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9.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIX


 - Meu Deus , Gonçalo! Como deves ter sofrido durante todos estes anos, sem que nós pudéssemos ajudar-te. Porque não nos contaste que não tinhas recuperado parte da memória?

Os dois irmãos encontravam--se sentados na sala da casa de Laura, onde Gonçalo tinha estado a jantar. Queria contar à irmã, a reviravolta que a sua vida sofrera, mas com os sobrinhos à sua volta, isso fora impossível. Agora que as crianças já dormiam, fora enfim possível desabafar com a irmã.

- Porque havia de vos contar? Se os médicos não me conseguiram ajudar, o que é que vocês podiam fazer. Só ia preocupar-vos. Agora é diferente, porque embora eu não tenha recuperado aquela parte da minha vida, ela deu frutos. Tenho uma filha linda. Que te vai surpreender, como poderás ver agora, disse lançando a mão do seu telemóvel e mostrando-lhe uma foto.

- Santo Deus, mano. Qualquer um que nos visse juntas, diria que é minha filha.

- Foi exatamente por isso que quando a vi, tive a certeza que tinha encontrado o elo que faltava na cadeia do meu passado. Foi essa semelhança que me levou a questionar Helena. Lembras-te daquela fotografia que tiraste mais ou menos nessa idade e que trago sempre na carteira? Foi com ela que questionei Helena, e consegui que ela me ouvisse. Sempre vais passar a Páscoa com os pais?

- Vamos amanhã de manhã. Tu não? Pensei que ias Sexta-feira à tardinha depois de saíres do hospital. 

-- Não. A família da Helena é de uma aldeia do concelho do Fundão. A família reúne-se lá para passar a Páscoa. Eu não conheço a sua família apesar da Helena dizer que conheci bem o seu irmão e cunhada. Quero conhecer os seus pais, quero que eles saibam, que não foi culpa minha, não ter assumido a responsabilidade dos meus atos e dado à sua filha e neta o lar que mereciam. 

Vou para lá no Sábado de manhã, A Helena contou hoje à Matilde que eu sou seu pai. E diz que ela ficou muito feliz e quer ver-me. Levas o portátil para Braga?

-Levo, porquê?

- Porque eu trouxe uma pen com o arquivo digital que a Helena me mandou ontem à noite. É uma espécie de história fotográfica da sua vida que a mãe foi compondo ao longo dos anos. Vi cada uma mais do que uma vez. 

Quase não dormi esta noite. Depois fiz cópias e passei para duas pens para não correr o risco de as perder. Trouxe-te uma e peço-te que contes aos pais o que se passa.  

Diz à mãe que não se preocupe mais em descobrir jovens para me apresentar. Já encontrei a mulher da minha vida. E diz-lhe que logo que a Matilde esteja completamente recuperada, iremos lá para que eles conheçam a neta, já o disse a Helena e ela está de acordo.

- E para quando o casamento? Já falaram nisso?

---Já. Mas a Helena não aceitou o meu pedido. Ela diz que não se casará apenas por causa da Matilde, apesar de reconhecer os meus direitos como pai. 

Ela aceitar-me-ia com uma declaração de amor que em consciência eu não posso fazer de momento. Eu não tenho nenhuma memória da história de amor que vivemos. 

Para mim é como se acabasse de a conhecer. Existe uma grande atração entre os dois, e estou certo de que voltaria a amá-la depois do casamento, mas ela não quer arriscar um casamento baseado na atração física. Respeito a sua opinião, mas não vou desistir. 

Ela é uma mulher linda, inteligente e de muita coragem. Admiro-a muito e tenho a certeza que em breve estarei irremediavelmente apaixonado. Afinal se a amei uma vez não vai ser difícil amá-la de novo. Quero na minha vida, a família que aquele maldito acidente me roubou. 



11.11.20

CILADAS DA VIDA PARTE LVII

 


Quatro semanas se passaram depois desta conversa que aproximou emocionalmente os dois irmãos. Quatro semanas em que muita coisa aconteceu na vida deles, e dos que com eles conviviam.

