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29.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLIII


Não, não é um barco que errou a sua vocação marítima, ou foi trazido numa tempestade.  É mesmo a Igreja de S, Francisco Xavier, no Restelo em Lisboa.


Findas as vinte e quatro horas, de observação, Tiago foi transferido para o quarto. Segundo os médicos, estava tudo a correr bem, mas o jovem continuava em coma. Clara passava junto dele todo o tempo que o hospital permitia. Lembrava coisas da sua infância, falava das crianças, da saudade que elas tinham dele, enfim de tudo o que se lembrava, e que pensava o podiam trazer de volta. Ricardo por seu turno levava e ia buscar os filhos à escola, deixando-os depois com Antónia, para se juntar à mulher no hospital, dando-lhe todo o apoio necessário para ela não desanimar. Não raras vezes, tinha que insistir com ela para que fosse ao bar comer qualquer coisa, pois estava a emagrecer a olhos vistos. Foi assim naquele dia, o sexto desde o acidente.
Depois de grande insistência de Ricardo, Clara saíra para comer alguma coisa, e ele sentara-se junto da cama, pegou na mão do jovem e começou a falar pausadamente.
-Sabes, hoje lá fora, brilha um sol radioso. Os dias já são bem maiores, estamos quase no verão.
Foi impressão sua, ou Tiago mexeu a mão?
Levantou-se, aproximou o rosto do paciente e acariciando-lhe o rosto falou ternamente perto do seu ouvido.
- Acorda, Tiago. Nós amamos-te muito, e estamos com muitas saudades. Volta para nós, Campeão. Por favor, dá-nos essa alegria.
Então lentamente o jovem abriu os olhos. Ricardo tocou imediatamente a campainha, e pouco depois uma enfermeira entrou no quarto. Viu que o jovem tinha recuperado embora parecesse estranho como se não soubesse o que se tinha passado.
- Ora bem, o nosso jovem acordou. Já era tempo, de voltar. Vamos ver como está, - disse pegando-lhe no pulso e olhando o relógio. Depois disse: - Vou ter que lhe fazer algumas perguntas, para ver se está tudo bem. Entende?
Ele fez um gesto afirmativo
-Consegue falar?
- Sim.
- E sabe onde está?
-No hospital – disse passeando o olhar pelo espaço
-Muito bem. - Colocou a mão na sua frente com o indicador erguido.-
- O que é que eu estou a fazer? - Perguntou correndo a mão de um lado ao outro para ver se o olhar do paciente seguia o movimento.
-Está a mostrar-me um dedo.
- Certo. E lembra-se do que lhe aconteceu?
-Fui atropelado.
-Muito bem.
Consultou a papeleta aos pés da cama, e acrescentou.
- Vou ter de comunicar com o médico. Precisa de alguma coisa?
-Água.
-Vou molhar-lhe os lábios. Por agora não, pode beber água. Acabou de sair do coma, podia engasgar-se. Dentro de uma hora já poderá beber.
A enfermeira saía quando Clara voltava. Ao ver o irmão acordado, chorou de alegria e emoção. Beijou o irmão e depois refugiou-se nos braços do marido que lhe disse ao ouvido:
-É melhor ires lá para fora, um bocadinho para te acalmares. O teu irmão não deve emocionar-se e ver-te assim não lhe faz bem nenhum.
As palavras dele tiveram o condão de a acalmar. Aceitou o lenço que lhe dava, enxugou as lágrimas e esboçou um sorriso.
Virou-se para o irmão e acariciou-lhe o rosto. Ele fechou os olhos.
- Tens dores?- Perguntou-lhe.
- Não. Mas sinto-me cansado e enjoado.
- Queres que vamos embora, para descansares?
- É melhor sim- respondeu a enfermeira que voltava. O médico já aí vem, o paciente vai ter que fazer alguns exames e precisa descansar.
Amanhã já estará bem melhor e podem então conversar.
Os dois despediram-se do doente, e saíram. Ricardo colocou o braço sobre os ombros da jovem e ela não se afastou. Pelo contrário enlaçou-lhe a cintura e assim enlaçados como um casal de namorados, encaminharam para o elevador.   -Gostaria de ir a uma igreja. Sabes se há por aqui perto, alguma? – Perguntou já no carro, quando ele pôs o veículo em marcha.
- A Igreja de S. Francisco Xavier fica próximo daqui. São dezoito horas, penso que ainda estará aberta. Vamos lá ver.
Minutos depois Ricardo estacionou o carro perto da igreja, junto de uma florista.  Entrou na loja enquanto Clara  entrava na igreja.
Pouco depois ajoelhou a seu lado e sussurrou entregando-lhe um ramo de rosas brancas.
- Supus que gostarias de oferecê-las à Virgem, - disse, sabendo por ela lhe ter dito anteriormente, que pedira a Nossa Senhora pelo irmão.
Oraram, durante alguns minutos, lado a lado, e depois ela levantou-se e foi depositar o ramo no altar da Virgem, persignou-se e encaminhou-se para a saída, seguida pelo “marido”.




