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2.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIV


Fernando entrou no quarto, abriu o armário, e encontrou um pijama, um robe e uns chinelos. Despiu-se, vestiu o pijama e o robe, calçou os chinelos que lhe deixavam parte do calcanhar de fora, e foi à casa de banho que a dona da casa lhe tinha indicado para utilizar. 

Lá encontrou, um copo, uma pasta de dentes, uma escova, espuma para a barba, loção e lâminas de barbear. Via-se que a sua anfitriã, tinha cuidado de todos os pormenores para lhe proporcionar uma estadia condigna. Como se fora o seu anjo da guarda. E de certo modo era, pois se ali estava, vivo, devia-o a ela. 

Quem sabe quantos carros teriam passado antes dela, sem parar? Podia ser uma emboscada. E ela fizera-o, pondo em risco a sua segurança e a do próprio filho. E continuava a fazê-lo trazendo-o para o remanso do seu lar. Era uma mulher extraordinária. Uma mulher que ele gostaria de ter nos braços, de beijar e de levar pelos caminhos do amor.

 Mas ele não podia permitir-se qualquer veleidade. A última coisa que Helena precisava era de uma aventura. Era mãe. E como mãe solteira, o que precisava era de um homem que assumisse o seu filho e a ajudasse a criá-lo. Coisa que ele não poderia fazer. Como poderia pensar nisso se  nem sequer sabia o próprio nome? 

Não. Decididamente tinha que afastar aquelas ideias da cabeça. E deixar de pensar em cenas eróticas com a doutora. Terminou de lavar os dentes e olhou a sua imagem no espelho com uma certa apreensão. O que haveria para além daquela aparência de homem jovem e bonito? 

Era quase meia-noite, quando se deitou. Mas ainda não tinha sono. Pegou no livro que trouxera da sala e leu duas páginas. Voltou a fechá-lo, preso de um grande desassossego. Apagou a luz e fechou os olhos, tentando conciliar o sono.

Fernando saiu do carro e entrou no átrio do monumental teatro. Estava em cima da hora, quando ele se dirigiu apressado para a sala, onde ia decorrer o concerto. Não sabia exatamente onde estava, mas a enorme sala estava completamente cheia. No palco vazio estava um piano. De súbito as luzes apagaram-se sem ele ter encontrado ainda o seu lugar. Ficou de pé encostado à parede. Procuraria o seu lugar no intervalo.

 Um homem alto entrou no palco, e dirigiu-se para o piano. E de súbito uma música elevou-se no espaço. Fernando levou apenas alguns segundos a identificá-la. Tratava-se da Sinfonia nº 40 de Mozart. Apesar de estar de pé, o que era um tanto incómodo, escutou com muita atenção. A interpretação era muito boa. A música foi-se apoderando dele, e sentiu-se transportado para um mundo mágico, cheio de música e cor. 

Quando a música terminou, a plateia aplaudiu de pé durante largos minutos. Então o pianista pôs-se de pé e virou-se para o público para agradecer, fazendo com que a assistência silenciasse de espanto.
O pianista, não tinha rosto.


