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13.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXII


- Uma família. Por muito bem que um homem se sinta sozinho, chega um dia, em que acorda com as pernas trôpegas e os cabelos brancos e sente a falta de uma família.
-Podia dizer que não és pobre a pedir, porém  tu és um homem atraente, rico, ainda não tens quarenta anos, segundo deduzi pelo que disseste há dias, acabaste de dizer que  tens uma boa casa. Se não tens uma família, é porque não queres. A menos que tenhas alguma doença. É isso? Ou não podes ter filhos?
- Não é nada disso. Já te disse que não acredito no amor – calou-se por momentos como se estivesse a tentar encontrar as palavras certas para a convencer. Mas na verdade, relembrava o seu casamento, e a maneira infantil como se tinha deixado ludibriar por Ivone. - Para te ser sincero, não tenho nenhuma confiança nas mulheres, e estava decidido a morrer solteiro. Mas uma vez que o destino me armou esta cilada, seria parvo se não tentasse sair dela, com alguma vantagem. Além disso estou a ser sincero, penso que ganhamos os três com esta solução. Sei que estás desempregada, e deves estar aflita com a situação, mas se aceitares o que te proponho, assumo todas as despesas até ao casamento. E depois da cerimónia, se quiseres dedicar-te à menina por inteiro, nem precisas trabalhar. Além do mais estou convencido de que poderemos ser felizes.
- Antes do mais, deves saber que já não estou desempregada. Começo a trabalhar na segunda-feira. Compreendo que queiras ter participação ativa na educação da Matilde. Também entendo que se aceitar a tua proposta vou ter uma vida muito mais facilitada, mas ao contrário de ti, eu acredito no amor, e não me entra na cabeça um casamento, sem esse sentimento.
- Sabes quantos casamentos se fazem por amor, com casais que se dizem muito apaixonados, e terminam em menos de dois anos? A compreensão, o respeito pelo outro, a cumplicidade, o companheirismo,  podem ser muito mais duradoiros do que a paixão.
- Quando falo em amor, é a isso que me refiro, não à paixão, que essa, como dizia a minha mãe, dá forte mas passa depressa. Supondo que eu aceito esse casamento, como seria ele? Completo ou nem por isso?
-Naturalmente seria um casamento normal, com tudo o que isso implica.
-Vejo que temos maneiras de ver a vida, diametralmente opostas. Um casamento como propões, para mim, seria tudo menos normal.
-Bom, dei-te a solução para darmos à Matilde, o lar a que ela, como todas as crianças tem direito. Disseste que eras capaz de dar a vida por ela. Não te peço tanto. Pensa bem, e logo que tenhas uma decisão telefona-me. Até lá não te importunarei.
Levantou-se e encaminhou-se para a porta, seguido por ela.
-Obrigada pelo jantar- disse ela.
- Fico à espera da tua chamada – respondeu Ricardo apertando a mão que a jovem lhe estendia



Atenção,  que ontem saíram dois capítulos.


20.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... - PARTE I

Reedição





Naquela noite de Dezembro, João chegou cedo a casa. Estava muito cansado. A tarde no escritório, fora de arrasar. Há dois dias que Helena, a colega, estava doente. Ele tinha o dobro do trabalho. Normalmente nem se queixava. Gostava da sua profissão, e não ganhava mal. Mas nos últimos tempos, sentia-se cansado.Física e espiritualmente. A idade começava a pesar. Não que seja velho, longe disso. Acabara de fazer quarenta anos e era um belo homem. Mas um homem chega a determinada altura e começa a não achar graça, às saídas com os amigos, às ressacas do dia seguinte, e principalmente a chegar a casa e sentir sobre si o peso da solidão.
Mergulhado no confortável sofá, João pensava que era chegada a hora de dar um novo rumo na sua vida. Pensou em quantos dos seus amigos de infância estavam solteiros.
O Zé, o Nuno, - não o Nuno casou o mês passado. Solteiros só restavam ele e o Zé.
Pegou no comando e desligou a TV. Não lhe apetecia ver nada. Mas também não tinha vontade de ir para a cama. Engraçado, começava a achar a cama grande demais. E vazia, como tudo o resto naquela casa. Olhou à volta. O silêncio ensurdecia-o. Lentamente levantou-se e foi até à janela. A noite estava fria, mas o céu estava estrelado.  Mergulhou os olhos na escuridão. Nada. Não se via ninguém na rua. Pudera com o frio que fazia, quem se atreveria a ir passear. Voltou para o sofá inquieto.
Acendeu um cigarro, e apagou-o de seguida. Recostou-se no sofá, fechou os olhos e, a pouco e pouco, foi relaxando até acabar por adormecer...
Acordou sobressaltado com o toque do telefone. Atendeu e do outro lado uma voz maviosa, falou o seu nome. Ficou surpreendido e irritado. Quem tinha o desplante de lhe ligar, numa hora tão imprópria.

26.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE III






-Tudo o que está estipulado no contrato que fizemos antes do casamento mantém-se. Porém há mais umas coisas que não estão no contrato e gostaria de te dizer. Como deves saber o trabalho de um advogado não é fácil. Às vezes aparecem casos complicados que exigem muito estudo e concentração. Por vezes trago casos para estudar em casa. Este é o meu espaço. Quando aqui estou não gosto de ser interrompido por ninguém e agradeço que mantenhas as crianças longe daqui.
-A minha irmã, vai-se embora no fim-de-semana, também tem a casa dela, da qual já está afastada há bastante tempo por minha causa. O meu cunhado tem sido muito compreensivo, há quase um ano que só tem a mulher aos fins-de-semana, mas agora quando for já não volta. Até sexta ela ajuda-te a apanhar a rotina da casa. 
Pensei melhor relativamente ao que tínhamos combinado de quartos separados.
A mulher estremeceu e ele notou-o.
-Não te preocupes. O casamento mantém-se como está no contrato. Sem intimidade que nem tu nem eu desejamos. Troquei a cama de casal por duas de solteiro. Pensei que era mais natural, as crianças vão crescer e podiam achar estranho, dormirmos em quartos separados. De resto mantenho o que está escrito. Adoptarei os teus filhos, e como meus filhos os tratarei, e confio em que farás o mesmo com as minhas filhas.
Calou-se. Como a mulher mantinha os olhos fixos no chão, ele pegou-lhe delicadamente no queixo, forçando-a a olhar para ele.
Reparou que tinha os olhos rasos de água e inquiriu:
- Que se passa? Estás arrependida?
Ela abanou vigorosamente a cabeça, as palavras sufocadas na garganta.
A voz dele suavizou-se.
- Bem sei que isto não é o casamento com que as mulheres sonham. Mas ambos sabemos que ele não passa de um contrato. Tu não podes criar e educar os teus filhos, sozinha. Eles precisam de um pai. Eu não posso, nem sei cuidar das minhas filhas sem ajuda. Elas precisam de uma mãe. É troca por troca. Parece-me um contrato justo. Vou mostrar-te o quarto. Disse à Olga para levar para lá as tuas coisas. Podes tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde, iremos ver os quartos das crianças. Tu me dirás  se queres fazer alguma alteração. Pensa que a partir de hoje, esta é a tua casa.