Vivaldi - Inverno - "As quatro estacões" - projeto "Clássicos com Ener...
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16.12.18
O PRESÉPIO
Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa. Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa! Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!... Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço. É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia, e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de ouro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjara o lugar.
Com o seu examezinho de instrução primária, marçano de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador. Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se tinham mostrado de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer aureolas, que giravam como o fogo de vistas pelas festas.
Ah estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces. Os primeiros dias tinham passado muito lentos. A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro tinham-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa. Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe tinham batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. Chegou o Verão. As festas de São João e São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. Reviu nesses dias mais intensamente a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse umas quadras falando de estrelas e de flores.
A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixara dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade. Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior. Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva. O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe. — Acorda, ralaço! — gritava-lhe o patrão. Estava a chegar o Natal. Que lindo era o Natal lá na aldeia!
Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso. Então o pequeno teve uma ideia.
Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa. Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas. Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação. Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver. Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.
Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio, e no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora. Levou nisso parte de Novembro e Dezembro todo, até ao Natal. Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de vez em quando, revia-se na obra.
O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto. Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como o não tinha dourado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma Aquele mês passou correndo. Era a véspera do Natal. As dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu. Que alegria estar só! Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo começou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos.Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se tinham de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite. Deram onze e três quartos. Ajoelhou. Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste. Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinhos se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes...Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha... Meia noite! Acendeu os fósforos e ficou embasbacado! Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora! Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:
Andava nessas campinas,
Esta noite, um querubim.
Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão. Acordou-o do êxtase um pontapé. — Isso... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo! E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura. O bruto continuava aos pontapés. — Vá?... Vá! Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele... Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.
D. João da Câmara.
Contos tradicionais Portugueses
Muito obrigada pelo vosso carinho e mensagens de apoio. ou melhorando tão lentamente que às vezes fico na dúvida se estou realmente a melhorar ou se é a minha vontade de que isso aconteça que me faz julgar que estou melhor.
Bem Hajam
5.12.18
UMA HISTÓRIA DE NATAL - O BURRO
Era uma vez um burro. Velho e cansado como todos os burros, que viveram anos e anos, dia após dia, sempre carregando no lombo, pesadas cargas. Agora, no fim da vida, ele só esperava que o seu dono o deixasse morrer em paz. Mas parecia-lhe que não era essa a intenção dele, quando nessa manhã de Inverno o levou para a feira. O burro, que não era tão burro quanto o seu nome dizia, percebeu que o dono, a quem servira toda a vida, se ia desfazer dele, porque achava que não tinha mais préstimo. E embora reconhecesse que até já não tinha forças para grande coisa, doía-lhe a ingratidão do dono.
Esperaram por mais de três horas
na feira. De vez em quando aparecia alguém que parecia interessado no burro,
mas ao analisá-lo de perto concluía que era demasiado velho para o que
precisavam, e depressa se desinteressavam.
Um dos que se aproximaram para o
ver, dissera mesmo ao dono. "Está velho. Já não tem préstimo. Devia
abatê-lo"
O velho burro estremeceu de
terror. E pensou que os homens eram animais perigosos. Serviam-se dos outros
animais, enquanto eles podiam, executar por si as tarefas mais difíceis, e
quando estavam velhos, matavam-nos. Pensou se eles fariam o mesmo aos da sua
espécie. Mandariam abatê-los quando estavam velhos?
Ao findar do dia, quando o dono
se preparava para fazer o regresso, e o pobre burro, não pensava noutra coisa
que não fosse a frase cruel ouvida de manhã, sem conseguir descortinar no seu
dono se era ou não isso que ele ia fazer, um homem alto e magro de ar calmo e bondoso
aproximou-se do burro e do seu dono.
Examinou-o e perguntou o
preço.
-Muito alto para um burro velho,
-disse.
Voltou a examinar o burro.
