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18.6.20

ISABEL - PARTE XXVII







O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Luís. Ele dissera que se chamava Luís. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era uma figuração apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com tanto esmero e cuidado durante quase vinte anos?
 Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porque haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.



                                             

15.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXV



Deixou-se cair na cadeira, passando a mão pela testa. A conversa com a irmã, deixara-o nervoso. É claro que ele já tinha reparado na mulher. Nem podia ser de outra maneira se viviam na mesma casa há tantos meses. Para ser sincero, reparara bem demais, para a sua estabilidade emocional.
Pegou no telefone interno.
- Dona Luísa, a partir deste momento não estou para ninguém. E não me passe chamadas. Entendido?
Desligou. Pegou na moldura. Olhou-a relembrando o dia em que a tirou. Tinha chegado a casa e encontrara Francisca na sala a brincar com as crianças. A cena parecera-lhe tão naturalmente íntima, que sem eles perceberem registou o momento no telemóvel.
Depois imprimira-a e colocara-a ali. A fotografia de Olga repousava no fundo de uma gaveta da secretária. O facto da
 irmã, ser amiga de Francisca, e encontrá-la numa época em que ele estava desesperado, foi uma dádiva do destino, talvez arrependido de ter deixado, duas crianças de tão tenra idade sem mãe.
Era admirável, o modo como ela cuidava da casa, como cuidava das crianças. E era tão bonita, que aos poucos a imagem de Olga se foi desvanecendo na sua mente enquanto Francisca se ia instalando no seu coração.
Há já algum tempo que se dera conta disso. Cada dia lhe era mais difícil, ter uma atitude natural junto dela, quando o que realmente desejava era apertá-la nos braços e amá-la até a fazer desfalecer de paixão.
Abriu a gaveta e tirou a cópia do contrato assinado antes do casamento.
A quinta cláusula, dizia expressamente, que nenhum dos contratantes podia molestar o outro com qualquer atitude de cariz amoroso ou sexual, sob pena de o molestado ter direito a rescindir o contrato e a seguir a sua vida liberto de todas as obrigações com o outro.
Que raio de coisa havia ele de ter inventado? Mergulhado na dor da perda da mulher, convencera-se que nunca a esqueceria. Que a sua capacidade de amar morrera com ela.
E, desesperado para resolver a situação, em que se encontrava, temendo que os sogros conseguissem levar-lhe as filhas, parecera-lhe que aquela cláusula, era um incentivo para que Francisca se sentisse mais segura para aceitar o contrato que ele lhe propunha. 
Como pudera ser tão estúpido? E agora? Agora estava manietado de pés e mãos. Não podia sequer imaginar que Francisca pudesse abandonar a casa, se ele se atrevesse a expressar o que lhe ia na alma. O que ia ser da sua vida? E das filhas? Como podiam viver sem ela? 
Voltou a guardar o malfadado contrato na gaveta, fechando-a à chave.

