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16.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE L









EPÍLOGO


-Agora que já nos conhecemos, aceitas sair comigo? - perguntou Ricardo
-Para onde? – perguntou Isabel.
- Por aí, ao sabor do destino. Estamos no mês de Junho, e  em Lisboa há um arraial em cada esquina. Amanhã é sábado, não precisamos levantar cedo. Podemos ir até um bar, ou simplesmente passear junto ao Tejo de mãos dadas. Tu decides.
- Dá-me cinco minutos para mudar de roupa, não me parece que estejamos adequadamente vestidos para esse tipo de programa.
- Muito bem, eu também vou.
Meia hora depois, os dois de calças de ganga e T-shirt passeavam de mãos dadas, junto ao Tejo, admirando os reflexos das luzes nas águas calmas do rio, misturando-se com os pares de namorados que por ali andavam.
Mais tarde, nessa noite, fizeram amor como nunca tinham feito. Apaixonadamente sim, mas também com muita ternura. Porque já não eram apenas os corpos que estavam em sintonia, nem o desejo que os unia. Nessa noite, os dois eram realmente um só de corpo e alma, unidos pelo sublime sentimento do amor. Mais tarde, deitados, os dois nus em cima dos lençóis, perfumados pelas pétalas de rosa, Ricardo disse, acariciando a cabeça que repousava no seu peito.
- Sempre foi muito bom, mas hoje foi maravilhoso. Saber que nos amamos mudou tudo. Despoletou emoções, intensificou sensações, transformou o bom em ótimo.
Ela não respondeu, e de repente ele ficou inseguro:
- Não foi assim contigo? - questionou
Ela levantou a cabeça e beijou-o
- Sabes que foi. Simplesmente de repente ocorreu-me um pensamento. E se algum dia o teu irmão descobre a verdade sobre a Matilde?
- Nunca o saberá. Se a Susana te disse que o encontrou e ele fingiu não reconhecê-la, não vai querer saber nada dela. Deve ter medo que a esposa descubra alguma coisa, e o deixe, já que o sogro é um homem muito rico, e a mulher é a única herdeira. É um bandalho, toda a vida tentou prejudicar-me, mas desta vez, o céu trocou-lhe as voltas. Deus escreveu direito por linhas tortas, como se costuma dizer, pois graças à sua canalhice, hoje temos uma filha maravilhosa, estamos juntos e felizes. E ainda que um dia nos encontre, ele nunca te conheceu nem sabe quem és. Não te preocupes, a Matilde é tão nossa filha, quanto os outros que me deres – disse beijando-a de novo e puxando-a suavemente para cima dele.
-Olá, hoje temos dose dupla - disse ela rindo
-Tu mereces, - respondeu segundos antes, da sua língua chegar ao mamilo dela.
Em seguida as palavras transformaram-se em gemidos e ela mergulhou num mar de sensações que a percorriam da cabeça aos pés.
 No dia seguinte, enquanto tomavam o pequeno-almoço, Ricardo disse:
- E se deixássemos a Matilde mais um dia com os avós e ficássemos com o dia para namorar? Uma espécie de mini lua-de-mel em qualquer sítio bonito. Achas que eles se importariam?
-Aqueles dois? Ficavam lá com ela nem que fosse a semana inteira. Adoram-na. O meu receio é que ela estranhe. Uma noite já ficou outras vezes, mas duas?
- Vamos vê-la e falamos com eles. Se ela chorar, telefonam e voltamos.
Não chorou, e eles passaram um dia maravilhoso na Ericeira, e uma noite de sonho, no hotel Vila Galé.
E se ambos pensavam que não poderiam ser mais felizes, descobriram o seu engano, um ano depois, quando o médico na sala de partos, levantou a bebé e a apresentou dizendo-lhes: 
- Pais, eis a vossa filha. Parabéns. É uma bela menina.


 Fim


15.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIX







Não se conteve ao ouvi-lo dizer pela segunda vez que a amava. Enlaçou-lhe o pescoço e procurou-lhe a boca para um beijo apaixonado. Porém quando as mãos dele desceram pelas suas costas numa carícia que parecia incendiá-la, afastou-se dizendo:
- Ainda não, se é para por a alma a nu, vamos despi-la os dois. Depois iniciaremos uma vida nova, sem mais dúvidas nem enganos.
Quando te conheci, eu era virgem de corpo e sentimentos. Tinha tido um namoro ainda muito jovem, se é que se pode chamar namoro, aqueles três meses em que me deixei acompanhar por um amigo que dizia amar-me e querer casar comigo. Na altura eu era muito nova, ainda nem tinha feito vinte anos. A minha mãe estava doente, tinha deixado de trabalhar, a minha irmã era uma criança, e eu tinha deixado os estudos e estava a trabalhar para aguentar a casa. Entre o trabalho, o cuidar da mãe doente e da Susana, não tinha tempo para passear, namorava um pouquinho à noite e sem qualquer intimidade. Três meses depois a minha mãe morreu, o meu namorado, queria casar rápido, mas queria que eu levasse a Susana para uma instituição. Dizia que eu não podia assumir a sua criação e educação, ele não ia casar comigo e assumir tal responsabilidade, nem gastar com ela, aquilo que seria dos nossos filhos.
Entre os dois, a escolha era óbvia. Nunca mais soube nada dele, até há cinco anos, quando o encontrei num supermercado, com a mulher grávida e duas crianças de tenra idade.
No dia do nosso casamento, ainda era virgem de corpo, mas já não de emoções, pois cada vez que me beijavas, deixavas-me em brasa, e fazias-me sentir e desejar coisas, que nunca tinha sentido. Nunca mais fui a mesma depois da noite de núpcias e não me refiro ao óbvio. Naquela noite antes de adormecer repeti a mim mesma, as promessas do casamento, certa de que te amava e te amaria sempre.
No início, fiquei deslumbrada com o sexo. Cada nova carícia me deixava mais louca, eu queria ficar o resto da vida nos teus braços. Depois percebi que isso acontecia porque só me demonstravas carinho na cama. No dia-a-dia, eras simpático, companheiro, querias sempre dar-me qualquer coisa, até quiseste dar-me um carro, sem perceberes que os bens materiais não me seduziam, que só queria o teu amor.  Mas não havia lugar para mim, na tua vida amorosa. Todo o teu amor era para a Matilde. Uma noite, depois de fazermos amor, tomei coragem e disse-te como estava feliz por ter acabado de fazer amor. Tu respondeste-me. “Amor? Fizemos sexo, Isabel. Não te iludas, nem confundas as coisas”
Na manhã seguinte fui à farmácia e comprei a pílula. Por muito que eu desejasse ter um filho, nunca o teria sabendo que ele não era fruto de amor dos dois. E a partir daí, contra o meu próprio desejo, sempre que podia fugia da nossa intimidade.
- Perdoa-me. Fui muito estúpido, confundi tudo. Esquece o que aconteceu, vamos começar de novo. Juro que não te vou dececionar.
Isabel olhou-o durante uns segundos e depois estendeu-lhe a mão direita
- Isabel Penha Sarmento.
Ele estendeu a sua e apertou-lha:
- Ricardo Souto Medina. Encantado em conhecê-la.



