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1.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XI

                                                



E prefere os clássicos, ou autores contemporâneos?
- Pois, não sei. Há clássicos de que gosto muito, mas entre os modernos há autores excelentes. Como por exemplo, o Mia Couto, o João Tordo, Joaquim Pessoa, Agualusa, entre muitos outros.

- Sabe que sou escritor. Não utilizo o meu nome verdadeiro. Pelo que já viu do meu próximo livro, identificar-me-ia com algum dos seus autores preferidos?
- Sem dúvida que sim. Eu juraria que o senhor é Tomás Reis.
- Já lhe tinha pedido, para esquecer o senhor. Trate-me simplesmente por Hélder. Mas porque me associa a esse autor?

- Porque é um dos meus preferidos, li os quatro livros que publicou até hoje, e o estilo literário parece-me o mesmo.
- Folgo em saber que o Tomás lhe agrada, - disse com um sorriso que lhe suavizou os traços do rosto. - Efetivamente, eu sou Tomás Reis.
- Mas porquê tanto mistério? Por causa da…
Calou-se. Sem saber como prosseguir sem o magoar.

- Cegueira? Não se preocupe. Já lá vai o tempo em que me atormentava. Ao fim de quatro anos, um homem acostuma-se a tudo. Até a ser cego.
- Desculpe, não queria magoá-lo. Só que me intrigava que apesar do êxito das suas obras, não haja nada na Internet senão o seu nome e o nome da editora. Não há nas notícias de lançamento de nenhuma das suas obras, uma foto, uma indicação de presença, nada.

- Tudo começou com uma aposta com um amigo. Apostei em como era capaz de publicar em completo anonimato e ainda assim ser bem sucedido. O nosso valor está no que escrevemos, não na nossa vida pessoal.  Ele disse que eu não conseguia. Combinamos um prazo de cinco anos, se me tornasse famoso. No meu contrato com a editora há uma cláusula proibindo qualquer revelação sobre o autor. Há quatro anos, após a saída do quarto livro, terminaram os cinco anos da aposta. Pensava em convocar a imprensa e dar-me a conhecer, no lançamento do novo livro, mas então sofri o acidente que me deixou assim e fiquei desesperado. Pensei que nunca mais ia escrever uma linha que fosse.  Até que por fim a resignação chegou, e resolvi que estava na hora de retomar a minha vida.
Aborreço-a?

- De modo algum. Gostaria que continuasse. Falou em resignação. Não se pode fazer nada? Uma cirurgia, um tratamento, alguma coisa?
- Infelizmente não. Quando caí do cavalo, bati com a cabeça e fiz um hematoma epidural, com hemorragia intracraniana. Fui operado de urgência e estive algum tempo em coma. Quando recuperei estava cego. Submeti-me a muitos exames, procurei vários médicos, e todos me disseram o mesmo. Tecnicamente eu não devia estar cego, não havia nenhuma lesão, que  pudesse estar a provocar a cegueira. Só podia ser psicológico, e em breve voltaria a ver. A princípio acreditei. Mas com o passar dos anos, não há fé que resista.

- Não pode perdê-la. Sempre ouvi dizer que a fé é que nos salva. E se não há doença, que o impeça, tenho a certeza que vai recuperar a visão. Talvez demore, mas volta.
- Quem dera acreditar nisso. Mas por hoje chega de conversa. Viu a correspondência?
- Sim. Nada de importante. Apenas umas cartas do banco, duas delas com avisos do seguro da casa e do carro a debitar na sua conta dentro de dias,  outra com o extrato bancário.


Informando os amigos.
Eu lavei a cozinha  com lixivia pura , utilizando luvas, máscara, por causa das alergias e óculos de proteção. Pensei que estava bem protegida. E na verdade não tive qualquer problema de nível respiratório, mas os olhos ficaram vermelhos e chorosos, principalmente o que sofreu o transplante. Mas já estão bem melhores e conto que já hoje, Segunda feira  depois de mais uma noite de descanso, consiga retomar a leitura e comentários dos vossos blogues.

