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14.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIX






- Pode ser que seja a maior asneira da minha vida, mas vou confiar em ti, vou cancelar todas as investigações e tentar esquecer o erro cometido pelos médicos, durante o tempo que me pediste. Espero que me dês o teu contacto e me permitas telefonar de vez em quando para saber como estás e que me ligues imediatamente se surgir algum problema. Gostaria que mudasses de médico assistente, não confio nos médicos do Centro, quem erra uma vez pode errar duas. Mas compreendo que isso é uma decisão tua. Estamos no final de Junho, portanto no final de Setembro teremos que decidir o que vamos fazer no futuro em função do nosso filho.
 Disseste que escolheste este método por não estares interessada em nenhuma relação, pelo que suponho não tens namorado, ou amante com quem discutir este assunto, embora me pareça estranho que uma mulher bonita como tu não tenha ninguém na sua vida.
A Teresa pareceu-lhe ver nos seus olhos uma pergunta que não se atrevia a fazer.
- Como te disse, sou filha de mãe solteira, neta de avó divorciada. E quando se cresce com duas mulheres abandonadas, sofredoras e amarguradas, acabamos por nos afastar de toda e qualquer relação com o sexo oposto.
-Sendo assim creio que nos entenderemos. Até porque a minha  decisão está tomada.
 A criança será nosso filho e como pai quero fazer parte da vida dele, antes mesmo do seu nascimento. Isto é, acompanhar-te às consultas, assistir às ecografias, e ao parto. Podemos ser amigos e criar e educar o nosso filho em conjunto. Todavia se depois deste interregno, decidires que a criança é apenas teu filho e me negares o direito de fazer parte da sua vida, podes crer que irei buscar esse direito nos tribunais e que utilizarei todos os meios ao meu alcance para te aniquilar. De acordo?
-Parece-me justo, - disse ela abrindo a carteira e entregando-lhe um cartão. – Na verdade, ambos somos vítimas duma cilada, que a vida nos armou. Cabe-nos lutar para sair dela, com o mínimo de feridas possível. De seguida, levantou-se e ele fez o mesmo aproximando-se dela.
-Posso levar-te a casa? – perguntou
- Obrigado, mas tenho o carro estacionado no parque.
- Então acompanho-te até ele.
Abriu a porta, afastou-se para lhe dar passagem e seguiu-a dizendo ao passar pela secretária da sua assistente.
- Olga, vou lá abaixo acompanhar a senhora, já volto.
- Não era necessário acompanhar-me, - disse Teresa ao entrar no ascensor.
- Sei que não – respondeu, aproveitando o espelho do elevador para a mirar de alto a baixo. Era mais alta do que a maioria das mulheres, bonita e muito elegante. Além disso era inteligente e muito corajosa, ou não teria tomado a iniciativa de o procurar. Quando os seus olhos se encontraram através do espelho, Teresa corou e apressou-se a desviar o olhar, desejando sair rapidamente daquele curto espaço e da proximidade masculina.
Passaram pelo porteiro e pelo segurança e quando à porta ela lhe estendeu a mão para se despedirem, ele disse:
-Acompanho-te ao carro
Ela teria preferido despedir-se dele no escritório. Queria estar sozinha para relembrar a conversa e meditar sobre tudo o que nela disseram.
Pouco depois sim, despediam-se junto ao carro com um simples aperto de mão.
Teresa pôs o carro a trabalhar e arrancou. Ele ficou parado vendo-a afastar-se até que o carro saiu do parque e entrou na estrada. Só então regressou ao escritório.

25.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVI





Não saíram de casa nesse domingo. André sabia como levar uma mulher à loucura, e Eva procurava retribuir-lhe na mesma medida. Apesar de não ter grande experiência, era muito intuitiva. Alfredo, nunca fora um bom amante, sabia-o agora. Centrava-se no seu próprio prazer, e não se preocupava com a companheira. Com André era tudo tão diferente, tão intimo, tão partilhado, que era muito mais do que uma relação sexual. Era um amplexo de almas.
 Fizeram amor no quarto, na sala, no chuveiro. Fizeram as refeições entre beijos, sorrisos cúmplices, e por fim adormeceram abraçados no quarto dele.
Na manhã seguinte, ela levantou-se e foi para o seu quarto, tomar banho, e vestir-se para ir para o trabalho. Quando chegou à cozinha, André acabava de pôr as torradas e o sumo de laranja na mesa. Tomaram juntos, o pequeno-almoço e quando ela se preparava para sair, ele segurou-lhe o rosto entre as mãos e sussurrou-lhe emocionado:
-“Ti amo, cara ” Aconteça o que acontecer, nunca te esqueças disso.
Depois sem desviar o olhar dos olhos femininos, abraçou-a apertando-a contra o peito e pediu:
- Diz-mo. Diz-mo de novo, antes de saíres. Preciso de o ouvir.
Estava ansioso. Ela não entendia o que se passava, mas percebeu quanto era importante para ele, e disse-lho pondo em cada palavra todo o sentimento que lhe inundava o peito.
- Amo-te André. Amo-te de corpo e alma, como nunca amei ninguém.
Em resposta André beijou-a como se não houvesse amanhã e ela saiu para o trabalho, com uma esquisita sensação de perda e um aperto no peito, que não sabia explicar.
Mais tarde, na clínica, pensava em tudo o que vivera naquele domingo. Tinha sido um dia de sonho. André era um amante excecional. Com ele aprendeu, que não havia carícias proibidas, nem sentimentos de vergonha, entre duas pessoas que se amam. E adorava o jeito dele, de misturar palavras em italiano e português quando se emocionava.  
Deveria estar feliz. Mas a verdade é que não estava. Lembrava-se que dias antes, André parecia fugir dela. Porquê? Se a amava, como dissera e lhe demonstrara, porque fugia dela? E depois, a cena dessa manhã, fora muito esquisita. Era como se estivesse a despedir-se dela. Esperou ansiosa pela hora do almoço. Tinha tantas perguntas para lhe fazer.



