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15.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXVI



Apesar da hora tardia a que se deitara, Luísa acordou cedo. Estava preocupada com o desconhecido. Será que ainda dormia? Tinha chegado tão exausto e ferido.
 Foi até à janela e correu a persiana. Lá fora a tempestade continuava. Se o vento já não soprava em rajadas tão intensas, a chuva continuava diluviana, e o caudal do rio tinha subido bastante. Felizmente embora a sua casa estivesse no vale, estava suficientemente afastada para não ser afetada. Abriu o armário e retirou umas calças de fazenda bege e uma camisola de gola alta branca. Com as peças na mão, abriu a gaveta da cómoda para retirar um conjunto de roupa interior, quando a porta do quarto se abriu, e o desconhecido falou:
- Desculpe... procuro a casa de banho…
- Segunda porta à esquerda.
Ele murmurou um obrigado e fechou a porta. Luísa foi até lá e correu o fecho interior. Deu graças porque o seu quarto tinha casa de banho e assim não precisaria esperar para tomar o seu duche.
Depois do banho e já vestida olhou-se ao espelho. Era uma mulher alta e magra, cabelos e olhos castanhos, testa alta, pele morena e boca pequena. Não era uma mulher bonita, sabia-o desde menina, mas isso não impediu que se tivesse apaixonado perdidamente por um cafajeste, que lhe ensinou a arte do amor.
Recordou Jorge Silveira, o único homem que amou na vida. Ela tinha terminado os estudos e fora de férias para casa de uma amiga em Albufeira. Era verão, tempo de calor, sol, praia e namoricos. Ela era uma jovem ingénua e sonhadora, ansiosa por conhecer e experimentar as delícias do amor.  A mãe morrera de cancro quando ela mal começara a andar e dois anos depois o pai casara-se de novo. A madrasta era uma boa pessoa, mas não era uma mulher muito carinhosa, ou talvez não o fosse só com ela, porque era a prova viva de que o marido, tinha amado outra mulher antes dela. Quando Luísa fizera dez anos a madrasta soube enfim que ia ser mãe. Ela lembrava-se da ansiedade com que esperou aquele bebé. Mas quando ele nasceu, a madrasta tornou-se ainda mais indiferente com ela, e o pai só tinha olhos para o menino que sempre desejara, e que a primeira mulher não lhe soubera dar. Luísa, podia ter odiado o irmão, que lhe usurpara o pouco carinho que até ali recebera, mas em vez disso, amou o irmão com toda a intensidade do seu pequeno e carente coração. Dedicava-lhe todo o tempo que não estava na escola, e foi ela que lhe ensinou as primeiras palavras.
Faminta de carinho, Luísa foi presa fácil das bonitas e enganadoras juras de amor de Jorge. Findas as férias, e como ambos viviam em Lisboa, o romance continuou e pelo Natal, Jorge chegara mesmo ao desplante de a pedir em casamento, esquecendo-se claro de lhe dizer, que tinha outra namorada e que até já tinha um filho de dois anos. Quando a outra moça a procurara desesperada, Luísa ficara sem chão, a vida deixara de lhe importar, perdera a vontade de viver. Fora nessa altura, que recebera uma carta de um advogado. A sua madrinha morrera Luísa nem sequer  a conhecera, mas que segundo a carta que o causídico lhe entregara, quando respondendo à sua convocatória, Luísa se apresentara no seu escritório, tinha sido grande amiga da sua mãe,  e deixara-lhe aquela casa e um bom dinheiro. O pai aconselhou-lhe a vender a casa, ela era uma menina da cidade, não se habituaria a viver naquele sítio tão isolado. Não o fez. Aquela era a grande oportunidade de se afastar, e esquecer uma vida em que nunca fora feliz. A única coisa que lhe doía, era separar-se de António, o irmão que amava de todo o coração, mas prometera que viria buscá-lo para passarem juntos as férias da Páscoa e parte das férias do Verão.