29.6.20

ISABEL - PARTE XXXIV

Na Sexta-feira ao fim da tarde, Luís, teve uma enorme surpresa. Ao sair do metro viu Isabel entrar no prédio onde ele morava. Ficou perplexo. O que é que ela ia fazer ali? De repente lembrou do encontro ali mesmo ao voltar a esquina. Será que estavam a morar no mesmo prédio? Não podia ser. Era absurdo demais.
Entrou no edifício e tocou a campainha da porteira.
- Boa noite D. Rosa. Preciso da sua ajuda. Disseram-me hoje, que uma amiga minha morava neste mesmo prédio. Uma senhora de nome Isabel Mendes. Será verdade?
- Boa noite, senhor Nuno. Mora uma menina no 2º D com esse nome, sim. Quer que  lhe dê algum recado?
- Não, por favor. Nem lhe diga que perguntei por ela. Um dia destes faço-lhe uma surpresa. Muito obrigado
Entrou no elevador. Sentiu uma vontade louca, de sair no segundo andar e bater-lhe à porta. Mas conteve-se e seguiu para o seu andar. Precisava pôr as ideias em ordem.
Que coisa. Como é que ele tinha ido morar precisamente para aquele prédio?
Era um absurdo. Até mesmo para ele, que era escritor.  Nunca se lembraria de escrever uma história assim. Não era credível. Aquilo  não podia ser coincidência. Alguém lá em cima os queria juntos. Devia ser por isso, que ele se impressionara tanto com ela, naquela manhã de nevoeiro. Nunca acreditara em histórias de amor à primeira vista. Sempre pensara que isso era fruto da imaginação delirante de certos romancistas. E ele até estava  vacinado contra as flechas do pequeno Cupido, desde a traição de Odete. Mas então que sentimento era aquele que o envolveu quando a segurou tremente nos seus braços? Que aos poucos,  foi minando todas as suas convicções e defesas em relação às mulheres? E que cada dia se tornava mais forte ao ponto de desejar passar o resto da vida a seu lado? Estava decidido. No dia seguinte seria o lançamento do seu livro e no Domingo levá-la-ia a casa dos pais. E depois… bem depois, iriam viver uma grande história de amor. Não era isso que o destino lhes andava a preparar?
Pensar que ela estava ali, à distância de quatro andares, desconcentrava-o Nessa noite não conseguiu acrescentar uma só linha à novela, mas o telefonema foi mais íntimo que nunca. Tão intimo, que os dois jurariam ter ouvido a tal palavra mágica. Fora ele que a pronunciara? Fora ela? Que importava isso, se era igualmente sentida pelos dois? 


Esperava poder pôr em dia os comentários neste fim de semana, as netas ficaram cá também no sábado porque os pais trabalharam, e no domingo o filho fez 40 anos e embora fosse uma festinha só para nós os quatro e as duas meninas, passámos o dia na casa deles.



17.6.20

ISABEL - PARTE XXVI



 Apesar disso, o livro foi um grande êxito, já ia na décima edição, e toda a gente andava meio doida, para saber quem era o escritor mistério. 
 E tinha já agendado a data de lançamento do segundo livro, para o fim do mês. Pelo meio ficava o projecto de reunir em livro algumas das suas reportagens, como documento histórico. E, no momento encontrava-se às voltas com uma telenovela, que o seu editor lhe fizera chegar, encomenda de um canal de TV. 
 Esses projectos e a idade avançada dos pais, tinham-no levado a comprar casa em Lisboa e a estacionar por tempo indeterminado a autocaravana, sua companheira e seu refugio nos últimos anos, pensando que desta vez, talvez ficasse mais tempo do que habitualmente. Ou até quem sabe aquele fosse o tempo de acabar com a vida de aventureiro, e criar raízes.
Começava a pesar-lhe a solidão. Como agora. Não é que estivesse a pensar em casamento ou constituir família. Não. Não era isso. O seu desespero ainda não tinha chegado a esse ponto. 
O que ele queria, era  ter dois ou três amigos com quem sair, beber um copo, trocar ideias. Apenas isso. Era muito jovem quando partira de Portugal, e depois disso, sempre que vinha era de passagem, apenas para ver e abraçar os pais. 
Dos amigos da faculdade, que não via há quase vinte anos, nem sabia se estavam no país, se tinham emigrado, ou mesmo se ainda se lembravam dele. E dos miúdos da sua rua, os seus companheiros de brincadeiras na infância, todos tinham casado, e partido para outros pontos da cidade, alguns até para o estrangeiro, atraídos por uma perspectiva de vida melhor. Parecia impossível, mas era a realidade. Tinha amigos espalhados por meio mundo, mas ali, na cidade onde nascera, não tinha um único amigo. E era disso, que ele sentia falta naquele momento. Alguém com quem assistir a um jogo de futebol, ou trocar dois dedos de conversa durante um jantar.
Deu uma volta pela Praça do Comércio, totalmente diferente da última vez que ali estivera, foi até ao cais das colunas, admirou o manto de águas serenas, que a lua cheia beijava descarada, a ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei, do outro lado do Tejo,  e murmurou:
- Tanta beleza meu Deus!
Olhou o relógio. Era quase meia-noite. Lançou um último olhar para o Tejo, e regressou ao hotel, fechando a gaveta das memórias, e interrogando-se sobre
quem era e onde viveria, aquela Isabel Mendes que tanto o impressionara.