10.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXIV



Aconchegou mais o robe ao corpo, e abaixou-se junto do vulto. Ele estava de bruços e parecia inconsciente.
Com algum esforço, voltou-o. Estava ferido, ou estaria morto? Colocou os dedos no seu pescoço, e verificou que embora fraca, tinha pulsação. Estava molhado e gelado, provavelmente a entrar em hipotermia. Era preciso levá-lo para casa, proporcionar-lhe um banho quente e roupas secas. Mas primeiro que tudo, tinha que fazer com que recobrasse a consciência. Era demasiado grande para as suas forças e não havia nenhuma casa à volta a quem pedir ajuda. Abanou-o energicamente, enquanto falava.  O cão tinha parado de ladrar, e mantinha-se atento.
- Por favor, acorde. Preciso da sua ajuda. Não tenho forças para o levantar e levar para casa, - dizia desesperada.
Como se compreendesse o seu desespero, o cão ganiu, aproximou-se e começou a lamber o rosto do homem.
Ele soltou um gemido e a mulher insistiu.
- Acorde homem. Decerto não quer morrer aqui à minha porta. Tente levantar-se. Eu ajudo-o.
Com esforço e a ajuda dela, o homem pôs-se de pé. Começou a tremer de modo incontrolável. A mulher pôs o seu ombro sob o braço dele e passou-lhe um braço à roda da cintura.
-Venha. Lá dentro estará a salvo.
Com grande esforço, chegaram enfim à sala. Sem se preocupar com o aspeto do homem nem com as suas roupas molhadas, ela puxou um cadeirão para junto da lareira e ajudou-o a sentar-se.
- Fique aqui um pouquinho enquanto lhe preparo um banho quente e lhe faço um chá.
Ouviu um murmúrio que não percebeu e que julgou ser um agradecimento, mas não se deteve. Pôs a chaleira ao lume, para o chá, foi ao quarto do irmão e procurou um pijama e um robe. Não sabia se lhe serviria, o irmão era bem mais baixo do que o desconhecido, mas não podia deixá-lo com aquelas roupas encharcadas no corpo. Levou a roupa para a casa de banho e pôs a água quente a correr para a banheira. Voltou à cozinha, preparou o chá e levou-o para a sala. O homem estava meio caído no cadeirão, e aproximando-se verificou que estava de novo inconsciente.
Pensou então que seria preferível dar-lhe algo mais forte do que um chá e dirigindo-se ao móvel procurou entre as garrafas de bebida uma de brande, deitou um pouco num copo e chamou de novo o homem enquanto lhe chegava a bebida à boca.
Ele bebeu um gole, engasgou-se e tossiu fortemente. Quando acalmou ela disse:
- Beba mais um pouco vai fazer-lhe bem. Tenho a água quente a correr para o seu banho e uma inundação é tudo o que não precisamos agora.
Ele bebeu um novo gole e de seguida pousou o copo na mesa de apoio. Pôs-se de pé, e enquanto o ajudava a chegar à casa de banho, a mulher pensou que era mais alto do que lhe tinha parecido inicialmente.
Abriu a porta da casa de banho e perguntou tentando não se mostrar envergonhada.
-Acha que consegue arranjar-se sozinho? Eu vou estar por perto se precisar de ajuda chame. Na banqueta tem roupa seca. Talvez lhe fique um pouco apertada, mas é o que se pode arranjar de momento.
- Obrigado - murmurou o homem entrando e fechando a porta atrás de si.