30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


21.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IV





Pousou o telemóvel sobre a mesa-de-cabeceira, e dirigiu-se  à casa de banho.  Despiu-se, enfiou a roupa que acabara de despir,  no cesto da roupa suja, abriu a torneira da água e meteu-se debaixo do chuveiro.  Depois do duche, enxugou-se, enfiou o robe sobre o corpo nu e regressou ao quarto. Retirou do armário umas calças de ganga e um suéter que vestiu. Voltou à casa de banho, pendurou o roupão no cabide atrás da porta  e olhou com desconfiança a imagem que o espelho lhe devolvia. Pese toda a atração que provocava no sexo oposto, Gil nunca se considerara um homem bonito. Podia reconhecer que no conjunto dos seus traços, tinha um aspeto agradável, mas bonito não era. Todavia a imagem que naquele momento, o espelho lhe devolvia, nada tinha que merecesse um segundo olhar.  Certo que continuava a ter um porte atlético, mas os olhos mortiços e rodeados de olheiras, o olhar cansado, a barba incipiente de quem passara o dia sem se barbear, o ricto amargo na boca e o cabelo húmido, estavam longe de lhe dar um ar muito atraente. Respirou fundo, passou os dedos pelos cabelos, puxando para trás uma madeixa rebelde, endireitou a gola do suéter azul, e apertou o cinto nas calças de ganga. Por fim saiu da casa de banho, desceu as escadas e dirigiu-se ao seu escritório. 
O jantar seria às oito como era hábito, ainda tinha tempo para ver o correio, e verificar alguns documentos que precisaria para o dia seguinte. Depois ao serão analisaria a proposta que Luna, a sua agente lhe fizera chegar. Precisava embrenhar-se no trabalho a fim de esquecer por algum tempo, o hospital, Sara e Mariana a sua filha. Gostava de pensar nela dando-lhe o nome que iria ter, e não como uma bebé. Era uma estupidez, o seu lado prático reconhecia-o, mas no seu coração era como se ao pronunciar-lhe o nome lhe enviasse um sopro de vida que a fortalecesse.
Mariana, fora o nome da sua mãe. Uma mulher humilde e trabalhadora que criara sozinha os três filhos, já que o marido, um mulherengo incorrigível, a quem ela ia perdoando todas as traições, acabara por troca-la por outra mulher mais jovem, logo após o nascimento de Laura, a mais nova dos três irmãos. Por isso, ele escolhera esse nome para a filha. Como uma homenagem e um agradecimento à mulher que tanto os amou e tanto se sacrificou por eles. Pena que tivesse morrido tão jovem, sem que ele pudesse dar-lhe a velhice que ela merecia, mas o maldito cancro acabara com ela em menos de um ano, precisamente na altura, em que ele ia assinar o primeiro grande contrato da sua vida. Graças a isso pôde montar a pequena empresa de artigos desportivos, com que o irmão sonhava e pagar a Universidade à irmã.
Depois foram oito anos em que somou verbas astronómicas não só com o futebol, mas também com os contratos publicitários. O nome de Gil Gaspar, tornou-se no toque de Midas. Foi já nos anos finais dessa época dourada que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher.
Sara era uma jovem completamente desconhecida, muito bonita e com uma excelente figura, que sonhava vir a ser modelo, e que um agente de publicidade descobrira e convidara para fazer par com ele numa campanha publicitária.
Era uma beleza, mas mais do que isso foi a sua timidez e o seu ar ingénuo que os encantara, a ele e ao fotógrafo.
O anúncio fora um êxito, e a agência convidara-a para alguns desfiles, mas o mundo da moda é um mar de intrigas e interesses, onde é preciso muito mais do que uma carinha bonita e algum talento, para se chegar ao cume. 


27.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVII

No dia seguinte acordou cedo. Tinha dormido vestido sobre a cama. Despiu-se e tomou um duche retemperador. Depois olhou-se ao espelho demoradamente. Não por vaidade, mas tentando descobrir algum sinal da doença que o minava. Mas não. Tinha um ar saudável capaz de fazer inveja a qualquer um. Fez a barba, e escolheu uma roupa simples e desportiva. Olhou o calendário. Era sexta-feira. O médico daria consulta às sextas? Tinha que ir lá rapidamente. Pegou uma maçã e saiu para a rua. A mãe dissera que vinha logo de manhã, de táxi. De Santarém ao Barreiro, não demorava muito. Logo, logo estaria aí, pensava enquanto comprava o jornal. E não se enganou, pois ao voltar encontrou a mãe no momento da chegada. Não se conteve e depois de a abraçar pegou-lhe ao colo e rodopiou com ela como não fazia há muito. Finalmente em casa, a mãe queria saber de tudo. Como estava a tia, se tinha gostado da terra, se tinha encontrado alguma cachopa bonita, um nunca mais acabar de perguntas. E andava à sua volta mirando-o, como se de um monumento se tratasse.
E ele falou. Contou como gostara da terra, e da tia. Falou da dona Célia, do pequeno Pedro e da Rita. E desta, falou com tal entusiasmo que a mãe adivinhou logo a paixão no seu peito. Quando ele se calou a mãe ficou em silêncio olhando-o. Depois levantou-se e dirigiu-se à cozinha, tentando ocultar uma lágrima, que teimosa queria escapar dos seus olhos. Pedro percebeu porque a mãe não queria fazer comentários. Ela julgava que ele se declarara e não era correspondido. O almoço decorreu em silêncio.A mãe entristecida com o suposto desgosto do filho, e este só pensando na sua visita ao médico. 