Pensei acabar a história aqui, deixando à imaginação de cada um o final, até porque a história já vai longa, mas depois pensei que se esta história tinha tido prólogo, também devia ter epílogo. E já que tiveram paciência até aqui...
 Mas não sei se vou publicá-lo se mantenho a história assim. 
DEIXO-VOS A DECISÃO. Querem um episódio mais ou fica assim?


13.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVIII




Calou-se por uns segundos, como se passados todos aqueles anos, as recordações continuassem a ser muito dolorosas.
Ela sentiu vontade de se levantar, e de o abraçar fortemente, para mitigar aquela dor. Mas quando se aprestava para o fazer, ele retomou a palavra.
-Há coisas de que um homem não consegue falar, porque a dor lhe trespassa  o coração e a vergonha lhe rasga as entranhas.
Calou-se de novo por alguns segundos, passou a mão pelo cabelo e retomou a palavra.
 E então contou  como após o divórcio, se sentia motivo de troça de todo o bairro, de como isso destruíra a confiança em si próprio e nas mulheres, e dos cinco anos que passou em Luanda, trabalhando que nem um doido, tentando não só esquecer o passado, mas também juntar o máximo de dinheiro que lhe permitisse montar a sua empresa. 
Falou-lhe do seu primeiro carro que tinha de conduzir de dia, enquanto terminava o curso que abandonara quando casara. Falou dos pais, do irmão, da morte dos progenitores, enfim de tudo o que acontecera com ele até ao momento em que recebera no escritório a carta dela.
Mergulhado no mar tenebroso das lembranças, não deu pela aproximação da mulher, senão quando os braços dela o enlaçaram pelas costas e lhe disse:
- Perdoa, não queria fazer-te sofrer.
Voltou-se e segurando-lhe o rosto entre as mãos, disse:
- Não há nada para perdoar, Isabel. Tens razão, sempre a tiveste. Não podemos querer, que alguém retribua o nosso amor, se não deixamos que essa pessoa o descubra e nós próprios fazemos tudo para não acreditar nele .
- O que queres dizer com isso? - perguntou trémula.
-Vem, vamos sentar-nos e esclarecer tudo o que há para esclarecer de uma vez - disse pegando-lhe na mão e reconduzindo-a ao sofá.
Sentaram-se ambos lado a lado, mas não abraçados. Ricardo não queria perder a cabeça, antes de ter mostrado tudo o que lhe ia na alma, para que nunca mais houvesse uma dúvida a separá-los.
- Impus a mim mesmo duas regras de ouro. Nunca mais fazer sexo com ninguém sem proteção, e nunca mais entregar o coração a mulher alguma. Aproveitaria da vida as oportunidades que ela me desse e era tudo. Por isso eu nunca poderia ter-me envolvido com a Susana. Ela estava na idade em que eu fora enganado, e sei melhor que ninguém a marca que um desengano nessa idade pode deixar.
Quando fiz o teste do ADN, e descobri que a Matilde era minha sobrinha, decidi que ela tinha que ser minha. De um modo que não sei explicar, amei-a imediatamente. Era como se aquela outra criança que tanto amei e nem cheguei a conhecer, viesse agora para os meus braços. Porém eu não queria tirar-ta, e tu não te separarias dela. Estava num impasse quando o Artur me aconselhou a pedir-te em casamento. Hesitei. Tinha medo do que esse casamento me podia trazer. Tentei manter o coração à margem e guiar-me apenas pelo desejo que despertaste em mim. Mas ainda assim prometi a mim mesmo que tudo faria para que a nossa relação fosse agradável. Mas tu não ajudaste muito. Não aceitavas nada do que te oferecia, e aos poucos ias-te afastando de mim. Do modo que amavas a Matilde, sempre pensei que querias ter filhos e esperava que um dia me viesses dizer que estavas grávida.
 Eu não sabia que tomavas a pílula, e fazíamos amor praticamente todos os dias, mas nunca engravidaste. Comecei a pensar que era estéril, e mais dia, menos dia, ias descobri-lo. Cheguei a pensar que já o sabias e era por isso que ias perdendo a alegria e a naturalidade. E foi nessa altura que me dei conta de como te amava e de que ficaria destruído se te perdesse. 
  

