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11.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VIII



Laura ficou na porta vendo o carro afastar-se, perguntando-se mentalmente porque tinha acedido ao convite que Fernando fizera a si próprio. Fechou a porta agradecendo a Deus que os pais iam chegar daqui a pouco e passar com ela a semana. Assim não teria de voltar a aceitar a visita diária do jovem.

 Não sabia o que se passava com ela, mas não se sentia bem na sua presença, ficava sempre inquieta, como se de algum modo a presença dele a incomodasse. E não devia ser assim, Fernando era o melhor amigo de Gonçalo, quase um irmão e durante toda a sua infância e adolescência, os três estavam sempre juntos, ora na casa deles ora na do Fernando, pois eram vizinhos e os seus respetivos pais amigos de longa data. Mas depois ela foi para a Universidade, conhecera Quim e afastara-se não só do vizinho, mas até da própria família. 

Foi como se os dois tivessem criado um mundo mágico, onde só existiam eles. Mais tarde após o casamento, com a ida para Lisboa essa separação foi ainda mais real.

 Apesar de Fernando continuar a ser um grande amigo de Gonçalo, Laura só o via ocasionalmente quando ia visitar o irmão, já que Fernando foi um grande apoio para Gonçalo após o grave acidente de mota, que quase lhe roubara a vida e o obrigara a longos meses de internamento hospitalar. 

Depois que o irmão recuperou, nunca mais o viu, até à morte repentina do marido.

Aí quando ela julgou endoidecer de dor, Fernando por vontade própria, ou a pedido de Gonçalo, esteve sempre lá, tentando apoiá-la com todo o seu conhecimento e amizade.

Esse apoio manteve-se na altura do parto e nos primeiros meses de vida do Miguel.

Mas um dia ela agradecera-lhe todo o apoio recebido até aí, disse-lhe que estava bem melhor e que desejava ficar sozinha com os filhos. Depois disso Fernando afastara-se e só voltaram a ver-se depois que o irmão encontrara Helena e a filha e começara a preparar o casamento.

Laura, não se lembrava bem de quando descobrira que Fernando tinha por ela um sentimento que nada tinha a ver com a amizade. Não que até à véspera, ele tivesse dito alguma coisa, mas se há coisa que não escapa a uma mulher é o desejo refletido no olhar masculino.

 A princípio ficou sem saber como proceder, o coração ainda cheio da imagem de Quim e da dor da sua ausência. Aceitara a companhia e ajuda de Fernando, como aceitara do irmão, ou dos pais. Nunca lhe passara pela cabeça que o amigo de infância pudesse ter por ela outro afeto que não fora uma amizade profunda de quem foi criado junto, quase como uma irmã.

 Tinha receio de magoá-lo, mas não podia fingir que desconhecia o que acabara de descobrir.  Por isso lhe pedira que não voltasse e ele afastara-se sem sequer tentar contestá-la. 

Talvez por perceber que não tinha qualquer hipótese de que ela viesse a corresponder ao seu sentimento.


17.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE I

 

Percorria a ala de pediatria no terceiro piso do hospital, quando o som da sirene de uma ambulância lhe chegou aos ouvidos , logo seguido de outros sons igualmente agudos o que lhe trouxe à memória outros sons outras paragens.
Aproximou-se da janela que dava para a entrada do hospital, onde se situavam as urgências. Viu duas ambulâncias paradas e pelo menos mais três que se aproximavam. Apressado deu a volta, e encarando a enfermeira que se encontrava junto de uma das camas, disse:
- Parece que esta visita terá que ficar para mais tarde. Se surgir alguma complicação estarei nas urgências.  
Afastou-se. Estava quase a chegar aos elevadores, quando ouviu ;
- Atenção doutor Albuquerque! Solicita-se a sua comparência imediata nas urgências.
O elevador acabara de parar junto dele e apressou-se a entrar. Era um homem alto, de cabelos negros, já quase grisalho nas têmporas.
Testa alta, nariz retilíneo, olhos cinzentos, queixo firme e boca bem desenhada. Teria pouco mais de quarenta anos, mas a sua expressão dura, e o seu olhar frio, faziam-no parecer mais velho.
Percorreu a distância do elevador até às urgências em meia dúzia de passadas rápidas.
Ali reinava o caos, com várias macas de crianças a chorar.
-Foi um acidente com um autocarro de miúdos que iam em passeio de estudo – informou a enfermeira. 
 O médico não respondeu. Depois de um breve olhar pelas macas dirigiu-se a uma delas e observou a criança. Dirigindo-se à enfermeira com quem falara momentos antes, disse.
-Enfermeira leve esta criança para o bloco operatório, e reúna a equipa de cirurgia. 
Chamou outra das enfermeiras.
- Por favor, verifique os médicos que se encontram no bloco das consultas externas, e diga-lhes para virem para cá. É uma emergência, não sabemos quantos feridos graves serão, é necessário atuar rapidamente. Vou para o bloco operatório. Aquele menino está com uma hemorragia interna. Poderá haver outras crianças na mesma situação.
Debruçou-se sobre um miúdo que chorava em silêncio. Observou-lhe o corte na testa, verificou as suas pupilas e certo de que o corte não oferecia gravidade, afastou-se em direção ao bloco operatório

30.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XII

 


O menino que conversava animado com a mãe, sobre as peripécias da festa de aniversário do seu amiguinho, calou-se quando entrou na sala, olhando espantado para o homem que ali se encontrava. A mãe, deu-lhe a mão e disse:

- Diogo, este é Fernando, um amigo da mãe, que veio passar uns dias connosco.
- Olá campeão, - disse ele ajoelhando para ficar à altura do menino e estendendo-lhe a mão. A tua mãe fala muito de ti, mas não pensei que fosses um menino tão bonito.
Sorrindo o garoto estendeu a mão, mas depois como quem muda de ideia, estendeu os braços para o pescoço do homem e deu-lhe dois beijos. 

