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27.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXII





O tempo não pára, os dias de inverno, são curtos e passam rapidamente. 
É extraordinária a facilidade com que os jovens estabelecem relações de amizade. Parecia que as duas jovens, se conheciam de toda a vida. Apesar de ter ficado sem pai há pouco tempo, Maria era uma jovem alegre e extrovertida. Namorava um colega, que a julgar pelo seu entusiasmo era a oitava maravilha do mundo, e, tirando a escassez monetária, era uma jovem feliz e sem problemas. Mariana era a antítese. Mas como diz a sabedoria popular, os pólos atraem-se.
 A exposição de Miguel fora um êxito, as obras foram todas vendidas, algumas para o estrangeiro.
As duas jovens, foram juntas ver a exposição, no dia seguinte ao da inauguração. Embora tivessem reacções diferentes, Maria parecia não estar habituada àquele ambiente, enquanto Mariana estava à vontade, mas ambas “viajaram” para locais lindíssimos através dos quadros expostos. O pintor, encontrava-se rodeado de várias pessoas, a maioria das quais, mulheres muito bonitas. Irritada, Mariana quase se arrependeu de ter ido.
Preparavam-se para sair, mas antes aproximaram-se de Miguel.
Maria cumprimentou efusivamente o pintor.
-Parabéns. Os quadros são lindos. O senhor é um génio.
-Quem dera, quem dera, - disse sorrindo divertido.
Logo se voltou para Mariana:
-E tu? Gostaste?
- Como não? São muito bons. Mas  não vi o quadro daquele lugar…
- Não faz parte da exposição.
-Porquê? Não o acabaste?
Não teve tempo de responder, pois um casal, chamava a sua atenção, e teve de se afastar.
Mariana continuava as suas sessões semanais de psicoterapia, mas exceptuando o facto do médico, ter mandado parar com a medicação, tudo estava quase  na mesma. Quase, porque eram cada vez mais frequentes , os lampejos  de rostos, e ruas , que apareciam e desapareciam sem que ela soubesse quem eram ou de onde eram.
O Natal aproximava-se a passos largos, montras e ruas cobriam-se de luz e cor.
Miguel passava longas horas no atelier. À noite quase sempre saía.
A jovem sentia-se “abandonada”. Não lhe apetecia ver TV. Os livros, começavam a aborrecê-la. Quase todos falavam de amor, de gente apaixonada e feliz. Coisa que ela começava a duvidar de vir a ser algum dia.
Porém naquela manhã, antes de subir para a mansarda, Miguel disse.
-Logo depois de almoço, vamos sair. O Natal é já para a semana, precisamos prepará-lo. Vamos às compras.
Sorriu, o coração batendo acelerado.

9.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXIII






Naquela noite, Amélia custou a adormecer. Desde a desilusão que sofrera com a traição do falecido, tornara-se uma mulher fria, racional, que vivia apenas para o trabalho e para o filho, para quem canalizou todo o amor que o seu coração era capaz de sentir, e que era simultaneamente o seu refúgio e a sua força. De repente, Paulo chegou, e não só derrubou a muralha que ao longo dos anos tinha construído à sua volta, como disputava consigo o amor de Martim. Dizia a si mesma que não eram ciúmes, mas a verdade é que o entusiasmo do menino pelo homem que devia ser um quase desconhecido, era cada dia maior. Por outro lado, ela ia casar-se com esse quase desconhecido, e isso assustava-a. Paulo era um homem bonito, de extraordinários sentimentos, (a doação de metade da herdade, que estava prestes a concretizar, provava isso mesmo,) e parecia-lhe impossível que se tivesse interessado por ela. Na sua vida, teria de certeza encontrado mulheres bem mais bonitas, livres e sem filhos. Seria verdade que estava apaixonado por ela? Verdade que a atração sexual entre os dois era muito intensa. Não se podiam tocar, que logo o desejo irrompia, com a força de um cavalo selvagem, correndo à desfilada pela pradaria.  Mas isso por si só não sustentaria o casamento. A paixão acaba depressa, geralmente pouco tempo depois que a novidade deixa de o ser. Encontrava-se muito dividida. Por um lado, estava ansiosa pelo casamento, por outro temia que depois viesse a desilusão. Paulo, era um homem sincero. Dissera-lhe que sentia vontade de ter uma família, queria que eles fossem a sua família. Era natural que um homem que tinha perdido os pais muito cedo, sentisse a necessidade do calor familiar. Mas isso não é amor. E Paulo, nunca dissera que a amava. Prometeu ser um marido apaixonado, é verdade, mas conseguiria sê-lo se o que sentia por ela se baseasse apenas na luxúria?
E ela? Amava-o ela, ou o que sentia era atração física pelo homem que despertou os seus sentidos e o seu corpo? Não, claro que não. Atração ela sentiu naquele dia na estrada quando ele saiu da mota e se dirigiu para eles. Mas quando voltaram a encontrar-se, quando ele se ofereceu para representar o pai de Martim na festa, ela passou a admirá-lo, e quando lhe falou dos seus sonhos, e dos sentimentos que sentia pelo caseiro e sua família, a admiração cedeu lugar ao amor.
E porque sentia que o amava, não como amara o marido, com uma adoração de adolescente, mas como uma mulher madura, que sabe o que quer, é que tinha tantas dúvidas. Ela não conseguiria resistir, se mais tarde, passada a novidade, Paulo se desinteressasse dela. Mesmo que ele continuasse a amar Martim e a ser um bom pai para ele. Ela não precisava de um pai para o filho. Quem precisava de um pai, era ele, Martim. Ela precisava de um homem que a amasse, que fosse um companheiro, um amigo, um amante. Isso era o que ela queria de Paulo, e do casamento. Acabou por adormecer tarde e acordou com olheiras.
Depois do banho, vestiu-se e foi para a cozinha, onde encontrou a avó a acabar o seu pequeno-almoço.


BOM FIM DE SEMANA