12.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVII

Boa noite, amigos.
Hoje falei com o neurologista que acompanha o meu marido. Disse-me que o registo do holter estava normalíssimo. Que amanhã fará a RM, na Segunda feira fará o dopler das carótidas e começará a ir ao ginásio a fim de fazer fisioterapia pelo menos uma semana. no dia 19 fará um ecocardiograma e se continuar tudo bem, virá para casa. Entretanto eu estou com uma tendinite no braço direito. Que mais nos acontecerá neste ano que tem sido tão aziago.






Sentiu que uma garra gelada lhe penetrava no peito e o rasgava de cima, abaixo.
- Perguntou quase num sussurro:
- Queres o divórcio? Estás apaixonada por alguém?
“ Meu Deus! Como pode ser tão inteligente para os negócios e tão burro para as coisas do coração?”- pensou Isabel, sentindo que tinha chegado a hora de abrir o seu coração, e deixar que ele visse o que a trazia atormentada.
-É claro que não quero o divórcio. Mas não sei onde arranjar forças para continuar a aguentar este arremedo de casamento. Perguntaste se estou apaixonada por alguém. É óbvio que estou. Estou apaixonada por um homem que me quer dar segurança material, mas não me dá o seu coração. Estou apaixonada por um homem, a quem dei tudo o que tinha, o meu corpo, o meu coração, os meus pensamentos, os meus sonhos. E o que me deu esse homem, em troca? Sexo. O sexo é bom, tão bom que me deixei deslumbrar e pensei poder viver do prazer que ele me dava. Mas depressa verifiquei que era uma triste imitação daquilo que o meu coração ansiava. O homem por quem me apaixonei, nunca me falou da sua vida passada, dos seus sonhos para o futuro, nada. Eu amo tanto esse homem, que o maior sonho da minha vida, é ter um filho seu. Mas em momento algum, ele mostrou desejo de ter esse filho, e assim tomo a pílula todos os dias, não vá ter uma gravidez que ele não deseje, e acabar com a pouca esperança que me resta, de que um dia sinta por mim, o mesmo amor que sinto por ele.
Estava descontrolada. Chorava copiosamente, mas nem por um momento pensou em se calar. As palavras saíam em catadupa, cheias de amargura.
Ricardo levantou-se. O seu rosto estava tão pálido quanto o de um defunto. As mãos trémulas, ansiavam por acariciar a mulher. Mas de algum modo, sabia que se o fizesse naquele momento, ela rejeitá-lo-ia. Virou-lhe as costas e caminhou até à janela, deixando que ela chorasse até se acalmar. Quando percebeu que o choro tinha perdido intensidade, ele retomou a conversa, sem se voltar para ela, o olhar perdido no Tejo.
Aquele homem de quem te falei, apaixonou-se uma vez quando era ainda estudante, um miúdo que acabara de completar vinte anos. Nessa idade, o mundo é demasiado pequeno para os nossos sonhos, e fazemos tudo em demasia. Comemos demais, bebemos demais, amamos demais. Ele apaixonou-se loucamente, por uma mulher um pouco mais velha, e sentiu-se o homem mais feliz do universo quando num momento, que ele pensava ser de paixão retribuída, fez amor sem tomar precauções. Pouco tempo depois ela disse-lhe que estava grávida. Ele ficou aflito, ainda estava na faculdade, não tinha como sustentar uma casa, mas nem por um segundo, pensou livrar-se dela ou do bebé, que amou desde o primeiro momento. Falou com os pais, e eles assumiram as despesas do casamento, em troca dele transferir a matrícula para a noite, e ir trabalhar com o pai para a oficina, pois nessa altura já era um bom mecânico.
Sem se voltar uma única vez, Ricardo contou tudo o que passou com aquele casamento, o que sofreu, quando tomou conhecimento de como aquela mulher e o tinha enganado, da dor que foi descobrir que aquele pequeno ser que tanto amava e que nunca iria conhecer, por quem aguentou aqueles seis meses de martírio, não era nada seu. 




11.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVI

BOA NOITE AMIGOS.  Meu marido está melhor, graças a Deus. Hoje já o puseram de pé e o ajudaram a andar. Continua com visão dupla e isso faz com que não consiga caminha sem alguém que o apoie. Ainda continua em exames, mas estamos com muita fé de que tudo vai correr bem. Muito obrigada a todos pelo vosso apoio. Que Deus vos abençoe