Surpreso Fernando retribuiu o abraço tentando esconder a emoção, sem saber se sempre tinha sido assim sensível, ou se isso se devia ao acidente.

- Vamos filho, deixa o Fernando sossegado, está quase na hora de jantar, e tens que tomar banho.
-Jantar? Eu não tenho fome, mamã.
- Calculo. Mas pelo menos tens de comer uma sopa. Anda, vamos tomar banho.

Os dois afastaram-se, deixando Fernando inquieto. Aquilo não podia estar a acontecer, era demasiado surrealista, decerto era um sonho do qual acordaria em algum momento.

Tentou embrenhar-se na leitura, mas não conseguiu. Desde que recuperara a consciência, não lhe saía da cabeça a mesma pergunta. Quem raio era ele, e como fora aparecer numa estrada deserta, meio morto? 

A polícia dissera que não foi encontrado nas redondezas, nenhum automóvel acidentado. Teria ido a pé, e alguém o atropelara? Mas para onde ia a pé, se a polícia dissera que do local onde fora encontrado, até à cidade iam dez quilómetros? 

Por outro lado, também lhe disseram que as suas roupas embora meio despedaçadas, eram roupas caras. As suas mãos também não eram mãos de trabalhador. Então  quem raio era ele? E onde estava o carro? E porque ninguém avisava a polícia do seu desaparecimento? Será que ele era sozinho no mundo? Eram demasiadas perguntas sem resposta.

O menino voltou para a sala, de pijama e robe, e a mãe avisou que ia aquecer a comida para jantarem. Ele pousou o livro e dando a mão ao menino, disse.
-Vamos ajudar a mãe, campeão?
- A mamã não me deixa ajudar, desde que uma vez quebrei um prato, -
lastimou-se a criança.



13.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VI

 



A vida foi retomando o seu ritmo normal. Helena andava muito cansada, o trabalho no hospital era cada dia, mais intenso, pelo que teve que pedir uma reunião com o diretor da clínica, e reduzir o seu trabalho para apenas duas horas, três vezes por semana. 

Com toda essa azáfama, quase tinha esquecido o sinistrado, quando a colega do outro hospital lhe telefonou a informar que o homem tinha  recuperado a consciência. Ela  nunca mais voltara ao hospital desde aquela noite em que falara com a médica,  e lhe pedira para que a avisasse , quando ele saísse  do coma. Como naquele dia, não tinha consultas na clínica, decidiu que ia vê-lo quando terminasse o seu trabalho no hospital.

 Depois de a cumprimentar, a colega, disse-lhe:
-O nosso doente está finalmente livre de perigo. Mas está amnésico. Nem sequer se lembra do seu próprio nome.
- Às vezes acontece depois de um grave acidente. Mas deve ser transitório, não?
- Talvez. Fez hoje uma RM. Vamos esperar os resultados para despistar alguma lesão de maior gravidade a nível cerebral. Vamos vê-lo?
- Claro. E a polícia, não disse nada?
- Apenas que continua a não haver nenhuma queixa por desaparecimento. Esperavam que saísse do coma para o interrogar.
- E já o fizeram?
-Já. Mas devido à amnésia, não deu em nada. Fotografaram-no para verem se a foto dele faz parte dos ficheiros da polícia.

Tinham chegado junto do doente. Pela primeira vez Helena, via realmente o sinistrado. Não teria mais de trinta e cinco anos, talvez nem tanto, era moreno, embora agora estivesse bastante pálido, cabelos pretos, bem curtos, e ligeiramente ondulados, e uns profundos e desorientados olhos pretos. Os traços do seu rosto eram perfeitos, a testa alta e o queixo firme. O pijama meio desabotoado deixava ver um peito bem musculado.

- Como se sente? - perguntou a médica
-Vazio, -respondeu esboçando uma careta que talvez pretendesse ser um sorriso.
- Apresento-lhe a doutora Helena Correia. Foi ela quem o encontrou meio morto na estrada e providenciou para que fosse rapidamente socorrido.
- Obrigada doutora. – Estendeu-lhe a mão, que ela apertou, reparando que era uma mão de dedos longos e bem tratados.





para os novos leitores...
Para dar um pouco de "pica" numa altura em que está quase tudo de férias, 
e sabemos  que este homem, está amnésico e não tem documentos , alguém arrisca um palpite? Quem será ele?  Donde será? E como veio aparecer quase morto  "as portas" de Lisboa? Será "recado" de algum gang? 

30.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXVIII




Casaram cinco meses depois, em setembro, exatamente quando fazia catorze anos que ela recebera a última mensagem dele.

Os cinco meses que antecederam o casamento, foram de muita persistência, companheirismo e apoio, por parte de Gonçalo, que deve ter esgotado todas as técnicas de sedução que conhecia, antes que Helena aceitasse finalmente o casamento. Não que estivesse convencida do amor de Gonçalo. 

