Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta a vida é um comboio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a vida é um comboio. Mostrar todas as mensagens

15.2.18

A VIDA É ...UM COMBOIO -PARTE XLII


Dez anos depois.

Numa das melhores galerias de Lisboa, está patente uma exposição de pintura. O pintor do momento, apelidado pelos críticos como a grande revelação portuguesa do século XXI, tem os quadros da sua segunda exposição praticamente todos vendidos. A um canto da sala, o pintor, um homem alto, moreno, a beirar os cinquenta anos, totalmente vestido de preto, conversa com um casal inglês que acaba de comprar uma das suas obras, quando os seus olhos se iluminam a ver entrar uma figura feminina, na galeria. Acompanham-na, João, um rapazinho de nove anos, uma cópia fiel do Martim de há dez anos, e as gémeas Ana Rita e Joana de cinco anos, duas bonecas loiras, parecidíssimas com a mãe. Paulo anotou o endereço que o casal inglês lhe dava para o envio do quadro e delicadamente despediu-se deles e aproximou-se da sua família.
- Que surpresa agradável, - disse beijando-os.
-Tinha que os trazer, para que vissem como a tua arte é apreciada. O Martim vai chegar no fim-de-semana. Telefonou há uma hora. Está ansioso para ver a exposição. 
- Que bom. Tenho tantas saudades dele. Sabes, recebi há pouco um convite para expor numa galeria de arte no Marais, em Paris. 
- Parabéns, amor. Tu mereces, tens muito talento. 
-Logo conto-te. Agora desculpa não vos poder dar mais atenção, mas estão a chamar-me.
-Vai, querido. Nós vamos ver a exposição. Vamos meninos.
Enquanto olhava os quadros, e tentava que os filhos apreciassem a arte do pai, Amélia recuou no tempo e recordou aqueles dez anos de extrema felicidade. Três meses após o casamento, ela ficara grávida. Aproveitando esse facto, o marido convencera-a a deixar a sociedade de advogados e a aceitar um dos escritórios da firma, mantendo-se como advogada da empresa. Quando João nasceu, foi uma grande alegria, não só para o casal como para Martim. Mas Paulo continuava com o seu sonho de se dedicar à pintura, e sentindo-se frustrado com a vida de homem de negócios que levava. Amélia compreendeu que ele nunca seria inteiramente feliz se não desse asas ao seu sonho, e encorajou-o a arranjar um gestor, de modo a poder transformar o sonho em realidade. Depois de muito pensar, Paulo decidira-se. Sabendo que o cunhado era um dos melhores gestores do mercado, ofereceu-lhe sociedade na empresa de camionagem, em troca dele assumir a gestão da mesma. Com a quinta gerida por Alfredo e a empresa por Ricardo, podia enfim dedicar-se à pintura. Entretanto os anos passaram, ela voltara a ficar grávida, desta vez eram gémeos, e ele achou melhor contratar um novo advogado, que trataria de todos os assuntos jurídicos da empresa, pelo menos até que Amélia pudesse voltar, uma vez que ela não queria abandonar a sua carreira. 
Quando as gémeas nasceram, ela decidira dedicar-se apenas à família, e fê-lo até que as meninas fizeram três anos e ingressaram na escola. Nessa altura  voltou à firma, mais como assessora do irmão, do que como advogada, cargo que estava a ser muito bem desempenhado pelo atual advogado. Foi nessa altura que o marido fez a primeira exposição, que foi um grande êxito. E agora dois anos depois a nova exposição confirmava o seu talento. Tinham passado dez anos de intensa felicidade, em que os únicos desgostos que sofrera, foram as mortes de Augusta, e da avó Maria. As duas amigas partiram com um intervalo de um mês, vitimas da mesma doença, uma pneumonia. Nesse espaço de tempo, Ricardo, fora pai duas vezes, de duas meninas, e Martim terminara o Secundário e fora para a Universidade. Nos últimos meses estudara em Inglaterra ao abrigo do programa Erasmus. António e Paulo os filhos de Alfredo também estavam na Universidade. Um cursava Agronomia, outro Veterinária. Isso não seria possível sem a generosa doação do seu marido, ao irmão e criação. 
Martim, que continuava a ter uma relação muito especial com o pai,  aproveitava todas as oportunidades para estar na quinta. Continuava encantado com Matilde, a filha de Alfredo, hoje uma adolescente de treze anos, com quem ele dava longos passeios, a pé ou a cavalo, e com quem mantinha grandes conversas. Não se mostrava muito interessado nas jovens da sua idade, e os pais interrogavam-se, sobre que espécie de sentimento, ele nutria por Matilde.. Será que ia esperar por ela? 
Paulo tinha cumprido a sua promessa. O sonho que lhe parecera viver quando casara, nunca se transformara em pesadelo. Olhando-o do fundo da galeria, ela sentia o coração pleno de amor e no peito um enorme orgulho. Sorriu. Sentia-se a encarnação da própria felicidade.
 A hora do fecho da galeria chegou. Paulo acompanhou a esposa e os filhos   ao automóvel.
- Mãe, posso ir com o pai? - Perguntou João.
- Claro, filho.
 Paulo e o filho segui-los-iam no carro dele. Deixara de andar de moto quando as gémeas nasceram. A velocidade já não lhe dava o mesmo prazer de outrora, a vida era demasiado preciosa para a por em risco.
Enquanto punha o veículo a trabalhar e arrancava, pensou no agradável que era regressar a casa, brincar com os filhos, fazer amor com a sua apaixonada esposa, e sorriu.
O menino que perdera os pais, quase bebé, que tivera uma meninice triste, por não ter conhecido o carinho e os afagos dos seus progenitores, era um homem feliz.


