Ficou durante alguns minutos observando o seu rosto
adormecido.
Apesar de haver apenas um mês que a conhecera, notava
grandes diferenças entre aquela jovem frágil e pálida, com a mulher que
estivera no seu gabinete quando lhe dissera que era ela quem estava a gerar o
seu filho. Também não devia ser nada fácil para qualquer mulher, estar grávida
de três filhos. Mas ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que tudo
corresse o melhor possível. E não era só pelas crianças, disso tinha a certeza.
Desde a primeira vez que a viu sentiu uma emoção especial e o desejo de fazer
dela sua esposa. E essa emoção intensificara-se naquele almoço em Cascais.
Jamais conhecera uma mulher como ela. Nos seus trinta e quatro anos de vida, as
mulheres sempre o rodearam e o tentaram conquistar, não por ele sabia-o, mas pelo
seu dinheiro, pela vida que lhes podia proporcionar. Tereza não tentara
seduzi-lo, não tentara tirar proveito do facto de estar grávida dum filho seu.
Pelo contrário, fora logo dizendo que tinha o suficiente para dar uma boa vida
a um ou dois filhos.
Naquele momento ela suspirou e mexeu-se e ele apressou-se a
sair do quarto, não queria acordá-la.
Já no seu escritório, abriu a gaveta da secretária e
retirou o envelope castanho que despejou em cima da mesa. Pôs de parte a certidão de nascimento e
começou a analisar as fotografias. Primeiro a mãe com ele ao colo. A expressão
embevecida com que a mãe o olhava, os traços do seu rosto. Os olhos rasgados,
como os seus e os de David, o rosto redondo, a boca pequena. Era a primeira vez
que via uma fotografia da mãe, e chegou à conclusão que era uma mulher bonita.
Depois foi olhando as restantes. Todas fotografias suas, cada uma um pedaço da
sua história que de algum modo a mãe conseguira. Não acreditava que fosse o pai
que lhas mandasse e se fosse a mãe da Olga, decerto esta lhe teria contado.
Também uma página de jornal com uma entrevista sobre o
sucesso do seu primeiro jogo “Survive”, e vários outros recortes de imprensa
que iam dando conta do seu sucesso.
Todas aquelas fotografias e recortes mostravam-lhe sem sombra
de dúvida que contrariamente ao que o pai lhe fizera crer a vida toda, a mãe
nunca o esquecera.
Guardou de novo tudo na gaveta sem se atrever a ler a carta
da mãe. Olhou o relógio. Meia noite e dez.
No quarto onde tinha decidido que ia ficar, dirigiu-se à casa de banho,
tomou um duche e enfiou um robe sobre o corpo nu. Estava habituado a dormir nu,
e toda a sua roupa estava no "closet” do seu quarto onde instalara Teresa.
Com cuidado para não acordar a jovem foi lá e enfiou uns boxers
sob o robe. Assim vestido voltou ao quarto e estendeu-se no sofá que havia no quarto, um pouco afastado do leito onde a jovem dormia.
Não ia deixá-la sozinha num quarto estranho. Vamos que se sentia mal durante a noite? Uma vez que não
tinha mais ninguém em casa, ele velaria o seu sono e ajudá-la-ia se fosse necessário.
E com este pensamento adormeceu.
Uma hora depois, Teresa acordou com uma necessidade
premente de ir à casa de banho. Acendeu a luz da mesa de cabeceira e surpreendeu-se
ao vê-lo sentado no sofá.
- Que fazes aí? – perguntou
- Velo o teu sono. Precisas de alguma coisa? Queres que te
ajude a levantar?
- Por amor de Deus, João. Vai para a cama. Pese a opinião da
médica, ainda sou capaz de ir à casa de banho sozinha.
- Tudo bem, não te zangues. Eu fico aqui quietinho, se prometeres
que me chamas, caso tenhas alguma tontura.
- Prometo – disse Teresa levantando-se e encaminhando-se
para a casa de banho, pensando que não ia manter uma discussão aquela hora da
noite.