João continuava a passar diariamente as horas em que as enfermeira faziam as refeições com Teresa e fiel ao seu desejo de num futuro próximo pedir-lhe que se casasse com ele, decidiu que ela devia saber como tinha sido a sua vida, quem tinha sido e quem era. Por sua vez Teresa, também abriu o livro das recordações e falou da sua infância na aldeia, da mãe e da avó, ambas desiludidas com o sexo oposto, contara que ela própria tivera uma má experiência amorosa, quando estava na faculdade e que tudo isso contribuíra para a sua decisão de que nunca  iria querer saber de homem algum na sua vida. Essa fora a razão que a levara a querer ser mãe solteira, e a procurar a clínica de Procriação Medicamente Assistida.

Com o convívio diário e com todas as confidências trocadas os dois sentiam que começavam a estar unidos por qualquer coisa maior, mais íntima e mais pessoal do que a responsabilidade de criarem as três crianças.  

Inês ia regularmente todos os fins de semana vê-la, levava-lhe o correio, falava-lhe de como o negócio estava a decorrer e contava-lhe novidades de clientes e empregadas. Às vezes levava o filho e Teresa ficava radiante com o menino que crescia a olhos vistos e aumentava o vocabulário de uma visita para a outra.

Também João tinha ido jantar uma noite com o irmão e a futura cunhada, com quem simpatizou de imediato. Esperava que Teresa fizesse os três meses e tivessem a conversa que decidiria o seu futuro a fim de os convidar a irem passar um dia lá a casa para lhos apresentar e estreitar os laços de sangue que os uniam.

E chegou o dia em que Teresa ia ter a sua consulta das doze semanas. De mútuo acordo, os dois combinaram com Sandra, que ele acompanharia Teresa à consulta, e ele a chamaria depois se a médica achasse necessário dar-lhe novas instruções.

Já na consulta a médica fez-lhe a ecografia das doze semanas depois de lhe ter medido a tensão arterial, a ter pesado e lhe ter feito várias perguntas sobre como se tinha sentido durante aquelas quatro semanas.

Depois de vários minutos em que a observou atentamente disse:

-Está tudo bem com os vossos bebés. Vejam, aqui estão eles, minúsculos ainda, medem apenas cinco centímetros, mas já estão completamente formados da cabeça aos pés.  Vejam.

- Já se consegue ver se são meninos ou meninas – perguntou João.

- Vamos ver – disse a médica e depois de uns segundos apontou o ecrã. -  Este é um menino sem duvida, reparem aqui - disse ampliando a imagem - Este outro tem o cordão umbilical a impedir a descoberta, e este como vêm tem as pernitas cruzadas. Pode ser que se deixem ver na próxima ecografia. Mas às vezes não se deixam ver até ao momento em que nascem

Mas como são gémeos se um é menino, os outros também devem ser, ou não? – perguntou João.

-De modo algum. Os gémeos só são obrigatoriamente do mesmo sexo quando são gémeos monozigóticos.  Ou seja, o óvulo é fecundado por um só espermatozoide que se divide em dois depois de fecundado. São formados na mesma placenta dividem o saco amniótico, possuem o mesmo genoma e o mesmo DNA, e por isso são tão iguais que também se chamam idênticos. Podem distinguir-se apenas pelas impressões digitais, que são diferentes. Os vossos filhos são gémeos dizigóticos uma vez que não dividem a placenta nem o saco amniótico o que quer dizer que houve três óvulos, fecundados por três espermatozoides diferentes e assim tanto podem ser três meninos, como dois meninos e uma menina ou o contrário.