28.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXV






Mudou-lhe a fralda, depois despiu-a, vestiu-lhe um pijama, e deitou-a. Aconchegou-lhe a roupa, e beijou-a, sob o olhar atento do amigo.
- Quero a mãe, - disse a menina.
-A mãe vem já, o pai, vai chamá-la.
Não precisou fazê-lo, pois nesse momento a porta abriu-se e Isabel entrou seguida de Natália. As duas beijaram a criança, e então ela pediu a boneca nova.
-Queres dormir com a boneca?- perguntou-lhe Ricardo.
-Sim.
-E o Tobias não se zanga? Ou queres dormir com os dois?  
-Sim, os dois.
-Então o pai vai buscar a boneca. Mas não te levantas nem destapas, está bem?
-Está.
Todos saíram do quarto. Ao chegar à sala, Ricardo pegou na boneca e foi levá-la ao quarto. Colocou-a na cama, debaixo da roupa, ao lado do corpo da menina, voltou a prender a roupa, deu-lhe um beijo e disse:
- Boa noite, Matilde.
- Boa noite… pai
Ricardo, que acabara de abrir a porta para sair, parou emocionado. Era a primeira vez que a menina lhe chamava assim. Pai. Uma palavra tão pequena, para uma emoção tão grande. Com os olhos brilhantes, voltou atrás e beijou de novo a criança, já quase adormecida.
Saiu, mas não se dirigiu imediatamente à sala. Ficou ali encostado à porta fechada, lembrando do tanto que amara e desejara, a criança que Ivone gerava, e que ele julgava ser dele. Por amor dela, aceitara o desprezo da mulher que amara e a dor daquele casamento falhado. E afinal nem chegara a conhecê-la, e teve que sepultar no coração o sentimento de amor que lhe tinha. Que importava que a criança não fosse dele, que a mulher o tivesse enganado. A raiva, o ódio dele, era para a mãe, não para aquele ser com que ele sonhara durante meses. Agora, quase sem se dar conta, esse sentimento voltara a apoderar-se dele. Durante aqueles quase dois meses que convivia com Matilde, rindo e brincando, ensinando-lhe novas palavras,e brincadeiras, ele descobrira que o amor sentido um dia e que julgara morto, se mantivera adormecido no seu coração, por quase vinte anos, e ressurgia agora em toda a sua plenitude. Era como se Matilde fosse a “sua criança” de então, que por um qualquer capricho da natureza, nascesse apenas agora. Nunca em nenhum momento se lembrava de que ele não era o pai biológico. 
E ali mesmo, ao lado da porta fechada, jurou a si mesmo, que acontecesse o que acontecesse com o seu casamento, nada nem ninguém no mundo, lhe roubaria o amor da filha, nem a emoção que ele sentia, a cada progresso dela. 
Quando chegou à sala, a mulher e os amigos conversavam animados. Porém quando os olhos de Isabel pousaram nos seus, ele leu claramente a preocupação quase instantânea. O que aconteceu? - parecia indagar o seu olhar.  “Nada. Está tudo bem”, pensou, enquanto sorria. Como se ela tivesse lido o seu pensamento, o olhar dulcificou-se-lhe e sorrindo disse:
- Vamos para a mesa?
Os quatro levantaram-se, e dirigiram-se para a casa de jantar.
- Sentem-se. Eu vou buscar a comida - disse Isabel.
- Eu ajudo - disse a amiga.
- Já ajudou muito - respondeu Ricardo. - Sentem-se. Nós tratamos de trazer a comida, - concluiu seguindo a mulher para a cozinha.




Nota, como sabem hoje dia 28 vou fazer novos exames e consultas. Depois irei ao hospital ver o cunhado que sofreu um AVC e continua internado. O mais certo é não visitar ninguém, peço desculpa. No dia 27 que está a acabar também não fiz muitas visitas, o sistema nervoso, tem estado alterado. 

