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9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLV


Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália. Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros, não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter nada de especial para dizer. E ela esperava a chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.  
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o menino  eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar, telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.


8.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIII


No dia seguinte, com as férias a meio estava a caminho de casa. Apesar de toda a beleza dos sítios onde estivera, ela sentia falta do trabalho, do "stress" da cidade.  As belezas naturais tinham deixado de a entusiasmar. Que importava ter na sua frente a oitava maravilha do mundo, se não tinha ao lado ninguém, com quem partilhar os sentimentos que a sua beleza lhe provocava?
“Estás mal Paula. Se a aproximação dos trinta, te põe assim, que será de ti quando chegares aos quarenta?” – pensou enquanto se dirigia pela autoestrada em direção a casa.  Parou na área de serviço de Alcácer do Sal para esticar as pernas e beber um café. Aproveitou para telefonar para o escritório
- Estou.
- Irene estou a caminho de casa. Não sei se rejeitaste algum trabalho, mas a partir deste momento podes aceitar o que aparecer.
- Mas…não ias estar um mês de férias?
- Cansei de não fazer nada. Amanhã falamos.
Desligou a chamada, e voltou ao carro decidida a chegar a casa o mais depressa possível. O dia estava bonito mas a temperatura acima dos trinta e cinco graus, fazia-a desejar tomar um duche refrescante, vestir uma roupa leve, e ficar por casa a mandriar. Infelizmente quando chegasse tinha que ir fazer compras, pois não tinha nada em casa, e retomando o trabalho no dia seguinte, ficava com o tempo mais escasso.
Uma hora depois entrava em casa. Foi à cozinha, levantou a persiana a fim de deixar entrar a luz, e abriu as torneiras de segurança da água e do gás. Ligou o frigorífico, e foi à sala onde levantou a persiana apenas o suficiente para dar à divisão um pouco de luz, já que aquela hora o som incidia com toda a sua força sobre aquela janela. Voltou ao corredor, pegou na mala e na bolsa, e dirigiu-se ao quarto, onde as largou, junto aos pés da cama. Fez subir a persiana, e foi à casa de banho onde se despiu, meteu debaixo do chuveiro e deixou que a água tépida deslizasse pelo seu corpo suado, como uma carícia.
Terminado o duche, enrolou uma toalha à volta do corpo, e foi ao quarto onde procurou, uns calções brancos e um top da mesma cor. Da primeira gaveta da cómoda, retirou um conjunto de roupa íntima branca, uma delicada mistura de  algodão e renda, e retirando a toalha vestiu-se em seguida, sem utilizar o creme hidratante que costumava usar. Estava tanto calor, que certamente tomaria outro duche a meio da tarde, e aí sim utilizaria o creme. Pegou no telemóvel e marcou o número da madrasta.
-Estou…
-Cidália, já voltei. Como estão?
-Estou sozinha. O teu pai foi pescar com uns amigos e o Miguel. Parece que os amigos também levavam os filhos, num programa de pais e filhos. Só devem vir lá para o fim da tarde.
-E já almoçaste? Podias vir almoçar comigo. Não tenho nada em casa tenho que ir às compras, almoçávamos no Centro Comercial.
- Passas por aqui a apanhar-me?
- Estou aí dentro de quinze minutos. Até já.
Poisou o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Abriu uma gaveta tirou um bloco, uma caneta, e foi fazendo uma lista daquilo que precisava comprar. Quando terminou, arrancou a folha, dobrou-a e guardou-a na mala, juntamente com a carteira, os documentos e o telemóvel. Pegou as chaves e saiu.




