Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta telemóvel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta telemóvel. Mostrar todas as mensagens

13.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE V



Anabela acordou com um raio de sol acariciando-lhe docemente o rosto.     Verificou as horas. Sete horas. Adormecera tão tarde que devia ter dormido um pouco mais. Porém tinha deixado a persiana aberta e agora seria impossível dormir de novo. 

Pegou no telemóvel para ver se tinha alguma mensagem, mas verificou que estava sem bateria. Abriu a mesa de cabeceira, tirou o carregador e ligou-o à corrente. Depois ligou-o, inseriu o código e deixando o aparelho a carregar, dirigiu-se à casa de banho, despiu o pijama de algodão rosa, pôs uma touca na cabeça e meteu-se debaixo do duche. Minutos mais tarde, fechou a torneira, e envolveu-se na toalha.

Escovava os dentes quando ouviu o telemóvel tocar. Provavelmente era a comadre, ninguém mais lhe ligaria tão cedo.  Não se apressou, sabia que ela voltaria a ligar. Despois de lavar os dentes, acabou de se limpar e depois de ter passado o creme hidratante na pele, vestiu o robe, retirou a touca, pegou na escova e durante alguns minutos escovou a sua longa e bela cabeleira negra, prendendo-a em seguida numa única trança.

Acabara de sair da casa de banho, quando o telemóvel voltou a tocar.

- Sim, bom dia!

-Bom dia. Acordei-te? Já tinha ligado há minutos.

-Sim, eu ouvi, mas estava na casa de banho. Alguma novidade?

-O Óscar morreu. Ou melhor apareceu morto numa viela com um tiro na cabeça, a polícia acredita que tenha sido vítima de um ajuste de contas.

Calou-se. E o silêncio manteve-se de tal modo que Paula pensou que a chamada caíra.

Anabela sentiu as pernas a tremer. Sentou-se na cama e engoliu em seco, as lágrimas correndo silenciosas pelo rosto. Mas não eram lágrimas de dor e sim de alívio.

O silêncio manteve-se de tal modo que Paula pensou que a chamada caíra.

- Anabela? Ainda estás aí?

-Estou, desculpa, como soubeste?

A polícia foi ao hospital e à pensão à tua procura e a rececionista disse-lhes que tinhas ido de férias e deu-lhe o meu nome e o endereço da clínica. Eu disse-lhes que ia entrar em contacto contigo. Tentei falar contigo ontem à noite, mas tinhas o telemóvel desligado.

-Ficou sem bateria e só reparei esta manhã.

-Bom, suponho que virás para cima agora. O que devo dizer ao agente se voltar à clínica, ou telefonar?

-Claro que sim. Vou fazer a mala e ponho-me a caminho. Vou direta ao posto da polícia.

-Então depois telefona-me. Talvez seja melhor ires jantar connosco esta noite. Estamos a teu lado para o que for preciso, tu sabes.

-Obrigado. Logo ligo. Beijo.

-Vem com calma, não tenhas algum acidente. Até logo. Beijo


20.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XI


Depois Fernando levantou-se e aproximou-se de Laura que se encontrava de costas, olhando através da janela da cozinha.

- É verdade o que a tua mãe disse. Ainda tens as mensagens do teu marido no telemóvel?

-Não. Mas tive-as durante muito tempo e ouvia-as, sim. Ajudaram-me a passar os tempos mais críticos quando me custava a crer que nunca mais o veria. Tu não sabes o que é amar uma pessoa de corpo e alma e de um momento para o outro perdê-la.

- Não, - disse ele com voz rouca, - mas sei o que é amar assim, alguém que nunca me amou. A gente não vive, sobrevive.

E dizendo isto virou-lhe as costas e foi-se embora, deixando-a  sem palavras.

 Laura fechou a porta e regressou à cozinha, pôs a loiça na máquina, e limpou a mesa. De seguida dirigiu-se ao quarto da filha para o limpar, tentando  esquecer-se do que Fernando lhe tinha dito, mas por mais que se ocupasse das tarefas domésticas, não  o conseguiu.

Claro que os pais, principalmente a mãe, também não ajudaram nada. Ela amava os pais, mas estava desejosa de que eles voltassem para casa e a deixassem em paz.

Nunca um dia lhe parecera tão longo. E quando finalmente chegou a hora de se deitar, e se recolheu ao quarto, continuava com mil ideias contraditórias na cabeça.

Tomou banho, vestiu o curto pijama de seda, lavou os dentes e dirigiu-se para o enorme leito onde todas as noites se perdia de saudade. Antes, porém, pegou na moldura com a foto de Nuno que tinha em cima da cómoda e acariciou o seu rosto, enquanto murmurava.

-Sinto-me tão perdida sem ti. Toda a minha família insiste em que te devo esquecer e seguir em frente, procurar um novo amor, dar uma figura masculina ao nosso filho, que não chegaste a conhecer. Sei que o Fernando Novais, aquele nosso amigo de infância, que andava sempre com o meu irmão, me ama, toda a gente o sabe na família, embora eu só o tenha sabido, muitos meses depois da tua partida. Não que mo tenha dito, mas li-o nos seus olhos e por isso o afastei, renunciando a todo o apoio que como psiquiatra me podia dar. Mas agora que o Gonçalo encontrou a mulher da sua vida, casou e foi de lua de mel, pediu-lhe para ele me ajudar com as crianças, vejo-o todos os dias.  

Fez uma pausa enquanto se sentava na cama, com a foto nas mãos e os olhos rasos de água

- A nossa menina, está uma mulherzinha, tão linda e estudiosa que terias orgulho dela. O Miguel é um menino lindo, mas um pouco rebelde. Os meus pais insistem em que ele precisa de uma figura masculina.  E sei que o Fernando seria bom com as crianças, e elas gostam dele. Não quero trair a tua memória, mas não sei que fazer, deixaste-me tão sozinha.

Pousou os lábios delicadamente sobre a foto como se beijasse o rosto do falecido, e de seguida pousou a moldura de novo sobre a cómoda.

Puxou a roupa da cama para trás, deitou-se e apagou a luz.  Já passava da meia-noite e no dia seguinte teria que se levantar cedo para tratar do pequeno almoço das crianças que iam para a escola. Mas não conseguia dormir. Pensava na proposta de emprego do amigo. Sabia que depois que os pais regressassem a Braga e o filho fosse para a creche se ia sentir ainda mais só do que se sentira nos últimos tempos.