Ricardo que estava de costas junto da janela voltou-se quando a sentiu entrar, e foi ao seu encontro.
-Estás linda- disse pegando-lhe na mão e conduzindo-a ao sofá. 
-Obrigado! Tu também não estás nada mal- disse esboçando um sorriso, e estendendo-lhe o presente. 
Ele abriu-o e mostrou-se o seu agrado.
-Obrigado. É muito bonito - disse dando-lhe um beijo na face.
Curiosamente, como se tivessem combinado, também  ele tinha vestido, o mesmo fato cinzento-antracite que tinha levado ao casamento dos amigos. 
Naquele momento o porteiro informou-o pelo telefone interior que o jantar já ia no elevador. Ele encaminhou-se para a porta, que abriu assim que tocaram. Indicou a cozinha aos empregados que deixaram os recipientes com as várias iguarias sobre a mesa da cozinha, e saíram felizes com a gorjeta. A fatura iria para o seu escritório. Ricardo fechou a porta e voltou para a sala.
- Pedi para a Matilde ficar com os avós, a fim de ter uma conversa séria contigo. Porém será melhor irmos jantar e vamos conversando entretanto. Tenho fome, tu não?
- Nem por isso, mas vamos jantar. Vá que a tal conversa me desgosta tanto, que não consigo comer - disse Isabel, meio a brincar, para esconder a sua preocupação.
Levaram a comida para a mesa.
Ostras com molho de manga como entrada, Risoto de frutos do mar e gengibre, acompanhado por um Sauvignon Blanc, e para sobremesa morangos com chocolate. 
Mais uma vez, Isabel admirou a mesa com as melhores loiças, sobre uma impecável toalha branca, parcialmente coberta com pétalas de rosa e velas aromáticas
Durante a refeição falaram do trabalho, dos amigos, da menina. Do tempo quente de verão, que se fazia sentir lá fora e de uma possível ida à praia no fim-de-semana. Só não falaram daquilo que realmente os inquietava. O futuro da sua relação.
Depois do jantar, levantaram a mesa, levaram a loiça suja para a máquina e tomaram o café, lá mesmo na cozinha.
Quando terminaram, Ricardo enlaçou a mulher pela cintura e levou-a para o sofá. Depois puxou o cadeirão para a frente dela e sentou-se.
- Antes de terminar o serão vou contar-te uma história – disse ele. Era uma vez um homem que queria uma família. Ele conseguiu uma filha maravilhosa e uma companheira de eleição. A sua esposa, era uma mulher maravilhosa. O seu olhar tinha uma luz que o encantava. Ele nunca vira em nenhum outro ser uma tal luminosidade num olhar. Era como se a mulher trouxesse a alma presa nos olhos. Todavia não passou muito tempo, e a mulher foi perdendo essa luz, como se a sua alma estivesse a morrer lentamente. Hoje o homem vive desolado. Sente-se enganado e quer de volta a sua companheira, mas não sabe o que, ou como fazer para a ter de volta.
Estendeu a mão e agarrou a dela. Estava gelada.
- Será que podes ajudar este pobre homem, querida?
Ela inclinou-se para a frente e uma lágrima caiu sobre a mão dele, que ao senti-la empurrou para trás o cadeirão, e ajoelhou na sua frente.
- Que se passa Isabel? Porque choras? Estás arrependida do nosso trato?
Ela olhou-o com os olhos rasos de água e disse:
-Estou. Não sei se conseguirei continuar a levar esta farsa por muito tempo.


10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.



9.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIV

Boa noite, amigos. O estado do meu marido, continua estável e ele continua a fazer exames. Hoje está a fazer registo de Holter, fez vários testes neurológicos e falei com o neurologista que me disse que continuam à procura do que pode ter causado o AVC. Disse que vai continuar a fazer exames esta semana e dia 12 vai fazer uma ressonância a Lisboa. Também me disse que amanhã vão tentar levantá-lo e que vai ser visto por um colega de fisioterapia.
É tudo por hoje. A minha eterna gratidão para vós.


Artur já a esperava junto à porta quando saiu. Cumprimentou o amigo, e sentou-se a seu lado, apertando o cinto de segurança.
-Os meus parabéns – disse ele
- Obrigado. O Artur conhece o Ricardo há muito tempo? – perguntou
- Quase desde sempre. Morei durante quinze anos no mesmo andar que os seus pais. Quando fui para lá viver ele devia ter uns três ou quatro anos. E depois disso sempre estive mais ou menos em contacto com ele, exceto os anos que esteve em Angola.
-Então conheceu a primeira mulher dele?
-Claro!
- Estiveram casados muito tempo? Eram muito apaixonados? Como era ela?
- Porquê todas essas perguntas agora?
- Curiosidade. Ele nunca fala do seu passado. Não sei nada dele, até ao dia que me apareceu em casa.
- E isso é mau?
-É como se eu não tivesse qualquer importância para ele.
- Posso garantir-lhe que isso não é verdade. Às vezes há coisas que por muito dolorosas, ou estúpidas, um homem tem vergonha de contar. Isso, nada tem a ver com os sentimentos dele por si.
- E esse é o caso dele!
Não era uma pergunta, mas uma constatação.
- É. O que aconteceu com ele foi cruel e doloroso. Cabe-lhe a si fazê-lo esquecer, se é que já não esqueceu.
Tinham chegado à porta do prédio onde vivera até há meia dúzia de meses.
- Pode descer Isabel, eu vou ver se arranjo lugar para estacionar o carro.
A jovem desceu, abriu a porta do prédio e como tantas vezes fizera ao longo dos anos, bateu com os nós dos dedos na porta da amiga. Natália abriu a porta, e Matilde estendeu os braços para ela, feliz com a surpresa.
-Já comeu quase há uma hora, mas como ouviu que a Isabel vinha almoçar, cismou que a mãe ia deitá-la e não consegui fazê-lo.
Isabel pegou-lhe ao colo e depois de a beijar, ralhou:
- Sua marota! Vamos lá fazer ó-ó, senão logo os avós não a levam ao parque. Mas primeiro tens que fazer xixi!
Colocou-a no chão, e a menina encaminhou-se para o bacio atravessado na entrada de casa de banho. Puxou para baixo os calções e sentou-se.
- Muito bem! - aprovou a mãe.  
Esperou que ela urinasse, limpou-a e levou-a para o quarto. Deitou-a, deu-lhe um beijo e colocou o lençol por cima dela.
- Agora a Matilde vai fazer um soninho muito bom e depois do lanche vai ao parque. A mãe vai almoçar e depois vai trabalhar outra vez
 Fechou a porta suavemente e encontrou os amigos a conversar na cozinha.
- Vamos almoçar? – perguntou Natália. – O tempo passa a correr daqui a pouco já passou a sua hora de almoço.
- Vou só lavar as mãos e já volto!




