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28.3.20
ESTOU MESMO IRRITADA
Bom dia amigos.
Sou por natureza, uma mulher com uma enorme capacidade de compreensão o que faz com que dificilmente me irrite, embora tenha denunciado muitas vezes em contos ou poemas, situações que não me agradam. Adiante.
Pois agora com este vírus à solta por aí, estou a ficar irritada, não só pelos estragos que tem feito em todo o mundo, como por aquilo que ele pôs a descoberto.
Irrita-me esta UE, que ainda não descobriu o significado da palavra União, que em vez de se unir e procurar em conjunto vencer o perigo se está nas tintas, seguindo o lema de que cada um se vire como puder, havendo até um ministro de um dos países, da tal UE (ou desunião) com descaramento para pedir uma investigação sobre outro dos seus membros, que se mostra com grande dificuldade, por não ter capacidade orçamental, para lutar contra a pandemia.
Irrita-me que tenham havido, pessoas capazes de apedrejar um autocarro de idosos infectados, que se dirigiam do lar onde residiam, para outro local com melhores condições para serem cuidados. Essas pessoas nasceram de chocadeira, não têm pais? Nem se lembram que se não morrerem entretanto serão idosas daqui por uns anos quando vier por aí outro "corona" qualquer?
Irritam-me os jovens que andam a tossir e a espirrar para cima das pessoas de propósito e a publicar vídeos na Internet, mostrando o que fazem e incentivando outros a fazê-lo, como se a vida dos outros, possa tornar-se num jogo divertido para eles. E mais do que irritar-me, entristece-me, porque se eles são os homens de amanhã, que futuro podem encontrar aqueles que nascem agora?
Irritam-me pessoas como Trump, Bolsonaro, e Boris Johnson, tão endeusados que se julgavam capazes de impedir o vírus de entrar nas suas fronteiras, como se o dito cujo, fosse um qualquer cavaleiro mal armado, dos tempos medievais. E a estupidez de certas afirmações como "isto não passa de uma gripezinha", ou "nada acontece aos brasileiros" etc.
Irritam-me os apoiantes do Bolsonaro que difundem notícias falsas, em vídeos que dizem que "Trump já tem o medicamento que cura o covid 19, e o vai enviar gratuitamente para o Brasil por ser amigo do Bolsonaro. Tenho pena de não saber como tirar o vídeo que me enviaram pelo Messenger, para que vocês vissem a que ponto chegam. Fazem-me pensar nos ratos, atrás do tocador de flauta de Hamelin.
Irritam-me as pessoas que só sabem criticar, a maneira como em Portugal se está a lutar com este inimigo invisível, quando todos sabemos que nos outros países não se faz melhor e alguns são bem mais ricos do que nós.
E pronto é tudo por hoje, não vá eu engasgar-me com tanta irritação.
Bom fim de semana
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10.3.20
DIVIDA DE JOGO - PARTE V
O homem não respondeu. Pegou nas chaves, dirigiu-se para a porta, abriu-a e colocou-se de lado para ela entrar. Depois fez o mesmo e fechou a porta atrás de si. Então a sua mão agarrou-lhe o braço como se fosse uma tenaz, ao mesmo tempo que dizia com voz rude.
- Vamos lá, mocinha, vai levar-me para a sala, que precisamos ter uma conversa séria.
Qualquer coisa na voz dele, levou-a a obedecer, encaminhando-se para a sala. Aí chegados, ele empurrou-a sem muita delicadeza para o sofá, onde ela se deixou cair, pálida de medo e raiva. A tensão entre os dois era enorme.
Então ele rompeu o silêncio.
-Não sei como era o teu casamento, - disse tuteando-a – todavia a julgar pelo teu marido e pelo vício que o dominava, não devia ser muito feliz. Eu chamo-me André Ferreira Angeloni. Meio português, meio italiano, tenho trinta e três anos, e sou jogador profissional. Acredites ou não, nunca nos dez anos que percorro os casinos, em todo o mundo, tinha encontrado um indivíduo tão agarrado ao vício quanto o teu marido. Naquele dia ele tinha gasto todo o seu dinheiro, mas queria a todo o custo continuar a jogar. A banca não lhe cedeu mais fichas, provavelmente conheciam-no e sabiam que ele não poderia pagar. Então ele começou a percorrer as mesas abordando os jogadores, oferecendo-lhes a casa em troca de quem lhe desse meios para continuar a jogar. Eu estou cá há pouco tempo. Não conhecia o teu marido, mas não sei que diabo me passou pela cabeça, que me prontifiquei a trocar o que me oferecia pelo que desejava. Uma avultada quantia que ele trocou por fichas, para continuar a jogar. E claro, voltou a perder. E antes que fiques a pensar, em coisas escusas, eu nunca joguei com ele. No dia seguinte, ele não foi ao casino e dois dias depois, ouvi comentários sobre o seu suicídio. Nem sequer sabia que ele tinha feito um testamento a meu favor, nem que tinha incluído a cláusula de teres que viver comigo seis meses. Ainda não entendo porque o fez. Só o soube hoje no advogado.