16.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE IX

 


E não tinha mesmo. Foram precisos dois anos para que ela apagasse do telemóvel as mensagens do marido e o seu número do telemóvel. E mais meio ano para que começasse a pensar em pôr o filho numa creche e voltar ao mercado de trabalho.

Entretanto os pais e o irmão iam fazendo pressão sobre ela, dizendo-lhe que era muito jovem, para ficar sozinha o resto da vida, que se devia dar a si própria e ao amor uma nova hipótese.

Laura, não queria pensar em nada mais do que retomar a sua carreira de professora e cuidar dos filhos. A morte repentina do marido deixara-a tão traumatizada que ela não queria voltar a pensar noutro relacionamento de amor que não fosse o maternal.

Ouviu a campainha, e dirigiu-se à porta para a abrir. Sabia que era Fernando que estava de volta, era demasiado cedo para serem os pais.

- Entra. Estava na cozinha, mas não sei o que tens por hábito comer de manhã. Café com leite, sandes ou torradas, iogurtes, sumo de frutas, ou algo mais substancial?

- O que quiseres. Embora saiba que é errado, raramente tomo o pequeno almoço. Bebo um café de manhã, e por volta das dez, ou dez e meia a minha assistente leva-me uma sandes e um galão que pede no café que fica ao lado do consultório. Tu já comeste?

- Comi com as crianças. Tens aí, pão, manteiga, queijo, fiambre e fruta, - disse assinalando a mesa posta. Podes escolher o que te apetecer enquanto eu aqueço o leite e faço o café.

- Enquanto o fazes, vou lavar as mãos. Quando voltar fazes-me companhia, preciso conversar contigo – disse ele afastando-se.

Voltou pouco depois, sentou-se e esperou que Laura se sentasse na sua frente para começar.

- O Gonçalo disse-me que já inscreveste o Miguel  numa  creche, onde entraria  já no início de Outubro. Também me disse que tencionavas recuperar a tua carreira este ano letivo, mas não conseguiste colocação em nenhuma escola perto de casa. E que por isso estavas muito aborrecida. Eu tenho uma proposta a fazer-te que talvez te interesse.

- Uma proposta? De trabalho? Que eu saiba não és diretor escolar, nem dono de nenhum colégio.

-Bom, não se trata de ensino, mas é temporário e podia interessar-te para não estares o tempo todo sozinha em casa a remoer mágoas.

-Do que se trata?

A minha assistente está grávida e vai ter bebé já em Outubro pelo que no fim deste mês vai entrar de baixa, e depois terá a licença de maternidade. Serão seis ou sete meses no máximo de ausência, o que me obrigará a recorrer a uma agência de trabalho temporário para conseguir uma substituta.  

Se estiveres interessada, podes aceitar o lugar, a mim dá-me jeito porque não tenho que trabalhar com uma desconhecida e estarás livre antes do fim do ano letivo para voltares à tua carreira. Que me dizes? 

23.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVII

 

Telefonou pouco antes das quatro da tarde, quando estava a acabar o turno. Ela atendeu ao segundo toque.
- Sim.
- Olá, como estás?
- Esperando…
- Estou a ligar por isso, Vou sair agora. Estás na escola?
- Ouves a campainha? As aulas estão a terminar agora.
- E vais para casa?
- Vou.
- Vou lá ter contigo. Pode ser?
- Penso que fui muito clara naquele dia, Nuno. 
- Está bem. Até já. Beijo.
Desligou sem esperar resposta.
Luísa ficou uns segundos a olhar para o telemóvel. Depois apressou-se a guardar o material que estivera a usar. Pegou na mala e levantou-se para sair, no momento em que a auxiliar entrava na sala para a limpeza da mesma.
Na saída saudou a outra auxiliar que ao portão impedia as crianças de saírem sem antes identificar o familiar que as viera buscar e entrou no carro.
Estava nervosa. Tinha noção de que algo na sua vida ia mudar muito em breve, fosse qual fosse a decisão que Nuno tivesse tomado. Dentro de dias, faria trinta e cinco anos. Alguns diriam que estava na plenitude da vida. Porém não era assim que ela se sentia.
A verdade, é que a vida teimara em ser para ela, como as bruxas más dos contos de infância. Tempos atrás, pensando que Nuno tivesse casado e fosse feliz, ela só pensava nas suas aulas, nas suas crianças, e era feliz. Mas o reencontro com o homem que sempre amou, o saber que ele não tinha qualquer compromisso de ordem amorosa, despoletou o vulcão adormecido no seu peito. As aulas, as crianças, as reuniões com as colegas, já nada lhe bastava. Ela precisava de algo mais que a completasse. Algo que ela pensou ter morrido, com a má experiência do passado, mas que renascia agora mais forte que nunca.
O que ele lhe contara no último encontro, chocara-a. Como não? Saber que uma pessoa, perde um membro por causa de uma mina, que os senhores da guerra deixaram esquecida como objeto inofensivo choca sempre. Mas isso não alterou em nada o que sentia por ele. Ou talvez sim, pois a admiração que sempre sentiu por ele era agora bem maior.
Mas e ele? Conseguiria algum dia livrar-se daquele sentimento de inferioridade, que a mina lhe deixou no lugar da perna?
Tantas interrogativas passavam pela sua cabeça, enquanto conduzia a caminho de casa. Precisavam fazer amor. Luísa sentia que era a única coisa que podia por tudo nos seus devidos lugares, para o bem ou para o mal. Só nesse momento intimo, ela saberia se o amor que sentia por Nuno, era maior do que o medo das lembranças que o acto em si, despoletaria. Acreditava que acontecesse o mesmo com ele.
Finalmente chegou ao estacionamento do seu prédio. Nuno já tinha chegado. Saiu do carro mal ela estacionou o veículo. Deu a volta ao carro, e abriu-lhe a porta.
- Olá, – disse saudando-a com um leve roçar dos lábios, pelos seus. - Tive tantas saudades tuas. Vim buscar-te. 
- Olá. Está um trânsito  infernal. Onde vamos? - perguntou abrindo a porta de casa. Sem esperar resposta, acrescentou.
- Espera-me na sala. Vou tomar um duche e mudar de roupa. Não me demoro.


Nota: Aos amigos que manifestaram o desejo de adquirir o RENASCER. O meu mail está no meu perfil.


