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27.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável capaz de fazer inveja a qualquer um. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era sexta-feira. O médico daria consulta às sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da dona Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na sua visita ao médico. 



10.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXI


As duas amigas acabaram o almoço, e dirigiam-se para o carro quando Mário lhes saiu ao caminho.
- Peço-lhe desculpa, D. Luísa, mas preciso de um minuto com a sua amiga. Tenho de esclarecer uma dúvida, sobre um dos vossos colegas.
Fulminou-o com o olhar. Voltou-se para a amiga.
- Esperas por mim no carro?Não me demoro
-Claro. Até já. Boas Festas, senhor
Teresa caminhou na sua frente, sentindo o olhar do homem sobre o seu corpo. Entrou no gabinete e voltou-se para o interrogar, mas antes de ter tido tempo, de articular uma palavra, viu-se aprisionada pelos seus braços fortes, e antes que pudesse protestar, sentiu-se beijada com paixão. Tentou lutar, mas o corpo não lhe obedeceu. Pelo contrário, como se tivessem vida própria, os seus braços ergueram-se e enlaçaram o pescoço masculino, os dedos mergulharam na sua cabeça numa carícia apaixonada.
Quando finalmente a largou, os seus olhos brilhavam de paixão.
- Sabes que posso processar-te por assédio sexual, não sabes?- Ela estava furiosa. Mais consigo própria, por se ter entregado daquele modo, do que com ele.
-Sei. Mas não o farás – disse sorrindo com carinho.
A segurança dele irritou-a ainda mais. 
- Eu não estaria tão segura.
- Escuta e se dissesses à tua amiga para se ir embora? Não achas que é tempo de esquecer o passado e pensar no futuro?
- Não. Não basta que me enlouqueças com os teus beijos, ou os teus arrependimentos tardios. Para me teres de novo, terás que ganhar a minha confiança, e garanto-te que não é coisa fácil. Graças a Deus, tenho boa memória.
Saiu batendo com a porta, e deixando o homem num mar de agitadas emoções.
 Entrou no carro, e desatou a chorar. Luísa pôs o automóvel em marcha e conduziu em silêncio, esperando que se acalmasse.
Quando por fim ela se calou, perguntou-lhe com suavidade:
- Estás melhor? Queres falar?
- Beijou-me
- E ficaste assim? Beija assim tão mal?
Teve que rir.
- És impossível. Mas és a melhor amiga do mundo, sabias?
- Pois, nunca mo disseste,- disse rindo. E mudando de tom – e agora? Que vais fazer? Porque até um cego vê que estás perdidinha por ele. E se ele quer uma oportunidade, porque não arriscas? Além do mais é o pai do Martim, e a presença de uma figura masculina faz muita falta a uma criança.
- Estás a empurrar-me para ele?
 Não tonta, é que dava-me jeito, uma amiga milionária, - disse Luísa rindo.



                                                

26.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIII

SEGUNDA PARTE

A fome acordou-o. A luz que chegava ao quarto, através da janela era tão suave que mal se distinguiam os objetos. Ouviu a leve e regular respiração de Isabel, que lhe deu a certeza de que dormia tranquila, e os seus olhos, já habituados à penumbra observaram-na. Dormia profundamente, a longa cabeleira dourada espalhada na almofada. Tinha o edredão puxado até ao pescoço, e o seu rosto calmo e sereno, não parecia o mesmo de horas atrás, quando a paixão os arrebatou.  Devagar, levantou-se. Estava nu e sentiu frio. Às escuras, procurou um pijama, vestiu um roupão e  dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e viu as horas. Meia-noite. Não admirava que sentisse fome. Não tinham comido nada desde o almoço. O frigorífico estava recheado com tudo para que tivessem tido um excelente jantar, contudo o seu desejo fora superior à fome. Bom, não jantaram, mas podiam fazer uma ceia. Retirou do frigorífico o marisco, o bacalhau com natas, o cabrito assado, o pudim caseiro, e a mousse de chocolate, iguarias que ele tinha encomendado ao restaurante, na véspera e que tinham vindo entregar nessa manhã, pouco antes de ele sair para o casamento, e colocou tudo em cima da mesa da cozinha.
A mesa na sala estava posta. Nem faltavam velas e flores, tudo o que se deve usar num jantar romântico, tal como vira numa revista da especialidade.
O seu estômago já roncava protestando com a fome, o melhor era ir ver se acordava Isabel, para cearem.
Dirigiu-se ao quarto, ajoelhou junto da cama, e beijou-a suavemente. Ela abriu os olhos espantada, como se não se lembrasse onde estava, e ele sussurrou.
-Hora da ceia. Estou morto de fome.
Ela tentou levantar-se mas ao ver que estava sem roupa, corou e voltou a tapar-se. Ricardo levantou-se, foi buscar um robe e deu-lho dizendo.
-Espero-te na cozinha.
Ela esperou que ele saísse para saltar da cama. Enfiou o robe sobre o corpo nu e de seguida foi ao armário onde dias antes guardara as suas roupas, retirou uma linda camisa de dormir, branca, de cetim e rendas, que Natália lhe oferecera para aquela noite, foi à casa de banho, despiu o robe, vestiu a camisa e o robe por cima, lavou a cara, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. Viu os diversos pratos em cima da mesa, e perguntou:
-Estás a pensar comer tudo isso?
-Tenho fome mas não tanta – disse rindo. – Começamos com o camarão?
-A esta hora não me apetece marisco. Mas tu podes comer se te apetece.
Ele pegou na travessa de camarão, e guardou-a no frigorífico dizendo:
-Também não me apetece muito. Vou aquecer o Bacalhau com Natas, no Micro-ondas e entretanto ponho o cabrito no forno. Queres esperar na sala?
- Vou pondo a mesa se me disseres onde estão as coisas - disse, enquanto ele regulava o tempo no Micro-ondas.
- A mesa já está posta. São só dois minutos, e vamos começar.
Isabel encaminhou-se para a sala, grata por ele não ter feito nenhuma alusão ao que tinham vivido horas antes.