19.6.19

UM PRESENTE INESPERADO -PARTE XXVII


Lentamente dirigiu-se à cozinha. Preparou um biberão para a “filha”. A pediatra dizia que já não devia dar-lho durante a noite, mas cada vez que ela tentava seguir essas instruções, Matilde fazia tal gritaria quando acordava a meio da noite, que ela temendo acordar o prédio inteiro, tinha que ir preparar e dar-lhe o biberão. Assim tinha decidido que ia manter aquele “ritual” pelo menos até aos dois anos. Dava-lho perto da meia-noite, antes de se deitar. E dormia descansada toda a noite.
Enquanto o preparava, pensava no que acontecera naquela noite. Aquele casamento ia decerto causar-lhe grandes dissabores. Ricardo era demasiado atraente para que não o desejasse, e a menos que ele se mostrasse uma pessoa sem princípios, iria decerto apaixonar-se por ele. Afinal ela era uma mulher muito só e extremamente carente. O beijo que trocaram naquela tarde, deixara-lhe o sangue em ebulição. 
O problema é que ele lhe dissera que não acreditava no amor, e apenas pretendia casar-se para dar uma família à menina e ter quem lhe espantasse a solidão quando envelhecesse.
E podia ela contentar-se com isso se viesse a apaixonar-se por ele?
Acreditava, que tal como ele dissera, duas pessoas podiam viver juntas, unidas pela amizade, companheirismo, e respeito mútuo, se nenhuma delas se apaixonasse pela outra. O amor é um sentimento muito carente. Necessita ser correspondido, caso contrário, torna-se infeliz e perde a vontade de viver, arrastando quem o sente. Porque ao contrário do que diz o poeta, ninguém pode amar por dois.
Todavia agora a decisão tinha sido tomada, não havia nada a fazer. Não era pessoa de voltar atrás quando decidia algo, por isso o melhor era tentar esquecer os seus receios e preparar-se para que o futuro fosse o melhor possível para os três.
“Ah! Susana, Susana, porque foste fazer tão grande disparate? Porque não procuraste ajuda, e não confiaste em mim? “
Pegou o biberão, foi ao quarto, pegou a menina ao colo, tirou-lhe a chucha e meteu-lhe a tetina na boca. Matilde começou imediatamente a sugar o leite, só parando quase mesmo no fim. Isabel, pousou o biberão, esperou que a menina regurgitasse, deu-lhe de novo a chupeta, meteu-a na cama, aconchegou-lhe a roupa e apagando a luz saiu do quarto. Era um ritual que executava todas as noites sem que Matilde acordasse.
Olhou o relógio. Meia-noite e dez. Foi à casa de banho, lavou os dentes, retirou os ganchos que lhe prendiam o cabelo, despiu a roupa que enfiou no cesto da roupa suja, vestiu um pijama de flanela, com desenho de ursinhos e mirou-se no espelho. Pensou que antes do casamento teria de comprar alguma roupa nova. Aquele pijama por exemplo era confortável, mas o seu corte masculino, e o padrão infantil, não tinha nada de feminino.
Fez uma careta para a imagem que o espelho lhe devolvia e foi-se deitar.
Desejava adormecer rapidamente a fim de esquecer a embrulhada em que estava metida, porém os primeiros alvores da madrugada encontraram-na ainda às voltas com os seus pensamentos.


13.11.18

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXI




Francisca era muito bonita. A sua pele não tinha brancura da pele de Olga, a sua falecida esposa, mas nem por isso era menos bela. E era uma mulher de fibra. A maneira alegre e doce como tratava das crianças, a alma com que geria aquela casa, como tomava sobre os seus ombros todas as tarefas relativas, aos filhos para que ele não perdesse tempo, era admirável. Ele tinha muito trabalho, mas nem por isso lhe passava despercebido tudo o que se passava em casa. 
De súbito pensou que gostaria de passar os seus dedos pelo rosto adormecido. Sentir se a sua pele era tão macia quanto aparentava. 
Abanou a cabeça, como se assim expulsasse aquele pensamento inoportuno. Depois sem fazer barulho dirigiu-se à casa de banho. 
Pouco depois voltou. De pijama e chinelos, dirigiu-se à  cama e deitou-se. Apagou a luz. 
Não sabia quanto tempo dormiu. Acordou com o choro infantil.
Acendeu a luz. A porta do quarto ao lado estava aberta. Levantou-se. A cama estava vazia. Saiu para o corredor e viu que a luz estava acesa no quarto das filhas
Parou na porta. Francisca tinha Ana ao colo. Acariciava-a e murmurava palavras de conforto.
-Que aconteceu? – Perguntou em voz baixa.
- Não sei, talvez um pesadelo. Mas já está tudo bem. Não tarda a adormecer. Vai descansar.
Voltou para o quarto. Acordou às cinco da manhã. A cama no quarto ao lado continuava vazia. Levantou-se e foi ao quarto das filhas. Ana dormia profundamente, abraçada a Francisca. Fechou a porta sem fazer ruído e regressou à cama.

reedição


                                      