A única coisa que tenho comigo, é o documento da dívida e a oferta da sua residência, e de todo o seu conteúdo, como penhora dela.
A única coisa que tenho comigo, é o documento da dívida e a oferta da sua residência, e de todo o seu conteúdo, como penhora dela.
Meteu a mão no bolso e tirou o documento, que lhe jogou para o regaço.
-Aí está. Podes verificar a data e as assinaturas. Dirás que a casa vale muito mais. De acordo. Mas de qualquer modo, depois do testamento que o teu marido fez, isso já não conta. Ele o fez, de livre e espontânea vontade, e em pleno uso das suas faculdades.
Além de jogador, eu sou um cidadão do mundo, cheguei há pouco tempo a Portugal, não sei quanto tempo vou ficar. Estou num hotel. Suponho que esta casa terá um quarto de hóspedes. Vou deixar-te só para que leias a carta do teu marido e prepares um quarto. Amanhã ao fim do dia, trago as minhas coisas. Não precisas ter medo de mim, não te digo que pudemos ser amigos, porque não creio que o desejes, mas posso garantir que não te farei qualquer mal. Juro.
Além de jogador, eu sou um cidadão do mundo, cheguei há pouco tempo a Portugal, não sei quanto tempo vou ficar. Estou num hotel. Suponho que esta casa terá um quarto de hóspedes. Vou deixar-te só para que leias a carta do teu marido e prepares um quarto. Amanhã ao fim do dia, trago as minhas coisas. Não precisas ter medo de mim, não te digo que pudemos ser amigos, porque não creio que o desejes, mas posso garantir que não te farei qualquer mal. Juro.
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21.2.20
OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLI
-A
minha filha faz um ano no dia catorze. Devias vê-la. É o bebé mais bonito do
mundo. Meu Deus, preciso ligar para casa. Devem estar numa aflição.
Com
o coração mais triste que dia de chuva, mas esforçando-se por não dar parte de
fraca, Luísa estendeu-lhe o telemóvel dizendo:
-
Liga-lhes. Conta-lhes o que te sucedeu, mas por favor não lhes digas onde estás, nem lhes fales de mim.
-
Porquê? – perguntou ele franzindo o sobrolho.
-
És um homem famoso. Se a imprensa sabe, que estiveste aqui durante todos estes dias, vão acampar aí à porta, tirar fotografias e encher-me de perguntas. Vão
encher as páginas de jornais, inventar histórias, espionar a minha vida, até ao berço, e eu não quero perder o meu
sossego.
- A
minha família tem o direito de saber que só estou vivo, graças a ti.
-Poderás contar-lhes tudo o que quiseres, quando voltares a casa, mas pede-lhes que não o revelem a ninguém. Tenho direito ao anonimato e não quero ver a minha privacidade invadida.
-
Respeitarei a tua vontade, fica descansada.
-
Podes telefonar do quarto estarás mais à vontade. Pede à tua mulher que avise a
polícia, para que interrompam as buscas no rio. Não se justificam os gastos de
dinheiro público, em buscas desnecessárias.
-
Vou telefonar à minha irmã. Sou viúvo.
-Lamento,
- respondeu, virando-lhe as costas, embora no íntimo tivesse gostado de saber que era um homem livre, que não tinha uma esposa à sua espera. Saiu da sala e foi para a cozinha. Meteu a loiça suja do
almoço na máquina, e depois refugiou-se no seu atelier.
Estava
desolada. Ela sabia que não podia ter-se apaixonado por ele. Era um
desconhecido, podia até ser casado, a sua razão avisara-a todos os dias, mas o
seu coração, não lhe dera ouvidos.
"Não
se domina um coração sedento de amor." - murmurou para si mesma.
-
Luísa!
- Estou
aqui no atelier, - respondeu apresando-se a secar as lágrimas.
-
Estás triste – disse estendendo-lhe o telemóvel. - Pensei que ficavas feliz por
eu ter recuperado a memória.
- E
é claro que fiquei. Mas habituei-me à tua companhia, vou sentir saudades.
Ele
pegou-lhe nas mãos e puxou-as fazendo-a levantar-se. Abraçou-a.