13.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXII


- Uma família. Por muito bem que um homem se sinta sozinho, chega um dia, em que acorda com as pernas trôpegas e os cabelos brancos e sente a falta de uma família.
-Podia dizer que não és pobre a pedir, porém  tu és um homem atraente, rico, ainda não tens quarenta anos, segundo deduzi pelo que disseste há dias, acabaste de dizer que  tens uma boa casa. Se não tens uma família, é porque não queres. A menos que tenhas alguma doença. É isso? Ou não podes ter filhos?
- Não é nada disso. Já te disse que não acredito no amor – calou-se por momentos como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas para a convencer. Mas na verdade, relembrava o seu casamento, e a maneira infantil como se tinha deixado ludibriar por Ivone. - Para te ser sincero, não tenho nenhuma confiança nas mulheres, e estava decidido a morrer solteiro. Mas uma vez que o destino me armou esta cilada, seria parvo se não tentasse sair dela, com alguma vantagem. Além disso estou a ser sincero, penso que ganhamos os três com esta solução. Sei que estás desempregada, e deves estar aflita com a situação, mas se aceitares o que te proponho, assumo todas as despesas até ao casamento. E depois da cerimónia, se quiseres dedicar-te à menina por inteiro, nem precisas trabalhar. Além do mais estou convencido de que poderemos ser felizes.
- Antes do mais, deves saber que já não estou desempregada. Começo a trabalhar na segunda-feira. Compreendo que queiras ter participação ativa na educação da Matilde. Também entendo que se aceitar a tua proposta vou ter uma vida muito mais facilitada, mas ao contrário de ti, eu acredito no amor, e não me entra na cabeça um casamento, sem esse sentimento.
- Sabes quantos casamentos se fazem por amor, com casais que se dizem muito apaixonados, e terminam em menos de dois anos? A compreensão, o respeito pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo,  podem ser muito mais duradoiros do que a paixão.
- Quando falo em amor, é a isso que me refiro, não à paixão, que essa, como dizia a minha mãe, dá forte mas passa depressa. Supondo que eu aceito esse casamento, como seria ele? Completo ou nem por isso?
-Naturalmente seria um casamento normal, com tudo o que isso implica.
-Vejo que temos maneiras de ver a vida, diametralmente opostas. Um casamento como propões, para mim, seria tudo menos normal.
-Bom, dei-te a solução para darmos à Matilde, o lar a que ela, como todas as crianças tem direito. Disseste que eras capaz de dar a vida por ela. Não te peço tanto. Pensa bem, e logo que tenhas uma decisão telefona-me. Até lá não te importunarei.
Levantou-se e encaminhou-se para a porta, seguido por ela.
-Obrigada pelo jantar- disse ela.
- Fico à espera da tua chamada – respondeu Ricardo apertando a mão que a jovem lhe estendia



Atenção,  que ontem saíram dois capítulos.


