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9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLV


Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália. Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros, não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter nada de especial para dizer. E ela esperava a chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.  
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o menino  eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar, telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.


18.2.18

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                        I
Corria o ano de mil novecentos e sessenta e quatro.
O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo, renitente em dar lugar ao Outono.
 Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

A jovem sorriu. Sorriu para o céu azul, para o passarinho, que naquele momento, passou a cantar, esvoaçando pela janela do seu quarto, e para o sol radioso que anunciava um dia de calor. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se refletia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, barrou-lhe o pão com um pouco de margarina, que constituía o de-jejum habitual, juntou-lhe um copo com leite quente,  e deixou-a a comer, enquanto "puxava as orelhas" à cama e dava uma arrumação aos quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe, era o Gazela, um lugre-patacho da pesca bacalhoeira, que pertencia à Parceria Geral de Pescarias, dona da Seca da Azinheira, onde ela nascera e vivia. Andando devagar, com a irmã pela mão, chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido espera-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava, como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, filhos de gente que morava na Telha, e trabalhava na Seca durante a Safra, foram companheiros de brincadeiras. Depois cresceram, e ou por gosto, ou por falta de opção, ou ainda para fugirem da guerra colonial,  juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras há muito tempo se tinham radicado na Telha, Quinta da Lomba, ou Verderena, localidades à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...

21.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LVIII





A filha do Manuel regressou de Moçambique  a 28 de Dezembro. Veio de avião como tinha ido, o marido regressará em Janeiro, de barco com a companhia em que estava integrado e outras  do exército e força aérea que terminam o tempo na mesma altura. Está mais moderna, parece outra pessoa. Fica em casa dos pais até ao regresso do marido, depois irão viver para Odivelas. Como o genro não sabe o tempo que demorará a ser de novo mobilizado, resolve que não vale a pena estar a montar casa e vão viver com a irmã dele.
A meados de Janeiro chegou o genro do Manuel e a filha acompanhou o marido, indo então viver para Odivelas. Pouco tempo depois a filha consegue emprego na secretaria da escola D. Fernando II em Sintra, e sempre que o marido não está de serviço ao fim de semana, vêm passar esses dois dias à casa paterna.
Em Fevereiro, Amílcar Cabral, discursa perante o Conselho de Segurança da ONU reunido em Adis Abeba.
A situação das Colónias agrava-se de mês para mês.
Por cá o governo tenta a todo o custo ocultar dos portugueses, o que se passa. Tenta-se afastar, as vozes discordantes com sucessivas remodelações do governo. 
Em Julho, o Colégio Eleitoral, reelege Américo Tomás. E tudo parece estar bem, neste pequeno jardim à beira-mar plantado. Parece, mas na verdade por baixo desta calma aparente, o país está em pé de guerra com o regime, manifesta-se sempre que tem oportunidade, apesar das sucessivas prisões efectuadas pela PIDE (perdão DGS).
Só na Seca tudo continua igual. Os navios bacalhoeiros, com mais ou menos carga, chegam sempre na mesma época, e o trabalho processa-se da mesma maneira. 
Nove dias antes do Natal, dá-se o massacre de Wiryamu, em Moçambique. Tropas portuguesas, dirigidas pelo sinistro chefe da DGS, Chico Kachavi atacam, três populações, incendeiam as palhotas e matam indiscriminadamente, homens, mulheres e crianças, algumas de colo, fuziladas juntamente com as suas mães. 
Em Portugal a notícia é dada assim:
"As forças armadas portuguesas destruíram mais uma base terrorista em Moçambique."

