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26.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVII

 


Tiago aproximou-se da mulher que se encontrava de costas e abraçou-a. Baixou a cabeça e depositou um terno beijo no pescoço feminino, enquanto as suas mãos acariciavam a barriga proeminente de quem está em adiantado estado de gravidez. Sentiu como um empurrando e rindo disse:

-Ena começou cedo, os treinos de futebol, hoje o rapaz.

A mulher riu e iniciou o movimento de se voltar nos braços dele, e exatamente nesse momento Tiago despertou um tanto confuso, sem noção de onde estava.

Passou a mão pela testa suada e pensou que o aquecimento do quarto devia estar muito alto, pois não era normal estar a suar em pleno Natal. Ou seria efeito do sonho. Tentou lembrar de mais alguma coisa mas não conseguia recordar. E que quereria, dizer o sonho que acabara de ter? A mulher grávida era sua mulher, isso ele tinha a certeza. Quereria isso dizer que afinal nada grave acontecera com a sua parte sexual e reprodutora?

Depois de na véspera ter acordado com aquela bendita ereção, ele já sabia que a parte sexual funcionava, mas isso não queria dizer que a parte reprodutora estivesse igualmente bem. E podia ter uma vida sexual satisfatória e ser estéril. Então o sonho seria a confirmação do seu inconsciente de que tudo estava bem, ou apenas a resposta ao enorme desejo que ele tinha de um dia poder ter a sua família? E quem seria aquela mulher? E porque estava de costas? O que quereria dizer tal sonho?

-Bom dia, doutor! - Saudou Joaquim ao entrar no quarto arrancando-o aos seus pensamentos.

-Bom dia, Joaquim. Os meus pais já se levantaram?

-Já sim. Já tomaram o pequeno-almoço e saíram para irem à missa das oito. A senhora sua mãe, queria vir ao quarto, mas o seu pai, disse-lhe que era melhor deixarem-no descansar, viriam vê-lo depois da missa, - disse o caseiro enquanto puxava a cadeira de rodas para junto do leito.

-Acreditas em sonhos, Joaquim? Acreditas que eles nos queiram dizer alguma coisa?

- Sonhos? Acredito que existem, pois já tenho sonhado, muito ao longo da vida. Mas nunca entendi se o que sonhava tinha ou não algum significado para mim.   Quem era muito ligada nisso era a minha falecida sogra. Ela dizia que eles sempre passavam uma mensagem, e que a Bíblia, relata sonhos que avisaram reis de vitórias e derrotas, ainda antes do tempo em que Cristo andava pelo mundo. E as pessoas costumavam procurá-la, quando tinham sonhos que as deixavam intrigadas.

- Que pena que já não esteja entre nós, - disse Tiago dirigindo-se à casa de banho. Nos últimos dias ele começara a ir para o banho sozinho, utilizando a força dos braços para movimentar a cadeira.


21.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLI



Na casa o silêncio era rei absoluto. Estendido sobre a cama Tiago pensava em Anabela. Por mais que pensasse, desde que ela chegara à quinta há quase um mês, a vida na casa mudara. Isilda e o marido, falavam dela com carinho e admiração e inicialmente isso exacerbara a sua raiva, pois ele já tinha decidido que mais valia deixar-se cair no abismo da morte, do que lutar por uma vida em que estivesse morto como homem, pois mesmo que recuperasse o movimento total das pernas, nunca se sentiria mais do que um meio homem, um eunuco.

Porém ela conseguira impor a sua vontade e ele não podia deixar de admirar a sua força de vontade e o seu profissionalismo.

Tiago sentia-se perdido entre sentimentos complexos por aquela mulher, que não tendo uma beleza de estrela de revista era na verdade muito bonita. Por um lado havia uma grande admiração, um desejo de ganhar a sua amizade, por outro uma raiva sem fim, porque ele sabia que nunca mais podia aspirar a ter uma vida normal. Afinal tinham passado 5 meses depois do acidente, e nunca mais tinha tido uma ereção, nem sequer quando acordava de manhã com vontade de urinar.

A conversa de dias atrás com Anabela, mostrara-lhe uma mulher muito sofrida, embora ela não quisesse adiantar muito sobre a sua vida, pelo que Tiago telefonara ao tio e conseguira saber que era viúva e que o marido aparecera morto, segundo a polícia por um gangue qualquer.

A noite sem dormir, e o silêncio que reinava na casa, fizeram com que quase sem dar por isso Tiago caísse no sono.

E desta vez não foi o pesadelo que lhe veio ensombrar o descanso, mas Anabela. No sonho ele estava a trabalhar numa clínica onde ela era enfermeira. E não uma enfermeira qualquer, mas a sua assistente, em todas as cirurgias. E mais do que isso, eles estavam apaixonados. Naquele dia ele acabara de a pedir em casamento e de lhe colocar no dedo um lindo anel com uma esmeralda, a pedra preferida dela. E depois eles beijaram-se. O gosto dela era inesquecivelmente doce. O seu cheiro a champô e sabonete enlouquecia-o. E o beijo foi intenso, cheio de amor e paixão como são os beijos de quem está prestes a casar-se.

De súbito, o beijo era na testa, e a voz de Anabela, parecia-se demais com a voz da sua mãe.

-Tiago, meu filho, acabámos de chegar.  Como estás?

A custo ele abriu os olhos para ver a figura da mãe, inclinada sobre ele. Ia responder um tanto irritado, por ter sido obrigado a sair do sonho, quando uma sensação estranha o fez olhar para baixo e abrir os olhos de espanto, ao mesmo templo que estendia a mão e puxava rapidamente a colcha para cima, antes que a mãe se apercebesse da enorme ereção que indiscreta levantava as calcas do pijama.

 

1.10.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXVI

 

Três dias depois, Helena recebeu uma chamada do inspetor, dizendo que estava a caminho da sua casa. Ela quis saber se tinham descoberto alguma coisa, mas ele não respondeu e desligou o telefone deixando-a preocupada. Que teria acontecido. Entrou na sala, onde Fernando brincava com Diogo e disse:
- Diogo, vai brincar um pouquinho para o teu quarto. A mamã precisa falar com o tio Fernando.

A criança afastou-se e ela informou:
-O inspetor Morais, telefonou. Deve estar a chegar. Não me deu qualquer informação, sobre o que se passa.
Ele levantou-se nervoso, exatamente no momento em que a campainha da porta se fazia ouvir. 