Passou-lhe a mão pelo lombo. O burro estremeceu. Sentiu os calos na mão do
homem, e no entanto aquela mão, transmitiu-lhe uma tal doçura, que o pobre do
burro não habituado a isso, ficou maravilhado. Ah! Se ele soubesse rezar,
decerto teria rogado ao Deus do homem, para que o comprasse, de tal
forma o desejou. Mas ele era apenas um burro.
-Dou-lhe metade, -disse o homem
O dono regateou. E o homem virou
costas decidido a partir. O burro ficou triste. Tão triste, que uma lágrima
turvou o seu olhar cansado. Mas então o dono, perdida já a esperança de
melhor preço, chamou o homem.
Este voltou atrás e fez a compra.
O homem pegou o burro pela
arreata, e dirigiu-se para casa. Pelo caminho falou como se soubesse que o
burro o entendia:
-Estás velho, amigo. Vamos a ver
se consegues ajudar-nos. Para te ser sincero, preferia um animal mais
novo. Mas não vi nenhum. E ainda que visse, talvez não tivesse dinheiro
suficiente para o comprar. Espero que dês conta do recado e nos ajudes na
viagem.
A palavra viagem, não agradou ao
velho burro, que já sentia as patas fracas. Mas entre uma viagem e a
morte, que decerto o esperava na volta para casa do seu antigo dono, a
escolha era óbvia.
Relinchou tentando dar ao novo
dono, uma confiança de que ele próprio duvidava.
Nessa noite, foi o burro muito
bem tratado, em palavras e ração, pelo que adormeceu feliz da vida.
Na manhã seguinte, eis que o
homem se apresenta com a esposa, e uma carga que lhe põe no lombo, e os três
empreendem a tal viagem. De vez em quando, o burro olhava a mulher, que se
apresentava em adiantado estado de gravidez, e pensava que ela não ia aguentar
muito tempo a caminhada. Em breve teria que a carregar. Temia não ter
forças para isso.
A meio do dia, fizeram uma pausa.
Tiraram-lhe a carga e deixaram-no livre, para que pastasse algumas ervas
que por ali espreitavam entre o gelo do inverno, enquanto o casal se sentava
sobre um pedaço de rocha e comia alguma coisa.
Pouco tempo depois, o homem pegou
o burro pela arreata e levou-o até junto da mulher que se mostrava visivelmente
cansada. O burro percebeu que tinha chegado o momento tão temido. E se ele não
fosse capaz de levar a mulher? Que seria do casal, perdido no descampado ermo,
em pleno inverno?
O homem ajudou a mulher a montar
e pegando na carga até aí transportada pelo burro colocou-a às costas e os três
recomeçaram a viagem.
Mal retomaram a marcha, o velho burro
abriu ainda mais os seus grandes olhos, espantado. Que milagre era aquele?
Porque não sentia qualquer peso no lombo? Será que a pobre mulher tinha
caído? No seu estado? Virou a cabeça, para constatar que ela seguia bem sentada
no seu lombo.
Então porque ele não sentia
qualquer peso? Seguia sem esforço, caminhando melhor que nos anos da sua
juventude. E assim seguiram os três até que à noitinha chegaram à cidade. O
burro reconhecia aquela cidade. Várias vezes lá fora com o antigo dono. Até já
ficara num estábulo numa daquelas ruas, uma vez que o dono pernoitara na
cidade. Por isso, quando depois de percorrerem várias estalagens, não
encontraram lugar para pernoitar, e o casal já desanimava, na eminência de terem que pernoitar ao ar livre naquela noite fria de Inverno, o velho burro,
ansioso por mostrar a sua gratidão ao casal, tomou o rumo do estábulo que ele
conhecia bem.
Elvira Carvalho
Elvira Carvalho
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19.11.18
ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXII
Francisca acabara de adormecer as crianças e preparava-se para se deitar. Afonso ainda estava no escritório, e ela sempre respeitava aquele espaço. Sabia que ele se refugiava ali para trabalhar.
