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3.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XIV



Foram uns dias muito difíceis para Anabela. Felizmente pode contar com o apoio dos compadres. Eles não só a acarinharam e defenderam, como a ajudaram a encaixotar roupas e loiças, que ela iria doar para um orfanato bem como os eletrodomésticos, as loiças e os poucos moveis que tinham ficado intactos. O que estava destruído, foi levado pela camioneta camarária de recolha de monos. Ela não queria nada que lhe lembrasse o que sofrera naquela casa.

Entretanto prosseguiam as investigações da polícia sobre o assassinato do marido e a jovem a quem não tinham sido dados mais esclarecimentos sobre o caso, depois de resolvido o esvaziamento do apartamento e tendo entregado as chaves ao senhorio, resolveu voltar a sair e procurar o inspetor.

Este, informou-a que as investigações continuavam em aberto, pois até ao momento não tinham conseguido nada de novo, a não ser testemunhos, de que ela realmente já não vivia com a vítima, não tinha conhecimento das suas ligações e tinha passado no Algarve os últimos meses. Aconselhou-a, no entanto, a entrar em contacto com ele se, entretanto, de algum modo tivesse conhecimento de algo que pudesse ajudar as investigações.

- Bem inspetor, como sabe, o último ano foi muito difícil para mim. Fui vítima de violência por parte do meu marido, fui ameaçada de morte, passei pelo medo de ter uma faca encostada ao pescoço, sofri um aborto, e fui insultada e quase agredida pelos meus ex-sogros. Sinto-me arrasada e gostaria de me ausentar da cidade.  Sou enfermeira, e por causa dos problemas que acabo de relatar e tenho a certeza de que o senhor conhece, pois deve ter cópia das várias participações que fiz nesta mesma esquadra,  para tentar equilibrar-me física e emocionalmente, tirei uma licença sem vencimento, do hospital onde trabalho.

Soube que estão recrutando enfermeiras para o Hospital St. Thomas em Londres, e gostaria de me candidatar, pois com os últimos acontecimentos, penso que quanto mais longe estiver de Lisboa, melhor. O que queria saber, é se posso fazê-lo, ou se não posso ausentar-me do país enquanto decorrem as investigações.

-Todas as nossas investigações, confirmaram as suas declarações anteriores, não há qualquer suspeita sobre a senhora, pelo que da nossa parte não vejo nenhum impedimento. O nosso receio inicial, era que pudesse vir a sofrer perseguição de algum contacto do seu marido, pensando que ele, sentindo-se ameaçado, poderia ter-lhe entregado dinheiro ou droga que lhes pertencesse.

Esse receio não se confirmou, por isso a senhora está livre, para seguir com a sua vida, aqui ou em qualquer outro lugar.

- Muito obrigada, inspetor. De qualquer modo, se eu conseguir o emprego em Londres, entrarei em contacto consigo antes de partir a fim de saber se descobriram o assassino. O meu marido era um traste, mas ninguém merece acabar assim.

 

Nota: A pedido da avó Elvira, que ontem teve de ir a uma consulta de urgência e está com antibiótico e anti inflamatório. Afinal o técnico diz que não é o que pensava e o pc tem arranjo deve ficar pronto hoje. O portátil como só tem 7 meses está na garantia foi para a loja que o enviou para a marca. Estará pronto ou substituído por outro se não tiver arranjo no prazo máximo de um mês. Mariana.

7.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVIII

 


- Queres dizer que meu pai perdeu a memória e por isso não sabia da minha existência? - perguntou Matilde depois da longa explicação da mãe. Mas porque não lho disseste tu?

Mãe e filha encontravam-se no quarto da última. Helena acabara de fazer um resumo do que Gonçalo lhe contara, mas Matilde era uma menina muito inteligente e um tanto precoce. Seria muito diferente se fosse uma criança de tenra idade a quem ele se limitaria a dar uma explicação mais ou menos romanceada para explicar a ausência paterna.  

- Como acabei de te dizer, nós apaixonámo-nos nas férias. Nem um nem outro estávamos na nossa terra, e o nosso contacto era o telemóvel que se perdeu no acidente. Eu só sabia que o teu pai vivia em Braga e estava na Universidade no Porto. Não tinha como encontra-lo depois dele não responder às minhas mensagens. Na verdade, nunca mais soube nada dele até há poucos dias. Nem sequer sabia se tinha casado, se tinha outra família.