11.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIX


Horas mais tarde, Paula descansava a cabeça no peito masculino. 
-Estás bem? - perguntou António acariciando-lhe o rosto.
- Melhor seria impossível. Amo-te - respondeu
- Repete. Esperei tanto para o ouvir que ainda me parece um sonho.
- Amo-te, amo-te, amo-te. Desde que entraste no meu escritório, e me inquietaste com aquela promessa de beijo, que não me deste. Já gostavas de mim nessa altura?
-Segundo o teu pai, apaixonei-me por ti, no seu escritório, quando tinhas nove anos.
-Não é possível. Por aquela garota triste e magricela? 
-Bom, eu creio que me apaixonei por ti há cinco anos, dias depois do meu regresso de França, quando me cruzei contigo no banco. Mas estavas noiva, e tentei por todos os meios esquecer-te, embora sem o conseguir. Mas é verdade que sentia um carinho especial por ti naquela época, embora acredite que era mais um amor de irmão. Afinal de contas, tinha uma irmã quase da tua idade. Amanhã, vamos para Sintra, - disse mudando de assunto. Vamos falar com o padre Celso e marcar a data de casamento. Depois vamos comprar o anel de noivado, e à noite vamos falar com o teu pai. Oxalá ele não me dê um tiro.
-O meu pai não é tão mau como pensas. Ele sofreu imenso com a morte da minha mãe e andou perdido durante anos. Sentia-se infeliz e descontava o seu sofrimento em quem o rodeava. Hoje está diferente. Tenho a certeza de que só quer a minha felicidade. Mas não falemos mais do meu pai. Vamos dormir? – perguntou
- Se quiseres, - respondeu ele - a boca buscando a dela, a mão esquerda abarcando-lhe o seio, com o polegar acariciando o mamilo, a mão direita, puxando-lhe o corpo de encontro à sua masculinidade, para que sentisse a sua excitação.
Ela riu baixinho, certa de que afinal nem tinha sono.

                                              *************

Tinha passado um ano desde aquela noite. Um ano que trouxe muitas mudanças mas que foi sobretudo de muita felicidade para o casal. Paula era uma mulher independente, não queria viver à sombra do marido, e ele concordara em que continuasse com a sua firma de eventos. Todavia pouco tempo depois do casamento, Paula  descobriu que estava  grávida de gémeos. Primeira gravidez já com trinta anos, e ainda por cima uma gravidez gemelar, o médico aconselhou muito repouso e pouco stress, pelo que ela chegou a pensar fechar a firma.  Porém um dia em conversa com a cunhada, Gabi disse-lhe que poderiam trabalhar juntas, pelo menos durante a gravidez. Paula assinaria os projetos e ela os executaria. E a verdade é que Gabi, revelou-se uma ajuda preciosa. Parecia ter nascido para aquela profissão, e Paula acabou propondo-lhe sociedade. Quando atingiu os seis meses, o médico exigiu repouso absoluto e dona Teresa, a sogra, mudou-se para a quinta a fim de estar perto dela para a ajudar no que precisasse. Era uma senhora amorosa, que a tratava com imenso carinho e Paula gostava muito dela. 
Naquele momento, a senhora insistia com a jovem, dizendo que tinha de comer o lanche que Alice a empregada preparara e colocara na mesa-de- cabeceira. Na cama, ao lado de Paula, um bebé dormia. De pé olhando-a com amor, António tinha nos braços o outro bebé. 
 Ouviu-se uma leve batida na porta  do quarto e dona Teresa foi abrir. Jorge, Cidália e Miguel entraram no quarto.
-Parabéns, - disse Jorge dando uma palmada amistosa, nas costas de António e dirigindo-se em seguida para o leito a fim de beijar a filha.
Depois voltou para junto do genro, deixando a mulher e o filho junto da jovem mãe.
-Esse é o meu neto? - perguntou mirando a carinha do recém-nascido.
-É o Martim,- respondeu António passando-lhe o bebé para os braços. A Mariana está ao lado da mãe.
Os dois homens encararam-se com um sorriso.  Durante aquele ano o ressentimento fora esquecido, não havia mais animosidade entre eles. Na cama, Paula, colocou nos braços do irmão a sua filha. O garoto pegou-lhe com extremo cuidado, os olhos rasos de água, comovido pela responsabilidade que era segurar nos braços a sua minúscula sobrinha.
Mais tarde quando eles partiram, António colocou os bebés nos respetivos berços, e sentando-se na beira do leito, beijou a mão da mulher.
-Meu Deus - murmurou,- não quero mais filhos. Passei as piores horas da minha vida antes de eles nascerem. Recriminei-me tanto pelo que estavas a passar.
-Não sejas tonto. Havemos de ter quantos Deus quiser. Afinal de contas, não temos problemas financeiros, e não nos falta amor para lhes dar.
- Mas e o teu sofrimento? Os enjoos, os pés inchados, as dores nas costas, as dores do parto? Não é justo.
-As dores da gravidez e do parto de qualquer mãe, é esquecido quando ela aperta o filho nos braços. Ou será que estás com ciúmes deles?- perguntou sorrindo.
Ele curvou-se e beijou-a. Não precisou falar. Aquele beijo disse-lhe tudo o que lhe ia na alma.