15.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIX

 



Ele sentou-se na cama e ela sentou-se a seu lado.
-Viste a fotografia. Sou eu, não sou doutora? Não estou doido, pois não? – perguntou com voz rouca, as mãos a tremer.
- Claro que és tu. Há alguma coisa de muito estranho em tudo isto. Penso que devíamos telefonar imediatamente para o inspetor. Espera, vou buscar o telemóvel, eu tenho o número dele.
- Mas hoje? Decerto não vai atender!

Ela foi à cozinha, pegou um copo de água e o telemóvel e voltou ao quarto.
- Toma, bebe um pouco. Vai fazer-te bem.
Ligou o número e aguardou um pouco.
- Está desligado. Era de prever. Vou mandar mensagem. Vê-la-á quando o ligar.

“Inspetor- foi dizendo em voz alta, o que escrevia.- Lembra-se do sinistrado que socorri no início do mês, sem documentos, nem memória? Acabamos de descobrir que desapareceu na América. Por favor contate-nos com urgência. E se puder veja o telejornal de hoje. Helena”

-Já está. Sentes-te melhor? A notícia não te fez recordar nada?
- Não. Contínuo vazio, de tudo o que me aconteceu até acordar no hospital.
-E no entanto quando quis inventar-te um nome, disseste imediatamente Fernando. E sonhaste com um concerto, e um pianista sem rosto. Agora sabemos que esse pianista, és tu. Tenta acalmar-te, desfruta da noite, logo ou amanhã, procuramos na internet, pelo teu nome. Pode ser que haja alguma coisa.

Pôs-se de pé e deu-lhe a mão. Ele levantou-se. Ficaram os dois muito perto um do outro, tão perto que teria sido muito fácil ceder ao impulso de a abraçar e beijar, e talvez fosse o que ela desejava, mas a verdade é que ele estava por demais concentrado na sua situação, para se aperceber disso. Ela encaminhou-se para a sala, e ele limitou-se a segui-la.

-Está melhor? - perguntou o dono da casa, quando reentraram na sala.
-Sim já melhorou, obrigado. Mas não me levem a mal, não me apetece comer. Talvez mais logo.
- Queres que te dê um beijinho para ficares bom? A mamã costuma dar-me e a dor passa, - disse o menino aproximando-se dele, e provocando um sorriso nos adultos.

9.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIX


 - Meu Deus , Gonçalo! Como deves ter sofrido durante todos estes anos, sem que nós pudéssemos ajudar-te. Porque não nos contaste que não tinhas recuperado parte da memória?

Os dois irmãos encontravam--se sentados na sala da casa de Laura, onde Gonçalo tinha estado a jantar. Queria contar à irmã, a reviravolta que a sua vida sofrera, mas com os sobrinhos à sua volta, isso fora impossível. Agora que as crianças já dormiam, fora enfim possível desabafar com a irmã.

- Porque havia de vos contar? Se os médicos não me conseguiram ajudar, o que é que vocês podiam fazer. Só ia preocupar-vos. Agora é diferente, porque embora eu não tenha recuperado aquela parte da minha vida, ela deu frutos. Tenho uma filha linda. Que te vai surpreender, como poderás ver agora, disse lançando a mão do seu telemóvel e mostrando-lhe uma foto.

- Santo Deus, mano. Qualquer um que nos visse juntas, diria que é minha filha.

- Foi exatamente por isso que quando a vi, tive a certeza que tinha encontrado o elo que faltava na cadeia do meu passado. Foi essa semelhança que me levou a questionar Helena. Lembras-te daquela fotografia que tiraste mais ou menos nessa idade e que trago sempre na carteira? Foi com ela que questionei Helena, e consegui que ela me ouvisse. Sempre vais passar a Páscoa com os pais?

- Vamos amanhã de manhã. Tu não? Pensei que ias Sexta-feira à tardinha depois de saíres do hospital. 

-- Não. A família da Helena é de uma aldeia do concelho do Fundão. A família reúne-se lá para passar a Páscoa. Eu não conheço a sua família apesar da Helena dizer que conheci bem o seu irmão e cunhada. Quero conhecer os seus pais, quero que eles saibam, que não foi culpa minha, não ter assumido a responsabilidade dos meus atos e dado à sua filha e neta o lar que mereciam. 

Vou para lá no Sábado de manhã, A Helena contou hoje à Matilde que eu sou seu pai. E diz que ela ficou muito feliz e quer ver-me. Levas o portátil para Braga?

-Levo, porquê?

- Porque eu trouxe uma pen com o arquivo digital que a Helena me mandou ontem à noite. É uma espécie de história fotográfica da sua vida que a mãe foi compondo ao longo dos anos. Vi cada uma mais do que uma vez. 

Quase não dormi esta noite. Depois fiz cópias e passei para duas pens para não correr o risco de as perder. Trouxe-te uma e peço-te que contes aos pais o que se passa.  

Diz à mãe que não se preocupe mais em descobrir jovens para me apresentar. Já encontrei a mulher da minha vida. E diz-lhe que logo que a Matilde esteja completamente recuperada, iremos lá para que eles conheçam a neta, já o disse a Helena e ela está de acordo.

- E para quando o casamento? Já falaram nisso?

---Já. Mas a Helena não aceitou o meu pedido. Ela diz que não se casará apenas por causa da Matilde, apesar de reconhecer os meus direitos como pai. 

Ela aceitar-me-ia com uma declaração de amor que em consciência eu não posso fazer de momento. Eu não tenho nenhuma memória da história de amor que vivemos. 

Para mim é como se acabasse de a conhecer. Existe uma grande atração entre os dois, e estou certo de que voltaria a amá-la depois do casamento, mas ela não quer arriscar um casamento baseado na atração física. Respeito a sua opinião, mas não vou desistir. 

Ela é uma mulher linda, inteligente e de muita coragem. Admiro-a muito e tenho a certeza que em breve estarei irremediavelmente apaixonado. Afinal se a amei uma vez não vai ser difícil amá-la de novo. Quero na minha vida, a família que aquele maldito acidente me roubou. 



23.6.21

COMEÇAR DE NOVO -- PARTE XXIII

 




Emocionada, sentindo as lágrimas prestes a escapar-se, Helena ouvia Gonçalo falar do acidente, dos muitos dias em que estivera em coma, dos meses de recuperação no hospital de Braga, da perda de memória, das dezenas de exames e das muitas consultas com neurologistas, psiquiatras, psicólogos e fisioterapeutas.  Do ano perdido na faculdade, da tristeza que o acometera por causa da amnésia.

