amanhã?
Riu-se.
- Não se faz um casamento de um dia para o outro.
- Dez dias, "cara".
-É muito pouco.
- Não me subestimes. Deixas-me tratar de tudo. E garanto-te que casamos em dez dias.
 - Quero ver isso.
-Combinado. Dentro de dez dias.
   Ele olhou o relógio.
 - Vai mudar de roupa. Escolhe uma roupa bonita. Vamos jantar fora. Não te demores, ou ficamos sem jantar.
- Não me apetecia sair. Podíamos jantar em casa.
- Não se faz um jantar de noivado em casa. Vai, os convidados esperam-nos.
Apressou-se a fazer o que ele pedia. Convidados? Que convidados? Escolheu um vestido-túnica de lã preto, bem curto, e umas meias opacas da mesma cor. Completou o conjunto com botins de salto e um casaco cor de tijolo. Escovou o cabelo, pegou na bolsa, e considerou-se pronta.
Sentiu-se recompensada com o olhar de admiração com que ele a brindou.
- Estás linda. Vamos, antes que acabe por desistir do jantar. – Disse ajudando-a a vestir o casaco.
Na rua, ela entregou-lhe as chaves do carro e ele abriu-lhe a porta para ela entrar. Depois deu a volta ao carro, sentou-se ao volante mas em vez de por o motor a trabalhar, meteu a mão no bolso, e tirou uma pequena caixa.
- Tinha-me esquecido. Uma noiva não pode ir para o seu jantar sem anel.
Ela abriu a pequena caixa e retirou o anel  mais bonito que alguma vez tinha visto. Abraçou-o emocionada, sem conter as lágrimas.
- Vá lá "amore mio", se não paras de chorar, os convidados vão pensar que te vais casar obrigada.
E para esconder a sua própria emoção, pôs o motor a trabalhar e arrancou.
- Há uma coisa muito importante de que não falamos. Onde vamos morar? Eu gostaria de viver em Itália. Eu e o meu irmão temos a maior vinha, da Toscana,  perto de Greve in Chianti, cidade onde mora a minha família. Agora que deixei a polícia, é lógico que me dedique  a gerir a minha parte na vinha e liberte um pouco o meu irmão. Teríamos que viver com os meus pais, enquanto procuramos comprar a nossa própria casa. Pensas que podes viver lá?
-Poderei viver até no Polo Norte, se tu lá estiveres, amor. 
Parou o carro junto ao melhor hotel da cidade. Deu-me um beijo rápido e disse sorrindo:
-Diz-me isso, quando chegarmos a casa. Para que possa agradecer-te  de forma mais conveniente.



Nota:
Como os leitores antigos sabem, esta história é uma reedição, e na época em que a escrevi a Itália não estava como hoje a ser assolada por este vírus.

Aproveito para responder a algumas perguntas que me fizeram nos comentários de ontem.
1ª Qual será a nova profissão do André, a resposta está neste episódio.
2º Mas ele era ou não jogador e ganhou ou não a casa ao marido dela.
Claro que ele era jogador. Não poderia levar meses de investigação em nenhum casino apenas como mirone. Levantaria suspeitas. E não ele nunca jogou com o marido dela, a explicação foi dada num episódio que talvez não tenham lido. O marido dela andou desesperado pelas mesas fazendo a oferta a troco de uma quantia para continuar a jogar. André deu-lhe essa quantia, e ele voltou a perder.