FIM

Como amanhã se festeja o dia da mãe em grande parte do mundo, (25 países) esta história não podia terminar de outra forma

10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVIII



A tensão acumulada durante aquelas duas semanas, a conversa com o pai e o irmão, a solidão dos seus quase trinta anos, tudo isso tinha fragilizado a jovem e a tinha feito chorar. Talvez fosse o seu relógio biológico que estivesse a dar sinais de envelhecimento. Ela não sabia. O que sabia é que sentia um aperto no peito e uma enorme vontade de chorar.
Ele não disse mais nada. Limitou-se a mantê-la apertada ao peito e aguardar que ela exteriorizasse toda a dor que a acompanhara durante tantos anos. Gradualmente os soluços foram diminuindo e finalmente cessaram. Por fim ela levantou o rosto para ele e murmurou.
-Desculpa, não sei o que me deu. Deves estar a pensar que sou doida.
Tentou levantar-se, mas ele segurou-a com firmeza.
- Não tenhas medo, nem vergonha dos teus sentimentos. Não pudemos viver uma vida inteira, carregando sentimentos que nos vão destruindo aos poucos, sejam eles desejos de vingança, frustração, ou carência afetiva. Descobri isso há pouco tempo.  
-Pensei que estavas zangado comigo. Não permitiste que me aproximasse de ti, nem sequer para me despedir, - queixou-se.
-E isso incomodou-te? Queres dizer que eu te importo um pouquinho?- perguntou ansioso.
Escondendo de novo o rosto no peito masculino ela confessou com uma única palavra.
-Sim
Ele levantou-lhe o queixo, e durante uns segundos procurou ler nos  olhos dela, a verdade daquela declaração. Depois a sua boca procurou a dela que se abriu para ele como o botão de rosa se abre para o raio de sol que a acaricia. O desejo tomou conta deles e o beijo inocente e tímido, tornou-se gradualmente mais intenso, exigente e possessivo, depois a sua boca percorreu-lhe o pescoço, a língua acariciando o lóbulo da orelha, as mãos infiltrando-se debaixo do top e recriando-se com o toque suave do corpo feminino, em carícias que a enlouqueciam, e a faziam soltar suaves gemidos de prazer.
 Trémula de paixão, Paula devolvia as carícias, as mãos acariciando-lhe a nuca, para descerem depois e se entregarem à tarefa de lhe desabotoar os botões da camisa, na ânsia de sentir sob as suas mãos, o calor do torso masculino. De súbito porém, ele parou e afastando-a um pouco disse com a voz enrouquecida pela paixão:
- Querida, estou louco de amor. Quero tanto fazer amor contigo, que me sinto enlouquecer de desejo. Porém se tu não o desejas, se queres parar, tem que ser agora. Mais um pouco e não vou ser capaz de me controlar.
Como resposta, ela levantou-se, pegou-lhe na mão e disse simplesmente:
-Vem
E de mão dada, guiou-o até ao seu quarto.  


O último capitulo sairá hoje ao meio-dia.

30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência do que acabara de acontecer, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.

reedição









28.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVII


Ana nem soube bem como chegou a casa. Sentia o corpo tremente como se estivesse cheia de febre. Como era possível que a sua vida se tivesse desmoronado assim em tão pouco tempo. Três meses antes ainda ela era uma rapariga alegre que saía quase todas as noites com um belo homem, que dançava, ria e sonhava com um futuro risonho, mais ou menos próximo. Depois, foi a desilusão, o perceber que Paulo nunca seria o homem da sua vida. Uma nova desilusão a juntar às duas anteriores. E agora, a sua vida tinha-se transformado num caos, um doloroso emaranhado de sentimentos que ela não sabia destrinçar.
Amara o irmão, como não tinha amado mais ninguém na vida. Ele era o seu ídolo, o seu anjo da guarda. Agora o irmão tinha morrido. Sim porque depois do amor que vira nos seus olhos, e sobretudo depois daquele beijo carregado de paixão, era uma imoralidade continuar a pensar nele como irmão.
Mas podia ela matar o irmão por uma ilusão de amor, que não sabia se não passaria disso mesmo?  A verdade é que o beijo, despertara-lhe sensações até aí desconhecidas. Mas isso seria amor? O que ia ser da sua vida daí para a frente? Saber que Simão se mantinha longe do país e da família por culpa dela, fazia-a sentir-se culpada, mas ao mesmo tempo, dava-lhe uma sensação de plenitude, saber que alguém a amava até aquele ponto.
Mas se depois de morto, o irmão, ela não fosse capaz de amar Simão como uma mulher ama o homem da sua vida?
Como poderiam conviver em família? Fosse como fosse sentia-se como um algoz, capaz de acabar com a felicidade de todos.
A meio da tarde do dia seguinte, ainda não tinha saído. Tinha os olhos vermelhos de chorar, estava mal-encarada, não tinha dormido nem comido nada desde o dia anterior.
Mas tinha tomado uma decisão. Tomou banho, carregou um pouco a maquilhagem, para disfarçar as olheiras, e bebeu um copo de leite frio. Pegou nas chaves do carro, na mala e saiu. Ia procurar refúgio junto da mãe. Francisca sempre a compreendera.