Helena apressou-se a ir abrir a porta e a introduzir o investigador na sala.
- Boa tarde.
-Boa tarde, inspetor. Descobriram alguma coisa?
- Algumas, senhor Fernando. Sabe quem é este homem? – perguntou por sua vez o inspetor  tirando uma fotografia do bolso e mostrando-lha.
- Não. Mas eu já vi este homem. Lembras-te do sonho que te contei ontem?- respondeu ele voltando-se para Helena. Este foi o homem que me afastou, e não me deixou ver quem estava na urna.

- Que sonho foi esse? – perguntou o policial.
- Conta-lhe tudo. Eu vou só ver como está o Diogo, e já volto.

Quando voltou, Fernando acabara de contar todo o sonho.
- Muito interessante. Então agora oiçam o que nós descobrimos. Há três meses morreu na Póvoa, o senhor António Loureiro, um homem muito rico. Era viúvo e não tinha família a não ser um sobrinho neto, de nome Fernando Monte Real, um jovem pianista, muito estimado por quem o conhece. E um afilhado, chamado Joaquim Salgueiro. 
O falecido, deixou toda a sua fortuna ao sobrinho-neto, com a ressalva de que se o herdeiro morresse sem descendência, toda a sua fortuna passaria para o afilhado Joaquim.  O advogado disse-nos que o tinha convocado e que o senhor não apareceu, apesar de provavelmente ter sido por causa dessa convocação, que o senhor não viajou para a América com os restantes membros da orquestra.

Ora bem, já sabemos que o Joaquim não é flor que se cheire. Tem histórico de violência e os vizinhos não quiseram falar por medo de represálias. Pensamos que de algum modo ele soube do testamento e planeou  acabar consigo antes do senhor se encontrar com o advogado e receber a herança.

Embora, o Fernando não se recorde, no mesmo dia do funeral do seu tio-avô, com ajuda ou sozinho, deve tê-lo surpreendido. Agrediu-o selvaticamente, provavelmente mascarado, e julgando-o morto, abandonou-o a muitos quilómetros  de casa, não sem antes lhe roubar os documentos. Com eles terá viajado depois para os Estados Unidos, fez o registo no hotel em seu nome e de seguida terá voltado para Portugal já com a sua própria documentação. Como uma pessoa desaparecida não é considerada morta e a fortuna não poderia passar para ele, pensamos que algum tempo depois, de o Fernando ser dado com desaparecido na América, e acreditando que o meu amigo já estaria enterrado, ele voltaria a viajar para lá e faria com que os seus documentos fossem encontrados junto de algum indigente morto. Então as autoridades comunicariam connosco e ele poderia reclamar a herança como sua.

 Já estamos a examinar os registos dos voos provenientes da América naqueles dias, já que não há qualquer registo da saída dele para lá.
Todavia isto é a nossa conclusão mas sem provas nada podemos fazer e por isso pensámos preparar-lhe uma armadilha para o apanhar. Porém precisamos da sua ajuda.

24.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXIII







- Nenhuma – disse Helena, para quem aquela aventura vinha dar um ar de graça à sua vida tão rotineira.

- Muito bem. Tenho aqui a indicação da sua morada. Mas por todas as razões expostas, não aconselho o seu regresso. Teria que destacar um polícia para o proteger, o que poria de sobreaviso, quem quer que queira acabar consigo. Pela sua segurança, pela investigação, pelos cuidados médicos que decerto continuará a precisar, é aconselhável que continue com a doutora. Entretanto – acrescentou – vamos prosseguir as investigações, agora seguindo as pistas que a direção de orquestra nos forneceu. Segundo eles, o senhor é solteiro, vivia sozinho, e os seus pais já faleceram. Mas não sabem se tem familiares vivos. Não se lembra se tem irmãos, tios, sobrinhos? Alguém que tenha, consigo algum laço familiar, ainda que afastado?

- Não inspetor. A única coisa que recordei, que nem foi bem recordar, foi que quando a doutora Helena, disse que tinha de me arranjar um nome, imediatamente me veio à memória o nome de Fernando. Mas nem sequer sabia se era realmente o meu. Depois um dia tive um sonho que me deixou desconcertado. 

Contou ao inspetor o sonho, tal como antes o contara a Helena.

- Deveria falar com um psiquiatra. Pode ser que a sua memória vá aparecendo assim. Por agora está tudo dito. Entro em contato logo que tenha mais notícias. E já sabe, qualquer lembrança que tenha deve comunicar-me imediatamente. Por mais insignificante que pareça. Espero que a resolução deste caso seja a seu contento.

Levantou-se e estendeu-lhes a mão dando a conversa por terminada.
Saíram. A caminho do carro, ela perguntou:

-Que se passa? Porque estás com esse ar tão macambúzio? Não é bom saberes quem és?
- Saber o meu nome, não é saber quem sou, doutora. Não percebeste que o inspetor suspeita de mim? Não percebes que posso ser um facínora?
- Tenho a certeza de que não o és, Fernando. Quando te olho, há desespero, e ansiedade no teu olhar. Maldade não. E eu acredito no que leio nos teus olhos.
- Deus te oiça, doutora, Deus te oiça.



20.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXI

 






 Mal Helena pôs o carro a rodar, Fernando perguntou ansioso.
-Era o inspetor, não era?
- Sim. Já viu a notícia. Quer que vás lá com urgência, tirar as impressões digitais, para confirmar no arquivo centrar se correspondem às do pianista. Só depois disso avançam com a investigação, pois dizem que há pessoas muito parecidas, e tu não podes confirmar nada devido à amnésia. Vamos lá, logo a seguir ao almoço. Já telefonei à Marta, pedindo-lhe para ficar com o Diogo, enquanto vamos à esquadra. A Marta é minha empregada, desde que vim para Lisboa. Ainda não a viste , porque está de férias, mas prontificou-se a ficar com ele. É uma boa mulher e adora o Diogo.

Falava baixo de modo a que o menino não os ouvisse.

- Não tiveste mais nenhum sonho?
- Não. Cada dia que passa estou mais desesperado. Será que sou realmente o tal pianista? E se for? Mudará essa certeza alguma coisa na minha cabeça?
- Não fiques assim, - disse atenta à estrada. Às vezes, basta relaxar um pouco para que as coisas comecem a surgir.