reedição





21.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLI


- E tens a certeza de que não existe? Porque da minha parte, eu tenho a certeza do contrário. Para amar não são precisos anos. Por vezes basta um olhar, um sorriso, uma frase para nos cativar o coração. E entre nós, assim foi, não há como negá-lo. Se os dois aceitamos esse amor, e fazemos por mantê-lo vivo, ou se o negamos e o deixamos morrer já é outra história. Em Coimbra fui sincero contigo. Na altura ainda não sabia se te amava mas sabia que algo muito forte já nos ligava. Queria conhecer-te melhor, sabia que alguma coisa muita bonita estava a nascer entre nós. Em compensação tu não usaste de igual sinceridade e fugiste. O pai falou-me da tua mãe, da sua insegurança e de como isso destruiu a relação dos dois. Quero acreditar que não tenhas herdado dela essa insegurança. Quando me deixaste, fiquei desesperado, e revoltado, contra ti e contra o próprio destino, que me tinha permitido conhecer-te para logo te afastar. Sentia-me como uma criança a quem dão um doce e quando ela se prepara para o saborear, lho arrancam das mãos. Para tentar esquecer-te, entreguei-me de corpo e alma ao trabalho que nesta época do ano é sempre muito intenso. Como sabes o pai é produtor de vinhos e eu sou o enólogo responsável por toda a produção até ao momento de engarrafamento, muito embora uma boa parte da nossa uva seja entregue à vinícola de que somos sócios, e seja comercializada através dela. Mas por mais cansado que estivesse, não conseguia esquecer a jovem sensível que se emocionou na fonte das lágrimas, nem a menina radiante que percorreu como uma criança o Portugal dos Pequenitos. Muito menos a mulher que tremeu nos meus braços quando nos beijamos na despedida. Incendiaste-me o sangue e a alma. Desesperava, por não saber como te encontrar. 
Por essa altura, o pai começou a ter um comportamento estranho. Ele não conduz desde que teve um acidente e quando se desloca, sempre sou eu que o levo. Então ele começou a ir a Viseu de camioneta. E a falar ao telefone, desligando quando eu me aproximava. Comecei a pensar que ele teria alguma aventura na cidade. Afinal ainda é um homem jovem e a mãe levou o último ano até ser operada, muito doente. Só para teres uma ideia, ela não conseguia caminhar dez metros, sem ter que parar, sem forças.
Questionei-o e ele jurou que amava a minha mãe e que nunca seria capaz de a trair. Acreditei, mas passados uns dias, ele voltou a Viseu. Por uma dessas coincidências com que o destino nos brinda, nesse dia telefonaram-me da empresa onde tinha encomendado uma nova bomba de trasfega, dizendo que já tinha chegado, podia ir buscá-la. Acabava de acondicioná-la no porta-bagagem, quando vos vi sair de um prédio no outro lado da rua. O pai enlaçava-te os ombros e os dois seguiram pelo passeio até ao hotel.  Não será difícil imaginares o que eu pensei. Um homem não vai para um hotel com uma mulher que não é de sua família, se não for para irem para a cama, não é verdade?


Atenção amigos. Acabei ontem de escrever esta história. Não tenho mais nenhuma escrita e com os tratamentos que ando a fazer e o tempo de espera que levo na clínica não tenho tempo para elaborar outra, e nas férias só tenho 
Internet no telemóvel. Não sei se fecho o "estaminé" se deixo agendada uma das minhas primeiras histórias, Sei que alguns já a leram, mas muitos dos meus leitores atuais chegaram em 2016/2017. Posso re-editar uma história mais antiga. Que pensam vocês? Por favor deixem alguma resposta nos comentários. Obrigada 

18.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIV





O exame de ADN levaria oito dias úteis. Helena deixou no laboratório a sua morada de Lisboa e disse a Jorge, que iria embora no dia seguinte. Se o resultado do exame fosse o que os dois pensavam que era, o pai entraria em contacto com ela quando tivesse revelado à família a sua existência. Até lá podiam falar ao telefone. Disse-lhe também que gostaria muito de conhecer a sua casa, e a sua família, mas que entenderia se a família dele, não a quisesse receber. Entretanto resolveu ir ao hotel para lhe entregar as duas certidões. Elas serviriam para quando ele tivesse de falar com a esposa, e se o resultado não fosse o que esperavam, então ela não tinha qualquer direito a eles, os  documentos eram dele, e ele lhes daria o destino que entendesse.
Enquanto ela foi ao quarto, Jorge foi à receção pediu para fecharem a conta da jovem para o dia seguinte e pagou a estadia da jovem. Afinal, era por causa dele que ela viera até ali e fizera semelhante despesa. 
Quando a jovem desceu, guardou os documentos e saíram do hotel para irem almoçar.
Depois do almoço, passearam um pouco e despediram-se cerca das três horas, pois Jorge pretendia apanhar a camioneta que saía para Nelas a essa hora.
Helena ficou triste. Voltou ao hotel e já não saiu o resto do dia. À noite, depois do jantar, pediu que lhe fechassem a conta pois sairia no outro dia de manhã.
Na receção disseram-lhe que a conta já fora liquidada. O senhor Jorge Noronha pagara a conta nessa tarde enquanto ela se ausentara. Não gostou, e não ia aceitar. A conta era sua. Jorge teria tempo de lhe pagar o que quisesse, depois de saber o resultado do exame, se realmente fosse seu pai. Antes, não. Insistiu que queria pagar a conta e que devolvessem ao senhor Noronha a quantia que ele despendera. A empregada chamou o gerente.
Depois de muita insistência da jovem o gerente aceitou que ela pagasse a conta e prometeu que eles enviariam ao senhor Jorge Noronha um cheque com a importância que ele pagara.
Resolvido o assunto, e como a noite estava quente, saiu a dar um pequeno passeio. Era como uma despedida. Não sabia quando, ou se voltaria. Mas era também uma necessidade de cansar o corpo, de modo a adormecer logo que se deitasse. Ultimamente tinha dificuldade em fazê-lo. A recordação de Cláudio e dos momentos que passaram juntos em Coimbra, era cada dia mais pungente.
No dia seguinte, logo de manhã, apanhou a camioneta para Coimbra, onde iria apanhar o comboio para Lisboa. Já na estação depois de comprar o bilhete telefonou ao tio. Durante aqueles dias, fizera-o diariamente. Com exceção da noite anterior. Agora informava-o que já estava em Coimbra e da hora de chegada a Lisboa.  
Continuava a querer conhecer Coimbra, mas enquanto se lembrasse de Cláudio não voltaria à cidade. O pior, é que ela suspeitava que ia lembrar-se dele durante muito tempo.