11.9.18

HISTÓRIA DE ANTIGAMENTE - A FROTA BRANCA



O Maria da Glória, afundado por um submarino alemão. Foto Daqui


Durante a II Guerra Mundial, tornou-se perigoso ir à pesca por causa dos submarinos alemães que não davam tréguas aos barcos. Portugal era então um País neutral, mas não podia prescindir de uma das suas fontes de alimentação. A pesca do bacalhau. Mas também não podia permitir à sua frota a sorte dos veleiros "Delães" e "Maria da Glória"ambos afundados por submarinos alemães em 1942. Se a tripulação do Delães, se salvou, o mesmo não aconteceu com a tripulação do Maria da Gloria, que dos 44 tripulantes distribuídos pelos pequenos dóris, só encontraram 8. Os restantes 36 foram engolidos pelo mar. Para que o mesmo não voltasse a acontecer, o governo português conseguiu negociar com as forças do Eixo, a  autorização para mandar os seus 45 barcos de pesca bacalhoeira em dois comboios, de 20 e tal barcos cada um, comandados por dois oficiais de marinha embarcados respectivamente em dois navios de apoio, e para  evitar confusões decidiu-se ainda que todos os barcos seriam pintados de branco,e levariam o pavilhão nacional bem à vista. Até aí os barcos tinham cores variadas consoante os armadores a que pertenciam.  Este sistema de comboios durou até 1945 e ficou conhecido como "A Frota Branca."
Mas como se fazia a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova e Gronelândia?
 Para rentabilizar a pesca, esta era feita por vários pequenos barcos cada um com vários pescadores,   que se situavam à volta do barco-mãe. 
 Mais tarde apareceram os pequenos barcos de fundo chato, "os dóris" que se empilhavam e ocupavam assim muito menos espaço. Quando chegavam ao local da pesca, o comandante mandava arriar os dóris e cada pescador partia a fazer a sua pesca. Com o aparecimento dos "dóris" cada barco passou a ter apenas um pescador, tornando-se numa atividade completamente solitária.



Foto da net

Era um trabalho muito duro e perigoso. Naquela zona os nevoeiros e o mau tempo são frequentes.
Inicialmente pescava-se o bacalhau com" zagaia," uma peça de chumbo com dois ganchos. Mais tarde apareceram os "trol" que mais não eram do que linhas com anzóis, que pescavam vários peixes duma vez.
Quando o bacalhau chegava a bordo, era -lhe separada a cabeça que depois de escalada era salgada. Chamamos-lhes "caras de bacalhau". Separavam-se os fígados e os buchos. Os fígados eram levados para uma caldeira de água a ferver, para fazerem o óleo de fígado de bacalhau.

Foto da net

Depois, os escaladores abriam o bacalhau da cabeça ao rabo. Mandavam-no então para o porão, onde os salgadores procediam á salga, e ao empilhamento do bacalhau. Esta era uma tarefa extremamente dura. O bacalhau era salgado e empilhado em camadas sucessivas até atingir o tecto do porão.
Como sabemos, o grupo Bensaúde, tinha adquirido  em 1891 a Azinheira Velha, na Telha, que pela sua localização privilegiada já tinha sido utilizada como feitoria, para as naus dos descobrimentos, e aí instalara uma das maiores secas de bacalhau do País, com modernas instalações para tratar do bacalhau em terra, sob o nome de Parceria Geral de Pescarias.
A Seca da Azinheira Velha, era composta por uma larga extensão de mesas compostas por cimento e fileiras de arame, onde o bacalhau era estendido ao sol para secar. Por um armazém enorme, com várias tinas, espécie de tanque, onde se lavava o bacalhau, três armazéns para guardar o bacalhau, enquanto não estava curado para enfardar, um armazém de enfardamento, um armazém frigorífico, para guardar o bacalhau quando era descarregado dos navios, e um armazém estufa para secar o bacalhau quando o inverno era muito rigoroso e não se podia secar ao ar livre.
Tinha ainda os escritórios, um armazém de lenha, uma oficina mecânica, um posto médico, e um posto de guarda-fiscal e um moinho de maré.


Foto minha
Havia mais, mas isso fica para a próxima

10.9.18

HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE - O BACALHAU


 Foto da net.  Nela se pode observar o Hortense, o Argus, o do meio que não dá para observar, mas tem 4 mastros e ao fundo o Gazela I.