FIM


Elvira Carvalho




E pronto o puzzle está completo.  Espero que tenha sido do vosso agrado. E já agora se me quiserem deixar algum reparo, alguma coisa que não gostaram, ou o contrário, estejam à vontade. É com vocês que eu vou aprendendo a ser melhor. Obrigada.

14.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XLI





Acordou, sentindo que alguém lhe acariciava o rosto. Abriu os olhos e viu Paulo de pé ao lado da cama, preparado para sair.
- Que horas são? – Perguntou
- Quase seis,- disse ele. Vou a casa, buscar algumas coisas e volto para seguir convosco.  É melhor que vá já, antes que o Martim acorde. Não quero que veja que dormi aqui. Não antes que saiba que sou o seu pai.
Baixou-se para a beijar e disse.
-Quero que saibas, que me sinto o homem mais feliz à face da terra. Amo-te muito.
- Eu também te amo. 
Trocaram mais um beijo e depois ele endireitou-se e saiu silenciosamente. Sem sono, Amélia deixou-se ficar recordando o que acontecera. Paulo fora muito além das suas expectativas. Fora um homem atencioso e um amante ardente. E ela estava tão feliz, que se fosse gata, começaria a ronronar.
Quando  ele voltou duas horas mais tarde, já ela se preparava para tomar o pequeno-almoço com o filho. Fez mais torradas e os três tomaram a refeição juntos, numa antecipação do que seriam as suas vidas após o casamento. Depois partiram em direção à quinta.  Amélia imaginava a surpresa da avó quando lhe contasse que Paulo era o pai de Martim.
Após a chegada, o menino beijou a bisavó e disse que ia brincar com o Rex.
- Espera por nós, no local onde te encontrei da outra vez. Eu e a mãe temos uma coisa muito importante para te contar, - disse Paulo.
Depois que ele saiu, contaram à avó, que no entanto não pareceu muito surpreendida.
- Toda a vida ouvi dizer, que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Quando estas coisas acontecem, vemos que é mesmo verdade.  Abraçou o jovem e disse.
- ELE já vos abençoou com a chegada do Martim. Por isso, tenho a certeza, que serão muito felizes.
- Agora vamos contar a verdade ao Martim. Até logo, avó.
Encontraram-no sentado num tronco de árvore, perto do rio. Sentaram-se um de cada lado.
- Martim a mãe tem uma coisa muito importante para te contar, sobre o teu pai.
- Vais-me dizer que ele morreu? Não me importo, nunca o vi. E o Paulo vai ser meu pai, não vais?- Perguntou virando-se para ele.
- Escuta o que a mãe te diz, filho, - disse-lhe ele
- A mãe nunca te disse que o teu pai tinha morrido. A mãe disse que ele estava em viagem. E quem está em viagem pode voltar.
A criança levantou-se sobressaltada.
- Não quero que volte. O Paulo vai ser meu pai, não quero outro.
- E se eu te disser que o Paulo é o teu pai?
- Não acredito. Se fosse não me deixava toda a vida sozinho. Ele gosta de mim.
- Tens razão, filho. Eu nunca te teria deixado sozinho se soubesse que existias. Mas não sabia, acredita. E a tua mãe, também não. Soubemo-lo ontem pelo teu tio Ricardo.
- As pessoas não têm filhos sem saber. As pessoas namoram, casam e têm filhos. Não me venham com histórias.
O menino estava revoltado, Fazia esforço para não chorar. Amélia não sabia que lhe dizer. Foi Paulo quem continuou.
-Tens razão, normalmente é assim. Mas sabes, existe uma coisa que se chama banco de esperma, um local onde os homens deixam a sua semente, para mulheres que querem muito ter um filho e não têm namorado ou marido. O marido da tua mãe, morreu sem lhe dar o filho que ela tanto queria. Então o tio Ricardo pediu-me para doar a minha semente a uma sua amiga. Fui a uma clinica fazê-lo. Na clinica injetaram a minha semente na tua mãe, e tu nasceste. Nem eu sabia da existência da tua mãe, nem ela sabia da minha, porque a lei assim o determina. O único que sabia era o tio Ricardo e só ontem, depois do jantar nos contou.  Eu estou muito feliz e orgulhoso de ser teu pai. Já te amava como tal antes de o saber.
A criança ficou uns momentos calado como se tentasse compreender o que tinha ouvido. Depois abriu os braços e abraçou o pai.





13.2.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE XL




Durante uma hora conversaram animadamente. Contaram como se conheceram, falaram do casamento que se realizaria daí a oito dias, dos negócios de Paulo, e dos projetos de ambos para o futuro.
- Nós também temos uma novidade para vos dar, - disse Olga, segurando a mão do marido.
Olga era uma mulher muito bonita. De estatura pequena, teria pouco mais de metro e cinquenta, pele branca, cabelos da cor do trigo maduro e lindos olhos azuis, mais parecia uma daquelas bonecas com que as meninas brincam na infância. O seu aspeto delicado contrastava com o do marido que ultrapassava o metro e oitenta, de ombros largos e ar robusto.
- Vamos dar um priminho ao Martim, - acrescentou o marido com um sorriso de orelha a orelha.
- Que alegria, - disse Amelia abraçando a cunhada, e colocando a sua mão sobre o ventre dela. - Não se nota nada
- Logo se notará. Acabei de fazer os três meses. Não contámos antes porque sabes o que se diz.
Pelo rosto de Amélia perpassou uma sombra que ela logo afastou com um sorriso.
- Estou tão feliz por vocês!
Enquanto isso os dois homens também se abraçavam alegres.
- Quem havia de dizer que íamos pertencer à mesma família,- disse Paulo
- Sim. Mas vê lá como te portas, quero vê-los felizes.
- Não o desejas mais do que eu- retorquiu emocionado.
Pouco depois eles despediam-se e partiam.
Paulo abraçou a noiva.
- Querida, ainda não falamos na lua-de-mel. Não sei para onde gostarias de ir nem por quanto tempo, mas nesta altura eu não poderei afastar-me mais do que um par de dias. Mais tarde, quando conhecer melhor o pessoal, e souber em quem posso confiar, prometo-te uma lua-de-mel como tu mereces. Ficas triste?
- Não. A verdade é que também não poderia afastar-me agora . Fui promovida há pouco tempo, vou ocupar o lugar do Carlos e estão a acabar os dois meses, que me foram dados para tomar conta do lugar. E com estas férias, o tempo tornou-se mais curto. Esperei mais de dez anos por esta promoção, não posso falhar.
- Então estamos de acordo. Dois, três dias no máximo. Para onde?
- Não sei. Eu gostava de ir aos Açores. O que achas?
- Eu ficarei feliz onde estiveres. Segunda-feira trato disso.
Abraçaram-se e beijaram-se. Mas quando ele se levantou para sair, ela pegou-lhe na mão, e sem palavras levou-o para o quarto.