-Antes mesmo de ter recuperado a memória, já
tínhamos combinado esta manhã que eu partia hoje. As razões porque parto agora são
totalmente diferentes das que te expus esta manhã, porque agora sei, que não há nada nem
ninguém que nos impeça de ter uma relação, se os teus sentimentos forem tão
fortes quanto os meus. É verdade que nos conhecemos há poucos dias, mas sinto-me como se te conhecesse desde sempre. Também é verdade que não sou só. Tenho uma
filha que amo de todo o coração e que terás de saber, se és capaz de aceitar e
amar, como a primeira dos nossos filhos, se me aceitares a mim. Conhecendo a generosidade dos teus
sentimentos, acredito que a amarás como merece. Mas também sei, que os muitos
anos que vives em solidão, podem confundir o teu coração, pelo que a minha
ausência servirá para conheceres a força daquilo que sentes.
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29.7.19
LONGA TRAVESSIA - PARTE X
Quando naquela manhã, Teresa chegou a casa de Luísa, a amiga viu logo que a noite não tinha sido benévola para ela.
Teresa, saudou Tiago e entregou-lhe o filho, de quem se despediu com um beijo e as habituais recomendações.
Depois entrou no carro da amiga, que já a esperava para seguirem para o emprego.
- Estás pálida. Não conseguiste dormir?
Teresa que apertava o cinto de segurança, retorquiu:
- Tu dormirias se estivesses no meu lugar? Hoje mesmo vou começar a procurar emprego. Não será fácil, mas não posso continuar na “Tudilar”
- Porquê? Amaste-o tanto que ainda mexe contigo passados todos estes anos?
- Nem devias perguntar isso. Tu, melhor que ninguém, sabes que o amei mais do que tudo no mundo. Sofri muito. Não foi só o seu abandono, foi a falta de uma qualquer explicação, o que implica uma rejeição total ao meu amor e à minha pessoa. Tenho medo de não ser, suficientemente forte, para que não se reacendam sentimentos antigos. E não quero voltar a passar pelo mesmo.
- Já pensaste que pode ter casado?
- Não. Não acredito que alguém o tivesse interessado a esse ponto. Teria que ter mudado muito.
- Chegamos. Vamos lá a ver como corre o dia. Almoçamos juntas?
- Claro.
Separaram-se à porta do escritório. Teresa seguiu para o seu gabinete no outro extremo da empresa. Tirara o casaco e preparava-se para o pendurar quando o telefone interno tocou.
- Teresa? – Era a voz de Luísa
- Já tinha saudades de te ouvir – disse rindo. Até ela chegou o riso da amiga. Depois…
- Tê, ele deixou uma nota em cima da minha secretária. - Não precisava nomear quem deixara. As duas sabiam-no. - Quer todos os chefes de secção na sala de reuniões às 11 horas. Estou nervosa. Será que vai haver despedimentos?
- Não fiques. Logo se verá. Já avisaste mais alguém?
- Não. Vou fazê-lo agora. Até logo.
Desligou e ficou pensativa. Que quereria ele? Todos sabiam que a firma estava quase na falência. Será que ele ia despedir pessoal?
Trabalhava naquela empresa, há quase seis anos. Quando lá entrou, a situação era bem diferente do que estava hoje. Havia muitas encomendas, exportavam muito, mas também vendiam bem para o mercado nacional. Depois veio a crise, as encomendas começaram a diminuir, o preço dos o materiais subiram, e a situação começou a deteriorar-se.
Peço desculpa se continuo um tanto ausente, não está fácil conseguir tempo para blogar, enquanto os problemas atuais se mantiverem. Tenham no entanto a certeza que sempre que puder estarei convosco.
Peço desculpa se continuo um tanto ausente, não está fácil conseguir tempo para blogar, enquanto os problemas atuais se mantiverem. Tenham no entanto a certeza que sempre que puder estarei convosco.
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22.5.19
UM PRESENTE INESPERADO - PARTE II
Mais tarde, Isabel dava o almoço à sobrinha. Matilde era
uma bebé de quinze meses, grandes olhos cinzentos, provavelmente herança
paterna, já que na sua família todos tinham olhos castanhos. Também o cabelo
preto era diferente do cabelo da mãe da mãe e do seu, ambos, castanho-claro quase do tom do mel. No
resto, a boca, o narizito arrebitado era semelhante à mãe. Que saudades, Isabel
tinha da irmã, que se suicidara dez meses antes, deixando a menina então com
cinco meses a seu cargo.
