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9.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VII

 


Fora difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório, com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.

O marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.

E também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para a bebé uns verdadeiros avós.

Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.

 Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o resultado da autópsia relatava.

Deu uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de ir acordar as meninas.

Depois de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas levarem.

Às sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando ouviram o som de um carro chegando.

- É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um beijo sendo imitada pela prima.

Laura acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha saído do automóvel, aproximou-se e disse:

-Convidas-me para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.

A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.

Fernando agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.


17.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE I

 

Percorria a ala de pediatria no terceiro piso do hospital, quando o som da sirene de uma ambulância lhe chegou aos ouvidos , logo seguido de outros sons igualmente agudos o que lhe trouxe à memória outros sons outras paragens.
Aproximou-se da janela que dava para a entrada do hospital, onde se situavam as urgências. Viu duas ambulâncias paradas e pelo menos mais três que se aproximavam. Apressado deu a volta, e encarando a enfermeira que se encontrava junto de uma das camas, disse:
- Parece que esta visita terá que ficar para mais tarde. Se surgir alguma complicação estarei nas urgências.  
Afastou-se. Estava quase a chegar aos elevadores, quando ouviu ;
- Atenção doutor Albuquerque! Solicita-se a sua comparência imediata nas urgências.
O elevador acabara de parar junto dele e apressou-se a entrar. Era um homem alto, de cabelos negros, já quase grisalho nas têmporas.
Testa alta, nariz retilíneo, olhos cinzentos, queixo firme e boca bem desenhada. Teria pouco mais de quarenta anos, mas a sua expressão dura, e o seu olhar frio, faziam-no parecer mais velho.
Percorreu a distância do elevador até às urgências em meia dúzia de passadas rápidas.
Ali reinava o caos, com várias macas de crianças a chorar.
-Foi um acidente com um autocarro de miúdos que iam em passeio de estudo – informou a enfermeira. 
 O médico não respondeu. Depois de um breve olhar pelas macas dirigiu-se a uma delas e observou a criança. Dirigindo-se à enfermeira com quem falara momentos antes, disse.
-Enfermeira leve esta criança para o bloco operatório, e reúna a equipa de cirurgia. 
Chamou outra das enfermeiras.
- Por favor, verifique os médicos que se encontram no bloco das consultas externas, e diga-lhes para virem para cá. É uma emergência, não sabemos quantos feridos graves serão, é necessário atuar rapidamente. Vou para o bloco operatório. Aquele menino está com uma hemorragia interna. Poderá haver outras crianças na mesma situação.
Debruçou-se sobre um miúdo que chorava em silêncio. Observou-lhe o corte na testa, verificou as suas pupilas e certo de que o corte não oferecia gravidade, afastou-se em direção ao bloco operatório

2.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVI


 



Embora para Teresa, a viagem na ambulância parecesse levar uma eternidade, ela foi feita a alta velocidade e demorou poucos minutos a chegar ao hospital onde a parturiente já era aguardada para ser transportada à sala de cirurgia. Antes de entrar, despiram-na e enfiaram-lhe nos braços uma bata, que seria de apertar atrás, mas que foi apenas enfiada nos braços, ficando solta.
 Entretanto João recebeu também uma bata, uma touca, uma máscara e uma espécie de sapatos em plástico, tudo devidamente esterilizado, para que pudesse penetrar na sala cirúrgica e assistir ao nascimento dos seus filhos.

Por ser uma gravidez de risco em que a futura mãe passara os últimos meses de cama e o parto ia s tinha sido programado por cesariana pelo que, Teresa não fez nenhuma preparação para o parto, pelo que estava muito nervosa com medo de não ser capaz de dar à luz e de alguma coisa correr mal.

Na sala, já se encontrava uma equipa médica da qual faziam parte a obstetra doutora Laura, uma anestesista, um neonatologista e várias enfermeiras. 

A doutora, examinou a parturiente e disse:

- Um deles está prestes a nascer. Se o pai é homem de coragem pode colocar-se à cabeceira da mãe. Se pensa que vai desmaiar, o melhor é ficar o mais afastado possível, pois a nossa atenção tem que estar centrada apenas na mãe e nos bebés.

 João não respondeu, mas chegou-se ao local indicado e apertou uma das mãos da mulher entre as suas.