Acabei de saber que o meu amigo Esteban Lob partiu no Domingo rumo ao reino celestial. Luz e Paz para si meu amigo. 
Estou muito triste. 

17.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE X





Apesar de todas as preocupações, não só conseguiu dormir, como só acordou, quase às oito da manhã. Tomou banho, vestiu-se, arrumou o quarto, e foi para a cozinha, onde fez um sumo de laranja e umas torradas. Contrariamente ao habitual, não ligou o rádio para não acordar o homem que devia estar a dormir no quarto de hóspedes.
Saiu de casa às nove horas. 
Habitualmente ia a pé para o emprego, a clínica não ficava longe de casa, mas como tinha decidido ir ao orfanato ver a Irmã Madalena, na hora do almoço, decidiu levar o carro.
O trabalho na clínica não era fácil de suportar naqueles dias. As pessoas conheciam-na, sabiam do suicídio do marido. Queriam mostrar-lhe que estavam solidárias com a sua dor. Não faziam por mal, mas quando mais falavam, mais a faziam recordar o momento difícil que estava a passar.
Quando a clínica fechou a porta para o almoço, ela meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Comeria alguma coisa depois, se tivesse tempo.
A Irmã Madalena, supervisionava um grupo de crianças, que brincavam no pátio. Abraçou-a com carinho.
-Que bom que vieste, Eva. Tenho estado tão preocupada contigo. Como estás filha?
- Como Deus quer, Irmã. Preciso muito de falar consigo. Não tem ninguém para cuidar dos meninos?
- Claro que sim, filha. Podes ir chamar a Irmã Maria? Deve estar na biblioteca.
Eva encontrou-a, no corredor, antes mesmo de chegar à biblioteca. Transmitiu-lhe o recado e seguiram as duas para o pátio. Depois, a Irmã Madalena levou-a até ao seu gabinete, onde Eva lhe contou tudo o que tinha acontecido depois do último encontro que tiveram no funeral de Alfredo. Por fim estendeu-lhe a carta que o advogado lhe entregara. A Irmã estava espantada. Abriu os braços e a jovem refugiou-se neles.
- Pobre menina. Como deves estar a sofrer! Tu sabes que não me agradou o teu casamento com o Alfredo. Havia qualquer coisa nele que não me agradava. Mas tu estavas tão feliz, que pensei que me tinha enganado. 
-E fui feliz durante uns meses, Irmã. Depois o comportamento dele alterou-se. Passou a sair quase todas as noites, chegava tarde a casa. Às vezes vinha eufórico, mas a maioria das vezes, vinha aborrecido. Perguntava-lhe se o podia ajudar mas ele não se abria. E o dinheiro desaparecia. Ultimamente era com o meu ordenado que governava a casa.
Pensei que ele tinha uma amante. Quis falar com ele, obrigá-lo a confessar. Deixou-me a falar sozinha e foi atirar-se daquele terraço. Nunca imaginei que fosse jogo, muito menos que fosse capaz de jogar a casa e a própria mulher.

6.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLII


NADA de novo com o meu marido. a situação é estável e estão a fazer exames. Ontem fez mais uma TAC, e electrocardiograma. O médico tem pedidos um ecocardiograma com doppler, um registo de Holter, um dopler das carotidas,e uma ressonância magnética. Obrigada pelo vosso apoio. Deus vos abençoe.