Ergueu a voz e falou para o filho.
- Diogo a mamã está quase a entrar na autoestrada. Tens vontade de fazer xixi?
-Não mamã.
- Vê lá, filho, depois são muitos quilómetros sem poder parar.
-Já disse que não, mamã.

Pouco depois entravam na A1 em direção a Lisboa, e três horas depois estavam em casa, depois de uma breve paragem em Aveiras.
A empregada já os esperava. Mais, tinha feito uma sopa de creme de abóbora, e um Bacalhau à Lagareiro, para o almoço. “Para desenjoarem do cabrito assado”- disse a sorrir. Comprara também alguma fruta para a sobremesa.

Marta era uma cinquentona, cuja simpatia parecia ser proporcional ao seu avantajado corpo. Adorava a patroa e o seu menino, de quem cuidava, como se de um neto se tratasse. 
Foi igualmente simpática com o desconhecido, não demonstrando qualquer curiosidade a seu respeito. De resto, era evidente o carinho do “seu” menino pelo desconhecido, e isso era suficiente para ela.
Depois do almoço, Marta foi deitar o menino, e eles seguiram para a esquadra.


8.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVI

                                             



- Que se passa, Fernando? Dormiste mal, ou lembraste alguma coisa? – perguntou, mal ficaram sozinhos.
- Não se pode dizer que dormi mal. Agradeço-te mais uma vez a atenção que tens comigo. Mas tive um sonho esquisito, que não sei se tem alguma coisa a ver comigo, ou se é apenas um daqueles sonhos estúpidos que por vezes povoam os nossos sonos.
- Queres contar?

Ele recordou em voz alta, todos os pormenores do sonho, enfatizando o facto de o pianista não ter rosto.

- Achas que pode ter a ver alguma coisa comigo?´
- Não sei. Gostas de música?
- Muito. Mas isso não quer dizer que a toque, pois não?
- Claro que não. Mas se fosses profissional da música, decerto eras conhecido, e a polícia já saberia que tinhas desaparecido. A não ser que não fosses profissional, mas a ser assim também não irias atuar num tão grande auditório. Não se encaixa. Ouve, seria um daqueles concursos em que os amadores vão mostrar os seus talentos, na busca de se tornarem conhecidos?

- Não. Lembro-me de ter visto anunciado na entrada, um concerto. E uma sala daquelas, completamente cheia, deveria querer dizer que era alguém conhecido.
- Então não pode ter a ver contigo. A polícia saberia. Deve ser um daqueles sonhos sem nexo que todos temos.
Apetece-te almoçar fora? - perguntou mudando o rumo à conversa.
- Preferia fazê-lo aqui. Deves compreender que não me sinto bem, contigo a pagar todas as contas. Mesmo que digas que se trata de um empréstimo e que te pago quando recuperar a memória. É humilhante.
- Para mim não. Mas se te sentes melhor em pagar o almoço, passamos pelo multibanco e levas dinheiro.

Ele baixou o rosto e escondeu-o entre as mãos. O seu desespero era uma realidade, mas ela estava disposta a ajudá-lo. O porquê, era algo em que não queria pensar de momento.

-Não fiques assim. Quando menos esperares, tudo se resolve. Vamos despachar-nos, para ir às compras. Precisamos comprar duas ou três mudas de roupas para ti, amanhã vamos para casa dos meus pais e não vais andar todos os dias com a mesma roupa.
- Mas doutora, o que vão dizer os teus pais? E que vou dizer-lhes eu, quando me fizerem perguntas?
- Logo se verá.  Cada coisa a seu tempo. Não te preocupes com isso agora.


4.6.20

ISABEL - PARTE XVII

                                             
- E depois? Não falaram? Não trocaram número de telefone? Não sabes como encontrá-lo?
Isabel abanou a cabeça e então contou o encontro do dia anterior, e de como ela fugira da estação de serviço de Palmela.
-Ó Isabel, tu estás irremediavelmente apaixonada - sentenciou Amélia.
- Estás louca! - Como posso estar apaixonada por um homem que mal conheço? De quem, nem o nome sei?
- Sempre achei que a tua fortaleza, a tua indiferença para as coisas do coração, era mais aparente que real. És uma mulher dedicada e sensível. Basta ver como cuidaste dos teus pais. Julgaste viver um grande amor…
- Não julguei. Eu vivi um grande amor – interrompeu Isabel
- Será Isabel? Eras uma menina ingénua e sonhadora que nada sabia da vida. Aos dezoito anos, não nos apaixonamos pelo homem. Enamoramos-nos do próprio amor. O homem, vem por acréscimo. E se muitas vezes é o companheiro ideal, que nos vai acompanhar pelo resto da vida, na maior parte das vezes os príncipes não passam de sapos disfarçados, que transformam os nossos sonhos em pesadelos. Culpa deles, ou nossa? Provavelmente de ambos, não sei. Consegues olhar para ti hoje, e, comparar-te à Isabel que eras nesse tempo? Claro que não. Quem nos diz, que se o Fernando não tivesse partido,  teria acompanhado a tua evolução? Ou quem sabe, não ficaria lá atrás no seu cantinho? Quem sabe se vocês, seriam hoje um casal feliz, ou se estariam divorciados? Ninguém.
Mas tu assumiste que ele era o teu grande amor e criaste à tua volta uma espécie de casulo, onde te encerraste, com a tua dor. Por causa disso afastaste todas as hipóteses de viveres um novo amor. Um amor de mulher, mais madura, que conhece a vida, os seus sonhos e as suas dores.
Isabel permanecia com os cotovelos em cima da mesa e o rosto entra as mãos. No fundo ela sabia que a amiga tinha razão. Mas custava-lhe admitir a verdade, até para si própria. Amélia passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto carinhoso, e acrescentou.
- Se a vida te está dando outra oportunidade não a desperdices minha amiga. Quem sabe se é a derradeira? E nada pior, do que viver o resto da vida imaginando, o que ela poderia ter sido e não foi por sermos covardes.
- Mas eu não sei nada sobre ele. Nem sequer o nome. Apenas que tem uns olhos cinzentos que parecem mergulhar dentro de nós até ao mais ínfimo da nossa alma. E uma voz rouca, sensual…
- E um corpo alto atlético e moreno, e uns braços fortes onde gostavas de te acolher – riu Amélia.
- Não sejas assim, - disse zangada. Vamos-nos deixar de conversas e trabalhar. Marca as entrevistas para quarta-feira. Uma para as dez horas a outra para as quinze. Telefona à Dulce e pergunta se a campanha do início das aulas que lhe entreguei antes das férias está pronta, quero vê-la. Como foi o Paulo que a aprovou, gostava que ele a visse. Se a gravação estiver pronta, telefona-lhe e pede para ele passar por cá para a ver.
Amélia afastou-se e levando a mão à testa, imitou o gesto do militar perante um superior dizendo:

- Sim chefe.