Peço desculpa pelas ausências, vou comentando sempre que possa. Como sabem cuido de duas netas a mais nova com 10 meses. Elas deixam-me sem tempo nenhum senão à noite, e nessa altura os olhos não me dão muitas hipóteses. Actualizarei os comentários ao fim de semana pois nessa altura tenho os dias livres.


19.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XL




A refeição decorrera em silêncio, e chegara ao fim, quando o telemóvel tocou.
- Desculpa-me - disse Luísa levantando-se e pegando no telemóvel. – É a dona Aurora, esposa do médico. Deve ser algo importante, vou atender.
-Estou…
- Boa tarde. Luísa, ligue a televisão e veja as notícias. É muito importante, penso que estão a falar do homem que a Luísa salvou naquela noite.
- Vou já ver. Muito obrigado por ter ligado. Mais tarde telefono.
Desligou o telemóvel e disse dirigindo-se para a sala:
- Vem. Parece que estão a falar de ti no noticiário.
Ligou a televisão. Estava no intervalo. Sentaram-se e esperaram que acabasse a publicidade.
Logo de seguida, apareceu no ecrã o rosto de um conhecido jornalista.
“E agora voltamos ao caso do escritor Gil Gaspar e ao seu misterioso desaparecimento, na noite da tempestade Júlia, quando se dirigia da Universidade do Minho, onde dera uma conferência, para a sua residência nos arredores de Lisboa.
Inicialmente a família e a polícia suspeitaram de rapto, Todavia essas suspeitas iniciais, foram postas de parte pela judiciária à medida que os dias passavam sem que surgisse um pedido de resgate. E embora a família dissesse que ele regressava pela A1, a operadora do seu telemóvel tinha o último  registo do sinal do seu telemóvel na IP3, a alguns quilómetros de Penacova. Não se sabe, se o escritor saiu da autoestrada, enganado pela quase total falta de visibilidade, ou se teria pensado pernoitar nesta vila até que a tempestade passasse. O que se sabe é que ele desapareceu algures antes de chegar a Penacova. 
Até hoje, as investigações da polícia encontravam-se num impasse, já que não havia registo de nenhum acidente naquela noite, nem na autoestrada, nem no IP3."
Luísa ouviu um gemido e ao voltar-se viu que Gil se dobrara para a frente apertando a cabeça nas mãos trementes.
- Que se passa? Meu Deus, estás a tremer. Sentes-te mal?
- É a minha cabeça. São milhares de imagens a passarem por mim tão rápidas que algumas nem consigo ver bem. E a dor de cabeça voltou. Horrível, como se alguma coisa esteja a explodir cá dentro.
-Vou buscar um Benuron. Queres que tire o som à televisão?
- Não. Temos que ouvir o resto. Meu Deus, o bebé que estava sempre a  aparecer na minha cabeça, é a minha filha Mariana.
Entretanto o locutor informava agora que a polícia recebera nessa manhã um telefonema de um homem que costumava pescar no Mondego, e que encontrara um carro Mercedes preto espatifado lá no fundo da ravina, bem perto do rio. A polícia já informara a família que o carro era o do escritor. Encontrava-se de porta aberta, e tinha no porta luvas a carteira com dinheiro e documentos, e caído junto aos pedais, encontrava-se o seu telemóvel, desligado e sem bateria. Do escritor não havia rasto, a polícia suspeitava que pudesse ter saído atordoado, ou ter sido projetado e caído no rio, pelo que no local já se encontrava uma equipa de mergulhadores.
"Um nosso repórter também já se encontra no local, e entraremos em contacto com ele após mais um breve intervalo de apenas trinta segundos." – disse o jornalista e logo a emissão deu lugar à publicidade.
Luísa foi à cozinha e trouxe um copo de água e um comprimido, que lhe estendeu em silêncio.
- Não é preciso, obrigado. Já vai passando. Meu Deus a minha família deve estar numa aflição. A quantos estamos hoje?



