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9.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXX

Porque enfim acabei esta história ela sairá diariamente até acabar




Vinte minutos depois, Teresa era levada para o quarto, e logo depois os três berços também.

Foi autorizada a permanência do pai no quarto, mas Olga e Sandra não poderiam ficar mais de cinco minutos, primeiro porque a parturiente não se podia cansar, segundo, porque dentro de minutos ela iria receber a visita de uma enfermeira especializada em aleitamento materno que lhe ia ensinar como amamentar os bebés.

Uma vez, que a sua amiga estava no turno da noite, Sandra falou com a enfermeira de serviço, mostrou a sua identificação profissional e assumiu-se como enfermeira particular da parturiente pelo que pedia autorização para ficar com ela no quarto enquanto ela se mantivesse no hospital. 

A enfermeira disse-lhe que não tinha poder para lhe dar essa autorização, as normas no hospital diziam que as visitas só eram possíveis a partir das quinze  até às dezassete, nunca mais de duas pessoas, além do pai, mas dado o seu caso especial, ela poderia falar com a enfermeira chefe, pois só ela poderia dar ou não essa autorização. Sandra, assim fez e em breve recebia um cartão que lhe dava livre acesso à  permanência no quarto, pelo que João disse a Olga que podia regressar à empresa, Sandra apanharia um táxi quando saísse.

Sandra ainda mal tivera tempo de ver os bebés, quando uma enfermeira entrou no quarto para explicar a Teresa, como fazer para amamentar os bebés.

- Boa tarde. Sou a enfermeira Filomena Seabra, especialista em aconselhamento de amamentação. Estou aqui para lhe ajudar as esclarecer todos as dúvidas em relação à boa alimentação dos seus bebés. Fez alguma preparação para estimular o peito antes do parto?

-Sim, foi uma gravidez de risco, estive sempre acompanhada por uma enfermeira que me ajudou – disse Teresa apresentando Sandra.

-Muito bem, isso é essencial, mas agora chegou a hora de por em prática o que aprendeu e ver se resulta. Vamos tentar dar a primeira mamada.

Sandra apressou-se a levantar a cabeceira da cama e a ajeitar a almofada nas costas de Teresa de modo a deixá-la o mais confortável possível.

A enfermeira Filomena retirou do berço um dos bebés e disse:

 - Primeiro vamos despir o bebé e coloca-lo sobre o peito da mãe. O contacto pele com pele, com a mãe é muito importante e deveria ter sido feito na sala cirúrgica, mas como estes bebés são especiais por serem múltiplos e prematuros, e não se saber se precisariam ou não de ir para a incubadora, não foi feito na altura. Portanto vamos fazê-lo agora

Vamos despir um de cada vez, deixá-lo só envolto na mantinha e deitá-lo durante alguns minutos no seu peito. E vamos ver se ele agarra na mama. É muito importante estimulá-los. Faremos isso com cada um. Mais tarde quando lhe apanhar o jeito poderá amamentar dois de cada vez e o terceiro por biberão. Deve ir alternando o que amamenta por biberão para que não se torne preguiçoso a sugar, já que para eles é mais fácil sugar da tetina do que do peito.

 Vai ter que tirar leite, no intervalo das mamadas não só para estimular uma maior produção, mas para alimentar o terceiro bebé.

Todavia isso não vai ser problema se vai ter a seu lado a tempo inteiro uma enfermeira, ela não só a ajudará a tirar e conservar o leite até à mamada seguinte como lhe esclarecerá as dúvidas que tenha na altura.  

-E se eu não tiver leite suficiente para os três? – perguntou Teresa.

-Vai ter não se preocupe. A natureza se encarrega disso. O corpo de uma mulher é uma fábrica de leite. Quanto mais os bebés sugarem mais leite a mãe produz. Há estudos que dizem que uma mãe, pode produzir três litros de leite por dia. E em média, um bebé masculino, mama por dia 881mililitros. As meninas menos. Por isso não se preocupe.

Enquanto falava desapertara a parte de cima da menina e disse:

- Vamos lá pai, segure a sua filha e ponha-a no peito da mãe. É muito importante tanto para os bebés quanto para a mãe, que o pai e companheiro tome parte no processo sempre que possível.

- Mas, - balbuciou João. É tão pequenina, como vou segurá-la?

- Assim, - disse a enfermeira colocando-lhe a bebé no colo.

Tremendo João voltou-se com a filha nos braços e ajudado pela enfermeira depositou-a no colo da mãe, que já abrira a bata de modo, a apresentar a parte superior do corpo nu, ao contato com a pele da sua filha.

Durante uns minutos a bebé esteve ali sendo estimulada pela mãe e pela enfermeira até que segurou a mama e começou a sugar. Minutos depois a enfermeira retirou a bebé, vestiu-a e deitou-a no berço. Repetiu a operação com os meninos, primeiro um depois o outro, sempre incentivando João a participar do momento.