Ainda pensava que tudo o que ele fazia, se devia ao facto do enorme desejo que ele sentia de ter uma família e também porque não à intensa atração sexual que os unia. Reconhecia que ele amava apaixonadamente a filha, mas a ela…

Todavia depois de muito pensar resolveu arriscar. Quem sabe acabaria descobrindo que estava errada. E depois ou se casaria com ele ou se condenaria a uma vida inteira de solidão. Não conseguira esquecê-lo durante catorze anos, quando pensava que era um cafajeste, como ia conseguir esquecê-lo agora?

No espaço de tempo decorrido, desde aquele dia em que Helena e a filha foram apresentadas à família paterna, a relação dos dois com as duas famílias fora-se estreitando, com sucessivos fins de semana ora em Braga, ora na quinta entre Alpedrinha e a serra da Gardunha.

A data fora escolhida pelos dois, como um recomeço da história que os uniu no passado. Era como se pretendessem que aquele dia feliz, apagasse das suas memórias o acidente de Gonçalo e a desilusão de Helena.

E sim, foi o casamento mais bonito a que os convidados já tinham assistido.

 

*******************************************************************************************

 

Dois anos depois…

Mal Gonçalo parou o carro junto da sua residência, a porta abriu—se e dela saíram Matilde, seguida da tia Laura e dos primos Sara e Miguel.

Gonçalo deu a volta ao carro e ajudou a esposa a sair enquanto Laura abria a porta traseira e tiravam os dois ovos onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana nascidos por cesariana três dias antes. Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou Helena a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã deitava os bebés num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam então separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa descansar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se e deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Saiu do quarto em seguida fechando a porta atrás de si.

Gonçalo sentou-se na beira da cama e segurou a mão da esposa entre as suas.

- E eu também te agradeço querida, por teres acreditado no meu amor, mesmo eu não tendo recuperado a memória e teres transformado a minha vida amargurada e solitária, nesta felicidade que partilhamos.

Curvou-se para a beijar enquanto Helena emocionada fechava os olhos, deixando rolar pela face uma lágrima de felicidade

 

 

 

 FIM


Nota:

A história que se seguirá é uma reedição. Foi publicada a primeira vez em 2016. Os mais antigos já a leram, mas talvez gostem de a recordar. Ultimamente tenho dificuldade em conseguir escrever novas histórias. Além de tomar conta das netas, tenho o problema dos olhos e a saúde da minha outra metade que não tem andado bem.  Com várias consultas e exames este mês, e uma colonoscopia e endoscopia marcada para fins de Agosto, quando este capítulo for publicado já estaremos no Algarve a aproveitar os quinze dias de férias do filho, em que não teremos de cuidar das netas para recuperar e recarregar baterias.

Não tenho internet lá, a não ser no telemóvel, tudo o que sair até ao dia do meu regresso, (15 de Agosto) já está agendado.

 

7.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVIII

 


- Queres dizer que meu pai perdeu a memória e por isso não sabia da minha existência? - perguntou Matilde depois da longa explicação da mãe. Mas porque não lho disseste tu?

Mãe e filha encontravam-se no quarto da última. Helena acabara de fazer um resumo do que Gonçalo lhe contara, mas Matilde era uma menina muito inteligente e um tanto precoce. Seria muito diferente se fosse uma criança de tenra idade a quem ele se limitaria a dar uma explicação mais ou menos romanceada para explicar a ausência paterna.  

- Como acabei de te dizer, nós apaixonámo-nos nas férias. Nem um nem outro estávamos na nossa terra, e o nosso contacto era o telemóvel que se perdeu no acidente. Eu só sabia que o teu pai vivia em Braga e estava na Universidade no Porto. Não tinha como encontra-lo depois dele não responder às minhas mensagens. Na verdade, nunca mais soube nada dele até há poucos dias. Nem sequer sabia se tinha casado, se tinha outra família.

- E casou? Tem outros filhos?

 -Não. Segundo sei, um dos amigos com quem estava de férias no Algarve quando nos conhecemos, um dia perguntou-lhe por mim e estranhando que estando tão apaixonados eu não tivesse ido vê-lo. Desde aí ele nunca mais deixou de pensar em mim, e por isso nunca casou.

- E agora, recuperou a memória? E é um homem normal ou está tontinho?

- À parte o não recordar aquela parte da sua vida, antes do acidente, não tem nada de tontinho, é até muito inteligente.

-Bom, e agora que já o encontraste, vais-me dizer quem é? E falar-lhe de mim? Quando vou conhecê-lo?

-Na verdade, já o conheces, filha. Lembras—te do doutor Gonçalo, aquele médico que te deu o livro? É o teu pai.

- O quê? Não pode ser!

- Porque dizes isso? - perguntou Helena assombrada.

- Mãe, ele é moreno, tem olhos escuros, eu sou loira e tenho olhos azuis. Não me pareço nada com ele. Como não me pareço contigo, tinha que ser parecida com ele e não sou.

- O Gonçalo parece-se com o pai. Tu pareceste com a sua mãe, e a sua irmã. Os filhos nem sempre se parecem com os pais. Às vezes vão buscar parecenças aos avós e até aos bisavós. Na verdade, foi por tu seres parecidíssima com a tua tia, que ele soube que nos encontrara.

-E agora, mãe? Como vai ser a nossa vida daqui para a frente? Ele já sabe que eu existo, mas vai querer ser meu pai? Ou vai aparecer uma ou duas vezes por ano e fingir que eu não existo no resto do ano? Porque se assim for, eu vivo bem sem ele.

-Não Matilde, o teu pai não é assim. Ele que ver-te, levar-te para conheceres a sua família, ser teu pai a sério. Ele até quer casar comigo.