Enquanto a anestesista aplicava a Teresa a epidural, a doutora Laura ligava-a a um monitor fetal, para ver o progresso dos bebés.

- Já começa a ver-se a cabeça do bebé, - disse uma enfermeira, e a médica acrescentou.

-Vamos lá mãe, vamos fazer força, que isto vai ser rápido.  A vantagem nos partos múltiplos é que os bebés são bem mais pequenos passam mais facilmente o canal vaginal.

E realmente um quarto de hora depois nascia o primeiro bebé.

-É a menina, - disse a médica entregando-a rapidamente aos cuidados do neonatologista que se afastou com ela acompanhado por uma enfermeira, a fim de examinar se o bebé estava bem, apesar de prematuro e pequenino

- É uma vencedora. Conseguiu deixar os irmãos para trás, - disse a médica sorrindo enquanto observava no monitor a posição do segundo bebé. E logo acrescentou:

-Vamos lá recomeçar a fazer força, mãe. Isto vai ser muito rápido. O segundo bebé está pronto a nascer.

- E trinta minutos depois, nascia o primeiro rapazinho, que era entregue ao neonatalogista para avaliar a sua situação de saúde.

Os primeiros cinco minutos de vida, são de extrema importância para a observação dos prematuros. Entre o primeiro e o quinto minuto de vida, o bebê recebe uma nota que vai de zero a dez, com relação a parâmetros como a intensidade dos batimentos cardíacos, o tônus muscular e a respiração. Se essa nota for abaixo de sete, podem surgir complicações, e o bebé segue a incubadora, sendo monitorizado e alimentado por sonda. Com nove ou dez, estão perfeitamente capazes de viver sem qualquer ajuda artificial, embora sejam bem mais pequeninos que os bebés  com o tempo total de gravidez.

A menina já tinha sido observada e apesar de pequenina, não apresentava nenhum problema de saúde, os seus pulmões e parte respiratória funcionavam perfeitamente, não precisava de ajuda médica como apoio de vida. Recebera a nota máxima.

 A doutora Laura observava o terceiro bebé no monitor, enquanto João tentava dar ânimo à mulher, que parecia extremamente cansada, enquanto uma enfermeira lhe limpava o suor da testa

De súbito a médica disse:

- Raios! O corpo parou o trabalho de parto e o terceiro bebé está pronto para nascer, vai entrar em sofrimento. Vou ter que fazer uma cesariana  - disse enquanto trocava as luvas, que usara até aí por umas limpas.


 

3.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIV



O doutor Fonseca voltou meia hora depois com a medicação. Um anti-inflamatório para fazer de oito em oito horas, um anti alérgico, para fazer uma vez à noite e um antitússico, já que o doente apresentava um princípio de tosse seca, irritativa. Também uma embalagem de Paracetamol, para lhe dar no intervalo do anti-inflamatório.
- Bom isto é tudo por agora e se não for nada mais do que uma gripe, amanhã ele deverá estar melhor. E não se esqueça de fazer com que beba muitos líquidos, de preferência chá, por ser uma bebida quente. Mas por favor, esteja atenta, se ele começar a vomitar ou apresentar qualquer outro sintoma diferente, telefone imediatamente para a ambulância; a ferida no rosto parece  indicar que ele bateu com a cabeça e não podemos nem devemos descartar a hipótese de um traumatismo craniano. A Luísa  tem noção de que estou a arriscar a minha carreira ao não enviá-lo para o hospital, não tem? Confio em si, por favor não nos meta em trabalhos.
- Fique descansado, doutor. Vou estar atenta e ao menor sinal de perigo, chamarei a ambulância.
O médico despediu-se e saiu, quando o dia já dava lugar à noite e esta se apresentava serena mas escura, como escuras são as noites sem lua.
Luísa  acendeu a luz do alpendre e foi à horta apanhar umas folhas de erva-príncipe. Foi para a cozinha e pôs uma cafeteira com água ao lume para fazer o chá. Cortou duas rodelas de gengibre para misturar à erva-príncipe, pois em tempos lera num livro que a mistura daqueles dois ingredientes era ótima pois que um era analgésico e anti bacteriano e o outro termogénico e relaxante. Além disso, ela fizera aquela mistura quando o irmão tivera gripe e constatara os seus efeitos benéficos.
Com o chá pronto, encheu uma chávena, pôs umas bolachas num pires e meteu tudo num tabuleiro junto com o anti-inflamatório que o médico trouxera e dirigiu-se ao quarto onde o desconhecido continuava agitado e febril. Poisou o tabuleiro em cima da cómoda e aproximou-se do doente dizendo:
- Vamos lá amigo, vamos sentar, para comer alguma coisa e tomar a medicação. E não me diga que não lhe apetece porque senão chamo a ambulância e vai para o hospital.
Com algum esforço e resmungos, o desconhecido sentou-se na cama. Ela ajeitou-lhe as almofadas atrás das costas, e colocou-lhe o tabuleiro na cama. Ele bebeu um pouco de chá e pegou no comprimido, mas ela tirou-lho da mão dizendo:
- Não senhor. Primeiro vai comer umas bolachas e depois sim, toma o comprimido. Isto é um anti-inflamatório. Nunca se tomam com o estômago vazio.
O homem fez uma careta, mas acabou comendo três bolachas. Depois pegou na chávena com uma mão, estendeu a outra e pediu:
-Por favor!
Luísa deu-lhe o medicamento, esperou que ele lhe desse a chávena vazia, pôs o tabuleiro em cima da cómoda e esperou que o homem se deitasse. Arranjou-lhe a almofada e colocou a sua mão sobre a testa dele para verificar a temperatura. Ele pegou-lhe na mão, e levou-a aos lábios dizendo:
- Muito obrigado. Agora sei que é verdade. Os anjos existem mesmo.
Ela apressou-se a virar-lhe as costas para esconder a sua perturbação, e pegando no tabuleiro, saiu do quarto sem responder.