26.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIII

SEGUNDA PARTE

A fome acordou-o. A luz que chegava ao quarto, através da janela era tão suave que mal se distinguiam os objetos. Ouviu a leve e regular respiração de Isabel, que lhe deu a certeza de que dormia tranquila, e os seus olhos, já habituados à penumbra observaram-na. Dormia profundamente, a longa cabeleira dourada espalhada na almofada. Tinha o edredão puxado até ao pescoço, e o seu rosto calmo e sereno, não parecia o mesmo de horas atrás, quando a paixão os arrebatou.  Devagar, levantou-se. Estava nu e sentiu frio. Às escuras, procurou um pijama, vestiu um roupão e  dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e viu as horas. Meia-noite. Não admirava que sentisse fome. Não tinham comido nada desde o almoço. O frigorífico estava recheado com tudo para que tivessem tido um excelente jantar, contudo o seu desejo fora superior à fome. Bom, não jantaram, mas podiam fazer uma ceia. Retirou do frigorífico o marisco, o bacalhau com natas, o cabrito assado, o pudim caseiro, e a mousse de chocolate, iguarias que ele tinha encomendado ao restaurante, na véspera e que tinham vindo entregar nessa manhã, pouco antes de ele sair para o casamento, e colocou tudo em cima da mesa da cozinha.
A mesa na sala estava posta. Nem faltavam velas e flores, tudo o que se deve usar num jantar romântico, tal como vira numa revista da especialidade.
O seu estômago já roncava protestando com a fome, o melhor era ir ver se acordava Isabel, para cearem.
Dirigiu-se ao quarto, ajoelhou junto da cama, e beijou-a suavemente. Ela abriu os olhos espantada, como se não se lembrasse onde estava, e ele sussurrou.
-Hora da ceia. Estou morto de fome.
Ela tentou levantar-se mas ao ver que estava sem roupa, corou e voltou a tapar-se. Ricardo levantou-se, foi buscar um robe e deu-lho dizendo.
-Espero-te na cozinha.
Ela esperou que ele saísse para saltar da cama. Enfiou o robe sobre o corpo nu e de seguida foi ao armário onde dias antes guardara as suas roupas, retirou uma linda camisa de dormir, branca, de cetim e rendas, que Natália lhe oferecera para aquela noite, foi à casa de banho, despiu o robe, vestiu a camisa e o robe por cima, lavou a cara, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. Viu os diversos pratos em cima da mesa, e perguntou:
-Estás a pensar comer tudo isso?
-Tenho fome mas não tanta – disse rindo. – Começamos com o camarão?
-A esta hora não me apetece marisco. Mas tu podes comer se te apetece.
Ele pegou na travessa de camarão, e guardou-a no frigorífico dizendo:
-Também não me apetece muito. Vou aquecer o Bacalhau com Natas, no Micro-ondas e entretanto ponho o cabrito no forno. Queres esperar na sala?
- Vou pondo a mesa se me disseres onde estão as coisas - disse, enquanto ele regulava o tempo no Micro-ondas.
- A mesa já está posta. São só dois minutos, e vamos começar.
Isabel encaminhou-se para a sala, grata por ele não ter feito nenhuma alusão ao que tinham vivido horas antes.



29.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIV







Sempre que pensava em pai sentia uma sensação estranha.
No início era uma grande  angústia, uma opressão no peito, uma enorme vontade de chorar. Agora já não era tão intensa, tão opressiva, mas continuava a ser qualquer coisa que a entristecia. O psiquiatra, aventara a hipótese de que podia ser essa a relação causa-efeito da sua amnésia. Mas não passava de uma hipótese, ela não conseguia lembrar-se de nada, a sua cabeça, continuava a ser para o passado uma folha em branco.
Sentiu os passos de Miguel no quarto ao lado. Pensou que talvez fosse sair, mas depois de algum tempo, teve a certeza que nessa noite não o faria.
-Ainda bem, - murmurou ajeitando a almofada e preparando-se para dormir.
No quarto ao lado, Miguel acabara de se deitar. Pegou num livro que repousava na mesa-de-cabeceira e tentou embrenhar-se na leitura. Cedo percebeu que não o conseguia. Poisou-o no mesmo sítio e apagou a luz. Lá fora chovia intensamente.  Percebia-se pelo som nas persianas, que ecoava na casa em silêncio. Mariana decerto já dormia. Lembrou da sua alegria essa tarde, enquanto faziam as compras. Era como uma criança. Uma criança num corpo de mulher. Sim porque ele tinha de reconhecer que a jovem era uma bela mulher. Nem lhe tinha passado despercebido o modo como a olhavam, os homens que por eles passavam.
Tinham passado três meses desde aquele fatídico dia na falésia.
O dia em que ela chegara à sua vida, alterando rotinas, e sentimentos.
A sua vida era tão diferente antes disso.
Não se arrependia. Não. Voltaria a fazer o mesmo. Mas a verdade, é que desde esse dia, vivia uma preocupação constante, Que seria da jovem se nunca mais recuperasse a memória?
“Isso não vai acontecer, não sejas parvo” recriminou-se em seguida. “O médico disse que é temporária. É sempre temporária quando não há lesão ou doença cerebral. E ela não tinha, nenhum mal físico, a RM estava limpa.
Um dia lembra de tudo, e adeus Mariana. Talvez até nem se lembre de todo este tempo, quando recordar o que ficou para trás.
A casa vai ficar vazia sem a sua presença, - pensou
 E embalado pelo som da chuva acabou por adormecer.
Miguel, nunca saberia o que o acordou. Se o enorme trovão que ribombava sobre a sua cabeça, se o grito de terror que lhe chegou do quarto ao lado. Saltou da cama, passou as mãos pelo cabelo e dirigiu-se para lá.
Bateu uma, duas vezes, mas de dentro só lhe chegava o choro aflitivo da jovem.
Rodou a maçaneta, empurrou e a porta abriu-se na sua frente.
O quarto estava às escuras Acendeu a luz e viu a jovem. Estava sentada na cama, os braços abraçando as pernas dobradas, a cabeça escondida nos joelhos, o corpo sacudido pelos soluços. Sentou-se a seu lado, e perguntou acariciando-lhe os cabelos, como quem acalma uma criança.
-O que foi? Tens medo da trovoada?
.-Ó Miguel, eu matei o meu pai! - Murmurou entre soluços abraçando-se ao seu pescoço.