9.7.18

O DIREITO À VERDADE.- XX




Cláudio chegou ao hotel às onze e cinquenta. A mãe ia ter alta às quinze, e ele tinha prometido ao pai que estaria no hospital a essa hora, para regressarem a casa. Também lhe tinha dito que iria almoçar com a jovem e a levaria ao hospital para a apresentar aos pais. Depois no caminho para casa deixá-la-iam no hotel. Ele ainda não tinha analisado os seus sentimentos, nunca acreditara em amor à primeira vista, nem sabia se o que sentia era amor. O que sabia é que nunca nenhuma outra mulher o interessara tanto. Não era pela beleza. Helena era uma mulher bonita, mas ele tinha visto centenas de mulheres tão bonitas ou mais que a jovem. Mas havia qualquer coisa nela que mexia com ele, despertando-lhe sentimentos nunca antes experimentados, ou talvez já esquecidos. E ele tinha trinta anos e nunca tivera hábitos de frade. Olhou o relógio. Já passavam três minutos do meio-dia. Não era atraso significativo, as mulheres costumavam atrasar-se, mas algo lhe dizia que não era o caso. Dirigiu-se à receção.
- Boa tarde. Tenho um encontro marcado com a menina Helena Trindade. Por favor podia avisá-la que já cheguei?
- Boa tarde. Lamento senhor, mas a menina Helena Trindade abandonou o hotel esta manhã às dez. Deixou esta carta para lhe entregarmos quando viesse procurar por ela, -disse estendendo-lhe um envelope.
-Muito obrigado.
Aceitou o envelope e virou costas dirigindo-se para o seu automóvel. Aí chegado, rasgou o subscrito e leu.

Bom dia, Cláudio.
Como te disse ontem, parti esta manhã.
Lamento sinceramente se esperavas encontrar-me e te dececionei. Não posso nem devo, ficar. Nunca estaria à tua altura, não podia criar ilusões, que me iam fazer sofrer depois. Posso parecer-te cobarde, mas não quero mais sofrimento na minha vida.
Agradeço-te as horas e o carinho que me dedicaste. Conhecer-te foi uma das  coisas mais bonitas que me aconteceu. Parto agora, para que possa recordar-te sempre com a mesma emoção que me fizeste sentir.
Do coração, desejo que sejas muito feliz.
Helena.

Amarfanhou o papel entre os dedos. Ela tinha-se ido embora sem deixar um endereço, número de telefone, ou qualquer outra pista que permitisse, encontrá-la. Sentia-se frustrado. Voltou a alisar a folha, dobrou-a e guardou-a na carteira. Apertou o cinto de segurança e ligou o motor. Arrancou sem destino. Tinha que parar num sítio qualquer para almoçar. Não lhe interessava onde, naquele momento a única coisa em que conseguia pensar, era em Helena, nas horas que tinham passado juntos no dia anterior, no beijo que trocaram na despedida. Ele tinha a certeza de que a emoção que sentira fora recíproca. Acabou por almoçar num restaurante perto do hospital, enquanto a TV mostrava imagens da tragédia Síria, e dos refugiados. Não percebia a ideia de alguns restaurantes terem televisões ligadas enquanto os clientes comiam. Os noticiários só transmitiam tragédias, o dia todo, as pessoas teriam tempo de as ver sem ser à hora da refeição.
Estava-se no último dia do mês de Agosto, num dos anos mais quentes e secos do último século. E as televisões levavam os dias a mostrar os incêndios, E quando chegava a hora das notícias, aos incêndios nacionais somava-se a tragédia do povo sírio, forçado a fugir muitas vezes para acabar por morrer no mar.