-É claro que quer casar contigo. De outro modo nunca seria meu pai a sério, pois nunca seríamos uma família com os avós, ou o tio Sérgio.

-Não é bem assim, Matilde. Nem todos os pais vivem juntos. Decerto tens colegas com pais divorciados – disse Helena sentindo uma angústia enorme.

- Claro, como a Sónia. Mas a mãe dela voltou a casar e o pai também. Tem agora duas famílias e até mais irmãos. Tu e o Gonçalo estão sozinhos. Se ele quer casar o que te impede de o fazer? Não gostavas dele antes de eu nascer?  Ele teve culpa de ter perdido a memória? Então porque não queres casar? – perguntou obstinada.

 

23.6.21

COMEÇAR DE NOVO -- PARTE XXIII

 




Emocionada, sentindo as lágrimas prestes a escapar-se, Helena ouvia Gonçalo falar do acidente, dos muitos dias em que estivera em coma, dos meses de recuperação no hospital de Braga, da perda de memória, das dezenas de exames e das muitas consultas com neurologistas, psiquiatras, psicólogos e fisioterapeutas.  Do ano perdido na faculdade, da tristeza que o acometera por causa da amnésia.

-Eu desesperava-me por não me recordar de nada. O meu telemóvel ou se perdera, ou ficara destruído no acidente, mas eu nem sequer me lembrava de que tinha tido um telemóvel. Um dia meu pai levou-me um novo, eu podia precisar pedir alguma coisa para eles levarem na hora da visita. Mas ele não lembrara de pedir o número antigo e eu não estava capaz de pensar em nada.

 Meus pais e minha irmã visitavam-me todos os dias, levavam—me cds, livros, mas eu tinha perdido o interesse por tudo e não queria ver ninguém além deles. Aos poucos eu fora recuperando a memória, mas há uma parte que ficou esquecida talvez quem sabe se para sempre.

Helena não se atrevia a interrompê-lo. Ele estava pálido, tinha o olhar perdido, o maxilar apertado e a testa perlada de suor.  

-Quando quase oito meses depois do acidente regressei a casa, muitos dos amigos de infância e da faculdade foram ver-me. Não tinha contado à família que havia uma lacuna na minha memória e também não o contei aos meus amigos.

 Um dia um deles, perguntou-me se eu continuava a namorar “aquela jovem”. Quem? – perguntei. “desculpa ainda estou meio atordoado com o que me aconteceu” desculpei-me. E ele então continuou a falar. Segundo o que ele disse apercebi-me que teria passado férias com ele e mais dois amigos no Algarve com era habitual há uns anos. Teria conhecido uma jovem e vivido uma história de amor esquecendo-me por completo deles.

 Eu ter-lhes-ia garantido uns dias antes do acidente, que ia casar com essa jovem. Nem me recordo o que lhe respondi, ensimesmado com a nova descoberta. Quem seria aquela jovem? Onde estaria? Teria eu contado alguma coisa aos meus pais, ou à minha irmã? 

Laura a minha irmã é pouco mais nova do que eu e sempre fomos muito unidos. Então decerto eu teria feito confidências. Então num momento em que estávamos sós, perguntei: “Alguém avisou a minha namorada?” Ela olhou-me admirada e respondeu: “Como podíamos fazê-lo se não a conhecíamos, não tínhamos qualquer contacto, e nestes meses nunca falaste nela, nem pediste para a avisar? Se queres que a avise agora, dá-me o seu contacto” “Não tem importância” - respondi.

Portanto era verdade. Todavia eu não queria que eles soubessem como estava a minha cabeça. Já me bastavam os médicos. Mas a partir daí, nunca mais me cruzei com mulher alguma, sem pensar, se era aquela a mulher que eu jurara ser a mulher da minha vida. No ano seguinte, terminei o meu curso de medicina. 

Tinha sonhado especializar-me em cirurgia, mas desisti, porque continuo com pesadelos do acidente e por vezes durante o dia sofro palpitações e flashbacks do acidente que me  deixam momentaneamente paralisado. Não dura muito, apenas alguns segundos, mas no bloco operatório, seria tempo mais que suficiente para acabar com a vida de um doente. Não podia arriscar.

26.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XI


Gonçalo acabou de jantar. Levou o prato sujo para o lava loiça, e ligou a máquina de café. Eram oito e meia e ele ainda queria dormir umas duas horas antes de se dirigir ao hospital onde passaria a noite nas urgências. Não conseguia deixar de pensar naquela mulher que segurara nos braços durante alguns segundos nessa manhã e na estranha sensação de que ela era parte de si mesmo. 

Aquilo nunca lhe acontecera antes. Passara o dia em casa da irmã, mas não quisera ficar para o jantar, pois precisava de por os seus pensamentos em ordem, coisa que não conseguia lá em casa, com a natural traquinice dos sobrinhos por um lado e por outro a insistência de Laura em que ele devia arranjar uma companheira.

Fugira do lar paterno por causa da mania casamenteira da mãe. Agora era a irmã. Como se fosse fácil! Desde que há mais de treze anos sofrera aquele terrível acidente, que o deixara cinquenta e cinco dias, em coma no Hospital de Santo António no Porto e mais de seis meses em tratamento, no Serviço de Medicina Física e .de Reabilitação do Hospital de Braga, para onde fora transferido quando recobrara a consciência, que vivia numa constante procura, embora para ser sincero, nem sabia bem de quê.  O acidente fora tão grave, que os médicos chegaram a julga-lo perdido, segundo lhe disseram mais tarde ao assegurarem-lhe que estar vivo, era um verdadeiro milagre.