-Eu desesperava-me por não me recordar de nada. O meu telemóvel ou se perdera, ou ficara destruído no acidente, mas eu nem sequer me lembrava de que tinha tido um telemóvel. Um dia meu pai levou-me um novo, eu podia precisar pedir alguma coisa para eles levarem na hora da visita. Mas ele não lembrara de pedir o número antigo e eu não estava capaz de pensar em nada.

 Meus pais e minha irmã visitavam-me todos os dias, levavam—me cds, livros, mas eu tinha perdido o interesse por tudo e não queria ver ninguém além deles. Aos poucos eu fora recuperando a memória, mas há uma parte que ficou esquecida talvez quem sabe se para sempre.

Helena não se atrevia a interrompê-lo. Ele estava pálido, tinha o olhar perdido, o maxilar apertado e a testa perlada de suor.  

-Quando quase oito meses depois do acidente regressei a casa, muitos dos amigos de infância e da faculdade foram ver-me. Não tinha contado à família que havia uma lacuna na minha memória e também não o contei aos meus amigos.

 Um dia um deles, perguntou-me se eu continuava a namorar “aquela jovem”. Quem? – perguntei. “desculpa ainda estou meio atordoado com o que me aconteceu” desculpei-me. E ele então continuou a falar. Segundo o que ele disse apercebi-me que teria passado férias com ele e mais dois amigos no Algarve com era habitual há uns anos. Teria conhecido uma jovem e vivido uma história de amor esquecendo-me por completo deles.

 Eu ter-lhes-ia garantido uns dias antes do acidente, que ia casar com essa jovem. Nem me recordo o que lhe respondi, ensimesmado com a nova descoberta. Quem seria aquela jovem? Onde estaria? Teria eu contado alguma coisa aos meus pais, ou à minha irmã? 

Laura a minha irmã é pouco mais nova do que eu e sempre fomos muito unidos. Então decerto eu teria feito confidências. Então num momento em que estávamos sós, perguntei: “Alguém avisou a minha namorada?” Ela olhou-me admirada e respondeu: “Como podíamos fazê-lo se não a conhecíamos, não tínhamos qualquer contacto, e nestes meses nunca falaste nela, nem pediste para a avisar? Se queres que a avise agora, dá-me o seu contacto” “Não tem importância” - respondi.

Portanto era verdade. Todavia eu não queria que eles soubessem como estava a minha cabeça. Já me bastavam os médicos. Mas a partir daí, nunca mais me cruzei com mulher alguma, sem pensar, se era aquela a mulher que eu jurara ser a mulher da minha vida. No ano seguinte, terminei o meu curso de medicina. 

Tinha sonhado especializar-me em cirurgia, mas desisti, porque continuo com pesadelos do acidente e por vezes durante o dia sofro palpitações e flashbacks do acidente que me  deixam momentaneamente paralisado. Não dura muito, apenas alguns segundos, mas no bloco operatório, seria tempo mais que suficiente para acabar com a vida de um doente. Não podia arriscar.

18.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXI

 




Helena chegou ao hospital às treze horas. Dirigiu-se ao quarto andar, piso para onde a filha fora levada depois da cirurgia. Tinha falado com a filha pelo telemóvel, mas Matilde não lhe soubera dizer se tinha ou não alta nesse dia. De qualquer modo ela tinha uma muda de roupa no carro pronta para o caso da filha ter alta.

Entrou no quarto, no momento em que a auxiliar deixava o tabuleiro com o almoço, em cima da mesa. Era uma estrutura metálica em forma de S  com rodas, e uma base de madeira em cima,
que servia para os doentes que não se podiam levantar comer confortavelmente na cama. Aproximou-se da cama e depois de beijar a filha perguntou:

-Bom dia! Como está a minha princesa? Tens dores?

-Não. Mas estou ansiosa para ir para casa. Isto não vai impedir-nos de irmos para a aldeia, pois não?

-Penso que não, filha, todavia não sei quais são as recomendações médicas. – disse ajeitando a almofada atrás da menina, ante, de empurrar o carro-mesa com o almoço para frente dela. E acrescentou:

-- Tens que almoçar antes que fique frio. A avó telefonou ontem. Estranhou que não fosses ao telefone como é habitual. Não quis preocupá-la e disse que tinhas ido ficar em casa da Rita. E que hoje falavas com ela. É melhor não lhe dizer que foste operada até que ela veja com os seus próprios olhos que estás bem. Ainda não sei se tens alta hoje. O médico já veio ver-te?

- Ainda não eram onze horas veio o doutor Gonçalo. Trouxe-me um livro, - disse apontando para a gaveta da mesa de cabeceira ao lado da cama. – É muito simpático. Além de perguntar como me sentia, conversou comigo, sem aquela forma irritante de superioridade que os adultos têm e que parece gritar que não passamos de crianças, que não sabemos nada da vida e que eles é que sabem tudo. Como se eles nunca tivessem sido crianças, algum dia. Gostei muito dele, mas quando lhe perguntei se ia para casa hoje, disse que era o doutor Nuno que sabia, e que ainda não tinha falado com ele.

Enquanto a filha falava, Helena abriu a gaveta e viu o livro. Tratava—se de “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, um livro que ela lera há muitos anos e que ainda hoje ao recordá-lo se deixava encantar.

- É um livro muito bom, vais adorar lê-lo, - disse devolvendo—o à gaveta. - E então, o doutor Nuno já veio?

-- Há uma meia hora atrás. A enfermeira removeu o penso, ele olhou, perguntou se tinha dores, eu disse que não e ele disse à enfermeira para retirar o dreno e fazer um novo penso, disse que eu estava ótima e que podia ir para casa, mas que tinha que ter cuidado, durante uns dias não podia correr nem saltar, nadar, nem agarrar em pesos. A enfermeira disse que depois do almoço, fosses falar com ela, - disse levando à boca o último pedaço da maçã reineta assada.

Vendo que a filha acabara de comer, Helena afastou o carro-tabuleiro e puxou uma cadeira para junto da cama. Antes de se sentar perguntou:

-Queres que a mãe baixe a cabeceira um bocadinho?