8.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIII



Cumprimentou os colegas e dirigiu-se à sua secretária, para mais um dia de trabalho. A sombra de tristeza no seu olhar, era maior nesse dia. O calendário marcava o dia vinte de Junho. Num céu sem nuvens, o sol brilhava radioso, as ruas fervilhavam de gente alegre, de roupas leves e curtas, deixando pernas e braços nus, para aproveitar as carícias do sol, naquele que era o último dia de Primavera.
Precisamente naquele dia, fazia seis meses de casada. Mas o marido não fizera qualquer referência à data, pelo que nem se devia lembrar. Pensando naquele aniversário, havia já uma semana que ela tinha comprado, um conjunto de carteira e porta-chaves em cabedal, e mandara personalizar com a inicial do nome do marido. Abriu a gaveta da sua secretária, e acariciou o belo embrulho que ali tinha guardado.
Se o marido não se lembrava da data, ela não podia dar-lhe o presente. Ele ia sentir-se constrangido. Sentiu o calor de uma lágrima que lhe rolava pela face. Limpou-a com as costas da mão e fechando a gaveta entregou-se ao trabalho. Estava tão embrenhada na sua tarefa que nem ouviu a colega quando a chamou à porta do gabinete, e só deu por ela quando parou a seu lado com um belo ramo nas mãos, e disse:
-São para ti. Vieram entregá-las agora.
-Quem? – perguntou segurando o ramo surpreendida
- Um rapaz numa motocicleta. Provavelmente empregado numa florista. É o teu aniversário?
- Seis meses de casada.
- Seis meses - repetiu a colega, com alguma nostalgia. Devia ter suspeitado. Rosas vermelhas. Aos seis meses ainda se está em lua-de-mel. Há um frasco na casa de banho. Vou buscá-lo para que não murchem.
Obrigado – disse retirando o pequeno envelope com o cartão que acompanhava o ramo. Retirou o cartão e leu.

“ Seis rosas. Uma por cada um dos meses, que me permitiste viver a teu lado, dando sentido à minha vida.

Ricardo”

Guardou o cartão no envelope, precisamente no momento em que a colega chegava com um frasco, que já fora contentor de café instantâneo, meio de água.
Agradeceu a gentileza da colega, colocou o ramo no frasco, e pousou-o na sua mesa, à esquerda do computador. Guardou o cartão na mala depois de o reler emocionada. Afinal ele lembrara da data, e não comentara nada para lhe fazer a surpresa.
Pegou no telefone e ligou-lhe.
-Obrigado –disse assim que ouviu a sua voz. Foi uma surpresa maravilhosa,
- Gostaste? Fico feliz por isso. Olha, telefonei ao Artur e perguntei-lhe se podiam ficar com a Matilde esta noite,para que possamos fazer algo diferente.
 Disse-me logo que sim. Estás feliz.
Engoliu em seco antes de anuir.
- Bom, então até logo e bom trabalho. Beijo.
-Outro.
Desligou o telefone, e de seguida telefonou à amiga.
- Natália o Ricardo acabou de me dizer que a Matilde dorme aí esta noite. Posso ir almoçar convosco?
- Claro, filha. O Artur vai buscar-te. Não me pareces muito feliz. Aconteceu alguma coisa?
-Não. Só que sinto saudades de estar convosco.
- Mas querida estivemos juntas há três dias no aniversário da menina. E vemo-nos todos os dias.
-Eu sei. Mas não é a mesma coisa. Até logo e obrigado.



6.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLII


NADA de novo com o meu marido. a situação é estável e estão a fazer exames. Ontem fez mais uma TAC, e electrocardiograma. O médico tem pedidos um ecocardiograma com doppler, um registo de Holter, um dopler das carotidas,e uma ressonância magnética. Obrigada pelo vosso apoio. Deus vos abençoe.