8.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIII


No dia seguinte, com as férias a meio estava a caminho de casa. Apesar de toda a beleza dos sítios onde estivera, ela sentia falta do trabalho, do "stress" da cidade.  As belezas naturais tinham deixado de a entusiasmar. Que importava ter na sua frente a oitava maravilha do mundo, se não tinha ao lado ninguém, com quem partilhar os sentimentos que a sua beleza lhe provocava?
“Estás mal Paula. Se a aproximação dos trinta, te põe assim, que será de ti quando chegares aos quarenta?” – pensou enquanto se dirigia pela autoestrada em direção a casa.  Parou na área de serviço de Alcácer do Sal para esticar as pernas e beber um café. Aproveitou para telefonar para o escritório
- Estou.
- Irene estou a caminho de casa. Não sei se rejeitaste algum trabalho, mas a partir deste momento podes aceitar o que aparecer.
- Mas…não ias estar um mês de férias?
- Cansei de não fazer nada. Amanhã falamos.
Desligou a chamada, e voltou ao carro decidida a chegar a casa o mais depressa possível. O dia estava bonito mas a temperatura acima dos trinta e cinco graus, fazia-a desejar tomar um duche refrescante, vestir uma roupa leve, e ficar por casa a mandriar. Infelizmente quando chegasse tinha que ir fazer compras, pois não tinha nada em casa, e retomando o trabalho no dia seguinte, ficava com o tempo mais escasso.
Uma hora depois entrava em casa. Foi à cozinha, levantou a persiana a fim de deixar entrar a luz, e abriu as torneiras de segurança da água e do gás. Ligou o frigorífico, e foi à sala onde levantou a persiana apenas o suficiente para dar à divisão um pouco de luz, já que aquela hora o som incidia com toda a sua força sobre aquela janela. Voltou ao corredor, pegou na mala e na bolsa, e dirigiu-se ao quarto, onde as largou, junto aos pés da cama. Fez subir a persiana, e foi à casa de banho onde se despiu, meteu debaixo do chuveiro e deixou que a água tépida deslizasse pelo seu corpo suado, como uma carícia.
Terminado o duche, enrolou uma toalha à volta do corpo, e foi ao quarto onde procurou, uns calções brancos e um top da mesma cor. Da primeira gaveta da cómoda, retirou um conjunto de roupa íntima branca, uma delicada mistura de  algodão e renda, e retirando a toalha vestiu-se em seguida, sem utilizar o creme hidratante que costumava usar. Estava tanto calor, que certamente tomaria outro duche a meio da tarde, e aí sim utilizaria o creme. Pegou no telemóvel e marcou o número da madrasta.
-Estou…
-Cidália, já voltei. Como estão?
-Estou sozinha. O teu pai foi pescar com uns amigos e o Miguel. Parece que os amigos também levavam os filhos, num programa de pais e filhos. Só devem vir lá para o fim da tarde.
-E já almoçaste? Podias vir almoçar comigo. Não tenho nada em casa tenho que ir às compras, almoçávamos no Centro Comercial.
- Passas por aqui a apanhar-me?
- Estou aí dentro de quinze minutos. Até já.
Poisou o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Abriu uma gaveta tirou um bloco, uma caneta, e foi fazendo uma lista daquilo que precisava comprar. Quando terminou, arrancou a folha, dobrou-a e guardou-a na mala, juntamente com a carteira, os documentos e o telemóvel. Pegou as chaves e saiu.




23.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXX


Tomou um duche, que a revigorou. Enrolou uma toalha no corpo, escovou os belos cabelos e deixou-os soltos sem os secar. Vestiu um curto e florido pijama de algodão, enfiou um robe azul, calçou uns chinelos, e foi para a cozinha. Abriu o frigorífico, procurou alguma coisa para cozinhar, mas os dias de trabalho intenso, tinham-na impedido de ir às compras pelo que o frigorífico estava praticamente vazio. Foi até ao quarto, pegou no telemóvel, e pediu uma” pizza”. Pouco depois a campainha tocou. Paula pegou na carteira e dirigiu-se à porta. Espreitou pelo óculo pensando tratar-se do entregador de “pizzas” e surpreendeu-se ao ver quem estava do outro lado. A campainha soou de novo enquanto ela hesitava se abria ou não a porta, mas o segundo toque acabou por convencê-la. Aconchegou o robe ao peito e abriu a porta.
-Boa noite. Posso entrar?
Como resposta ela afastou-se para lhe dar passagem, fechou a porta e encaminhou-o até à sala dizendo:
- Não te esperava.
- Talvez devesse ter avisado. Mas se o fizesse será que me recebias?
- Talvez não. Não costumo receber visitas em casa, a não ser de familiares. Mas senta-te. Queres beber alguma coisa?
- Não, obrigado
- Então dá-me cinco minutos por favor! Volto já.
Deixou-o só e dirigiu-se ao quarto, onde trocou rapidamente de roupa. Já era embaraço suficiente receber o empresário em sua casa. Mas recebê-lo de roupa de dormir, era demais.
-Bom, - disse ao entrar na sala envergando um conjunto de calça e túnica. – O que é tão urgente que não podias, guardar para amanhã?
António abriu a pasta e retirou um envelope que ela reconheceu.
- Amanhã é o último dia do mês. O teu pai deverá estar no meu escritório às onze horas. Vou ficar em Sintra esta noite e não penso ir amanhã ao escritório. Vim trazer-te todos os documentos da firma do teu pai bem como o resgate da hipoteca, e um cheque que deve cobrir as necessidades imediatas da empresa.Com o resgate da hipoteca e esse cheque, ficarão liquidados todos os prejuízos que ele terá tido por minha causa. Peço-te que lhos entregues amanhã de manhã. Diz-lhe que a partir de agora, está por sua conta, eu não voltarei a interferir nos seus negócios.
- Desististe da vingança, mas não perdoaste. Por isso não o queres ver, - disse ela
-Desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.
 - Que sabes do Miguel? Nunca te falei dele.
- O meu sobrinho Pedro é o seu melhor amigo, e os amigos falam uns dos outros. O teu irmão, não esconde de ninguém o amor e a admiração que tem por ti. Por vocês desisti. Pelo teu pai, não o teria feito. Talvez um dia eu consiga esquecer o que me fez sofrer e o possa perdoar. Mas por enquanto não consigo, e por isso não quero voltar a vê-lo.
Tocaram a campainha e Paula levantou-se.
-Desculpa, tenho que ir abrir, tinha encomendado uma “pizza” para o jantar. Deve ser o empregado da pizaria.
Era mesmo o jovem, com a “pizza”. Paula pagou, fechou a porta e foi colocar a caixa na cozinha voltando de seguida à sala.
- Porque não me contas, o que o meu pai te fez?- perguntou.
- Porque és demasiado importante para mim, e não te quero envolver nesta história. Estive em Sintra esta tarde. Pensei que ainda te encontrava, mas segundo Alice tinhas saído há um quarto de hora. Fizeste um trabalho fantástico. Sei que vais lá estar amanhã, mas tinha que resolver este assunto hoje. Por isso vim.