Susana nunca fora
psicologicamente muito forte. Desde menina nunca soube gerir as suas emoções,
parecendo viver em constante conflito com o mundo inteiro, e com ela própria. Quando se
apaixonara, parecia estar mais forte, mas o descobrir que não passara de uma
aventura para o homem que amava, acabara por derrubá-la e entrou em depressão, que se agravara após o parto. Isabel cansara de insistir para que procurasse
ajuda especializada, mas Susana sempre se escusara. Até ao dia em que tomou a
trágica decisão de acabar com a vida.
Nesse dia, dissera-lhe que ia ter uma consulta, pediu-lhe
para cuidar da sua filha e saiu. Quando mais tarde, ela fora ao seu quarto vira em cima da cómoda aquela carta.
Lera-a tantas vezes que a sabia de cor.
“Isabel vou sair daqui a pouco para não voltar. A vida para mim nunca fez sentido e hoje mais do que nunca, sinto que não é aqui o meu lugar. Deixo-te a Matilde. Sei que a amas muito. Na verdade desde que ela nasceu, tu foste muito mais a sua mãe do que eu. E é o imenso amor que sentes por ela, que a salva, pois o meu vontade, era levá-la comigo. Na cómoda do meu quarto está a sua certidão de nascimento. Registei-a com o nome do pai, e peço-te que logo que possas, faças com que se conheçam. Não lhe digas mal dele. Eu não lhe tenho rancor. Apesar de tudo, o tempo que passei com ele, foi o mais feliz da minha vida. Perdoa-me minha irmã, se te faço sofrer, mas acredita que a minha partida, será o melhor para ti e para a Matilde. Eu nunca seria capaz de a amar como tu.
Susana”
Quando acabou de ler a carta, ficou desesperada. Bateu à porta da vizinha, pedindo-lhe se tomava conta da bebé e saiu desaustinada para
a rua tentando encontrar a irmã. Procurou nos arredores, telefonou a amigos.
Debalde. Ninguém a tinha visto.
Regressou a casa, desalentada. Recriminava-se por não ter
insistido mais com a irmã para procurar ajuda médica. A firma onde trabalhava
como secretária há quase seis anos ia entrar em falência e ela estava
preocupada com a certeza do desemprego que a esperava. Depois chegava a casa e
tinha de cuidar da sobrinha de cinco meses, pois a irmã passava os dias na
cama, e não ligava nenhuma à filha, que ia crescendo de boa saúde graças aos
cuidados dela e de Natália, a vizinha que cuidava da menina enquanto ela estava
no trabalho.
Não fora isso, e talvez ela se tivesse apercebido do
abismo onde a irmã tinha caído.
-Mãe, não …
-Não queres comer mais, meu amor?
-Não – disse a criança, reforçando a palavra com um gesto negativo
da cabeça.
Hoje não houve tempo para visitas. Passei o dia em Lisboa, entre tratar de documentos, ir ver o cunhado (Que teve um AVC) ao hospital e levar horas retida por causa da greve dos barcos foi um dia complicado.
Hoje não houve tempo para visitas. Passei o dia em Lisboa, entre tratar de documentos, ir ver o cunhado (Que teve um AVC) ao hospital e levar horas retida por causa da greve dos barcos foi um dia complicado.
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Um presente inesperado
27.11.18
UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV
Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos de verdade. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a dela, num beijo intenso, onde deixava expresso todo o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.
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19.11.18
ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXII
Francisca acabara de adormecer as crianças e preparava-se para se deitar. Afonso ainda estava no escritório, e ela sempre respeitava aquele espaço. Sabia que ele se refugiava ali para trabalhar.
Olhou-se no espelho. Como estava diferente. Agora era uma mulher feliz, realizada. Tão diferente daquela Francisca que foi casada com Jorge. Viu pelo espelho a entrada do marido e como se dirigia para ela. Sentiu os seus braços à roda da cintura, os olhos procuraram-se através do espelho.
-Amo-te! - Sussurrou-lhe ao ouvido.
Sem respondeu, voltou-se e ofereceu-lhe a boca entreaberta, pronta para o beijo.
Enlouquecia-o. Cada dia mais, como se fosse uma dependência. Pegou-lhe ao colo, e deitou-a na cama. Inclinou-se para ela.
- Espera, - disse ela colocando a sua mão no peito masculino e empurrando-o suavemente. - Vamos conversar.
-Agora? - Em tom de lamento.
-Depois compenso-te. Prometo!
-Sendo assim, - parecia resignado.
-Sabes, o quartinho ali ao lado…
- O que é que tem? – Interrompeu impaciente
- Temos que trazer de novo para lá o berço. Vai ser preciso...
Levantou-se de um salto
-Queres dizer…
- Que a família vai aumentar dentro de alguns meses.
Abraçou-a.