Amigos o meu pc está doente. Vai hoje para o hospital. Tenho posts programados para os próximos dez dias. Vamos ver se a cura não é demorada, porque trabalhar com o Smartphone para mim não dá. 


31.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIII


A tarde já ia a meio quando o clínico estacionou junto da cerca que rodeava a casa. Há mais de duas horas que parara de chover, e o vento acalmara bastante, soprando agora com pouca intensidade. A tempestade passara, mas demoraria ainda algum tempo até que os seus efeitos no rio, nas árvores arrancadas pela raiz e nas casas destelhadas desaparecessem.
-Boa tarde, doutor, - saudou Luísa ao abrir a porta ao médico.
-Boa tarde Luísa. Peço desculpa pela demora, mas tive que ver dois doentes de última hora. Onde está o doente?
-Por aqui doutor - disse encaminhando o médico para o quarto.
O homem agitava-se febril apesar do antipirético que tinha tomado ainda não havia quatro horas. Depois de um rápido olhar ao doente, o clínico perguntou:
-O que lhe aconteceu? Há quanto tempo está assim?
Não sei doutor. Era quase uma da manhã quando o Tejo começou a arranhar a porta e a ladrar aflitivamente. Fui ver o que se passava, e encontrei-o meio inconsciente à entrada da cerca.
-Não pensou chamar uma ambulância e mandá-lo para o hospital?
- Não me ocorreu, só pensei que precisava de um banho e uma bebida quente. Hoje disse-lhe que ia fazer isso e ele suplicou-me angustiado que não o mandasse para o hospital.
- Muito bem, vou examiná-lo.
- Obrigado. Aguardo lá fora, se for necessário alguma coisa basta chamar.
Saiu do quarto fechando a porta atrás de si. Não soube quanto tempo esperou até que o médico saiu, mas a espera pareceu-lhe interminável. Uma vez na sala, o médico disse:
- Parece tratar-se de um estado gripal, mas continuo a pensar que devia ir para o hospital. Lá lhe fariam exames para despistagem de outro tipo de problemas, coisa que eu não lhe posso fazer aqui.
-Será que a gripe foi causada pela tempestade de ontem? Quando o encontrei estava gelado e encharcado.
- Não Luísa, a gripe como deve saber é transmitida por um vírus. O que aconteceu ontem podia ter-lhe provocado hipotermia e matá-lo de frio, ou provocar-lhe um resfriado, mas não lhe causaria a gripe.  A chuva, o frio e mais do que isso, a exaustão, podem sim ter acelerado a progressão do vírus que ele já teria em incubação. E então minha amiga, chamo a ambulância?
- Não sei doutor, não podia medicá-lo e aguardávamos até amanhã, para ver se melhorava? Parece ter pavor do hospital, fez-me prometer que não o mandaria para lá.
- Muito bem, vou aviar a receita e  trago-a cá, já que não convém a Luísa, deixá-lo aqui sozinho. Quando eu voltar, vai seguir à riscas o que lhe digo, e amanhã volto a observá-lo. Se melhorar pode continuar o tratamento, aqui em casa, mas caso contrário eu mesmo chamo imediatamente a ambulância. Nunca se sabe quando não está uma pneumonia em desenvolvimento atrás de uma gripe. Também devo avisá-la de que o vírus da gripe é altamente contagioso. E pode já estar contagiada.
- Nunca tive gripe, nem quando há três anos o meu irmão, esteve aqui bastante mal e fui eu que cuidei dele, como o doutor decerto se lembrará.
- Já não me recordava dessa gripe do seu irmão. Mas não se deve fiar muito nisso. O organismo nem sempre tem as mesmas defesas. Então já sabe, siga à risca as instruções que lhe dei nessa altura. Vou à farmácia e volto já com os medicamentos.