E com o comentário da Ailime chegámos aos 40.000

10.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XV



Depois do duche e de ter trocado de roupa, Afonso voltou à sala. Foi até à janela e ficou observando o exterior. A irmã, estava no baloiço com a sobrinha, Ana. Marta e João ora subiam as escadas do escorrega, ora se deixavam deslizar pelo outro lado, soltando alegres gargalhadas. Desde o dia em que se conheceram três meses antes, que aqueles dois quando estavam juntos era uma festa. Ninguém diria ao vê-los que não eram irmãos, ou amigos de longa data. Um pouco afastados, Francisca, de cócoras falava com Simão. O menino preocupava-o. Pelo que observara, naqueles três meses, parecia-lhe demasiado adulto para os seis anos que ia fazer em breve. Não tinha a alegria nem a espontaneidade do irmão, nem estava sempre a pensar na brincadeira. Várias vezes observara nele atitudes de protecção com o irmão e até com a própria mãe.
No jardim a conversa continuava, e Afonso pensou que gostaria de saber de que falavam. Será que o miúdo ia ter problemas de integração? Que não ia aceitar o casamento da mãe?
A carrinha do restaurante parou junto ao portão. Antónia, a empregada, saiu para o abrir e lhes franquear a entrada.  Viu as duas mulheres chamarem as crianças e encaminharem-se para casa. O serviço com o restaurante estava tratado, incluindo a presença de dois empregados para lhes servir a refeição, não tinha que se preocupar com isso. Chamá-lo-iam quando tudo estivesse pronto.
O que o preocupava agora era a visita dos ex-sogros, no dia seguinte. Não lhes tinha dito nada que ia voltar a casar. Preferira apresentar-lhes o acto consumado. Desde que lhe disseram que queriam a guarda das meninas, porque achavam que elas estavam muito sozinhas, que um homem só e ainda por cima com tanto trabalho, não teria condições de dar às crianças a atenção que necessitavam, toda a simpatia que lhes tivera desaparecera. Fora por isso que Graça o incentivara a casar. E se a princípio ele achou que semelhante ideia era uma estupidez, depois que a irmã lhe falou da amiga, e sobretudo quando a viu, tímida e envergonhada no seu escritório, a ideia começou a parecer-lhe mais aceitável.  E se ainda tinha dúvidas, depois que ela foi com os filhos, passar o dia lá a casa, e viu a forma carinhosa como tratava deles, e como se deu a conhecer e tratou as meninas, teve a certeza de que era realmente o passo certo.

reedição





30.8.18

FOLHA BRANCA - PARTE XXXVII


Acordou cerca das dez. Curiosamente sentia-se bem. Como se a catarse que se seguiu à recuperação da memória, tivesse expurgado do seu espírito, toda a culpa que não tivera forças para carregar, e a levara a tentar o suicídio.
Enquanto tomava o duche matinal, recordava o que acontecera durante a noite. Como acordou assustada com a trovoada, e como de repente o som do trovão, já não era da trovoada, mas do choque entre os dois carros, e como num momento a morte do pai e tudo o que se seguiu, lhe surgira nítido na memória. 
Era como se estivesse vendo um filme, no qual, ela era a protagonista. Lembrou dos longos meses que passou no hospital, primeiro  em choque, depois perdida entre pesadelos e ataques de pânico. De quando teve alta. Dos dois dias que passou quase por inteiro no cemitério, junto da campa do pai. Da boleia que a levou até Faro. E da outra que a deixou em Lagos. Da decisão de não voltar para casa, onde sabia que não ia encontrar o pai, do  peso da culpa, do medo da solidão, do hostel onde deixara as suas coisas, naquela tarde em que procurara uma falésia mais escondida para acabar com o sofrimento, que a devorava por dentro.
Vestiu umas calças de lã cor de mel, e um camisolão branco. Prendeu a farta cabeleira, numa trança e olhou-se ao espelho. Gostou de se ver. Olhava com firmeza, a figura que o espelho lhe devolvia, sem medos, nem mudas interrogações. Tinha largado a pesada carga que há meses carregava. E agora?
Agora tinha que retomar a vida, que ficara lá atrás em suspenso.
Aprender a viver sem o pai, e sem culpas. Sentia que as sessões de psicoterapia a iam ajudar a ultrapassar, e quem sabe esquecer, aqueles meses em que a sua mente fora uma folha em branco.
Não. Esquecer, não. Esquecer, seria olvidar Miguel, a sua presença, o seu carinho, o seu riso, o seu cheiro. Os dias passados juntos, os passeios, os conselhos. Tudo o que tinha gravado para sempre no coração. Decididamente, o que mais lhe doía neste momento, já não era a ausência do pai, mas a eminente separação de Miguel.
E como doía pensar nisso.
Aos poucos enevoaram-se-lhe os olhos e uma lágrima deslizou pela face.
Porque tinha de ser assim? Era como se a vida estivesse sempre montando armadilhas no seu caminho. Porque tinha de se separar das pessoas que amava?