Reedição

Amanhã vou a Lisboa, fazer os exames na clínica onde serei operada aos faróis se o cirurgião lá for da mesma opinião que aquele que me viu aqui no Barreiro.



                                            

19.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXII


Epílogo

O Inverno acabara, a Primavera fazia-se sentir em todo o seu esplendor de cores e perfumes. 
Francisca acabara de adormecer as crianças e preparava-se para se deitar.   Afonso ainda estava no escritório, e ela sempre respeitava aquele espaço. Sabia que ele se refugiava ali para trabalhar. 
Olhou-se no espelho. Como estava diferente. Agora era uma mulher feliz, realizada. Tão diferente daquela  Francisca que foi casada com Jorge. Viu pelo espelho a entrada do marido e como se dirigia para ela. Sentiu os seus braços à roda da cintura, os olhos procuraram-se através do espelho.
-Amo-te! - Sussurrou-lhe ao ouvido.
Sem respondeu, voltou-se e ofereceu-lhe a boca entreaberta, pronta para o beijo.
Enlouquecia-o. Cada dia mais, como se fosse uma dependência. Pegou-lhe ao colo, e deitou-a na cama. Inclinou-se para ela.
- Espera, - disse ela colocando a sua mão no peito  masculino e empurrando-o suavemente. - Vamos conversar.
-Agora? - Em tom de lamento.
-Depois compenso-te. Prometo!
-Sendo assim, - parecia resignado.
-Sabes, o quartinho ali ao lado…
- O que é que tem? – Interrompeu impaciente
- Temos que trazer de novo para lá o berço. Vai ser preciso... 
Levantou-se de um salto
-Queres dizer…
- Que a família vai aumentar dentro de alguns meses.
Abraçou-a.
- Amo-te tanto! Tens noção de que me tornaste no homem mais feliz do mundo?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
Beijou-a com paixão.
- Conta, - pediu com voz rouca
E ela contou. Devagar frisando cada pormenor da fantasia tantas vezes sonhada, exacerbando  e levando ao limite o desejo do marido.
Quando ela se calou, ele estendeu-lhe a mão, ajudando-a a levantar-se.
- Vai, - sussurrou. Vamos convertê-la em realidade.
Feliz, ela encaminhou-se para o outro quarto

reedição


                                                        FIM

 Como não sou indiscreta, deixo à imaginação de cada um, o que se seguirá. Rsrsrs. Espero que tenham gostado.

Esta história, chegou ao fim, mas esta família ainda tem outra história para vocês. Vamos dar um salto de 25 anos e seguir a história. Estão de acordo?









17.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXIX




E então Afonso fez algo completamente inesperado. Puxou-a para si e beijou-a. Primeiro suavemente apenas aflorando os lábios femininos, depois dando aso ao amor que trazia no peito, e à paixão que lhe invadia o corpo, o beijo, foi-se intensificando, e quando sentiu que a mulher lho retribuía, enlaçando-lhe o pescoço, perdeu completamente o controlo.  As suas mãos percorriam nervosas o corpo feminino que palpitava junto ao seu. Amaram-se ali mesmo, no sofá do escritório, as roupas espalhadas pelo chão, os corpos cavalgando no ritmo da paixão, as bocas perdidas entre beijos e gemidos, os corações acelerando cada vez mais até ao êxtase final.
Momentaneamente apaziguado o fogo que os devorara, Afonso perguntou:
- Desde quando?
- Não sei. Penso que desde o dia do casamento, quando me cedeste o quarto e ficaste a dormir aqui.
- Tão depressa? E eu a pensar que suspiravas pelo falecido.
- Tonto. Ele foi o pai dos meus filhos. Se não tivesse morrido seria decerto o meu marido, para o resto da vida. Sou uma mulher fiel. Mas nunca foi um grande amor. E tu? Desde quando? Eu pensava que não reparavas em mim.
- Desde aquela noite que ficaste no quarto das meninas. Acordei às cinco da manhã. A porta do teu quarto estava completamente aberta, e não te vendo lá, fui ver as crianças. Tu e a Ana dormiam abraçadas. Tive inveja dela, sabes?
Ela riu feliz. Ele continuou.
- Os últimos tempos foram cada dia mais difíceis. Passava horas aqui fechado, ansiando por ir ter contigo apertar-te nos braços e fazer-te minha. Mas o medo de te perder era maior que o meu desejo.
-Medo de me perder? – Admirou-se ela. Porquê?
- Por causa da quinta cláusula do contrato.
-E o que diz a quinta cláusula desse bendito contrato?
- Não leste? Tens uma cópia.
- Não.
- Não leste? – Perguntou admirado
- Não tenho uma cópia.
- Não? Eu dei-ta.
- Sim. E eu rasguei-a.
-Quando?
- Quando percebi que te amava
-Meu Deus, tanto tempo perdido.
- Ainda estamos a tempo de recuperá-lo. Mas... não seria melhor continuarmos no quarto?
E dizendo isto, Francisca soltou-se dos seus braços e começou a apanhar as roupas dispersas pelo chão.