Olhou-se no espelho. Como estava diferente. Agora era uma mulher feliz, realizada. Tão diferente daquela Francisca que foi casada com Jorge. Viu pelo espelho a entrada do marido e como se dirigia para ela. Sentiu os seus braços à roda da cintura, os olhos procuraram-se através do espelho.
-Amo-te! - Sussurrou-lhe ao ouvido.
Sem respondeu, voltou-se e ofereceu-lhe a boca entreaberta, pronta para o beijo.
Enlouquecia-o. Cada dia mais, como se fosse uma dependência. Pegou-lhe ao colo, e deitou-a na cama. Inclinou-se para ela.
- Espera, - disse ela colocando a sua mão no peito masculino e empurrando-o suavemente. - Vamos conversar.
-Agora? - Em tom de lamento.
-Depois compenso-te. Prometo!
-Sendo assim, - parecia resignado.
-Sabes, o quartinho ali ao lado…
- O que é que tem? – Interrompeu impaciente
- Temos que trazer de novo para lá o berço. Vai ser preciso...
Levantou-se de um salto
-Queres dizer…
- Que a família vai aumentar dentro de alguns meses.
Abraçou-a.
- Amo-te tanto! Tens noção de que me tornaste no homem mais feliz do mundo?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
- Esforço-me por isso - sorriu sedutora.
-Amanhã trato do berço.
-Temos tempo. Ainda faltam uns meses. Antes, queria contar-te uma fantasia que tinha contigo quando lá dormia. Prometes que não te ris?
Beijou-a com paixão.
- Conta, - pediu com voz rouca
E ela contou. Devagar frisando cada pormenor da fantasia tantas vezes sonhada, exacerbando e levando ao limite o desejo do marido.
Quando ela se calou, ele estendeu-lhe a mão, ajudando-a a levantar-se.
- Vai, - sussurrou. Vamos convertê-la em realidade.
Feliz, ela encaminhou-se para o outro quarto
reedição
25.10.17
A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIX
Era sexta-feira, a sua semana
de trabalho chegara ao fim. Finalmente um dia em que não precisara de ficar a
trabalhar até mais tarde. Estava a chegar ao fim do mês, tinha que dar uma
resposta a Santiago. E já tinha decidido. Ele sempre trabalhara sozinho. Nunca
tivera um estagiário, que lhe ajudasse. Na sociedade iam tê-los. Ia ser melhor
para ele. Também os próprios advogados da sociedade, podiam intercalar ajudas.
Precisava com urgência de acalmar o ritmo de trabalho. Só precisava resolver com
Santiago, a situação laboral de Raquel. Estava na firma, há quase trinta anos,
sabia de olhos fechados tudo o que dizia respeito à sua profissão. Tinha que
continuar como sua secretária, era uma mais-valia de que não podia abdicar.
Olhou o relógio. Quatro horas
da tarde, mas o tempo escuro e chuvoso antecipara a noite que naqueles dias
pequenos de aproximação ao inverno, já chega cedo. Pensou em Anete, e na
distância que ela tinha que percorrer até casa. De súbito sentiu uma vontade enorme de a
ver. Não tinha sabido nada dela em toda a semana. Mas sentira saudades. Algumas vezes chegou a pegar no telemóvel para lhe ligar. Acabou desistindo. Não gostava de utilizar o telefone nos seus
contactos pessoais. Ele gostava de falar com as pessoas cara-a-cara, observando
as suas reações.
Podia ir buscá-la. Da clínica
até à paragem do metro era um bom bocado. Com aquele tempo ficaria encharcada.
A menos que tivesse levado o carro, mas ela dissera-lhe que não se atreveria a
conduzir em Lisboa, pelo menos por enquanto. Estava decidido. Ia buscá-la e
talvez ela quisesse jantar com ele. A noite estava desagradável, mas podiam
jantar em casa. Conversar.
Ele gostava de falar com ela.