Isabel acabou de atender a chamada, poisou o telefone, pegou no documento que tinha na sua frente, e preparou-se para o digitalizar. Depois de o fazer, enviou-o por correio eletrónico para o cliente. Estava quase a terminar mais um dia de trabalho. Gostava do ambiente na empresa, dava-se bem com o chefe e colegas. Pena que dentro de poucos meses tivesse de sair.
Olhou o relógio. Dezoito e trinta e cinco. Mais vinte e cinco minutos, e o dia chegaria ao fim. Ela saía, e encontrava o marido à sua espera, iriam buscar a filha e iam para casa. Depois do casamento, o marido quisera comprar-lhe um carro. Não um modelo luxuoso, esses eram para o aluguer na empresa, mas um vulgar carro citadino, para que fosse levar e buscar a filha  a casa de Natália. Como ela o recusou, ele tomou o hábito de as levar e ir buscar.
Sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com frio, antes com o pensamento no marido. Tal como ela previra, apaixonara-se pelo marido, e aquele casamento estava a ser um martírio, de tal modo que não sabia se tinha forças para o continuar a manter. As coisas estavam cada dia mais difíceis, eles já nem conversavam com a naturalidade de antigamente. Talvez a culpa fosse dela, ele avisara-a antes do casamento que não esperasse amor da parte dele. Ela pensou que poderia resguardar o coração, mas não conseguiu. Carente como era, amou-o desde a primeira noite que dormiram juntos. 
Ingénua, pensou que a força do seu amor faria com que ele lhe retribuísse. Não foi assim. Ricardo era um homem bom, um companheiro dedicado, um amante atento ao que lhe agradava no sexo. Mas era só isso que lhe dava.
Ele nunca lhe falara dos seus sonhos, dos seus desejos, do seu passado, do porquê da sua desconfiança com as mulheres. Ela sabia, vira nos documentos, quando estavam a tratar dos papéis para o casamento, que ele já fora casado. Suspeitava que fora uma má experiência, mas suspeitar era tudo o que lhe restava, já que ele não a deixava entrar no seu passado. O único lugar onde ele fazia dela rainha e senhora, era na cama. No sexo, ele dava-se por inteiro, ela conhecia todas as suas reações, os seus pontos fortes e fracos. Mas ela queria muito mais que isso. Queria amor, queria conhecer o marido, como conhecia o amante.  
 Sonhava com um filho dele, mas não arriscava deixar de tomar a pílula, apesar de estar quase a fazer trinta e quatro anos, e já não lhe restarem muitos anos de fertilidade. Porquê? Porque nem uma única vez ele mostrou desejos de ter um filho dela, apesar de ser doido por Matilde.
Estava num impasse. O maior sonho da sua vida, era ter o amor do marido, o maior pesadelo, a certeza de que nunca o conseguiria. Já pensara no divórcio. Como forma de acabar com aquele sofrimento. Afinal conservava a casa que herdara dos pais, não ficava na rua. Mas e a filha? Ela adorava-os aos dois. Não era só nos documentos que eram pais dela. Eram-no também no coração da criança que não conhecera outros. Separá-la do pai? De modo algum, ela não queria que a menina viesse a albergar sentimentos iguais aos da mãe biológica. Mas também não podia viver sem ela. Suspirou. A sua vida transformara-se num problema sem solução. Arrumou a secretária, pegou na mala e saiu. 



1.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXVII





Isabel acordou muito cedo na manhã seguinte. Saiu da cama com cuidado, para não acordar o marido, tomou banho vestiu-se e saiu do quarto fechando a porta suavemente. Eram sete horas, Matilde costumava acordar mais ou menos por aquela hora. Foi ao quarto da menina, mas esta, talvez cansada das emoções da véspera ainda dormia. Foi para a cozinha. Enquanto cortava duas fatias de pão para por na torradeira, pensava em como a sua vida tinha mudado desde que decidira aceitar a proposta de casamento do agora marido. Ricardo estava a ser um marido e um pai maravilhoso. Atento, preocupado com o bem-estar delas, carinhoso. Como amante era tudo o que uma mulher podia sonhar. Então porque é que ela não se sentia a mulher mais feliz do mundo? Porque é que quando estava sozinha como agora, sentia vontade de chorar?
No fundo do seu coração ela sabia porquê. Porque se apaixonara como uma tonta, por um homem que lhe disse várias vezes que não acreditava no amor. A culpa não era dele, nunca a enganou. Dissera-lhe que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que o seu casamento desse certo, e para que a menina crescesse num ambiente de harmonia. Mas que não lhe pedisse amor, o seu coração estava seco para esse sentimento.   
E ela pensara que era o suficiente. Todavia agora, dava-se conta de como fora ingénua. O seu coração carente e virgem de afetos, entregara-se por completo ao marido e sangrava cada vez que ela calava o amor que sentia, para não lhe ouvir a resposta de que não conseguia retribuir-lhe.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e dedicar a sua atenção à manteiga que espalhava na torrada, quando Matilde apareceu à porta da cozinha com o urso Tobias num braço e a boneca no outro.
Isabel poisou a faca no pires e baixou-se para acolher nos braços a menina.
-Bom dia, filha. Dormiste bem? – perguntou beijando-a.
- Sim. E o Bias e a boneca também. Mãe, ela não tem nome?
-Não. Mas nós vamos já tratar disso. Queres escolher o nome para ela enquanto preparo a tua papa? – perguntou sentando-a na sua cadeira, e prendendo-lhe o cinto.
Voltou-lhe as costas e pôs a aquecer a água para confecionar a papa, maravilhada com o desenvolvimento da menina, nos últimos meses. No final do verão, mal dava uns passinhos, agarrada às coisas, agora corria a casa toda. E a cada dia o seu vocabulário aumentava. Certo que fizera há dias, dezoito meses. E nestas idades o desenvolvimento é muito rápido, especialmente quando são muito estimuladas e Matilde era-o.
- Mãe… posso chamá-la “Suana”?
Estremeceu e quase deixou cair o prato com a papa que acabara de fazer e se preparava para por na mesa.
- Susana?
- Sim. Posso?
- Podes querida. A mãe só gostava de saber porque escolheste esse nome.
-  Quando vou ao paque com a vó Taia tá lá uma menina Suana e nós bincamos juntas”. Eu gosto da Suana”
-Está bem querida, então a boneca passa a ser Susana. Agora vamos comer a papa está bem?
- E o pai?
- Não acordou ainda.
- Eu não o afirmaria, - disse Ricardo sorrindo à entrada da cozinha.