4.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE VI



Foto do google




Voltou mais de uma hora depois, carregado de sacos, que depositou junto da jovem.
- Comprei-lhe roupas. Não sei se são exactamente a sua medida, mas servirão para poder tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde logo se vê o que mais precisa. E trouxe um frango assado para o almoço. Vamos almoçar já ou prefere primeiro o duche?
- Creio que o duche – disse a jovem pegando nos sacos e levando-os para o quarto.
- Tudo bem.  Vou buscar uma toalha limpa e depois fazer uma salada para acompanhar o almoço.
No quarto, a jovem foi tirando as peças dos sacos. Dois pares de calças, dois camiseiros, um vestido rodado, uma saia justa e um pulôver, um par de ténis, umas sabrinas e algo que fez a jovem corar, três conjuntos de roupa intima. Escolheu as calças brancas, um camiseiro também branco, as sabrinas e um dos conjuntos interiores e dirigiu-se à casa de banho. Temia passar pela cozinha. Que pensaria o homem, quando a visse com a roupa. Imaginá-la-ia com as minúsculas peças vestidas?
Felizmente Miguel estava de costas para ela, entretido com a salada.
Ao entrar na casa de banho, pensou se teria que tomar duche de água fria, mas como que adivinhando-lhe os pensamentos Miguel gritou.
- O esquentador está na casa ao lado e já está aceso.
 A jovem fechou a porta à chave e começou a despir-se. Continuava apática, tudo nela era mecânico, como se o seu espírito se tivesse ausentado do corpo.
Meteu-se debaixo do chuveiro e durante alguns minutos deixou que a água morna deslizasse pelo seu corpo esbelto como se fosse uma carícia.
Depois esfregou-se com raiva, como se quisesse fazer saltar de dentro dela, quem dela se ausentara. Por fim incapaz de se controlar, deu livre curso às lágrimas que se misturaram na água.
 Terminado o banho, procurou a toalha, e só então reparou, no frasco de creme hidratante e na escova.
 “Deve estar muito habituado a lidar com mulheres" - pensou enquanto espalhava o creme pelo corpo nu. 
Vestiu-se. As calças estavam ligeiramente largas na cintura, mas tudo o resto estava perfeito.
Passou a escova no cabelo, e olhou-se no espelho, perguntando-se quem era aquela pessoa, cuja imagem  ele lhe devolvia.



21.7.18

O DIREITO À VERDADE - XL





Envergonhada, sentindo-se imunda e feia, tentou fechar a porta, mas Cláudio foi rápido a introduzir um pé na ombreira, não deixando que o fizesse.
- Não querida, não vou deixar que me expulses da tua casa e me fujas como fizeste em Coimbra.
Sentindo que as lágrimas ameaçavam correr pelo rosto, ela largou a porta e virou-lhe as costas.
- Andava em limpezas. Não estou minimamente apresentável, para receber visitas.
- Estás linda como sempre. Mas se ficas mais confortável tomando banho e mudando de roupa, eu espero o tempo necessário na tua sala. Porém não me vou embora sem termos uma conversa séria.
- Nesse caso, a sala é aqui, -disse abrindo uma porta. Vou pôr-me apresentável. Mas antes quero saber como me descobriste, quem te deu a minha morada.
- Dir-te-ei quando voltares, - disse sentando-se no sofá.
Helena não insistiu. Foi ao quarto, tirou um conjunto de roupa íntima da cómoda, pegou numas calças de seda pretas e numa blusa azul e dirigiu-se à casa de banho.
Nunca na sua vida, a jovem tomou um duche tão rápido. Pensar que Cláudio estava na sala e que no tempo de espera, podia entreter-se a imaginá-la nua, punha-a nervosa.
Com o corpo enrolado na toalha secou o cabelo, vestindo-se de seguida. Escovou o cabelo à pressa, ansiosa por saber como ele a tinha encontrado.
- Bom, aqui estou. Podes começar.
Cláudio estava feliz. Voltar a encontrá-la, saber que tinha sobre ela o poder de a deixar assim, ruborizada e nervosa, era algo que o encantava. Apeteceu-lhe brincar.
-Isso são modos de cumprimentar o teu futuro marido? Nem sequer um inocente beijinho? Desiludes-me.
- Deixa-te de brincadeiras estúpidas, -disse, lançando-lhe um olhar furioso. Como chegaste até minha casa? Quem te deu a morada?
- Jorge Noronha, o nosso pai.
- O nosso… pai…-  soletrou ela deixando-se cair numa cadeira. Imagens rápidas dos sonhos eróticos, que preenchiam algumas das suas noites,  perpassaram na sua memória. Mas então… nós somos irmãos?
- Não, claro que não, - disse pondo-se em pé. O pai nunca te falou de mim? Sou filho de Carmo, a mulher com quem se casou, anos depois do divórcio com a tua mãe. Minha mãe era viúva e eu já tinha nove anos quando eles se conheceram. No entanto, habituei-me a chamar-lhe pai por duas razões. A primeira, porque ele me criou com tanto amor, como se eu fosse de verdade, seu filho. A segunda, porque sabia do muito que ele queria um filho e a mãe, não podia dar-lho. Quando eu nasci, alguma coisa correu mal no parto e a mãe ficou impossibilitada de ter mais filhos. O que importa, é que não somos irmãos e por isso podemos amar-nos, sem qualquer prurido de consciência.
- Falas de amor como se ele existisse entre nós. Conhecemo-nos há dias.