- Amo-te tanto! Tens noção de que me tornaste no homem mais feliz do mundo?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
Beijou-a com paixão.
- Conta, - pediu com voz rouca
E ela contou. Devagar frisando cada pormenor da fantasia tantas vezes sonhada, exacerbando e levando ao limite o desejo do marido.
Quando ela se calou, ele estendeu-lhe a mão, ajudando-a a levantar-se.
- Vai, - sussurrou. Vamos convertê-la em realidade.
Feliz, ela encaminhou-se para o outro quarto
reedição
14.9.18
HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE - A QUASE EXTINÇÃO DO BACALHAU
No início falei da pesca à linha. Mas porque esta pesca era muito dura, e arriscada, os pescadores sempre sonharam com uma maneira mais fácil de pescar o bacalhau. Daí que na primeira década do séc. XX apareceram os primeiros barcos arrastões de origem francesa. A Parceria Geral de Pescarias, sempre na vanguarda, manda construir um navio a vapor, arrastão, tentando assim competir com os já citados arrastões franceses e quem sabe se resultasse deixar de lado a pesca à linha. ( Recorde-se que a Parceria Geral de Pescarias tinha na altura quatro veleiros, o Argus, o Creoula, actual navio escola da Marinha de Guerra, o Hortense e o Gazela Primeiro, actual museu marítimo em Filadélfia.)
Partiu pois o Elite para a pesca nesse longínquo ano de 1909, mas a verdade é que se a sua prestação não foi famosa nesse ano, no seguinte foi ainda pior. A máquina apesar de demasiado grande, não tinha força suficiente para puxar as redes. Mas parece que o facto de os pescadores não estarem habituados a esse tipo de pesca, e o enorme consumo de carvão, também contribuíram em muito para o insucesso do arrastão Elite.
Por certo já todos ouviram falar do navio NRP AUGUSTO DE CASTILHO, heroicamente afundado, em 14 de Outubro de 1918 após luta desigual com o submarino U-139 da Imperial Marinha Alemã, a fim de dar fuga ao paquete S. MIGUEL em rota do Funchal para Ponta Delgada, transportando 206 passageiros. Agora o que talvez não saibam é que este navio era o mesmo arrastão Elite reconvertido e ao serviço da Marinha de Guerra.
Eis um pequeno excerto da história que poderão ler na integra AQUI
"No combate que se seguiu e que incrivelmente se prolongou por mais de duas horas, perdeu a vida o Comandante Carvalho Araújo e mais seis elementos da sua guarnição de 42 homens. A desproporção de forças era tão grande que o resultado do combate estava traçado desde o início bastando atentar-se no potencial ofensivo de cada um dos contendores. À data o patrulha Português já se encontrava artilhado com duas peças Hotchkiss, uma com o calibre de 65 mm em caça e outra de 47 mm em retirada, ao passo que o submarino U-139 dispunha de duas peças de artilharia de 150 mm e seis tubos lança-torpedos."
Voltando à Pesca do Bacalhau, a partir de 1942 os armadores viraram-se em força para a compra de navios arrastões. Mas foi a chegada do “Fairtry” um enorme navio de bandeira inglesa, que marcou o início do fim para a pesca do bacalhau do Atlântico, e na verdade para muitas das fainas no mundo.
Foto da net
Este era, o primeiro arrastão fábrica congelador, uma embarcação de vários milhões de dólares, equipada com todas as inovações do pós-guerra. Debaixo do convés havia uma fábrica de processamento com máquinas automáticas de filetes, refeições de peixe e um enorme conjunto de armazéns frigoríficos. Podia pescar sem parar 7 dias por semana, semanas sem fim, içando redes durante terríveis temporais de Inverno que facilmente deitariam abaixo a Estátua da Liberdade. Com radar, sonar, detectores de peixe, podia detectar e capturar cardumes inteiros de peixe com uma eficácia assustadora. Depois deste, outros vieram e cada vez maiores. A par destes navios fábrica, continuavam a ir à Pesca os veleiros de pesca à linha.
O Bacalhau começou a ser pescado cada vez mais cedo. Um Bacalhau precisa de cerca de seis anos para atingir a sua maturidade sexual e se poder reproduzir. De cada 20 bacalhaus bebés só um conseguiria sobreviver até essa idade.
A partir de 1968 aconteceu que os grandes navios apesar de toda a sua capacidade em detectar o peixe, não encontravam os grandes cardumes a que estavam habituados. Também não era para menos por essa altura existiam mais de 700 destes grandes navios fábricas, sendo que só a União Soviética possuía 400.