Amanhã por ser dia dos namorados, não haverá esta história. Voltará quinta-feira

A VIDA É ...UM COMBOIO - PARTE XXXIX







- Foi o Martim, não foi? Eu devia ter desconfiado.
- O Martim? – Paulo estava verdadeiramente surpreendido. – O que é que tem o Martim?
Desta vez foi Ricardo quem ficou surpreso. Interrogou a irmã:
- Não lhe contaste do Martim?
- Não. Ainda não, - disse Amélia corando.
-O que é que há com o Martim? O que é que eu devia saber?
Percebendo que havia uma nuvem naquela sala que precisava ser dissipada, Olga disse:
- Vou dar um beijo ao Martim e certificar-me que ele não vai aparecer de surpresa e ouvir algo que não deva.
Quando ela saiu, Amélia deixou-se cair no sofá, como se de repente lhe tivessem faltado as forças.
- O Martim não é filho do meu falecido marido, - disse sem se atrever a olhar para o noivo.
- Não? – Ele arqueou uma sobrancelha em sinal de perplexidade.
- Não. Mas não penses mal de mim, - disse fitando-o com firmeza. Afonso morreu há quase doze anos. Quando ele morreu eu estava grávida, mas pelo desgosto da sua morte, ou porque tivesse de ser, perdi o meu bebé. Foi um grande desgosto. Depois descobri a traição de Afonso e decidi que nunca mais queria saber de homem algum, mas queria o meu bebé. Decidi recorrer a um banco de esperma, mas a lista de espera era enorme. Então pedi ao Ricardo, que me arranjasse entre os seus amigos, um homem bonito e honesto para dador. 
Calou-se ao ver o olhar amoroso de Paulo, e o seu sorriso radiante. Olhou para o irmão e viu-o comovido. Foi com se de repente um enorme clarão iluminasse tudo à sua volta. Levantou-se, e estendeu a mão ao noivo.
- Tu! Tu és o pai do Martim?
Ele abraçou-a feliz.
- Sim querida, o Martim é meu filho. Bem que mo dizia o coração. Olhava para ele e sentia-me na infância. Como se visse nele parte de mim. Bendita sejas, nunca me senti tão feliz em toda a vida. E ele pensa que o pai morreu...
-Eu sempre lhe disse que o pai tinha ido viajar. Ele é que meteu na cabeça essa ideia quando soube que eu era viúva.
-Temos que lhe contar. Hoje mesmo, Amélia, hoje mesmo.
As lágrimas corriam pela face feminina, enquanto abraçava o noivo e o irmão.
- Já chega de emoções por hoje, - disse Ricardo. - Acho que estou a precisar de uma bebida forte. Também querem?- perguntou dirigindo-se ao bar.
Paulo beijou docemente a noiva e voltando-se para o amigo disse:
- Devia estar zangado contigo. Mentiste-me. Felizmente parece que os astros conspiraram contra ti.
- Vou chamar a Olga e o Martim. Vamos jantar antes que o assado fique sem graça. E, querido, acho melhor contarmos a verdade ao Martim amanhã. Se o fizermos hoje, a excitação vai tirar-lhe o sono.
- Tens razão. Vai então chamá-los.
Pouco depois, davam início ao jantar que decorreu muito animado. Depois do jantar, levantaram a mesa e meteram a loiça na máquina. Martim despediu-se e foi para a cama, e os quatro adultos sentaram-se na sala para um pouco mais de conversa.


Ora bem aqui está o episódio tão esperado.  Porém a história ainda não acaba aqui. Porém amanhã é um dia especial. É o dia dos namorados, pelo que a história será interrompida. A propósito já viram que maldade maior o dia dos namorados, cair na quarta feira de cinzas, dia de jejum. e abstinência? Nem quero ouvir as recomendações do D. Manuel Clemente.

E continuando a minha brincadeira, Cá estou eu hoje de Rainha Má.