22.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXV






Faltavam cinco para as duas, quando chegaram à clínica. Miguel falou com a empregada, enquanto a jovem parecia distraída com a leitura do Juramento de Hipócrates, exposto num quadro na parede.
Como o médico já tinha chegado, não foi preciso esperar muito para serem atendidos.
Miguel contou ao médico a cena protagonizada pela jovem, que ele presenciara.
O médico ia tomando notas. Depois virando-se para a jovem perguntou:
-Além dos sintomas que o Miguel já relatou, sentiu mais alguma coisa?
-Uma grande pressão no peito, que não me deixava respirar, e um enorme medo de morrer.
-E lembra-se de alguma coisa antes disso, que pudesse de algum modo assustá-la?
Negou com um movimento de cabeça.
- E o Miguel, observou alguma coisa fora do normal no momento?
- Não. Só se…
-Diga, diga, tudo o que se lembre, ainda que lhe pareça irrelevante.
- O silvo estridente de uma ambulância que passava.
- Ouviu a ambulância? -Perguntou o médico à jovem
-Creio que sim. Não lembro com exactidão.
-Muito bem.
O médico não se cansava de fazer apontamentos.
- E a RM que eu pedi?
-Fiz ontem em Portimão, na Euromédic, mas só está pronta para a semana.
- Euromédic? Em Portimão? Óptimo. – Disse o médico premindo a campainha na secretária, o que fez aparecer a  assistente  à porta.
-Precisa alguma coisa, doutor?
- Sim, Teresa. Faça-me uma chamada para a Euromédic de Portimão. Pergunte se o Dr Gonçalo Prates está, e se estiver, diga que quero falar com ele e passe-me a chamada.
- Assim farei doutor. E retirou-se fechando a porta
- Enquanto esperamos, há mais alguma coisa que se lembrem?
- Sim doutor.- Respondeu Miguel. E de seguida relatou o incidente na papelaria, e como a partir daí começara a chamar a jovem de Mariana.
- É muito provável que esse seja realmente o seu nome, mas também pode ser de alguém que ela ame muito. A mãe, uma irmã…
O telefone tocou nesse momento. O médico escutou e depois pediu aos dois para saírem.
Uns quinze minutos mais tarde, voltou a chamá-los. Já tinha o exame no computador, já o tinha examinado e estava à vontade para dizer que a jovem não tinha nenhum tumor, ou qualquer outro distúrbio físico, que originasse a amnésia.
- Não havendo, doença degenerativa, encefalite, ou traumatismo, é evidente que a amnésia da paciente, é psicogénica temporária, decerto provocada por um choque emocional. Qualquer coisa que fez a paciente sofrer de tal ordem, que o seu subconsciente se revoltou, e  apagou tudo, numa manobra de defesa. Por outro lado, os sintomas que teve ontem, configuram um ataque de pânico, o que no seu caso parece ser consequência directa,  do trauma que lhe terá provocado a amnésia. Deve continuar a fazer a medicação que lhe receitei, mas mais importante que a medicação, é fazer psicoterapia.