2.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE XLII




Foto DAQUI




Durante o inverno o trabalho na Seca mantinha-se regular. A excepção era a GNR, que ultimamente visitava com frequência a Seca.
A pé ou a cavalo, eles lá entravam, davam umas voltas entre o pessoal, reuniam com a guarda fiscal e partiam. Não consta que tenham havido por lá informantes, mas o pessoal tremia sempre que os via, e ficava mais calado. O Inverno decorreu como tantos outros sem nada de especial a assinalar. Desde o final de 65 que a filha mais velha se mudara para casa de um tio, guarda-florestal em Monsanto. É que o ordenado que recebia no laboratório, era pequeno, a rapariga queria fazer o enxoval e as passagens ficavam caras. Além disso entrava no trabalho às 8 horas da manhã, e para isso tinha de sair de casa às cinco e meia da manhã, para apanhar o autocarro que a levaria ao barco que nessa época levava trinta e cinco minutos a chegar a Lisboa.  Depois ainda tinha que apanhar transportes no Terreiro do Paço, até ao trabalho. Cansativo e dispendioso. Assim ficava em casa da tia, só pagava o bilhete do autocarro, tinha mais horas de descanso, e só vinha à Seca ver os pais, dois fins de semana por mês.
Nesse ano de 66, a outra filha emprega-se também em Lisboa, mas essa como tinha estudos foi para um escritório, outro horário e quase três vezes o ordenado da irmã.
A vida ia-se compondo, com muito trabalho do Manuel que continuava a cavar e a semear cada vez mais. 
Porém as notícias que ouve trazem-no cada dia mais preocupado. Sabe que desde Março, com o nascimento da UNITA, já são três os Movimentos de Libertação de Angola, e que a guerra de guerrilha cresce todos os dias.
Pela Seca, no rio Coina, todos os dias fuzileiros em exercícios nos seus barcos de borracha e ele não esquece o namorado da filha na Guiné e pensa no seu próprio filho actualmente com 16 anos. E apesar de estar sempre a dizer à mulher, que não se preocupe, ele teme o que o futuro reserva para o seu rapaz.

25.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XIV


                                    foto do google

Um mês depois, da bomba atómica ter deflagrado em Hiroxima, num domingo, de Setembro, o Manuel encontrou no Terreiro do Paço o seu amigo Varandas. Foi uma festa, e ele ficou a saber que o amigo estava a trabalhar na Seca de bacalhau do Seixal, com duas das suas cinco irmãs. E logo combinaram um encontro lá no Seixal, no próximo Domingo, para conversarem sobre as suas vidas, desde que deixaram de se ver quando Varandas fora para os Açores.
Assim no domingo seguinte, Manuel foi como combinado, até à Seca do Picado no Seixal para se encontrar com o Varandas. E aí conheceu duas das irmãs do amigo. E embora elas fossem tão semelhantes fisicamente, que quase pareciam gémeas, o seu coração logo se enfeitiçou por uma delas e não houve parecenças que o baralhassem.
Logo nesse dia falou ao amigo que gostaria de namorar a Gravelina.
O Manuel, não era um homem bonito. De estatura média, era magro, o rosto moreno, testa alta, olhos pequenos e vivazes, e usava um pequeno bigode, muito à moda na época, que mais tarde ficaria associado ao ditador alemão.
Contudo, não foi por isso que ela não ficou nada entusiasmada com a ideia. Naquele tempo não havia o culto à beleza que hoje temos, e depois sempre se ouviu dizer que "quem o feio ama bonito lhe parece". E se Manuel não era um homem bonito, também não se podia dizer que fosse feio.
Algumas das colegas de trabalho, da jovem, que já conheciam o Manuel das safras no outro lado do rio, na Azinheira, falavam do rapaz como sendo dado à borga e às saias. E depois era mais velho, tinha quase 9 anos a mais que ela. Foram esses os factos, que contribuíram para que não lhe agradasse a ideia, de um possível namoro.
O rapaz porém era teimoso, e contava com a amizade do Varandas, que era o irmão mais velho da jovem. E naquela época, as jovens ouviam o irmão mais velho com o mesmo respeito que dedicavam ao pai. E assim depois de alguma insistência, o Manuel começou a namorar a Gravelina, no Natal de 1945.
Ele estava perdidamente apaixonado. Tinha esquecido as idas a Lisboa, e tudo o que isso implicava. Todos os tempos livres, lhe serviam para ir ver a amada. Na verdade a Seca da Azinheira, (era conhecida por este nome, por ter nascido numa localidade chamada Azinheira Velha, embora o verdadeiro nome fosse Parceria Geral de Pescarias,) e a Sociedade Lisbonense de Pesca de Bacalhau, conhecida por Seca do Picado, situada na Ponta dos Corvos, ficavam praticamente em frente uma da outra, apenas separadas pelo rio Coina. Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. 
E a Primavera chegou, e partiu, e o Verão, seguiu-lhe os passos, e na Azinheira, Manuel achava que o tempo tinha parado. Faltavam menos de dois meses para o casamento e ele só pensava nesse dia. O bote e os remos não tinham descanso um só dia, e todos os dias faziam a travessia entre a Seca da Azinheira e a Seca do Seixal.