20.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE V


No seu quarto, Clara trocou a roupa que vestia por um pijama de algodão composto de calções floridos e t-shirt branca. Foi à casa de banho, escovou os dentes, soltou o cabelo e regressou ao quarto disposta a dormir. Tinha por hábito ler um pouco antes de adormecer, mas como se irritara com  Ricardo acabara por não trazer nenhum livro.
Foi até à porta que dava para o terraço. Afastou o cortinado, e olhou.
 No céu uma esplendorosa lua cheia iluminava toda a terra. “Boa noite para acampar”- murmurou pensando no irmão.
Teve vontade de sair para o terraço, mas pensou que todos os quartos deviam dar para ele, e não tinha vontade nenhuma de voltar a ver o dono da casa, naquela noite. Sim, porque apesar da aliança que ele lhe enfiara no dedo, ela nunca perdera a noção de que era apenas uma empregada, que por obrigação contratual, vivia em casa do seu patrão.
Talvez que a aliança lhe desse um estatuto especial, perante o mundo em que ele se movia, mas ali dentro daquelas paredes, era apenas a sua empregada. O contrato que ambos assinaram, era bem explícito. Ela devia proceder como sua esposa, em todos os eventos onde se fizessem representar, e deveria ser uma mãe para as crianças, acompanhando-as como tal até à sua maioridade. Depois assinariam o divórcio e ela era livre de fazer da sua vida o que bem entendesse. Aos quarenta e um anos. Era para todos os efeitos um contrato absurdo, mas tinha as suas contrapartidas. Desde logo tinha uma mesada mensal que era o dobro do que recebia no emprego anterior, tinha casa e alimentação para ela e para o irmão, que assim podia ir para a Universidade, tirar o Curso de Biologia, que era o seu sonho de menino e que ela nunca lhe poderia proporcionar. E o melhor de tudo, cuidar de crianças, era para ela que sempre as adorara, uma forma de realização pessoal. Fechou o cortinado, e deitou-se, mas o sono teimava em não chegar.
De algum recanto da sua memória, as lembranças começaram a sair em catadupa.
Viu-se bem pequenita, num baloiço do jardim, de uma grande moradia,  empurrada pelo seu pai, sob o olhar amoroso da mãe.
Tivera uma infância feliz. Seu pai era um empresário bem-sucedido, e sua mãe uma mulher muito apaixonada. Ambos se amavam muito e a amavam da mesma maneira.
Clara só tinha um problema. Era filha única, e o seu maior sonho era ter um irmão, com quem dividisse carinho e brincadeiras. Era a única menina da sua turma, que não tinha irmãos. Mas para sua felicidade até o irmão chegou, como o melhor dos presentes, três dias antes de fazer dez anos.
Porém antes de completar dezassete anos, a sua vida sofreu uma reviravolta inesperada. Por uma daquelas crises que de vez em quando assolam um país, varrendo a economia, os negócios do pai começaram a correr mal, e ele não foi capaz de travar a falência. Desesperado, sem saber como honrar os diversos compromissos com os credores, conduziu sem destino até que numa estrada montanhosa, não muito concorrida, fez com que o carro mergulhasse no vazio, acabando por morrer na explosão que se sucedeu ao embate.
Embora o coração da mãe ainda batesse, durante quase um ano, após a morte do marido, na verdade a mulher que ela fora, morrera no momento em que recebeu a notícia da morte do companheiro. Apesar da pouca idade, Clara chamou a si a tarefa de cuidar do irmão e da mãe, e ao mesmo tempo limpar o nome do pai. Começou por despedir duas das três empregadas, e por a esplêndida casa da família à venda, o carro topo de gama, que o pai oferecera à mãe pelo seu aniversário, no ano anterior, bem como algumas obras de arte onde o pai aplicara bastante dinheiro ao longo dos anos.
Claro que fora a mãe quem assinara os documentos, mas fora ela com a ajuda do advogado do pai, quem tratara de tudo.
Não foi fácil, a sua vida após a morte do pai. Com o dinheiro das vendas, pôde pagar as dívidas do pai e limpar o seu nome. Depois teve que procurar uma casa modesta para habitarem, o que não foi possível naquela zona onde os alugueres eram bastante caros.
Conseguiu arranjar um apartamento na zona de Alcântara, com dois quartos, sala, casa de banho e uma pequena cozinha.