 A consulta está terminada, a Teresa recuperou muito bem, agora o risco de aborto foi reduzido, embora não esteja totalmente afastado e o repouso continue a ser recomendado, já não precisa estar o tempo todo na cama. Claro que não pode fazer esforços como subir escadas ou carregar pesos, deve evitar viagens grandes, mas já pode dar pequenos passeios, apanhar sol por causa da vitamina D. Continua com as vitaminas, o ácido fólico e volta para a consulta das vinte semanas a menos que surja algum problema. Vai continuar acompanhada com a enfermeira?

- Até que os bebés nasçam pelo menos, - respondeu João.

- Isso é bom. Pode sair e mandá-la entrar?


À margem:

Hoje dia 11 deslocar-me-ei ao hospital De Santa Maria para ver como está o olho do transplante, e ver se me vêm o outro que me está a dar grandes problemas.  Vamos ver.

4.6.20

ISABEL - PARTE XVII

                                             
- E depois? Não falaram? Não trocaram número de telefone? Não sabes como encontrá-lo?
Isabel abanou a cabeça e então contou o encontro do dia anterior, e de como ela fugira da estação de serviço de Palmela.
-Ó Isabel, tu estás irremediavelmente apaixonada - sentenciou Amélia.
- Estás louca! - Como posso estar apaixonada por um homem que mal conheço? De quem, nem o nome sei?
- Sempre achei que a tua fortaleza, a tua indiferença para as coisas do coração, era mais aparente que real. És uma mulher dedicada e sensível. Basta ver como cuidaste dos teus pais. Julgaste viver um grande amor…
- Não julguei. Eu vivi um grande amor – interrompeu Isabel
- Será Isabel? Eras uma menina ingénua e sonhadora que nada sabia da vida. Aos dezoito anos, não nos apaixonamos pelo homem. Enamoramos-nos do próprio amor. O homem, vem por acréscimo. E se muitas vezes é o companheiro ideal, que nos vai acompanhar pelo resto da vida, na maior parte das vezes os príncipes não passam de sapos disfarçados, que transformam os nossos sonhos em pesadelos. Culpa deles, ou nossa? Provavelmente de ambos, não sei. Consegues olhar para ti hoje, e, comparar-te à Isabel que eras nesse tempo? Claro que não. Quem nos diz, que se o Fernando não tivesse partido,  teria acompanhado a tua evolução? Ou quem sabe, não ficaria lá atrás no seu cantinho? Quem sabe se vocês, seriam hoje um casal feliz, ou se estariam divorciados? Ninguém.
Mas tu assumiste que ele era o teu grande amor e criaste à tua volta uma espécie de casulo, onde te encerraste, com a tua dor. Por causa disso afastaste todas as hipóteses de viveres um novo amor. Um amor de mulher, mais madura, que conhece a vida, os seus sonhos e as suas dores.
Isabel permanecia com os cotovelos em cima da mesa e o rosto entra as mãos. No fundo ela sabia que a amiga tinha razão. Mas custava-lhe admitir a verdade, até para si própria. Amélia passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto carinhoso, e acrescentou.
- Se a vida te está dando outra oportunidade não a desperdices minha amiga. Quem sabe se é a derradeira? E nada pior, do que viver o resto da vida imaginando, o que ela poderia ter sido e não foi por sermos covardes.
- Mas eu não sei nada sobre ele. Nem sequer o nome. Apenas que tem uns olhos cinzentos que parecem mergulhar dentro de nós até ao mais ínfimo da nossa alma. E uma voz rouca, sensual…
- E um corpo alto atlético e moreno, e uns braços fortes onde gostavas de te acolher – riu Amélia.
- Não sejas assim, - disse zangada. Vamos-nos deixar de conversas e trabalhar. Marca as entrevistas para quarta-feira. Uma para as dez horas a outra para as quinze. Telefona à Dulce e pergunta se a campanha do início das aulas que lhe entreguei antes das férias está pronta, quero vê-la. Como foi o Paulo que a aprovou, gostava que ele a visse. Se a gravação estiver pronta, telefona-lhe e pede para ele passar por cá para a ver.
Amélia afastou-se e levando a mão à testa, imitou o gesto do militar perante um superior dizendo:

- Sim chefe.