20.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXII




Na manhã seguinte, Miguel voltou à falésia, na companhia da jovem. Na verdade não precisava ir, a tela inacabada, ia ficar assim mesmo. Estava quase pronta. O que faltava, podia acabar em estúdio. O que ele desejava, era saber se a visão daquele local, tinha alguma influência, na memória perdida de Mariana.
Além do mais, se ela autorizasse,  desejava, fazer uns esboços da jovem, como a vira naquele dia. Para trabalhar quando voltasse ao seu estúdio em Lisboa.
Infelizmente a jovem não teve qualquer reacção que suscitasse interesse. Manteve-se calma, fez algumas perguntas, aceitou que ele fizesse vários esboços dela, cumprindo as suas ordens relativamente à mobilidade e posição do corpo.
Quando finalmente deu por terminado o trabalho e lhe estendeu a mão para a ajudar a levantar, ela permitiu-se até brincar, dizendo que não conseguia levantar-se porque tinha criado raízes.
Nos dias que se seguiram, saíram várias vezes juntos, fizeram compras, foram ao ginásio, visitaram o mercado municipal e o museu. Influência ou não da medicação, a jovem não voltara às suas crises de choro, nem de revolta, como se estivesse resignada, ou tivesse perdido o interesse pelo seu passado.
Respondia pelo nome de Mariana, com naturalidade, como se toda a vida o tivesse ouvido.
E assim os dias foram correndo, Outubro chegava ao fim, Miguel tinha agendada uma exposição para meados de Novembro, era altura de voltar para a sua casa de Lisboa, e não sabia como fazer com a jovem. Se não lhe passava pela cabeça abandoná-la, também considerava arriscado levá-la para Lisboa. 
Na véspera, tinham ido a Portimão, fazer a Ressonância Magnética, e agora tinham que esperar uma semana, pelo resultado.
Naquela tarde, estavam sentados numa esplanada na marginal quando se ouviu o silvar de uma ambulância.
De súbito, Mariana ficou lívida, uma expressão de terror surgiu nos seus olhos, o corpo começou a tremer, e foi escorregando na cadeira até ficar toda encolhida. Grossas gotas de suor, surgiram na sua testa e deslizaram pela face como se fossem lágrimas. Levantou as mãos, e apertou a cabeça entre elas. Miguel ficou assustado.
Que estava a acontecer com ela? Porquê aquele desespero repentino? Não sabia o que podia fazer para a ajudar. A atitude da jovem e a sua atrapalhação, chamaram a atenção das outras pessoas que estavam na esplanada,e que se foram aglomerando à sua volta.
Alguns minutos depois, que a Miguel pareceram horas, lentamente a jovem foi voltando ao normal. Porém parecia não saber o que tinha acontecido e mostrava-se tão envergonhada que só queria sair dali.