Gente, fiz hoje o meu EEG . Na verdade segundo a médica que mo fez, foram dois exames um enquanto desperta, o outro a dormir, Não sei só sei que demorou uma hora e quarenta minutos. E que vou levantar dia 23. Entretanto comecei esta tarde a fisioterapia. Depois de uma noite sem dormir, e do ginásio, estou mais morta que viva. É mais fácil subir às árvores quando a neta manda.
Rsrsrs




3.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVI







Joana estava com os nervos à flor da pele. Durante aquele mês viveu numa correria tal que quase não tivera tempo para pensar no passo que ia dar. Preocupada com a saúde da mãe, que já tinha iniciado o tratamento dez dias antes, tendo de cumprir os dois compromissos anteriormente marcados, uma festa de aniversário de uma menina de cinco anos e outra de uma pré adolescente, e ainda com o bebé que embora estivesse a ter um normal e saudável desenvolvimento, cada dia requeria mais a sua atenção e o seu tempo, ela acabara por se esquecer de si mesma, Agora que o casamento seria no dia seguinte, como que saíra enfim do transe em que estivera e dava voltas e voltas na cama sem conseguir conciliar o sono. Parecia-lhe impossível que há pouco mais de um mês não conhecesse o poderoso empresário e no dia seguinte se fosse converter na sua esposa. É normal que uma noiva esteja nervosa na noite anterior ao seu casamento, pela expectativa de no dia seguinte unir o seu destino ao eleito do seu coração. Não era o que se passava com Joana. O seu casamento era um negócio realizado entre duas partes que sabiam bem o que esperar uma da outra, O empresário deixara-o bem claro, embora  ela tivesse a perceção de que havia mais alguma coisa para além do que ele lhe contara. Não sabia bem definir aquela sensação, mas tinha a certeza de que ele não lhe contara as verdadeiras razões para a ter escolhido a ela, e não a qualquer outra para aquele arremedo de casamento. Sentira-o desde o início, mas isso não impediu que ela o aceitasse. Porque a vida da mãe, e o bem-estar do bebé, eram superiores a todos os seus traumas, e afinal ela também escondera dele o seu segredo.
Pedro surpreendera-a com a rapidez com que tratou de toda a documentação, não só para o casamento, mas também para a entrada do pedido de adoção legal do bebé. Sem dúvida que o advogado dele era muito competente e tinha bons conhecimentos.  O resto o dinheiro comprava. Também a surpreendera ao marcar imediatamente a consulta e os tratamentos da sua mãe, sem esperar pelo casamento. Afinal durante aquele mês, ela verificara que o empresário, era muito mais humano, do que aquilo que pretendia demonstrar em palavras, mesmo não tendo convivido muito, nem tendo outras intimidades que não fossem meia dúzia de beijos.
Ao contrário do casamento faustoso que o noivo pretendia organizar, Joana conseguira que a cerimónia fosse o mais simples possível, no civil, com a presença da família, as testemunhas, e alguns empresários com quem o noivo tivera, ou tinha interesses comerciais. Assim, a cerimónia realizar-se-ia no restaurante “A poesia dos sabores” pertença do noivo, que no dia seguinte por causa do evento, estaria encerrado ao público.
Joana, não tinha mais família que a mãe, e o bebé. O pai rompera com a família, para casar com a mulher por quem se apaixonara, uma jovem criada num orfanato, “que ninguém sabe de onde vem, nem tem onde cair morta” como diziam os pais dele, que ao darem-lhe a escolher entre eles e a jovem Ermelinda, ditaram o rompimento. Anos mais tarde, quando o pai falecera de um ataque cardíaco, a mãe achara seu dever informar os sogros do triste acontecimento. O sogro respondera-lhe com uma carta em que lhe fazia saber que só tinha um filho, vivia com eles e estava de boa saúde.
O sol já raiava no horizonte quando Joana conseguiu adormecer.



Será que este casamento vai dar certo? Que vos parece?


Obrigada a todos pelo vosso cuidado comigo, e com a minha saúde. Eu estou num carrossel.  Uns dias quase não tenho dores, e outros tenho muitas. O tratamento é para 8 dias, fiz 4.







