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24.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLII





- Mas tu és um homem famoso e muito rico. Como podes querer alguma coisa comigo? Não tenho mais que este pedaço de chão, esta casa, e a minha arte, que se me dá para viver não me deu fama, nem fortuna. Nem sequer sou uma beleza, como as mulheres com quem decerto estás habituado a conviver.
- Subestimas-te querida. Embora digas que não és uma beleza, és uma mulher muito bonita. O que acontece é que nunca te preocupaste muito com a tua aparência.  Tenho a certeza, de que bastará um pouco de maquilhagem, um novo penteado, e um tipo de roupa diferente, para que o patinho feio que julgas que és, se transforme num cisne esplendoroso, capaz de deixar qualquer uma dessas mulheres de que falas, cheia de inveja.
E para que saibas, um homem não procura só beleza na mulher dos seus sonhos, embora isso ajude muito numa primeira impressão. A minha falecida esposa, era uma mulher de grande beleza e nunca me fez feliz.
Agora chegou a hora da despedida. Conversei com a minha irmã, contei-lhe o que se passou e expliquei-lhe porque não dei notícias. E pedi-lhe para informar a polícia. Levas-me até à vila? Lá alugarei um carro que me leve a casa. Estou ansioso por ver a minha filha, mas já parto com saudades tuas.
Com dois dedos levantou-lhe o queixo e baixando a cabeça apoderou-se da sua boca, pondo naquele beijo toda a paixão que ela lhe despertara.
Ela enlaçou-lhe o pescoço e retribuiu com a mesma intensidade. Quando por fim ele a afastou, ela murmurou baixinho escondendo o rosto no seu peito.
- Faz amor comigo.
Ele afastou-a e mergulhou o olhar cheio de desejo nos doces olhos castanhos.
-Tens a certeza de que é isso que queres?
-Sim - balbuciou voltando a enlaçar-lhe o pescoço, o rosto corado, os olhos brilhantes de desejo. 
Então ele pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.
Horas depois, despediam-se numa rua da vila.
-Vou manter-me em contato. E aguardar ansioso pela tua resposta.
Agora mais do que nunca, tenho a certeza dos meus sentimentos, e de que quero que faças parte da minha vida.
- Telefona-me esta noite. Quero saber como te sentes depois de reveres a família - respondeu Luísa abraçando-o.
As mãos dele afagavam-lhe os cabelos, os dedos roçando-lhe os lóbulos das orelhas. No seu olhar o desejo misturava-se com uma imensa ternura.
-Amo-te Luísa. Não te quero pressionar, mas por favor não me faças esperar muito!
Então os seus lábios desceram sobre a sua testa, num terno beijo de despedida.
Depois largou-a e afastou-se em direção a uma praça de táxis. Ela sentou-se ao volante, e ficou quieta, olhando como que hipnotizada para as costas do homem que falava com o motorista. Viu como abria a porta e a fechava depois de entrar. Viu o táxi arrancar na direção contrária em direção a Coimbra, e só quando ele desapareceu numa curva da estrada, limpou os olhos à manga da camisola, ligou o motor, fez a manobra de inversão de marcha e regressou a casa.