Na verdade quando nos sentamos à mesa para saborear um bom prato de bacalhau, na esmagadora maioria das vezes não pensamos em como o bacalhau já foi importante na economia portuguesa.
Se a primeira referência à pesca do bacalhau pelos portugueses, data de 1353, a verdade é que noruegueses já vinham buscar sal a Portugal para salgar o bacalhau o que prova que já nessa altura o “fiel amigo” tinha muitos admiradores.
A cura do bacalhau, foi uma revolução na conservação de alimentos, já que passariam ainda alguns séculos até à invenção dos frigoríficos, e os alimentos estragavam-se rapidamente.
Salgar e secar os alimentos, veio garantir que estes não só, se conservavam em perfeitas condições, como mantinham todos os nutrientes e o paladar.
Empenhados nos descobrimentos, cedo os portugueses tiveram conhecimento da Terra dos Bacalhaus, a Terra Nova, e a Gronelândia. e logo pensaram que seria a melhor maneira de combaterem a fome que no séc. XV grassava na Europa. Portugal foi dos primeiros a começar a pesca do Bacalhau, logo seguido pelo resto da Europa.
No séc. XVI Portugal tinha uma frota de mais de 150 navios que partiam em finais de Abril, princípios de Maio e regressavam em Outubro com mais de três mil toneladas de bacalhau.
 Porém em 1580 a perda da Independência para Espanha, parou esta actividade e durante os 60 anos da ocupação espanhola, os franceses e holandeses apoderaram-se daquelas águas.
 Mas foi nos finais do século XIX que a industria da pesca de Bacalhau pelos portugueses teve a sua grande expansão, pela mão da família Bensaúde, que iniciara a sua atividade comercial nos Açores em 1820, como importadora e exportadora de têxteis originários do Reino Unido, e exportadora de cereais e laranjas, criando um grupo de empresas de origem familiar.
Em face do êxito obtido, o grupo foi-se expandindo para novos projetos, e outras zonas de atuação, fazendo investimentos na área financeira e industrial, até que o Açores se tornaram muito pequenos para os seus projetos, e os seus negócios.
Assim em 1870 a Bensaúde & Cª Lda transfere a sua sede para Lisboa, e cria a Parceria Geral de Pescarias, Lda. empresa especializada na pesca do Bacalhau, e a Empresa Insulana de Navegação, que passa a ligar o continente aos Açores e Madeira. A Parceria Geral de Pescarias, situava-se na Azinheira Velha, Barreiro.
O objetivo desta Parceria, era a industria da pesca em todas as águas. A 16 de Março de 1891, a Parceria comprou à Bensaúde todos os seus navios, bem como todos os apetrechos de pesca.
É da Seca da Azinheira, que já apareceu nalgumas das minhas histórias, nomeadamente no Rosa, único livro publicado até ao momento, que vos vou contar tudo sobre o"fiel amigo"
 A Parceria Geral de Pescarias, Ldª possuía quatro veleiros de pesca á linha, a saber, o "Gazela I" cuja foto se apresenta no início do poste, e que fez a última viagem de pesca em 1969. Dois anos depois foi vendido para a América, para Museu Marítimo de Filadélfia, e em 1985, o Gazela foi transferido para Philadelphia Preservation Guild, uma corporação sem fins lucrativos que agora mantém e opera o navio com a ajuda de doadores e voluntários, enviando-a como Tall Ship Filadélfia aos eventos acima e abaixo da costa leste dos EUA onde ainda navega.
 O Creoula, adquirido em 1980 pela Secretaria de Estado das Pescas, e que é hoje o navio escola que todos conhecem na Marinha Portuguesa.

O Creoula.  Foto da net.




 Foto do Argus em Ílhavo, à espera da recuperação. Foto daqui


O Argus, que fez a sua última campanha em 1970 e que foi depois adquirido por uma empresa canadiana. Mais tarde esta mesma empresa vendeu-o para uma empresa de navios turísticos de Miami que o rebaptizou de Polynesia II e o pôs a fazer passeios turísticos entre ilhas no mar das Caraíbas. Posteriormente regressou a Portugal, tendo sido comprado num leilão em Aruba, pela Empresa Pascoal & Filhos, S. A., com sede na Gafanha da Nazaré, que projecta a sua recuperação para o pôr a navegar ao serviço do Turismo. Esta mesma firma já recuperou o Santa Maria Manuela, um lugre gémeo do Argus e do Creoula.  O Hortense, um navio de três mastros parecido com o Gazela. O Hortense foi oferecido ao estado português para um museu marítimo. Semi abandonado no mar da Palha, acabou afundando-se depois de um incêndio que não se sabe como começou.
 E desde 1958 o Neptuno, um navio motor, que efectuou pescas durante 20 anos sendo depois transformado em navio congelador em serviço nos Açores, tendo sido desmantelado em Alhos Vedros em 1992.


