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27.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável capaz de fazer inveja a qualquer um. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era sexta-feira. O médico daria consulta às sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da dona Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na sua visita ao médico. 



14.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE VI





- Um cancro, Doutor? - a voz saiu-lhe a medo, certo da resposta.
O médico assentiu em silêncio. Depois...
- Mais concretamente, uma leucemia. Existem vários tipos de leucemia e alguns são agudos, e estes são muito rápidos. Creio que é o seu caso atendendo a ser a primeira vez que se queixa e aos valores que as análises apresentam.
O silêncio que se seguiu parecia de chumbo. Por fim, Pedro perguntou:
- Não se pode fazer nada?
 –Com estes valores é impossível. Se me tivesse procurado mais cedo, eu podia enviá-lo para um hospital em Lisboa, onde lhe fariam um mielograma,  para terem uma noção exata do estádio em que se encontrava a doença, e com transfusões de sangue e quimioterapia, podiam controlá-la, até fazer um transplante de medula, única hipótese de cura.  Neste momento é demasiado tarde. A doença está na fase terminal, só um milagre o poderia salvar. Lamento, não sabe o que me custa dizer-lhe isto, mas como o senhor disse, tem direito à verdade. Segundo o laboratório diz aqui, porque os resultados eram muito graves eles tiveram o cuidado de os confirmar. Se quiser pode procurar outro médico. Num caso destes, está no seu direito de duvidar do meu diagnóstico.
- Obrigado Doutor, confio no senhor, não tenciono consultar mais ninguém.
Naquele momento, Pedro sentia vontade de gritar, de bater no médico, de destruir o mundo. À raiva inicial, seguiu-se uma enorme vontade de correr para casa, esconder a cara no regaço materno, e chorar como fazia em criança, quando alguma coisa o fazia sofrer. Por fim, sentindo a cada momento as forças a desmoronar dentro de si, perguntou:
- Quanto tempo? Quanto tempo me resta?
 – Não sei, ninguém pode dizer com precisão. Algumas semanas, um mês, no máximo uns três meses.
- Obrigado, Doutor, muito obrigado.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta, sob o olhar consternado do clínico
 – As suas análises -lembrou o médico.
 Saiu sem se voltar, como se não o tivesse ouvido.  




13.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXII


- Uma família. Por muito bem que um homem se sinta sozinho, chega um dia, em que acorda com as pernas trôpegas e os cabelos brancos e sente a falta de uma família.
-Podia dizer que não és pobre a pedir, porém  tu és um homem atraente, rico, ainda não tens quarenta anos, segundo deduzi pelo que disseste há dias, acabaste de dizer que  tens uma boa casa. Se não tens uma família, é porque não queres. A menos que tenhas alguma doença. É isso? Ou não podes ter filhos?
- Não é nada disso. Já te disse que não acredito no amor – calou-se por momentos como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas para a convencer. Mas na verdade, relembrava o seu casamento, e a maneira infantil como se tinha deixado ludibriar por Ivone. - Para te ser sincero, não tenho nenhuma confiança nas mulheres, e estava decidido a morrer solteiro. Mas uma vez que o destino me armou esta cilada, seria parvo se não tentasse sair dela, com alguma vantagem. Além disso estou a ser sincero, penso que ganhamos os três com esta solução. Sei que estás desempregada, e deves estar aflita com a situação, mas se aceitares o que te proponho, assumo todas as despesas até ao casamento. E depois da cerimónia, se quiseres dedicar-te à menina por inteiro, nem precisas trabalhar. Além do mais estou convencido de que poderemos ser felizes.
- Antes do mais, deves saber que já não estou desempregada. Começo a trabalhar na segunda-feira. Compreendo que queiras ter participação ativa na educação da Matilde. Também entendo que se aceitar a tua proposta vou ter uma vida muito mais facilitada, mas ao contrário de ti, eu acredito no amor, e não me entra na cabeça um casamento, sem esse sentimento.
- Sabes quantos casamentos se fazem por amor, com casais que se dizem muito apaixonados, e terminam em menos de dois anos? A compreensão, o respeito pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo,  podem ser muito mais duradoiros do que a paixão.
- Quando falo em amor, é a isso que me refiro, não à paixão, que essa, como dizia a minha mãe, dá forte mas passa depressa. Supondo que eu aceito esse casamento, como seria ele? Completo ou nem por isso?
-Naturalmente seria um casamento normal, com tudo o que isso implica.
-Vejo que temos maneiras de ver a vida, diametralmente opostas. Um casamento como propões, para mim, seria tudo menos normal.
-Bom, dei-te a solução para darmos à Matilde, o lar a que ela, como todas as crianças tem direito. Disseste que eras capaz de dar a vida por ela. Não te peço tanto. Pensa bem, e logo que tenhas uma decisão telefona-me. Até lá não te importunarei.
Levantou-se e encaminhou-se para a porta, seguido por ela.
-Obrigada pelo jantar- disse ela.
- Fico à espera da tua chamada – respondeu Ricardo apertando a mão que a jovem lhe estendia