28.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLII





Antes de ir para casa, passou pelo hospital. O quadro clínico de Tiago evoluía favoravelmente, embora continuasse inconsciente. Continuava na UTI por precaução até fazer as vinte e quatro horas e só depois se não houvesse agravamento passaria para um quarto.
- E visitas?- Perguntou
-Enquanto estiver na UTI, uma pessoa, apenas um minuto às três horas.
-Obrigado.
Voltou para casa.
Quando chegou, já encontrou Clara impecavelmente vestida na cozinha. Tinha uma chávena de chá na mão, e falava com Antónia.
- Bom dia. Devias ter descansado um pouco mais.
- Tenho que ir ao hospital.
- Deixei as crianças na escola e fui lá. Disseram-me que o estado do Tiago está a evoluir muito bem. Depois de comeres podes descansar mais um pouco, porque só poderás vê-lo às três horas e como ontem. Apenas um minuto.
Propositadamente ou não, Antónia saiu dizendo que ia colher uns legumes para o almoço.
- Queres uma chávena de chá? Ou café, - perguntou a jovem.
- Faço-te companhia com o chá, - disse ele tirando uma chávena do armário, e sentando-se.
- Obrigado, por todo o apoio que me deste – disse ela enquanto pegava no bule e despejava o chá na caneca dele. – Foste um amor não só no hospital, como aqui. Não tinha o direito de te ter pedido para ficares comigo, mas estava com medo. Fechava os olhos e via o meu irmão, lívido como um cadáver, ligado, aquelas máquinas.
- Não fiques preocupada, eu entendi perfeitamente. Acredites ou não, eu gosto muito do teu irmão. Agora sobe e vai dormir um pouco.
- Não seria capaz. Prefiro ficar por aqui, Vou fazer um bolo, preciso de me manter ocupada. Descansaste menos do que eu, porque não vais tu dormir um pouco até ao almoço. Eu vou buscar as crianças. E depois leva-mo-las à escola, e vamos ao hospital. Vais comigo, não vais?
-Claro, querida, não te deixarei sozinha até que o Tiago esteja em casa, são e salvo.
Ela levantou a mão para lhe acariciar a face. Ele segurou-a e depositou-lhe um beijo na palma, fazendo com que ela estremecesse ao mesmo tempo que o seu rosto se tornava escarlate.
- Há muito tempo que não via uma mulher enrubescida- disse sorrindo. – És maravilhosa. Bom,- acrescentou levantando-se. Vou fazer a barba. Sabes o que me disse a Soraia, quando me despedi à porta da escola? “Hoje picas, pai”- disse imitando a voz da filha.
Clara não pode evitar rir-se e ele saiu feliz por ter conseguido desanuviar o rosto feminino.
Subiu ao quarto e escanhoou o rosto. De seguida passou o after shave. Mirou-se e não se achou mal. Enquanto se olhava pensou como o amor mudava tudo. Vinte e quatro horas antes andava irritado, sem vontade de fazer nada, questionando todas as suas atitudes até ao momento. Depois daquela noite, em que descobriu que afinal o sentimento que tinha por Clara, era muito mais que desejo, a vida parecia-lhe mais colorida apesar do momento doloroso porque passavam. Agora ele acreditava num futuro feliz. Amava a mulher e sabia que ela lhe retribuía, ela mesma lho confessara. Agora o que tinha a fazer era esperar que aquela tempestade passasse e então poderiam entender-se, amar-se, e até quem sabe aumentar a família.
Ah! Se isso acontecesse, ele ia ser o homem mais feliz do mundo. Porque ia poder viver com essa criança o que não vivera com Bernardo, muito menos com Soraia. O seu nascimento, o primeiro choro, o primeiro sorriso.
“Acorda” - disse dando uma leve palmada na sua própria face. “Não é hora de te pores a sonhar”
Voltou ao quarto, vestiu a camisa e olhou o relógio. Onze e meia. “Está quase na hora de ir buscar os miúdos para o almoço “ – pensou enquanto fechava a porta e se dirigia para o piso inferior.


Gente, desde quarta-feira que ando numa roda viva, com visitas de estudo, jornadas do património cultural, hoje acabei de chegar da festa da UTIB a nossa Universidade, e amanhã tenho aulas de manhã e uma tertúlia poética à tarde.Terça-feira as coisas acalmam e espero retomar as visitas normais.As minhas desculpas.