Nota: Para quem não leu ontem, chamo a atenção para o post informação publicado à tardinha.


9.12.19

CONTOS DE NATAL - A PASSAGEM DE UM ANJO






As luzes cintilavam, brilhantes e coloridas, enfeitando o centro da pequena cidade. Quando a noite caía, o manto negro da lua estendidos sobre a localidade, realçava a brancura da neve e as decorações festivas. Os habitantes, bem resguardados do frio, passeavam calmamente admirando a beleza do lugar e a alva dádiva da natureza que se acumulava nos telhados e muros das casas, nas bermas dos passeios, assim como na escultura de pedra no centro do jardim. A mercearia ainda estava aberta, o sapateiro continuava a pregar solas novas nos sapatos, a livraria publicitava a última obra do escritor da terra e a loja dos brinquedos estampava no rosto das crianças o misto da surpresa, da alegria e desejo de receber uma prenda. Era Natal!
- Toni, sou o Toni...para facilitar! dizia com graça e humildade de quem se habituou a pedir. O metro e oitenta de outros tempos esfumaram-se no corpo encolhido para se defender do frio, das pernas dobradas para mendigar e no peso dos anos que se iam adicionando. Já ninguém lhe perguntava o nome mas ele dizia, falando consigo próprio e ao seu companheiro ursinho, um boneco usado, de orelhas redondas e castanhas, os olhos negros, dois simples botões, um pregado e o outro descosido
tombando sobre uma das faces como uma lágrima corrida.
Nessa noite, o frio redobrara de intensidade, os flocos de neve amontoavam-se sobre a já existente e Toni, para se defender da agreste temperatura, espremeu o corpo contra uma das paredes de pedra da escultura no centro do jardim. Pegou no ursinho e poisou-o no espaço livre da escultura, virado de costas para ele. Na escuridão da noite lançou a corda sobre um dos braços da escultura e prendeu-a com firmeza. Subiu para o pedestal de pedra da escultura e enfiou o laço ao redor do pescoço. Olhou para o ursinho que de costas voltadas não via as lágrimas que lhe humedeciam as faces. - Adeus meu amigo!, disse num tom triste. Respirou fundo e fez um apelo ao desespero que é a coragem de quem nada mais tem.
Nesse instante, o latir assanhado de um cão invadiu o silêncio. Direcionara o focinho para o mendigo e ladrava violentamente com as pernas da frente esticadas para diante, num gesto de denúncia. Toni ficara especado, não ousara mover-se, incrédulo com a atitude do cachorro de olhar esgaziado que não parava de latir. O mendigo tirou o laço do pescoço e o animal soltou então um gemido dócil esfregando o focinho entre as patas. - Boa noite meu amigo..., disse tremelicando a voz. O cão agitou vibrante a cauda e desapareceu na noite enquanto o dono caminhava no seu encalço.
Vendo o mendigo que se expunha agora à luz de um candeeiro, saudou-o com um aceno erguendo o braço e dizendo:
-Boa noite, senhor...?
O mendigo sorriu apertando o ursinho contra si.
-Toni, sou o Toni...,  para facilitar!
-  Feliz Natal senhor Toni!


ADRIANO CENTENO  in Chiado Editora  "Natal em Palavras"  coletânea de contos de Natal