17.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXV




Eram exatamente nove horas, quando Ricardo tocou a campainha.
Isabel abriu a porta e conduziu-o para a sala.
- Senta-te. Desculpa, não tenho bebidas alcoólicas, mas posso oferecer-te um café.
-Obrigado mas acabei de jantar. Prefiro que me digas o que decidiste.
- Antes de te dar uma resposta temos que esclarecer alguns pontos. Disseste que o casamento será real e não apenas nominal. É assim?
- É. Disse-te que seremos uma família.
- E como sabes, se somos compatíveis? Imagina que casamos e não consigo ter intimidade contigo. Já pensaste nisso? Ou acreditas que és tão irresistível, que não há hipótese de isso acontecer?
- Bom, e onde é que isso nos leva? Queres que façamos a experiência, antes de me dares a tua resposta?
- De modo algum – apressou-se a dizer vermelha que nem papoila. – Mas quero que me beijes. Porque se não formos compatíveis com um simples beijo, não haverá casamento, ou pelo menos não tal como o desejas.
Tinha razão. Por muita vontade que ele tivesse de formar uma família, (e pensava nisso todos os dias, depois da conversa com Artur)  e dar um lar à menina, se entre os dois não houvesse química, um casamento estava fora de questão. Pôs-se de pé e avançou para ela. Apesar do seu metro e oitenta e quatro, não era muito mais alto que Isabel que ultrapassava o metro e setenta. Rodeou-lhe a cintura com um braço e puxou-a para si. Com a outra mão segurou-lhe o queixo e aproximou o rosto do seu. Por uma fração de segundo os seus olhos encontraram-se. Ele queria ler nos olhos dela, expetativa, desejo, algum sentimento que lhe desse uma ideia do que aquela proximidade lhe provocava, mas ela fechou-os e aguardou, os lábios trémulos, o corpo tenso, o momento que se aproximava. Por um momento, ele receou que o seu beijo não fosse tão bom quanto ela desejava. O teste era muito importante para o futuro dos dois, e ele desejava que corresse bem.
Com uma ligeira pressão, fez com que os corpos se tocassem. Ela conteve a respiração e entreabriu os lábios. Ele inclinou a cabeça, e beijou-a. Não um beijo apaixonado, mas um suave roçar dos lábios inicial, para depois intensificar o beijo, brincando com os seus lábios, provocando e tentando dar-lhe o máximo prazer.
De súbito com um suspiro o corpo dela, qual leão adormecido, que desperta faminto, fez com que  levantasse os braços para lhe acariciar a nuca, enquanto se roçava descarado no corpo masculino.
 Ele aprofundou então o beijo, a sua língua invadiu a boca feminina, saboreando a sua doçura, mas a reação foi tão intensa que logo se arrependeu. O que era aquilo? Jamais um simples beijo o excitara tanto. Sentiu um desejo tão forte, que a sua vontade era deitá-la no sofá e fazer amor até cair de cansaço. Aquilo nunca lhe acontecera antes, com qualquer mulher, e ele tivera muitas nos últimos anos. O mais suavemente que pôde,  afastou a jovem que protestou relutante. Voltou-lhe as costas e caminhou até à janela. Não queria que ela visse o estado de excitação em que se encontrava. Durante largos segundos ficaram em silêncio, cada um tentando digerir as emoções que aquele beijo despoletara.
-Creio não haver dúvidas sobre a nossa compatibilidade. A química entre nós não podia ser maior – disse por fim voltando para o sofá. – Então vamos lá saber o que decidiste.
 - Aceito a tua proposta se aceitares as minhas condições. Suponho que terás as tuas aventuras, talvez até uma amante. A partir do momento em que decidirmos avançar para o casamento, terás que ser fiel. Não suporto traições. 
- Sem problema. Se me conhecesses, saberias que considero a traição a coisa mais abjeta da vida.
-Muito bem. O casamento terá que ser o mais intimo possível, uma ida ao registo com as testemunhas exigidas por lei, e nada de lua-de-mel.