6.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVII




Os dias que se seguiram foram de trabalho intenso. Mário recebeu os relatórios que tinha pedido, analisou-os, aprovou algumas ideias, riscou outras por lhe parecerem não compensar o investimento, e contratou novos empregados, porque verificou que havia alguns que chegariam à idade da reforma no início do ano seguinte e queria que nessa altura os novos empregados já estivessem integrados no esquema de trabalho da empresa. Comprou e mandou instalar duas máquinas novas. Contatou e recuperou dois antigos clientes. Durante aqueles dias, foi várias vezes ao gabinete de Teresa, para acompanhar o processo de admissão dos novos empregados, ou para pedir a opinião dela, noutros assuntos no âmbito da sua gestão. 
Entrava, perguntava o que queria, e saía sem demora. Não voltara a falar de assuntos pessoais, nem de saídas noturnas. Parecia outra pessoa, e Teresa, não pode deixar de admirar a tenacidade, e a crença que o  impulsionavam. 
Mário, todos os dias estava em contacto com os seus homens de confiança, o secretário, e o advogado, que tinham ido para Inglaterra reunir com os seus gerentes, e verificar o bom andamento das suas empresas, pois desistira de viajar enquanto não pusesse a “Tudilar” no rumo certo.
Naquele dia, pouco passava das dez, quando ele chegou ao gabinete. Como sempre impecavelmente barbeado e bem vestido.
- Olá – disse ao entrar.
Assim, como se fosse um amigo, um colega. Começara a tratá-la assim há quase uma semana. Sempre que estavam sozinhos. A princípio ela refilou. Quis impor distâncias. Ele não ligou e acabou por vencê-la pela persistência.
- Olá- respondeu enfrentando o seu olhar
Aos poucos tinha aprendido a dominar as suas emoções. Sentia-se agora  mais segura de si, menos temerosa.
-Já me podes dizer qual dos trabalhadores da secção B pode vir a ser um bom chefe, uma vez que o atual atinge a idade de reforma em breve?
- Estou indecisa entre dois. Creio que qualquer deles possui qualidades e capacidades para o lugar. Queres que os convoque e falas com os dois?
- Pode ser para esta tarde?
- Não. Vou sair ao meio dia. Tenho um compromisso para a tarde.
- Mais importante que o trabalho?
- Muito mais.
Dissera-o com raiva, como se quisesse fazer-lhe pagar por tê-la afastado de si no passado. Ele percebeu-o e engoliu a agressividade com que lhe ia responder.
- Está bem. 
De súbito curvou-se, estendeu a mão, agarrou a delicada mão feminina, e sem deixar de a olhar beijou-lhe os dedos um a um.
Depois soltou-a, e dirigiu-se para a porta.
- Pensa em mim – disse antes de fechar a porta atrás de si.
Pela primeira vez em muitos anos, Mário estava feliz. Tinha percebido que apesar de tudo, continuava a reinar no coração feminino.  E isso soava-lhe a glória, ainda que pela frente tivesse um dura luta, para se redimir pelo passado.



                                               

3.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVI






-Suponho que ficarás para a festa - disse Gabi quando o almoço terminou
-Só até ver que tudo está a correr normalmente. Depois deixo-vos, que a festa é vossa, não minha.
- Eu gostaria de te pedir um favor especial. Podes ajudar a vestir-me?
-Claro que sim. Queres subir agora?
- Sim. Já passa da uma e meia, daqui a pouco estão aí os primeiros convidados.
-Vamos então. Mas espera, deixa-me ir ao carro buscar o meu vestido?. Posso vestir-me no teu quarto, não posso?
-Decerto que sim. Vai lá então buscá-lo.
Paula saiu e voltou pouco depois com o vestido e uma pequena bolsa. Subiram as escadas e entraram num dos quartos de hóspedes, em cuja cama se encontrava estendido o vestido de Gabi.
Paula pendurou o seu  no armário, e aproximou-se do leito para admirar o belo vestido.
-Não é lindo?- perguntou Gabriela.
- Maravilhoso.
-Era o mais belo da loja. Quando o Eduardo me pediu para escolher um vestido para uma cerimónia, que o Júlio queria oferecer à noiva, calculei logo o que ele e o meu irmão estavam a tramar. Os homens julgam-se muito inteligentes, mas não têm jeito nenhum para inventar uma história credível.
A jovem ia falando enquanto tirava as calças e a túnica que envergava, ficando apenas com umas minúsculas cuequinhas e o sutiã.  Paula pegou no vestido, uma maravilha de seda e renda em tom de champanhe, abriu o fecho e ajudou a jovem a vesti-lo. Tratava-se de um modelo comprido, sem mangas, de cintura vincada, a parte superior em renda e a longa saia em seda. O modelo apresentava um discreto decote em V na parte da frente, que se tornava muito mais generoso na parte de trás deixando as costas quase totalmente nuas, pelo que a jovem teve que tirar o sutiã.
-Estás linda, -elogiou Paula.
- Obrigada. Importas-te de me colocar a tiara? E diz-me uma coisa, há quanto tempo conheces o meu irmão?
- Há quinze dias, desde que foi à minha empresa contratar-me para realizar esta festa, - respondeu enquanto retirava da caixa uma bonita tiara de flores e pérolas e lha colocava na cabeça. Porque perguntas?
- Fiquei surpresa quando soube quem eras.
-Porque o teu irmão odeia o meu pai?
-O que sabes disso?
-Nada, a não ser isso. E tu?
Após uma breve hesitação Gabi respondeu:
-Era muito jovem quando tudo aconteceu e nem ele nem a minha mãe me quiseram dizer o que se passava. Só sei que foi por causa do teu pai que o meu irmão emigrou e esteve muitos anos longe de nós. Meu Deus são duas e meia. Onde estarão os meus sapatos?
Paula percebeu que estava a mentir. Ela sabia o que se tinha passado mas era evidente que não lho ia dizer. Por isso retirou os sapatos da caixa e passou-lhos dizendo:
-Se já não precisas de mim, vou-me arranjar. Preciso saber se o músico e o serviço de restaurante já cá estão e se está tudo em ordem.
-Claro. Adorei conhecer-te e espero que venhamos a ser boas amigas.