5.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXV


As horas decorriam com lentidão e cheias de preocupação em casa do Gil. As empregadas mantinham-se caladas e Inês tentava acalmar Mariana, sem muito sucesso. Era como se a menina se apercebesse do ambiente pesado que se vivia em casa e isso a assustasse.
No fim das consultas, Laura dirigira-se a casa do irmão, disposta a não sair dali, enquanto não soubessem notícias dele. E pouco depois Alcides, o noivo, reuniu-se-lhe. Ambos, tinham tentado vezes sem conta, entrar em contacto com o desaparecido, mas o telemóvel mantinha-se desligado. Quase à hora do jantar, chegaram Marco e a esposa, Isabel, que apresentava um ar cansado, provocado sem dúvida pelo seu avantajado ventre, de grávida de sete meses.
Enquanto jantavam, procuravam tomar decisões sobre o que fazer para tentar encontrar Gil. Interrogavam-se sobre o que lhe teria acontecido, quando Alcides disse:
- Já vos passou pela cabeça, que o Gil pode ter sido raptado?
Os outros pararam de comer e olharam-no incrédulos.
- Não me olhem assim. Por mais que pense só me ocorre essa possibilidade. Vejamos, ele telefonou às dez e meia da noite a dizer que estava na autoestrada a caminho de casa. E que ia chegar tarde. Portanto vinha pela A1. Mesmo que a essa hora ainda estivesse na zona do Porto, e contando que com a tempestade, não poderia conduzir a grande velocidade, chegaria a casa o mais tardar às três da manhã. Mas não chegou. Segundo informação da polícia não há qualquer registo de acidente, e o carro dele não foi encontrado. Vamos supor que ele decidiu sair da autoestrada e pernoitar em qualquer sítio por causa da tempestade. Poderia não telefonar durante a madrugada, mas tê-lo-ia feito logo de manhã. E teria vindo para casa de seguida. O Gil sempre foi um homem muito responsável, e depois do nascimento da Mariana tornou-se ainda mais. Por outro lado, o vosso irmão, que já era dono de uma fortuna considerável, não só por via dos grandes contratos de futebol que teve, como do que recebeu em publicidade, mas também porque tem um excepcional diretor de recursos financeiro, que aplicou uma boa parte do seu dinheiro em negócios que já quadruplicaram o investimento inicial. E com o êxito dos seus livros, e a venda dos direitos para o cinema, será talvez neste momento, o homem mais rico do País e um dos mais ricos da Europa. Não é isso mais que suficiente, para pensarmos num rapto?
- Mas… se assim fosse não deveriam já ter ligado para pedir o valor do resgate?- perguntou Laura.
- Talvez, mas nem sempre os raptores telefonam imediatamente. Devem pensar que quanto mais tempo passar, mais a família fica preocupada e mais fácil é, cederem às suas exigências.
- E o que devemos fazer?- interrogou Marco
Se realmente houve um rapto, não podemos fazer nada a não ser esperar. Entretanto, amanhã vou à polícia e denuncio o seu desaparecimento. Como já terão passado mais de vinte e quatro horas, e dado o seu perfil, é possível que a polícia inicie de imediato as buscas.  Convém que um de vós como família, me acompanhe à esquadra.
- Eu vou contigo, - disse Laura de imediato.
- Amanhã de manhã, tenho uma reunião com um cliente. Mas se achas necessário eu também vou - disse Marco.
- Não será preciso, basta a Laura, a polícia vai querer falar contigo assim que inicie uma investigação, mas isso será mais tarde. 
Fez uma pausa, enrugando a testa como se estivesse a pensar nos passos a seguir, e continuou:
- Depois como seu advogado e procurador, vou ao banco saber se houve algum movimento na sua conta. E pedir que nos avisem de imediato se isso acontecer.  Feito isso, só nos resta esperar.
O resto da refeição decorreu em silêncio. Nenhum  se atrevia a dizer em voz alta o que lhes ia na cabeça, mas todos tinham a certeza de que algo muito grave tinha acontecido.
Pouco depois do jantar, Marco disse que ia regressar a casa, alegando que a esposa estava muito cansada e precisava descansar. Perto da meia noite, também Alcides se despediu, pois Laura decidira ficar a viver em casa do irmão, até que houvessem notícias.