Bom fim-de-semana

16.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXI




Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto, Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa.  Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo.  Porém o tempo estava bom e o prognóstico do IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja. Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando, ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer. E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente, depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada. Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche. 



Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro. 


A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.

15.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXIX




Já o sol baixava no horizonte quando Cláudio entrou no alpendre que  rodeava a casa. Limpou os ténis no tapete, mirou-lhes a sola em busca de alguma impureza que fosse sujar a casa e só depois entrou em casa. Pendurou o boné num bengaleiro na entrada e seguiu para o quarto. Vestia umas calças de ganga velhas e sujas, e uma camisa que deveria ter sido branca quando a vestiu, mas que se apresentava suada e suja. Se Helena o visse naquela hora, teria dificuldade em reconhecer o homem elegante, que conhecera há dez dias. Ouviu a voz dos pais que conversavam na sala, mas seguiu para o quarto, e daí passou à casa de banho. Despiu-se, enfiou no cesto, a roupa para lavar, e meteu-se debaixo do duche.  Fechou os olhos e deliciou-se com a frescura da água que lhe acariciava o corpo. Estava cansado. Toda a amanhã, percorrera os vinhedos, verificara o estado de maturação das uvas das duas castas de uvas que a quinta produzia, a fim de decidir o momento certo de iniciar as vindimas.
Porque as uvas não são todas colhidas na mesma época. Há castas que amadurecem mais cedo, e o próprio clima influencia esse amadurecimento. Se elas forem colhidas, antes do seu ponto ideal de maturação, o vinho será mais ácido e menos alcoólico. Se pelo contrário forem colhidas mais tarde, os vinhos terão menos acidez e mais álcool. Em qualquer dos casos nunca será um vinho de primeira qualidade.
Cláudio amava a terra como amava a própria vida. Ele nunca seria um homem de cidade, nunca seria capaz de levar a vida metido num escritório. Claro que  gostava das cidades. Para passear, para relaxar, para um jantar de amigos, (embora não tivesse muitos) para um almoço de negócios, ou mesmo passar a noite com uma mulher bonita, mas a sua vida era o campo, o trabalho na terra, o ver crescer o que plantou. Por isso se formou em Agronomia. Quando era mais novo, acalentou o sonho de ir para África quando terminasse o curso. Ajudar a desenvolver as zonas mais pobres do planeta, explorando a terra e tirando dela tudo o que tinha a certeza ela podia produzir. Com o tempo arrumou o sonho numa gaveta escura da memória. A saúde da mãe era periclitante e ela morreria se ele fosse para tão longe. Por isso mal terminou o curso de Agronomia na Escola Superior Agrária de Viseu,  matriculou-se na Universidade de Trás-os-Montes e alto Douro, único sítio no país onde poderia tirar o curso de Enologia, que o ia ajudar a fazer com que os vinhedos da quinta do pai, produzissem um dos melhores vinhos da região a que pertencia. 
Desde que Cláudio assumira a direção da quinta, a sua produção melhorara imenso e os seus vinhos embora ainda não tivessem atingido a qualidade que ele desejava, eram já vinhos muito bons. 
Acabado o duche, fechou o chuveiro, enxugou-se, e completamente nu, passou ao quarto, onde se vestiu.
Aquela casa também era agora bem diferente do que tinha sido outrora. Quando o pai a comprara, ele não tinha mais do que doze anos. A casa, uma vivenda térrea, com um bom espaço à sua volta, era uma típica casa de agricultores, com boa construção, mas poucas comodidades. Quando o pai comprara a quinta e decidira desistir da agricultura para se dedicar à vinicultura, o dinheiro escasseava, e a casa manteve-se tal como a tinha comprado. Anos mais tarde, já os vinhedos a produzirem bem, ele decidiu então transformar a casa e deixá-la como sonhava. Deixando de pé apenas as estruturas, redimensionou espaços, deitou abaixo algumas paredes,   tornando as divisões maiores, e introduzindo-lhes alterações como nos quartos, em que cada um tinha acesso a uma casa de banho, para uso pessoal do ocupante. Também mandara instalar uma moderna cozinha, e um alpendre no espaço fronteiro à entrada. A casa dispunha ainda de dois quartos de hóspedes, num deles, dormia agora a enfermeira que eles tinham contratado para lhes ajudar a cuidar da mãe, naqueles primeiros tempos, (porque embora os médicos dissessem que hoje em dia uma cirurgia de coração aberto, não oferece o risco de outrora, para os leigos como ele e o pai, era assustador), o escritório que ele partilhava com o pai e uma sala comum à casa de jantar.


