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4.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. 
Parecia, porque não raras vezes, depois daquele dia, Gabriel visitava Sandra à noite. Como se houvesse prévia combinação, chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto a jovem ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora.  O que o levava a agir assim, nem ele próprio entendia. O que sabia é que às vezes na solidão da sua grande e luxuosa sala, sentia uma necessidade premente de conversar com ela, saudade do calor humano que sentia na modesta sala de Sandra. 
 Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que ele sentia necessidade de estar com uma mulher, que não fosse sua amante, e no entanto nunca houvera nada entre eles, nem sequer uma insinuação de ordem mais intima. Durante as horas de expediente, as suas relações, eram agora as de qualquer chefe, com a sua secretária. Educadas e profissionais. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia em casa dela, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar.  Todavia sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. E provavelmente ela não lhe iria perdoar nunca, e ele não arriscaria de modo algum, perder aquela sensação de bem estar consigo e com os outros, tão desconhecida até uns meses atrás. 
Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, despedia-se e regressava a casa.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Depois que teve a certeza de que ele não era culpado do desfalque que tinha jogado o seu pai, na prisão; e que estava sinceramente disposto a ajudá-la a descobrir a verdade, o seu coração solitário e carente não resistiu. Apaixonou-se como uma adolescente. Todavia não tinha ilusões, nem acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, acredita que Gabriel terá por ela um sentimento semelhante ao seu, embora talvez ele não o reconheça. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Por sua vez, ele sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de casamento. Por isso vivem assim, a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E entretanto passaram três semanas e o inspetor Pedro, ainda não dera sinal de vida.


Nota: devem notar que tenho estado mais ausente nos últimos dias. Tenho estado com ardores nos olhos e muito chorosa, pelo que estou no computador o mínimo possível. Felizmente a história é uma reposição, pois há quase uma semana que só consigo escrever alguns comentários e pouco mais.

24.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLII





- Mas tu és um homem famoso e muito rico. Como podes querer alguma coisa comigo? Não tenho mais que este pedaço de chão, esta casa, e a minha arte, que se me dá para viver não me deu fama, nem fortuna. Nem sequer sou uma beleza, como as mulheres com quem decerto estás habituado a conviver.
- Subestimas-te querida. Embora digas que não és uma beleza, és uma mulher muito bonita. O que acontece é que nunca te preocupaste muito com a tua aparência.  Tenho a certeza, de que bastará um pouco de maquilhagem, um novo penteado, e um tipo de roupa diferente, para que o patinho feio que julgas que és, se transforme num cisne esplendoroso, capaz de deixar qualquer uma dessas mulheres de que falas, cheia de inveja.
E para que saibas, um homem não procura só beleza na mulher dos seus sonhos, embora isso ajude muito numa primeira impressão. A minha falecida esposa, era uma mulher de grande beleza e nunca me fez feliz.
Agora chegou a hora da despedida. Conversei com a minha irmã, contei-lhe o que se passou e expliquei-lhe porque não dei notícias. E pedi-lhe para informar a polícia. Levas-me até à vila? Lá alugarei um carro que me leve a casa. Estou ansioso por ver a minha filha, mas já parto com saudades tuas.
Com dois dedos levantou-lhe o queixo e baixando a cabeça apoderou-se da sua boca, pondo naquele beijo toda a paixão que ela lhe despertara.
Ela enlaçou-lhe o pescoço e retribuiu com a mesma intensidade. Quando por fim ele a afastou, ela murmurou baixinho escondendo o rosto no seu peito.
- Faz amor comigo.
Ele afastou-a e mergulhou o olhar cheio de desejo nos doces olhos castanhos.
-Tens a certeza de que é isso que queres?
-Sim - balbuciou voltando a enlaçar-lhe o pescoço, o rosto corado, os olhos brilhantes de desejo. 
Então ele pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.
Horas depois, despediam-se numa rua da vila.
-Vou manter-me em contato. E aguardar ansioso pela tua resposta.
Agora mais do que nunca, tenho a certeza dos meus sentimentos, e de que quero que faças parte da minha vida.
- Telefona-me esta noite. Quero saber como te sentes depois de reveres a família - respondeu Luísa abraçando-o.
As mãos dele afagavam-lhe os cabelos, os dedos roçando-lhe os lóbulos das orelhas. No seu olhar o desejo misturava-se com uma imensa ternura.
-Amo-te Luísa. Não te quero pressionar, mas por favor não me faças esperar muito!
Então os seus lábios desceram sobre a sua testa, num terno beijo de despedida.
Depois largou-a e afastou-se em direção a uma praça de táxis. Ela sentou-se ao volante, e ficou quieta, olhando como que hipnotizada para as costas do homem que falava com o motorista. Viu como abria a porta e a fechava depois de entrar. Viu o táxi arrancar na direção contrária em direção a Coimbra, e só quando ele desapareceu numa curva da estrada, limpou os olhos à manga da camisola, ligou o motor, fez a manobra de inversão de marcha e regressou a casa.