29.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XX




O Natal desse ano, não teve o brilho nem o esplendor daqueles que Sara  organizava, mas em compensação o calor humano esteve sempre presente. Nele estiveram presentes, além de Gil, os seus irmãos, Marco com Isabel e os futuros sogros, Laura com Alcides, cuja amizade parecia desviar-se para dar lugar a outro sentimento, a julgar pelos olhares que trocavam entre si. Estavam também à mesa, Celeste, a empregada que estava na casa há mais de dez anos, viúva, cujos filhos se encontravam emigrados, e Inês e o seu filho, o pequeno Luís, um garoto moreno e franzino, que parecia estar sempre em sobressalto como se temesse algo.
Odete, que tinha sido despedida por Sara, e fora reintegrada depois do acidente, e Maria, tinham tido licença para passarem o Natal em casa com as respetivas famílias.
Mariana que saíra do hospital dois dias antes, dormia docemente no seu quartinho, depois de ter tomado banho e bebido todo o leite do biberão.
Pelas vinte horas, o pessoal do restaurante onde Gil encomendara não só a Ceia de Natal, mas também as refeições do dia seguinte, vieram fazer a entrega, e Celeste ajudada por Inês, (que desde que tinha o filho consigo parecia outra pessoa e ganhara de imediato a confiança das restantes empregadas) puseram a mesa.
A ceia, decorreu, pois, num ambiente de fraternidade. Durante ela, Marco e Isabel disseram que pensavam casar no primeiro domingo de Março, do ano seguinte. E Gil informou que tinha aceitado, a proposta de venda dos direitos do seu primeiro livro "Almas Sombrias" para o cinema e que por isso viajaria logo a seguir ao Ano Novo para Nova Iorque, onde se ia reunir com um famoso guionista, que iria transformar a história do livro no guião para o filme.
-Custa-me muito separar-me da minha filha tão pequenina, mas é impossível viajar com ela. Vou conversar com o guionista, saber como ele pretende fazer a adaptação e iniciar o trabalho com ele. Espero estar fora no máximo uma semana. Depois de termos elaborado o projeto poderei analisar e acompanhar o seu trabalho via Internet. Se por algum motivo a estadia se prolongar vou voltar no fim de semana a fim de estar com ela um ou dois dias. E estarei convosco todos os dias por video chamada. A escritura do prédio para a futura Fundação está marcada para o dia vinte e oito e o doutor Alcides tratará imediatamente de contratar a empresa que combinamos a fim de iniciar as obras do projeto que já aprovei. Há umas pequenas alterações com a sala para consultas, mas isso deixo com a Laura que percebe mais de uma sala de consultas do que eu. Ela tratará com o arquiteto. Quero aquilo pronto o mais rápido possível.
- E como se chamará a Fundação? – perguntou a irmã.
- Mariana Gaspar – respondeu Gil emocionando os irmãos, pois todos comungavam da mesma devoção, pela mulher que lhes dera a vida e que tanto sofrera para os criar.
- Laura, tu estarás aqui em casa enquanto eu estiver fora, ou vais para o teu apartamento? – perguntou um pouco mais tarde.
-É claro que estarei aqui durante a tua ausência, exceto claro o tempo que estiver no hospital, pois como sabes vou começar a trabalhar dia dois de Janeiro.
- Obrigado. Fico mais descansado, contigo aqui, não porque não confie em vós, - disse voltando-se para Inês e Celeste. – Mas as crianças nestas idades adoecem com facilidade, e é sempre bom ter uma médica perto.




E com o comentário do Esteban chegamos aos 44.000 

12.1.19

ELISA

Reedição
Corria o ano de 1940. Elisa era nessa altura uma encantadora rapariga de dezoito anos. Pequena, bem proporcionada, cabelo escuro como noite sem lua, quase sempre preso numa farta trança.

