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1.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como um raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem até S. Pedro é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Pedro, acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço, cheio de fome pois não tinham jantado. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz, do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa, capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.


13.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXII


- Uma família. Por muito bem que um homem se sinta sozinho, chega um dia, em que acorda com as pernas trôpegas e os cabelos brancos e sente a falta de uma família.
-Podia dizer que não és pobre a pedir, porém  tu és um homem atraente, rico, ainda não tens quarenta anos, segundo deduzi pelo que disseste há dias, acabaste de dizer que  tens uma boa casa. Se não tens uma família, é porque não queres. A menos que tenhas alguma doença. É isso? Ou não podes ter filhos?
- Não é nada disso. Já te disse que não acredito no amor – calou-se por momentos como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas para a convencer. Mas na verdade, relembrava o seu casamento, e a maneira infantil como se tinha deixado ludibriar por Ivone. - Para te ser sincero, não tenho nenhuma confiança nas mulheres, e estava decidido a morrer solteiro. Mas uma vez que o destino me armou esta cilada, seria parvo se não tentasse sair dela, com alguma vantagem. Além disso estou a ser sincero, penso que ganhamos os três com esta solução. Sei que estás desempregada, e deves estar aflita com a situação, mas se aceitares o que te proponho, assumo todas as despesas até ao casamento. E depois da cerimónia, se quiseres dedicar-te à menina por inteiro, nem precisas trabalhar. Além do mais estou convencido de que poderemos ser felizes.
- Antes do mais, deves saber que já não estou desempregada. Começo a trabalhar na segunda-feira. Compreendo que queiras ter participação ativa na educação da Matilde. Também entendo que se aceitar a tua proposta vou ter uma vida muito mais facilitada, mas ao contrário de ti, eu acredito no amor, e não me entra na cabeça um casamento, sem esse sentimento.
- Sabes quantos casamentos se fazem por amor, com casais que se dizem muito apaixonados, e terminam em menos de dois anos? A compreensão, o respeito pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo,  podem ser muito mais duradoiros do que a paixão.
- Quando falo em amor, é a isso que me refiro, não à paixão, que essa, como dizia a minha mãe, dá forte mas passa depressa. Supondo que eu aceito esse casamento, como seria ele? Completo ou nem por isso?
-Naturalmente seria um casamento normal, com tudo o que isso implica.
-Vejo que temos maneiras de ver a vida, diametralmente opostas. Um casamento como propões, para mim, seria tudo menos normal.
-Bom, dei-te a solução para darmos à Matilde, o lar a que ela, como todas as crianças tem direito. Disseste que eras capaz de dar a vida por ela. Não te peço tanto. Pensa bem, e logo que tenhas uma decisão telefona-me. Até lá não te importunarei.
Levantou-se e encaminhou-se para a porta, seguido por ela.
-Obrigada pelo jantar- disse ela.
- Fico à espera da tua chamada – respondeu Ricardo apertando a mão que a jovem lhe estendia



Atenção,  que ontem saíram dois capítulos.


4.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIX




Mais tarde Clara pensava como era surpreendente o laço que se criara em tão pouco tempo, entre Ricardo e o seu irmão.  Enquanto as crianças dormiam a sexta, os dois mantinham longas conversas, nas quais ela nunca se imiscuía. Era como se, toda a vida se, tivessem conhecido.
Era uma reação compreensível da parte de Tiago. Afinal o irmão era muito pequeno quando o pai morrera, e provavelmente sentia falta de uma presença masculina na sua vida. Surpreendente era a maneira com que Ricardo o tratava. Havia uma tal cumplicidade entre os dois, que parecia, terem vivido, juntos a vida inteira.
Quando Ricardo contara aos filhos que dentro de poucos dias ia viajar, as crianças ficaram tristes, queriam saber porque não podiam ir com ele. Com carinho explicou-lhes, que ia ter muito trabalho, não poderia estar com eles. Além disso em breve iriam entrar para a escola, teriam novos amigos, com quem aprender e com quem brincar. E em casa ficavam Antónia e o marido, Clara e Tiago, que gostavam muito deles e estariam sempre perto para o que precisassem. E terminou dizendo que os amava muito e nunca os esqueceria.
-Nós, também te amamos muito, pai - disseram em coro abraçando-o.
 Depois dessa conversa, Clara procurou manter-se sempre em segundo plano, cada vez que os três estavam juntos, de modo a que pai e filhos, vivessem o tempo que lhes restava até à partida, em completa união.
Enquanto isso ela pensava, que gostaria de preparar alguma coisa com as crianças, para que elas pudessem surpreender o pai na hora da despedida. Poderiam comprar-lhe alguma coisa, um perfume, um porta-chaves, quiçá uma caneta. Mas não era isso que ela queria. Queria alguma coisa mais pessoal, qualquer coisa que lhe chegasse ao coração. Mas o quê? Uma moldura com as fotos deles? Não. Ele devia ter o telemóvel cheio delas. Um desenho? Era uma ideia, mas não era bem o que desejava. E se pedisse ajuda a Tiago? Quem sabe ele tinha uma boa ideia?
E logo que teve oportunidade expôs a ideia ao irmão.
- Porque não fazes um vídeo com eles? Qualquer coisa como uma mensagem de amor em vídeo, que depois pões numa pendrive, para eles lhe oferecerem na hora da partida.
-Que boa ideia! Obrigada. Ajudas-me a fazer isso?
-Claro. Mas só quando ele voltar ao quartel. Senão, adeus surpresa.
- Segunda-feira.
- Combinado, maninha!
E assim decorreu o resto da semana. Na Segunda-feira, Ricardo voltou à unidade, onde decorriam os últimos preparativos para a partida, três dias depois.
De manhã, logo que ele saiu de casa, Clara perguntou às crianças se elas gostariam de fazer um presente, para dar ao pai na hora de partida. Tinha que ser uma coisa pessoal, ditada pelos seus corações, nada que se comprasse na loja. 
Claro que queriam, Ficaram encantados com a ideia, mas o quê? Então Clara explicou-lhes que iam gravar uma mensagem, em que cada um devia dizer o que sentia pelo pai, e recordar uma história, de algum momento passado com ele, em que se sentiram muito felizes. Depois, ela passaria o vídeo para o computador, e daí para uma pen que eles entregariam ao pai, no momento da partida.
-Porque – explicou-lhes. - O vosso pai vai estar muito longe. Alguns dias não poderá comunicar convosco e vai ter muitas saudades.
- O que são saudades? - Perguntaram em coro.
- Saudades, é a vontade de estar junto de vós, de vos falar, beijar e abraçar, e não poder fazê-lo

Amanhã. dia 5 de Outubro não haverá nenhum episódio desta história. Bom Feriado