Atenção,  que ontem saíram dois capítulos.


10.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XI






Odete entrou em casa e foi ao quarto da mãe ver como ela se encontrava. Pareceu-lhe que já dormia e retirava-se quando a mãe abriu os olhos e perguntou:
- Falaste com ele?
- Sim, mãe. Ele vai tratar de tudo para que sejas rapidamente tratada. Mas quer que eu volte para casa.
- Nunca me contaste porque o abandonaste. Suponho que algo de muito grave se passou. Gostavas tanto dele. Mas se te quer de volta, é porque também te ama. Se assim não fosse há muito tempo  tinha pedido o divórcio. Porque não lhe dás uma segunda oportunidade?
- Não te preocupes mãe. Esclarecemos tudo e fizemos as pazes. Amanhã mudo-me para lá, mas estarei contigo sempre que puder. O João disse que amanhã chega uma enfermeira para cuidar de ti até seres internada.
- Mas isso é muito caro.
- Não te preocupes com isso. Ele faz questão de pagar tudo. Só tens de pensar em que tudo vai correr bem e que daqui a uns meses, nem te vais lembrar disto. Agora descansa. Eu vou telefonar ao pai e depois também me vou deitar.
- Não lhe fales da gravidade da minha doença. Tem tempo de saber quando voltar.
- Fica descansada. Agora procura dormir. Até amanhã.
- Até amanhã, filha. Deus te abençoe.
Odete telefonou ao pai, que atravessava Espanha, rumo a Portugal, verificou que estava bem, informou-se de quando chegava e despediu-se com um beijo.
Foi à cozinha, aqueceu uma caneca de leite, que bebeu, verificou se as janelas da casa estavam todas fechadas, e foi para o quarto que fora seu e da sua irmã, até que casaram e saíram para as suas casas.
Procurou um pijama e foi à casa de banho escovar os dentes e preparar-se para dormir. Fazia tudo com uma lentidão propositada, tentando não pensar no caos em que se transformara a sua vida, pelo menos até ao momento em que se deitasse. Porque ela sabia que assim que pousasse a cabeça na almofada, as memórias viriam em catadupa, tal como tinha acontecido durante todo o tempo que vivera na casa da sua irmã Laura em Leeds onde se refugiara tentando esquecer o fracasso do seu casamento.
Inicialmente pensara que seria só até ao divórcio, mas como João nunca o pedira, ela foi ficando e acabara empregando-se numa creche do irmão do cunhado.
Regressara há menos de quinze dias a pedido do pai, para cuidar da mãe.