26.12.15

PENSO EM TI






Penso em ti
Na solidão
angustiada
dos dias
que dançam
em ondas de agonia
no oceano
do meu corpo
esquecido.

Penso em ti
Nos labirintos
do sonho
perdida.
Como barco
sem rumo
nem norte
em mar de
tempestade.

Penso em ti
Na escuridão
silenciosa
da minha noite
que cavalga
o tempo sem fim
do meu corpo
ondulante
de desejo.

Penso em ti
Principio e fim
da razão
do meu ser.

2.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE II


Igreja de Santa Maria  Foto minha
  
Depois de umas breves orações mais pensadas que murmuradas, saiu e atravessando o largo, passou para o outro lado da Avenida pensando se o barco que costumava atravessar as pessoas para a Meia-Praia, estaria lá com aquele dia que parecia tão pouco propício à praia. Mas logo o avistou mais à frente, junto às escadinhas por onde as pessoas desciam. Apressou o passo e dirigiu-se para lá. A maré estava vazia, notava-se pelas pedras à mostra junto à muralha, ou paredão como diziam as pessoas da terra.   No barco, apenas os dois tripulantes que faziam a travessia se encontravam lá.
- Bom dia. Fazem a travessia com uma só pessoa?
- Claro. Um bom freguês vale por muitos, - respondeu com um sotaque brasileiro, o jovem que cobrava a passagem.
Isabel desceu as escadas, e entrou para o barco recusando com um sorriso, a mão estendida do jovem para a ajudar.
Sentou-se e logo o outro jovem pôs o motor a trabalhar e o barco começou a afastar-se rumo à outra margem.
-"Com este tempo, devem pensar que sou maluca", pensou ela olhando as águas.
Quando chegou ao areal a tal chuvinha tinha desaparecida. A avó chamava-lhe “morrinha” o avô “molha-parvos” lembrou com um sorriso. Quando sorria, surgiam-lhe duas pequenas covas no rosto, que a tornavam ainda mais atraente. Mas apesar disso o sorriso não conseguia apagar a tristeza que habitava no seu olhar.  
Quem conhece a Meia-Praia, sabe que apesar do nome, se trata de uma praia de alguns quilómetros de comprimento, dividida em várias zonas de banho, com salva-vidas, toldos e restaurantes. 
Até onde a vista alcançava a praia estava semi-deserta, já que em algumas zonas se via uma ou outra pessoa. Mais à frente, da parte de cima, um pouco depois das dunas, um bairro de pequenas casas brancas. “Os índios da Meia-Praia”, que o poeta cantor imortalizou, - pensou Isabel. Na água, mesmo à babujem, algumas pessoas numa espécie de dança, logo seguida de agachamento. A maré-vazia propiciava a apanha de conquilhas. Condelipas, como as pessoas da terra chamavam. Isabel, era curiosa, gostava de saber o porquê das coisas, e por isso, dias depois de ter chegado procurara saber porque é que em Lagos as conquilhas, se chamavam condelipas. Disseram-lhe, que em tempos remotos estivera em Lagos, um certo conde de Lippe, que viera  reorganizar a defesa da cidade e se instalara na fortaleza, Pau da Bandeira que ainda hoje se encontra junto à entrada da praia da Batata. Grande apreciador de conquilhas, o conde mandou vir sacos delas e ordenou que os soldados as espalhassem na praia. Daí que o povo lhe tenha começado a chamar Condelipas, nome que perdura até hoje na terra.