Todavia as mazelas físicas não foram o pior, apesar de quase o terem matado. O pior fora a amnésia. Uma perda de memória parcial devido, segundo os médicos, à parte do cérebro afetado pela pancada, ou segundo o psicólogo, que o visitou no hospital, a algo ou alguém, em que ia a pensar no momento do acidente e que o seu subconsciente não quer recordar, para não sofrer de novo o choque brutal que quase o matara.

O acidente ocorrera no último dia de Setembro, ia fazer dentro de meses catorze anos. Gonçalo conduzia a sua mota nova, que o pai lhe oferecera pouco tempo antes como prenda de aniversário, de Braga onde fora visitar os pais, para o Porto, quando um carro que seguia em sentido contrário e cujo motorista adormecera ao volante, veio em cima dele. O choque violento, projetou-o para fora da estrada, fazendo-o embater contra o muro de uma quinta.

 Quando acordou no hospital, as vivências dos últimos anos, tinham desaparecido. Com o tempo, o apoio psiquiátrico e psicológico, que o hospital lhe disponibilizara,  a sua memória foi voltando, mas havia um pequeno lapso de tempo que Gonçalo não conseguiu recordar e que o deixava frustrado. Era como se não estivesse inteiro, e isso mesmo o afastara sempre de uma relação séria.

A última recordação que tinha era a de ter ido de férias para o Algarve, com uns amigos, dois meses antes do acidente.  Sabia que se tinha apaixonado por uma jovem nessas férias, pois os amigos brincavam com ele sobre isso, mas não se lembrava dela, nem sequer do seu nome, e não quisera contar aos amigos o que se passava com ele, para não ser motivo de troça ou de pena. Nem mesmo a família sabia, pois lhes fizera crer que tinha recuperado a memória por completo.

Desde essa data que inconscientemente procurava essa mulher em todas as que se cruzavam com ele. Mas como encontrar uma mulher sem nome nem rosto? Convencido de que isso era impossível, acabara por desistir, porém nessa manhã, quando aquela mulher chocara com ele, o seu coração acelerou e o seu corpo reagiu de forma esquisita, como se de alguma forma reconhecesse aquele outro que lhe tinha caído nos braços.

Seria ela, a mulher por quem se apaixonara no passado? Num breve segundo, quando a olhou pareceu-lhe descobrir surpresa no olhar feminino. Tinha de descobrir quem era, e se tivera no passado alguma ligação com ele.

Fosse quem fosse a mulher com quem,  segundo os amigos, vivera uma intensa história de amor naquelas férias, tê-lo-ia esquecido e estaria decerto casada, pelo que não esperava outra coisa que a sua libertação do passado, para poder pôr um ponto final naquela época e encarar enfim a vida, como qualquer homem da sua idade.

Bebeu o café, lavou o prato e a chávena e depois de os guardar foi para o quarto, descalçou os sapatos e deitou-se vestido sobre a colcha. Precisava dormir um pouco as noites no Serviço de Urgências costumavam ser complicadas, mas não sabia se ia conseguir.

 


11.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE II

 




Passou os meses seguintes a sonhar com as férias junto da avó, para voltar a vê-lo. E apesar da diferença de idades, e de ele ter menos tempo por estar empregado, todo o tempo livre que tinha, passava-o com ela.

No ano em que fez quinze anos, não o viu, pois nesse ano, ele tinha viajado, com os pais, e as férias foram uma desilusão para ela. E mais um ano se passou, e de novo, chegaram as férias e desta vez ele estava lá. 
Triste, meio deprimido, com a recente morte dos pais num acidente de automóvel, apoiou-se na amizade e alegria de Isabel, e os dois estiveram mais unidos que nunca, ao ponto de na aldeia se dizer, que um, era a sombra do outro.

Isabel tinha acabado de fazer dezasseis  anos, tinha crescido muito, media  mais de um metro e setenta,  mas contrariamente a outras jovens que nessa idade já têm formas bem femininas, ela era demasiado magra, as suas ancas ainda não se tinham arredondado, os seios eram como dois  botões de rosa por desabrochar. Mas naquele peito quase liso,  batia um coração de mulher, que ansiava, por beijos e afagos do homem que amava. 

Sem qualquer suspeita, do que ela sentia, ele via-a apenas como aquilo que era, uma menina. E como tal a tratava. Continuavam a ser amigos inseparáveis, ria-se com as coisas que ela dizia, por vezes zangava-se e repreendia-a, enfim tratava-a como trataria uma irmã mais nova, se não fosse filho único.

Até à véspera da sua partida, altura em que ela tomara uma atitude, da qual ainda hoje se envergonhava.

Confessara-lhe que o amava, e pedira-lhe com todas as letras que fizesse amor com ela, enquanto despia a blusa, mostrando-lhe os seios pequenos e túrgidos, como pequenos frutos, mal despontando da flor.
Inicialmente, ele ficara espantado. Depois começara a barafustar, apertou-lhe o braço com violência, obrigou-a a vestir a blusa, disse-lhe que nunca mais a queria ver, virou-lhe as costas e afastou-se.

Ela chegou a casa da avó com os olhos vermelhos e o coração dilacerado. Felizmente a avó parecera não dar por nada, e no dia seguinte ela regressou a casa dos pais. Durante cinco anos manteve-se afastada da casa da avó, com a desculpa do muito que precisava estudar durante as férias para entrar cedo na faculdade.