19.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXIII





Não queria separar-se das crianças a quem ganhara amor.  Não ia abandoná-las,  agora quando tinham aprendido a amá-la. Tinha a certeza de que elas nem se lembravam se algum dia tinham tido outra mãe que não ela. Também não acreditava, que Ricardo pusesse um ponto final no contrato, pois ele anteporia a felicidade dos filhos, aos seus desejos. Mas era evidente que ele queria transformar aquele casamento, num casamento real.
 A atração sexual entre os dois era muito intensa. Ainda assim ela não estava disposta a ceder. Não sem amor.
“Porque não aceitas o que ele te propõe” - interrogava-lhe uma voz vinda algures de algum recanto da sua cabeça.
-Porque não seria meu marido, mas um amante, e não estou preparada para me prostituir – respondia a si própria
“És uma parva, - volvia-lhe aquela voz irritante. – "Quem sabe não fazes com que ele te ame mais depressa se cederes”
-Ou perca o respeito e admiração que neste momento sente por mim.
Doía-lhe a cabeça, estava cansada demais para travar uma luta com aquele outro ser, que habitava nela e lhe chamava parva.
Tomou um comprimido e recostou-se na cama fechando os olhos.
Não soube quanto tempo esteve assim, tentando não pensar em como a sua vida se tinha complicado nos últimos meses. Ela só pensara no irmão e nas crianças tão pequenas e já sem mãe. Não pensara que o charme daquele homem, a conquistasse. Como é que ela ia ter coragem de conviver com ele dia-a-dia, (se era verdade que ia deixar a vida militar e não voltava a partir) naquele ambiente de tensão? Ia ser terrível não só para eles como para as crianças. Elas percebem sempre o que se passa à sua volta. Sentia uma tal tristeza que não conseguir reprimir o choro. Chorou de raiva, de pena, de medo, de amor, Como se chorando, expulsasse da sua cabeça. e do seu coração, tudo o que a afligia. Cansada por tantas emoções e mais calma depois daquele choro libertador, acabou por adormecer.
Acordou com a suave carícia das pequenas mãos de Soraia.
- Estás doente, mãe?
- Não, meu amor. Já mostraram ao pai os pintainhos?
- Já. E já brincámos e lanchámos. E como tu não aparecias a “Tónia” disse que estava preocupada. E que se calhar não te sentias bem.
- Está tudo bem, querida. Vai dizer à Antónia que desço já, - disse dando-lhe um beijo.
A menina saiu e ela saltou da cama e dirigiu-se à casa de banho. Olhou-se no espelho e assustou-se com o seu aspeto. Tinha os olhos vermelhos e inchados.
Lavou várias vezes o rosto com água fria, tentando disfarçar as evidências do choro e depois mudou de roupa já que o facto de ter adormecido vestida, fazia com que a roupa se encontrasse por demais enrugada.
Dirigiu-se à cozinha. Procurou no armário um pacote de chá de tília e pôs a cafeteira com água ao lume.
Sentia os olhos de Antónia cravados nela, mas a empregada era discreta demais para fazer alguma observação. Sentiu necessidade de dizer alguma coisa que a sossegasse.
- Sei que não tenho muito bom aspeto, mas estava com uma terrível enxaqueca. Tomei um comprimido e acabei dormindo. Graças a Deus já passou.
-Calculei que alguma coisa tinha acontecido. Em todos estes meses nunca deixou de assistir ao lanche dos meninos. 
-E por falar neles…
-Estão na biblioteca com o pai. Aqueles três adoram-se. Durante o lanche falou-se em presentes, já não me lembro a que propósito. O senhor disse que não lhes trouxe nada, o país onde estava era muito pobre, a única coisa que por lá há muito, são especiarias. E sabe o que lhe responderam?
- Não.
-Que a única prenda que queriam, era que nunca mais se fosse embora.
Clara sentiu que as lágrimas afloravam de novo aos seus olhos.