                                            

20.11.14

ROSA ------------- FINAL

Foto de um grupo de retornados. Em 74, em poucos meses, meio milhão de portugueses regressaram das colonias. Chegavam de barco ou de avião, na sua maioria de "mãos vazias". Fugiam da guerra deixando para trás tudo o que tinham. Esta foto não é minha, (até porque nessa altura eu estava em Luanda) Foi retirada da net

                                       XVI

Para Rosa tudo era novo e diferente, ela não entendia muito bem o que se passava no País mas o que ela notava é que o povo estava mais alegre, mais feliz
Por outro lado, João recuperara o emprego, o filho conseguira trabalho na Siderurgia Nacional, a filha mais nova fora trabalhar para a Timex, até o filho doente, estava melhor agora, graças a uma bomba que o médico já tinha receitado à muito, mas que ela nunca conseguira dinheiro para comprar. A sua vida estava muito melhor, ela podia enfim descansar um pouco, deixando o trabalho a dias e ficando em casa a cuidar do marido e dos filhos solteiros. Podia também cuidar dos netos, deixando as filhas mais descansadas e mais libertas de despesas. Porém, sobre ela pairava, como uma sombra, o medo pelo filho ainda lá longe. Principalmente porque não havendo a P.I.D.E, nem censura, tudo o que se passava em África chegava a Portugal. Rosa sabia que o governo, estava a negociar a independência, mas todos os dias chegavam a Portugal “os retornados” que falavam do medo que sentiam, da guerrilha entre os movimentos de independência, e alguns residentes pró colonialistas.  falava-se de mortes, do recolher obrigatório, da incapacidade dos militares impedirem os indígenas que os saqueavam. E o seu filho continuava lá em Angola. Por outro lado, os políticos pareciam não se entender, os governos provisórios sucediam-se, e Rosa tinha muito medo que tudo voltasse ao mesmo, ou como diziam alguns, que a seguir à ditadura fascista, se seguiria uma ditadura comunista. O marido dizia-lhe, que isso sim seria um sonho, mas Rosa, que era uma mulher sem instrução, e tudo o que aprendera na vida, ficara-lhe  gravado na memória pelo sofrimento, achava que ditadura nunca seria coisa boa, fosse ela fascista ou comunista. E lembrava-se do que a avó sempre dizia quando ela era pequena e nem bem sabia o sentido das palavras. “Atrás de mim virá, quem bom me fará” Tinha medo. Muito medo de ainda vir a achar que os anos para trás, é que tinham sido bons. Naquele verão, mais de um ano após a revolução, o país parecia caminhar para uma guerra civil, e ela tinha medo do que o futuro lhe podia ainda reservar.  Medo que só perdeu, quando em Novembro de 75, pode enfim abraçar o filho que regressara são e salvo, após a Independência de Angola. E quase no final desse mesmo mês,  a viragem histórica do país, que afastou o espectro da guerra civil.
Agora sim, Rosa era uma mulher feliz.

                                         
 Fim

Maria Elvira Carvalho


Bom, agora o pedido do costume, aos que acompanharam a história da Rosa. Gostaram da história?  Não gostaram? Não se acanhem. É com as vossas criticas que posso melhorar para o próximo.