26.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLI








Com a bandeja nas mãos, voltou-se vagarosamente e encarou-a
- O que disseste?- Perguntou sem afastar o olhar do seu rosto.
- Disse para não ires. Por favor Ricardo, não quero ficar sozinha.
Não era a súplica de uma mulher apaixonada, ansiosa por uma noite de amor. Nos seus olhos Ricardo leu o medo. Naquele momento, Clara não precisava de um homem apaixonado. Precisava de um pai, um irmão mais velho, um amigo de confiança. Estava tão vulnerável como Soraia, quando acordava a meio da noite com os seus terríveis pesadelos. Pousou a bandeja em cima da cómoda, e aproximou-se do leito.
- Eu fico, se me prometeres que te portas como uma menina bonita e dormes. São quase quatro da manhã. Daqui a pouco amanhece e precisas descansar.
 Despiu o roupão, e enfiou-se na cama abraçando o corpo feminino e puxando-o para junto do seu de modo a que descansasse a cabeça no seu peito, consciente de que era aquilo que ela precisava, para acalmar a tensão acumulada nas horas passadas no hospital.
- Pronto, já aqui estou, - disse depositando um casto beijo no rosto feminino. - agora fecha esses olhinhos bonitos e dorme. 
Sentiu como aos poucos a sua respiração se ia tornando mais suave e o corpo relaxava, finalmente vencido pelo sono.
Ele permaneceu ainda um bom pedaço deitado de costas, pensando em tudo o que acontecera naquele dia. E no enorme desejo que sentira de proteger a mulher que repousava confiante a seu lado. Sentira no peito uma dor terrível, enquanto ela chorava no hospital. Se ele pudesse afastar dela aquela dor tê-lo-ia feito.
Espantado, descobriu que aquele sentimento era o mesmo que lhe fizera mover todas as influências para adotar Soraia. Aquilo era amor!
Não um amor paternal, mas amor de qualquer forma. O amor de um homem pela mulher que o completa.
Afinal o seu coração não estava seco como ele pensava. Era verdade, ele amava Clara, e essa verdade mudava tudo. Trazia uma nova esperança à sua vida. Pousou suavemente os lábios na testa feminina e murmurou docemente:
-Dorme, meu amor.
E finalmente adormeceu. Não dormiu muito. Menos de duas horas depois acordou. Clara dormia profundamente. Com o maior cuidado deslizou o corpo para fora da cama, vestiu o roupão e olhou o relógio.
Sete horas, as crianças não tardariam a acordar e ele não queria que acordassem a mãe. Abriu a porta de comunicação com o quarto das crianças, atravessou-o, abriu a porta que comunicava com o seu quarto e entrou.
Foi à casa de banho, tomou um duche rápido, vestiu-se e voltou a atravessar a porta de acesso ao quarto dos filhos precisamente quando Bernardo acordava.
- Olá pai.
-Bom dia, filho. És capaz de te lavar sozinho?
-Claro pai, já sou crescido. 
-Então vai, o pai vai buscar a roupa para vestires.
A criança entrou na casa de banho e ele tirou uma muda de roupa, e colocou-a em cima da cama do filho. Fez o mesmo com a roupa para a filha, depois fez-lhe uma carícia no rosto, que a levou a abrir os olhos e estender os braços para o seu pescoço.
- Bom dia, preguiçosa. Vamos a levantar, o mano já está quase despachado. Costumas lavar-te sozinha, ou a mãe cuida de ti?
A mãe só me lava a cabeça, no banho, mas só à tarde quando voltamos da escola.
- Então vai lá, que o mano já aí vem. E despacha-te, se não queres chegar tarde à escola.
Enquanto os ajudava a vestir, explicou-lhes que o tio Tiago tinha tido um acidente e estava no Hospital. A mãe estivera lá quase toda a noite e agora estava a descansar, por isso não podiam vê-la nessa manhã.
- Mas o tio não vai morrer, pois não? – Perguntou o filho.
- Não, claro que não. Mas foi ferido e tem que lá estar até ficar curado.
Agarrou nas batas e nas mochilas e dirigiu-se para a porta seguido dos filhos.
- Bom-dia, Adelaide, - saudou ao entrar na cozinha.
-Bom-dia senhor. Lamento o que aconteceu ao menino Tiago. Ontem a Antónia pediu-me para vir fazer o pequeno-almoço, - disse colocando na mesa, um recipiente com pão, um frasco com doce, um prato com queijo, um jarro com sumo de laranja, e duas taças com cereais para as crianças.
Comeram em silêncio, pois saberem que Tiago estava no hospital, tirara a habitual alegria às crianças.  
Quando acabaram, vestiu-lhes as batas, e entregou-lhes as mochilas.
- Vamos lá então, meninos.
 Já no carro, Bernardo perguntou:
- Podemos ir ver o tio Tiago, quando sairmos da escola?
- Não filho. O tio está no hospital e não deixam entrar lá meninos para não ficarem doentes.
Pouco depois chegavam à escola. Antes de os entregar à auxiliar que os estava a receber ao portão, baixou-se para lhes dar um beijo.
- Hoje picas, pai - disse a filha.
Só então se lembrou que com a pressa não fizera a barba.