Esta história volta Segunda-feira. Para todos um bom fim de semana

19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVIII




Fizeram amor ali mesmo, no sofá da sala, ansiosos demais para aguardar a chegada ao quarto. Mais tarde, acalmada a tempestade que traziam dentro de si, e já no leito, voltaram a fazer amor, desta vez com menos paixão e mais amor. Depois Odete deitou a cabeça no ombro do marido e suspirou. Ele sussurrou.
- Amo-te tanto. Ia enlouquecendo de saudades.
- Estranho amor que não impede a traição.
- Traição? O que queres dizer com isso?
-Tu sabes. A Inês.
- A Inês, o quê - Perguntou afastando-a e sentando-se na cama.
- Porque pensas que me fui embora? - Perguntou ela, finalmente disposta a pôr a nu a dor que guardou durante quase quatro anos. Descobri a tua traição, e não conseguia viver contigo sabendo que me enganavas.
Ele pôs-se de pé sem se preocupar com a sua nudez. Estava pálido e furioso.
- Quer dizer que me abandonaste porque meteste na cabeça que eu tinha alguma coisa com a Inês?
- Não meti nada na cabeça. Eu sei que vocês eram amantes.
- Nunca fui amante da Inês, fui seu noivo, antes de te conhecer, e isso, eu próprio te contei. Depois que casei contigo não me deitei com mais ninguém. Que raio de homem, pensas que sou? E que tipo de mulher és tu, que pensando que eu sou esse ser amoral e promíscuo, foste capaz de fazer amor comigo?
Estava tão zangado que por momentos ela pensou que estava a falar verdade. Mas como podia ser, se ela tinha a prova?
Ele pegou na roupa e disse.
- Podes dormir aqui. Eu durmo no outro quarto. Amanhã podes partir. A obrigatoriedade de viveres nesta casa, terminou neste momento.
Dirigiu-se à porta. Ela enrolou-se no lençol e foi atrás. Agarrou-lhe num braço.
- Espera João, não podes estar a falar a sério. Vamos falar, esclarecer as coisas.
- Deixa-me. A hora de esclarecimentos perdeu-se no tempo. Saber que me abandonaste por uma suspeita ridícula e sem fundamento, que não confiaste em mim, nem foste capaz de me falar sinceramente, deixa-me doente. És a maior desilusão da minha vida. Nunca mais quero ver-te.
Saiu batendo a porta com estrondo. Ela atirou-se para cima da cama e durante muito tempo, chorou amargamente. Naquele momento teve a certeza de que o marido estava a ser sincero. Mas e aquela carta? Tinha sido uma intriga de Inês para separá-los? Depois de ter visto a dor e a raiva nos olhos do marido, não tinha a menor dúvida, no entanto continuava a fazer-lhe confusão, como aquela carta foi parar ao bolso do casaco dele, sem que de alguma forma tivessem estado juntos.
Já passava da meia-noite quando se levantou, tomou um duche, vestiu um pijama e voltou para a cama, pensando que tinha afastado de si a única hipótese de ser feliz.
Agora não havia volta a dar. O marido nunca lhe perdoaria. 
Tudo acabara de vez.





Parece que a história acabou. Qual é a vossa opinião? Ponho aqui um fim? Ou continuo?



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI

Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.









16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIII



Durante mais de uma hora viajaram calados. Odete olhava pela janela como se a sua vida dependesse da paisagem que rodeava a estrada. João conduzia atento ao trânsito. Por fim ela quebrou o silêncio.
- A tua mãe teria gostado que ficássemos para o almoço.
- A minha mãe é muito arguta. Se estivéssemos umas horas com ela ia perceber que não estamos felizes.
- Mas querias ir à praia. Pensei que só vínhamos mais tarde.
- Na praia estávamos longe dos seus olhares.
- Não te entendo. Se tinhas tanto medo que ela percebesse, alguma coisa, porque viemos?
- Porque já tinha combinado vir antes do teu regresso. E já não aguentava mais, ela querer saber de ti. Estiveste ao telefone com a tua mãe?
- Não. Tu deste-me notícias, e se vou estar com ela quando chegar, não valia a pena telefonar.
- Há uma coisa que quero que dizer-te. Enquanto estiveres na nossa casa, não quero encontros com outro homem. Nem telefonemas ou e-mails.
Revoltou-se. O que é que ele estava a insinuar? Acaso julgava que ela era capaz de ter um amante?
- O bom julgador por si se julga, - atirou mordaz
Travou repentinamente, provocando um solavanco que a assustou.
- Estás doido? Queres matar-nos?
- O que é que disseste?
- Eu? Nada que tu não saibas.
Apertou-lhe o braço com a força, olhando-a furioso.
- Larga-me. Estás a magoar-me.
Soltou-a e reparou na mancha vermelha no braço.
- Desculpa, -disse voltando a pôr o carro em movimento. -Não voltará a acontecer. Não é hora nem sítio para conversas desta natureza.
Na sua cabeça ecoava a frase que lhe ouvira. Que quereria dizer com aquilo. Ela é que o abandonara, sem ele sequer imaginar porquê, e punha as culpas nele? Em dois dias era a segunda vez que lhe mandava uma indireta como se ele fosse o culpado pela separação. O que é que ele fizera além de amá-la, e de trabalhar como um louco? Talvez porque dispunha de pouco tempo para ela? Mas  se era por ela que trabalhava tanto. Para lhe pagar os estudos lhe comprar roupas caras, lhe dar jóias. Pensava que dando-lhe tudo isso, compensaria a diferença de idade, e faria com que não se interessasse por nenhum homem mais bonito e mais jovem.   Decididamente não entendia as mulheres. Primeiro foi Inês, que se fingia apaixonada por ele e o traía. E que depois de divorciada, lhe fez uma marcação cerrada, jurando arrependimento, para uns meses depois voltar a casar. Só não caíra na sua teia, porque o amor que dedicava à mulher era mais forte do que qualquer outro sentimento que experimentara na vida. E depois Odete, que ele julgara diferente, que amara com todo o seu ser, e que sem uma explicação o abandonou, transformando a sua vida num verdadeiro inferno. Ninguém a não ser o seu amigo Manuel, sabia o quanto ele estivera à beira do abismo. A ele agradecia o ter conseguido superar o seu desespero e voltar a dedicar-se de corpo e alma à profissão. Muitos o invejavam, pelo seu sucesso profissional. Ele trocá-lo-ia pelo amor da mulher, sem a mínima hesitação.