7.7.17

ROSA - PARTE VIII


Esta foto, tirada por mim, retrata a antiga Caldeira do Alemão depois da intervenção da POLIS. Claro que a única coisa que a liga à antiga, a que se refere o conto, é ser no mesmo sítio. De resto na altura não existiam por ali prédios nenhuns. Existia sim uma fábrica de cortiça, um pouco mais acima onde hoje é o parque da cidade. Pertencia a um alemão de nome Hermann Zunn Hingste, que faliu pouco depois do termino da Segunda Guerra Mundial.Tudo o resto era uma quinta improdutiva.

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                                             VIII

Antes de chegarem ao seu destino, passaram por uma espécie de pequena lagoa que, contrariamente ao rio, se apresentava cheia de água. Numa ponta entre a lagoa e o rio, uma pequena ponte de madeira e, sob ela, um grande portão de zinco, que servia de comporta. Apesar da escuridão noturna, ela parou:
- É a caldeira do Alemão, pertence àquela casa grande ali em cima, que é uma fábrica de cortiça. É ali que eu trabalho. Vem, já falta pouco.
Andaram mais um bocado e foram ter a um sítio cercado por arame farpado com um portão grande no qual o homem bateu.
Pouco depois, uma mulher abriu o portão. Era Amália, a irmã de João, a porteira daquele lugar, que ela soube depois, era a Seca do Bacalhau da Azinheira, de que falavam na aldeia, algumas pessoas que todos os anos eram engajadas para a safra.
Amália tratou-a com naturalidade e até talvez um pouco de carinho. Rosa pensou que ela não devia saber onde o irmão a tinha ido buscar. Estava enganada.
João era o mais novo de seis irmãos. Não chegou a conhecer o pai, que morrera na batalha de La Lys na França, na primeira grande guerra. Devia sentir-se orgulhoso, já que toda a gente lhe dizia que o pai fora um herói, mas não era assim que ele sentia. O que sentia era uma grande mágoa de não o ter conhecido e uma grande revolta contra as guerras que deixam sozinhas mulheres cheias de filhos para criar. Pouco depois do início da segunda grande guerra, João foi para a tropa. Portugal não entrou diretamente na guerra mas, através dos Açores e da base Americana lá implantada, pode dizer-se que de certa maneira lá esteve. João foi destacado para os Açores, para prestar serviço nessa base aérea. Quando embarcou, o medo de que a base fosse atacada pelas forças inimigas era real, tanto entre os portugueses como entre os americanos. O grupo de soldados foi a Fátima, despedir-se da Virgem e pedir a sua proteção.
Então, lá perante a Virgem, João fez uma promessa que para muitos podia ser estranha, mas que foi o que lhe ocorreu no momento. Prometeu, que se voltasse são e salvo, tiraria uma mulher “da vida” e casaria com ela. Toda a família sabia da promessa e, naquele tempo, uma promessa à Virgem, era uma coisa sagrada que se cumpria sem contestação.
 Depois de sair da tropa, João procurou trabalho e quando o teve começou a pensar que tinha que cumprir a promessa. Naquele tempo, os bordéis eram proibidos por lei mas, em Lisboa, havia alguns que por qualquer razão, que ele não entendia, as autoridades fingiam desconhecer.
Aos fins-de-semana, João começou a percorrê-los. Quando encontrou Rosa, já tinha visitado dois, mas ninguém lhe agradou. As mulheres, que encontrou ou eram já demasiado velhas, para a mulher que ele queria para mãe dos seus filhos, ou estavam por demais ligadas àquela vida e não se habituariam a uma vida diferente. Por isso, quando viu Rosa, com o seu ar de menina, provinciano e assustado, sentiu que tinha encontrado o que procurava.
Quando foi buscar o dinheiro exigido pela dona do bordel, João falou com a irmã, que lhe disse que podia levar a moça lá para casa até casarem.
E agora, ali estava ela, numa casa estranha, pobre de móveis, mas rica de vida, a julgar pelos dois catraios que andavam à roda dela como cão à volta do dono.
Amália destinou-lhe a cama de um dos filhos, os rapazes dormiriam juntos, não havia problema. Depois, não seria por muito tempo.



27.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XIV


Na manhã seguinte, quando Isabel chegou para o seu dia de trabalho, foi recebida por Antónia, que a informou da viagem do patrão. Disse-lhe que o patrão, antes de partir lhe dissera, para lhe comunicar que tinha deixado uma mensagem gravada para ela. Agradeceu o recado e dirigiu-se ao escritório para ouvir a mensagem. Ligou o gravador, e a voz grave fez-se ouvir.
- Bom dia, Isabel. Deves estar surpresa com a minha súbita partida, mas aconteceu algo que não posso adiar. Não sei quanto tempo vou estar ausente, espero que não seja muito. Até lá, estás de férias.