18.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXVI



Surpreendes-me. Pensava que o sonho de todas as mulheres, fosse um lindo casamento, uma entrada na igreja, com um longo e belo vestido branco, e uma lua-de-mel, num lugar paradisíaco.
-Claro que é, quando os dois estão apaixonados e se trata de um casamento de amor. Não é o nosso caso. Outra coisa, pagarás as despesas da Matilde e da casa. Nada mais que isso, as minhas despesas pessoais serão minhas, pagá-las-ei com o meu ordenado, não quero um cêntimo teu.
- Não aceitarei uma condição tão absurda. Uma vez casada, as tuas contas serão minhas.
-Então desiste do casamento e procura outra solução.
- Dá-me uma razão lógica para tal atitude, - disse ele irritado.- Não me digas que és uma dessas feministas com a cabeça cheia de ideias idiotas.
-Não se trata de ser ou não feminista. Trata-se de que não quero sentir-me, como se me vendesse. Posso aceitar o casamento como sendo o melhor para a Matilde e por ela sacrificar-me. Mas não acredito que a perda da minha dignidade, lhe seja de algum modo benéfica. Está na tua mão aceitares ou não as condições.
Ele mordeu os lábios para conter um impropério. Não lhe agradava aquela situação, mas ainda lhe agradava menos que ela lhe lembrasse que o casamento era um sacrifício, especialmente depois da reação que aquele beijo lhe provocara. Mas que fazer? O melhor era aceitar todas as condições que ela impusesse. Depois de casados ele trataria de a fazer mudar de ideias.
-Aceito, embora me reserve o direito de tentar fazer-te mudar de ideias. Mais alguma coisa? – perguntou
- Sim. Não quero a Matilde em creches, enquanto não tiver dois anos. Deverá ficar com a Natália, a senhora que viste aqui no outro dia. É uma grande amiga, tem-me ajudado muito, e cuida da Matilde sempre que eu preciso de me ausentar, seja para trabalhar, ou para fazer compras. Gostam tanto uma da outra, que a Matilde chama-lhe  a "vó Táia". Algum problema?
- Problema nenhum. Quando podes ir comigo ao registo para dar andamento aos papéis?
- Amanhã, aviso no trabalho que preciso de sair por umas duas horas. Será tempo mais que suficiente para isso. De acordo?
- De acordo. Também quero visitar-te diariamente até ao casamento, e quero ver a menina acordada. Quero que ela se vá habituando a mim, para que não estranhe depois do casamento. Durante a semana, como estás a trabalhar, posso encomendar o jantar e jantaremos juntos. Alguma objeção?
- Nenhuma.
Ele levantou-se, dizendo:
-Então é melhor que me vá agora. Telefonas-me de manhã assim que puderes sair, e vou-te buscar. Até amanhã.
Encaminhou-se para a porta, seguido pela jovem. Aí deu-lhe um beijo rápido e saiu. Ela fechou a porta e encostou-se à mesma, com as pernas a tremer.



NOTA DA AUTORA 
O capítulo de ontem, parece ter surpreendido pela negativa. Pode ter parecido invulgar, surreal, eu mesma tive dúvidas ao escrevê-lo, não gosto muito de fugir da realidade. Porém estamos numa época em que algumas mulheres casam com homens que nunca viram, outras se mostram aos possíveis interessados como se fossem gado à espera de compra, e outras ainda vão dormir com qualquer um que acabam de conhecer. Postas as coisas neste ponto, que tem de especial que uma mulher queira saber, se não vai sentir repulsa pelo homem, com quem pode vir a passar o resto da vida, através de um beijo? 

17.5.19

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE III

Reedição



A partir daí, durante uma semana, todos os dias se falavam pelo telefone, cada um abrindo um pouco mais, a janela da sua alma para o outro.
Na Sexta-feira, da semana seguinte,  Ema anunciou que ia passar o fim-de-semana a Lisboa. Não informou quando chegaria, nem como, apenas pediu para ele ir ter com ela a um conhecido centro comercial,no sábado seguinte, local para onde se dirigia naquela manhã de Domingo.
Nessa noite, Abílio quase não dormiu de tanta excitação. O cabelo embranquecera, o rosto enrugara, mas o coração mostrava-se tão apaixonado, como se tivesse vinte anos. Abriu a velha caixa que o acompanhara toda a vida, mirou e remirou o monte de cartas amarelecidas pelo tempo, presas com um laço azul, sem saber se devia ou não levá-las para o encontro.  No Sábado perto da hora do almoço, sentiu-se mal. Tinha ido à rua buscar o pão e o jornal e de súbito, no regresso a casa, o dia escureceu de repente, o chão fugiu-lhe debaixo dos pés, sentiu que devia segurar-se a qualquer coisa, mas não foi capaz e depois de um estranho bailado acabou estatelando-se junto da porta do vizinho.
Incomodado com o barulho, este abriu a porta, e vendo o que se passava apressou-se a chamar os bombeiros que o levaram para o hospital, onde foi medicado, fez uma série de exames e ficou em observação. Sem ter como avisar Ema, temia que desiludida, ela voltasse para Braga sem se encontrarem. Finalmente já depois das dez da noite, convencidos os médicos, de que tudo não passara de um episódio provocado pela ansiedade e que não havia a temer, nenhum mal maior, foi-lhe dada alta.
Regressou a casa num táxi, e lá chegado mandou uma mensagem a Ema explicando-lhe  o sucedido. Ela respondeu-lhe que relaxasse, dormisse descansado e se encontrariam no mesmo local no dia seguinte às onze horas para almoçarem juntos.
Fosse pela resposta, ou pela medicação tomada no hospital o certo é que adormeceu rápido.
A meio da noite, sentiu que não estava sozinho. Abriu os olhos e a figura à Fernanda envolta num manto tão branco que feria os olhos, sorria-lhe junto da cabeceira da cama.  Transpirando, sentindo que estava a morrer, estendeu-lhe a mão. Mas ela não lhe pegou. Com uma voz doce, disse:
“Não meu querido, ainda não. Ainda tens um pedaço de vida para cumprir. Vim para te libertar desse remorso, que parece querer levar-te,  antes que o teu tempo se cumpra. Sempre soube que no teu coração havia outro amor. Mas nem por isso fui infeliz. Porque apesar disso, do jeito que podias e sabias, sempre me amaste, como amaste os nossos filhos, e nunca em momento algum senti que não estavas comigo. Fui muito feliz contigo, não tens que pedir perdão nem recriminar-te. Agora é hora de te libertares e viveres esse grande amor que já estava escrito nas estrelas, muito antes de eu chegar à tua vida. E quando pensares em mim, que eu seja uma doce lembrança, e não motivo de sofrimento. Agora vou, mas estarei sempre por perto para te proteger. Na brisa que te acaricia o rosto, na espuma que te molhe os pés na praia, no sorriso de uma criança no desabrochar de uma flor. Vai meu amor, vai ser feliz”
Acordou sobressaltado, com um raio de sol sobre a face. Oito horas? Mas como era possível ter dormido tanto? E a presença de Fernanda no quarto, afinal não passara de um sonho? Mas parecia tão real.
Levantou-se, tomou banho, vestiu umas calças de ganga, e uma suéter azul, uns ténis e saiu para a rua. Ia à padaria, mas antes tinha que bater à porta do vizinho para lhe agradecer tê-lo socorrido no dia anterior.
Às onze em ponto, entrou no local combinado para o encontro e o coração acelerou quando a viu. Ema tinha sessenta anos, mas não aparentava mais de cinquenta. Era uma bela mulher, e ao olhá-la, sentiu aumentar os seus receios. Sentia-se como se em vez de cinco anos os separassem vinte. Nesse momento sentiu uma impressão no rosto, como o suave roçar de uma pena, lembrou do que Fernanda lhe dissera no sonho e avançou confiante.
- Desculpa o atraso, querida. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim- disse depositando na bela face um suave beijo.
- Esperei por ti toda a vida, - disse ela sorrindo. Mesmo quando ainda não tinha consciência disso. Que diferença faz, meia dúzia de horas mais?
Sem mais explicações, deram as mãos e afastaram-se de dedos entrelaçados.