reedição





9.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE LI


Encostou-se mais a ele, o corpo tremendo, mais de ansiedade que de medo. Insistiu
- Não te atormentes mais, nem me tortures. Deixa de lutar contra fantasmas que só existem na tua cabeça.  Eu sou real, e o meu amor por ti, é tão real, quanto esta tempestade.
 Segurou-lhe o rosto entre as mãos, e aproximou o seu do rosto dele, até quase se tocarem. Insistiu:
- Beija-me. Agora. Ou não te perdoarei nunca.
Incapaz de resistir, por mais tempo, ele obedeceu.
E, tal como um rio, que no auge da tempestade, galga  margens e arrasta tudo à sua passagem, assim o beijo que os uniu, despoletou tal paixão, que destruiu  medos e inseguranças, deixando apenas um homem e uma mulher que se amavam, e se entregavam às primícias desse amor.
Lá fora chovia torrencialmente. Aos poucos a tempestade afastava-se, e a trovoada, ficava cada vez mais distante.
Mais tarde, quando a luz voltou, ela sussurrou:
Tens fome?
-Só de ti, - respondeu ele com paixão
Ela riu baixinho. E de novo as bocas se procuraram ansiosas, as mãos  se perderam nervosas, em carícias  delirantes,  e os corpos se envolveram na ancestral dança do amor.





************************************** - EPÍLOGO -******************************** 



Já se passaram mais de quatro anos, desde aquela noite de Dezembro.   Tempo em que muita coisa aconteceu na vida dos dois protagonistas desta história. 
Mariana recuperou os seus documentos, bem como a chave da sua casa.Continuou com as sessões de psicoterapia, durante algum tempo, até interiorizar que o sentimento de culpa, que quase a endoidecera, não tinha razão de ser.
 Casaram numa manhã de sol,no início da primavera. Numa cerimónia, simples e íntima, na presença de Luísa, da filha e do namorado desta, e de alguns amigos do noivo.
 Mariana, voltou à universidade e terminou o curso. Por seu lado, Miguel era cada dia mais respeitado por público, e críticos. O seu quadro,  " Folha em branco"., que retratava Mariana, naquele dia, entre a vegetação da falésia, tal como ele a vira, fizera o maior sucesso, e fora alvo de vários estudos, e muitas ofertas, mas Miguel não o vendeu. Tinha lugar de destaque na sua sala.  
Tinham vivido na casa dela, enquanto remodelavam aquele apartamento, e quando as 
acabaram voltaram para ali, e venderam a outra casa.
Mantinham Luísa como empregada. E Maria continuava a ser, a  sua melhor amiga, embora ela tivesse recuperado a antiga amizade de algumas colegas da Universidade.
Mariana estava cada dia mais bela, mais mulher, mais madura.
Irradiava felicidade.
Por vezes, ao olhá-la, voltava a insegurança de Miguel, o temor de a perder, o medo de que a jovem o trocasse por alguém da sua idade. Tinha esse medo enraizado no peito, muito embora lutasse contra isso todos os dias. Mas às vezes, era maior que as suas forças. Ensombrava-se-lhe o rosto, entristecia-se-lhe o olhar.
Atenta, Mariana afastava essa dúvida, com todo o amor que sentia pelo marido.
Ela sabe, que essa, é uma nuvem,  que ainda vai demorar a sair do horizonte de Miguel.
Mas  hoje é um dia especial. Miguel faz cinquenta e um anos. Daqui a pouco descerá do estúdio, sairão para jantar, e festejar com alguns amigos.  
Mariana acaba de se arranjar e espera ansiosa pelo marido. Ela tem uma prenda especial para ele.
Quando ele desce, ela enlaça-o e murmura-lhe  algo ao ouvido.
 -Verdade?- pergunta ansioso, mergulhando o olhar, naqueles olhos castanhos que tanto ama.
Acena afirmativamente  com a cabeça.
 Sentindo um nó na garganta, o coração batendo desenfreado no peito, ele aperta-a contra si, e murmura emocionado:
-Bendita sejas, Mulher!


FIM


 Elvira Carvalho.