- E casou? Tem outros filhos?

 -Não. Segundo sei, um dos amigos com quem estava de férias no Algarve quando nos conhecemos, um dia perguntou-lhe por mim e estranhando que estando tão apaixonados eu não tivesse ido vê-lo. Desde aí ele nunca mais deixou de pensar em mim, e por isso nunca casou.

- E agora, recuperou a memória? E é um homem normal ou está tontinho?

- À parte o não recordar aquela parte da sua vida, antes do acidente, não tem nada de tontinho, é até muito inteligente.

-Bom, e agora que já o encontraste, vais-me dizer quem é? E falar-lhe de mim? Quando vou conhecê-lo?

-Na verdade, já o conheces, filha. Lembras—te do doutor Gonçalo, aquele médico que te deu o livro? É o teu pai.

- O quê? Não pode ser!

- Porque dizes isso? - perguntou Helena assombrada.

- Mãe, ele é moreno, tem olhos escuros, eu sou loira e tenho olhos azuis. Não me pareço nada com ele. Como não me pareço contigo, tinha que ser parecida com ele e não sou.

- O Gonçalo parece-se com o pai. Tu pareceste com a sua mãe, e a sua irmã. Os filhos nem sempre se parecem com os pais. Às vezes vão buscar parecenças aos avós e até aos bisavós. Na verdade, foi por tu seres parecidíssima com a tua tia, que ele soube que nos encontrara.

-E agora, mãe? Como vai ser a nossa vida daqui para a frente? Ele já sabe que eu existo, mas vai querer ser meu pai? Ou vai aparecer uma ou duas vezes por ano e fingir que eu não existo no resto do ano? Porque se assim for, eu vivo bem sem ele.

-Não Matilde, o teu pai não é assim. Ele que ver-te, levar-te para conheceres a sua família, ser teu pai a sério. Ele até quer casar comigo.

-É claro que quer casar contigo. De outro modo nunca seria meu pai a sério, pois nunca seríamos uma família com os avós, ou o tio Sérgio.

-Não é bem assim, Matilde. Nem todos os pais vivem juntos. Decerto tens colegas com pais divorciados – disse Helena sentindo uma angústia enorme.

- Claro, como a Sónia. Mas a mãe dela voltou a casar e o pai também. Tem agora duas famílias e até mais irmãos. Tu e o Gonçalo estão sozinhos. Se ele quer casar o que te impede de o fazer? Não gostavas dele antes de eu nascer?  Ele teve culpa de ter perdido a memória? Então porque não queres casar? – perguntou obstinada.

 