Por outro lado em Portugal cuja pesca continuava a ser feita à linha, os pescadores começaram a recusar embarcar, os salários eram de miséria, os riscos muito grandes, e por outro lado começava a vaga da emigração portuguesa, que apresentava menos riscos e dava mais dinheiro.
Daí até à última partida destes veleiros mediaram apenas 3 anos.
Mais tarde, em 1975 a Islândia decide alargar a sua ZEE (zona económica exclusiva) para 200 milhas, à volta da ilha, proibindo assim a pesca dentro dessa zona. Isto deu origem à “ guerra do bacalhau” com os navios patrulha islandeses a tentarem expulsar os barcos pesqueiros e a marinha inglesa a proteger estes.
Apesar de ambos os países pertencerem à NATO, esta manteve-se neutral e foi a diplomacia que acabou por resolver o assunto, e conduziu a um acordo entre as partes.
Em 1977 o Canadá resolveu seguir o exemplo da Islândia, alargou os seus limites para as 200 milhas, mas não teve a visão suficiente para diminuir ou cessar a pesca do bacalhau pelos seus arrastões. Chegou ao limite em 1992 quando fechou os bancos à pesca, encerrando fábricas e mandando para o desemprego mais de 2000 pessoas. Porém pode ter sido tarde de mais e nunca mais se conseguir recuperar o stock de bacalhau, porque os arrastões não destruíram apenas os cardumes de bacalhau, mas também terão alterado todo o ecossistema que ele precisava para a sua sobrevivência.
Em 1999, a E.U. instaurou um plano de longo prazo para a recuperação da população do bacalhau na região do Báltico. E em 2003, foi proibida a pesca de bacalhau com redes de arrasto, redes de cerco dinamarquesas e similares, no mar Báltico, no período de Abril a Maio.
Segundo a Greenpeace neste momento existe apenas um stock “saudável” de bacalhau no Mar de Barents no Norte da Noruega e da Rússia. Se as regras não forem infringidas e as quotas ultrapassadas poderá manter-se assim . O problema continua a ser com os arrastões fábricas. Porque as suas redes têm no fundo um cabo grosso que chega a pesar mais de 300 toneladas, que serve para as manter bem no fundo mas que arrastam tudo no fundo, provocando no ecossistema feridas incicatrizáveis.
Resta a esperança de criação em cativeiro. Mas a produção de bacalhau em cativeiro, em gaiolas flutuantes, enfrenta um sério obstáculo. É que contrariamente ao salmão, o bacalhau apenas come organismos vivos, não aceita ração. E se este obstáculo for ultrapassado no futuro, alguém acredita que o bacalhau terá o mesmo gosto de agora?
Fontes
http://vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt/91205.html
Marinha de Guerra Portuguesa
http://www.greenpeace.org/
e o conhecimento da autora, que tendo nascido e vivido toda a sua infância na Parceria Geral de Pescarias, ali trabalhou durante largos anos, já adulta.
Maria Elvira Carvalho
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1.9.18
FOLHA EM BRANCO - PARTE XL
Entretanto no estúdio, Miguel acendeu um cigarro. Estava nervoso. Não conseguia deixar de pensar que em breve, Mariana ia embora, da sua casa. E na mudança que isso ia trazer à sua vida. Ele podia voltar à sua antiga vida de boémio, mas sentia-se cansado e começava a questionar-se sobre a finalidade dessa vida.
Ultimamente já nem as saídas à noite lhe interessavam. A busca do prazer, pelo prazer, já o cansava. "Estou a ficar velho" ,- pensava.
A estadia da jovem lá em casa, tinha sido uma lufada de ar fresco na sua vida. Por causa dela, contratara Luísa, e passara a fazer as refeições em casa, coisa que não fazia, desde que os pais morreram. Ela enchia a casa, com seu jeito suave, os seus silêncios, os seus sorrisos. Aquecia-a com a sua presença. Agora a casa ia ficar vazia. E fria.
Começava a pesar-lhe a solidão. Tinha-se afeiçoado à jovem, gostava dela como se fosse seu pai. Mas não era, e portanto era natural que a jovem quisesse voltar à sua casa, e viver a sua vida longe dele. Mas doía-lhe. E como doía.