Bom Carnaval 

12.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXVIII


Porque a senhora que costumava ficar com Martim durante as férias se encontrava ausente, para acompanhar a filha, que vivia em Tomar e se encontrava no último mês de gestação, Amélia tinha tirado parte das suas férias para aquela data, a fim de as passar com o filho. Isso ia facilitar muito os preparativos para o casamento. De modo que aquela semana passou quase sem dar por isso. Todas as noites jantavam juntos, e faziam planos para o futuro. Amélia e o filho já tinham ido conhecer a casa de Paulo, que era bem maior do que aquela onde viviam e ficava mais perto do seu emprego, pelo que decidiram ficar a morar nela e Amélia estava a pensar alugar a sua. Uma casa fechada dá despesas e está sempre a deteriorar-se. Por outro lado, como Martim não queria prescindir do seu quarto, tinham que o desmontar e mandar para a casa de Paulo, onde seria instalado no quarto que pertencera a Paulo quando criança. Estas mudanças bem como a escolha da mobília e decoração do quarto de casal, o encontro com a decoradora, tudo isso tinha mantido Amélia numa correria todos os dias.
E chegou finalmente o sábado do jantar com o irmão. Amélia estava nervosa. Esperava que os dois homens se entendessem, mas temia o feitio de Ricardo.
Acabara de desligar o forno, e foi à sala onde Paulo punha a mesa.
Martim estava no quarto, brincando com o seu jogo favorito.
- Muito bem. Não imaginava que sabias pôr uma mesa assim, - admirou-se
Ele enlaçou-a pela cintura, atraiu-a a si e beijou-a.
- Sou um homem muito prendado,- disse sorrindo. Disse-te que trabalhei muito em Paris. Entre muitas outras coisas estive empregado no restaurante de um hotel. O teu irmão deve estar a chegar. Não tens nenhuma foto dele? Não vi nenhuma até agora.
-Tenho várias, em álbuns. Não gosto de ver molduras espalhadas por todo o lado, só tenho do Martim e como vês não são muitas.  
Tocaram a campainha e Amélia foi abrir.
- Boa noite, Amélia - saudaram os recém-chegados
- Boa noite- respondeu beijando o irmão e a cunhada. Entrem, vamos para a sala. O jantar já está pronto, mas suponho que tomem primeiro uma bebida.
- E onde está esse teu noivo? Ainda não chegou?- Perguntou Ricardo entrando na sala.
Paulo que entretanto vinha saindo da sala de refeições, disse nas suas costas.
-Estou aqui.
- Voltou-se e parou surpreendido
- Tu? Que raios… como é que…  - gaguejou nervoso, - os descobriste?
- Não descobri ninguém. Encontrámo-nos por acaso.
- Não acredito em acasos. Sempre foste muito inteligente.
- Não te entendo Ricardo. Parece que estás aborrecido comigo. E eu é que devia estar aborrecido contigo. Porque nunca me contaste que tinhas uma irmã?
As duas mulheres olhavam-nos surpreendidas. Elas não sabiam que os dois se conheciam. E parecia haver entre os dois um certo antagonismo. Tanto que apesar da conversa, os dois não se cumprimentaram, como acontece com duas pessoas civilizadas que se encontram.


E hoje trago aqui uma foto de um Carnaval de outros tempos.  Este foi o único Carnaval na minha vida em que me mascarei. E já agora uma pergunta: Qual destas meninas sou eu?




A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXVII


-Estou…
- Ora viva, Amélia. Que surpresa. Aconteceu alguma coisa? A avó?
- A avó está ótima. Mas aconteceu sim, uma coisa muito importante. Vou-me casar dentro de quinze dias, e queria saber se posso contar contigo, para me levares ao altar. E se tu e a Olga aceitam ser meus padrinhos.
- O quê? Deste-te ao trabalho de me telefonares para me pregares uma peta?
O primeiro de Abril já lá vai há quase um mês.
- Não estou a brincar, Ricardo. É sério.
- Não pode ser. Saí daí há três dias. Uns dias antes tinhas-me telefonado para ir ao torneio com o Martim. E não tinhas namorado, ou tinhas? Não me disseste nada.
-É verdade. Não sabia se era sério, por isso não comentei.
-Mas uma decisão assim tão rápida! Quem é o felizardo? Eu conheço?
-  Não. É um empresário, vizinho da avó.
- Muito me contas. E o Martim? Achas que ele vai ser um bom pai para o teu filho?
- E tu achas que eu ia casar se tivesse a mais leve dúvida disso? Os dois adoram-se. E então, posso ou não contar contigo?
- Estou a ver que é sério, mesmo. É claro que podes contar comigo. E o casamento é que dia exatamente. E onde? É que só chegamos a Lisboa no fim da próxima semana .
- O casamento será na quinta dele. No sábado, dia doze de Maio. Dissestes que chegas sábado?
- Ao meio-dia, ao aeroporto.
- Podemos marcar um jantar para essa noite? Para vocês se conhecerem?
- Onde?
- Na minha casa, claro. Já aviso a avó de que para a semana só venho no domingo.
-Espera um pouco, vou perguntar à Olga. Combinado, - disse apos um curto silêncio.
- Ok. Esperamos-vos às oito. Continuação de boas férias.
Desligou, o telefone com um sorriso. Ricardo e a esposa, ficariam o resto da noite a fazer conjeturas sobre o seu futuro casamento, curiosos para saberem como seria o homem que a levou a renunciar ao celibato. A ela não lhe importava a opinião que o irmão viesse a ter sobre Paulo. Tinha tido muitas dúvidas, é verdade, mas uma vez decidida, ninguém a demoveria.
-Já telefonei ao Ricardo, avó – disse ao entrar na sala. Ele aceitou levar-me ao altar e ser o padrinho. Chega sábado ao meio dia e combinei um jantar para essa noite para que eles conheçam o Paulo. De modo que só viremos no domingo de manhã.
A idosa esboçou um sorriso.
-Gostaria de ver a cara dele quando lhe deste a notícia. Deve ter ficado tão espantado, que a esta hora ainda está de boca aberta.
- Ora avó, ele disse que a viagem era uma segunda lua-de-mel. E ninguém melhor para aceitar um casamento do que os apaixonados.
- Tens razão filha. Vou-me deitar. Foi um dia muito cansativo, e eu já não tenho idade para estas andanças. Amanhã, podias ir só com o Martim e deixar-me aqui.
- Nem penses, avó. Descansas no resto da semana. De resto, tu bem gostas de ficar desenrolando lembranças com a Augusta, que eu bem as vejo.
- Lá isso é verdade. Boa noite.
- Boa noite avó. Dorme bem




E como continuamos em modo Carnaval, cá estou eu para mais um dia de folia...