2.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXV



-Não, de modo nenhum. Desde que te conheci só me tens demonstrado que és uma boa pessoa, e o que fizeste ontem à noite, devolvendo a empresa, ao meu pai, apesar do ódio que lhe tens, foi a maior prova disso.
-Então, o que te impede?
-Se for contigo, a imprensa vai começar a especular. Não quero encher as páginas das revistas cor-de-rosa como a tua nova conquista.
-Isso é desculpa. Primeiro não tenho por costume exibir nenhuma conquista, nunca o fiz, sempre que apareci em alguma festa, fui sozinho, ou acompanhado da Gabi e do Eduardo. Segundo, não me parece que seja essa a verdadeira razão. Penso que cometi um erro quando disse ao teu pai que o salvaria se acedesses a casar comigo. Na altura, só pensei em castigá-lo, não pensei que isso podia separar-nos para sempre. Agora dou-me conta, que hoje, mesmo que diga que te amo, como nunca amei ninguém em toda a minha vida, que daria a minha fortuna, para que tivesses por mim, o mesmo sentimento que me inspiras, tu nunca acreditarás em mim. Como o teu pai não acreditou que eu tinha sido assaltado. Se eu fosse um tipo esperto, teria descoberto há muito que não és diferente dele. Mas até os tipos mais lerdos,  cedo ou tarde, acabam por ver o que têm na frente dos olhos. Assim sendo, não precisas inventar mais desculpas. Não voltarei a incomodar-te, nunca mendiguei nada a ninguém, também não o vou fazer contigo.
Atordoada com aquela declaração, Paula não teve tempo de responder, pois nesse momento bateram à porta, e de seguida, dona Teresa entrou.
-Filho, a tua irmã, e a família acabam de chegar.
Paula aproveitou a interrupção para dar por terminada aquela conversa, antes que começasse a chorar.
 -Já passa do meio-dia. Não se devem atrasar com o almoço, o tempo passa a correr e depois não têm tempo de se vestirem antes dos convidados começarem a chegar.
António levantou-se e deu o braço à mãe.
-Vamos lá então, -disse
Paula ficou só no escritório. Deixou-se cair na cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. De todo o discurso de António ela só retivera a declaração de amor. Pudesse ela acreditar nas palavras do empresário, e sentir-se-ia a  mulher muito feliz ao cimo da terra. Mas será que era mesmo uma declaração ou tratava-se apenas de um mero exemplo explicativo? E mesmo que fosse uma declaração, como acreditar num homem capaz de guardar sentimentos de vingança durante tantos anos? Quem lhe diria que ele não tinha desistido de arruinar o pai, por pensar que seria maior a vingança, se casasse com ela? Se ao menos ela soubesse o que o pai lhe tinha feito. Mas como havia de o saber, se nenhum dos dois queria falar nisso? Certo que o empresário deixara escapar qualquer coisa sobre um assalto. Mas ela estava tão atordoada que nem entendera o que ele dissera. Levantou-se e ia dirigir-se à cozinha, quando encontrou a mãe do anfitrião.
-Venha minha querida, ia chamá-la para almoçar.
-Obrigada, dona Teresa, mas é um almoço de família, não quero ser uma intrusa. Prefiro comer alguma coisa na cozinha. 
-De modo algum. Venha, estão todos à sua espera.
A senhora era tão amável e parecia tão sincera, que Paula não tinha como recusar o convite sem ser indelicada.
Entraram juntas na sala. Eduardo levantou-se para a cumprimentar e apresentou-lhe a  esposa e filho. Paula sentiu uma empatia imediata por Gabi, e emocionou-se quando a esposa de Eduardo, a abraçou com carinho. Pedro, o filho do casal era um rapazinho alegre e simpático, que lhe disse ser muito amigo de Miguel, e lhe contou que o irmão falava muito dela.
Pouco depois era servida a refeição. Todos se mostravam alegres e simpáticos, fazendo com que se sentisse da família. Todos, menos António, que se mantinha em silêncio e de sobrolho franzido, respondendo apenas quando era interrogado diretamente.



Passei o dia fora e estive na Alameda. Aqui podem ver algumas imagens se estiverem interessados. 