13.5.20

ISABEL PARTE I


                                      Foto minha 
Isabel saltou da cama, subiu a persiana e abriu a janela deixando que o ar frio e húmido lhe viesse acariciar o rosto.  Olhou o céu coberto de nuvens a ameaçar chuva.  Sentiu um arrepio. Fechou a janela e dirigiu-se à casa de banho. Era o seu último dia de férias no Algarve, e pensava ir para a praia como nos dias anteriores.  
Mas o dia estava desagradável. Nem parecia que se estava no final de Julho. Enquanto tomava o duche matinal, pensava no que faria nesse dia. Não tinha amigos naquela cidade, onde se encontrava pela primeira vez. Não lhe apetecia meter-se no carro e ir à descoberta dos arredores. Já o fizera noutras ocasiões. Fechou a água e envolveu-se na toalha. Era uma mulher muito bonita. Deveria rondar o metro e setenta, morena de grandes olhos escuros e boca bem desenhada. O cabelo negro, com um corte moderno deixava a descoberto a beleza do rosto. O corpo esguio e bem proporcionado, não passava nunca despercebido. Embora parecesse mais nova, já completara trinta e oito anos, e encontrava-se sozinha.  
Com movimentos suaves, espalhou sobre o  corpo o creme hidratante. Depois decidida vestiu o bikini, uns calções de ganga, e uma t-shirt branca. Calçou uns ténis meio velhos, mas muito confortáveis. Pegou numa toalha de praia e no protector solar e colocou-os sobre a mesa da cozinha.  Abriu o frigorífico e tirou uma garrafa de água, que juntou às restantes coisas. Foi ao quarto abriu de novo a janela e voltou a olhar o tempo. Mantinha-se na mesma ou mais fechado. Agora caía uma chuvinha miudinha, tão fina que mais parecia nevoeiro. Isabel voltou-se e fez a cama. Depois abriu a gaveta da cómoda e retirou um lenço azul, que enrolou à volta da cabeça, como se fosse um turbante.  Lançou um breve olhar ao espelho que encimava a cómoda, agarrou nos óculos escuros e retirou de um gancho atrás da porta, a bolsa que costumava levar para a praia. Dirigiu-se à cozinha e colocou todas as outras coisas dentro da bolsa. Juntou-lhe um pequeno porta-moedas e o estojo com os óculos escuros. Pegou nas  chaves e no telemóvel e saiu. Pisava forte com ar de pessoa decidida. Desceu a rua, passou por uma típica travessa estreitinha e com algumas escadas e desembocou no Largo do Infante. Olhou à volta. A Igreja de Santa Maria estava aberta, e Isabel resolveu entrar.  Não era hora de missa, ela já lá tinha estado no dia em que chegara e sabia que a missa era só à tarde. Mas ela sempre gostara de se recolher na igreja. Gostava daquele silêncio. Convidava ao recolhimento, e à oração.  E era assim que ela gostava de estar na casa do Senhor. 



Nota: Como alguns disseram ontem, o blogue não é uma obrigação, mas é a única ponte que tenho para estar convosco, numa altura, em que não vejo amigos nem irmãos nem outros familiares além do filho nora e netas. Daí o querer manter o blogue ativo.  

9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLV


Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália. Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros, não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter nada de especial para dizer. E ela esperava a chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.  
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o menino  eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar, telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.


23.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIX



Como combinado, no dia seguinte Paula apresentou-se nos escritórios do empresário com todo o plano da festa em três dimensões. Conheceu Eduardo com quem simpatizou de imediato, respondeu a todas as questões que lhe foram apresentadas e viu o plano aprovado sem restrições.
Voltou a referir que na sua opinião, Gabi devia ser informada da festa, afinal ela ia ser parte integrante da mesma e podia haver pormenores com que ela não estivesse de acordo, mas o marido, assumiu a responsabilidade e de resto ao fim de dez anos de vida em comum, ela acreditava que ele devia conhecer a mulher, melhor que ninguém.
Os dias que se seguiram foram então de trabalho intenso para as duas amigas, que começaram com três jardineiros que alteraram e melhoraram o aspeto do jardim, preparando-o de acordo com o planeado.
Não voltou a ver António, apesar de todas as noites, ele lhe ter telefonado. Quando parava para pensar, Paula comparava o empresário a uma aranha, que pacientemente vai tecendo a teia em volta da sua vítima. O pior é que apesar de pensar assim, cada dia se sentia mais atraída para ele, ao ponto de se surpreender a olhar para o relógio, à espera da hora em que lhe telefonaria. Sabia que ele já tinha regressado do Algarve, mas o certo é que apesar de lhe telefonar todas as noites mostrando-se interessado pelo andamento dos trabalhos, não apareceu na casa, nem mesmo naquele dia, véspera da festa. Em contrapartida, nessa tarde, quando depois de ter terminado todo o trabalho de decoração dos espaços, estava apenas verificando se não tinha esquecido algum pormenor, Eduardo aparecera na quinta, e mostrou-se maravilhado com todos os pormenores, especialmente com a decoração à volta da piscina. 
Paula sentia-se dececionada. E desiludida consigo mesma. Seria possível que estivesse a apaixonar-se por um ser capaz de alimentar durante tantos anos sentimentos tão mesquinhos, como os que ele nutria pelo seu pai? Como podia ela, ser tão competente na sua vida profissional e ao mesmo tempo, uma tão grande nulidade no campo sentimental?
Entrou em casa, fechou a porta e atirou a chave para cima da mesinha de entrada. Estava cansada. Precisava com urgência de um banho que lhe retemperasse as forças. Dirigia-se para o quarto, quando o seu telemóvel tocou. Olhou o relógio. Não era a hora a que “ele” costumava ligar. Retirou-o da mala e olhou o visor. Era Cidália.
-Estou?
- Graças a Deus que atendeste. Estou tão nervosa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sabes que dia é hoje? É o penúltimo dia do mês. Amanhã às onze horas o teu pai tem que estar nos escritórios da Imobiliária “A casa dos seus sonhos”. para legalizarem a transação. Está desesperado. Estes dias, depois que lhe entregou os documentos têm sido um pesadelo. Não percebo porque não trataram logo da escritura legalmente. Isto tem sido uma tortura.
-Tem calma. Quem sabe o empresário reconsidera e volta atrás.
- Não o fará. E o que me preocupa, é que vejo o teu pai desesperado e tenho receio de que faça alguma asneira.
-Cuida dele, Cidália. Não deixas que perca a cabeça. Tenho a certeza que tudo se resolverá a contento, amanhã. Agora se me dás licença estou cansada e a precisar de um banho com urgência. Amanhã falamos. Beijo.
Desligou a chamada inquieta e desejosa que o dia seguinte chegasse.