9.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXII


                                                     foto daqui


- E agora? O que vamos fazer?
- Agora, vamos contar a verdade aos teus irmãos. Tu contarás à Ana Clara. Diz-lhe que não pensámos separar-vos. Foram as circunstâncias da vida que levaram Antónia a separar-vos, - disse o pai abraçando-a.
-Regressas hoje, ou ficas alguns dias?- Perguntou a mãe, limpando as lágrimas.
- Vou esta tarde. Arranjei trabalho como rececionista numa clínica de exames médicos. Começo a trabalhar amanhã.
- Então, vou tratar do almoço.
- E eu vou ajudar-te.
Passou a mão pelo rosto triste do pai, num gesto de carinho, e sussurrou antes de seguir a mãe.
- Não fiques assim. Nada mudou nos meus sentimentos. Amo-vos.
 - Queres contar-me como conheceste Ana Clara? – Perguntou a mãe, enquanto metia o tabuleiro com a perna de borrego e as batatas no forno.
- Na verdade, só ontem à noite a conheci. Tudo começou com a visita que o Luís me fez. Ana Clara é casada e tem dois filhos. É professora. Quis o destino que o seu cunhado, passasse pela porta do prédio onde vivo, quando eu e o meu irmão íamos entrar.
Para ele, era a cunhada entrando num prédio, abraçada com outro homem que não o irmão. Pensou que a cunhada tinha um amante.
- Santo Deus, filha. E depois?
- Podia ter sido uma tragédia, se ele contasse ao irmão, mas felizmente Salvador pensou nas crianças, e por elas decidiu abordar a cunhada e fazer-lhe um ultimato para que largasse o amante. Para isso esperou ver a cunhada sair ou entrar do prédio e quando eu saí, abordou-me. A princípio pensei que era um truque para meter conversa, mas quando me ameaçou de que ia telefonar para o “meu” marido, e que eu podia ficar sem “os meus” filhos, pensei que havia alguma coisa estranha. Vi-me obrigada a mostrar-lhe a minha identificação. E mesmo assim estava incrédulo. E quando lhe disse, onde e quando tinha nascido, a coincidência tornou-se ainda mais inacreditável. Eu mostrei desejo de conhecer a sua cunhada, e ele deve ter-lhes falado de mim, pois me convidaram para jantar ontem. E quando nos abraçámos foi inacreditável mãe. Foi como se de repente nos encontrássemos com uma parte de nós mesmas, que andava perdida. Os dois irmãos, falaram até de fazer um teste de ADN, uma vez que Ana Clara, foi adotada, e segundo os seus pais, ela foi entregue à instituição porque a mãe estava muito mal, e ela não falou em mais nenhuma filha. Pareceu-me claro que vocês saberiam de alguma coisa, e disse-lhes que só faria o teste, se aqui não encontrasse uma resposta.
- E ela, é feliz?
-Pelo que me foi dado observar, sim. O amor entre ela e o marido, e bem evidente, e os meninos, que devem ser mais ou menos da idade dos teus netos, são encantadores.
-Ainda bem, filha. Onde quer que esteja, Antónia pode finalmente descansar em paz. Mas disseste que vieste com um amigo?- Perguntou mudando de assunto
- Com o Salvador, mãe. É o cunhado da Ana Clara. Ele sentia-se responsável por toda esta confusão, e decidiu trazer-me.
- E onde está agora? Porque não lhe telefonas e o convidas para almoçar?
- Posso fazê-lo? Vocês não se vão sentir constrangidos?
- Porquê? O que fizemos só te afetou a ti, e tu perdoaste-nos não é verdade?
- Claro, mãe. Vou telefonar.