-Não – disse com um ar aborrecido. -- Fiquei com as férias estragadas. Não posso brincar com os primos, nem ir nadar no rio. E eu estava tão contente em ir para a aldeia. Já não estou com os primos desde o Natal. E é sempre tão divertido estar com eles. É tão frustrante ser filho único. Por isso, gosto tanto de acampar, e por isso não te avisei logo quando começaram as dores.

Helena sentiu um aperto no peito. Nunca se dera conta da solidão que a filha sentia.

- Queres ler um pouco? Vamos ter que esperar que nos deem os documentos da alta para poderes sair.

- Não. Esqueci-me de te dizer. O doutor Gonçalo, disse que precisava falar contigo, e deixou um cartão para lhe telefonares. Está dentro do livro. Fiquei a pensar, se haveria alguma coisa de errado comigo, mas ele disse que é qualquer coisa relativo ao teu trabalho. Não sabia que ele era teu cliente.

E com essas palavras a menina encostou-se para trás e fechou os olhos.

Com mãos trémulas, Helena apressou-se a pegar no livro e a procurar o cartão que guardou na sua carteira.

 

 

 

4.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XV

 


Às vinte horas, Helena despediu-se da filha que dormia, com um beijo na testa e saiu, depois da enfermeira lhe ter entregue um cartão de Pessoa Significativa que lhe permitiria visitar a filha a partir das treze horas, do dia seguinte e não ter que esperar pela hora normal das visitas que era bem mais tarde.

Ao  entregar-lhe o cartão a enfermeira disse-lhe:

-É melhor ligar para cá antes de vir, o tempo de internamento nos casos de apendicectomias laparoscópicas, quando não surge qualquer complicação é de vinte e quatro horas. A ronda médica é por volta do meio dia, e se tudo estiver como se espera, ela terá alta, e sairá na hora das visitas. Se telefonar antes já saberá se deve ou não trazer a roupa dela, mas não ligue antes da uma.

 -Deixei-lhe o telemóvel. Vou ligar de manhã para saber como passou a noite e como não sei a que horas o médico a observará, venho às treze e trago-lhe uma muda de roupa.

Dirigiu-se ao parque de estacionamento, onde deixara o carro, lançou o saco com a roupa da filha para o banco traseiro e sentou—se ao volante. Pôs o veículo em movimento, e dirigiu-se a casa. Sentiu uma pontada no estômago e só então se lembrou de que não comera nada desde o pequeno almoço.

Comprou uma piza a caminho de casa. Sabia que tinha de comer, mas não tinha vontade de cozinhar. Sentia-se muito cansada, física e psicologicamente. Não lhe saía da cabeça a conversa do Gonçalo.  Por muito estranho que lhe parecesse, podia jurar que ele não só, não a reconhecera, como não tinha qualquer lembrança dela.

Por outro lado, agora sabia onde a filha fora buscar o seu tom de pele, e a cor dos seus olhos. A semelhança com a tia era assombrosa. No seu breve e intenso namoro, Gonçalo tinha-lhe falado dos pais, e da irmã, porém ou porque não tinha com ele qualquer fotografia ou por outro qualquer motivo, ela nunca imaginou que a família dele, não fosse morena como ele.

Acabava de jantar quando o telemóvel tocou. Atendeu. Era a mãe. 

- Estou, mãe, não esperava a tua chamada hoje. Aconteceu alguma coisa?

- Não, filha. Acabei de falar com o teu irmão e deu-me saudades vossas. Depois de amanhã é Domingo de Ramos, temos a procissão e como dissestes que vêm passar a semana da Páscoa, lembrei-me que podiam vir amanhã e íamos juntas à procissão.

-Não mãe, provavelmente só poderemos ir na segunda feira. Para que a agência fique fechada uma semana, precisamos dar andamento a alguns assuntos que não podem ser adiados.

Estava a mentir, mas não ia dizer aos pais que a neta estava no hospital para que ficassem preocupados.

- E a Matilde? Hoje não quer falar com a avó?

- Não está, mãe. Hoje foi passar a noite com a Madrinha. Amanhã eu digo-lhe que telefonaste, não te preocupes. Beijos.

Desligou e de seguida ligou para Rita.

- Desculpa, -disse assim que a amiga atendeu – vi que estavas a ligar, mas estava ao telefone com a minha mãe.

- Contaste-lhe da Matilde? - perguntou Rita.

- Não queria que ficassem preocupados. Disse—lhe que ela estava em tua casa.

- Já me disseste que a cirurgia correu bem, mas como estava a Matilde quando saíste?

- A dormir tranquilamente. Em princípio deve ter alta amanhã. Olha Rita aconteceu uma coisa estranhíssima, que preciso de te contar. Queres vir amanhã tomar o pequeno almoço comigo? Sei que é sábado, o Inácio está em casa, mas eu preciso mesmo de desabafar. Se ele quiser podem vir os dois.

- A que horas? – perguntou Rita

- Não sei. Decide tu. Eu só vou para o hospital perto da uma.

- Às dez. Se estiver bem para ti, para mim é boa hora.

-OK! Às dez então.

22.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VII


Três dias depois, no início da tarde, o telemóvel tocou. Não conhecia o número. Com mão tremente atendeu.
- Estou!
- Isabel Antunes?
-Sim
- Hélder Figueiredo. Está disponível para vir a minha casa, agora?
- Sim, claro. Vou já para aí.

Virou-se para a avó.
- Chamou-me. Não te esqueças que não deves dizer a ninguém, que estou cá.
 -Isto não está certo, filha. As pessoas conhecem-te. Vens para cá todos os anos. 
- Não te preocupes. Desde que não o digas ao casal que vive com ele, não estou a ver ninguém que lho vá dizer.

Pouco depois estava no escritório.
- Boa-tarde, senhor.
- Boa-tarde, Isabel. Se ainda está interessada no emprego, ele é seu. Pode começar amanhã às nove? O meu advogado deve trazer ainda hoje o contrato. Ou talvez amanhã de manhã. Tenho uma boa parte do meu próximo livro, gravado e espero que o consiga redigir rapidamente.
- Darei o meu melhor, senhor.
- Por favor, esqueça o senhor. Trate-me por Hélder.
- Se desejar, poderei começar agora mesmo a redigir, o livro. Não tenho nada para fazer de momento e posso adiantar já. É só dar-me o gravador.