 O  navio-motor Neptuno. Foto daqui

Nota:  Este post foi construído com conhecimento próprio e com ajuda dos arquivos do Oceanário de Lisboa




Continua

23.2.18

ENTRE DUAS DATAS - FINAL


Passaram cinco anos. E também hoje é um belo dia de Setembro. Clara acordou com os primeiros raios de sol, beijando a janela. Olhou à sua volta. Ao lado da cama, num berço de vime, o seu filho dormia o sono dos anjos. Saltou da cama, tomou banho e tratou de se embelezar um pouco. Nada de especial, que mulher de pescador, anda de cara lavada. Apenas um entrançado diferente no cabelo e um vestido mais alegre. Porque para ela, é um dia especial. Chega hoje o Gazela, um velho barco da pesca bacalhoeira, e nele, vem o seu marido. Enquanto espera que o bebé acorde, Clara vai recordando como conseguiu namorar Pedro e casar com ele. Não fora nada fácil. Gato escaldado de água fria tem medo, diz o povo e com razão.
Quando ele descobriu a traição, levou dois dias sem aparecer na rua, nem no trabalho. No terceiro dia quando voltou, não comentou nada com ninguém, e não falou mais da falecida. Era um homem diferente, não já revoltado,  mas mais duro, mais duro, mais fechado, mais indiferente, como se o mundo à sua volta, tivesse deixado de lhe importar. 
Clara, que desde os bancos da escola, sonhava o seu futuro com ele, propôs-se consegui-lo. Durante os meses que o navio levou até partir de novo para os bancos de bacalhau, quantas vezes ela se sentou a seu lado e ali ficou em silêncio como se fosse a sua sombra? E depois que ele partiu, quantas cartas escreveu, para o porto de St. John's, onde se abasteciam, sem receber resposta?
Quando ele voltou, Clara estava no cais, com a velha mãe de Pedro. E foi grande a desilusão quando ele agiu como se não a visse. Mas não desistiu. O amor que lhe tinha era demasiado grande. E a sua perseverança deu frutos, dois anos mais tarde.
O bebé chorou, e ela sacudiu a cabeça, com se quisesse afastar as recordações e dirigiu-se ao berço. Mudou-lhe a fralda, e deu-lhe o peito. Acariciou a cabeça do filho, e enquanto ele se alimentava, deixou-se envolver de novo, pelas recordações. Um dia, Pedro olhou para ela, e pareceu vê-la de outra maneira. Ficou a fitá-la pensativo. O coração apaixonado de Clara ficou em sobressalto.
Uns dias depois pediu-lhe namoro. Não foi uma declaração apaixonada. Muito longe disso. Foi assim como se o homem, não visse nela a mulher, mas uma amiga, uma companheira. Alguém a quem se habituara, o único ser humano que parecia importar-se com ele, depois que a sua mãe morrera.
Clara aceitou. E teve que lutar contra os preconceitos dos próprios pais, que não viam com bons olhos, aquele namoro. Diziam eles, que um homem viúvo carrega recordações, sempre vai fazer comparações. Mas Clara manteve-se firme, contra tudo e contra todos. Confiou no seu amor, para lhe fazer esquecer as más recordações. E ganhou a batalha. Agora, - ela acreditava nisso, - Pedro amava-a tanto, quanto ela o amava. O filho acabou de mamar. Clara levantou-se, e com o filho ao colo foi até à janela.
O barco já tinha passado a ponte férrea que ligava  o Barreiro ao Seixal, e dirigia-se para o local onde ia  fundear. Clara apertou o filho ao peito, e correu para a velha ponte de madeira, que serve de cais, onde os pescadores vão desembarcar. Pelo caminho, Clara recordou aquele outro dia, cinco anos atrás. Mas que diferença entre um e outro. Hoje, Pedro, será dos primeiros a saltar para a lancha que o trará para terra. E como ela está ansiosa por o abraçar, e lhe mostrar o filhito, que ele ainda não conhece. 
E ei-lo que galga as escadas, e chega perto dela. Abraça-a fortemente, de tal modo que o menino que ela tem no colo começa a chorar. Pedro pega o filho, com lágrimas nos olhos e ar desajeitado, e a criança chora ainda mais, assustada com aquele rosto desconhecido. Clara acalma o filho, e o marido enlaçando-a murmura emocionado, como numa prece:

-Mulher...Mulher...