Fim


Maria Elvira Carvalho




11.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIX


Horas mais tarde, Paula descansava a cabeça no peito masculino. 
-Estás bem? - perguntou António acariciando-lhe o rosto.
- Melhor seria impossível. Amo-te - respondeu
- Repete. Esperei tanto para o ouvir que ainda me parece um sonho.
- Amo-te, amo-te, amo-te. Desde que entraste no meu escritório, e me inquietaste com aquela promessa de beijo, que não me deste. Já gostavas de mim nessa altura?
-Segundo o teu pai, apaixonei-me por ti, no seu escritório, quando tinhas nove anos.
-Não é possível. Por aquela garota triste e magricela? 
-Bom, eu creio que me apaixonei por ti há cinco anos, dias depois do meu regresso de França, quando me cruzei contigo no banco. Mas estavas noiva, e tentei por todos os meios esquecer-te, embora sem o conseguir. Mas é verdade que sentia um carinho especial por ti naquela época, embora acredite que era mais um amor de irmão. Afinal de contas, tinha uma irmã quase da tua idade. Amanhã, vamos para Sintra, - disse mudando de assunto. Vamos falar com o padre Celso e marcar a data de casamento. Depois vamos comprar o anel de noivado, e à noite vamos falar com o teu pai. Oxalá ele não me dê um tiro.
-O meu pai não é tão mau como pensas. Ele sofreu imenso com a morte da minha mãe e andou perdido durante anos. Sentia-se infeliz e descontava o seu sofrimento em quem o rodeava. Hoje está diferente. Tenho a certeza de que só quer a minha felicidade. Mas não falemos mais do meu pai. Vamos dormir? – perguntou
- Se quiseres, - respondeu ele - a boca buscando a dela, a mão esquerda abarcando-lhe o seio, com o polegar acariciando o mamilo, a mão direita, puxando-lhe o corpo de encontro à sua masculinidade, para que sentisse a sua excitação.
Ela riu baixinho, certa de que afinal nem tinha sono.

                                              *************

Tinha passado um ano desde aquela noite. Um ano que trouxe muitas mudanças mas que foi sobretudo de muita felicidade para o casal. Paula era uma mulher independente, não queria viver à sombra do marido, e ele concordara em que continuasse com a sua firma de eventos. Todavia pouco tempo depois do casamento, Paula  descobriu que estava  grávida de gémeos. Primeira gravidez já com trinta anos, e ainda por cima uma gravidez gemelar, o médico aconselhou muito repouso e pouco stress, pelo que ela chegou a pensar fechar a firma.  Porém um dia em conversa com a cunhada, Gabi disse-lhe que poderiam trabalhar juntas, pelo menos durante a gravidez. Paula assinaria os projetos e ela os executaria. E a verdade é que Gabi, revelou-se uma ajuda preciosa. Parecia ter nascido para aquela profissão, e Paula acabou propondo-lhe sociedade. Quando atingiu os seis meses, o médico exigiu repouso absoluto e dona Teresa, a sogra, mudou-se para a quinta a fim de estar perto dela para a ajudar no que precisasse. Era uma senhora amorosa, que a tratava com imenso carinho e Paula gostava muito dela. 
Naquele momento, a senhora insistia com a jovem, dizendo que tinha de comer o lanche que Alice a empregada preparara e colocara na mesa-de- cabeceira. Na cama, ao lado de Paula, um bebé dormia. De pé olhando-a com amor, António tinha nos braços o outro bebé. 
 Ouviu-se uma leve batida na porta  do quarto e dona Teresa foi abrir. Jorge, Cidália e Miguel entraram no quarto.
-Parabéns, - disse Jorge dando uma palmada amistosa, nas costas de António e dirigindo-se em seguida para o leito a fim de beijar a filha.
Depois voltou para junto do genro, deixando a mulher e o filho junto da jovem mãe.
-Esse é o meu neto? - perguntou mirando a carinha do recém-nascido.
-É o Martim,- respondeu António passando-lhe o bebé para os braços. A Mariana está ao lado da mãe.
Os dois homens encararam-se com um sorriso.  Durante aquele ano o ressentimento fora esquecido, não havia mais animosidade entre eles. Na cama, Paula, colocou nos braços do irmão a sua filha. O garoto pegou-lhe com extremo cuidado, os olhos rasos de água, comovido pela responsabilidade que era segurar nos braços a sua minúscula sobrinha.
Mais tarde quando eles partiram, António colocou os bebés nos respetivos berços, e sentando-se na beira do leito, beijou a mão da mulher.
-Meu Deus - murmurou,- não quero mais filhos. Passei as piores horas da minha vida antes de eles nascerem. Recriminei-me tanto pelo que estavas a passar.
-Não sejas tonto. Havemos de ter quantos Deus quiser. Afinal de contas, não temos problemas financeiros, e não nos falta amor para lhes dar.
- Mas e o teu sofrimento? Os enjoos, os pés inchados, as dores nas costas, as dores do parto? Não é justo.
-As dores da gravidez e do parto de qualquer mãe, é esquecido quando ela aperta o filho nos braços. Ou será que estás com ciúmes deles?- perguntou sorrindo.
Ele curvou-se e beijou-a. Não precisou falar. Aquele beijo disse-lhe tudo o que lhe ia na alma.