4.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE VI



Foto do google




Voltou mais de uma hora depois, carregado de sacos, que depositou junto da jovem.
- Comprei-lhe roupas. Não sei se são exactamente a sua medida, mas servirão para poder tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde logo se vê o que mais precisa. E trouxe um frango assado para o almoço. Vamos almoçar já ou prefere primeiro o duche?
- Creio que o duche – disse a jovem pegando nos sacos e levando-os para o quarto.
- Tudo bem.  Vou buscar uma toalha limpa e depois fazer uma salada para acompanhar o almoço.
No quarto, a jovem foi tirando as peças dos sacos. Dois pares de calças, dois camiseiros, um vestido rodado, uma saia justa e um pulôver, um par de ténis, umas sabrinas e algo que fez a jovem corar, três conjuntos de roupa intima. Escolheu as calças brancas, um camiseiro também branco, as sabrinas e um dos conjuntos interiores e dirigiu-se à casa de banho. Temia passar pela cozinha. Que pensaria o homem, quando a visse com a roupa. Imaginá-la-ia com as minúsculas peças vestidas?
Felizmente Miguel estava de costas para ela, entretido com a salada.
Ao entrar na casa de banho, pensou se teria que tomar duche de água fria, mas como que adivinhando-lhe os pensamentos Miguel gritou.
- O esquentador está na casa ao lado e já está aceso.
 A jovem fechou a porta à chave e começou a despir-se. Continuava apática, tudo nela era mecânico, como se o seu espírito se tivesse ausentado do corpo.
Meteu-se debaixo do chuveiro e durante alguns minutos deixou que a água morna deslizasse pelo seu corpo esbelto como se fosse uma carícia.
Depois esfregou-se com raiva, como se quisesse fazer saltar de dentro dela, quem dela se ausentara. Por fim incapaz de se controlar, deu livre curso às lágrimas que se misturaram na água.
 Terminado o banho, procurou a toalha, e só então reparou, no frasco de creme hidratante e na escova.
 “Deve estar muito habituado a lidar com mulheres" - pensou enquanto espalhava o creme pelo corpo nu. 
Vestiu-se. As calças estavam ligeiramente largas na cintura, mas tudo o resto estava perfeito.
Passou a escova no cabelo, e olhou-se no espelho, perguntando-se quem era aquela pessoa, cuja imagem  ele lhe devolvia.



