A fome acordou-o. A luz que chegava ao quarto, através da janela era tão suave que mal se distinguiam os objetos. Ouviu a leve e regular respiração de Isabel, que lhe deu a certeza de que dormia tranquila, e os seus olhos, já habituados à penumbra observaram-na. Dormia profundamente, a longa cabeleira dourada espalhada na almofada. Tinha o edredão puxado até ao pescoço, e o seu rosto calmo e sereno, não parecia o mesmo de horas atrás, quando a paixão os arrebatou. Devagar, levantou-se. Estava nu e sentiu frio. Às escuras, procurou um pijama, vestiu um roupão e dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e viu as horas. Meia-noite. Não admirava que sentisse fome. Não tinham comido nada desde o almoço. O frigorífico estava recheado com tudo para que tivessem tido um excelente jantar, contudo o seu desejo fora superior à fome. Bom, não jantaram, mas podiam fazer uma ceia. Retirou do frigorífico o marisco, o bacalhau com natas, o cabrito assado, o pudim caseiro, e a mousse de chocolate, iguarias que ele tinha encomendado ao restaurante, na véspera e que tinham vindo entregar nessa manhã, pouco antes de ele sair para o casamento, e colocou tudo em cima da mesa da cozinha.
A mesa na sala estava posta. Nem faltavam velas e flores,
tudo o que se deve usar num jantar romântico, tal como vira numa revista da especialidade.
O seu estômago já roncava protestando com a fome, o
melhor era ir ver se acordava Isabel, para cearem.
Dirigiu-se ao quarto, ajoelhou junto da cama, e beijou-a
suavemente. Ela abriu os olhos espantada, como se não se lembrasse onde estava,
e ele sussurrou.
-Hora da ceia. Estou morto de fome.
Ela tentou levantar-se mas ao ver que estava sem roupa,
corou e voltou a tapar-se. Ricardo levantou-se, foi buscar um robe e deu-lho
dizendo.
-Espero-te na cozinha.
Ela esperou que ele saísse para saltar da cama. Enfiou o
robe sobre o corpo nu e de seguida foi ao armário onde dias antes guardara as
suas roupas, retirou uma linda camisa de dormir, branca, de cetim e rendas, que Natália lhe oferecera para aquela noite, foi à casa de banho, despiu o robe, vestiu
a camisa e o robe por cima, lavou a cara, escovou o cabelo, e dirigiu-se à
cozinha. Viu os diversos pratos em cima da mesa, e perguntou:
-Estás a pensar comer tudo isso?
-Tenho fome mas não tanta – disse rindo. – Começamos com
o camarão?
-A esta hora não me apetece marisco. Mas tu podes comer
se te apetece.
Ele pegou na travessa de camarão, e guardou-a no frigorífico
dizendo:
-Também não me apetece muito. Vou aquecer o Bacalhau com
Natas, no Micro-ondas e entretanto ponho o cabrito no forno. Queres esperar na
sala?
- Vou pondo a mesa se me disseres onde estão as coisas -
disse, enquanto ele regulava o tempo no Micro-ondas.
- A mesa já está posta. São só dois minutos, e vamos
começar.
Isabel encaminhou-se para a sala, grata por ele não ter
feito nenhuma alusão ao que tinham vivido horas antes.