Os olhos escuros e um rosto moreno, onde um rasgado sorriso fazia aparecerem duas graciosas covinhas. Era uma jovem alegre, com uma bonita voz, que encantava quem a ouvia ao domingo na igreja, ou nos campos enquanto trabalhava. Foi talvez a beleza da sua voz, que atraiu o patrão, naquele fatídico dia de Abril. Elisa mondava o milho numa leira, quando o patrão a surpreendeu e sem lhe dar tempo a defesa, ali mesmo a violou. Naqueles tempos nas remotas aldeias do interior, não raras vezes os patrões "desgraçavam" as jovens empregadas. Naquele dia Elisa foi para casa, com o corpo e a alma em ferida. Não disse aos pais nem aos irmãos o que tinha acontecido. De que teria servido? Só aumentaria a sua dor, e a sua vergonha.
Nunca mais foi a mesma. Não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido, e os pais estranhavam que não quisesse ir trabalhar para aquele patrão. Afinal era o que empregava mais gente, e pagava melhor.
 Uma noite sem que ninguém desse conta, Elisa fugiu de casa. Vagueou por montes e vales, evitando os caminhos principais, roubando frutas para enganar a fome, durante dias a que esqueceu a conta. Um dia, com os pés em ferida e as roupas sujas e rotas avistou uma cidade.
 Foi-se aproximando a medo. Teve sorte. Uma mulher idosa viu-a, e vendo o estado lastimoso em que se encontrava, levou-a até à sua casa. Deu-lhe um alguidar com água, um pedaço de sabão azul e branco, e uma toalha velha e esfarrapada, porém limpa, para ela se lavar. Em seguida trouxe-lhe umas roupas limpas que tinham sido da sua filha que Deus lhe levara havia dois anos.
 Josefa foi-lhe contando isto enquanto aquecia no velho tacho de barro um prato de caldo verde feito na véspera.
 Elisa sentiu-se como alguém que regressa a casa. Na verdade Josefa, embora não a conhecendo, estava a tratá-la como uma filha e Elisa deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto emagrecido enquanto contava àquela desconhecida, o que não tivera coragem de contar à mãe.
 Josefa ouviu em silêncio o relato da jovem, e quando esta acabou, estendeu a sua velha mão sobre a cabeça da jovem, e murmurou entre dentes:
 "Um dia, um dia isto vai ter fim. E esses canalhas vão pagar por todos os seus crimes". E logo levantando a voz disse:
 - Ficas aqui enquanto não arranjares trabalho. Eu não tenho muito, mas há-de dar para as duas. Agora uma coisa tens que me prometer. Vais escrever aos teus pais. Diz-lhes que estás em Coimbra, e que arranjaste trabalho. Os teus pais têm que saber de ti. Eu também fui mãe e sei bem a aflição duma mãe quando não sabe dum filho.
 Elisa assim fez. Arranjou trabalho a dias para limpezas e tentava a custo apagar as recordações quando descobriu que isso era impossível porque estava grávida.
Foram tempos muito difíceis em que só no carinho de Josefa conseguiu forças para sobreviver. Aos pais não contou nada. Morria de vergonha. E foi inventando desculpas para não ir visitá-los

Quando o filho tinha três anos Josefa morreu. Morreu serenamente, sem se queixar, tal como tinha vivido.

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O Sexta ontem esteve muito concorrido. Que terá acontecido para apresentar este número de visualizações?