19.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXXIII







O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Luís. Ele dissera que se chamava Luís. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era uma figuração apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com esmerado cuidado durante quase 20 anos?
 Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porque haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.



                                             

29.10.14

ROSA PARTE VIII


Esta foto, de minha autoria retrata a antiga Caldeira do Alemão depois da intervenção da POLIS. Claro que a única coisa que a liga à antiga, a que se refere o conto, é ser no mesmo sítio. De resto na altura não existiam por ali prédios nenhuns. Existia sim uma fábrica de cortiça, um pouco mais acima onde hoje é o parque da cidade. Pertencia a um alemão que faliu pouco depois do termino da Segunda Guerra Mundial.Tudo o resto era uma quinta improdutiva.

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                                             VIII
Antes de chegarem ao seu destino, passaram por uma espécie de pequena lagoa que, contrariamente ao rio, se apresentava cheia de água. Numa ponta entre a lagoa e o rio, uma pequena ponte de madeira e, sob ela, um grande portão de zinco, que servia de comporta. Apesar da escuridão noturna, ela parou:
- É a caldeira do Alemão, pertence àquela casa grande ali em cima, que é uma fábrica de cortiça. É ali que eu trabalho. Vem, já falta pouco.
Andaram mais um bocado e foram ter a um sítio cercado por arame farpado e um portão grande no qual o homem bateu.
Pouco depois, uma mulher abriu o portão. Era Amália, a irmã de João, a porteira daquele lugar, que ela soube depois, era a Seca do Bacalhau da Azinheira, de que falavam na aldeia, algumas pessoas que todos os anos eram engajadas para a safra.
Amália tratou-a com naturalidade e até talvez um pouco de carinho. Rosa pensou que ela não devia saber onde o irmão a tinha ido buscar. Estava enganada.
João era o mais novo de seis irmãos. Não chegou a conhecer o pai, que morrera na batalha de La Lys na França, na primeira grande guerra. Devia sentir-se orgulhoso, já que toda a gente lhe dizia que o pai fora um herói, mas não era assim que ele sentia. O que sentia era uma grande mágoa de não o ter conhecido e uma grande revolta contra as guerras que deixam sozinhas mulheres cheias de filhos para criar. Pouco depois do início da segunda grande guerra, João foi para a tropa. Portugal não entrou diretamente na guerra mas, através dos Açores e da base Americana lá implantada, pode dizer-se que de certa maneira lá esteve. João foi destacado para os Açores, para prestar serviço nessa base aérea. Quando embarcou, o medo de que a base fosse atacada pelas forças inimigas era real, tanto entre os portugueses como entre os americanos. O grupo de soldados foi a Fátima, despedir-se da Virgem e pedir a sua proteção.
Então, lá perante a Virgem, João fez uma promessa que para muitos podia ser estranha, mas que foi o que lhe ocorreu no momento. Prometeu, que se voltasse são e salvo, tiraria uma mulher “da vida” e casaria com ela. Toda a família sabia da promessa e, naquele tempo, uma promessa à Virgem, era uma coisa sagrada que se cumpria sem contestação.
 Depois de sair da tropa, João procurou trabalho e quando o teve começou a pensar que tinha que cumprir a promessa. Naquele tempo, os bordéis eram proibidos por lei mas, em Lisboa, havia alguns que por qualquer razão, que ele não entendia, as autoridades fingiam desconhecer.
Aos fins-de-semana, João começou a percorrê-los. Quando encontrou Rosa, já tinha visitado dois, mas ninguém lhe agradou. Ou eram já demasiado velhas, para a mulher que ele queria para mãe dos seus filhos, ou estavam por demais ligadas àquela vida e não se habituariam a uma vida diferente. Por isso, quando viu Rosa, com o seu ar provinciano e assustado, sentiu que tinha encontrado o que procurava.
Quando foi buscar o dinheiro exigido pela dona do bordel, João falou com a irmã, que lhe disse que podia levar a moça lá para casa até casarem.
E agora, ali estava ela, numa casa estranha, pobre de móveis, mas rica de vida, a julgar pelos dois catraios que andavam à roda dela como cão à volta do dono.
Amália destinou-lhe a cama de um dos filhos, os rapazes dormiriam juntos, não havia problema. Depois, não seria por muito tempo.


Continua

Na próxima Sexta