16.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXIX





Naquela noite, Ricardo custou a adormecer. Talvez se tivesse bebido mais uns copos, conseguisse embotar o espírito e não recordar que estava sozinho a milhares de quilómetros de casa, numa terra hostil, cujos costumes não compreendia, nem defendia, embora respeitasse, quando na sua terra, a sua família comemorava a magia daquela noite sem a sua presença.
Nunca em outras missões se sentiu tão cansado, tão solitário e com tanta vontade de regressar a casa. Decididamente, quando acabasse aquela missão ia requerer a sua passagem à situação de Reserva de disponibilidade.
Clara, tivera razão, quando lhe dissera que ele tinha que optar entre a carreira e o amor dos filhos. Ela era uma mulher inteligente e sensível. E ele estava grato ao destino por a ter posto na sua vida. Os seus filhos adoravam-na, e mesmo à distância ele via que ela os amava.
É certo que ela recebia um bom ordenado para cuidar deles. Mas se dinheiro compra cuidados não compra amor.
Antónia dissera-lhe antes da partida que Clara tinha no peito um coração amoroso, e a alma nos olhos. Francisco também lhe dizia que ela era uma grande mulher e que estava a tratar os seus filhos como uma verdadeira mãe. Mas poderia, esse coração amoroso, essa grande mulher, algum dia encantar-se por um homem como ele? Um homem amargo, desiludido com a vida e com o sexo oposto, que não acreditava no amor, a não ser claro o amor filial? Decerto que não. “Um dia interessar-se-à por alguém, mas decerto não por ti”
Acabou por adormecer. E sonhou que estava em casa, que Clara já não era apenas a sua esposa nominal, mas que eram um casal na verdadeira aceção da palavra. Ele já não estava no exército e tinha-se tornado um escritor famoso.
Acordou cedo, e graças ao sonho, poder-se-ia dizer que acordou feliz.
E logo depois do pequeno-almoço, dirigiu-se ao seu gabinete, a fim de ler o correio eletrónico.
A mensagem de Clara era muito curta. Talvez porque fora escrita já depois da meia-noite, ou porque tinham falado na véspera, ou ainda porque entendesse que o vídeo dizia mais do que as palavras.
Abriu o vídeo. E viu a sala da sua casa. A um canto da sala havia uma árvore de Natal muito bem decorada, e profusamente iluminada. Sob ela, quatro embrulhos, onde Ricardo conseguiu ler, os nomes de Bernardo, Soraia, Miguel e Nuno. Ao lado sobre uma mesa baixa, um presépio com várias figurinhas, entre musgo, e uma cabana feita de cortiça, com as imagens que simbolizavam Maria e José, um de cada lado de uma manjedoura com algumas palhas, mas sem o menino. “Decerto só o vão por ali depois da meia-noite” - pensou. Os seus filhos brincavam com dois meninos mais velhos. "Devem ser os filhos de Adelaide, que Clara disse que ia convidar para a ceia. Então ouviram-se sinos e o característico riso do Pai Natal, que entrou na sala, com um saco às costas, e logo foi rodeado pelas quatro crianças.
O Pai Natal pôs o saco no chão e tirou uma caixa, Leu o nome.
-Soraia. Há aqui alguém que se chame Soraia?
-Eu… eu, - gritou a menina puxando-lhe o casaco
O Pai Natal entregou-lhe uma caixa e seguindo o mesmo esquema entregou os outros três presentes, e de seguida disse que ainda tinha de ir levar presentes a muitos meninos e saiu.
As crianças rasgaram os papéis e ficaram radiantes com os presentes.   
Um órgão musical, uma bicicleta, um estojo de pintor com cavalete e tudo e uma bola de futebol. Decerto as prendas, que cada um desejava, a julgar pela alegria que demonstravam.
Depois Tiago pegou os embrulhos que estavam debaixo da árvore e distribuiu-os. Os meninos abriram-nos e verificaram que se tratava de roupa. Iam voltar para os seus brinquedos, mas de repente os seus filhos voltaram-se para a câmara e disseram:
-Boa-noite, pai. Temos muitas saudades tuas, -disseram soprando um beijo na direção da câmara.
 “Quem inventou que um homem não chora?”- murmurou limpando o rosto à manga do camuflado.