11.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. - PARTE XXXVI


                                           Igreja matriz de Alvaiázere



Depois que saíram da igreja, que os dois acharam linda,  Paulo disse.
- Vem. Vamos até aquela pastelaria. Lanchamos, ali. Preciso falar contigo.
Escolheram uma mesa mais afastada, e pediram dois cafés e dois pastéis de nata. Depois que o empregado se afastou, Paulo perguntou.
- Vais contar-me o que se passa?
- Nada. Não se passa nada.
- Olha Amélia, talvez eu não seja um homem muito romântico, mas preocupo-me com as pessoas que amo. O teu rosto não é precisamente o rosto de uma noiva feliz. Leio uma certa inquietação nos teus olhos que me põe nervoso. Somando a isso o facto de ainda não teres telefonado ao teu irmão, não me venhas dizer que não se passa nada.
- Já tive uma experiência falhada. É natural que tenha receio. Afinal conhecemo-nos há tão pouco tempo. E se não der certo? O Martim está nas nuvens. Já pensaste como ele vai ficar, se depois de casados verificámos que foi um erro e nos separamos?
- É natural um certo temor quando vamos mudar toda a nossa vida. É humano, todos o sentimos. Uma vida a dois, implica novos hábitos, a que uma pessoa sozinha não está habituada. E é normal que não estejamos de acordo em todas as situações, que se nos apresentem. Afinal somos duas pessoas com personalidades diferentes, e às vezes é preciso fazer cedências, sem que isso signifique uma situação de domínio. Depende apenas de nós, compreender e aceitar o outro. Os casamentos têm altos e baixos, o nosso decerto não será exceção. Mas diz-me uma coisa, deveria a natureza eliminar as rosas, só porque elas têm alguns espinhos?
- Desculpa. Foram muitos anos a racionalizar sentimentos, a construir muralhas à minha volta, e depois apareces tu, e sem cerimónias derrubas todas as minhas defesas, invades-me o coração e o pensamento, e isso assusta-me. Tudo me parece um sonho e tenho medo de acordar.
- Perderás o teu medo, se eu prometer que esse sonho nunca será pesadelo? Tem fé, querida. Confia em mim. E agora promete-me que hoje mesmo, falas com o teu irmão.
- Prometo. Esta noite falo com ele.
Tinham acabado o lanche. Paulo pediu a conta depois de ter perguntado à jovem se queria algo mais e de ter obtido uma negativa por resposta.
- Mais confiante? – Perguntou ele enlaçando-a pela  cintura, enquanto se dirigiam para o carro.
Ela limitou-se a sorrir, mas no seu íntimo sentia-se bem mais segura depois do que ouvira. Afinal ele dissera que se preocupava com as pessoas que amava. E estava preocupado com ela. Se ele a amava, então ela confiava que tudo ia correr bem. E decidiu. Nessa mesma noite telefonaria ao irmão. Sempre queria ver, melhor seria dizer, ouvir a reação do irmão quando lhe dissesse que ia casar dentro de dez dias. Ia pensar que tinha endoidecido. E a verdade é que tinha mesmo. Estava doida pelo homem, que ia a seu lado. Ele não era só bonito, era compreensivo, tinha bom coração, e sabia entendê-la como ninguém a entendera até então.


Nota, Há três dias que estou com grande dificuldade em entrar em alguns blogues que só consigo entrar à quarta ou quinta vez e outros ainda não consegui entrar desde sexta-feira. Esta mensagem de Ops, ocorreu um erro está a aparecer a mais alguém ou é só comigo?




E como estamos no Carnaval aqui me têm hoje em mais uma brincadeira.






10.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXV




Paulo chegou pontualmente às onze horas. Beijou a idosa e ajudou-a a entrar no carro, depois acariciou a cabeça de Martim e só então se virou para Amélia, e lhe roçou os lábios com uma caricia tão suave que mais parecia um beijo de brisa. Arqueou uma sobrancelha, num gesto que ela já reparara, ele repetia quando algo o preocupava, e perguntou quase num sussurro.
- Que se passa? Estás bem?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça e apressou-se a entrar no carro. Ele sentou-se ao volante e arrancou. Durante o trajeto Martim não se calou. Estava muito feliz por ir passar o dia com os seus novos amiguinhos.
Na quinta, todos estavam entusiasmados com a perspetiva da próxima boda e as mulheres trocavam ideias para a decoração da casa e a ementa. Paulo queria contratar uma empresa de “catering” mas elas queriam fazer a festa, já que a cerimónia seria íntima, e apenas os colegas de Amélia estariam presentes, além da família. Ao fim de algum tempo, ele acabou convencendo-as. Afinal ele queria que todos estivessem felizes com aquela boda, não queria ver ninguém atarefado e nervoso com medo de que alguma coisa corresse mal.  Resolvida esta questão, passaram às seguintes. Matilde iria levar as alianças, os meninos seriam os pajens, Alfredo e a esposa os padrinhos de Paulo. Amélia, ainda não falara com o irmão, de férias em Cabo Verde, e teria que lhe ligar, para saber se ele aceitaria ser o seu padrinho, ou se convidava Carlos e a esposa. O tempo era muito curto para preparar tudo mas Paulo não queria de modo algum prolongar o prazo. De resto o facto do irmão de Amélia estar em Cabo Verde não seria impedimento para ela falar com ele, que teria decerto o seu telemóvel à mão. As roupas e calçado, compravam-se num dia. Ele sabia que talvez Alfredo, não tivesse disponibilidade financeira para tanta despesa, mas mais tarde quando estivessem sozinhos resolveria esse problema.
Depois do almoço, os dois foram a Alvaiázera, a vila mais próxima, para falar com o padre. Alfredo informou-os que a igreja estava aberta todo o dia, e que quando o padre não estava por lá, estava em casa, mesmo ao lado da sacristia.
O sacerdote era um homem de idade avançada e rosto afável que os recebeu com cordialidade, e se mostrou contente por eles procurarem a bênção divina para o casamento, numa época em que as pessoas cada vez se casavam menos.
Depois de ouvirem atentamente as recomendações do sacerdote, despediram-se ficando a cerimónia marcada para quinze dias depois,  às onze horas.