Era uma boa ouvinte, coisa rara nas mulheres que conhecera nos últimos anos.
Recolheu alguns documentos da secretária e meteu-os no cofre. Desligou o
computador, vestiu o casaco, apagou a luz e saiu.
- Já acabaste, Raquel?
- Ainda não.
-Vou sair. Quando acabares
fecha tudo e podes ir. Até segunda.
- Até segunda, Salvador. Bom fim-de-semana.
Conduziu com cuidado. Os carros
rodavam numa marcha lenta no piso molhado. Em algumas ruas a água era tanta que
não se via a estrada. Ainda assim conseguiu chegar à porta da clínica faltavam
cinco minutos para a saída da jovem.
Pegou no telemóvel...
Pegou no telemóvel...
10.7.17
ROSA - PARTE XII
O posto médico da Seca do Bacalhau
A foto é minha.
De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do Bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a) Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que confirmou as palavras da Ti' Urbana . Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante três dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total. "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
8.7.17
ROSA - PARTE X
Igreja de Santa Cruz no Barreiro. A estátua em frente é do Padre Abílio. Homenagem do povo a quem ele amou, e protegeu, construindo casas e dando comida e roupas aos mais necessitados.
Meus pais casaram nesta mesma igreja em 1946 ano em que nesta história se casou a Rosa. Na foto do casamento deles me inspirei para descrever o vestido de noiva da Rosa. Podem ver a foto no fim do post.
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X
No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Meus pais casaram nesta mesma igreja em 1946 ano em que nesta história se casou a Rosa. Na foto do casamento deles me inspirei para descrever o vestido de noiva da Rosa. Podem ver a foto no fim do post.
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X
No Domingo, depois da missa, falaram com o padre para marcar o casamento. Naquela época, no Barreiro, era o Padre Abílio que estava na Igreja de Sta. Cruz onde eles acabaram por casar.
Este, depois de ter ouvido a confissão dos dois, fez questão de tratar de tudo rapidamente e sem qualquer custo. Casaram três semanas depois, o tempo necessário para os proclamas na terra dos noivos.
João tinha alugado uma casita num pátio perto da entrada da Seca. Era pequena, apenas um quarto e uma cozinha, uma pequena arrecadação e um galinheiro nas traseiras. Não tinha luz elétrica, nem água canalizada. Mas, no centro do pátio, havia um poço com uma espécie de tripé por cima, com uma roldana, onde passava uma corda que tinha numa das pontas um balde. Era desse modo que eles se abasteciam de água. Não tinha casa de banho. As necessidades faziam numa espécie de pote em argila, que era despejada todas as manhãs na “pipa”. A “pipa” era uma camioneta cisterna, propriedade da Câmara, que todas as manhãs percorria os pátios para recolher os detritos. Num canto do pátio, havia um pequeno cubículo onde se improvisara um duche comunitário, já que servia para todos os moradores do mesmo, que era composto por oito casas. O duche era a ponta de um regador, presa num tubo que saia de um bidão que alguém instalara lá em cima no telhado. Estava sempre cheio de água. Cada vez que alguém tomava banho, quando acabava, ia ao poço buscar água para voltar a encher o bidão. De Verão, o bidão apanhava sol todo o dia e o banho era quente. De Inverno, a água gelava e os moradores tomavam banho num alguidar grande de zinco, com água aquecida nos fogões a lenha ou petróleo que cada um tinha em casa. Naquelas três semanas, até ao casamento, compraram uma cama, uma mesa e dois bancos. A madrinha de casamento, deu-lhes dois lençóis e o padrinho, um fogão a petróleo para fazer a comida. A cunhada deu-lhe meia dúzia de pratos e dos futuros vizinhos recebeu um tacho, uma panela, uma sertã, um candeeiro a petróleo e uma manta de trapos.