FIM

Como amanhã se festeja o dia da mãe em grande parte do mundo, (25 países) esta história não podia terminar de outra forma

15.2.18

A VIDA É ...UM COMBOIO -PARTE XLII


Dez anos depois.

Numa das melhores galerias de Lisboa, está patente uma exposição de pintura. O pintor do momento, apelidado pelos críticos como a grande revelação portuguesa do século XXI, tem os quadros da sua segunda exposição praticamente todos vendidos. A um canto da sala, o pintor, um homem alto, moreno, a beirar os cinquenta anos, totalmente vestido de preto, conversa com um casal inglês que acaba de comprar uma das suas obras, quando os seus olhos se iluminam a ver entrar uma figura feminina, na galeria. Acompanham-na, João, um rapazinho de nove anos, uma cópia fiel do Martim de há dez anos, e as gémeas Ana Rita e Joana de cinco anos, duas bonecas loiras, parecidíssimas com a mãe. Paulo anotou o endereço que o casal inglês lhe dava para o envio do quadro e delicadamente despediu-se deles e aproximou-se da sua família.
- Que surpresa agradável, - disse beijando-os.
-Tinha que os trazer, para que vissem como a tua arte é apreciada. O Martim vai chegar no fim-de-semana. Telefonou há uma hora. Está ansioso para ver a exposição. 
- Que bom. Tenho tantas saudades dele. Sabes, recebi há pouco um convite para expor numa galeria de arte no Marais, em Paris. 
- Parabéns, amor. Tu mereces, tens muito talento. 
-Logo conto-te. Agora desculpa não vos poder dar mais atenção, mas estão a chamar-me.
-Vai, querido. Nós vamos ver a exposição. Vamos meninos.
Enquanto olhava os quadros, e tentava que os filhos apreciassem a arte do pai, Amélia recuou no tempo e recordou aqueles dez anos de extrema felicidade. Três meses após o casamento, ela ficara grávida. Aproveitando esse facto, o marido convencera-a a deixar a sociedade de advogados e a aceitar um dos escritórios da firma, mantendo-se como advogada da empresa. Quando João nasceu, foi uma grande alegria, não só para o casal como para Martim. Mas Paulo continuava com o seu sonho de se dedicar à pintura, e sentindo-se frustrado com a vida de homem de negócios que levava. Amélia compreendeu que ele nunca seria inteiramente feliz se não desse asas ao seu sonho, e encorajou-o a arranjar um gestor, de modo a poder transformar o sonho em realidade. Depois de muito pensar, Paulo decidira-se. Sabendo que o cunhado era um dos melhores gestores do mercado, ofereceu-lhe sociedade na empresa de camionagem, em troca dele assumir a gestão da mesma. Com a quinta gerida por Alfredo e a empresa por Ricardo, podia enfim dedicar-se à pintura. Entretanto os anos passaram, ela voltara a ficar grávida, desta vez eram gémeos, e ele achou melhor contratar um novo advogado, que trataria de todos os assuntos jurídicos da empresa, pelo menos até que Amélia pudesse voltar, uma vez que ela não queria abandonar a sua carreira. 
Quando as gémeas nasceram, ela decidira dedicar-se apenas à família, e fê-lo até que as meninas fizeram três anos e ingressaram na escola. Nessa altura  voltou à firma, mais como assessora do irmão, do que como advogada, cargo que estava a ser muito bem desempenhado pelo atual advogado. Foi nessa altura que o marido fez a primeira exposição, que foi um grande êxito. E agora dois anos depois a nova exposição confirmava o seu talento. Tinham passado dez anos de intensa felicidade, em que os únicos desgostos que sofrera, foram as mortes de Augusta, e da avó Maria. As duas amigas partiram com um intervalo de um mês, vitimas da mesma doença, uma pneumonia. Nesse espaço de tempo, Ricardo, fora pai duas vezes, de duas meninas, e Martim terminara o Secundário e fora para a Universidade. Nos últimos meses estudara em Inglaterra ao abrigo do programa Erasmus. António e Paulo os filhos de Alfredo também estavam na Universidade. Um cursava Agronomia, outro Veterinária. Isso não seria possível sem a generosa doação do seu marido, ao irmão e criação. 
Martim, que continuava a ter uma relação muito especial com o pai,  aproveitava todas as oportunidades para estar na quinta. Continuava encantado com Matilde, a filha de Alfredo, hoje uma adolescente de treze anos, com quem ele dava longos passeios, a pé ou a cavalo, e com quem mantinha grandes conversas. Não se mostrava muito interessado nas jovens da sua idade, e os pais interrogavam-se, sobre que espécie de sentimento, ele nutria por Matilde.. Será que ia esperar por ela? 
Paulo tinha cumprido a sua promessa. O sonho que lhe parecera viver quando casara, nunca se transformara em pesadelo. Olhando-o do fundo da galeria, ela sentia o coração pleno de amor e no peito um enorme orgulho. Sorriu. Sentia-se a encarnação da própria felicidade.
 A hora do fecho da galeria chegou. Paulo acompanhou a esposa e os filhos   ao automóvel.
- Mãe, posso ir com o pai? - Perguntou João.
- Claro, filho.
 Paulo e o filho segui-los-iam no carro dele. Deixara de andar de moto quando as gémeas nasceram. A velocidade já não lhe dava o mesmo prazer de outrora, a vida era demasiado preciosa para a por em risco.
Enquanto punha o veículo a trabalhar e arrancava, pensou no agradável que era regressar a casa, brincar com os filhos, fazer amor com a sua apaixonada esposa, e sorriu.
O menino que perdera os pais, quase bebé, que tivera uma meninice triste, por não ter conhecido o carinho e os afagos dos seus progenitores, era um homem feliz.