Quando se sentiu com forças para voltar, era já uma mulher muito diferente. Tinha vinte e um anos e o seu corpo tal como um botão de rosa que desabrocha numa flor espetacular, tinha-a transformado numa bela mulher. Mas Hélder não estava por lá, como não estivera nos outros cinco anos que se seguiram.

24.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXX


- Já não chama. Ou ele desligou o telemóvel, ou ficou sem bateria – disse Marco.
- Nem uma coisa nem outra - disse Laura com voz trémula, esforçando-se para não chorar. - O Gil nunca faria isso. Ele mantinha-se sempre em contacto com a casa desde que a filha nasceu. Meu Deus deve ter tido algum acidente, esta maldita tempestade…
- Não nos precipitemos, o melhor que podemos fazer agora, é irmos à polícia - disse Alcides. Se ele teve algum acidente, eles têm o registo e podemos saber para que hospital foi levado. Posso ir sozinho, ou vamos todos.
- Vamos todos, claro – respondeu Marco.
- Esperem só dois minutos enquanto vou buscar um casaco e calçar uns sapatos – disse Laura dirigindo-se apressada para o quarto.
Meia hora depois estavam no posto de polícia onde um agente depois de os ter ouvido, verificava no computador, se havia algum registo de acidentes durante a noite na autoestrada do Norte.  A tempestade tinha fustigado a Península Ibérica, atingindo a maior intensidade entre a meia noite e as cinco da manhã desde a Galiza até Coimbra. Havia registos de muitas árvores arrancadas, casas destelhadas, rios que galgaram as margens inundando habitações ribeirinhas, mas não havia nenhum registo de acidente na estrada.
- Mas o meu irmão telefonou a dizer que vinha na autoestrada a caminho de casa e não chegou.
-Talvez se tenha apercebido que não podia continuar e tenha pernoitado em algum hotel, - disse o agente.
-Não há hotéis na autoestrada – insistiu Laura.
- Mas há saídas para as localidades.O mais natural é que tenha saído e esteja nalgum hotel, à espera de que passe a tempestade, que apesar de já ter tido, o seu pico máximo de intensidade, ainda está bastante forte lá para o Norte.
 Foi a vez de Marco afirmar:
-Teria telefonado.
-Se conseguisse. Há muitas localidades sem eletricidade, nem telefone. O telemóvel pode ter ficado sem bateria e não haver eletricidade para o carregar. De qualquer modo não posso ajudá-los mais. Aconselho-os a irem para casa e aguardarem, ele pode dar notícias a qualquer momento, - disse-lhes o polícia.
Alcides tirou da carteira um cartão e entregou-o ao agente dizendo:
- Por favor se chegar algum registo de acidente, telefone-me.
Saíram da esquadra e entraram no automóvel para regressarem a casa.
-Laura, porque não telefonas à Celeste? Pode ser que o Gil já tenha dado notícias – disse Alcides.
- Não acredito. A Celeste teria telefonado para mim, imediatamente. Sabe que fiquei muito preocupada.
- De qualquer modo não se perde nada em tentar - disse Marco ao mesmo tempo que marcava o número da casa do irmão
Ao terceiro toque Celeste atendeu:
- Residência do senhor Gil Gaspar, bom dia.
- Bom dia, Celeste, fala o Marco. O meu irmão já deu notícias?
- Não senhor. Não disse nada desde ontem à noite. Estamos todas muito preocupadas.
- Estivemos na polícia e não há registo de acidentes na autoestrada. O tempo está muito mau, talvez esteja à espera que melhore. Entretanto se ele telefonar ligue-nos logo.
-Fique descansado, senhor Marco.


4.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR. - PARTE XXII




Estava-se de novo em Dezembro, o ano tinha passado a correr, dentro de dias Mariana comemorava o seu primeiro aniversário.
Gil tinha sido convidado para dar uma conferência na Universidade do Minho, evento que acontecia naquela tarde de Sexta-feira, dia quatro de Dezembro. E que como todas as que já dera estava a ser muito participativa, apesar da tempestade que assolava o país.
Mais tarde foi rodeado pelos alunos que queriam autógrafos e saber qual era a sua opinião em relação às novas tecnologias na escrita. Acreditava ou não que os livros em papel iam desaparecer no futuro. E não seria isso bom para o planeta sabendo-se que muitas árvores precisam ser arrancadas para escrever os livros. Gil não acreditava no fim do livro em papel por duas razões. Embora considerando que é muito mais prático transportar para qualquer lado uma biblioteca no Smartphone, do que andar com os livros atrás, não dá o mesmo prazer sentar-se num sofá a ler um livro em papel do que no telemóvel. Além de ser muito mais cómodo, para o corpo e para os olhos. Depois as baterias dos Smartphones, Tablets, e afins, causam muito maior impacto ambiental, do que o abate de algumas árvores, que podem ser substituídas em poucos anos. Sem falar que haverá sempre sítios no mundo onde muito dificilmente chegará algum dia a Internet.
Mais tarde foi convidado para o jantar e já passava das dez quando entrou no carro disposto a fazer a viagem de regresso ainda nesse dia.
O temporal continuava sem dar tréguas, o vento soprava forte, fazendo perigar a estabilidade do veículo e a chuva era tão forte que formava uma espécie de nevoeiro que cortava toda a visibilidade. Gil tinha os olhos a arder do esforço que fazia na tentativa de ver alguma coisa, e arrependia-se de não ter passado a noite num hotel, em vez de estar a viajar naquelas condições.
Ele não sabia se havia algum carro à sua frente ou atrás de si tão intensa era a chuva e tão fraca a visibilidade. Por isso o receio de acelerar e provocar um acidente, era o igual ao de diminuir a marcha. Não podia fazer nada mais do que manter-se assim e esperar que à medida que os quilómetros fossem percorridos a tempestade não fosse tão intensa.
De súbito, um relâmpago iluminou tudo à sua volta e Gil apercebeu-se de uma árvore caída para a estrada uns metros mais à frente, tentou travar, mas o carro derrapou, e ele perdeu o controle do mesmo. O automóvel deu umas duas voltas na estrada como se fora um pião e de súbito as rodas da frente deixaram de ter apoio e o carro mergulhou no vazio. Gil mal teve tempo de desapertar o cinto de segurança, abrir a porta e saltar. O corpo rolou entre pedras e ramos de árvores, enquanto ouvia um enorme estrondo que lhe deu a certeza de que o carro tinha embatido em qualquer coisa, talvez uma rocha.
A noite estava escura como breu, a chuva e o vento fustigavam-no.
Pôs-se de pé. Tinha que chegar à estrada, talvez algum carro o conseguisse ver. Mesmo que assim não fosse não podia ficar parado. Tinha que se movimentar. Porém dera apenas dois passos quando perdeu o equilíbrio. Sentiu-se a rolar pelo declive, entre pedras e ramos que lhe rasgavam a carne. De súbito, o corpo parou, a cabeça embatendo numa pedra maior provocando-lhe uma insuportável explosão de dor. Teve um último pensamento para a sua filhinha, e, mergulhou na escuridão.