6.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVII




Deixou-a à porta de casa, dizendo-lhe para não o esperar, e arrancou.
Uma vez em casa, a jovem atirou-se para cima da cama a chorar.
Estava revoltada. Não sabia como lutar contra o novo inimigo que se levantara entre ela e Miguel.
Era irónico, que fosse o facto de ser muito nova, o impedimento para ser feliz. Ela que tantas vezes, se sentia demasiado velha, para a sua idade.
Enquanto isso, Miguel batia à porta, de uma casa no extremo oposto da cidade.
A porta, abriu-se:
- Boa noite, Olga!
A mulher exclamou surpresa:
- Miguel! Há quanto tempo! Entra, homem, entra.
Afastou-se para o deixar passar, e ele encaminhou-se para a sala, e sentou-se pesadamente no sofá.
Parecia conhecer bem a casa.
A mulher, de meia idade, cabelo totalmente branco,preso no alto da cabeça, vestindo uma singela bata de chita, conservava no rosto alguns traços do que devia ter sido uma grande beleza.
Seguiu atrás dele e ficou na entrada da sala, observando-o com atenção.
-Há tanto tempo que não aparecias. Pensei que estavas no estrangeiro, até que há pouco tempo vi uma reportagem sobre a tua exposição. Parabéns por ela. Disseram que foi um êxito.
- Obrigado. Na verdade, voltei poucos dias antes da exposição. Estive em Roma e depois, lá em baixo no Algarve.
- Bom, mas decerto não foi para me falares das tuas viagens que vieste até cá. Vá, despeja lá isso que te atormenta. Sou toda ouvidos, - disse ela sentando-se no velho cadeirão em frente do sofá.
Então, Miguel falou. Durante quase duas horas, contou tudo o que se passara, desde aquela manhã na falésia, até à conversa dessa tarde em Sintra.
Quando terminou ela disse.
- Muito especial deve ser essa mulher, para te deixar nesse estado.
- Não sei que fazer, Olga. Estou desesperado.
- E contudo não tem nada que saber, homem. Se ela te ama, e tu correspondes, qual é o motivo desse desespero?
Mas não percebes? Eu tenho  quarenta e seis anos e ela tem vinte.
Na mente feminina fez-se luz. 
 Sorrindo  a mulher levantou-se.  Aproximou-se de Miguel, e poisou a sua mão no ombro dele.
- E tu temes que se repita a nossa história? – Perguntou com ternura