5.7.18

O DIREITO À VERDADE - XV





Helena que acabara de jantar, no hotel, regressou ao quarto, pensando no que lhe acontecera nessa tarde e em Cláudio. Interrogava-se se teria feito bem em aceitar o convite para almoçar com ele no dia seguinte. Afinal ela tinha feito aquela viagem com o firme propósito de conhecer o seu pai. Mesmo que por alguma razão não lhe dissesse quem era, queria saber como era o homem que lhe dera o ser. E nada nem ninguém deviam desviá-la desse objetivo. Nem mesmo aquele homem, interessante e másculo, com os olhos mais bonitos que ela já vira na vida. Retirou da mala um curto pijama de algodão e com ele na mão foi para a casa de banho. Despiu – se e meteu-se debaixo do chuveiro. Depois do banho secou cuidadosamente o corpo dolorido, e olhou-se ao espelho. Tinha uma grande mancha negra que ia na anca, até meio da coxa, e uma outra mais pequena junto ao joelho do lado esquerdo. E outra no ombro e no braço do mesmo lado. Enrolou o corpo na toalha e foi buscar o gel à mala que tinha deixado no quarto. Ao retirar o pacote da farmácia trouxe também o envelope que o tio lhe dera e de que nunca mais se lembrara, Deixou o envelope em cima da cama, e voltou à casa de banho, a fim de massajar a zona dorida com o gel.
Vestiu o pijama, secou e escovou os seus bonitos cabelos negros, escovou os dentes e regressou ao quarto. Em cima da cama, continuava o envelope. Decidida abriu-o. Dentro tinha um cartão multibanco, a nota de abertura de uma conta com cinco mil euros, em seu nome, e uma carta do tio. Desdobrou-a e leu.

Querida sobrinha:
Peço-te que aceites esta quantia como um presente, não meu, mas da tua tia, que tenho a certeza o faria, na presente situação, se estivesse entre nós. Não sei o tempo que levarás até encontrares o Jorge e o que acontecerá depois.  Que essa quantia sirva para te ajudar enquanto não decides a tua vida. Não te passe pela cabeça devolvê-lo sob pena de me ofenderes. Como sabes a minha irmã não teve filhos, e o meu… bom tu sabes. Hoje és a minha única família e amo-te muito
Teu tio
Alberto.

Acabou de ler a carta com as lágrimas rolando silenciosas pelo rosto. Pegou no telemóvel e ligou ao tio.
- Tio, desculpa ligar só agora. Acabo de abrir o envelope, e nem sei que te dizer a não ser que também te amo muito e que não precisavas fazer isto, Eu disse-te que tinha algumas economias.
-Sim querida. Mas assim estou mais descansado e podes dispor de mais tempo para procurares o teu pai. E de Coimbra, estás a gostar?
-Ainda não vi muita coisa, mas sim estou a gostar. Estou no hotel, e vou deitar-me em seguida. Estou cansada.
-Fazes bem, os últimos tempos foram muito desgastantes. Vai dando notícias. 
-Fica descansado. Até amanhã. E mais uma vez muito obrigado.
-Até amanhã querida.


Informando os amigos.

Acabei de chegar do médico.
Segundo ele a minha coluna não está para brincadeiras. O problema não são as hérnias, mas o aperto que umas vértebras estão a fazer sobre os terminais nervosos. Proibição absoluta de esforços, tomar relaxantes, e fazer fisioterapia. Se isto não resultar ou se piorar tenho que equacionar a possibilidade de ter que ser operada. Exercícios só caminhadas, o sol na praia faz bem mas a água só se estiver com temperatura  "tipo caldo" 