21.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIV


Sentaram-se. Ela no sofá, ele no cadeirão em frente. Fitaram-se. Ela desviou o olhar, brincou com o anel.
“Está tensa. Parece receosa”, pensou ele.
 Inclinou-se para a frente, e instintivamente ela afastou-se um pouco para trás.
“Está com medo de mim. Mas porquê?"
Pegou no livro que estava na mesinha.
- Gostas de ler?
- Muito.
- É o teu autor preferido?
- É o primeiro livro que leio dele. Diana, a minha colega de emprego, disse-me maravilhas e instigou a minha curiosidade.
- Sabes que a tua irmã compra todos os livros deste autor?
-Sim? Talvez me empreste algum, quando acabar de ler esse. E tu? Costumas ler? Quem é o teu autor preferido?
- Não tenho tido grande tempo para o fazer ultimamente. Mas sim gosto de ler, embora não tenha um escritor favorito. Gosto de vários, nacionais e estrangeiros.
Calou-se e o silêncio voltou a instalar-se na sala. Um silêncio pesado. Como se ambos não soubessem o que dizer. Ou tivessem medo de dizer o que não queriam. Ele estudava todas as reações daquela mulher que o intrigava. Ela não sabia o que esperar daquela visita, estava numa fase crítica da sua vida, sentia-se frágil, carente, e ele era demasiado sedutor. Tinha receio do sofrimento que lhe adviria se cometesse a tolice de se apaixonar por ele.
- Gostei de conhecer os teus irmãos, -disse pousando o livro em cima da mesa. – O Ricardo tem uma bonita família.
-É verdade. A Teresa é uma boa esposa e uma excelente mãe. Todos gostamos muito dela. E os meninos, são uns amores.
“ Perdeu o medo, os olhos brilham. Vê-se que adora a família. Um tema a explorar, para que relaxe”.
- Vivem perto dos vossos pais?
- Vivem nos arredores de Coimbra.  O Ricardo gere a empresa de mudanças, do sogro.
- O Luís disse-me que trabalhava na Biblioteca Nacional.
- Sim. Às vezes v3m-me visitar. Como naquele dia. 
-Sei.
O silêncio instalou-se de novo entre eles. Tenso, incómodo. Ele levantou-se e foi até à janela. Afastou o cortinado e ficou a olhar pela janela. Lá fora a rua estava quase deserta. Era a noite de domingo, no dia seguinte começava uma nova semana de trabalho. Além disso as noites iam frias, em contraste com os dias quase de verão. Olhou o relógio, nove horas. Cedo demais para ir para casa. Atrás dele, Anete mantinha-se em silêncio. Numa espera nervosa. Ele não percebia porque é que ela tinha medo dele. Não pretendia fazer-lhe mal. Apenas queria… Ele nem sabia bem o que queria. Naquele momento, Salvador, o advogado brilhante, com um extraordinário dom de palavra, que deixava todos pendentes dele em tribunal, não sabia como lhe perguntar porque se divorciara. Tinha a certeza de que ela se iria retrair mais ainda e quem sabe o punha na rua. E ele estava a gostar de estar ali.
Na rua, um rafeiro tombou um recetor do lixo, espalhando-o no passeio em frente.



28.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XVII



Isabel, tivera um dia complicado no escritório. O telefonema de Hélder, no fim da manhã, contribuíra para uma desconcentração na parte da tarde, que a obrigara a um esforço extra para fazer alguma coisa de útil. Felizmente que no dia seguinte era sábado, podia descansar um pouco. Cansada, tomou um relaxante banho, espalhou sobre o corpo um creme hidratante, enfiou uma curta camisa de dormir, o robe de seda, e sem ânimo para fazer jantar, pensou em fazer um chá e duas tostas. Acabara de pôr a chaleira ao lume com a água para o chá, quando a campainha tocou. Espreitou pelo ralo, e ficou sem cor ao reconhecer o escritor. Olhou para si mesma, para a roupa inapropriada para receber visitas, que vestia, mas acalmou-se ao pensar que ele não podia vê-la. Mas seria mesmo ele? Devia estar enganada. Ele não sabia onde ela morava. Nem se devia lembrar já da sua existência. Nesse momento a campainha voltou a tocar de forma impaciente. Voltou a espreitar. Não havia dúvida. Era ele. Abriu a porta, quando ele se aprestava para tocar pela terceira vez.
- O que estás aqui a fazer? Como soubeste onde morava?
- Se me convidares a entrar, posso responder a isso e a muito mais.
- Mas estás sozinho? E o Rex?
Ele sorriu. Sem se dar conta, perguntando pelo cão guia, ela tinha-se denunciado.
- Já não preciso dele, - disse tirando os óculos e deixando-a mirar-se nos belos olhos escuros. Mas vamos ficar a conversar aqui ao pé da porta? Não me mandas entrar?
- Sim, claro, desculpa. Vem para a sala. Senta-te. Vou só apagar o lume, ia fazer um chá.
Regressou logo a seguir. Ele estava de pé, com uma foto dos dois na mão. Tinha sido tirada pouco antes de se separarem dez anos antes, e a lembrança do que tinha acontecido na época tingiu de carmim, as faces da jovem.
- Senta-te. Suponho que convenceste a minha avó a dar-te a minha morada, -disse sentando-se no sofá em frente dele. Só não entendo para quê? Dez anos é muito tempo, para ainda te lembrares de mim.
- Dez anos Isabel? Pensas mesmo que não te reconheci? Que não sei que eras tu que estiveste a meu lado estes dois meses?
Ela perdeu a cor. Balbuciou.
- Como o soubeste? E desde quando?
- Senti-o no primeiro momento na praia, quando me saudaste. Não quis acreditar, pensei que estava a ficar maluco, e por isso não te respondi. Depois, procuraste-me para te ofereceres como secretária, e fiquei meio convencido que realmente eras tu, mas a certeza, só a tive quando leste para mim. Lembrava-me bem quantas vezes, tínhamos lido um para o outro há dez anos. Quando falaste do teu amigo, senti vontade de te abraçar e te dizer que não podias esconder-te. Estavas dentro de mim, achar-te-ia sempre, mas depois pensei que devias ter uma razão para te esconderes, quem sabe tinhas um namorado, sei lá. Dez anos, é muito tempo, não sabia nada de ti, podias até ter casado. Esperei que fosses tu a falar. Além disso que podia eu oferecer-te, na situação em que me encontrava?  Mas logo depois, começou a acontecer algo, com que eu já não sonhava. Começava a distinguir formas e movimentos. Então fiz a mala e parti para Barcelona, pois tinha sido lá que tinha tentado todos os tratamentos para recuperar a visão.