2.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLI




                                            foto do Google


E chegou a noite de Natal.
Dias antes, as duas jovens, tinham armado a árvore de Natal decorando-a  com bolas e luzes. Colocaram-na junto do aparador. Espalharam pelos móveis algumas velas, natalícias.
Agora, durante a tarde, enquanto Luísa preparava a ceia, Mariana e a amiga preparam a sala para a festa.
Quando terminaram, Maria disse:
- A mesa está linda. Parece para um jantar romântico.
Mariana ruborizou-se. E Maria que tinha tanto de inteligente, quanto de discreta, pensou que acabara de descobrir o segredo da amiga,  mas nada comentou.
Só ao fim da tarde, quando se despediu desejando um feliz Natal, a abraçou e lhe sussurrou ao ouvido:
-Boa sorte.
Mariana arranjou-se cuidadosamente. Queria surpreender Miguel.
Mostrar-lhe que era uma mulher. Não a miúda que ele sempre dizia que era, Depois se veria até onde conseguiria ir.
Não fora o imenso amor que nutria por ele, e teria ido imediatamente, buscar as suas coisas, e partido para a sua casa.
Mas amava-o. Tanto que lhe doía só de pensar, na sua vida sem ele. Por isso, tinha decidido que só depois das festas, ia ao Algarve recolher as suas coisas. Na volta, teria que regressar a casa. Não tinha como continuar ali, depois de ter recuperado a memória. Logo o tempo que a si mesma dera, para conquistar Miguel, era muito curto. Mas ela estava decidida a aproveitar cada segundo desse tempo, usando de todas as suas armas, para o conquistar e não ter que separar-se dele. Por isso, ela preparara com tanto cuidado essa noite.
 Os sapatos de salto, e o vestido preto, longo e justo, que lhe moldava o corpo na perfeição, faziam-na parecer mais alta, e mais mulher
O decote em V realçava-lhe o colo. Escovou com cuidado o cabelo, deixando-o solto. Por fim realçou a beleza dos seus olhos com um toque de rímel,  e passou um pouco de brilho nos lábios, apenas para realçar o seu desenho, e torná-los mais sedutores.  Nada de exageros de que não gostava e decerto não a iam favorecer em nada. Sentiu, quando Miguel entrou. Deu-lhe tempo para que se arranjasse, esperando com impaciência a hora em que já pronto, a chamasse.
Quando isso aconteceu, abriu a porta e saiu aparentando uma segurança, que estava longe de sentir.
E saboreou como uma vitória, a surpresa e admiração que o olhar masculino revelava.



Bom parece claro que há um forte sentimento entre Miguel e Mariana. Já sabemos que da parte da jovem se trata de amor. Mas será que o mesmo se passa com Miguel? Se bem se lembram o pintor está a poucos dias de fazer 47 anos.  Mariana tem 20. O sentimento que ele tem, por ela, o desejo de proteção não será mais um amor de pai do que de homem?
Que vos parece?.
E porque amanhã é dia 3 de Setembro, esta história será interrompida.

1.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XL






 Entretanto no  estúdio, Miguel acendeu um cigarro. Estava nervoso. Não conseguia deixar de pensar que em breve, Mariana ia embora, da sua casa. E na mudança que isso ia trazer à sua vida. Ele podia voltar à sua antiga vida de  boémio, mas sentia-se cansado e começava a questionar-se sobre a finalidade dessa vida.
Ultimamente já nem as saídas à noite lhe interessavam. A busca do prazer, pelo prazer, já o cansava. "Estou a ficar velho" ,- pensava.
A estadia da jovem lá em casa, tinha sido uma lufada de ar fresco na sua vida. Por causa dela, contratara Luísa, e passara a fazer as refeições em casa, coisa que não fazia, desde que os pais morreram. Ela enchia a casa, com seu jeito suave, os seus silêncios, os seus sorrisos. Aquecia-a com a sua presença. Agora a casa ia ficar vazia. E fria.
Começava a pesar-lhe a solidão. Tinha-se afeiçoado à jovem, gostava dela como se fosse seu pai. Mas não era, e portanto era natural que a jovem quisesse voltar à sua casa, e viver a sua vida longe dele. Mas doía-lhe. E como doía.
Como seria a vida dela, quando se fosse embora? Teria o pai, deixado à jovem, meios suficientes para a sua sobrevivência?  E se assim não fosse? Do que ia  ela viver, se não tinha mais ninguém no mundo? Talvez tivesse 
 que abandonar os estudos e ir trabalhar. Mas em quê, se não tinha experiência de coisa nenhuma? E depois cada vez havia menos empregos e mais desempregados. Por outro lado, não lhe agradava que abandonasse os estudos. Ele  podia pagar-lhos. Mas, ela aceitaria? Uma coisa era a jovem desmemoriada, carente  e totalmente dependente dele. Outra bem diferente a jovem que ele tivera à pouco, na sua frente. A segurança com que ela dissera. “Deixemos isso para depois das festas” quando ele sugerira que teriam de ir ao Algarve, era prova evidente que a jovem se libertara e  já não precisava dele.
Estava irritado, inquieto.
Não sabia o que se passava com ele, mas ficava sempre assim, quando pensava que um dia a jovem ia recuperar a memória e partir.  
Ouviu as jovens conversarem em baixo, sinal de que já tinham regressado. Relaxou. Ficava mais calmo, quando a sabia por perto.
Na tela, exposta no cavalete, a jovem, deitada na relva, parecia querer perguntar-lhe alguma coisa.

