Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a
lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo
parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália.
Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha
tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a
olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que
sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor
da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros,
não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os
dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter
nada de especial para dizer. E ela esperava a
chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava
dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se
vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se
com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde
que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas
interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser
gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava
apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à
vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o
telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria
de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o
menino eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena
deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É
que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até
choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos
em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de
pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se
torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar,
telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de
ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença
de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.