Como seria a vida dela, quando se fosse embora? Teria o pai, deixado à jovem, meios suficientes para a sua sobrevivência? E se assim não fosse? Do que ia ela viver, se não tinha mais ninguém no mundo? Talvez tivesse
Como seria a vida dela, quando se fosse embora? Teria o pai, deixado à jovem, meios suficientes para a sua sobrevivência? E se assim não fosse? Do que ia ela viver, se não tinha mais ninguém no mundo? Talvez tivesse
que abandonar os estudos e ir trabalhar. Mas em quê, se não tinha experiência de coisa nenhuma? E depois cada vez havia menos empregos e mais desempregados. Por outro lado, não lhe agradava que abandonasse os estudos. Ele podia pagar-lhos. Mas, ela aceitaria? Uma coisa era a jovem desmemoriada, carente e totalmente dependente dele. Outra bem diferente a jovem que ele tivera à pouco, na sua frente. A segurança com que ela dissera. “Deixemos isso para depois das festas” quando ele sugerira que teriam de ir ao Algarve, era prova evidente que a jovem se libertara e já não precisava dele.
Estava irritado, inquieto.
Não sabia o que se passava com ele, mas ficava sempre assim, quando pensava que um dia a jovem ia recuperar a memória e partir.
Ouviu as jovens conversarem em baixo, sinal de que já tinham regressado. Relaxou. Ficava mais calmo, quando a sabia por perto.
Na tela, exposta no cavalete, a jovem, deitada na relva, parecia querer perguntar-lhe alguma coisa.
26.8.18
FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI
Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
- Bom dia.
- Bom dia Miguel.
Vestia umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O almoço está pronto, Luísa?
- Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos almoçar? Não temos muito tempo.
Na sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
- Nervosa?
-Um pouco.
-Desculpa, quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração da exposição. Foram vinte e cinco telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de coisas que não podia descurar. Faltam quarenta e oito horas para a inauguração. Depois são mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A consulta foi demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente a Ressonância Magnética, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria. Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito, ele perguntou:
-Tens frio?
-Um pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio
-Vê se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida razão, ambos evitaram falar nela.
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19.5.18
10.5.18
28.6.17
SONHO AO LUAR - PARTE XVI
- Por voltar a ver, sim. Mas
vinha doido para ver a sua neta. Que se passa com ela?
- Não sei, Helder. Diz-me tu, porque a
queres ver? Desde quando sabias que era ela?
- Quase desde o primeiro dia. A dona Lucinda conhece-me desde sempre. Sabe da amizade que me unia à sua neta. Também sabe como fiquei meio perdido quando os meus pais morreram. Sei que pode parecer estranho que
tenha sido uma miúda, a fazer com que me reencontrasse, eu que
era já na altura um homem. Mas foi o que aconteceu. Ela era encantadora, tão simples, tão natural, e eu sentia-me feliz a orientá-la nas leituras, a mostrar-lhe o mundo como eu o via.
Era como se tivesse uma irmã mais nova, para amar e proteger. E esse sentimento
levou-me a recuperar da dor e desorientação em que a morte dos meus pais,
daquela forma trágica, me tinha deixado. Por muito estranho que pareça, dada a nossa diferença de idades, durante quatro anos, fomos os melhores
amigos do mundo. Depois um dia descobri que se tinha apaixonado por mim. Fiquei
zangado. Foi como se a vida me tivesse roubado de novo, como se a minha irmãzinha tivesse morrido. E de certa forma assim foi, já que desde esse dia, nunca mais fui capaz de a ver, ou de pensar nela, da mesma maneira. Senti-me
atraiçoado. Fui para Lisboa,
12.6.17
JOGO PERIGOSO - PARTE XXVIII
A dor que Daniela sentiu foi tão intensa que não resistiu. Sentiu que a visão se lhe nublava, teve a nítida sensação de que o chão vinha ao encontro da sua cabeça e mergulhou no abismo.
Acordou minutos mais tarde, estendida no sofá. Sentado ao
seu lado, David, passava-lhe uma toalha molhada pela testa.
- Sentes-te melhor? – Perguntou apreensivo.
- Já passou. Queres ou não ouvir-me?
-Achas que vale a pena? - Perguntou com amargura
-Achas que vale a pena? - Perguntou com amargura
-Talvez sim, talvez não. Tu dirás. Lembras-te, de me teres
perguntado porque me divorciei? Perguntaste se houve traição e eu respondi que
sim e não. Bom para ir ao princípio da questão, casei-me aos vinte e quatro anos, profundamente apaixonada,
sonhando com uma relação para toda a vida. Um ano depois de casada, Felipe
começou a questionar-me porque eu não engravidava, e ele queria logo ser pai. Consultei
um ginecologista, fiz vários exames e no fim ele disse-me que era estéril. Calculas
a dor que é para uma mulher de vinte e cinco anos, cujo marido a pressiona
todos os dias, para lhe dar um filho, saber que nunca vai poder fazê-lo? Foi como se o mundo inteiro ruísse à minha volta. Fiquei destroçada. Quando
contei ao Filipe, ele disse-me que não importava e durante alguns dias, eu acreditei
nisso. Mas foi sol de pouca dura. Pouco depois começou a marcar-me consulta em vários médicos, sempre
acreditando que um deles ia fazer o milagre. A minha vida, deixou de fazer
sentido, era um verdadeiro calvário, de médico em médico, de exame em exame.