10.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXI





Acabou a refeição, pagou e dirigiu-se ao hospital Eram duas horas, a mãe em princípio só sairia às três, mas se saísse mais cedo melhor. Ele já lá estaria para seguir com os pais para casa. O trabalho tinha estado meio abandonado por causa da situação familiar, o que tinha que fazer era voltar a embrenhar-se nele e esquecer Helena. Um dia, mais tarde, ia recordar aqueles dois dias como um sonho.
Encontrou o pai à saída do bar do hospital, onde fora comprar uma garrafa de água.
- A mãe sempre sai às três?
- Sim. Ela já está pronta e ansiosa por voltar a casa. Está só a aguardar que o médico venha do almoço e assine a alta. Mas… e a rapariga que disseste nos ias apresentar?
- Foi-se embora.
-Como assim? Sem te dizer nada?
- Ela despediu-se ontem. Disse que partia logo de manhã. E eu que sou um idiota romântico, não acreditei, e disse-lhe que a ia buscar para almoçar e vos ia apresentar. Pensei que ela estava tão interessada por mim como eu por ela. E quando cheguei ao hotel, tinha partido.
-Lamento filho. Mas se ela não se interessou por ti, é melhor que esqueças. Mulheres interessantes e solteiras não faltam neste país.
- O que me dá mais raiva, é que foi a única mulher até agora, com a qual pus a hipótese de uma vida em comum.  Tu sabes, que desde que a Olga morreu há doze anos eu nunca pensei numa mulher como companheira de vida. A Olga foi o meu grande amor de adolescente, era a minha princesa, começámos andar juntos, desde a minha festa dos treze anos, ela tinha onze. Depois aos quinze surgiu a maldita leucemia, que a levou menos de um ano decorrido. Eu tinha dezoito anos, e ela era a minha primeira paixão. Sofri tanto que nunca mais pensei em me dar, assim de peito aberto, a outra mulher. E a primeira vez que volto a interessar-me, olha o que aconteceu.
Tirou da carteira a folha de papel enrugado e estendeu-a ao pai. Ele leu-a e devolveu-a.
-Eu diria que é uma mulher sofrida. Não deve ter tido uma vida fácil, talvez tenha fugido por medo. Não tens como encontrá-la? Ela não deu morada no hospital para fazer a ficha?
- Ela estava magoada. Fui eu que fiz a ficha. Dei a morada do Hotel Ibis.
-E aceitaram? Não pediram a morada habitual?
- Na verdade, não.
- Aposto que a funcionária é solteira e tu fizeste um dos teus sorrisos encantadores.
- Nada disso. Apenas pedi para falar com o Dr. Ricardo Souto que como sabes é meu amigo.
- Então foi isso. É pena que não lhe tenhas ido pedir a morada. Terias como encontrá-la. Vamos para a enfermaria, o médico já deve ter assinado a alta e a tua mãe pode enervar-se com a espera.
Efetivamente o médico já tinha assinado a alta e feito as últimas recomendações à paciente, e ela encontrava-se pronta para partir. Porém a enfermeira informou Cláudio que a doente teria de ir de ambulância, ela não podia viajar tanto tempo sentada, muito menos por um cinto de segurança. Não podiam esquecer que ela tinha sofrido uma cirurgia de peito aberto. Telefonaram então para os bombeiros a solicitar uma ambulância, mas por falta de pessoal, uma vez que havia vários incêndios ativos, e as corporações deslocavam-se para onde eram mais precisos, só cerca das dezassete horas a ambulância chegou. A doente foi então transportada em maca, tendo o marido seguido com ela na ambulância.
Cláudio seguiu-os no seu carro.

8.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXV




Actual Unidade de cuidados intensivos, era no final de 1984, o hospital da Misericórdia do Barreiro, onde a Gravelina esteve internada. O actual centro hospitalar Barreiro- Montijo, seria inaugurado no ano seguinte com o nome de Hospital Nossa Senhor do Rosário do Barreiro 



A filha foi buscar o aparelho e perguntou enquanto lho ajustava:
-Sente-se mal?
-Penso que estou a ter uma trombose, - respondeu ela.
A filha mediu-lhe a tensão arterial, 132-81 Normalíssima. Perguntou:
- Dói-lhe a cabeça, está com tonturas? 
-Não. 
A filha segurou-lhe as mãos, e pediu:
- Aperte as minhas mãos.
Ela apertou. A filha não sentiu nada de anormal, mas ela insistia que lhe estava a dar uma trombose. Voltou a medir-lhe a tensão que se mantinha normal. Pensou que talvez a mãe tivesse tido algum sonho e acordasse impressionada. 
-O Paizinho?
- Foi lá para o quintal, - respondeu a tia
- Não noto nada de anormal. A tia ajude-a a deitar-se. Não a quero fora da cama, o médico disse que ela tinha que estar deitada. Vou ao Barreiro comprar a mobília para o quarto do Pedro. Assim que chegar, volto cá. Ela tomou a medicação?
-Tomou. Tudo certinho, fui eu que lha dei. 
A filha deu um beijo na mãe e saiu. Arrepender-se-ia amargamente mais tarde. Mas como acreditar que uma pessoa vai ter um AVC, só porque ela o diz, quando ao mesmo tempo, não se nota nada de estranho e a pessoa em questão aparentemente está normal?
Quando duas horas mais tarde a filha regressou, encontrou à sua porta um vizinho da mãe que lhe disse para lá ir com urgência. A mãe tinha sofrido uma trombose, ele já fora ao quintal, chamar o Manuel, já telefonara para a ambulância que deveria estar a chegar, mas a mãe chamava pela filha.
Ela correu para casa da mãe, que nesse momento estava a ser metida na ambulância. 
Ainda consciente, a mãe disse-lhe:
-Ainda bem que vieste, filha. Eu não te disse que estava a ter uma trombose?
A filha acompanhou a mãe ao hospital. No trajecto a mãe acabou por ficar inconsciente. 
Observada, foi logo para os cuidados intensivos. A filha recebeu as roupas, e regressou a casa da mãe, onde encontrou o pai em pranto. O Manuel não se conformava. Dias e dias, chorou a companheira, não comia, dizia que se ela se fosse, ele iria com ela. Que sem ela a vida não tinha sentido, nem merecia o nome de vida. 
A Gravelina esteve um pouco mais de um mês em coma. Foram dias muito duros para todos. O Manuel continuava a não reagir. Só com muito esforço comia alguma coisa. Não ouvia rádio, não acendia a TV. Todos ficaram com a certeza que se a mulher partisse, ele segui-la-ia em breve.
Quando recuperou a consciência, a Gravelina parecia uma boneca desengonçada. Todo o lado esquerdo estava paralisado, a boca torta, não falava, o corpo sem força. Chorava o tempo inteiro, sem que a família soubesse se o fazia por ter dores, ou por se ver reduzida aquele estado.
Dois dias antes do Natal, o médico deu-lhe alta. 
À filha, que falou com ele, o médico disse que não acreditava que ela tivesse muito tempo de vida, mas dado que eles já não podiam fazer mais nada por ela, seria melhor que passasse os últimos dias rodeada pelo carinho da família.
Segundo os médicos, o que provocara o AVC à Gravelina, fora a sua teimosia em andar de pé. A explicação médica, foi de que tendo ela muitas varizes, e tendo a perna engessada, ela teria que ter repouso absoluto, deitada e com a perna ligeiramente mais alta a fim de que nunca inchasse e o gesso não comprimisse demasiado as varizes. Ao andar de pé, a pressão sobre s varizes foi tanta que um pequeno trombo se soltou e foi até ao cérebro, onde entrou numa pequena veia que obstruiu, fazendo com que a parte do cérebro irrigado por ela, morresse, deixando-a para sempre deficiente.