Ele parecia surpreso.
-O gravador está na gaveta da direita.
- Redijo só para documento, ou deseja que imprima também?
- Preciso de uma cópia impressa, além da cópia em documento que deve ficar no computador e guarde outra cópia do documento numa pen drive
- Muito bem

Ela dirigiu-se ao computador que abriu, verificou a impressora, pôs-lhe papel, retirou o gravador e ligou-o. Começou a escrever, aquilo que ouvia. Segundos depois ouviu a porta bater e reparou que estava sozinha no escritório.

Trabalhou sem descanso durante duas horas, e depois deu-se um pequeno descanso. Continuava sem saber o pseudónimo dele, mas o que tinha ouvido era muito interessante, e o estilo lembrava-lhe o do seu escritor favorito, Tomás Reis.

Tomás Reis, o escritor mistério cujos livros eram  “best-seller” mas que ninguém conhecia. Seria Hélder o misterioso autor? Seria pelo facto de ter cegado que não se deixava conhecer? E que acontecera para ter perdido a visão?
 
Teria sido um acidente? Doença? Como ela desejaria saber. Porém de uma coisa tinha a certeza. Se queria manter-se junto dele, não podia fazer perguntas. Teria que ganhar a sua confiança para que as confidências pudessem chegar.
Retomou o trabalho, e ainda teclava quando às sete horas ele regressou ao escritório.

23.9.20

CILADAS DA VIDA - Parte XXXVI


Entrou em casa e foi direta à cozinha, onde abriu o frigorífico, encheu um copo com leite e bebeu-o em pequenos sorvos por medo de enjoar.

Passou o copo por água e meteu-o dentro da máquina de loiça já meio cheia, seguindo depois para o quarto. Tirou o telemóvel da mala e colocou-o em cima da mesa de cabeceira, guardou a mala e seguiu para a casa de banho, onde se despiu e entrou no duche.

Depois do banho, vestiu um curto robe sobre o corpo nu, lavou os dentes, secou o cabelo e estendeu-se na cama mesmo por cima da colcha. Sentia-se muito cansada. Pelo calor e pelas emoções experimentadas no almoço e depois em casa do empresário. Nunca esperou que a levasse para casa, pensava que queria apenas mostrar-lhe a empresa, nunca pensou que tivesse nela a sua casa. E que casa, santo Deus! O homem devia ser realmente muito rico para ter semelhante casa. O que estranhava, é que um homem jovem, bonito e rico, continuasse solteiro. E mais, parecia que nem sequer tinha um compromisso, pois ela não acreditava que mulher alguma deixasse o homem que amava livre para ir almoçar e passar a tarde com outra mulher.

E com este pensamento adormeceu. A sua intenção era descansar um pouco antes da hora do jantar, mas quando uma urgente e imperiosa vontade de ir à casa de banho a acordou já passavam vinte minutos das onze horas da noite.

Já na cozinha aqueceu uma taça de sopa de legumes e comeu-a acompanhada com um copo de leite frio. Não era uma refeição decente para uma grávida, sabia-o, mas a vontade que tinha era de voltar para a cama, não de se por a cozinhar àquela hora. Depois de comer, voltou à casa de banho, despiu o robe que pendurou atrás da porta, vestiu uma curta camisa de dormir, lavou os dentes e foi para a cama. Antes de se deitar, olhou o telemóvel e verificou que tinha duas chamadas e três mensagens da Inês, preocupada com o seu silêncio e pedindo para lhe ligar, logo que visse as mensagens. Como é que ela não tinha ouvido o toque das chamadas. De súbito lembrou-se que tinha tirado o som do aparelho antes do almoço e esquecera de voltar a ativá-lo quando o tirou da mala e o pôs em cima da mesa.

Olhou o relógio.  Meia noite e cinco. Não eram horas de ligar a ninguém. Telefonaria de manhã.

Voltou a pousar o aparelho sobre a mesa de cabeceira, e deitou-se.

Mas talvez por causa das quase seis horas que dormira antes o sono não veio logo. E quase sem dar por isso estava a pensar no pai do seu filho.

Pensar no empresário, dessa maneira, sugeria uma intimidade que não existia, e era muito estranho. Como o era, o olhar de desejo que duas ou três vezes lhe surpreendera. Ela não era como as mulheres com que decerto ele estaria habituado a sair. Era alta, tinha um corpo bem proporcionado, vistoso, como diziam na sua aldeia, e um bonito cabelo. Mas o seu rosto não era feio nem bonito. Era um rosto vulgar, embora Inês levasse a vida a dizer que com um pouco de maquilhagem ela ficaria linda.  Tinha que aprender a fazê-lo. E não era pelo empresário, claro que não. É porque a gravidez a trazia mal-encarada. E com esta convicção  adormeceu.

 

31.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVI



Olhou o relógio. Quase meio dia. Pousou o livro na mesinha em frente ao sofá e ia levantar-se para preparar o almoço, quando o telemóvel tocou.

- Estou…

- Bom dia, Teresa! Sou o João Teixeira. Podes atender, ou estás muito ocupada?

Não precisava ter-se identificado, apesar de só terem conversado uma vez ela reconheceu de imediato a voz grave e um pouco rouca do empresário

-Posso atender.

-Como estás?

- Estou bem, só um pouco surpresa, não estava à espera da tua chamada, tão cedo.

-Cedo? Mas é quase hora de almoço…

- Não me referia à hora...

- Eu sei. Estou a ligar, para saber como vais: E também para te fazer um convite. Na Sexta-feira, vamos lançar um novo jogo de computador. É a continuação de um jogo lançado há anos e de grande sucesso, pelo que este está sendo esperado com grande expectativa e vai ser lançado em simultâneo em vários países. Vamos fazer aqui uma festa e gostava que viesses. Não poderei ir buscar-te, mas mando um motorista apanhar-te na morada que me indicares. Vens?

- Desculpa recusar o convite, mas deves compreender que não me sentiria bem numa festa onde não conheço ninguém a não seres tu, se é que podemos dizer que nos conhecemos. Além de que nunca fui muito amiga de festas e na atualidade a única coisa que quero é descansar. De qualquer modo obrigado pelo convite.

- Para te ser sincero, não fosse a minha presença obrigatória, enquanto criador do jogo, e também não iria.  De qualquer modo, não podemos criar uma relação de amizade, se não nos encontrarmos de vez em quando. Aceitas jantar comigo no sábado?

- Desculpa mais uma vez, mas ando muito sonolenta, deito-me com as galinhas, como dizem na aldeia.