22.6.18

O DIREITO À VERDADE - V





Lena acordou, já passava das sete da tarde. Passou a mão pela testa transpirada, mais pelo sono inquieto, povoado de fantasmagóricas figuras que se riam dela, do que pelo calor, apesar do dia ter estado bem quente. Ainda assim a dor de cabeça, mercê do efeito das aspirinas, passara.
Foi à cozinha, ligou o esquentador, e dirigiu-se à casa de banho a fim de tomar um duche. Despiu-se, meteu a roupa no cesto da roupa suja e meteu-se debaixo do chuveiro. Fechou a água, esfregou energicamente o corpo com o gel duche, e voltou a abrir a torneira, deixando que a água tépida deslizasse sobre o corpo, como se fosse uma carícia.
Findo o duche, espalhou pelo corpo o creme hidratante e vestiu o roupão sobre o corpo nu. Olhou-se ao espelho enquanto secava o cabelo. As olheiras ao redor dos belos olhos denunciavam o sofrimento e as noites sem dormir dos últimos dias. Recordou o achado dessa tarde, e pensou no que poderia ter levado a mãe a mentir-lhe a vida inteira.
"Será que o tio Alberto sabe disto? É claro que sim. A mãe não podia ter escondido da irmã e cunhado um casamento e divórcio, quando eram a sua única família e eram tão amigos,” – pensou.
Tinha que falar com ele o mais rápido possível. Escovou o cabelo acabado de secar, e dirigindo-se à cozinha onde preparou uma torrada e aqueceu um copo de leite. Tinha comida no frigorífico que sobrara da véspera, mas ficaria para o almoço do dia seguinte, estava sem apetite.
Quando acabou de comer pegou no telemóvel e ligou ao tio.
- Tio, disseste que qualquer coisa te ligasse. Preciso de ti.
- Aconteceu alguma coisa? Sentes-te mal?
-Aconteceu que encontrei no armário da mãe uma caixa com documentos, Uma certidão de casamento, outra de divórcio, um anel de noivado e uma aliança, entre outras coisas, Sabias disto?
Um curto silêncio do outro lado. Depois a resposta do tio.
- Sabia.
-Como foi possível que ela me tivesse mentido a vida inteira? E como é que vocês nunca me contaram?
- Não podíamos fazê-lo. A tua mãe fez-nos jurar que não te dizíamos nada.
-Preciso que me contes tudo. Tenho o direito de saber, é a minha vida, as minhas raízes. Podemos almoçar juntos, amanhã?
- Claro. Vou-te buscar ao meio-dia. Tens preferência por algum sítio?
-Eu preferia almoçar em casa. Quero mostrar-te os documentos que encontrei e é mais sossegado para conversarmos. Posso preparar o almoço.
- De modo nenhum. Precisas descansar. Ainda há, aí na rua, aquele restaurante que serve comidas para fora?
- O Estrela-do-mar? Sim.
- Então não te preocupes. Eu passo por lá e levo o almoço. Já jantaste?
-Já – mentiu.
-Muito bem. Deita-te cedo e procura descansar. Amanhã falamos.



Por ser um fim de semana especial, esta história só volta na Segunda Feira
Bom fim-de-semana a quem por aqui passar