10.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXI





Acabou a refeição, pagou e dirigiu-se ao hospital Eram duas horas, a mãe em princípio só sairia às três, mas se saísse mais cedo melhor. Ele já lá estaria para seguir com os pais para casa. O trabalho tinha estado meio abandonado por causa da situação familiar, o que tinha que fazer era voltar a embrenhar-se nele e esquecer Helena. Um dia, mais tarde, ia recordar aqueles dois dias como um sonho.
Encontrou o pai à saída do bar do hospital, onde fora comprar uma garrafa de água.
- A mãe sempre sai às três?
- Sim. Ela já está pronta e ansiosa por voltar a casa. Está só a aguardar que o médico venha do almoço e assine a alta. Mas… e a rapariga que disseste nos ias apresentar?
- Foi-se embora.
-Como assim? Sem te dizer nada?
- Ela despediu-se ontem. Disse que partia logo de manhã. E eu que sou um idiota romântico, não acreditei, e disse-lhe que a ia buscar para almoçar e vos ia apresentar. Pensei que ela estava tão interessada por mim como eu por ela. E quando cheguei ao hotel, tinha partido.
-Lamento filho. Mas se ela não se interessou por ti, é melhor que esqueças. Mulheres interessantes e solteiras não faltam neste país.
- O que me dá mais raiva, é que foi a única mulher até agora, com a qual pus a hipótese de uma vida em comum.  Tu sabes, que desde que a Olga morreu há doze anos eu nunca pensei numa mulher como companheira de vida. A Olga foi o meu grande amor de adolescente, era a minha princesa, começámos andar juntos, desde a minha festa dos treze anos, ela tinha onze. Depois aos quinze surgiu a maldita leucemia, que a levou menos de um ano decorrido. Eu tinha dezoito anos, e ela era a minha primeira paixão. Sofri tanto que nunca mais pensei em me dar, assim de peito aberto, a outra mulher. E a primeira vez que volto a interessar-me, olha o que aconteceu.
Tirou da carteira a folha de papel enrugado e estendeu-a ao pai. Ele leu-a e devolveu-a.
-Eu diria que é uma mulher sofrida. Não deve ter tido uma vida fácil, talvez tenha fugido por medo. Não tens como encontrá-la? Ela não deu morada no hospital para fazer a ficha?
- Ela estava magoada. Fui eu que fiz a ficha. Dei a morada do Hotel Ibis.
-E aceitaram? Não pediram a morada habitual?
- Na verdade, não.
- Aposto que a funcionária é solteira e tu fizeste um dos teus sorrisos encantadores.
- Nada disso. Apenas pedi para falar com o Dr. Ricardo Souto que como sabes é meu amigo.
- Então foi isso. É pena que não lhe tenhas ido pedir a morada. Terias como encontrá-la. Vamos para a enfermaria, o médico já deve ter assinado a alta e a tua mãe pode enervar-se com a espera.
Efetivamente o médico já tinha assinado a alta e feito as últimas recomendações à paciente, e ela encontrava-se pronta para partir. Porém a enfermeira informou Cláudio que a doente teria de ir de ambulância, ela não podia viajar tanto tempo sentada, muito menos por um cinto de segurança. Não podiam esquecer que ela tinha sofrido uma cirurgia de peito aberto. Telefonaram então para os bombeiros a solicitar uma ambulância, mas por falta de pessoal, uma vez que havia vários incêndios ativos, e as corporações deslocavam-se para onde eram mais precisos, só cerca das dezassete horas a ambulância chegou. A doente foi então transportada em maca, tendo o marido seguido com ela na ambulância.
Cláudio seguiu-os no seu carro.

19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVIII




Fizeram amor ali mesmo, no sofá da sala, ansiosos demais para aguardar a chegada ao quarto. Mais tarde, acalmada a tempestade que traziam dentro de si, e já no leito, voltaram a fazer amor, desta vez com menos paixão e mais amor. Depois Odete deitou a cabeça no ombro do marido e suspirou. Ele sussurrou.
- Amo-te tanto. Ia enlouquecendo de saudades.
- Estranho amor que não impede a traição.
- Traição? O que queres dizer com isso?
-Tu sabes. A Inês.
- A Inês, o quê - Perguntou afastando-a e sentando-se na cama.
- Porque pensas que me fui embora? - Perguntou ela, finalmente disposta a pôr a nu a dor que guardou durante quase quatro anos. Descobri a tua traição, e não conseguia viver contigo sabendo que me enganavas.
Ele pôs-se de pé sem se preocupar com a sua nudez. Estava pálido e furioso.
- Quer dizer que me abandonaste porque meteste na cabeça que eu tinha alguma coisa com a Inês?
- Não meti nada na cabeça. Eu sei que vocês eram amantes.
- Nunca fui amante da Inês, fui seu noivo, antes de te conhecer, e isso, eu próprio te contei. Depois que casei contigo não me deitei com mais ninguém. Que raio de homem, pensas que sou? E que tipo de mulher és tu, que pensando que eu sou esse ser amoral e promíscuo, foste capaz de fazer amor comigo?
Estava tão zangado que por momentos ela pensou que estava a falar verdade. Mas como podia ser, se ela tinha a prova?
Ele pegou na roupa e disse.
- Podes dormir aqui. Eu durmo no outro quarto. Amanhã podes partir. A obrigatoriedade de viveres nesta casa, terminou neste momento.
Dirigiu-se à porta. Ela enrolou-se no lençol e foi atrás. Agarrou-lhe num braço.
- Espera João, não podes estar a falar a sério. Vamos falar, esclarecer as coisas.
- Deixa-me. A hora de esclarecimentos perdeu-se no tempo. Saber que me abandonaste por uma suspeita ridícula e sem fundamento, que não confiaste em mim, nem foste capaz de me falar sinceramente, deixa-me doente. És a maior desilusão da minha vida. Nunca mais quero ver-te.
Saiu batendo a porta com estrondo. Ela atirou-se para cima da cama e durante muito tempo, chorou amargamente. Naquele momento teve a certeza de que o marido estava a ser sincero. Mas e aquela carta? Tinha sido uma intriga de Inês para separá-los? Depois de ter visto a dor e a raiva nos olhos do marido, não tinha a menor dúvida, no entanto continuava a fazer-lhe confusão, como aquela carta foi parar ao bolso do casaco dele, sem que de alguma forma tivessem estado juntos.
Já passava da meia-noite quando se levantou, tomou um duche, vestiu um pijama e voltou para a cama, pensando que tinha afastado de si a única hipótese de ser feliz.
Agora não havia volta a dar. O marido nunca lhe perdoaria. 
Tudo acabara de vez.