- Nesse caso trocamos o jantar pelo almoço.

- Não acho que seja uma boa ideia. És muito conhecido, se algum jornalista nos vê juntos começam logo a querer saber quem sou, o que faço, e quando descobrirem que estou grávida nunca mais me deixam em paz.

- Confia em mim.  

- Nunca desistes?

- Daquilo que é importante para mim, nunca.

- Está bem.

- Está bem o quê? Eu não desistir ou tu almoçares comigo?

- Está bem, almoço contigo.

-Então sábado vou buscar-te ao meio-dia. Tens que me dar a morada.

- Vais dizer-me, que sendo tu um expert de computadores, não sabes já onde moro?

- Se vamos ter um filho, e por ele vamos ter que conviver, a primeira coisa que temos de aprender é a confiar um no outro. Eu disse-te que confiaria em ti, recordas-te? Logo por muita vontade que tivesse de verificar as informações que me deste ou de descobrir a tua morada, não o faria, pois isso seria uma prova de que não confio em ti, ou não sou de confiança.

Embora incrédula ela deu-lhe a morada e despediram-se depois dele confirmar que a iria buscar no sábado ao meio-dia.

5.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XV



Depois de se ter despedido dos amigos Teresa, foi à pastelaria, onde conversou com Mário, informando-o que durante a gravidez se ia afastar do negócio, e tinha acabado de contratar Inês para gerir o mesmo.
-Escusado será dizer que espero que lhe dês o mesmo apoio, que me tens dado. Sei que às vezes os pais tendem a exigir demais dos filhos, mas lembra-te que é o seu primeiro emprego e que é natural, que precise da tua ajuda nos primeiros tempos.
- Mas tu gostas tanto do que fazes! Estás a passar mal?
-Não. Mas sabes como é, daqui a pouco começam os enjoos, e este não é o melhor local para se trabalhar nessa situação. Depois a tua filha está farta de estar em casa, ia procurar um trabalho em breve, e onde poderá estar melhor do que aqui, para desenvolver as suas capacidades?
Despediu-se com um beijo e um até amanhã e dirigiu-se a casa. Abriu o guarda-fato e foi passando a mão pela roupa, pensando no que devia vestir, já que queria uma roupa o mais formal possível, mas leve porque o dia estava muito quente. Acabou por escolher um conjunto de calças e túnica sem mangas, em seda verde água, que estendeu sobre a cama. Abriu a gaveta e escolheu entre a roupa íntima, um conjunto de fino algodão branco, e com ele na mão foi para a casa de banho, colocou uma touca na cabeça para não molhar o cabelo, e meteu-se debaixo  do duche. Voltou ao quarto só em cuecas e sutiã, e vestiu-se.
Regressou à casa de banho, escovou o cabelo e apanhou-o num coque no alto da cabeça. Não era adepta de muita maquilhagem pelo que passou apenas um pouco de brilho nos lábios e uma leve sombra nos olhos. Olhou-se no espelho e deu-se por satisfeita. Abriu a sapateira e olhou os pares de sapatos. Apenas dois pares de saltos altos, ainda por estrear, os restantes tipo ténis, e alguns sapatos e sandálias rasos, ou com um salto de três, quatro centímetros. Com um metro e setenta e cinco, Teresa era mais alta que a generalidade das mulheres,  por essa razão nunca usava saltos. Ficava enorme e isso parecia amedrontar e afastar dela as pessoas.
Escolheu umas sandálias rasas de tiras brancas e uma carteira igualmente branca. Pegou no telemóvel, procurou a morada da “TecnInformática” agarrou nas chaves do carro e saiu. Desde menina Teresa nunca aparentou ter medo de nada. Fora criada na aldeia, possuía o espírito forte e talvez um pouco ingénuo, que leva os aldeões a encarar as maiores adversidades, com coragem. Depois de pensar nas várias hipóteses, e de saber através de Gustavo o que podia esperar da lei, decidira que tinham que resolver o assunto entre os dois sem toda a exposição mediática,  que resultaria da ida para os tribunais, e que ela acreditava não seria bom para nenhum dos dois e especialmente para a criança que trazia no ventre. Não queria levar muito tempo a magicar no que podia acontecer, não fora que o sistema nervoso lhe pregasse alguma partida, e acabasse por perder o bebé.
A TecnInformática ocupava um enorme edifício de cinco andares. Estacionou o automóvel, no único lugar vago no parque e parou por momentos observando admirada o tamanho da empresa. Procurou a porta principal e dirigiu-se ao porteiro.
-Boa tarde! Tenho uma entrevista marcada com o senhor João Teixeira para as dezasseis horas, - disse aparentando uma naturalidade que estava longe de sentir, pois temia que o porteiro se informasse sobre a dita entrevista e não a deixasse entrar. - Pode informar-me qual o andar?
Relaxou um pouco com a resposta
- É no quinto andar, menina. Mas tem que me mostrar a identificação e assinar o livro de entrada.