Esta história que como todos já perceberam está na reta final, volta segunda feira. 
Entretanto espero poder já amanhã mostrar-lhes um pouco do meu passeio. Entretanto amanhã tenho agendada uma visita pelo complexo da antiga CUF aqui mesmo no Barreiro, o estudo da importância que teve para o País aquela que foi a empresa maior da Península Ibérica, e a sétima maior da Europa. com visita à antiga residência do Alfredo da Silva, a visita ao seu mausoléu e  a visita ao museu industrial do Barreiro. E no Domingo a festa da nossa Universidade. Mas não deixarei de os visitar, embora seja um tanto de fugida e às vezes a horas impróprias. As minhas desculpas.

25.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XL





Tinham chegado ao hospital por volta das sete, e segundo lhes informaram, Tiago já estaria na sala de cirurgia. Já passava da meia-noite e ainda não sabiam de nada. Ricardo já por duas vezes tinha ido perguntar se havia notícias.
Nenhuma. Quando houvesse eles seriam informados.
Pouco depois das nove, Alfredo tinha ido ao hospital. Antónia tinha preparado umas sandes, e um termo com chá. Ricardo tentara que a jovem comesse mas ela recusara-se. Não conseguiria comer enquanto não soubesse que o irmão estava fora de perigo. Mas aceitara um pouco de chá.
 Chorara silenciosamente, durante horas. E a ele doía-lhe o peito de a ver chorar. Não sabia fazer mais nada do que abraçá-la e murmurar que estava tudo bem, mesmo que, a cada hora que passava, a sua fé fosse esmorecendo e a dúvida se começasse a instalar no seu coração. Por fim ela deixara de chorar. Tinha apoiado a cabeça no peito dele e fechara os olhos. Inicialmente  ele pensara que tinha adormecido, mas ao mais leve ruído, abria os olhos e vagueava o olhar pelo espaço.
Eram duas e vinte e cinco, quando um médico assomou à porta da sala de espera. Eles levantaram-se e quase correram para ele.
-Boa-noite, doutor. Somos os familiares de Tiago Mendes de Sá. Pode dar-nos alguma informação?
- Por favor, acalmem-se. Apesar dos percalços, a cirurgia foi um sucesso e o doente vai ser levado para a UTI onde será monitorizado nas próximas vinte e quatro horas.
Sem forças, Clara deixou-se cair numa cadeira enquanto Ricardo interrogava o médico.
- O que aconteceu doutor? Porque vai para a UTI e não para o recobro e quarto?.Ele vai salvar-se não vai?
- O paciente sofreu uma paragem cardíaca durante a cirurgia, e está em coma. A cirurgia em si, correu bem e estamos confiantes de que o paciente vai recuperar. A sua juventude e  a ausência de doenças cronicas, são primordiais para uma boa evolução do quadro clínico. 
- Obrigado, doutor. A minha esposa não poderia vê-lo, nem que fosse só por uns segundos? Ela está arrasada.
-Há procedimentos a tratar, na sua instalação. Podem vir comigo, vou ver se já pode vê-lo. Mas só um minuto e não pode tocá-lo. O senhor terá que esperar cá fora.
-Obrigado doutor.
Acompanharam-no pelo corredor até que ele disse:
-Esperem aqui.
Entrou e pouco depois saiu acompanhado de uma enfermeira.
-Pode entrar, mas lembre-se do que lhe disse. O senhor espera aqui.
Afastou-se rapidamente. Ricardo pensou que ele também devia estar cansado e desejoso de poder descansar.
Pouco depois, Clara estava de volta. As lágrimas corriam silenciosas pelo rosto lívido. Ele abraçou-a e apressou-se a retirá-la dali.
- Tão doloroso vê-lo ali, com todos aqueles tubos.
- Eu sei, querida,mas o pior já passou. E ele é jovem e forte, vai correr tudo bem, vais ver. 
Encaminhavam-se para o carro. Ele abriu a porta do veículo, ajudou-a a sentar-se e pôs-lhe o cinto. Depois deu a volta e sentando-se ao volante, pôs o carro em marcha. Estava desolado, e não só por Tiago, mas pelo sofrimento de Clara e por se sentir impotente para evitá-lo.
Chegaram a casa às três da manhã. Mal abriram a porta, Antónia e o marido saíram da sala. Estavam tão preocupados que não se tinham deitado.
Ricardo disse-lhes o que se passara no hospital e acrescentou que podiam ir dormir.
Depois, ajudou Clara a chegar ao quarto.
- Precisas de ajuda,- perguntou quando entraram no quarto. Ela abanou a cabeça em sinal negativo. – Então deixo-te só. Vou buscar um copo de leite morno. Não comes nada há muitas horas.
Virou as costas e saiu. Foi ao seu quarto despiu-se. Enfiou um pijama, e um roupão. Depois desceu a escada, aqueceu dois copos de leite que pôs numa bandeja e subiu ao quarto da jovem. Bateu levemente na porta e entrou. Pousou a bandeja na mesa-de-cabeceira.
-Vamos tomar um copo de leite. E não me digas que não queres, eu também vou tomar, vês, - disse apontando a bandeja.
Ela sentou-se na cama, e aceitou o copo de leite, que bebeu lentamente. Estendeu-lhe o copo vazio e deitou-se. Ele pegou na bandeja e encaminhava-se para a porta quando ela disse:
-Espera, não vás. Fica comigo!