PORTUGAL ACABA DE SE SAGRAR CAMPEÃO EUROPEU DE FUTEBOL.
PARABÉNS PORTUGAL



E como hoje é sábado de Carnaval, eis-me pronta para a farra.  Rsrsrs



9.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXIV



- Bom dia avó. O Martim?
- Anda por aí brincando. Ele acorda com as galinhas. E tu deixaste-te dormir. Que aconteceu. O Paulo ficou até tarde?
- Não. Mas eu não conseguia dormir. Olha, - disse estendendo a mão para a avó admirar o lindo anel de noivado..
- É lindo. Mas porque dormiste mal? Devias estar muito feliz. Que se passa contigo. Não gostas do rapaz?
- O Martim já desjejuou? – Perguntou tentando desviar o rumo da conversa.
- É claro que sim. Mas não foi isso que te perguntei. Gostas ou não do rapaz? Não me vais dizer que aceitaste o casamento só porque ele e o Martim se dão como Deus com os anjos.
- É claro que não avó. Gosto do Paulo. Talvez demasiado para quem se conhece há tão pouco tempo, e isso é que me assusta.
- Não é preciso muito tempo para se gostar de uma pessoa. Sabes quanto tempo mediou entre o momento que encontrei o teu avô e o dia do nosso casamento? Dois meses exatos. E tivemos um casamento muito feliz, como deves lembrar-te. Por outro lado, nunca se gosta em demasia. A não ser que a pessoa não seja mentalmente sã.Mas isso não é amor. É obsessão.
- Dois meses, avó? E não tiveste dúvidas? Não pensaste que podia não dar certo?
- É claro que não, filha. Gostávamos um do outro e confiava que isso era suficiente para nos unir e nos ajudar a enfrentar todas as provações. O verdadeiro amor, vai crescendo com os anos e as dificuldades que juntos enfrentamos. Não é o que sentimos quando casamos, em que tudo corre bem e em que a paixão domina tudo. Quando começam a surgir as dificuldades de uma vida a dois, e elas surgem fatalmente, porque somos pessoas diferentes, temos pensares e maneiras de encarar os problemas de modo diferente, quando os desgostos assentam arraiais na nossa vida, aí sim se conhece se o que une duas pessoas é ou não um grande amor. E tu sabes que não foi fácil, o nosso casamento, primeiro com a morte da tua mãe, que não sendo nossa filha, era a mãe dos nossos netos e por isso tínhamos um grande carinho por ela. Depois a morte do teu pai. Foi um desgosto atroz. Os pais nunca deviam assistir à morte de um filho. É contra natura. E nós estivemos sempre juntos amando-nos e consolando-nos mutuamente. Até à sua morte. E posso dizer-te que se me fosse dado a escolher, entre ir com ele, ou ficar aqui a amargar a saudade, eu teria escolhido sem hesitar partir com ele. Na verdade a melhor parte de mim, morreu nesse dia.
Calou-se emocionada, para continuar logo de seguida.
- Como vês, não é preciso muito tempo de conhecimento ou namoro para que um casamento dê certo. E tu, melhor que ninguém, sabes disso. Quantos anos, namoraste o Afonso?
- Não sei avó. Quase desde que nasci.
- E vês no que deu? Analisa os teus sentimentos e se gostas do rapaz, vai em frente. O comboio da vida, é rápido. Se hesitamos muito tempo em subir para a carruagem, quando nos decidimos, já partiu.
- Vou chamar o Martim. Temos que nos despachar, o Paulo vem buscar-nos às onze. Vamos combinar a festa do casamento, e temos que ir à igreja da vila, falar com o padre.
- Então vai filha. Mas dá um jeito nesse rosto. Se o rapaz te vê com essas olheiras, é capaz de desistir do casamento, - disse sorrindo. 