David estava pálido. Percebeu a crueldade, que as suas palavras tinham representado, e a causa do desmaio da jovem, e recriminou-se por isso. Abraçou-a.
- Perdoa-me. Não precisas continuar, não quero que sofras.
- Tenho de o fazer. Não percebes que é um espinho que trago cravado no
peito? Deixa-me continuar. Ao fim de quatro anos, quando o último médico aconselhou o Filipe, a esquecer os filhos biológicos e a fazer uma adoção, ele pediu o divórcio.
Sofri muito. Não tinha sido traída por nenhuma outra mulher, fui traída pelo
meu ventre inútil. Jurei que nunca mais me ia interessar por nenhum homem, e durante mais de três anos, consegui viver apenas para o trabalho, mas
quando te conheci, esqueci todos os meus propósitos, e apaixonei-me que nem uma idiota. Espera,
deixa-me ir até ao fim, - disse colocando-lhe uma mão no peito e empurrando-o ao perceber que ele se inclinava para a beijar. -Via nos teus olhos, que me desejavas, e pensei que podia ser feliz mantendo uma relação de amante contigo. Tinhas fama de mulherengo, não te ias prender, não quererias mais do que isso, e eu poderia desfrutar desse arremedo de felicidade, pelo menos até que te cansasses de mim. Era um jogo perigoso, sabia que mais cedo ou mais tarde, te ia perder, mas enganava-me dizendo que teria tempo suficiente para me habituar à ideia. Tu
nunca quererias mais do que uma relação passageira, não tinhas que saber da minha inutilidade, como mulher. Mas depois
daquela noite, tu disseste que me amavas, que querias casar, e eu fiquei apavorada, - concluiu
com um soluço.
Ele apertou-a nos braços, e deixou um rasto de beijos no
rosto molhado.
Aceito a critica de que o David entrou a matar. Mas temos que convir não foi pior do que a Daniela fez aquando do pedido de casamento. Os dois usaram a crueldade como um escudo.
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11.4.16
MANEL DA LENHA - PARTE XLVII
foto do google
Na Seca havia cada vez mais trabalhadores,
cujos filhos tinham sido levados para a guerra nas colónias. Todos os dias o
pessoal aguardava a chegada da carroça do ti Abel, que trazia as compras e o
correio do Barreiro, já que não havia outro posto de correio mais perto, nem o
carteiro ia fazer distribuição à Seca. Muitos nem sabiam ler e recorriam a
companheiros que sabiam, para lhes ler as notícias que os jovens conseguiam
passar nos aerogramas, e lhes escrever a resposta.
Às vezes eles escreviam o que não deviam,
segundo a óptica do governo, e essas notícias nunca chegavam à família, que
andava numa aflição sem saber porque não escreviam os filhos, ou os maridos, pois havia entre os militares mobilizados muitos que já eram casados, e alguns até pais.
No início de Abril é assassinado outro dos
homens que Manuel muito admirava. Martin Luther King.
Revoltado dizia: “Este mundo está perdido.
Como é que alguém tem coragem de assassinar um homem tão bom, que só prega a não-violência?”
E a mulher respondia: “Não era melhor que
Cristo, e como sabes também O mataram “
Quase no final de Abril, com a safra
praticamente terminada, comemoram-se os quarenta anos de governo de Salazar,
com algumas inaugurações. No dia seguinte o ditador fará 79 anos, e como prenda
em Matosinhos cinco mil pescadores entram em greve.
Pouco depois, a safra termina, e os últimos
trabalhadores regressam às suas aldeias de origem onde esperarão ansiosos que
os barcos regressem em Outubro.
Nos primeiros dias de Junho, outro assassinato nos EUA, daria que falar no mundo inteiro. Comentava-se que uma maldição caíra sobre a família Kennedy, pois desta vez o assassinado fora Roberto, então Senador de Nova Iorque.
Nos primeiros dias de Junho, outro assassinato nos EUA, daria que falar no mundo inteiro. Comentava-se que uma maldição caíra sobre a família Kennedy, pois desta vez o assassinado fora Roberto, então Senador de Nova Iorque.
Em Julho um acontecimento caricato mas que
demonstra bem a mão de ferro do governo Salazarista. Uma greve da Carris, termina com um
agradecimento formal e público dos trabalhadores ao ditador, transmitido para
todo o país pela TV
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