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13.12.18

NATAL SOBRE TRENÓS







Quando me mudei para o Alasca, fui viver com a família do meu marido enquanto ele se encontrava em Montana, onde trabalhava. Nunca estivera com uma família numerosa, e ele era o mais velho de dez irmãos, a maior parte deles casados e com filhos. Todos viviam num raio de quarenta milhas e não se escusavam a uma reunião de família.
Ninguém tinha dinheiro. Os miúdos eram pequenos, as famílias eram jovens, e muitos dos pais possuíam mais do que um emprego para conseguirem fazer face às despesas.
Mas naquele primeiro ano, Natal de 1981, mostraram-me o que era dar.
Estava lá há cerca de seis meses e ainda assustada com a força e o poder que o amor de uma família grande pode gerar. Aquilo que fizeram nesse ano já era para eles uma tradição muito antiga, mas eu nunca vira nada assim.
Dois dias antes do Natal, a família inteira reuniu-se em casa da mãe. Cada casal meteu cem dólares num pote; se pudessem, os solteiros davam cinquenta dólares; as crianças deixavam cair as mesadas ou o dinheiro que ganhavam como baby-sitters.
A igreja atribuiu-nos então «a nossa família». Assim que soubemos da situação, ficámos todos ansiosos por ajudar. O pai estava sem trabalho; o bebé estava doente; a mãe não queria fazer uma árvore de Natal para os filhos não ficarem desapontados se o Pai Natal não viesse; a companhia cortara uma vez mais o fornecimento de gás, mas a igreja pagara a conta.
Em primeiro lugar, fomos às compras. Dez adultos, uma dúzia ou mais de crianças, tomámos a loja de assalto. Sacudindo a neve das botas e tirando os chapéus e as luvas, andámos para cima e para baixo nos corredores, com cinco carrinhos, cheios de peru, objetos de uso pessoal, batatas, tartes e rebuçados de Natal. Alguém se terá lembrado de coisas simples, como papel higiénico? Alguém arranjou manteiga? E o sumo de laranja e os ovos para o pequeno-almoço?
Em seguida, os pequenos deitaram mãos à obra. Eu observei, admirada, uma criança de seis anos dar a sua mesada de dois dólares para que outra menina pudesse ter umas luvas novas. Vi os olhos de uma criança de dez anos brilharem quando descobriu a espada luminosa por que ansiara, tendo-a depois colocado no carro para a dar a um menino que nem sequer conhecia. Um cobertor quente e felpudo para o bebé foi a escolha do meu sobrinho de quatro anos.
De novo em casa da mãe, para embrulhar os presentes. Havia duas caixas de roupas de vários tamanhos, passadas e dobradas. Pouco tempo depois, juntaram-se a elas dez caixas de mercearia, a transbordar de comida.
As crianças criaram uma linha de montagem para embrulhar os presentes: presentes grandes, presentes pequenos, canecas especiais e luvas quentes. Havia papel e fita por toda a parte. O riso era tecido em laços acetinados; o amor era preso a cada etiqueta.
Trenós de plástico colorido foram guardados no espaço disponível nas malas dos carros, a uma temperatura abaixo de zero. A Lua nascera, e as árvores estavam cobertas de geada, cintilando como uma bola de neve na mão de uma criança feliz.
O tio preferido fez de Pai Natal. Vestido com um fato vermelho-vivo, conduziu a caravana até ao atrelado parado no meio de amieiros de pequeno porte. Tivemos de parar uma vez porque os sulcos na neve eram demasiado fundos e um dos carros ficou preso. Transferimos presentes e pessoas, e continuámos.
Não havia mais casas em redor da casa pré-fabricada e gelada, mas as luzes estavam acesas e um cão preso com uma corda comprida ladrou no alpendre de madeira quando parámos. A maioria de nós ficou na estrada principal, mas colocámos as caixas nos trenós, amarrámo-los e enviámos o «Pai Natal» e alguns dos miúdos mais velhos até à porta. Deixámo-nos ficar para trás e cantámos «Noite Feliz».
O Pai Natal e os ajudantes bateram à porta e entraram quando a porta se abriu. A jovem família tinha, afinal, decidido arranjar uma árvore  de  Natal,  e estava a pendurar as  lâmpadas  quando lá chegámos.
Pararam, estupefactos, quando os ajudantes do Pai Natal começaram a tirar caixa após caixa, empilhando os presentes. Pouco tempo depois, a árvore estava com uma montanha de presentes.
O Pai Natal disse que a mãe começou a chorar quando tirou o casaco de lã da caixa da roupa. Apenas disse:
— Donde vêm?
E depois, suavemente:
— Muito obrigada.
Com muitas exclamações de admiração e muitos desejos de «Feliz Natal», o Pai Natal e os ajudantes correram de novo para o carro.
Cantámos o último verso de «Feliz Natal», saltámos para os trenós mágicos e desaparecemos na noite.


