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19.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVII

 


Ficou durante alguns minutos observando o seu rosto adormecido.

Apesar de haver apenas um mês que a conhecera, notava grandes diferenças entre aquela jovem frágil e pálida, com a mulher que estivera no seu gabinete quando lhe dissera que era ela quem estava a gerar o seu filho. Também não devia ser nada fácil para qualquer mulher, estar grávida de três filhos. Mas ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que tudo corresse o melhor possível. E não era só pelas crianças, disso tinha a certeza. Desde a primeira vez que a viu sentiu uma emoção especial e o desejo de fazer dela sua esposa. E essa emoção intensificara-se naquele almoço em Cascais. Jamais conhecera uma mulher como ela. Nos seus trinta e quatro anos de vida, as mulheres sempre o rodearam e o tentaram conquistar, não por ele sabia-o, mas pelo seu dinheiro, pela vida que lhes podia proporcionar. Tereza não tentara seduzi-lo, não tentara tirar proveito do facto de estar grávida dum filho seu. Pelo contrário, fora logo dizendo que tinha o suficiente para dar uma boa vida a um ou dois filhos.

Naquele momento ela suspirou e mexeu-se e ele apressou-se a sair do quarto, não queria acordá-la.

Já no seu escritório, abriu a gaveta da secretária e retirou o envelope castanho que despejou em cima da mesa.  Pôs de parte a certidão de nascimento e começou a analisar as fotografias. Primeiro a mãe com ele ao colo. A expressão embevecida com que a mãe o olhava, os traços do seu rosto. Os olhos rasgados, como os seus e os de David, o rosto redondo, a boca pequena. Era a primeira vez que via uma fotografia da mãe, e chegou à conclusão que era uma mulher bonita. Depois foi olhando as restantes. Todas fotografias suas, cada uma um pedaço da sua história que de algum modo a mãe conseguira. Não acreditava que fosse o pai que lhas mandasse e se fosse a mãe da Olga, decerto esta lhe teria contado.

Também uma página de jornal com uma entrevista sobre o sucesso do seu primeiro jogo “Survive”, e vários outros recortes de imprensa que iam dando conta do seu sucesso.

Todas aquelas fotografias e recortes mostravam-lhe sem sombra de dúvida que contrariamente ao que o pai lhe fizera crer a vida toda, a mãe nunca o esquecera.

Guardou de novo tudo na gaveta sem se atrever a ler a carta da mãe. Olhou o relógio. Meia noite e dez.  No quarto onde tinha decidido que ia ficar, dirigiu-se à casa de banho, tomou um duche e enfiou um robe sobre o corpo nu. Estava habituado a dormir nu, e toda a sua roupa estava no "closet” do seu quarto onde instalara Teresa.

Com cuidado para não acordar a jovem foi lá e enfiou uns boxers sob o robe. Assim vestido voltou ao quarto e estendeu-se no sofá que havia no quarto, um pouco afastado do leito onde a jovem dormia.

Não ia deixá-la  sozinha num quarto estranho. Vamos que se sentia mal durante a noite? Uma vez que não tinha mais ninguém em casa, ele velaria o seu sono e ajudá-la-ia se fosse necessário.

E com este pensamento adormeceu.

Uma hora depois, Teresa acordou com uma necessidade premente de ir à casa de banho. Acendeu a luz da mesa de cabeceira e surpreendeu-se ao vê-lo sentado no sofá.

- Que fazes aí? – perguntou

- Velo o teu sono. Precisas de alguma coisa? Queres que te ajude a levantar?

- Por amor de Deus, João. Vai para a cama. Pese a opinião da médica, ainda sou capaz de ir à casa de banho sozinha.

- Tudo bem, não te zangues. Eu fico aqui quietinho, se prometeres que me chamas, caso tenhas alguma tontura.

- Prometo – disse Teresa levantando-se e encaminhando-se para a casa de banho, pensando que não ia manter uma discussão aquela hora da noite.