Isabel acabou de atender a chamada, poisou o telefone, pegou no documento que tinha na sua frente, e preparou-se para o digitalizar. Depois de o fazer, enviou-o por correio eletrónico para o cliente. Estava quase a terminar mais um dia de trabalho. Gostava do ambiente na empresa, dava-se bem com o chefe e colegas. Pena que dentro de poucos meses tivesse de sair.
Olhou o relógio. Dezoito e trinta e cinco. Mais vinte e cinco minutos, e o dia chegaria ao fim. Ela saía, e encontrava o marido à sua espera, iriam buscar a filha e iam para casa. Depois do casamento, o marido quisera comprar-lhe um carro. Não um modelo luxuoso, esses eram para o aluguer na empresa, mas um vulgar carro citadino, para que fosse levar e buscar a filha  a casa de Natália. Como ela o recusou, ele tomou o hábito de as levar e ir buscar.
Sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com frio, antes com o pensamento no marido. Tal como ela previra, apaixonara-se pelo marido, e aquele casamento estava a ser um martírio, de tal modo que não sabia se tinha forças para o continuar a manter. As coisas estavam cada dia mais difíceis, eles já nem conversavam com a naturalidade de antigamente. Talvez a culpa fosse dela, ele avisara-a antes do casamento que não esperasse amor da parte dele. Ela pensou que poderia resguardar o coração, mas não conseguiu. Carente como era, amou-o desde a primeira noite que dormiram juntos. 
Ingénua, pensou que a força do seu amor faria com que ele lhe retribuísse. Não foi assim. Ricardo era um homem bom, um companheiro dedicado, um amante atento ao que lhe agradava no sexo. Mas era só isso que lhe dava.
Ele nunca lhe falara dos seus sonhos, dos seus desejos, do seu passado, do porquê da sua desconfiança com as mulheres. Ela sabia, vira nos documentos, quando estavam a tratar dos papéis para o casamento, que ele já fora casado. Suspeitava que fora uma má experiência, mas suspeitar era tudo o que lhe restava, já que ele não a deixava entrar no seu passado. O único lugar onde ele fazia dela rainha e senhora, era na cama. No sexo, ele dava-se por inteiro, ela conhecia todas as suas reações, os seus pontos fortes e fracos. Mas ela queria muito mais que isso. Queria amor, queria conhecer o marido, como conhecia o amante.  
 Sonhava com um filho dele, mas não arriscava deixar de tomar a pílula, apesar de estar quase a fazer trinta e quatro anos, e já não lhe restarem muitos anos de fertilidade. Porquê? Porque nem uma única vez ele mostrou desejos de ter um filho dela, apesar de ser doido por Matilde.
Estava num impasse. O maior sonho da sua vida, era ter o amor do marido, o maior pesadelo, a certeza de que nunca o conseguiria. Já pensara no divórcio. Como forma de acabar com aquele sofrimento. Afinal conservava a casa que herdara dos pais, não ficava na rua. Mas e a filha? Ela adorava-os aos dois. Não era só nos documentos que eram pais dela. Eram-no também no coração da criança que não conhecera outros. Separá-la do pai? De modo algum, ela não queria que a menina viesse a albergar sentimentos iguais aos da mãe biológica. Mas também não podia viver sem ela. Suspirou. A sua vida transformara-se num problema sem solução. Arrumou a secretária, pegou na mala e saiu. 



5.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLI


- E na cama? Como é que vão as coisas?
- É difícil dizer. Quando fazemos amor, ela reage com a mesma paixão de sempre. Porém muitas vezes arranja desculpas para não ir para a cama comigo, na esperança de que eu adormeça antes dela se deitar.
- Não estará grávida? Tenho ouvido dizer que ficam um tanto estranhas quando estão grávidas. Questão hormonal, é o que dizem.
- Não. Do jeito que ela adora a Matilde, se fosse isso, andaria doida de alegria, e o que leio nos seus olhos é uma enorme tristeza. 
-Olha, não sei que te diga. Quando vos vi juntos pelo Natal, e depois no meu casamento fiquei feliz por te ter “empurrado” para o casamento. Ia jurar que vocês tinham sido feitos um para o outro. Mesmo ontem, no aniversário da Matilde, não notei essa tristeza de que falas.
-Ontem era um dia especial na vida da filha, e estava feliz por isso.
- A única coisa que te posso dizer, é que acabes de vez, com essa angústia. Não te levará a lado nenhum. Conversa com ela, fala-lhe dos teus sentimentos, mostra-lhe como estás preocupado. Uma conversa sincera pode acabar com o problema, se é que existe mesmo algum problema -aconselhou Artur.
-Tens a certeza que a tua mulher não sabe de nada? São tão amigas...
- Penso que não, embora saiba que mesmo que soubesse de algo, não mo diria por entender que o assunto é apenas vosso.  Já te disse o que deves fazer. Não sei como te ajudar mais. Ou talvez saiba. Vais fazer seis meses de casados por estes dias, não é verdade?
- Depois de amanhã, dia vinte.
-Então, nesse dia a Natália pode inventar uma história qualquer para que a Matilde fique connosco. O resto é contigo. Agora se me dás licença, a minha mulher e a tua filha, esperam por mim no parque.
Saiu deixando o amigo ensimesmado.
Claro, ele podia preparar uma comemoração romântica do dia. Mas o quê? Isabel era tão independente! No dia do casamento deu-lhe um cartão de crédito, mas ela fiel à sua palavra, não o utilizou uma única vez, a não ser para as despesas da casa, ou para comprar roupa e calçado para a filha.
Se pensasse numa noite num hotel, era bem capaz de não aceitar, como não aceitara no dia do casamento.
Tocou a campainha e a sua secretária apareceu à porta.
- Chamaste?
- Sim. Lembras-te do restaurante que contratámos para o jantar do meu casamento?
- Perfeitamente.
- Traz-me o número do telefone dele e arranja-me também o número de uma boa florista. 
A secretária saiu e voltou pouco depois com os números.
- Obrigado Glória. Se eu te pedisse para depois de amanhã, ires fazer uns trabalhos na minha casa, havia algum inconveniente?
- Que tipo de trabalhos?- perguntou surpresa, pois trabalhava há vários anos na empresa e nunca o patrão lhe fizera uma proposta semelhante.
- Deves lembrar-te que faço nesse dia seis meses de casado. Gostava de oferecer a minha mulher, uma comemoração romântica, com muitas flores, na mesa, no quarto, essas coisas que as mulheres gostam, mas receio não ser capaz de o fazer sozinho.
- Percebo. Queres que eu vá preparar o ambiente para fazeres uma surpresa à tua esposa.
-É isso. Vou encomendar as flores e o jantar. Depois do almoço, dou-te as chaves, passas pela florista e preparas o ambiente. Quando acabares, voltas ao escritório e dás-me as chaves.
- Conta comigo. Encomenda rosas vermelhas, Muitas. E agora? Precisas mais alguma coisa?
- Não. Podes ir.