FIM


Elvira Carvalho




E pronto o puzzle está completo.  Espero que tenha sido do vosso agrado. E já agora se me quiserem deixar algum reparo, alguma coisa que não gostaram, ou o contrário, estejam à vontade. É com vocês que eu vou aprendendo a ser melhor. Obrigada.

23.10.17

A RODA DO DESTINO -PARTE XXXVI




Na terça-feira, à tarde, Anete recebeu uma mensagem de Afonso. Dizia-lhe que no dia seguinte iria a Lisboa, e precisava falar com ela. Convidava-a para almoçar. Respondeu que estava a trabalhar, só tinha uma hora para o almoço, da uma às duas, costumava almoçar num café perto da clínica.
“Combinado, lá estarei.” - Respondeu ele.
Anete, ficou curiosa, por saber o que é que Afonso queria com ela. Tinha-o visto, duas vezes em Coimbra no domingo anterior e ele não lhe dissera nada.
Bom, a verdade é que, não houve oportunidade de falarem a sós.  A primeira vez que se viram, no adro da igreja, ele estava acompanhado pela mãe, e na segunda ela estava com a irmã, facto que o deixou espantado e não houvera maneira de falarem. Reparara no seu espanto quando as vira juntas, e ela lhe dissera que eram irmãs. Mas nada dissera, e decerto não seria por isso que queria falar com ela,
- Passa-se alguma coisa, Anete? – Perguntou Diana
Sobressaltou-se.
-Não. Porquê?
- Tens duas pessoas para atender e não chamaste nenhuma.
- Tens razão, estava distraída, - disse carregando no botão que chamava o número seguinte.
E o dia decorreu sem mais incidentes. `
À noite depois do banho e do jantar, telefonou à irmã a saber como estavam, e depois pegou no livro e leu os três capítulos finais.
Os dois últimos capítulos eram de uma violência extrema, e ela receou que a protagonista da história, acabasse morta às mãos do psicopata do marido, e ficou feliz por assim não acontecer e o romance acabar com a esperança de um futuro feliz. Apesar de toda a angústia que a parte final do romance lhe transmitira, ela gostara dele e disse a si mesma que queria ler outras obras daquele autor. Recordou que Salvador, lhe dissera, que a irmã tinha quase todos os livros dele. Na próxima vez que estivessem juntas, iria pedir-lhe se lhe emprestava algum.  E por associação de ideias, perguntou-se por onde andaria Salvador. O que estaria a fazer? Já teria tomado alguma decisão? Tinha sido tão estranho aquele serão quando regressaram de Coimbra. O que o levara a abrir-se com uma pessoa que conhecera há tão pouco tempo? E agora Afonso também queria falar com ela, Que quereria ele? Só lhe faltava agora, virar ouvido para confidências masculinas.
Foi à casa de banho, escovou os dentes e deitou-se.
Acordou no dia seguinte, com a cabeça pesada. Tinha tido um sonho bizarro. Via-se numa terra estranha, tentando fugir de dois homens que a perseguiam. Salvador e Afonso.
A manhã de trabalho intenso, só abrandou um pouco depois das onze.
 A clínica não fechava para a hora de almoço. Diana, ia almoçar ao meio-dia e quando regressava à uma, ia Anete. Durante aquela hora, uma tinha que assegurar o trabalho da outra, e executar o seu, o que só era possível porque era a hora de menos movimento.
Naquele dia não foi diferente, e quando Anete saiu para o almoço já Afonso a esperava à porta.
Cumprimentaram-se e seguiram para o café em frente.

Bom a Internet voltou. Mas não sei por quanto tempo. Esta manhã virá de novo o técnico. É a quarta vez num mês.Já refizeram a instalação, já mudaram o modem. Que será que vão fazer agora?


1.7.16

MANEL DA LENHA. - Parte XCVII



Depois desta viagem, foram muitas as que o filho proporcionou aos pais. Todos os anos, no Verão fechava o aviário e partia com os pais.para S. Pedro. Ficavam aí uma semana, e depois seguiam para outros sítios. O Gerês, o vale do Douro, Santiago de Compostela, as Beiras,o Algarve  e o Alentejo.
Sempre que estavam de partida, o Manuel ficava numa felicidade que nem criança com brinquedo novo. A mulher pelo contrário ia sempre resmungando, porque é que não iam pai e filho e a deixavam em casa. Em casa é que se sentia bem, e" re-beu-beu , pardais ao ninho" como dizia o marido com uma certa graça. Às vezes o filho sabia de uma festa, como por exemplo as de Campo Maior,  e na altura tinha o aviário a funcionar. Ele pagava a alguém para ficar a cuidar dele durante dois ou três dias e levava os pais. Claro que a Gravelina, não conseguia andar mais do que meia dúzia de metros, mas a cadeira de rodas ia sempre com eles e ela nunca deixou de ver nada por não ter mobilidade suficiente. 
E Janeiro de 98 começa com a Vitória de Jorge Sampaio nas eleições presidenciais. Em Março é aprovada na Assembleia a amnistia das FP-25, Sampaio é empossado no cargo, e Marcelo Rebelo de Sousa chega à presidência do PSD, no primeiro congresso depois do suicídio no mês anterior de Alexandre Gouveia, fundador do partido. Em Julho, Almeida Santos substitui Jorge Sampaio que por motivos de doença se manterá afastado até 7 de Agosto.
A 13 de Agosto, morre o marechal Spínola, uma personagem controversa, para uns um herói, que contribuiu para a implantação do regime democrático, para outros um homem dúbio, com uma enorme sede de poder, cujo contributo se deveu apenas ao sonho de vir a ser o todo poderoso Presidente do País. O que ele não esperava, era que o movimento dos militares, estivesse tão bem estruturado e fosse tão firme. Só teve consciência disso no próprio dia 25 de Abril quando tentou tomar as rédeas da revolução e se propôs rever e alterar o programa do MFA . Victor Crespo enfrentou-o dizendo; "Os blindados e tropas ainda estão na rua, se for preciso, continua-se com o golpe"
Dias depois morre  a jornalista Vera Lagoa.
Em Outubro D. Ximenes Belo e Ramos Horta, recebem o Nobel da Paz e no Congresso do PCP em Dezembro, Álvaro Cunhal, abandona a liderança do partido e passa a simples militante.
O ano terminou e seguiu-lhe outro numa rotina de dias e horas, na vida do Manuel, cuja única mudança eram as queixas de dores, uns dias mais intensas que outros, o que nem é nada de original, pois elas sempre aparecem com o passar dos anos e Manuel fez nesse ano 80 anos, de vida pesada, sempre por muito trabalho, e pobreza

28.5.16

E PORQUE HOJE É SÁBADO...