Debby Mongeau
Jack Canfield; Mark Victor Hansen
Canja de galinha para a alma – O tesouro do Natal
Mem Martins, Lyon Edições, 2002
(adaptação)



1.12.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... -Interrompeu-se abruptamente.- O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante todos aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

 *****************************************************************************

Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem assistiu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho



30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência do que acabara de acontecer, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.

reedição









29.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVIII


Encontrou a mãe na sala, tricotando uma camisola para a neta. Recebeu o beijo que a filha lhe dava e disse.
- Senta-te. Esperava-te de manhã
Não se admirou. A mãe sempre sabia quando algo a atormentava. E também sabia que recorreria a ela com a mesma fé com que o náufrago se agarra à tábua de salvação que lhe estendem.
-Sabes o que se passa?
 Assentiu com a cabeça.
- Sabia-lo há muito tempo?
Voltou a acenar com a cabeça.
- Desde quando mãe?
- Pois não tenho a certeza, quando começou. Eu descobri-o nos seus olhos há cinco anos, na cerimonia de casamento dos teus irmãos.
- Era assim tão evidente?
- Para o coração de uma mãe, sim.
-Sabes que ele não regressa por minha causa?
- Sei.
- E não me odeias?
- Que ideia é essa, Ana? Sabes que sempre te amei como uma filha, muito embora não o sejas. Se tivesse que odiar alguém talvez tivesse de o fazer comigo. Pensas que não me sinto culpada? Se não tivesse fomentado entre vós esse arreigado sentimento de fraternidade, talvez agora estivéssemos todos mais felizes. Simão diz que não o consegues ver, senão como irmão.
- Desde ontem que o tento, mãe. Contou-te que me beijou?
Negou com um movimento de cabeça.
 - Beijou-me. E esse beijo mexeu comigo como nada nem ninguém o tinha feito até hoje.
Abraçou a mãe e escondeu a cabeça no seu regaço, exatamente como quando era menina, e alguma coisa a preocupava. Francisca estendeu a mão e acariciou a cabeça da filha.
- Tenho medo, mãe.
- Medo de quê, Ana?
-Medo de me deixar embarcar numa ilusão que nos traga muito sofrimento. Ou que afunde a família.
- Pensas que não o amas, ou que podes vir a amá-lo?
-Não sei. O meu coração está desnorteado, a minha cabeça confusa. O Simão foi para mim o mais amado dos irmãos. Por isso estava tão zangada, por achar que já não gostava de mim. Mas nunca até ontem o vi como homem, nem nunca passou pela minha cabeça pensar nele como tal. Muito menos como o homem da minha vida. Mas desde que me beijou, tudo mudou. Imagino-o de mil maneiras, menos como irmão. Se isso é amor, não sei. Sinto-me desorientada.
É natural, Ana. Espera um pouco. O tempo ajuda a clarificar sentimentos.
- Sabes que não quero só alguém que me ame e me proponha casamento. Se fosse só isso, há anos que me tinha casado. Eu quero alguém que partilhe tudo comigo. A sua vida, os seus sonhos,  o seu amor. Que me enlouqueça.  Imagina que isso não acontece com o Simão. Perdi o irmão e não ganhei o amante. Entendes?
Acenou afirmativamente.
- É disso que tenho medo. De me expor, e de expor toda a família ao sofrimento. No fundo, o que eu queria, era viver um amor como o teu com o pai. Nunca conheci ninguém tão feliz como vocês.
- Nem sempre foi assim, Ana.
- Não? – Perguntou admirada.
-Vou contar-te como conheci o teu pai. É um segredo que nunca contei a nenhum dos teus irmãos, e que espero fique entre nós.  
E Francisca, falou do estranho contrato, celebrado com o marido, que estivera por base do seu casamento. 
Ana estava verdadeiramente espantada. Custava-lhe a aceitar a história que a mãe lhe contava.
- Foi muito arriscado. E se nunca se tivessem apaixonado?
 Viveriam uma vida sem amor, só por nossa causa?
- Era uma boa causa. Mas eu amei o teu pai desde o primeiro dia. E tinha a esperança de que um dia me correspondesse. E às vezes, para chegar ao cume da montanha,não basta ter um bom equipamento.   É preciso correr riscos.
Ana olhou a mãe tentando entender a mensagem.