29.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE IX



Chegou ao restaurante, cinco minutos antes da hora marcada, mas não antes do amigo que já se encontrava na sua mesa habitual, num recanto mais afastado, mas de onde podia observar todo o movimento. Há anos que Ricardo ali almoçava quase diariamente, e não raro com clientes, razão de ter sempre aquela mesa reservada. Vendo o amigo aproximar-se, levantou-se para o receber com o social aperto de mãos. acrescentou.
- Fiquei surpreendido com a tua urgência em nos encontrarmos, tanto mais que fiquei com a estranha sensação de que não vamos falar de trabalho. Penso que correu tudo bem no Algarve e que já posso dar-te os parabéns pela nova aquisição.
Nesse momento o empregado, a quem Ricardo tinha dito quando entrou que esperava um cliente, aproximou-se com a ementa.
Ricardo pediu um bife à Marrrare, Pedro optou por bacalhau à Lagareiro. Para beber, optaram por vinho tinto, tendo o primeiro escolhido Esporão, o segundo, Fonte do Ouro Touriga Nacional.
- Preciso da tua ajuda, - disse Pedro assim que o empregado se afastou. Mas antes tenho que te contar algo estranho que se passou logo depois de teres saído, no último dia que estiveste lá na empresa. Apareceu por lá uma mulher com uma criança ao colo, dizendo à Rita que queria, porque queria, falar com Pedro Mesquita. Ela disse-lhe que não era possível falar comigo sem marcação, mas a mulher afirmava que não queria falar comigo, sim com um simples empregado com esse nome. Sem saber o que fazer a Rita disse-me o que se passava, e eu que no momento até estava bem-disposto, resolvi recebê-la e saber o que ela queria. E não é que ela queria que o Pedro Mesquita soubesse que era o pai do bebé?
- O quê? – Perguntou Ricardo quase gritando, E logo baixando a voz, perguntou: Mas tu conhecia-la?
- Claro que não. A princípio pensei que era uma oportunista, tentando vigarizar-me, mas a mulher insistia que não entendia porque havia de falar comigo, ela queria falar com um simples empregado. Mostrou-me uma fotografia da irmã com o namorado, antes de ele ter desaparecido. E então percebi que se tratava da última gracinha do meu primo. Sabes como o Paulo era, e a mania que tinha de se apresentar com o meu nome.
- Sei, mas que tinha o namorado da irmã a ver com o filho da tal mulher?
- Sobrinho, a criança era o filho da irmã. Segundo me contou, a irmã teve uma gravidez de alto risco e não sobreviveu ao nascimento do filho.
- Entendo. E o que é que ela quer?
-Nada. Depois que lhe disse  que aquele jovem, tinha trabalhado na firma, mas falecera havia seis meses, num acidente, disse que então não fazia ali nada e despediu-se.
-Assim?
-Bom, eu levei-a a casa. Ainda lhe perguntei se não me oferecia um café, mas desculpou-se e nunca mais a vi.
Calou-se ao ver que o empregado se aproximava com os pratos.