25.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XI

                                                       





E prefere os clássicos, ou autores contemporâneos?
- Pois, não sei. Há clássicos de que gosto muito, mas entre os modernos há autores excelentes. Como por exemplo, o Mia Couto, o João Tordo, Joaquim Pessoa, entre muitos outros.
- Sabe que sou escritor. Não utilizo o meu nome verdadeiro. Pelo que já viu do meu próximo livro, identificar-me-ia com algum dos seus autores preferidos?
- Sem dúvida que sim. Eu juraria que o senhor é Tomás Reis.
- Já lhe tinha pedido, para esquecer o senhor. Trate-me simplesmente por Hélder. Mas porque me associa a esse autor?
- Porque é um dos meus preferidos, li os quatro livros que publicou até hoje, e o estilo parece-me o mesmo.
- Folgo saber que o Tomás lhe agrada, - disse com um sorriso que lhe suavizou os traços do rosto. - Efetivamente, eu sou Tomás Reis.
- Mas porquê tanto mistério? Por causa da…

20.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE IV




Depois do jantar, como já era tarde, e a avó se deitava cedo, Isabel arrumou as suas roupas e como a noite estava quente resolveu dar um passeio. Enquanto o fazia, pensava no que a avó lhe tinha contado. Hélder estava cego. Como era possível? O que teria acontecido? E era escritor? Ela nunca ouvira o seu nome ligado à literatura, nem vira nenhum livro dele. Decerto usaria um pseudônimo. Mas qual? De súbito viu-o no passeio do outro lado da rua, e agora sim, reconheceu o cão guia. Ficou parada no passeio, vendo como o cão parava junto do portão do jardim, que ele abria, e entrava, fechando-o atrás de si.
Sentiu uma pena enorme dele, e dela que em dez anos não esquecera um único dia, a vergonha da rejeição que sofrera, e o amor que desde menina lhe devotava.