4.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XL




- Bom-dia. O que aconteceu, para me pedires que viesse aqui hoje, que não me pudesses dizer ontem, na festa dos dois anos da Matilde? - perguntou Artur ao entrar no escritório do amigo.
- Bom-dia. Senta-te. O que tenho para te dizer requer privacidade, coisa que ontem não tínhamos.
- Que se passa? Os negócios vão mal?
- Não. Felizmente por esse lado não há que temer. Notaste algo diferente na Isabel?
- Eu? Não! Mas agora que falas nisso, há dias a Natália, comentou que estava preocupada com ela.
- Preocupada como? - perguntou inclinando-se para a frente e apoiando os braços na secretária. – Que disse exatamente a tua mulher?
-Disse que a Isabel estava diferente e que não era para melhor.
-Então, ela também notou.
- Homem desembucha! O que se passa afinal?
-Isso queria eu saber. Quando casámos, ela era sincera, espontânea, bastava um olhar para nos entendermos. Era como um livro aberto para mim. Depois quase impercetivelmente o livro foi-se fechando. Hoje está completamente fechado e eu não sei como abri-lo. O nosso casamento  ainda não tem seis meses, mas tu sabes que não foi um casamento como os outros.
- Porque não te sentas e conversas com ela? Pode ser preocupação com alguma coisa no trabalho, receio do desemprego, por acaso, o tempo do contrato está a acabar?
- Tenho a certeza que não é nada disso, ela não esconderia isso de mim. Ainda faltam quatro meses para a outra empregada voltar, e além disso sempre lhe disse que se quisesse dedicar-se à casa e à família podia fazê-lo. A nossa situação financeira é ótima. Não, o assunto é mais grave.
- O que temes afinal?- perguntou o amigo
- Um pedido de divórcio. Ela sempre me disse que acreditava no amor, e eu temo que se tenha apaixonado por algum colega no escritório, e esteja a pensar na separação.
- Ela não faria isso. Adora a Matilde, e tu como pai, irias querer ficar com ela.
- Esqueces que pela adoção, ela deixou de ser tia, para ser sua mãe? Em caso de divórcio temos os mesmos direitos. Mas ainda que assim não fosse, eu nunca as separaria. Se isso acontecer, teremos a guarda partilhada. O problema é comigo.
- Como assim? Não entendo. Fizeste alguma asneira? Traíste-a?
- Estás doido? Como podes pensar em semelhante insanidade?
- “O problema é comigo”! O que querias que pensasse?
- Eu não saberia viver sem ela, - confessou em voz baixa.
- Queres dizer que a amas? Mas não eras tu que não acreditavas no amor?
Que dizias que o casamento ia ser uma espécie de contrato?
- Por favor! Preciso de ajuda, não de troça.
- Muito bem. Vamos lá então analisar a questão. Quando e como começaste a notar essa diferença? 
- Foi mais ou menos a seguir ao teu casamento.
- Em Março, portanto. Estamos na segunda quinzena de Junho. E em todo este tempo não a questionaste?
- Algumas vezes, mas ela diz sempre que está tudo bem.
- E não está mesmo? Será que não andas à procura de piolho em cabeça de careca?
- Tenho a certeza. As nossas conversas, já não têm a naturalidade de outrora.

3.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIX


Mais tarde, quando  Natália e Artur chegaram, tornou-se evidente, a sua cumplicidade, um novo brilho no olhar de ambos e  antes que o casal fizesse alguma pergunta, eles deram a notícia com toda a naturalidade. Tinham decidido casar, mas não iam esperar pela cerimónia para assumir a relação. Já estavam juntos, desde aquela noite. O casal felicitou-os e depois separaram-se. Isabel e Natália foram para a cozinha, os homens ficaram na sala com a pequenita.
-Parece que a notícia não lhe agradou muito, Isabel - disse a amiga logo que se encontraram sozinhas.
- Se a Natália está feliz, eu também estou. Talvez tenha ficado um pouco preocupada, vocês mal se conhecem, e tenho receio de que venha a sofrer.
- Não é bem assim. Conheci o Artur no início de Outubro. Eu ia a sair com a  a Matilde, e ele perguntou-me se as conhecia, a si e à sua irmã. Disse-me que trabalhava para um empresário e eu pensei que seria algum daqueles onde a Isabel tinha ido à entrevista de emprego. Falei-lhe de si e da Susana. Só muito mais tarde ele me confessou que estava a investigá-las a pedido do Ricardo. Mas naquela altura simpatizámos logo um com o outro e desde aí ele passou a aparecer no parque sempre que eu lá estava com a Matilde.
-Nunca me disse nada. Pensei que só se tinham conhecido no meu casamento.
-A Isabel andava preocupada com os seus problemas, e eu não sabia as intenções do Artur.
Como sabe, fui casada durante trinta anos, e Deus sabe como gostava do meu marido, e como sofri quando ele morreu. Estou viúva há oito anos, acho  que não se pode dizer que não respeitei a sua  memória. Agora, penso que tenho direito, a aproveitar da melhor maneira possível, o tempo que me resta de vida. A solidão é uma companhia indesejável. É que apesar do meu corpo já não ter as formas bonitas de outrora, dos meus cabelos serem cada vez mais brancos, e das rugas que ao longo dos anos se foram instalando no meu rosto, o meu corpo continua a gostar de sentir o calor de outro corpo junto ao seu, e o meu coração gosta de ter alguém que me dê um abraço, ou simplesmente se sente junto a mim no sofá, para ver um filme, ou ouvir uma música.
 Os mais jovens, pensam que a gente da nossa idade, está velha, já nada nos interessa. Não é verdade. O corpo pode não ter o vigor da mocidade, não ser capaz de paixões intensas, mas o nosso coração é tão capaz de amar ou odiar como qualquer outro.
 E depois, como sabe, nem eu, nem o Artur, temos filhos a quem dar satisfações. Estou quase a  fazer sessenta anos, ele tem sessenta e três. Sabemos bem o que fazemos e o que queremos. E o que queremos, é viver juntos os poucos anos que nos restam, e é isso que estamos a fazer. O casamento será logo que a burocracia o permita, mas até lá não vamos perder tempo. A vida é demasiado curta para que a deixamos desperdiçar, por receio daquilo que os outros possam pensar de nós.
- A Natália tem razão, - disse a jovem abraçando-a. – Desejo-lhe a maior felicidade do mundo. A amiga merece-o.
- Tinha a certeza, que ia entender  - retorquiu retribuindo o abraço. E acrescentou tentando esconder a emoção.
-E agora que já nos entendemos que tal tratar do almoço?
- Já tenho o cabrito com as batatas no forno. Falta cozer os ovos, e preparar o Bacalhau que sobrou ontem para a  “Roupa Velha.”
- Então ponha lá os ovos a cozer e dê-me o Bacalhau que eu vou já prepará-lo.
Pouco depois enquanto os ovos coziam, e Natália tirava as espinhas e a pele ao Bacalhau, Isabel cortava as couves e as batatas conversando sobre as últimas novidades.
-Sabe que a Matilde já chama o Ricardo de pai? Foi ontem à noite pela primeira vez e ele ficou muito emocionado.
- Calculo que sim. Vê-se que gosta muito dela.