27.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE VII



Quinze dias depois, Pedro acabara de chegar do Algarve, onde tinha formalizado a compra do Hotel Rio Azul em Albufeira. Não era uma grande unidade hoteleira, mas por algum lado se começa e de momento era o que estava disponível no mercado. cinquenta quartos, distribuídos por três pisos.
Tirou o casaco que pôs nas costas da cadeira, afrouxou o nó da gravata, tirou-a e meteu-a na gaveta, procurando ficar o mais confortável possível, para encarar um dia de trabalho intenso. Há três dias que estava fora, e no dia seguinte viajaria para o Porto para supervisionar as obras de ampliação do restaurante na cidade.  Em cima da secretária, tinha o envelope que no dia anterior Abílio Morais, o investigador a que sempre recorria, quando era necessário, entregara.
Abriu-o e leu atentamente todas as informações. Surpreendeu-se ao descobrir que a jovem Joana, tinha vinte e nove anos. Parecera-lhe muito mais nova e imaginou que fosse a irmã mais nova, de Catarina quando afinal era o contrário. Mas a sua surpresa foi muito maior ao descobrir que Joana tinha estudado restauração e hotelaria, e tinha formação em cozinha e pastelaria. Fora a responsável pela pastelaria, “Sonho de verão”,  no Príncipe Real, até há oito meses, altura em que teve de se despedir para cuidar da irmã  grávida e da mãe que na altura lutava contra um cancro na mama. Depois que a irmã morreu, dedicou-se ao fabrico de bolos e organização de festas de aniversário infantil. Criara uma firma na Internet e trabalhava por encomendas através dela. 
Segundo as informações recolhidas por Abílio, as duas irmãs eram muito unidas, e duas raparigas sossegadas. A mais nova apaixonara-se por um jovem bem-parecido e adiantara-se ao casamento. Quando o namorado soube que estava grávida, desapareceu e nunca mais souberam dele. A rapariga sofrera um grande desgosto, perdera a alegria e a vontade de viver, apesar de todos os esforços da irmã e da mãe, que sempre a apoiaram e animaram. Conseguira levar a gravidez até ao fim, mas dera o último suspiro, mal o filho nascera.
Pôs de lado o relatório e ficou pensativo. As informações coincidiam com o que Joana lhe havia contado naquele dia. Tinha que pensar no que ia fazer, mas ele queria aquele menino. Era da sua família, tinha direito a uma vida melhor do que aquela, que as duas mulheres lhe pudessem dar. Por outro lado, ele não tinha o direito de tirar-lhes a criança. Era tudo o que lhes restava, da filha e irmã que elas amaram. Ouviu-se um toque na porta e Rita entrou, trazendo alguns documentos para assinar.
- Aconteceu alguma coisa digna de registo enquanto estive fora? – Perguntou enquanto assinava o documento que tinha na sua frente.
- Nada a não ser os telefonemas da menina Cristina Barbosa, a perguntar se o senhor já tinha regressado. A propósito se ela telefonar hoje, o que faço?
- Passa-me a chamada. Faça com que este documento siga imediatamente para o seu destino. Depois localize o doutor Araújo e passe-me a chamada. É urgente.
- Mais alguma coisa doutor?
- De momento não, Rita.
A secretária pegou no documento e saiu, deixando-o entregue aos seus pensamentos.


1.4.16

MANEL DA LENHA.- PARTE XLI



O N.R.P. Vouga, a bordo do qual partiu para a Guiné, o futuro genro do Manel. (Foto da Marinha)




Em Janeiro de 65, Manuel compra um cabrito. Vai criá-lo para fazer uma festa no Verão se a filha terminar os estudos.  Aproveita que ela e o irmão fazem anos por essa altura e assim como se costuma dizer com uma cajadada mata dois coelhos.