25.10.14

ROSA PARTE VII

Mais calma, lembrou-se dos ensinamentos da avó, devota de Nª Senhora do Rosário. Abriu o cesto e, embrulhado num lencinho branco, lá estava o terço de contas meio gastas de tantas e tantas vezes passadas entre os dedos rugosos da avó. Ajoelhou e pondo a alma em cada oração rezou como nunca o fizera na vida. Uma vez e outra e outra até adormecer de cansaço.
Vá-se lá saber se foi coincidência ou intervenção divina, mas no dia seguinte apareceu na casa um homem jovem, que ao vê-la, se engraçou por ela. E depois de uma  breve conversa, lhe perguntou se queria casar com ele. Ela pensou que ele era um anjo mandado pelo céu e aceitou na hora. O homem falou então com a dona do bordel, que lhe disse que se queria levar a rapariga tinha que pagar 20 escudos pois fizera gastos com ela dos quais não ia ver retorno. O homem prometeu voltar ao anoitecer com o dinheiro, pedindo que, entretanto, a rapariga se recolhesse ao quarto e não fosse vista por outros homens.
Vinte escudos em 1946 era muito dinheiro, mas o homem voltou ao entardecer com a quantia pedida. E Rosa saiu daquela casa, com as suas velhas roupas, algum temor no coração mas também com muita fé num destino melhor.
João, assim se chamava o homem, trouxe-a até ao mar onde apanharam um barco para o Barreiro, pois era aí que ele trabalhava e morava. Rosa nunca tinha visto o mar e tremeu de medo os trinta e cinco minutos da travessia. Por medo do mar, por vergonha do homem que a “comprara”, porque ela achava que fora isso que acontecera, por temor do que o homem poderia fazer, Rosa nem se atrevia a falar.
Quando finalmente saíram do barco, o homem pegou no cesto dela e disse:
-Anda, vamos ter que caminhar ainda um bom bocado. Mas não tenhas medo, já falei com a minha irmã e dormes lá hoje. Amanhã vou procurar uma casinha para os dois e
depois vamos falar com o padre.
 Ela assentiu com a cabeça e começou a segui-lo. Caminhavam por um sítio de terra batida, junto ao mar, mas aquela parte do mar era estranha, pois não tinha água. Ao manifestar a sua estranheza, o homem explicou que aquilo não era mar, era o rio Coina, afluente do Tejo, que a maré estava vazia, e quando a maré vazava só ficava o lodo. Depois, começava a encher de novo e levava seis horas até a água chegar àquela orla por onde caminhavam agora. Com a ingenuidade de uma criança, ela perguntou:
- E para onde vai a água do mar quando vaza?
Ele soltou uma gargalhada e respondeu:
- E alguém sabe?
Depois, talvez para encurtar o caminho, começou a fazer perguntas sobre ela. Donde era, se não tinha família, como é que tinha chegado até ali.
- Por vergonha, ela limitou-se a dizer o nome da  sua aldeia e que não tinha ninguém na vida
-Landeira? Mas isso é muito perto da minha aldeia. Eu sou da Trapa, pertencemos ao mesmo concelho.


Continua na Terça-Feira


8.9.13

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                                                 I

O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo. Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

Ela sorriu. Sorriu para o sol, sorriu para o passarinho, que naquele momento passou a cantar esvoaçando pela janela do seu quarto. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se reflectia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, o pequeno-almoço, e deixou-a a brincar à porta, enquanto arrumava os quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe era um lugre da pesca bacalhoeira, que pertencia à Seca da Azinheira. Andando devagar, com a irmã pela mão chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido esperá-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, tinham andado com ela na escola, foram companheiros de brincadeiras. Depois ou por gosto, ou por falta de opção juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo lá à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras à muito se tinham radicado à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...


Continua

O problema do feed por agora foi resolvido. Já repararam que me faltam 15 comentários para os 12.000? Pois é.  Vamos ver quem fica com o número redondinho...


Bom fim de semana.