Prólogo
O dia apresentava-se invernoso naquele final de Novembro. Chovera quase todo o dia e o céu continuava muito escuro. Ao longe no horizonte, um arco-íris, punha uma nota de cor, na negrura das nuvens. O vento
soprava forte, e o mar rugia, atirando as vagas de encontro à Falésia, como se
estivesse lutando para derrubá-la.
Sobre ela, uma figura solitária, indiferente ao tempo,
quiçá até à própria vida, parecia observar fascinada a dança louca das vagas.
Tinha vinte e dois anos, e uma vida de sofrimento atrás
de si. Toda a vida foi uma inadaptada. Não conhecera o pai, de quem sempre sentira a falta, e embora a mãe se
matasse a trabalhar para criar as duas filhas, ela nunca se sentiu feliz com a
vida que tinha. Sentia-se infeliz por não ter roupas bonitas e caras como as
suas amigas. Ela tinha que se contentar em usar as roupas que Isabel usara anos
antes e que a mãe guardara religiosamente para ela. Tinham dez anos de
diferença, quando chegava a vez dela já ninguém vestia semelhantes roupas.
Como ela gostaria de ser como a sua irmã Isabel, que se
contentava com a vida que tinha e era feliz. Ela, Susana, vivia corroída pela inveja.
Invejava as amigas que tinham o pai vivo, as
que iam para a escola de carro, as que usavam roupas de marca, até o feitio
manso da irmã ela invejava. E sonhava que um dia tudo ia mudar na sua vida.
Tinha quinze anos quando a mãe morreu e ficou sozinha com
Isabel. A irmã assumiu as despesas da casa, e ela continuou a estudar, acabou o
secundário e pensou entrar no mercado de trabalho, mas Isabel insistiu que lhe
pagaria os estudos e que ela precisava continuar a estudar. Matriculou-se na
Faculdade de Ciências, mas numa saída com colegas no segundo ano, conheceu
Ricardo de Souto Medina, um empresário, rico e bem-parecido, por quem se
apaixonou.
Ricardo, trinta e sete anos, sentiu-se lisonjeado com o
fascínio que a jovem tinha por ele. Começaram a sair juntos, mas se Susana
sonhava com o amor, e um casamento que lhe desse enfim a vida a que ela julgava
ter direito, Ricardo pensava apenas em se divertir e aproveitar o que ela estivesse disposta a dar-lhe. Quando a novidade deixou de o ser, desapareceu, e não deu mais noticias.
Desiludida e deprimida, não queria sair de casa,
deixou os estudos. Sentia-se mal, tinha náuseas, não lhe apetecia comer.
Quando Isabel preocupada conseguiu convencê-la a ir ao
médico, descobriu que estava grávida de doze semanas. Ficou ainda pior.
A gravidez foi um suplício, dividia-se entre o amor pelo
ser que ia dar ao mundo e a raiva por sentir que não tinha condições para criar
um filho, nem queria que ele tivesse a mesma vida medíocre que ela tinha.
Um dia quase no fim da gravidez, encontrou Ricardo num
Centro Comercial. Sentiu um baque no peito. Quem sabe, ele vendo-a grávida,
voltasse para ela? Porque ele tinha de saber que o filho era dele.
Dirigiu-se-lhe, mas ele fingiu não reconhecê-la. Ficou de rastos. Uma semana
depois dava à luz uma menina, que Isabel adorava, mas de quem ela não conseguia
gostar. Aliás ela não conseguia gostar de ninguém, nem sequer de si mesma. A única coisa que
lhe apetecia era desaparecer.
Lentamente começou a caminhar na direção da falésia. Lá
em baixo o mar agitado parecia chamar por ela. Susana… Susana…
De súbito o seu corpo voou, e por breves instantes
sentiu-se livre e feliz. Logo depois foi tragada pelas águas revoltas, enquanto
uma gaivota grasnava sobre a falésia.