 Em Março a filha mais velha, vem com a conversa de que quer namorar. Ele quer saber quem é o rapaz. E a que família pertence. Ela não sabe. Só sabe que é do Algarve e que está em Vale-de-Zebro pois é fuzileiro.  Ele diz-lhe para mandar o rapaz falar com ele.  E depois dessa conversa, autoriza o namoro.  O pessoal da Seca censura-o. Dizem-lhe que o  rapaz é de longe, não se sabe quem é, que os marinheiros não se prendem, arranjam namorada nova, cada vez que mudam de porto. Ele responde a quem o adverte.
-Não faço casamento a nenhum filho. Quem bem fizer a cama bem se deita nela.  A vida é dela e ela o escolheu. 
E foi assim que a filha mais velha começou a namorar, o homem com quem iria partilhar a vida.
Em Abril, pouco depois dos seus anos foram descobertos os corpos de Humberto Delgado e sua secretária. Na verdade tinham sido atraídos a uma cilada em Espanha em Fevereiro, e  assassinados pelos homens da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, que depois esconderam os seus corpos a vários kms de distância. Para o Manuel, e alguns amigos, foi um murro no estômago. Eles acreditavam que o general podia mudar o futuro do país. Três dias depois Salazar inaugura uma estátua sua em Santa Comba Dão, enquanto faz espalhar a notícia de que Delgado teria sido vitima de um ajuste de contas de facções rivais da oposição. 
Em Julho, a filha terminou o curso, e Manuel mata o cabrito, e faz uma festa como nunca tinha feito em toda a sua vida e para a qual convidou cunhados e sobrinhos.  
Pouco depois em Setembro a filha mais velha consegue emprego em Lisboa num laboratório de produtos farmacêuticos e Manuel fica feliz por ver a filha livrar-se do trabalho na Seca do Bacalhau.
A alegria não durou muito pois no mês seguinte o futuro genro embarca para a Guiné.  Manuel, tinha-se afeiçoado ao rapaz, e ficou apreensivo.


4.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE V


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Depois de comprar uma garrafa de água e de saciar a sede, retomou o caminho de volta e embrenhou-se de novo no seu passado
Estava-se no mês de Agosto e Isabel preparava as coisas para uns dias de férias que iam passar a Albufeira. Ela não conhecia nada no Algarve, mas Fernando tinha lá uns tios que viam no sobrinho, o filho que nunca tiveram e estavam sempre a convidá-los para lá passarem as férias. Naquele ano tinham decidido aceitar a oferta.  Assim aquela Sexta-feira era o último dia de trabalho de Fernando antes das férias. No dia seguinte apanhariam o comboio da manhã rumo ao Algarve e por isso ela ia metendo na mala o necessário para aqueles quinze dias, enquanto aprontava o jantar.
Foi nessa altura que o telefone tocou. Ela pensou que seria o marido a avisar que chegaria mais tarde, e pensou que não dava jeito nenhum, fazer serão, justamente nesse dia.

Dirigiu-se ao aparelho e levantou o auscultador.
Do outro lado uma voz desconhecida perguntou se era a casa do Sr. Fernando Cardoso, e depois de ouvir a confirmação, a voz identificou-se e disse que falava do hospital, e que queria falar com a esposa do Sr. Fernando Cardoso. Isabel sentiu um baque no peito, e a voz saiu-lhe tremula ao afirmar que era a própria.
Então, a voz informou que Fernando tinha tido um acidente, e pediu-lhe para se dirigir ao hospital. Por pouco não saiu de casa a correr sem desligar o fogão, de tal modo ficou aflita.
Apesar de morar a menos de cem metros da casa dos pais, não lhe ocorreu passar por lá. Dirigiu-se imediatamente à praça de táxis e entrando no primeiro da fila pediu, para a levarem ao hospital.
Chegara ao hospital e dirigira-se correndo à recepção. Lá lhe disseram que sim, Fernando Cardoso dera entrada no hospital. A sua moto fora abalroada por um carro em despiste.  
- Aguarde um momento por favor. Vou avisar o médico que já chegou.
A recepcionista pegou no telefone interno e fez uma chamada. Depois voltou-se e disse:
Entre por essa porta à esquerda, siga o corredor e bata na quarta porta. O médico está à sua espera.
Seguiu as instruções. O coração batia desordenadamente, os olhos rasos de água, a voz presa ela sentia-se esmagada como se o mundo tivesse desabado sobre si. Bateu à porta.
- Entre – ouviu-se uma voz masculina
- É a senhora Cardoso? Perguntou 
Incapaz de responder Isabel assentiu com a cabeça.  
- Eu sou o médico que atendeu o seu marido, e estes são os colegas da minha equipa, - disse apontando para um homem e uma mulher que se encontravam na sala.
-Os três somos da mesma opinião. O estado do seu marido é muito grave. Sofreu fracturas múltiplas, contusão cerebral, e hemorragia interna por rompimento do baço. Está neste momento no bloco operatório.



BOM FIM DE SEMANA