Acabei de chegar. Gente venho cansada e encantada. Dentro de dias mostro-vos no blog imagens, parte do que vi e aprendi




ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXIX



Aconteceu três dias antes do aniversário de Tiago. Era segunda-feira, dia cinco de Maio, quase seis horas da tarde. Clara e Antónia conversavam na cozinha, sobre uma nova receita de cabrito, que a primeira queria fazer para o jantar de anos do irmão. As crianças viam desenhos animados na sala e Ricardo, que tinha subido ao quarto para trocar a camisa, que o filho sujara com um marcador, descia as escadas, quando alguém bateu à porta. Pensando que Tiago se tinha esquecido da chave, abriu a porta e franziu o sobrolho quando viu um polícia.
-Boa tarde.
-Boa tarde, senhor agente, - respondeu inquieto.
-É aqui que mora a senhora Clara Mendes de Sá?- Perguntou o polícia
-É a minha esposa. Vou chamá-la.
- Espere, é melhor ser o senhor a dar-lhe a notícia. Trata-se do irmão dela.
-Que aconteceu com o meu cunhado?- Perguntou sentindo um aperto no peito.
- Houve um acidente. Um automobilista perdeu o controlo do carro, despistou-se e foi colher as oito pessoas que estavam na paragem do autocarro, provocando uma tragédia.
- Morreu? – Perguntou num fio de voz.
- Ele não, mas está ferido. Foi levado para o Hospital de S. Francisco Xavier.
- Meu Deus! Muitíssimo obrigado.
Fechou a porta, e encostou-se nela tentando acalmar-se e ganhar forças para contar a Clara o que tinha acontecido. Depois dirigiu-se à cozinha.
- Clara preciso falar contigo, é urgente. Vem comigo, por favor.
A sua cara devia mostrar a sua preocupação, porque ela o seguiu sem se atrever a contestar. Assim que entrou na biblioteca, ele fechou a porta e disse, olhando-a:
- Há momentos veio aqui um agente da polícia. Vinha falar contigo mas fui eu que abri a porta. Deus sabe que não queria dar-te esta notícia, mas…
- Meu Deus, o Tiago, ainda não chegou. Foi ele, não foi Ricardo? O que aconteceu com o meu irmão? - Perguntou a chorar, agarrando-lhe os braços, e abanando-o.
- Acalma-te querida. O Tiago, foi vítima de um acidente, mas graças a Deus está vivo, foi levado para o hospital - disse abraçando-a.
Deixou-a chorar durante alguns minutos enquanto lhe acariciava a cabeça em silêncio. Depois afastou-a dizendo.
-Pronto já chega, Vai lavar o rosto, enquanto eu falo com a Antónia e lhe peço para dar o jantar às crianças e as deitar. Nós vamos para o hospital, e podemos demorar.
Acompanhou-a à escada e depois foi falar com Antónia, que embora consternada pela notícia lhe garantiu que podiam ir descansados. Ela e o marido ficariam a noite inteira com as crianças se fosse preciso.
Meia hora mais tarde estavam no hospital. Ali os informaram de que Tiago era um dos cinco sobreviventes, mas tinha sido gravemente ferido. Tinha sofrido contusões várias, várias costelas fraturadas, com perfuração de pulmão, pelo que já estava no bloco operatório.  Clara estava de rastos. Não fora o braço forte do marido, segurando a sua cintura, e já teria caído, tal o tremor das suas pernas.
- Por favor, poderíamos falar com o médico quando terminar a cirurgia? Vamos aguardar aqui.
- Vou comunicar o vosso pedido, quando a cirurgia terminar.
Sentaram-se num canto da sala de espera. Clara não parava de chorar, Ricardo tentava consola-la, embora ele próprio estivesse muito apreensivo. Gostava sinceramente do cunhado, e mentalmente pedia a Deus a salvação do jovem.
- Não fiques assim, querida. O Tiago é jovem, vai aguentar este mau momento.
- O Tiago é muito mais que um irmão. É como se fosse meu filho.
-Eu sei disso. Mas quando ele recuperar, não vai gostar de te ver assim. Estás arrasada. Fecha os olhos e tenta descansar um pouquinho. Eu estou aqui, não te esqueças.
Quando Ricardo estava em missões no estrangeiro, especialmente em locais onde as condições de vida eram mais difíceis, sempre pensava que nesses locais, os dias são mais longos e as horas têm muito mais que sessenta minutos. Mas agora ali, esperando notícias do cunhado, chegava à conclusão que não há lugar no mundo, por mais inóspito que esse local seja, onde o tempo passe tão vagarosamente, como numa sala de espera do hospital, quando temos alguém que amamos num bloco operatório e não sabemos o que está a acontecer.