27.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XI




Teresa saiu do médico com as pernas a tremer e sentindo-se agoniada.
Não que o resultado dos exames fosse diferente do que esperava. Estava realmente grávida e estava tudo bem com ela, e salvo qualquer imprevisto, que pode sempre surgir durante uma gravidez, tudo iria correr bem, não fora o facto de ter sido informada, que o pessoal do Centro Clínico de Procriação Medicamente Assistida, tinha cometido um erro grave, e ela estar a conceber um filho, cujo pai não era dador. Para piorar a situação, o homem tinha feito a recolha para seu uso exclusivo no futuro, e ao ter sido informado do engano, queria saber quem era a recetora, nem que fosse através dos tribunais, e uma vez aí, nunca se sabia o que podia acontecer.
E agora? O que ia fazer? Podia fingir que não sabia de nada, mas segundo o médico, o homem era poderoso, e estava disposto a tudo. A direção do Centro, receava que o escândalo de semelhante erro, os levasse à descredibilização total e por consequência à falência e ao encerramento. Apesar de lhe garantirem que não iam revelar a sua identidade, ela não acreditou. Quando vissem que o homem não cedia e iria mesmo para os tribunais, iriam entrar em acordo e denunciá-la-iam para se salvarem. E o que aconteceria depois, com ela e o bebé?
Quando se sentiu mais calma, pegou no telemóvel e marcou um número.
-Inês, estás em casa? – perguntou assim que a amiga atendeu.
- Estou. Estás bem? O que aconteceu? – perguntou Inês que estranhou a voz da sua interlocutora.
- Não dá para falar pelo telefone. Posso ir agora aí?
- Claro, mulher. Isso nem se pergunta.
- Até já.
Desligou, pôs o carro a trabalhar e um quarto de hora depois tocava a campainha da casa da amiga. Esta abriu a porta e assustou-se. A Teresa que tinha na sua frente, pálida e de olhos vermelhos pelo choro, em nada se parecia com a aquela, que nas vésperas estivera em sua casa, radiante de felicidade. Pensou imediatamente que o exame médico afinal provara que a amiga não estava grávida. Já tinha ouvido falar de mulheres que desejavam tanto um filho, que acabavam tendo sintomas de gravidez sem que estivessem grávidas.  Mas Teresa não manifestara qualquer sintoma que ela soubesse. E fizera dois testes que deram resultado positivo. Poderiam os testes dar um resultado errado? O melhor era não se por a adivinhar e saber o que se passava na realidade.
- O Martin está a dormir? – perguntou Teresa, depois de cumprimentar a amiga.
- Está. Mas entra, vamos para a sala e conta-me o que te aflige. Talvez te possa ajudar.
Teresa encaminhou-se para a sala, e a dona da casa seguiu-a depois de fechar a porta. Já sentadas, a jovem disse:
- Como sabes tinha consulta marcada para hoje no Centro de PMA, com  o médico, que efetuou o processo. Assim que cheguei e antes de entrar no consultório foi-me feito um exame ao sangue, que penso seja o normal nestes casos. Esperei um pouco pela entrada no consultório, o médico fez-me algumas perguntas entre as quais se eu já tinha feito o teste de gravidez e depois a assistente preparou-me e ele foi examinar-me. Confirmou a gravidez, e voltou para a secretária e enquanto eu me vestia, ouvi-o falar ao telefone. Mal eu voltei para a cadeira a porta abriu-se e entrou outro homem que me foi apresentado como sendo o diretor do Centro Clínico.
-Sim, mas até agora não vi razão para teres ficado assim. Não podes abreviar?
- O diretor disse-me que tinha havido um erro grave, falou uma série de coisas a que nem prestei atenção, tão nervosa fiquei, só entendi que eu ia gerar um filho de alguém, que não tinha feito doação, mas sim reserva para o futuro, por se encontrar doente, e ir ficar estéril. Entendes?
-Sim, mas o que tens a ver com isso, o erro não foi teu.
- E achas que isso interessa ao homem? Não. Ele quer saber tudo sobre mim. O seu advogado já ameaçou o Centro de que se não souber quem está a gerar o seu bebé, vai para os tribunais a imprensa etc. Em resumo pode criar um tal escândalo que poderá não só fechar o centro por falta de credibilidade, como tornar a minha vida num inferno. E o pior é que os médicos dizem que o homem é tão poderoso que não terá qualquer problema em fazê-lo.
-Mas quem é esse homem?

3.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE I



A manhã ainda não tinha alvorecido no horizonte quando Teresa se levantou. Enfiou um robe e foi à cozinha onde pôs duas fatias de pão na torradeira, tirou do frigorífico duas laranjas e preparou um sumo. Saboreou o pequeno almoço com gosto.  Quando terminou, lavou o prato e o copo e foi para a casa de banho.
Escovou os dentes, prendeu os seus longos cabelos castanhos no alto da cabeça, cobriu-os com uma touca, despiu-se e entrou no duche. Quando terminou enrolou ao corpo uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, donde tirou um conjunto de roupa interior de algodão aos quadrados.
Retirou a toalha do corpo e vestiu-o. Olhou-se ao espelho. Não eram peças finas, de seda e rendas, mas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao corpo, eram cómodas, e isso era o que lhe importava, não pretendia seduzir ninguém. Vestiu umas calças de ganga, e um camiseiro branco. Tirou a touca, desprendeu o cabelo, escovou-o e prendeu-o numa trança. Calçou uns ténis brancos, puxou a roupa da cama para trás, e abriu um pouco a janela a fim de arejar o quarto, saindo em seguida.
Na cozinha, pegou nas chaves da casa, e no telemóvel que meteu no bolso das calças e abrindo a porta que dava para as traseiras, saiu. Contornou a habitação, uma casa térrea, pintada de branco como quase todas as outras da aldeia, passou pela porta principal e seguiu em direção ao fundo da rua.
O sol apenas despontava no horizonte, mas ali acordava-se cedo. A maioria dos homens, já se encontrava nos terrenos, cavando ou regando, que Junho estava no fim, e era necessário aproveitar aquelas horas, já que pelo meio-dia, o calor começava a apertar e de tarde era impossível fazer trabalhos ao ar livre.
- Bom dia Teresa! – saudou uma mulher que dava milho às galinhas no seu quintal.
- Bom dia, dona Arminda. Como vai a senhora?
- Como Deus quer, filha, como Deus quer. Sempre com o coração apertado com muitas saudades da minha Lena, mas que fazer? Deus quis assim, há que aceitar, a Sua vontade!
- É a vida dona Arminda. Cada um procura o sítio onde pode ter melhor vida. O que interessa é que ela e a família estejam bem. E não tarda chega Agosto e estão aí todos para matar saudades. Vou andando. Até logo
- Vai com Deus - respondeu a mulher
 Teresa continuou o seu caminho. Ao chegar ao fundo da rua, a principal da aldeia, virou à esquerda, e entrou num pedaço de terreno onde pontuavam apenas meia dúzia de oliveiras, e a erva crescia solta, por todo o terreno  que se estendia até ao ribeiro, onde tantas vezes em menina se banhara nos dias de maior canícula.
Ao chegar ao leito do mesmo, agora quase seco devido ao calor intenso que se fizera sentir durante todo o mês, sentou-se numa pedra e olhou ao seu redor. Na sua frente do outro lado do ribeiro, para lá dos campos de milho, erguiam-se as montanhas. Atrás de si, o campo inculto que atravessara, e que lhe pertencia, destoava dos campos de outros vizinhos, todos cultivados com os mais diversos legumes, que o cercavam.
-Bom dia, Teresa! Por cá de novo?
Levantou a cabeça. Ali perto um homem de cabelos brancos com umas quantas cebolas numa mão e o boné na outra, os pequenos olhos meio escondidos entre as rugas, mirava-a.