10.7.17

ROSA - PARTE XIII




                                          Foto DAQUI


Quando Rosa saiu do hospital, o padre que a tinha casado, arranjou-lhes um dos oito fogos, que ele próprio mandara construir para alguns dos seus paroquianos, que viviam em condições miseráveis. A casa ficava na vila, longe portanto da Seca, mas Rosa achou que lhes tinha saído a sorte grande. A casa, composta por uma boa cozinha, casa de banho e  três quartos, com água, luz e chão de tacos, pareceu-lhe um palácio. A vida do casal começava a melhorar. A filha mais velha foi servir para Cascais e só vinha a casa uma vez por mês. A segunda também foi servir para casa dum Sr. Doutor, lá mesmo no Barreiro. Dos três mais velhos, ficava em casa o rapaz que era muito frágil e que tinha sempre “uma ninhada de gatos no peito”. Ali na vila, Rosa arranjou algumas senhoras que lhe davam umas horas de trabalho para limpezas, ou passar a ferro e a vida parecia começar a equilibrar-se. Mas… foi nessa altura que João mudou. Andava macambúzio, perdera parte da sua alegria, olhava à volta com desconfiança e, de vez em quando, saía à noite. Às vezes, vinha cedo mas outras, só voltava de madrugada. Rosa começou a pensar que ele tinha arranjado uma amante.
Sentia que o chão lhe fugia debaixo dos pés e um dia fez-lhe a pergunta direta.
João irritou-se. Que ela estava doida, onde teria ido buscar essa ideia. Mas Rosa não ficou convencida. E numa noite, em que o marido voltou a sair, ela foi atrás dele. E viu quando ele se encontrou com mais dois e como andavam 
em silêncio, acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um, mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, e que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
Quando João chegou a casa, achou a mulher estranha.
- O que tens, mulher? Aconteceu alguma coisa?
Ela respondeu com outra pergunta:
- Tu és comunista, João?
- Cala-te, - disse perdendo a cor. Nem em pensamento, ouviste, nem em pensamento, repitas isso.
- Então é verdade, - disse ela com a voz embargada pelas lágrimas. Mas porquê? Já passamos tanta fome, tanta miséria e agora que a nossa vida está bem melhor, é que queres desgraçar-nos.
-Tu não compreendes mulher. É nosso dever tentar que os nossos filhos não passem o que nós passamos.
- Mas… e se eles te prendem João?
 - Não te preocupes, nós temos cuidado. É verdade que há muitos “bufos”, mas também há muita gente do nosso lado.
Mas, desde aquela noite, e durante vários anos, Rosa nunca mais teve um minuto de sossego.


Continua


29.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE X


Ouviu-se de novo a pancada na porta, e à sua ordem de entrada, Rita abriu a porta e deixou passar Glória.
Era uma mulher alta, magra e muito bonita. Uma das modelos que no ano anterior tinha participado no catálogo e que pouco tempo depois se tinha convertido em sua amante.
Aproximou-se, como se estivesse desfilando, deu a volta à secretária e exclamou enquanto o abraçava.
- Que se passa amorzinho, não tens aparecido, não telefonas…
Afastou-a sem violência, mas com firmeza.
- Senta-te Glória, precisamos falar.
Esperou que ela se sentasse e depois fez o mesmo recostando-se na cadeira, sem que lhe passasse despercebido o cruzar das pernas, com que ela o presenteou. Procurou uma desculpa.
- Sabes que não disponho de muito tempo livre.
-Sei. Mas antes tinhas sempre tempo para mim…
- Antes, tinha mais tempo. Acabei de comprar uma nova fábrica. Estou demasiado ocupado. Compreendo que és jovem, bonita, e que mereces gozar a vida. Será melhor que não te prendas comigo.
- Quer isso dizer que estás a correr comigo?- Perguntou os olhos faiscantes de raiva. Quem é ela? Uma nova modelo? Foi por isso que não quiseste que participasse neste catálogo?
- Nada disso, Glória. Não tenho ninguém, acredita. Quero que sejas feliz, e eu não tenho tempo, nem estou preparado para uma relação séria.
- Não acredito. Por tua causa rejeitei um bom contrato, que me podia levar até ao Japão. E agora corres comigo.
- Lamento. Posso ajudar-te até teres um novo contrato, e mover as minhas influências para conseguir-to rapidamente.
Estendeu a mão, pegou num cheque, que tinha em cima da mesa e estendeu-lho. Ela estava furiosa, e preparava-se para uma discussão, mas um rápido olhar ao cheque, acalmou-a. Um lampejo de gozo perpassou pelo olhar masculino. Ela pegou no cheque, dobrou-o e meteu-o na mala. Não agradeceu. Limitou-se a dizer:
-Espero que me consigas um bom contrato em breve.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando a porta aberta. Rita assomou à porta, e sorriu:
-Foi dispensada? Pensava que desta vez, tinhas sido apanhado. É muito bonita.
- Tão bonita, quanto oca. Bom, põe-te em contacto com a Lanvin em Paris, e vê se o meu amigo Louis Courtney, está.
- Tens pressa em despachá-la para longe?
Ele não respondeu