Fim da 1ª parte



Bom amigos, aqui termina esta história, ou não. Ou seja, eu posso escrever ali apenas a palavra fim, e, cada um imagina e decide se o Gil morreu, ou se alguém se apercebeu do acidente e chamou socorro. Ou posso escrever, fim da primeira parte, e, continuar a história em Janeiro. Vocês decidem. O resto deste mês terão aqui todos os dias histórias de Natal.

5.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE VI





Francisca estava a precisar desabafar, e Graça fora noutros tempos sua confidente. E apesar da vida que as separara nos últimos anos, mostrava que continuava a ser sua amiga. Assim abriu o coração e contou tudo desde que abandonara a escola, como se vira envolvida num casamento que não a entusiasmava, como de repente deixara tudo para seguir o marido para a cidade, falou dele, do nascimento dos filhos que adorava, da falência e suicídio de Jorge, e finalmente de como teve que voltar para a casa dos pais, com dois filhos e sem quaisquer meios de sobrevivência, por causa das dívidas da firma.
- E assim está a minha vida, amiga. Preciso urgentemente de arranjar um emprego, mas não é fácil com duas crianças pequenas.
- O que tu precisas é de um novo marido. És muito jovem para ficares a remoer a viuvez, e um marido ajudava-te a criar os filhos.
Francisca olhou para a amiga espantada. Que se passava com ela? Estava doida? Donde tirara uma ideia tão estapafúrdica?
Como se não tivesse dito nada de mais Graça perguntou:
- Não chegaste a conhecer o meu irmão Afonso, pois não? Não. Claro que não. É mais velho que nós, já estava na Universidade, quando nos conhecemos. E depois que se formou, ficou a viver sozinho em Lisboa. É advogado. Começou a trabalhar num escritório de advogados, até que montou o seu próprio escritório. Um dia conheceu uma jovem do interior, apaixonaram-se e casaram. Como ela não gostava de Lisboa, compraram uma casa na terra e mudaram-se para lá. Tem duas filhas, a mais pequena com apenas um ano. Quando a bebé tinha dois meses, a mulher teve um acidente de carro e morreu. Ele amava-a, foi-se muito abaixo e eu deixei a minha casa para vir acompanhá-lo e cuidar das meninas, pois embora ele tenha uma empregada duas crianças de tenra idade dão muito que fazer, como sabes. Decididamente precisa de uma mulher que lhe ajude a criar as filhas, porque eu não posso anular a minha vida por causa dele, e o meu marido já me está a pressionar para eu regressar. Era uma boa solução para ti e para ele se vocês casassem.
Francisca estava cada vez mais espantada com a amiga. Como era possível pensar que ela se iria casar com um homem que nunca tinha visto? Estava doida. Só podia.
- Não faças essa cara, não estou doida. Nos últimos meses, tenho massacrado o meu irmão com esta ideia. Ele precisa de uma mulher em casa. Uma empregada mais jovem, pode dar azo a falatórios que não lhe convém, até porque os ex-sogros lhe querem tirar a guarda das meninas. Casando resolve o assunto. É claro que tem de ser uma pessoa de confiança, que trate as crianças com carinho. E isso, tu és. Lembro-me bem como tratavas a irmã da Luísa. Melhor do que ela que era irmã. E depois era uma solução para os teus filhos. Conheço o meu irmão. Tenho a certeza que os trataria da mesma maneira que trata as filhas. E então, não dizes nada?


