- Estás feliz? – perguntou
- Sim. Tão feliz que tenho receio de que isto não passe de um sonho do qual vou acordar a qualquer momento. E tu?
- Tenho nos braços a mulher que sempre amei, que acabou de me demonstrar, que me quer com igual intensidade, sem se importar nada, com a minha deficiência. Como não hei de estar feliz? A sensação que tenho, é que andei à deriva durante longos anos e acabo de chegar a um porto seguro.
A mão dela, pousou no peito dele, iniciando uma carícia que o fez estremecer. Nuno pousou a sua mão sobre a dela:
- Pára. Assim não consigo raciocinar e preciso de te perguntar uma coisa. Achas que serias capaz de viver aqui?
Fez uma pausa, para um breve beijo e continuou:
- Ouve-me com atenção. Tens que saber que há um determinado número de coisas que nunca vou conseguir ultrapassar. Por exemplo, não podes contar comigo para ir contigo à praia, ou para te carregar ao colo, para a cama.
Sabendo isso, aceitas casar comigo?
- Agora mesmo se fosse possível. Não preciso de que me carregues ao colo para a cama, já o fizeste há muitos anos, quando eu era uma menina sonhadora. A praia não me fez falta até agora, também não me fará no futuro. Podemos sempre passear pelo campo, pela cidade. Compreendo que ainda estejas traumatizado, o acidente é relativamente recente. Com o tempo vais encarar essa tua limitação com naturalidade e vais arranjar maneiras de rodear as dificuldades, e eu estarei sempre a teu lado, com todo o meu amor. E sim viveria feliz nesta casa, ou em qualquer outro local, porque o lugar não me importa desde que esteja a teu lado.
Em resposta, ele beijou-a apaixonado. As mãos perdendo-se no corpo amado em carícias, cada vez mais ousadas, que ela retribuía com igual paixão, cada um desfrutando do corpo do outro, no ritual mais antigo do universo
Epilogo
Um ano mais tarde, Nuno apertava a mão de Luísa, pronunciando palavras de amor e incentivo, quando de súbito se ouviu o choro de um bebé.
- É um rapagão, - disse a médica que fizera o parto, entregando o bebé à enfermeira que o colocou nos braços maternos, sob o olhar embevecido do pai.
- É lindo, o nosso filho, não é verdade?- perguntou Luísa olhando amorosa o marido.
- É o bebé mais bonito que vi em toda a minha vida, meu amor, - sussurrou ele emocionado.
Uns minutos mais tarde, a enfermeira interrompeu-os.
Uns minutos mais tarde, a enfermeira interrompeu-os.
- Pronto, mãe, preciso levá-lo agora, o pediatra vai examiná-lo, e precisamos cuidar dele e vesti-lo, - disse tirando-lhe o recém-nascido dos braços. – Já lho trago, daqui a pouco.
- Está tudo bem, podem levá-la para o quarto, - disse a médica retirando as luvas. E voltando-se para Nuno, acrescentou. Parabéns colega. Acompanha a sua esposa ao quarto, ou quer ir até à sala onde o pediatra examina seu filho?
-Vou com a minha esposa. Confio plenamente no colega que o vai examinar. Gostaria que no-lo trouxessem logo que tenham acabado.
Pouco depois no quarto, quando a enfermeira os deixou a sós, enquanto esperavam pelo filho, Nuno beijou a esposa com ternura.
- Descansa querida, deves estar cansadíssima. Dez horas a sofrer, é uma tortura muito grande. Esquece os nossos sonhos de três filhos. Nunca mais te quero ver a sofrer assim.
Cansada, mas feliz, ela respondeu:
- Nunca se desiste dos sonhos, amor. E sabes de uma coisa? Quando a enfermeira me pôs o João nos braços esqueci tudo, exceto que nos amamos e que aquele pedacinho de gente era o fruto do nosso amor.
Emocionado ele murmurou com devoção
-Minha vida! Meu amor!
Fim
Elvira Carvalho