Se a Gravelina fosse viva, faria hoje 90 anos.


9.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XI


foto do google


 Isabel saltou da cama, e ao chegar ao quarto dos pais,  logo se apercebeu de que algo grave tinha acontecido com a mãe. Chamou uma ambulância e preparou-se para a acompanhar  ao hospital.
Antes de sair, bateu à porta da vizinha e pediu se podia acompanhar o pai até que ela voltasse. Tinha medo de o deixar sozinho, mas só uma pessoa podia seguir na ambulância.
No hospital, depois de vários exames, foi-lhe dito que a mãe tivera um AVC, fruto talvez de uma diabetes descontrolada. Tinha sido feito tudo o que era possível, mas a mãe estava em coma. Informaram-na, das horas a que eram dadas as informações sobre os doentes na UCI e da hora a que podia vê-la durante escassos minutos. Agradeceu, agarrou no saco que uma enfermeira lhe trouxe com as roupas da mãe e chamou um táxi para regressar a casa.
Não sabia como dar a notícia ao pai. Ele estava quase a fazer oitenta anos, e estava casado há mais de cinquenta. Desde que se lembrava de ser gente, Isabel sempre notara o imenso amor que os unia. Na troca de olhares cúmplices, no roçar das mãos, nos sorrisos, no adivinhar de certas frases apenas afloradas por um e respondidas pelo outro, estava patente esse amor. E ela? Estava preparada para a possível perda da mãe? Nunca ninguém está preparado para semelhante facto, mas ela era nova e forte. O pai sim preocupava-a. E tinha razão para isso.
Durante os quarenta dias que a mãe esteve no hospital, foi muito difícil conseguir que o pai comesse alguma coisa. Felizmente a mãe saiu do coma, e embora ficasse com o lado esquerdo paralisado, mentalmente estava lá, e isso foi muito importante para todos.
Nada pior do que ter fisicamente presente um familiar, cuja memória se perdeu por estranhos labirintos, dos quais não esperança de retorno.

Isabel tinha muitos projectos para a sua vida, após ter terminado o curso. Ia montar um escritório com duas amigas e começar uma vida totalmente diferente daquela que tivera até ali. Mas... e agora? O que fazer? A mãe precisava dela.
Foi a própria mãe que a encorajou a realizar os seus sonhos. Ela precisava de cuidados sim. Mas contratariam uma pessoa para cuidar dela e ajudar a tratar da lida da casa. O pai como sempre estava de acordo.