6.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXI






Retirou a mão masculina da sua cintura, com extremo cuidado, para não acordá-lo, aguardou uns segundos sem se mexer, e como Pedro continuava a dormir, deslizou da cama, e esgueirou-se para a casa de banho. Quando voltou, depois de ter tomado banho, secado o cabelo e escovado os dentes, Pedro já tinha acordado, e encontrava-se observando a rua pela janela da suite. Tinha apenas vestido os calções do pijama, mostrando toda a parte superior do corpo. Lembrando de como tinha adormecido sobre aquele peito forte, Joana corou desviando o olhar.
Calmo, ele avançou para a porta, falando com aparente naturalidade.
- Bom dia. Espero que tenhas dormido bem. Já pedi o pequeno-almoço, que deve estar a chegar. Enquanto isso vou tomar um duche.
Desapareceu no interior da casa de banho, enquanto ela se dirigia para a sala, e se sentava no sofá tentando acalmar-se.
Quando mais tarde, ele voltou impecável nas suas calças azuis, a camisa branca de manga comprida dobrada até ao cotovelo, e desabotoada nos dois primeiros botões, o pequeno-almoço já se encontrava na sala.
Iniciaram a refeição em silêncio, 
Ambos queriam falar sobre a noite anterior, mas nenhum sabia bem como o fazer. Agora à luz do dia era ainda mais difícil para Joana falar. Para ele não era mais fácil, temia agravar a situação, não queria que a jovem começasse a chorar de novo, ou que ficasse ainda mais traumatizada.
Sem o olhar, Joana rompeu o silêncio.
-Ontem à noite…
-Não precisas, falar mais disso, nem agravar memórias que te fazem sofrer, - interrompeu ele. Compreendi perfeitamente a tua atitude. Vou confessar-te uma coisa. Desde que entraste no meu escritório, que me senti atraído por ti e te desejo. Sabendo o que sei hoje, dou graças por não ter surgido uma oportunidade de termos chegado a maiores intimidades antes do casamento. Vendo como estavas ontem, tenho a certeza que terias desistido dele.  E manter a nossa união é muito importante. Lembra-te que temos um filho para criar e educar. O Ricardo disse-me ontem, durante a cerimónia, que a nossa adoção do pequeno Pedro não demorará muito, e eu quero tanto esse filho, como te quero a ti. Não vou permitir, que renuncies à tua parte do combinado, nem que para isso tenha que tomar um duche gelado todas as noites.
Estendeu a mão, segurou a dela que se encontrava trémula, e continuou.
-Tens que confiar em mim. Juro-te que não te vou forçar, nem magoar, ainda que procure estimular as tuas sensações ou o teu desejo, só avançarei quando tu o desejes tanto, quanto eu.
- Ontem, deste-me provas de que posso confiar em ti. Pelo bem do menino, mas também por nós próprios, eu quero que esta união dê certo, mas sinceramente tenho medo de não ser capaz.  É mais forte do que eu.
- Não temas. Vamos tentar resolver a situação só entre nós. Se não resultar, procuraremos a ajuda de um profissional. Não vamos desistir daquilo que queremos. Agora esquece tudo o que não seja o dia maravilhoso que está lá fora, e vamos aproveitá-lo.


13.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Eu acredito. Mas tem que haver alguém, com acesso a esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe quem o fez, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu?
- Não. Ele não desconfia de ninguém. Fui eu que pensei, porque o senhor comprou a parte do seu sócio, pouco tempo depois.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim- concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. No dia seguinte era dia de visita ao pai. Estava sempre à espera do dia da visita e quando ele se aproximava ficava nervosa por não saber como ia encontrá-lo. Sentia-se impotente para o ajudar. Por outro lado, sentia como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser descoberta, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar.
Mas ainda não sabia o que ia ser da sua vida agora. E se ele a despedisse? Havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de ter dito que desconfiava dele e o espiara – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.