Gente, hoje vou andar pelo Alentejo numa visita de estudo, pelo que não poderei ir aos vossos blogs. Também não haverá mais nenhum capítulo hoje.
Fiquem bem

24.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXVIII



No dia seguinte, Ricardo apareceu na cozinha  à hora do costume. Não ia para o quartel, mas não queria deixar de tomar o pequeno-almoço com os filhos. 
Porém quando eles se preparavam para sair, e lhe perguntaram se ia levá-las à escola, desculpou-se dizendo que não podia. E dando um beijo em cada um, retirou-se para a biblioteca. Era evidente para todos que estava de mau-humor.
Clara deixou os pequenos na escola e seguiu para a Secundária com o irmão.
- O Ricardo parecia aborrecido, - disse Tiago quando ficou sozinho no carro com a irmã. – Zangaram-se?
- Não. Mas eu fui estúpida e incorreta com ele e decerto o magoei.
- Tem cuidado maninha. O Ricardo é um bom homem e adora-te.
- Donde tiraste essa ideia?
- Basta ver como te olha. Não me digas que tens dúvidas.
- Não sei. Penso que me vê mais como amiga que como esposa.
-Ninguém olha assim para uma simples amiga. Não gostaria de saber que vocês são infelizes por falta de confiança. Até logo, – disse abrindo a porta do carro e saindo.
No caminho de regresso, Clara ia pensando no que o irmão lhe dissera. Seria verdade que Ricardo a amava? Deveria ser. Ela mesma suspeitara disso, mas quem sabe, não era apenas a sua vontade que a fazia ver aquilo que queria ver. E agora? Por causa da sua estupidez teria estragado as suas hipóteses de ser feliz?
Chegou a casa e dirigiu-se à biblioteca. Bateu levemente na porta e entrou. Ricardo estava sentado à secretária com um monte de cadernos na sua frente. Não levantou os olhos do caderno que lia.
- Posso falar contigo? – Perguntou
Continuando a manusear os cadernos, ele respondeu com outra pergunta:
-É importante?
- Para mim é. Fui irrefletida, falei sem pensar e sei que te ofendi. Quero pedir desculpa. Nestes nove meses, tens sido sempre correto comigo e atencioso com o meu irmão.  Não tinha o direito de te ter dito, o que te disse ontem.
- Desculpas aceites. Agora se não te importas, tenho muito trabalho pela frente.
Sentindo-se quase a chorar, voltou-se e dirigiu-se para a porta. Quando se preparava para a abrir, ele levantou a cabeça e disse.
-Suponho que não mudaste de ideia em relação à adoção das crianças.
- Claro que não.
- Obrigado. Vou telefonar ao Francisco.
Durante o resto da semana, a situação não se alterou. Quando as crianças estavam presentes, os dois tratavam-se com a maior cordialidade possível, mas assim que elas saíam para a escola, Ricardo fechava-se na biblioteca, de onde só voltava a sair quando regressavam à hora do almoço. Por seu lado Clara, quando não estava com as crianças, ou estava na cozinha ajudando Antónia, na confeção de algum prato que sabia ser de especial agrado delas, ou no terraço lendo, ou ainda no seu quarto muitas vezes a chorar.
Sentia que Ricardo continuava magoado, e recriminava-se por isso.
Enquanto isso, na biblioteca, ele olhava a página em branco, sem saber como começar a delinear as personagens que se iam movimentar na trama do romance que queria escrever.
Começava a pensar que se tinha metido numa camisa-de-onze-varas, quando seguiu o conselho de Francisco. É verdade que os seus filhos tinham encontrado uma mãe. E para ser justo, uma excelente mãe. Nesse aspeto nada a apontar. Já como mulher era outra história. Fizera-lhe questionar-se e acabara revolucionando toda a sua vida.  Fizera-o sonhar com uma família, libertara a sua libido, e abrira o seu coração, a novos desejos. E acabara traindo-o como todas as outras mulheres que passaram pela sua vida.
Como fora capaz de lhe jurar amor, se não confiava nele, se duvidava da retidão do seu carater? Poderia existir amor sem confiança? Por outro lado de que tinham servido aqueles seis meses de mensagens constantes onde sem pudor ele desnudou a sua alma?
Certo que ele não a amava. Mas a admiração, respeito e carinho que sentia por ela, não contavam? E a química que existia entre os dois? E o desejo de a fazer feliz? E o desejo de partilhar com ela o resto da sua vida? Isso não valia nada?
Ricardo estava tão obcecado em nunca mais amar, que não se dava conta de que o amor não era mais do que aquilo que ele sentia. Será que o ia reconhecer algum dia? E será que Clara o compreendia e o aceitava, desistindo de esperar que ele reconhecesse os seus sentimentos?