2.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXVIII





A criança estendeu-lhe os braços com a boneca na mão dizendo:
- “Suana”
-Chama-se Susana a tua boneca?
-Sim.
- Depois explico-te - disse Isabel ao ver o marido franzir as sobrancelhas.
Ele aproximou-se e disse-lhe:
-Tens as torradas frias. Vai comer que eu acabo de lhe dar a papa.
- Depois faço outras, e comemos juntos, - respondeu. - Queres torradas, ou preferes filhoses.
- Torradas. Os doces, só à sobremesa, senão tenho de passar o resto do ano no ginásio, - disse sorrindo.
A menina acabara de comer. Isabel pôs o prato na mesa, limpou a boca da criança, tirou-lhe o babete, desapertou o cinto e ia tirá-la para a por no chão mas Ricardo apressou-se a pegar-lhe ao colo.
- O pai hoje ainda não ganhou um beijo da sua Princesa.
A menina deu-lhe um beijinho rápido, ansiosa para ir brincar. Ricardo fez-lhe a vontade. Depois foi à sala, trouxe o cavalinho de baloiço para a cozinha e ela apressou-se a montá-lo.
Ricardo sentou-se à mesa e encheu dois copos de sumo de laranja, enquanto Isabel punha manteiga nas novas torradas.
-Porque é que a boneca se chama Susana? – perguntou em voz baixa
- Parece que a amiguinha com quem brinca no parque se chama assim. E como é a única amiga que tem…
-Bom, por mim não tem importância, mas não te custa?
- Já não é tão doloroso. O tempo ensina-nos a viver com a recordação. Minha mãe sempre dizia, que quando Deus fecha uma porta, abre uma janela. Quero muito acreditar nisso.
-E a Matilde é essa janela?
-É.
- Está um dia lindo, depois do almoço, pudemos ir dar uma volta até Cascais ou Sintra, - disse Ricardo mudando de assunto. Gosto de ver o mar.
-Esqueces que temos convidados?- perguntou Isabel.
- E daí? Decerto eles vão gostar mais de passear do que ficar o dia inteiro em casa. Ou não te apetece sair?
-Claro que sim. Eu também gosto de ver o mar. Faz-me sentir em paz comigo e com o mundo, e até esquecer preocupações.
- O que te trás preocupada?
- A Natália. Já te disse, que ela tem sido como uma mãe para mim. Com o nosso casamento e a minha saída do prédio, fica muito só.
-A mim parece-me que não será por muito tempo. Ela e o Artur andam muito entusiasmados.
-É disso que tenho medo. Que por solidão, ela se envolva numa relação que a faça sofrer.
Tinham terminado o pequeno-almoço, e ambos se levantaram. Ela começou a tirar a loiça da mesa, e ele ligou a máquina do café.
-Parece-me minha querida, que te sentes fadada para carregar o mundo nas costas. A Natália e o Artur, são adultos, têm mais do que idade para saberem o que querem e o que fazem. Se tiverem que ser felizes, são, e se tiverem que sofrer, sofrem. Tu não podes fazer nada para o evitar, não tens qualquer interferência no destino deles. Por isso, põe um sorriso nesse rosto lindo e deixa de te preocupar - disse colocando as chávenas de café na mesa.
No chão, Matilde alheia à conversa dos adultos, saíra do cavalinho para embalar nele os seus amiguinhos “Bias “ e “Suana”.


O meu pc foi hoje para a oficina, mas o técnico diz que só quarta feira me dirá se vale a pena ou não arranjar, pois se a avaria for grande o melhor será comprar um novo já que aquele já é muito velhinho. 
Ter que escrever qualquer coisa, como este aviso no Smartphone, para mim que sou um calhau com olhos nestas coisas. é uma aventura.