reedição



26.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLI








Com a bandeja nas mãos, voltou-se vagarosamente e encarou-a
- O que disseste?- Perguntou sem afastar o olhar do seu rosto.
- Disse para não ires. Por favor Ricardo, não quero ficar sozinha.
Não era a súplica de uma mulher apaixonada, ansiosa por uma noite de amor. Nos seus olhos Ricardo leu o medo. Naquele momento, Clara não precisava de um homem apaixonado. Precisava de um pai, um irmão mais velho, um amigo de confiança. Estava tão vulnerável como Soraia, quando acordava a meio da noite com os seus terríveis pesadelos. Pousou a bandeja em cima da cómoda, e aproximou-se do leito.
- Eu fico, se me prometeres que te portas como uma menina bonita e dormes. São quase quatro da manhã. Daqui a pouco amanhece e precisas descansar.
 Despiu o roupão, e enfiou-se na cama abraçando o corpo feminino e puxando-o para junto do seu de modo a que descansasse a cabeça no seu peito, consciente de que era aquilo que ela precisava, para acalmar a tensão acumulada nas horas passadas no hospital.
- Pronto, já aqui estou, - disse depositando um casto beijo no rosto feminino. - agora fecha esses olhinhos bonitos e dorme. 
Sentiu como aos poucos a sua respiração se ia tornando mais suave e o corpo relaxava, finalmente vencido pelo sono.
Ele permaneceu ainda um bom pedaço deitado de costas, pensando em tudo o que acontecera naquele dia. E no enorme desejo que sentira de proteger a mulher que repousava confiante a seu lado. Sentira no peito uma dor terrível, enquanto ela chorava no hospital. Se ele pudesse afastar dela aquela dor tê-lo-ia feito.
Espantado, descobriu que aquele sentimento era o mesmo que lhe fizera mover todas as influências para adotar Soraia. Aquilo era amor!
Não um amor paternal, mas amor de qualquer forma. O amor de um homem pela mulher que o completa.
Afinal o seu coração não estava seco como ele pensava. Era verdade, ele amava Clara, e essa verdade mudava tudo. Trazia uma nova esperança à sua vida. Pousou suavemente os lábios na testa feminina e murmurou docemente:
-Dorme, meu amor.
E finalmente adormeceu. Não dormiu muito. Menos de duas horas depois acordou. Clara dormia profundamente. Com o maior cuidado deslizou o corpo para fora da cama, vestiu o roupão e olhou o relógio.
Sete horas, as crianças não tardariam a acordar e ele não queria que acordassem a mãe. Abriu a porta de comunicação com o quarto das crianças, atravessou-o, abriu a porta que comunicava com o seu quarto e entrou.
Foi à casa de banho, tomou um duche rápido, vestiu-se e voltou a atravessar a porta de acesso ao quarto dos filhos precisamente quando Bernardo acordava.
- Olá pai.
-Bom dia, filho. És capaz de te lavar sozinho?
-Claro pai, já sou crescido. 
-Então vai, o pai vai buscar a roupa para vestires.
A criança entrou na casa de banho e ele tirou uma muda de roupa, e colocou-a em cima da cama do filho. Fez o mesmo com a roupa para a filha, depois fez-lhe uma carícia no rosto, que a levou a abrir os olhos e estender os braços para o seu pescoço.
- Bom dia, preguiçosa. Vamos a levantar, o mano já está quase despachado. Costumas lavar-te sozinha, ou a mãe cuida de ti?
A mãe só me lava a cabeça, no banho, mas só à tarde quando voltamos da escola.
- Então vai lá, que o mano já aí vem. E despacha-te, se não queres chegar tarde à escola.
Enquanto os ajudava a vestir, explicou-lhes que o tio Tiago tinha tido um acidente e estava no Hospital. A mãe estivera lá quase toda a noite e agora estava a descansar, por isso não podiam vê-la nessa manhã.
- Mas o tio não vai morrer, pois não? – Perguntou o filho.
- Não, claro que não. Mas foi ferido e tem que lá estar até ficar curado.
Agarrou nas batas e nas mochilas e dirigiu-se para a porta seguido dos filhos.
- Bom-dia, Adelaide, - saudou ao entrar na cozinha.
-Bom-dia senhor. Lamento o que aconteceu ao menino Tiago. Ontem a Antónia pediu-me para vir fazer o pequeno-almoço, - disse colocando na mesa, um recipiente com pão, um frasco com doce, um prato com queijo, um jarro com sumo de laranja, e duas taças com cereais para as crianças.
Comeram em silêncio, pois saberem que Tiago estava no hospital, tirara a habitual alegria às crianças.  
Quando acabaram, vestiu-lhes as batas, e entregou-lhes as mochilas.
- Vamos lá então, meninos.
 Já no carro, Bernardo perguntou:
- Podemos ir ver o tio Tiago, quando sairmos da escola?
- Não filho. O tio está no hospital e não deixam entrar lá meninos para não ficarem doentes.
Pouco depois chegavam à escola. Antes de os entregar à auxiliar que os estava a receber ao portão, baixou-se para lhes dar um beijo.
- Hoje picas, pai - disse a filha.
Só então se lembrou que com a pressa não fizera a barba.


Esta história que como todos já perceberam está na reta final, volta segunda feira. 
Entretanto espero poder já amanhã mostrar-lhes um pouco do meu passeio. Entretanto amanhã tenho agendada uma visita pelo complexo da antiga CUF aqui mesmo no Barreiro, o estudo da importância que teve para o País aquela que foi a empresa maior da Península Ibérica, e a sétima maior da Europa. com visita à antiga residência do Alfredo da Silva, a visita ao seu mausoléu e  a visita ao museu industrial do Barreiro. E no Domingo a festa da nossa Universidade. Mas não deixarei de os visitar, embora seja um tanto de fugida e às vezes a horas impróprias. As minhas desculpas.