E hoje houve desfile de Carnaval das escolas. Por  AQUI

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXIII






Naquela noite, Amélia custou a adormecer. Desde a desilusão que sofrera com a traição do falecido, tornara-se uma mulher fria, racional, que vivia apenas para o trabalho e para o filho, para quem canalizou todo o amor que o seu coração era capaz de sentir, e que era simultaneamente o seu refúgio e a sua força. De repente, Paulo chegou, e não só derrubou a muralha que ao longo dos anos tinha construído à sua volta, como disputava consigo o amor de Martim. Dizia a si mesma que não eram ciúmes, mas a verdade é que o entusiasmo do menino pelo homem que devia ser um quase desconhecido, era cada dia maior. Por outro lado, ela ia casar-se com esse quase desconhecido, e isso assustava-a. Paulo era um homem bonito, de extraordinários sentimentos, (a doação de metade da herdade, que estava prestes a concretizar, provava isso mesmo,) e parecia-lhe impossível que se tivesse interessado por ela. Na sua vida, teria de certeza encontrado mulheres bem mais bonitas, livres e sem filhos. Seria verdade que estava apaixonado por ela? Verdade que a atração sexual entre os dois era muito intensa. Não se podiam tocar, que logo o desejo irrompia, com a força de um cavalo selvagem, correndo à desfilada pela pradaria.  Mas isso por si só não sustentaria o casamento. A paixão acaba depressa, geralmente pouco tempo depois que a novidade deixa de o ser. Encontrava-se muito dividida. Por um lado, estava ansiosa pelo casamento, por outro temia que depois viesse a desilusão. Paulo, era um homem sincero. Dissera-lhe que sentia vontade de ter uma família, queria que eles fossem a sua família. Era natural que um homem que tinha perdido os pais muito cedo, sentisse a necessidade do calor familiar. Mas isso não é amor. E Paulo, nunca dissera que a amava. Prometeu ser um marido apaixonado, é verdade, mas conseguiria sê-lo se o que sentia por ela se baseasse apenas na luxúria?
E ela? Amava-o ela, ou o que sentia era atração física pelo homem que despertou os seus sentidos e o seu corpo? Não, claro que não. Atração ela sentiu naquele dia na estrada quando ele saiu da mota e se dirigiu para eles. Mas quando voltaram a encontrar-se, quando ele se ofereceu para representar o pai de Martim na festa, ela passou a admirá-lo, e quando lhe falou dos seus sonhos, e dos sentimentos que sentia pelo caseiro e sua família, a admiração cedeu lugar ao amor.
E porque sentia que o amava, não como amara o marido, com uma adoração de adolescente, mas como uma mulher madura, que sabe o que quer, é que tinha tantas dúvidas. Ela não conseguiria resistir, se mais tarde, passada a novidade, Paulo se desinteressasse dela. Mesmo que ele continuasse a amar Martim e a ser um bom pai para ele. Ela não precisava de um pai para o filho. Quem precisava de um pai, era ele, Martim. Ela precisava de um homem que a amasse, que fosse um companheiro, um amigo, um amante. Isso era o que ela queria de Paulo, e do casamento. Acabou por adormecer tarde e acordou com olheiras.
Depois do banho, vestiu-se e foi para a cozinha, onde encontrou a avó a acabar o seu pequeno-almoço.


BOM FIM DE SEMANA 


8.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO. - PARTE XXXII



Tal como Paulo dissera, seguiu-os até casa da avó Maria. A noite estava estrelada, a temperatura agradável, e a avó, esperava-os no alpendre.
Os três entraram em casa, e Martim após cumprimentar a bisavó despediu-se afirmando que estava cansado e com sono. Paulo cumprimentou a idosa e aceitou o convite para passarem à sala, onde contou os planos que tinham feito para o casamento. A velha senhora não podia estar mais contente, pois sempre desejou ver a neta casada e feliz. E ela estava convencida que desta vez, Amélia ia ser feliz. Conversaram um pouco e depois a senhora informou que se ia retirar, pois já passava bastante da sua hora habitual de ir dormir.
Os jovens ficaram assim sozinhos na sala. Era a primeira vez que tal acontecia, desde aquele dia junto ao rio.
- Queres tomar alguma coisa? – Perguntou Amélia.
- Não. Vem, senta-te aqui ao pé de mim, - disse ele ajeitando as almofadas do sofá.
Ela obedeceu.
Ele meteu mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo. Abriu-o, e mostrou um aro de ouro como uma esplêndida esmeralda.
- Escolhi uma esmeralda por ser a cor dos teus olhos, - disse enfiando-lhe o anel no dedo. Depois virou-lhe a mão e depositou um beijo na palma da mão, perguntando em seguida. Gostas?
- É lindo, - disse ela esticando a mão e mirando a joia, encantada. 
- Já to devia ter dado, mas queria fazê-lo num momento em que estivéssemos a sós, - disse ele atraindo-a para si e depositando-lhe um beijo no lóbulo da orelha, descendo depois pelo rosto até aprisionar a sua boca.
Como sempre que ele lhe tocava, Amélia sentia que todo o seu corpo tremia de antecipação. Levantou as mãos e acariciou a base da nuca masculina. Ele aprofundou o beijo, enquanto as mãos se perdiam no corpo dela em carícias cada vez mais ousadas, que a faziam gemer de prazer. De súbito, afastou-a e levantou-se. Os seus olhos escuros, pareciam dois pedaços de carvão incandescente, tal a paixão que manifestava.
- Compreendes agora a minha pressa no casamento?  - Perguntou. Pões-me louco. Quero fazer amor contigo, mas não aqui nem agora. Não seria correto com a tua avó e com o Martim. Entendes?
Ela abanou a cabeça de olhos baixos e rosto ruborizado, envergonhada por sentir que desejara fazer amor com ele sem pensar onde estava. Ele, levantou-lhe o rosto com um dedo e disse.
- Olha para mim. Não tens porque ter vergonha do teu desejo por mim. É absolutamente normal. Agora é melhor ir-me embora. Venho buscar-vos amanhã de manhã. 
Deu-lhe um leve beijo na testa e saiu