4.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVII






Pedro sentiu um nó na garganta, no momento em que Joana entrou na sala, com um lindo e longo vestido de seda em tom de pérola, com um simples encaixe de renda, na parte superior do peito e ombros como adorno. O cabelo caindo sobre os ombros, preso sobre a orelha direita por uma rosa de seda,  igual ao vestido.
Entrou pelo braço do padrinho, o marido da vizinha e amiga da mãe, que estava sempre presente para as ajudar. Nas mãos um ramo de frescas flores silvestres.
O noivo que sempre se julgara um homem frio, sentiu uma emoção nova, algo que nunca experimentara, algo que ele não sabia se o deixava feliz, ou desagradado, pois temia que essa emoção o fragilizasse.
A voz da Conservadora que ia celebrar a cerimónia, fez-se ouvir:
- Estamos aqui hoje reunidos para celebrar o casamento de Pedro Mesquita e Joana Teixeira.
A cerimónia continuou com a celebrante falando sobre os trâmites legais do casamento, até ao momento da habitual advertência
Se alguém conhecer algum impedimento a este matrimónio que se manifeste agora…
Depois de um curto silêncio a celebrante continuou:
-Pedro Mesquita é de sua livre vontade que aceita Joana Teixeira como sua esposa?
- Sim. É de minha livre vontade casar com Joana Teixeira.
- Joana Teixeira, é de sua livre vontade que aceita Pedro Mesquita como seu esposo?
-Sim. É de minha livre vontade casar com Pedro Mesquita
Na hora da resposta, a voz do noivo soou forte e firme. Pelo contrário a da noiva saiu fraca, após uma hesitação que durou apenas uma fração de segundo, mas que não escapou ao noivo, que lhe apertou a mão, em sinal de confiança. Trocaram então as alianças, e a cerimónia continuou com as palavras da celebrante:
- Em nome da Lei e da República Portuguesa, declaro Pedro Mesquita e Joana Teixeira unidos pelo casamento. Pode beijar a noiva.
O beijo foi longo. Não era a primeira vez que se beijavam, tinham-no feito várias vezes ao longo daquele mês, mas agora era diferente. Era o seu primeiro beijo como mulher casada e Joana sentiu que as pernas lhe fraquejavam.
Seguiram-se as assinaturas, e logo depois os noivos foram felicitados por familiares e convidados. Joana não conhecia nenhum dos presentes, mas simpatizou com Helena, a esposa do advogado, que lhe segredou ao ouvido, enquanto a abraçava. “A nova vida assusta, mas confia na felicidade. O Pedro, apesar do seu ar durão é um excelente homem.”. Também gostou da tia do noivo. A senhora  tinha um ar tão triste que a impressionou
Mais tarde, enquanto dançavam, o noivo perguntou:
-Sentes-te bem?
Ela respondeu com outra pergunta.
-Porquê?
Tens as mãos frias, apesar do calor que está. Hesitaste antes do sim e a tua voz soou trémula. Tive a sensação de que estiveste prestes a desistir. Estou enganado?
- Não.
- Agrada-me a tua sinceridade. Poderia perdoar se tivesses desistido ontem.Não te perdoaria se me fizesses passar por isso, hoje, aqui perante toda esta gente.
- Nunca o faria, mesmo que morresse de vontade. Somos sócios no mesmo negócio e eu respeito os meus compromissos. Acontece que os sentimentos, não reconhecem regras, nem se negoceiam.
-Conversaremos mais logo. Está na hora de abandonarmos a festa.



Este é o momento chave da história. A partir daqui pode nascer uma história de amor. Ou não. O que vocês desejam?

15.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIII







No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria no seu escritório, na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando o horário.
Chegou um pouco antes da hora, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Logo depois, Sandra chegou. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até quase aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. Gabriel ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fizeste. Parece que andaste por aqui, vasculhando, tentando encontrar alguma prova para ilibar o teu pai. Isso quer dizer que estás convencida que teu pai é inocente. Posso saber o que te dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim mesma, senhor.
- Muito bem. E que mais te disse teu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha o dinheiro.
-Teu pai desconfiava de alguém em particular?
- Não senhor.
- E tu? Desconfiaste de alguém?
Ela enrubesceu e olhou o rosto de Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, sentiu que estava magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- A princípio pensei no senhor Gabriel Santana. Soube que poucos meses após a condenação do meu pai, comprou as acções do sócio, e pensei que podia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio vendesse.
- E por isso conseguiste o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. Eu estava desempregada quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- És muito bonita, Sandra. Esperavas apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado?
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


