Curiosamente os dois contos mais pedidos, com 2 votos cada, foram a Dívida de Jogo e À Média Luz, com dois votos cada, e são das menos vistas pelos leitores atuais. A julgar pelos comentários, Dívida de Jogo, foi vista na totalidade (23 pequenos capítulos)
por 3 leitores. Tintinaine, Edumanes e Redonda. Joaquim Rosário, Pedro Coimbra, Chica e Anete , comentaram alguns capítulos e Janita comentou os dois primeiros. Não sei se a história não interessou muito, ou se foi por ter sido publicada num mês de Agosto. Esperemos para ver o que vai acontecer agora.
I
Num quarto de casal, uma mulher jovem e muito bonita, tinha espalhado sobre o leito, alguns fatos masculinos. Depois abriu a gaveta da cómoda, e retirou várias camisas e T-shirts.
Abriu uma mala de viagem e preparava-se para arrumar nela as roupas quando a campainha tocou. Foi abrir. Era o carteiro com uma carta registada para assinar. Fechou a porta e revirou o envelope entre as mãos. O remetente era de uma firma de advogados. O que podiam querer com ela?
Curiosa abriu a carta, e leu-a rapidamente. Convocavam-na para uma reunião no dia dezasseis de Maio às quinze horas a fim de assistir à leitura do testamento de Alfredo Magalhães.
Deixou-se cair sobre a cama. Desconhecia que o marido tivesse feito testamento.
Poisou a carta sobre a mesa-de-cabeceira, e voltou à operação anterior, acabando de encher a mala com as roupas do falecido. Fechada a mala, foi buscar um saco para colocar o resto das roupas, e calçado. Mais tarde iria levar tudo para uma instituição de caridade.
Eva era ainda muito jovem. Fizera vinte e três anos no mês anterior. Era alta, magra, de cabelos castanho-claro, e olhos cor de mel. Nariz levemente arrebitado, e boca pequena, de lábios bem desenhados. Se a natureza fora pródiga com ela, dando-lhe um rosto de serena beleza, e um corpo de sonho, a vida, fora tão sovina que nem a mãe lhe deixou conhecer. Desde que se conhecia sempre vivera num orfanato. Lá viveu até que se casou. Aos dezoito anos empregou-se como recepcionista numa clínica dentária, mas continuou sob a proteção das freiras da instituição.
Tinha dezanove anos, quando conheceu Alfredo. Ele era um homem elegante, bem parecido e muito carinhoso, e ela era uma mulher carente. Apaixonou-se de imediato. Casaram um ano depois. Eva sonhara muito com a vida pós casamento, mas a realidade não foi bem a que ela esperava. Aos poucos Alfredo, foi substituindo a paixão pela indiferença, reduzindo o tempo que passava em casa. Tinha um bom ordenado a que acrescentava boas comissões sempre que efetuava uma venda, mas o dinheiro desaparecia rapidamente. Felizmente que a casa era dele, herdara-a da madrinha. Ainda assim era o ordenado de Eva que sustentava a casa, na maior parte dos meses.
Ela não sabia o que se passava, mas suspeitava que o marido tivesse uma amante.
Só assim entendia as noites em que chegava a casa de madrugada, e a falta de dinheiro no lar.
Só assim entendia as noites em que chegava a casa de madrugada, e a falta de dinheiro no lar.