7.2.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE XXXI






Almoçaram juntos, num restaurante perto da escola e voltaram para assistir ao resto das atividades, embora Martim não entrasse em nenhuma outra. Por volta das quatro da tarde, a festa terminou, com um lanche ao ar livre, feito com as gluseimas que as próprias crianças tinham levado. Como Amélia pretendia seguir ainda nesse dia para a quinta, despediu-se da professora do filho, dizendo que não podiam ficar mais tempo por causa da viagem. No parque junto do automóvel, Paulo disse:
 - Também vou para cima hoje. Podíamos ir juntos. Passava daqui a pouco pela tua casa a buscar-vos.
- Obrigada, mas é melhor eu levar o carro. Pode ser preciso alguma coisa, com a avó, não posso ficar dependente de ti.
- Tudo bem. Mas eu venho aqui ter e vamos juntos. Vou só a casa buscar umas coisas e volto. Preciso falar contigo ainda hoje.
- Está bem. Às seis horas está bem para ti? Podemos jantar pelo caminho. Costumo fazê-lo com o Martim.
- Muito bem. Às seis então.
Afastou-se frustrado. Tinha uma vontade louca de a beijar. Não conseguia esquecer aquele beijo junto ao rio. Mas a presença de Martim impedia-o de dar livre curso ao seu desejo.
Como combinado, partiram às seis, jantaram no restaurante à beira da estrada, onde habitualmente Amélia costumava fazê-lo.
Durante o jantar, Paulo informou que os seguiria, até casa da avó Maria, queria comunicar-lhe a sua decisão de casarem o mais rápido possível, uma vez que ambos já não eram crianças, tinham certeza da decisão que tomaram e tinham o consentimento de Martim, que se mostrava muito feliz com a ideia de ter Paulo junto dele como um pai.
- Podemos realizar o casamento na herdade, não será uma grande festa, mas estaremos rodeados daqueles que amamos, e nos amam. Vamos tratar de tudo com eles este fim-de-semana, de modo que o casamento seja o mais rápido possível. Preferes uma cerimónia civil ou religiosa?
- O meu primeiro casamento, foi apenas no civil. A avó ficou desgostosa, para ela a benção divina é essencial para a felicidade no casamento. Desta vez, se não for contra aquilo em que acreditas gostaria de fazer-lhe a vontade.
- Então será uma cerimónia religiosa. Achas que quinze dias são suficientes para preparares tudo?
- Quinze dias? Ninguém consegue casar em quinze dias.
- Claro que sim. Os documentos, hoje em dia com a Internet conseguem-se num ápice. O mais difícil será a marcação na Igreja. Mas nem isso é obstáculo. Uma boa doação para as obras da Igreja faz milagres.
- Mas ainda nem falei com o meu irmão! Como te disse ele está de férias em Cabo Verde. Partiu ontem, só voltará dentro de dez dias.
- É tempo suficiente para mo apresentares e convidá-lo para o casamento. És maior de idade, não precisas da autorização dele.
- Tudo tão rápido… não sei.
- Vá lá mãe, diz que sim. Se aceitaste casar, que diferença faz uns dias mais. Depois quanto mais depressa casares mais depressa tenho uma família.
- Está bem. Vocês ganharam.


Nota, ontem não me foi possível visitá-los. às 4 horas quando cheguei a casa e liguei o pc não tinha Internet e essa falha manteve-se pelo menos até às duas e meia, hora a que me deitei.
Hoje tenho aulas de manhã e de tarde, pelo que só depois das 5 vou conseguir visitar-vos. 





6.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXX



Finalmente chegou a festa de encerramento do período. Ao longo do dia havia várias atividades, que começavam de manhã pelo torneio de futebol, entre pais e filhos, seguido de uma corrida de sacos, apenas para as crianças. Depois do almoço, havia uma pequena peça de teatro, em que participavam alunos e professores, e por fim um trecho musical dançado por algumas alunas, ensaiadas por uma das professoras. Paulo combinara ir ter à escola, e Martim junto ao portão de entrada, estava tão ansioso por ver a moto do amigo que não se apercebeu da chegada de Paulo senão quando ele estava já ao pé de si.
- Olá campeão, - cumprimentou ele acariciando-lhe a cabeleira revolta.
- Não vi a moto. Já pensava que não vinhas.
- Eu cumpro sempre as minhas promessas, - disse voltando-se para Amélia e saudando-a com um breve beijo no rosto. – Vamos entrar?
Entraram para o pátio, onde já se encontravam alguns professores, bem como os alunos e respetivos familiares, aguardando a hora habitual de fecho dos portões para darem início às atividades desse dia.
- Onde deixaste a moto?- perguntou a criança.
- Vim de carro. Está no parque, junto do vosso.
Voltou-se para Amélia.
- Estás muito calada! – Disse num sussurro. Passa-se alguma coisa?
- Não. O Martim estava tão ansioso pela tua chegada que acabou por me por nervosa.
- Pois eu gostaria que partilhasses da ansiedade dele. Tens levado a semana a inventar desculpas para não nos vermos.
- Não é verdade. Foi mesmo uma semana muito complicada.
Um dos professores pediu a atenção dos presentes e a conversa foi interrompida.
Meus senhores, os meninos e familiares que vão entrar no torneio, dirijam-se aos balneários do Ginásio para mudarem de roupa. Os restantes sigam para a retaguarda do edifício onde se irá realizar o torneio e tomem assento nas bancadas ali existentes.
- Até logo, mãe - despediu-se Martim dando a mão a Paulo e dirigindo-se para o Ginásio. - Já sei que vais casar com a mãe, -disse baixando a voz, para que mais ninguém o ouvisse. Fiquei muito contente. Gosto muito de ti, sabes?
Paulo sentiu uma grande emoção. Voltou a passar a mão pela cabeça do menino numa carícia que parecia ser habitual nele, e disse com voz rouca embargada pela comoção.
- Eu também campeão. Eu também gosto muito de ti.
Pouco mais tarde, os dois empenhavam-se alegremente em mostrar os seus dotes de expert de futebol, em jogadas que por vezes se tornavam hilariantes. No final houve empate de três a três entre a equipa que eles representavam e a rival. Todos foram cumprimentados pelo diretor escolar e depois regressaram aos balneários para um duche e mudança de roupa. Quando se juntaram  a Amélia na bancada, já uma professora chamava as crianças que iam participar na divertida corrida de sacos.
- Viste o meu golo, mãe?– Perguntou Martim
-Claro que vi, filho. Estiveste muito bem.
- É um campeão, o nosso Martim, - disse Paulo apertando suavemente a mão de Amélia.