Amorosamente o olhar de Clara envolve o marido, e diz com emoção.

- Pedro! Meu Pedro!

Fim


Elvira Carvalho


30.1.18

O AMOR É... UM COMBOIO - PARTE XXII




- Sabes, -disse Paulo tuteando-a pela primeira vez. Aprendi a pescar, e a nadar neste rio. Meus pais morreram quando eu era menino, o meu tio tomou conta de mim e trouxe-me para aquela margem do outro lado da ponte, onde tinha uma pequena quinta. O caseiro, tinha um filho quase da minha idade, e ele foi o meu companheiro de brincadeiras. Os seus pais, foram para mim como uns pais. O meu tio, nunca se preocupou muito comigo, a nível afetivo. Estava demasiado enfronhado nos negócios. É certo que nunca me faltou nada a nível material, mas eu teria preferido ter menos coisas, e contar mais com a sua companhia, o seu carinho. Sempre tive jeito para o desenho, gostava de pintar e sonhava estudar pintura, conhecer os grandes pintores desde os primórdios dos tempos até à atualidade, visitar museus, aprender tudo o que fosse possível aprender. Mas quando contei ao meu tio, ele zangou-se muito, disse que o que eu queria era um futuro de fome e frustração. Os grandes pintores quase todos morreram na miséria, os quadros só passavam a ser valiosos, depois que o pintor morria. Eu ia para a universidade sim, mas teria que escolher entre economia, ou gestão e contabilidade. Acabei por escolher o segundo, e fiz o curso por orgulho, para lhe mostrar que era inteligente o suficiente para tirar qualquer curso, apesar de não gostar dele.  Quando terminei o curso, ele deu-me a pequena herança que meus pais me deixaram ao morrer. Uma das minhas paixões de criança eram as motos. Comprei uma, e parti para Paris. O dinheiro acabou rapidamente, mas eu tinha muita coisa para aprender, e não queria pedir nada ao meu tio. Trabalhei na construção civil, em bares, fui até empregado numa agência funerária. Tinha alugado um pequeno estúdio, e todos os centavos que me sobravam, gastava-os em telas e tintas. De vez em quando vendia alguns quadros na rua, e fui-me equilibrando. Quando entendi que tinha aprendido tudo o que me interessara  aprender, parti para outras paragens. Percorri quase toda a Europa, nos últimos dez anos. Sem qualquer contacto com o meu tio, não fazia a mínima ideia de como era rico. A pequena quinta da minha infância, cresceu desmesuradamente. Atravessas aquela ponte e tudo o que a tua vista alcança é meu. Segundo parece, à medida que os vizinhos iam morrendo, o meu tio ia comprando aos herdeiros as suas quintas e anexando-as. Tem uma grande extensão de pomares, terras de cultivo e até uma zona de pastoreio.
Caminhavam lado a lado. Paulo falava em voz baixa, sem se interromper, como se estivesse a seguir uma invisível linha de pensamento.  Amélia escutava-o sem interrupções convencida da necessidade que ele tinha de desabafar.
Quando Casimiro, o caseiro morreu, Alfredo, o filho, ficou no seu lugar. Ele não estudou. Aqui os filhos aprendem as profissões com os pais, não estudam mais do que o estritamente necessário. Os seus braços fazem falta no campo. Refiro-me claro aos filhos dos trabalhadores como é o caso. Alfredo casou-se há anos e tem três filhos. Gere a propriedade, e é ele quem contrata os trabalhadores que precisa. A mãe e a esposa, tratam da casa, e dos animais domésticos.