10.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE V




Gabriel chegou à academia dez minutos antes do começo do espetáculo.
Encontrava-se acompanhado de um amigo, empresário como ele, e da esposa do amigo. Tinha recebido o convite na semana anterior, mas acabara por esquecê-lo, só voltando a recordá-lo, quando o amigo lhe telefonara. Na verdade se não fosse por se tratar de um espetáculo beneficente, não teria ido, não era apreciador daquele tipo de espetáculo, danças de salão, para ele, só como interveniente, e com uma bela mulher nos braços. Porém ali estava numa noite de sexta-feira, disposto a passar umas horas aborrecidas, em prol de uma boa causa. Pouco depois as luzes na sala, apagaram-se e um a um os seis pares foram entrando na pista. Recostado na cadeira, com os olhos semicerrados e uma posição indolente, Gabriel não parecia muito entusiasmado.
De súbito, alguma coisa lhe chamou a atenção. Endireitou-se e fixou o olhar no último par que acabara de entrar. Melhor, não no par, mas na bela figura feminina que envergava um lindo vestido vermelho. Havia qualquer coisa de familiar naquela mulher. Seria o cabelo preso no alto da cabeça, num coque embelezado por uma fita preta, adornada com uma rosa do mesmo tom do vestido?
Quando os pares se posicionaram nos seus lugares, o número seis ficou mais perto do local onde Gabriel se encontrava, e ele assombrado julgou reconhecer Sandra.
- Não pode ser, - murmurou.
Aquele “monumento” não podia ser o “estafermo” da Sandra. Ou seria? E como dançava, Santo Deus. Ele não conseguia desviar os olhos da bela figura feminina.
Após uma primeira apresentação, em que os seis pares dançaram a Valsa e o Foxtrot, os pares retiram-se e um apresentador fez uma breve explicação sobre a origem das danças de salão. Logo depois entraram dois pares que dançaram primeiro uma Polca e depois o Bolero.
Depois entraram outros dois pares e Gabriel disfarçou um gesto de enfado. Ele queria ver de novo a mulher de vermelho.
Depois de mais duas danças, desta vez a Salsa e o Chá Chá Chá, eis que voltam os últimos dois pares. Começam por dançar a Rumba, e Gabriel não desgrudava os olhos da figura feminina, que na pista se movimentava com graciosidade e agressividade, insistente e romântica, num jogo de sedução, que visava conquistar o parceiro, que é afinal o sentido da própria Rumba. A dança terminou sob um acalorado aplauso para logo de seguida se ouvirem os primeiros acordes dum Tango.
O Tango era a dança preferida de Gabriel, pelo papel dominante do homem na dança. Mas quando os pares se posicionaram na posição inicial do Tango, ele notou que a bailarina, arqueava ligeiramente o corpo, como que resistindo a deixar-se dominar.
Sorriu. Além de bela, tinha personalidade.

5.7.17

ROSA - PARTE VI


Deixou-a sozinha. Rosa estava espantada. Foi até ao outro quarto. A tina para o banho era enorme. Devia caber lá dentro uma pessoa estendida. E ela estava habituada a tomar banho num alguidar. Tirou a roupa e meteu-se dentro de água. Estava fria mas não se importou. Afinal estava-se no fim de Setembro e o tempo ainda não ia muito frio. A toalha era tão macia, que se enxugou deliciada. Depois, procurou no armário alguma coisa para vestir e, entre os vários fatos que lá estavam, escolheu um vestido azul. Olhou-se no espelho e achou-se estranha, com o grande decote e a saia quase pelo joelho. Mas enfim se era assim que se vestiam na cidade…
Tinha acabado de se vestir quando a mulher a veio buscar para jantar. Na casa de jantar, já estavam quatro jovens a quem a mulher a apresentou dizendo que eram companheiras de trabalho. Ficou espantada. Devia ser uma casa muito rica para ter tanta criada.
Durante o jantar, enquanto a mulher foi atender o telefone, uma das raparigas perguntou-lhe se ia para a sala nessa noite.
-Fazer o quê? – Perguntou
- Esperar os clientes. A maioria vem de dia, mas alguns vêm sempre à noite.
- Clientes? Do quê?
A outra viu que ela não sabia do que se tratava e apressou-se a calar-se não fora a “madame” zangar-se.
Quando a mulher voltou, Rosa perguntou-lhe quando começava a trabalhar. Ela não se importava de começar já. Podia lavar a loiça e arrumar a cozinha. As outras raparigas olharam-se entre si espantadas.
- Falamos quando acabarem de jantar - disse a mulher
No fim do jantar, chamou-a a uma pequena sala e aí disse-lhe:
 -Aqui não terás que fazer trabalhos domésticos. Só terás que atender alguns clientes e seres simpática com eles. Em troca, terás comida, roupa e até algum dinheiro no fim do mês. Só não poderás sair à rua sozinha.
- Mas simpática porquê? Tenho que vender alguma coisa?
- Ó rapariga, mas de onde diabo vens tu? Ainda não percebeste? Isto é uma casa onde os homens vêm em busca de umas horas de prazer, ou de alguma fantasia que as mulheres não lhes fazem em casa. A “mercadoria são vocês”.
- Mulher da vida? – Perguntou a medo lembrando-se de quando ouvira a palavra lá na aldeia e perguntou à avó do que se tratava.
- Ah! Afinal sempre sabes alguma coisa.
- Não quero. Quero ir- me embora – gritou.
- Podes ir! - Disse a mulher com estranha calma. Vai dormir para o jardim onde te encontrei. A meio da noite, terás que aguentar os homens que por lá passem e sem que te paguem. Bem podes gritar, que se alguém aparecer e chamar a polícia ainda vais presa. Aqui, podes descansar hoje e amanhã começas a trabalhar. És muito bonita. Não vão faltar interessados.
Rosa, completamente destroçada, muda de espanto e medo, recolheu ao quarto e atirou-se para a cama a chorar desconsoladamente.