23.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXVII



Deu a notícia nessa noite, no fim do jantar, explicando aos filhos, que deixando a vida militar, não mais se ausentaria de casa. A primeira reação delas, foi gritar e bater as palmas de alegria. Depois abraçaram-no e Ricardo  sentiu um nó na garganta e os olhos húmidos. “Ultimamente estou muito emotivo”- pensou.
Também o cunhado o abraçou manifestando alegria. Apenas Clara não se manifestou. Será que não tinha ficado feliz? Mas se fora ela quem lho pedira quando um mês atrás ele estivera para desistir. Procurou os seus olhos tentando entender, mas ela mantinha-os obstinadamente fixos na carpete, como se nunca a tivesse visto antes. 
Mais tarde seguiram a rotina de todos os dias ao deitar as crianças e quando elas adormeceram, Clara fez menção de se recolher, mas Ricardo segurou-lhe no braço dizendo:
-Ainda é cedo. Desce comigo. Tenho uma proposta séria para te fazer.
Ela não respondeu. Limitou-se a descer as escadas e a segui-lo à biblioteca. Aí chegados sentou-se no sofá, colocou as mãos no regaço e aguardou.
- Parece que não ficaste feliz, com a minha saída do exército. Incomodou-te?
- Como podes pensar assim? Acaso não te incentivei a fazê-lo? Claro que fiquei feliz, por ti, pelas crianças e até por mim. Simplesmente já sou grandinha para pular de alegria. Aliás se era essa a conversa séria que íamos ter, não estou interessada.
- Não precisas ser irónica. E não, não era sobre isso que queria falar contigo, mas sobre a adoção das crianças.
- Adoção? – Perguntou surpreendida.
- Bom, penso que já falámos sobre a minha condição financeira. Ainda que talvez não tenhas uma verdadeira noção dos meus bens, e penses que tenho esta quinta e algum dinheiro. Não é assim. Grande parte da minha fortuna já vem de um tataravô do ramo materno. Parece que esse meu antepassado foi um dos coronéis fazendeiros que fez fortuna com o cacau e o café no Brasil. As gerações seguintes, não fizeram mais do que gerir e aumentar o património. Eu mesmo fiquei abismado, quando aos trinta anos tomei posse dessa herança, pois foi essa a vontade expressa do meu avô. Parece que ele não confiava muito no meu pai, e como a filha morreu muito nova, os seus bens passariam para mim, mas apenas e só quando completasse trinta anos.
 Até lá, ela era gerida por um grupo de gestores que por sua vez estariam a ser assessorados por uma firma de advogados, de sua inteira confiança. Esta quinta, eu já tinha herdado quando a minha avó morreu. O Francisco gere os meus bens, herdados do meu pai e da minha avó, tudo o resto,  continua a ser gerido da mesma maneira, por aqueles  em quem o meu avô confiava, e estende-se por participações em muitas empresas, na hotelaria, restauração, e indústria automóvel, e imobiliária. 
Não estou a dizer isto para te deslumbrar, nada disso, o dinheiro para mim só é importante na medida em que me permita viver com um certo desafogo, dar um bom futuro aos meus filhos, e ajudar algumas instituições. Tanto assim que resolvo deixar essa herança para os meus futuros herdeiros e não retirei dela um centimo.
 Porém esse mesmo património, que um dia será dos meus filhos, pode tornar as crianças vítimas de gente ambiciosa e sem escrúpulos, pois se me acontecer alguma coisa, quem ficar com a sua guarda, ficará com acesso aos seus bens até à maioridade, e nem mesmo tu com todo o teu amor poderias fazer nada. Perante a lei, uma madrasta, não tem força, se em disputa com outros familiares de sangue, mais ou menos chegados. Os meus receios prendem-se principalmente com Bernardo, pois a família de Marisa não é flor que se cheire, e embora os seus pais já tenham morrido, ela ainda tem dois irmãos e sobrinhos, e há gente que por dinheiro é capaz de tudo.
Se os adotares, passarás a ser legalmente a mãe deles com todos os direitos e deveres que isso acarreta. Entendes?
- Sim. E é evidente que quero adotá-los. No meu coração eles já são meus filhos. Porém gostaria de te alertar para uma coisa. Supõe de dentro de dois, três, cinco anos, sei lá, encontras alguém com quem te entusiasmas e quebras o contrato, para resolveres o teu futuro com essa pessoa. Sabes que uma adoção não se pode anular?
- Isso nunca acontecerá. Os nossos destinos foram ligados naquela igreja. Ainda que tu queiras sair no final do contrato, eles serão para sempre os nossos filhos. Posso então dizer ao Francisco para avançar com o processo de adoção?
-É claro que sim.
-Obrigado. Mas ainda tenho uma outra proposta para te fazer. Já deu para perceber que gosto muito do teu irmão. E gostaria de adotá-lo, de modo a torna-lo igualmente meu herdeiro. Ele seria oficialmente o irmão mais velho das crianças, uma mais-valia para eles, e uma ajuda para ti, no caso de me acontecer qualquer coisa. Não que esteja a pensar morrer amanhã, mas é sempre bom acautelar o futuro. Como vai fazer dezassete anos, é ele quem tem que aceitar ou não a adoção, mas sei que ele te pedirá conselho e só fará o que decidires. O que achas da minha proposta?
- Que é de uma enorme generosidade, e que deves pensar bem nisso. Se o queres fazer que seja porque o coração to pede, e não por interesses obscuros.
- Não me ofendas Clara! Que diabo de homem, pensas que eu sou? Achas que era capaz de usar um truque tão baixo para te levar para a cama?
Clara nunca o tinha visto tão zangado
-Desculpa. De modo algum quis ofender-te.
Agarrou-lhe no braço mas com um safanão, ele soltou-se e saiu da sala, deixando-a sozinha.