Rosa fora trabalhar para a Seca do Bacalhau e lá encontrou gente da sua aldeia e de certa maneira sentiu-se mais segura. Era gente que trabalhava muito, ganhava pouco e ainda tinha que poupar para a viagem de regresso à aldeia, quando a safra acabava, e também para os meses que ficavam lá na aldeia, sem saber onde arranjar dinheiro para comer. Mesmo assim, juntaram-se e compraram o vestido de noiva da Rosa. Era uma saia azul e um casaquinho da mesma cor e uma blusa branca. A cunhada deu-lhe os sapatos. Não eram novos, tinha sido a madrinha dela que lhos dera no casamento. Mas como estavam apertados só os usara nesse dia. Eram pretos, com um vivo largo branco a toda a volta.
Quando no dia do casamento, se viu ao espelho, Rosa achou-se uma rainha. E lá foi para a igreja, na carroça do ti’ Abel com o futuro marido, porque essa história do noivo não ver a noiva antes do casamento, não era para gente pobre. Pelo menos nessa época.
Continua
Continua
Foto de casamento de meus pais. Quem me segue há muito tempo conhece-os bem. A Gravelina e o Manel da Lenha, cuja história já aqui contei.
2.4.16
MANEL DA LENHA - PARTE XLII
Foto DAQUI
A pé ou a cavalo, eles lá entravam, davam umas voltas entre o pessoal, reuniam com a guarda fiscal e partiam. Não consta que tenham havido por lá informantes, mas o pessoal tremia sempre que os via, e ficava mais calado. O Inverno decorreu como tantos outros sem nada de especial a assinalar. Desde o final de 65 que a filha mais velha se mudara para casa de um tio, guarda-florestal em Monsanto. É que o ordenado que recebia no laboratório, era pequeno, a rapariga queria fazer o enxoval e as passagens ficavam caras. Além disso entrava no trabalho às 8 horas da manhã, e para isso tinha de sair de casa às cinco e meia da manhã, para apanhar o autocarro que a levaria ao barco que nessa época levava trinta e cinco minutos a chegar a Lisboa. Depois ainda tinha que apanhar transportes no Terreiro do Paço, até ao trabalho. Cansativo e dispendioso. Assim ficava em casa da tia, só pagava o bilhete do autocarro, tinha mais horas de descanso, e só vinha à Seca ver os pais, dois fins de semana por mês.
Nesse ano de 66, a outra filha emprega-se também em Lisboa, mas essa como tinha estudos foi para um escritório, outro horário e quase três vezes o ordenado da irmã.
A vida ia-se compondo, com muito trabalho do Manuel que continuava a cavar e a semear cada vez mais.
Porém as notícias que ouve trazem-no cada dia mais preocupado. Sabe que desde Março, com o nascimento da UNITA, já são três os Movimentos de Libertação de Angola, e que a guerra de guerrilha cresce todos os dias.
Pela Seca, no rio Coina, todos os dias fuzileiros em exercícios nos seus barcos de borracha e ele não esquece o namorado da filha na Guiné e pensa no seu próprio filho actualmente com 16 anos. E apesar de estar sempre a dizer à mulher, que não se preocupe, ele teme o que o futuro reserva para o seu rapaz.
16.11.15
FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI
foto do google
Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
-
Bom dia.
-
Bom dia Miguel.
Vestia
umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um
ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O
almoço está pronto, Luísa?
-
Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos
almoçar? Não temos muito tempo.
Na
sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram
quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
-
Nervosa?
-Um
pouco.
-Desculpa,
quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração
da exposição. Foram 25 telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de
coisas que não podia descurar. Faltam 48 horas para a inauguração. Depois são
mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico
com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu
um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como
tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A
consulta foi demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente
a RM, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram
com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram
quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria.
Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito,
ele perguntou:
-Tens
frio?
-Um
pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio
-Vê
se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que
não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida razão, ambos evitaram falar nela.
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clínica,
exposição,
Inverno,
Os meus contos
2.6.13
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