31.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XII





David voltou-se. Parecia muito calmo, mas os seus olhos continuavam muito escuros, e se havia algo de que ela se tivesse apercebido no primeiro dia, é que os seus olhos ficavam claros como água, quando ele estava descontraído, e escureciam quando as emoções o assaltavam. Era um trunfo para ela, que não se deixou enganar com aquela calma aparente.
- Trouxe-te o catálogo da nova estação. Saiu hoje. Queres ver? – Perguntou estendendo-lho
Era como se lhe mostrasse uma bandeira branca.
Ela aceitou. Na verdade não conhecia o catálogo, nunca comprara roupas por aquele processo e estava curiosa.  Correu os olhos pelo vestido da capa. Muito bonito. Um corte simples mas muito elegante, voltou a página e encantou-se com um conjunto de saia-calça em seda, verde seco e uma blusa também em seda creme, de suave decote, e folho nas mangas. Levantou o rosto e mostrou claramente a sua surpresa.
- Bom, se todos os modelos forem assim, são muito bonitos. E elegantes. Quem é o estilista?
- Não tenho um estilista. Os modelos são desenhados por mim, embora às vezes a Rita me dê uma pequena ajuda com uma ou outra sugestão.
“Claro a Rita.” Pensou ela. E teve vontade de saber quem era a Rita, mas a pergunta que fez a seguir não tinha nada a ver com o que pensou.
- Quer dizer que foste tu que desenhaste este modelo?
-Esse e os outros, - respondeu com suavidade.
Ela lançou-lhe um rápido olhar e pensou que ele devia gostar muito do que fazia, pois os seus olhos mostravam -se tão claros e brilhantes como prata.
- Se não te importas gostaria de o levar para casa. Parece-me que vale a pena vê-lo com tempo.
Ele gostaria que o visse naquele momento, mas limitou-se a dizer.
-Trouxe-o para ti.
-Obrigada
Uma batida na porta, e logo depois Madalena entrou:
- O técnico deu por terminada a reparação da máquina. Diz que amanhã já poderá trabalhar em pleno.
- Graças a Deus. Diz ao Bruno para avisar o pessoal que vinha entrar à noite, para se apresentarem amanhã à hora normal.
Madalena saiu e Daniela, voltando-se para David explicou:
- A peça para a máquina avariada, só chegou esta manhã. Tenho tido metade do pessoal a trabalhar de dia, e a outra de noite, de modo a que a tecelagem não se atrase, e não deixe de cumprir os prazos. E a propósito, ainda pensas comprar as máquinas?
- Pedi orçamentos à fábrica. Ainda estou a estudar a situação


2.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE II



 




Dirigiu-se à casa de banho. A mãe, arrumou o quarto, abriu o armário e tirou o vestido de noiva que colocou em cima da cama. Depois saiu.
Na sala as irmãs, cunhadas e sobrinhos esperavam. Entrou no quarto de casal, onde o marido andava às voltas com o nó da gravata, e procurou no armário o fato que ia levar ao casamento da filha. Estava muito nervosa. A falar verdade não lhe agradava nada aquele casamento arranjado entre o marido e o pai do noivo. Não se conformava. Nem percebia porque a filha tinha aceitado aquele disparate.