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27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV




Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos de verdade. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava expresso todo o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.




24.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XI






-Vai-te embora, Ana.
A voz saiu-lhe seca e rude como um tiro. Assustada, a jovem largou-lhe o braço e deu um passo atrás.
- Outra vez? Estás muito instável. Não pensei que depois de cinco anos voltasses assim. Não podes ser o Simão. És apenas parecido com ele. O Simão que eu conheço não me trataria assim. 
Afastou-se a correr, para que ele não visse as lágrimas que embaciavam o seu belo olhar.
Ele ficou no jardim vendo-a afastar-se. Doía-lhe o corpo e a alma. Sentia-se impotente para dominar os seus sentimentos. Apertou os punhos. Que podia fazer? Correr atrás dela e confessar-lhe… o inconfessável? Não podia fazê-lo. Ia odiá-lo. E com ela toda a sua família. Tinha que se dominar. Disfarçar. Fingir.
Mas ele nunca fora bom a fingir. Desde menino sempre quis saber a verdade das coisas e ser verdadeiro com os seus sentimentos e as pessoas que o rodeavam. Sentou-se e fechou os olhos.
Sobressaltou-se ao sentir uma mão no ombro.
- Que se passa, filho? Porque não entras e te divertes como os teus irmãos? Convivem tão pouco.
- Não se passa nada, pai. Estava aqui a recordar. A lembrar da primeira vez que entrei nesta casa, para cá morar. Até aí, vivia com os meus avós.
-Sim? Tinhas cinco anos. Não julguei possível que te recordasses.
-Pois. Mas na verdade até lembro, da primeira tarefa que me deste. Disseste para vir para o jardim com os manos, tomar conta deles, e ter especial cuidado com a Ana porque era ainda um bebé.
- E tu passaste a manhã toda com ela ao colo, - sorriu Afonso
- Ela gostava. E eu sentia-me tão importante com isso.
O pai sorriu e mudando de conversa, perguntou:
-Quando é que pensas, deixar Paris e voltar para casa? A mãe sofre, com a tua ausência.
- Sinceramente ainda não pensei nisso.
- Tens alguém lá que te prenda? – Perguntou encarando-o.
-Não. – Respondeu com firmeza, devolvendo o olhar
- Então filho, juro que não te entendo. Sei que Paris é uma cidade linda, com uma grande concentração de artistas de todo o mundo, muitas tertúlias, muita boémia. Mas será que um homem pode ser feliz só com isso? Já realizaste algumas exposições e todas foram um êxito. O teu nome anda sempre associado ao talento. Então, o quê, ou quem, te mantém exilado da tua pátria e daqueles que te amam?
Engoliu em seco. Mas não respondeu.
Afonso sentiu que havia qualquer coisa que impedia o filho de regressar. Qualquer coisa de muito doloroso. Era advogado há muitos anos. Conhecia a natureza humana. Estava habituado a descobrir nos silêncios, coisas que lhe queriam esconder. E o filho escondia-lhe alguma coisa. Talvez precisasse da sua ajuda e não se atrevesse a pedir. Tinha que estar alerta.
- Vamos Simão. Está na hora do jantar.
E os dois homens entraram em casa.

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