6.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXI






Retirou a mão masculina da sua cintura, com extremo cuidado, para não acordá-lo, aguardou uns segundos sem se mexer, e como Pedro continuava a dormir, deslizou da cama, e esgueirou-se para a casa de banho. Quando voltou, depois de ter tomado banho, secado o cabelo e escovado os dentes, Pedro já tinha acordado, e encontrava-se observando a rua pela janela da suite. Tinha apenas vestido os calções do pijama, mostrando toda a parte superior do corpo. Lembrando de como tinha adormecido sobre aquele peito forte, Joana corou desviando o olhar.
Calmo, ele avançou para a porta, falando com aparente naturalidade.
- Bom dia. Espero que tenhas dormido bem. Já pedi o pequeno-almoço, que deve estar a chegar. Enquanto isso vou tomar um duche.
Desapareceu no interior da casa de banho, enquanto ela se dirigia para a sala, e se sentava no sofá tentando acalmar-se.
Quando mais tarde, ele voltou impecável nas suas calças azuis, a camisa branca de manga comprida dobrada até ao cotovelo, e desabotoada nos dois primeiros botões, o pequeno-almoço já se encontrava na sala.
Iniciaram a refeição em silêncio, 
Ambos queriam falar sobre a noite anterior, mas nenhum sabia bem como o fazer. Agora à luz do dia era ainda mais difícil para Joana falar. Para ele não era mais fácil, temia agravar a situação, não queria que a jovem começasse a chorar de novo, ou que ficasse ainda mais traumatizada.
Sem o olhar, Joana rompeu o silêncio.
-Ontem à noite…
-Não precisas, falar mais disso, nem agravar memórias que te fazem sofrer, - interrompeu ele. Compreendi perfeitamente a tua atitude. Vou confessar-te uma coisa. Desde que entraste no meu escritório, que me senti atraído por ti e te desejo. Sabendo o que sei hoje, dou graças por não ter surgido uma oportunidade de termos chegado a maiores intimidades antes do casamento. Vendo como estavas ontem, tenho a certeza que terias desistido dele.  E manter a nossa união é muito importante. Lembra-te que temos um filho para criar e educar. O Ricardo disse-me ontem, durante a cerimónia, que a nossa adoção do pequeno Pedro não demorará muito, e eu quero tanto esse filho, como te quero a ti. Não vou permitir, que renuncies à tua parte do combinado, nem que para isso tenha que tomar um duche gelado todas as noites.
Estendeu a mão, segurou a dela que se encontrava trémula, e continuou.
-Tens que confiar em mim. Juro-te que não te vou forçar, nem magoar, ainda que procure estimular as tuas sensações ou o teu desejo, só avançarei quando tu o desejes tanto, quanto eu.
- Ontem, deste-me provas de que posso confiar em ti. Pelo bem do menino, mas também por nós próprios, eu quero que esta união dê certo, mas sinceramente tenho medo de não ser capaz.  É mais forte do que eu.
- Não temas. Vamos tentar resolver a situação só entre nós. Se não resultar, procuraremos a ajuda de um profissional. Não vamos desistir daquilo que queremos. Agora esquece tudo o que não seja o dia maravilhoso que está lá fora, e vamos aproveitá-lo.


19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVIII




Fizeram amor ali mesmo, no sofá da sala, ansiosos demais para aguardar a chegada ao quarto. Mais tarde, acalmada a tempestade que traziam dentro de si, e já no leito, voltaram a fazer amor, desta vez com menos paixão e mais amor. Depois Odete deitou a cabeça no ombro do marido e suspirou. Ele sussurrou.
- Amo-te tanto. Ia enlouquecendo de saudades.
- Estranho amor que não impede a traição.
- Traição? O que queres dizer com isso?
-Tu sabes. A Inês.
- A Inês, o quê - Perguntou afastando-a e sentando-se na cama.
- Porque pensas que me fui embora? - Perguntou ela, finalmente disposta a pôr a nu a dor que guardou durante quase quatro anos. Descobri a tua traição, e não conseguia viver contigo sabendo que me enganavas.
Ele pôs-se de pé sem se preocupar com a sua nudez. Estava pálido e furioso.
- Quer dizer que me abandonaste porque meteste na cabeça que eu tinha alguma coisa com a Inês?
- Não meti nada na cabeça. Eu sei que vocês eram amantes.
- Nunca fui amante da Inês, fui seu noivo, antes de te conhecer, e isso, eu próprio te contei. Depois que casei contigo não me deitei com mais ninguém. Que raio de homem, pensas que sou? E que tipo de mulher és tu, que pensando que eu sou esse ser amoral e promíscuo, foste capaz de fazer amor comigo?
Estava tão zangado que por momentos ela pensou que estava a falar verdade. Mas como podia ser, se ela tinha a prova?
Ele pegou na roupa e disse.
- Podes dormir aqui. Eu durmo no outro quarto. Amanhã podes partir. A obrigatoriedade de viveres nesta casa, terminou neste momento.
Dirigiu-se à porta. Ela enrolou-se no lençol e foi atrás. Agarrou-lhe num braço.
- Espera João, não podes estar a falar a sério. Vamos falar, esclarecer as coisas.
- Deixa-me. A hora de esclarecimentos perdeu-se no tempo. Saber que me abandonaste por uma suspeita ridícula e sem fundamento, que não confiaste em mim, nem foste capaz de me falar sinceramente, deixa-me doente. És a maior desilusão da minha vida. Nunca mais quero ver-te.
Saiu batendo a porta com estrondo. Ela atirou-se para cima da cama e durante muito tempo, chorou amargamente. Naquele momento teve a certeza de que o marido estava a ser sincero. Mas e aquela carta? Tinha sido uma intriga de Inês para separá-los? Depois de ter visto a dor e a raiva nos olhos do marido, não tinha a menor dúvida, no entanto continuava a fazer-lhe confusão, como aquela carta foi parar ao bolso do casaco dele, sem que de alguma forma tivessem estado juntos.
Já passava da meia-noite quando se levantou, tomou um duche, vestiu um pijama e voltou para a cama, pensando que tinha afastado de si a única hipótese de ser feliz.
Agora não havia volta a dar. O marido nunca lhe perdoaria. 
Tudo acabara de vez.





Parece que a história acabou. Qual é a vossa opinião? Ponho aqui um fim? Ou continuo?



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI

Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.