E bom ontem ultrapassamos os 27000 comentários.   Vocês são fantásticos.
Do coração. Muito obrigada


22.7.17

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XII


O menino que conversava animado com a mãe, sobre as peripécias da festa de aniversário do seu amiguinho, calou-se quando entrou na sala, olhando espantado para o homem que ali se encontrava. A mãe, deu-lhe a mão e disse:
- Diogo, este é Fernando, um amigo da mãe, que veio passar uns dias connosco.
- Olá campeão, - disse ele ajoelhando para ficar à altura do menino e estendendo-lhe a mão. A tua mãe fala muito de ti, mas não pensei que fosses um menino tão bonito.
Sorrindo o garoto estendeu a mão, mas depois como quem muda de ideia, estendeu os braços para o pescoço do homem e deu-lhe dois beijos. Surpreso Fernando retribuiu o abraço tentando esconder a emoção, sem saber se sempre tinha sido assim sensível, ou se isso se devia ao acidente.
- Vamos filho, deixa o Fernando sossegado, está quase na hora de jantar, e tens que tomar banho.
-Jantar? Eu não tenho fome, mamã.


- Calculo. Mas pelo menos tens de comer uma sopa. Anda, vamos tomar banho.
Os dois afastaram-se, deixando Fernando inquieto. Aquilo não podia estar a acontecer, era demasiado surrealista, decerto era um pesadelo do qual acordaria em algum momento. Tentou embrenhar-se na leitura, mas não conseguiu. Desde que recuperara a consciência, não lhe saía da cabeça a mesma pergunta. Quem raio era ele, e como fora aparecer numa estrada deserta, meio morto? A polícia dissera que não foi encontrado nas redondezas, nenhum automóvel acidentado. Teria ido a pé, e alguém o atropelara? Mas para onde ia a pé, se a polícia dissera que do local onde fora encontrado, até à cidade iam dez quilómetros? Por outro lado, também lhe disseram que as suas roupas embora meio despedaçadas, eram roupas caras. As suas mãos também não eram mãos de trabalhador. Então onde estava o carro? E porque ninguém avisava a polícia do seu desaparecimento?Será que ele era sozinho no mundo? Eram demasiadas perguntas sem resposta.
O menino voltou para a sala, de pijama e robe, e a mãe avisou que ia apenas aquecer a comida para jantarem. Ele pousou o livro e dando a mão ao menino, disse.
-Vamos ajudar a mãe, campeão?
- A mamã não me deixa ajudar, desde que uma vez quebrei um prato, -
lastimou-se a criança.




11.11.16

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXI



Francisca era muito bonita. A sua pele não tinha brancura da pele de Olga, mas nem por isso era menos bela. E era uma mulher de fibra. A maneira alegre e doce como tratava das crianças, a alma com que geria aquela casa, como tomava sobre os seus ombros todas as tarefas relativas, aos filhos para que ele não perdesse tempo, era admirável. Ele tinha muito trabalho, mas nem por isso lhe passava despercebido tudo o que se passava em casa. 
De súbito pensou que gostaria de passar os seus dedos pelo rosto adormecido. Sentir se a sua pele era tão macia quanto parecia. 
Abanou a cabeça, como se assim expulsasse aquele pensamento inoportuno. Depois sem fazer barulho dirigiu-se à casa de banho. 
Pouco depois voltou. De pijama e chinelos, dirigiu-se à  cama e deitou-se. Apagou a luz. 
Não sabia quanto tempo dormiu. Acordou com o choro infantil.
Acendeu a luz. A porta do quarto ao lado estava aberta. Levantou-se. A cama estava vazia. Saiu para o corredor e viu que a luz estava acesa no quarto das filhas
Parou na porta. Francisca tinha Ana ao colo. Acariciava-a e murmurava palavras de conforto.
-Que aconteceu? – Perguntou em voz baixa.
-Um pesadelo. Mas já está tudo bem. Não tarda a adormecer. Vai descansar.

Voltou para o quarto. Acordou às cinco da manhã. A cama no quarto ao lado continuava vazia. Levantou-se e foi ao quarto das filhas. Ana dormia profundamente, abraçada a Francisca. Fechou a porta sem fazer ruído e regressou à cama.