30.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLVI



-O que queres dizer com isso? Estiveste casada mais de três anos. Esqueces que me apresentaste o teu ex-marido? Não me digas que ele é homossexual.
-Nada disso. Afonso e eu crescemos como irmãos. Os nossos pais pensavam que se éramos felizes juntos, o ideal era casarmos. E a nós não nos pareceu mal. Na noite de núpcias, não conseguimos tocar-nos. Era como se fossemos irmãos. Não deu. Nessa mesma noite, combinámos o divórcio. Que só aconteceu três anos depois, por causa da morte do pai dele e da doença da mãe.
Quer dizer que tu nunca…
- Nunca.
- Meu Deus! Salvador sabe?
- Não. Tirando eu e o Afonso, só o contei à minha mãe já depois do divórcio, e agora a ti. Não é nada fácil falar nisto. Sinto-me tão parva!
- Eu diria antes frustrada, Anete. Mas ainda estás a tempo de seres, feliz. E tenho a certeza que o serás com o meu cunhado. Sinceramente, penso que lhe deves contar, o que me disseste. Deves compreender que fará muita diferença, e será muito mais fácil, ele entender essa tua timidez.
- Não sei, - calou-se com a entrada dos dois irmãos na sala.
- Podemos ir, Anete?
-Sim, - disse levantando-se
- Pode saber-se para onde vão? -Perguntou Ana Clara.
- Vamos lanchar a Sintra, - respondeu Salvador. - Anete não conhece a zona.
-Porque não voltam cá logo? Podiam jantar connosco, - insistiu.
- Obrigado, mas tenho outros planos, - respondeu Salvador.
Vestiram os agasalhos e despediram-se.
Na rua o sol brilhava, mas não aquecia. Entraram no carro e seguiram em direção a Sintra.
-Ana Clara conseguiu acalmar os teus receios? – Perguntou ele.
- Não. Mas foi uma boa conversa. E dissipou-me algumas dúvidas.
-Ainda bem. Vamos parar aqui, e passear a pé pela zona histórica. Aperta o casaco, o tempo por aqui nesta época do ano costuma ser bastante frio, No próximo verão, viremos para uma visita aos monumentos, poderemos ir até à Praia das Maçãs, ao cabo da Roca, que como sabes é o lugar mais ocidental de Portugal, o sítio onde acabava o mundo como se acreditou até ao século XIV.  Ir até às Azenhas do mar, à Praia da Ursa.  Esta zona é muito bonita, mas são necessários alguns dias para vermos toda esta riqueza paisagística. E de verão, com dias grandes.  Hoje, vamos mesmo, só dar um pequeno passeio,pelo centro da vila e lanchar.
-Tens razão, tudo isto é lindo.
- É. Há por aqui muita história.Vários escritores aqui buscaram inspiração para as suas obras. Eça de Queirós e Ramalho Ortigão escreveram em conjunto "O mistério da estrada de Sintra" A vila exerceu um grande fascínio sobre os artistas durante a época do romantismo. Escritores e poetas, não só nacionais mas também estrangeiros, pintores e músicos viveram aqui, por períodos mais ou menos longos. Glauber Rocha um cineasta brasileiro também aqui viveu e morreu.
- Não fazia ideia. Conhecia os monumentos, de nome, falámos neles quando estudávamos, sabia da paixão de Ferreira de Castro, por Sintra, até nos foi dito que havia aqui um museu, com as obras que ele doou ao concelho, mas não imaginava que pudesse influenciar tantos artistas.
Vamos entrar? – Perguntou Salvador ao chegar à porta da Piriquita. Tens problemas com doces?
- Não. Porquê?
-Porque vir a Sintra e não comer os travesseiros, é o mesmo que ir a Belém e não experimentar os pastéis, ou como diziam os nossos avós, ir a Roma e não ver o Papa. É um bolo, feito de massa folhada e recheado de creme de amêndoa.
Pediram dois travesseiros e dois cafés.
- Hum…é muito bom – disse a jovem saboreando o doce.
 - Queres que peça, outro?
- Não. Nunca como muito a esta hora, senão depois não janto.
- Então, se não te apetece mais nada, é melhor irmos andando. Vamos descer até Cascais. Com sorte assistimos juntos ao pôr-do-sol.


Gente voltei a ficar sem Internet, desde as 17 horas de Sábado até  às 8 de hoje. 


12.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável de fazer inveja. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era Sexta-feira. O médico daria consulta às Sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da D. Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na visita ao médico.