25.1.16

AMANHECER TARDIO XLI


foto do google

Quando os três chegaram ao hotel ,onde ia decorrer o lançamento de “Vidas cruzadas”, o segundo livro de Nuno Fraga, já o evento tinha começado. Na verdade, Afonso esquecera os convites, tiveram que voltar atrás e por isso estavam atrasados. O local estava apinhado. Muita gente conhecida, gente da rádio e TV. Também muitos jornalistas e fotógrafos. Todos queriam conhecer o escritor da moda. Este encontrava-se sentado numa secretária onde autografava os livros que lhe iam apresentando. Estrategicamente colocada,  outra mesa repleta de livros. Também havia várias mesas com doces e salgados bem como água e outras bebidas. As duas amigas compraram, o livro e dirigiram-se à mesa do autor para recolher o seu autógrafo. Quando Isabel finalmente conseguiu vê-lo, empalideceu, deixou cair o livro, e sem se preocupar em apanhá-lo dirigiu-se para a porta de saída deixando a amiga espantada. Luís também a viu. Cerrou os punhos e apertou-os com raiva. Desejou largar tudo e segui-la, mas sabia que não podia fazê-lo. Pelos seus leitores que aguardavam pacientes na fila, a sua atenção, mas também por ela. Bastava que a chamasse para atrair sobre ela a curiosidade dos jornalistas ali presentes. Continuou pois a sessão enquanto Amélia e Afonso se dirigiam para o carro onde Isabel já os esperava.
- Que aconteceu Isabel? – Perguntou-lhe a amiga. Estás a tremer.
- O Luís, - murmurou
- O Luís? – Admirou-se a amiga - Mas o que é que tem o Luís?
- É ele.
- Ele quem, mulher? O escritor?
Acenou com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas.
Virando-se para o companheiro Amélia disse:
- Afonso por favor volta para lá. Nós vamos tomar qualquer coisa ali na pastelaria em frente e já lá vamos ter.
- Não se preocupem. Eu vou. Afinal de contas ainda não tenho o autógrafo do autor.
Quando ficaram sós, Amélia disse.
- Não fiques assim. Deve haver uma explicação.
- Claro que há. Servi de cobaia ao escritor da moda. Quem sabe até devia sentir-me honrada, - disse com amargura.
 - Como tu sofres Isabel. Sabia que estavas apaixonada, mas não pensei que fosse um sentimento tão intenso.
-Como é que eu ia adivinhar? Se nunca tinha visto nenhuma fotografia dele? E depois parecia tão sincero, era tão convincente, que pelas suas palavras fui alimentando sonhos e sentimentos. Só mentiras. Estou destroçada. Por favor Amélia, leva-me a casa. Quero ficar sozinha.
- Claro. Vou ligar ao Afonso. Levo-te a casa e volto depois. Quero ver melhor esse homem.
Mas quando meia hora depois voltou, Afonso já se encontrava cá fora com o livro autografado, e não teve ensejo de rever o escritor.



AMANHECER TARDIO - PARTE XL

Na Sexta-feira ao fim da tarde, Luís, teve uma enorme surpresa. Ao sair do metro viu Isabel entrar no prédio onde ele morava. Ficou perplexo. O que é que ela ia fazer ali? De repente lembrou do encontro ali mesmo ao voltar a esquina. Será que estavam a morar no mesmo prédio? Não podia ser. Era absurdo demais.
Entrou no edifício e tocou a campainha da porteira.
- Boa noite D. Rosa. Preciso da sua ajuda. Disseram-me hoje, que uma amiga minha morava neste mesmo prédio. Uma senhora de nome Isabel Mendes. Será verdade?
- Boa noite, senhor Nuno. Mora uma menina no 2º D com esse nome, sim. Quer que  lhe dê algum recado?
- Não, por favor. Nem lhe diga que perguntei por ela. Um dia destes faço-lhe uma surpresa. Muito obrigado
Entrou no elevador. Sentiu uma vontade louca, de sair no segundo e bater-lhe à porta. Mas conteve-se e seguiu para o seu andar. Precisava pôr as ideias em ordem.
Que coisa. Como é que ele tinha ido morar precisamente para aquele prédio?
Era um absurdo . Até mesmo para ele, que era escritor.  Nunca se lembraria de escrever uma história assim. Não era credível. Aquilo  não podia ser coincidência. Alguém lá em cima os queria juntos. Devia ser por isso, que ele se impressionara tanto com ela, naquela manhã de nevoeiro. Nunca acreditara em histórias de amor à primeira vista. Sempre pensara que isso era fruto da imaginação delirante de certos romancistas. E ele até estava  vacinado contra as flechas do pequeno Cupido, desde a traição de Odete. Mas então que sentimento era aquele que o envolveu quando a segurou tremente em seus braços? Que aos poucos,  foi minando todas as suas convicções e defesas em relação às mulheres? E que cada dia se tornava mais forte ao ponto de desejar passar o resto da vida a seu lado? Estava decidido. No dia seguinte seria o lançamento do seu livro e no Domingo levá-la-ia a casa dos pais. E depois… bem depois, iriam viver uma grande história de amor. Não era isso que o destino lhes andava a preparar?
Pensar que ela estava ali, à distância de quatro andares, desconcentrava-o Nessa noite não conseguiu acrescentar uma só linha à novela, mas o telefonema foi mais íntimo que nunca. Tão intimo, que os dois jurariam ter ouvido a tal palavra mágica. Fora ele que a pronunciara? Fora ela? Que importava isso, se era igualmente sentida pelos dois?