Naquela noite, Amélia custou a adormecer. Desde a desilusão que sofrera com a traição do falecido, tornara-se uma mulher fria, racional, que vivia apenas para o trabalho e para o filho, para quem canalizou todo o amor que o seu coração era capaz de sentir, e que era simultaneamente o seu refúgio e a sua força. De repente, Paulo chegou, e não só derrubou a muralha que ao longo dos anos tinha construído à sua volta, como disputava consigo o amor de Martim. Dizia a si mesma que não eram ciúmes, mas a verdade é que o entusiasmo do menino pelo homem que devia ser um quase desconhecido, era cada dia maior. Por outro lado, ela ia casar-se com esse quase desconhecido, e isso assustava-a. Paulo era um homem bonito, de extraordinários sentimentos, (a doação de metade da herdade, que estava prestes a concretizar, provava isso mesmo,) e parecia-lhe impossível que se tivesse interessado por ela. Na sua vida, teria de certeza encontrado mulheres bem mais bonitas, livres e sem filhos. Seria verdade que estava apaixonado por ela? Verdade que a atração sexual entre os dois era muito intensa. Não se podiam tocar, que logo o desejo irrompia, com a força de um cavalo selvagem, correndo à desfilada pela pradaria. Mas isso por si só não sustentaria o casamento. A paixão acaba depressa, geralmente pouco tempo depois que a novidade deixa de o ser. Encontrava-se muito dividida. Por um lado, estava ansiosa pelo casamento, por outro temia que depois viesse a desilusão. Paulo, era um homem sincero. Dissera-lhe que sentia vontade de ter uma família, queria que eles fossem a sua família. Era natural que um homem que tinha perdido os pais muito cedo, sentisse a necessidade do calor familiar. Mas isso não é amor. E Paulo, nunca dissera que a amava. Prometeu ser um marido apaixonado, é verdade, mas conseguiria sê-lo se o que sentia por ela se baseasse apenas na luxúria?
E ela? Amava-o ela, ou o que sentia era atração física
pelo homem que despertou os seus sentidos e o seu corpo? Não, claro que não.
Atração ela sentiu naquele dia na estrada quando ele saiu da mota e se dirigiu
para eles. Mas quando voltaram a encontrar-se, quando ele se ofereceu para representar o pai de Martim na festa, ela
passou a admirá-lo, e quando lhe falou dos seus sonhos, e dos sentimentos que
sentia pelo caseiro e sua família, a admiração cedeu lugar ao amor.
E porque sentia que o amava, não como amara o marido, com
uma adoração de adolescente, mas como uma mulher madura, que sabe o que quer, é
que tinha tantas dúvidas. Ela não conseguiria resistir, se mais tarde, passada
a novidade, Paulo se desinteressasse dela. Mesmo que ele continuasse a amar
Martim e a ser um bom pai para ele. Ela não precisava de um pai para o filho.
Quem precisava de um pai, era ele, Martim. Ela precisava de um homem que a
amasse, que fosse um companheiro, um amigo, um amante. Isso era o que ela
queria de Paulo, e do casamento. Acabou por adormecer tarde e acordou com
olheiras.
Depois do banho, vestiu-se e foi para a cozinha, onde
encontrou a avó a acabar o seu pequeno-almoço.
BOM FIM DE SEMANA
BOM FIM DE SEMANA