Pronto. Entornou-se o caldo. Será que estes dois algum dia se vão entender?
O que vos parece?

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXVI




Nos dias que se seguiram, a vida entrou num ritmo novo. Aproximava-se as férias escolares por causa da Páscoa, e os aniversários das crianças. Bernardo faria cinco anos a doze de Março e Soraia, a vinte.Ou pelo menos era a data que constava nos documentos dela. Como a Páscoa era a vinte e cinco, as crianças não podiam festejar na escola, com os amiguinhos de turma, pois estariam de férias. Então resolveram fazer a festa na quinta e para isso, Clara, mandou fazer os convites que os meninos levariam para a escola e entregariam aos amigos. Nele se ofereceram para irem buscar e levar as crianças se os pais não pudessem levá-los à quinta. Era uma oportunidade das crianças passarem um dia diferente, até porque talvez a maioria nunca tivesse estado numa quinta.
As crianças deveriam devolver os convites assinados pelos pais, que diriam se os filhos iam ou não à festa, e se os levavam ou esperavam que os fossem buscar. Depois de obtida a resposta, era altura de começar a pensar em como  seria a festa. Nos enfeites da sala, nos doces, e na animação.
Também os filhos de Adelaide foram convidados, a passar as suas férias na quinta, e claro está, nas festas de anos dos dois irmãos.
Ricardo teve a ideia de contratar uma empresa de eventos infantis, que faria as duas festas, com temas escolhidos pelos meninos.
E assim no dia dos seus anos, Bernardo não cabia em si de contente. Ele nunca tinha tido uma festa assim. No ano anterior, Ricardo levara-os a passear, almoçaram num restaurante e depois foram ao cinema. Nada que se comparasse com a festa que ia ter naquele dia, com todos os seus amiguinhos.
A festa começou de manhã. Ricardo e Clara que agora já tinha o seu carro, dividiram-se para transportar as crianças para a quinta. Depois de um passeio por ela, onde puderam ver alguns dos animais e conhecer as diversas árvores de frutas no pomar, brincaram no pequeno parque, até à hora do almoço. 
De tarde a empresa montou uma tenda onde apresentou alguns números de ginástica e palhaços, com os quais as crianças deliraram. E depois do circo veio então o lanche, com o bolo e todas as guloseimas que eles tanto apreciam.
Uma semana mais tarde foi a festa de Soraia, mas em vez de circo as crianças assistiram a um espetáculo de marionetas.
Ainda antes da festa de Soraia, Ricardo terminou as suas férias e teve que se apresentar no quartel. Já tinha metido o requerimento para a sua passagem à disponibilidade na reserva, mas não sabia o tempo que levaria até saber se tinha sido deferido ou não.
Também por aqueles dias saíram as notas de Tiago, que tinha em todas as disciplinas a nota máxima.
Com toda esta azáfama, os dois quase não tinham tempo para pensar em si e no impasse em que estavam as suas vidas. Ricardo não voltara a falar de consumarem o casamento embora não raras vezes ela surpreendesse o seu olhar carregado de desejo preso nela.
E veio a Páscoa e a seguir o recomeço das aulas, e a vida dos habitantes da quinta voltou à normalidade.
A meio de Abril, Ricardo recebeu enfim a esperada notícia. O seu requerimento tinha sido deferido, provocando-lhe sentimentos contraditórios. Por um lado ficava agora livre para se dedicar à sua paixão pela escrita e publicar o seu livro. Por outro era o fim de toda a sua vida anterior, o adeus a companheiros que ao longo de muitos anos partilharam consigo tristezas alegrias e medos.
Era também o fim das suas saídas de casa que durante o dia, o mantinham afastado de Clara, do seu desejo por ela e da rejeição dela. Três dias depois do vinte e cinco de Abril, saiu à ordem a sua baixa e a notícia espalhou-se pelo quartel como relâmpago. E vários oficiais, amigos e companheiros, invadiram-lhe o gabinete para se despedirem. Emocionou-se.