DEIXA




Deixa que a vida
não seja desespero
mas só vida.

Deixa que o mar
não seja túmulo
mas só mar.

Deixa que o sonho
não seja pesadelo
mas só sonho.

Exige
JUSTIÇA
PAZ
AMOR.

E vive...

Deixa
que a vida
seja vida,
e o mar
mar
e o sonho
sonho.
E luta
sofre
ama
e vive...

Essa vida
que não tens
mas anseias
conhecer.



26.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXVIII

       O Manuel e mulher, segurando a vela no baptizado da neta, ao colo da mãe


Nessa altura, a filha mais velha, trabalhava de novo na Seca do Bacalhau. A jovem que antes de ir para Angola, trabalhava na secretaria da Escola D. Fernando II em Sintra, e que durante os dois anos em que estivera em Luanda trabalhara como sabemos na secretaria do Colégio Marista, não conseguiu quando voltou a integração na escola. A prioridade de empregos era para os retornados, e ela não era retornada. Depois também havia o pormenor dos estudos. Ela tinha a prática de quase cinco anos de emprego em secretarias escolares. Sabia tudo sobre o trabalho, mas não tinha estudos. Havia entre os desempregados gente com toda a espécie de estudos, de modo que a jovem regressou ao trabalho na seca do Bacalhau onde fez a safra. Com menos esforço do que em outros tempos, (o trabalho estava muito mais mecanizado), mas também com muito menos alegria, pois havia menos gente, e  sobretudo gente mais velha. As jovens que em outros tempos trabalharam com ela, ou tinham arranjado outros empregos, ou tinham casado e dedicavam-se aos filhos e à lide doméstica.
Terminada que foi a safra, a jovem ficou em casa.
Depois das eleições para a Assembleia constituinte a 25 de Abril, realizaram-se a 27 de Junho as eleições para a Presidência da República, nas quais seria eleito Presidente o General Ramalho Eanes.
Naquele tempo, ir votar era uma alegria. O povo tinha bem presente o que tinham sido os anos do regime anterior e novos e velhos toda a gente ia exercer o seu dever de cidadania com vontade de que a democracia ainda bebé, ganhasse força e tivesse "pernas para andar"
 Em Julho o marido foi para o Algarve patrulhar as praias, e a jovem foi com ele. O marido era natural de Lagos tinha lá a família, e foi para lá que eles foram. 
O Manuel tinha um sonho desde há muitos anos. Havia de ir um ano às festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Desde menino, ainda lá na aldeia, já ouvia falar nelas, mas a vida nunca lhe proporcionou ensejo para realizar esse sonho.E foi assim que aproveitando as férias, a que passou a ter direito depois do 25 de Abril, foi em Agosto desse ano às ditas festas. E foi lá que receberam o telegrama contando que eram avós de uma menina, e que mãe e filha estavam bem. 
Terminada a época balnear, o genro do Manuel regressa à base no Alfeite, e o casal retoma a vida ali perto da casa paterna onde a filha vai a toda a hora encantada com a sobrinha.
Dias depois do baptizado da menina, da qual os avós foram os orgulhosos padrinhos, a mãe da bebé perguntou à irmã mais velha:

-Queres tomar conta da menina, quando eu regressar ao trabalho?
-Claro que sim, - respondeu de imediato o coração pulando de alegria.
- É claro que te vou pagar.
- Não precisas. Não fico com ela por dinheiro.
- Eu sei. Mas a outra pessoa eu ia pagar, por isso vou saber quanto é que estão a levar, e o que pagaria a outra, é o que te pagarei. E ainda fico a ganhar, pois estou mais descansada, deixando-a contigo, que se a deixasse com uma estranha.
E foi assim que a menina passou dentro em pouco a ser cuidada pela tia. A jovem vivia encantada com a bebé. Sempre adorara crianças e o facto de não poder ter filhos, fez com que se agarrasse ainda mais à sobrinha.
Os navios retornaram,  a safra foi-se fazendo, agora com uma ou outra greve pelo meio, os tempos  eram outros, o povo já não admitia certas prepotências.

27.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XVIII


Casas na Telha, hoje quase uma terra fantasma.

No inicio do ano da graça de 1949, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria.  E melhor que isso, com electricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires, o morador mais antigo, dos três que ficaram.
Em Abril, nasce a segunda  filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua aguardando o filho tão desejado.
E finalmente chegou o mês de Junho, o mês em que Gravelina daria à luz o segundo filho, acontecimento que se deu no dia 20. E o Manuel sofre nova decepção. A mulher dava à luz outra menina. 

Outra "racha" disse quando a parteira lhe comunicou o facto, e virou costas sem sequer querer ver a filha. Mas se ele tinha o coração ao pé da boca e sempre reagia a quente, esse mesmo coração era do tamanho do mundo, e logo se impunha. Não findou o dia, e ele já estava de novo encantado com a filha mais nova.
No inicio da nova safra, o Carlos, muda-se com a família, para a Seca de Alcochete, e em Outubro, o Manuel descobre que a mulher está de novo prenhe. Mais uma vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira de conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o gerente, e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta do casarão.
O gerente ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?”
Manuel não se importou. Começou por roçar os silvados e os chorões. Depois à volta da casa construiu uma capoeira onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão.

Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas.
Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez prenhe.

E chegámos à segunda metade do século XX.
Que começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome.  No país, cada vez se levantam mais vozes, contra o governo fascista. Porque o povo está cada dia mais pobre. E a repressão vai aumentando.
Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.
Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga.  Vai continuar a tentar ter um filho homem, ou vai desistir desse sonho, que na época é o sonho de todos os homens?