Por AQUI  continuamos em Alcobaça. E depois da sala dos Reis , temos a sala dos Capitulos.

26.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XVII



Paulo levantou-se cedo. Tomou um duche, e foi até à cozinha onde começou a preparar o pequeno-almoço. Tinha chegado na véspera já bem tarde, à quinta, onde em pequeno tanta vez brincara, nas longas férias da escola. De toda a sua infância, aqueles eram os únicos tempos de que sentia saudades. Dos passeios pela margem do rio, com Alfredo, o filho do caseiro. Pouco mais velho que Paulo, foi seu companheiro de brincadeiras e de pesca, quando  Casimiro, o pai, decidia ir com os dois à pesca no rio Nabão. Também se lembrava bem dos doces, que Augusta, a mulher do caseiro lhes fazia. Os anos passaram, eles cresceram, e enquanto Paulo ia para a Universidade, Alfredo, terminado o secundário, ficou a trabalhar na quinta com o pai. Um dia, num bailarico em Alvaiázere, conheceu uma moçoila da freguesia de Lagarteira, por quem se apaixonou. Mais tarde, quando o pai faleceu, Alfredo assumiu com naturalidade o lugar de caseiro. Paulo não ia à quinta desde que Alfredo casara há uns quinze anos atrás. Mas quando chegara na véspera, fora recebido com o mesmo carinho de sempre, especialmente pela velha Augusta, que se emocionou até às lágrimas ao abraçar o “seu menino”
- Bom dia, - saudou Alfredo ao entrar na cozinha, com a sua mulher. Não perdeste o hábito de te levantares cedo.
-Dormir num sítio com este é uma perda de tempo. Ainda há cavalos na quinta?
- Claro. O teu tio adorava-os e são ótimos para percorrer a herdade. Não sei se tens conhecimento, mas isto já não é uma simples quinta. O teu tio foi comprando terrenos, sempre que alguém queria vender e hoje é uma das maiores herdades da zona. Temos zonas de cultivo e de pastoreio. E um bom rebanho.
- Não sei para que queria tantas terras, tanta riqueza. Levou uma vida de escravo sempre a trabalhar, sempre a amealhar, nunca amou, nunca viveu verdadeiramente.
- Não sabemos se nunca amou. Se calhar tentou esquecer no trabalho um amor impossível.
- Que queres dizer com isso? Nunca lhe conheci nenhum interesse amoroso.
- Uma vez, meu pai disse que a mulher que ele amou mais do que a si próprio, tinha escolhido o irmão.
- A minha mãe? – Perguntou surpreendido.
- Não sei. Mas pode ter sido por isso que ele tenha tomado conta de ti e tenha lutado para fazer de ti um homem muito rico. Sabes que confessou à minha mãe, que o maior desgosto que tinha, era de morrer, sem te deixar casado e com filhos?
Tinham acabado a refeição.
- Selo dois cavalos e vens comigo? – Perguntou Alfredo no momento em que a sua mãe entrava na cozinha com os dois netos.
- São os teus filhos? – Perguntou Paulo, olhando para os dois rapazinhos.
- São. António tem onze anos, está no sexto ano, e Paulo com oito está no terceiro. Matilde, só tem três anos e ainda dorme até tarde.
- Parabéns. São muito bonitos. Vamos lá então ver como está a propriedade.



8.9.13

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                                                 I

O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo. Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

Ela sorriu. Sorriu para o sol, sorriu para o passarinho, que naquele momento passou a cantar esvoaçando pela janela do seu quarto. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se reflectia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, o pequeno-almoço, e deixou-a a brincar à porta, enquanto arrumava os quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe era um lugre da pesca bacalhoeira, que pertencia à Seca da Azinheira. Andando devagar, com a irmã pela mão chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido esperá-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, tinham andado com ela na escola, foram companheiros de brincadeiras. Depois ou por gosto, ou por falta de opção juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo lá à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras à muito se tinham radicado à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...


Continua

O problema do feed por agora foi resolvido. Já repararam que me faltam 15 comentários para os 12.000? Pois é.  Vamos ver quem fica com o número redondinho...


Bom fim de semana.