18.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE IV







Depois das festas de Natal, António aconselhou-se com o cunhado sobre como aplicar o dinheiro, de forma rentável de modo a que pudesse não só multiplicar a sua fortuna, como vingar-se do seu ex-patrão, pois essa ideia era como uma droga no seu espírito. Ele acreditava que o seu pai morrera por causa do desgosto de pensar que o filho se tinha apropriado do que não lhe pertencia. 
O cunhado era de opinião que há duas coisas de que o ser humano não abdica nunca. De comer, porque se o não fizer morre, e de querer parecer importante, estar bem na vida. E para isso, procura três coisas. Bons restaurantes, uma boa casa e um automóvel de luxo. Essencialmente o automóvel, pois quanto mais luxuoso, mais importância se dá a quem o tem.
E foram esses os seus primeiros investimentos. Um restaurante e um “stand” de automóveis. Ele mesmo, procurou mercados onde encontrar os melhores e mais frescos ingredientes ao melhor preço, para o restaurante, escolhera o chefe e os empregados. E estabeleceu além do ordenado, um prémio extra para cada um, se o restaurante obtivesse determinados objetivos. Esse incentivo criou neles o desejo de serem cada vez melhores e aumentarem cada vez mais a faturação. E três meses depois da inauguração, para se poder almoçar ou jantar no "Cozinha Portuguesa", já era necessário marcar mesa com uma semana de antecedência. Então abriu outro, numa cidade vizinha. Sempre com o mesmo método, e o mesmo nome, foi criando uma cadeia de restaurantes, nas principais cidades do país. Em três anos, os restaurantes "Cozinha Portuguesa" eram reconhecidos em todo o país, como símbolo de bom gosto e qualidade. O negócio dos carros também ia muito bem. Meio ano depois do seu regresso, António fora procurado por Júlio Correia, o seu ex companheiro de apartamento e de fortuna. Júlio queria tornar-se sócio no negócio dos automóveis, e assim não só tinham expandido o negócio a outras cidades, como o tinham alargado ao aluguer de carros. 
Três anos após o seu regresso, António Ferreira, quase duplicara a sua fortuna inicial, e  transformara-se num dos empresários mais bem sucedidos do país.
 Sempre assessorado pelo cunhado, a quem contratara os seus serviços de advogado, oferecendo-lhe além de um bom ordenado uma participação de cinco por cento nos negócios, o empresário aprestava-se para se envolver no negócio das imobiliárias, comprando uma pequena empresa que se encontrava insolvente. Nos dois anos que se seguiram, usou de uma política agressiva na imobiliária, não só em prol do seu crescimento, mas também visando afundar a empresa do seu inimigo. Agora, a sua empresa era a maior e mais importante do país. E finalmente estava prestes a vingar-se do homem que dezassete anos antes, lhe destruíra a honra e causara a morte do seu pai. Mas para além de arruinar o seu ex-patrão, António tinha um sonho.  Casar-se com a jovem  Paula única filha do seu inimigo.   
Ele conhecera Paula, há quase dezoito anos, quando trabalhava nos escritórios do pai dela. O Jorge, era viúvo, e costumava levar a filha para o escritório, quando a ia buscar à escola. Paula teria na altura, nove ou dez anos. Era uma garota tímida, alta e sem graça, mas que tinha os mais belos olhos verdes que ele já vira. E também os mais sofridos. Às vezes, António quase sentia uma necessidade premente, de abraçar a miúda e tentar por um pouco de alegria naqueles olhos. Depois que fora despedido, nunca mais a vira, até há cinco anos atrás quando do seu regresso de Paris, se cruzou com ela no Banco. Era uma mulher muito bonita, que caminhava com segurança, em nada fazendo lembrar a menina tímida que ele conhecera, exceto nos olhos.
Reconhecera-a imediatamente. E se em criança os seus olhos o impressionavam, naquele dia deixara-se enfeitiçar.
Desde esse dia, as suas fantasias passaram a ter um nome. Paula Maldonado.
E ele passou a sentir-se um homem dividido. Por um lado, pensava na jovem, como alguém a quem amar, uma companheira para a vida, a quem desejava fazer feliz, sem qualquer esquema de vingança. 
Por outro lado, casar com a filha do homem que o considerava ladrão, era mais uma forma de se vingar do seu ex-patrão.


A recuperação do meu olho, continua muito lenta. Tanto que por vezes  chego a duvidar das melhoras. Continuo com o tratamento e os cuidados que o médico recomendou. 

30.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V




O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.