Parece que a história acabou. Qual é a vossa opinião? Ponho aqui um fim? Ou continuo?



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI

Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.









9.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXIII






Naquela noite, Amélia custou a adormecer. Desde a desilusão que sofrera com a traição do falecido, tornara-se uma mulher fria, racional, que vivia apenas para o trabalho e para o filho, para quem canalizou todo o amor que o seu coração era capaz de sentir, e que era simultaneamente o seu refúgio e a sua força. De repente, Paulo chegou, e não só derrubou a muralha que ao longo dos anos tinha construído à sua volta, como disputava consigo o amor de Martim. Dizia a si mesma que não eram ciúmes, mas a verdade é que o entusiasmo do menino pelo homem que devia ser um quase desconhecido, era cada dia maior. Por outro lado, ela ia casar-se com esse quase desconhecido, e isso assustava-a. Paulo era um homem bonito, de extraordinários sentimentos, (a doação de metade da herdade, que estava prestes a concretizar, provava isso mesmo,) e parecia-lhe impossível que se tivesse interessado por ela. Na sua vida, teria de certeza encontrado mulheres bem mais bonitas, livres e sem filhos. Seria verdade que estava apaixonado por ela? Verdade que a atração sexual entre os dois era muito intensa. Não se podiam tocar, que logo o desejo irrompia, com a força de um cavalo selvagem, correndo à desfilada pela pradaria.  Mas isso por si só não sustentaria o casamento. A paixão acaba depressa, geralmente pouco tempo depois que a novidade deixa de o ser. Encontrava-se muito dividida. Por um lado, estava ansiosa pelo casamento, por outro temia que depois viesse a desilusão. Paulo, era um homem sincero. Dissera-lhe que sentia vontade de ter uma família, queria que eles fossem a sua família. Era natural que um homem que tinha perdido os pais muito cedo, sentisse a necessidade do calor familiar. Mas isso não é amor. E Paulo, nunca dissera que a amava. Prometeu ser um marido apaixonado, é verdade, mas conseguiria sê-lo se o que sentia por ela se baseasse apenas na luxúria?
E ela? Amava-o ela, ou o que sentia era atração física pelo homem que despertou os seus sentidos e o seu corpo? Não, claro que não. Atração ela sentiu naquele dia na estrada quando ele saiu da mota e se dirigiu para eles. Mas quando voltaram a encontrar-se, quando ele se ofereceu para representar o pai de Martim na festa, ela passou a admirá-lo, e quando lhe falou dos seus sonhos, e dos sentimentos que sentia pelo caseiro e sua família, a admiração cedeu lugar ao amor.
E porque sentia que o amava, não como amara o marido, com uma adoração de adolescente, mas como uma mulher madura, que sabe o que quer, é que tinha tantas dúvidas. Ela não conseguiria resistir, se mais tarde, passada a novidade, Paulo se desinteressasse dela. Mesmo que ele continuasse a amar Martim e a ser um bom pai para ele. Ela não precisava de um pai para o filho. Quem precisava de um pai, era ele, Martim. Ela precisava de um homem que a amasse, que fosse um companheiro, um amigo, um amante. Isso era o que ela queria de Paulo, e do casamento. Acabou por adormecer tarde e acordou com olheiras.
Depois do banho, vestiu-se e foi para a cozinha, onde encontrou a avó a acabar o seu pequeno-almoço.


BOM FIM DE SEMANA