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10.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE IV





Quase doze anos depois…

O relógio despertou como habitualmente às seis e trinta da manhã. Helena saltou da cama, calçou os chinelos, e dirigiu—se à casa de banho. Abriu a torneira, despiu-se e meteu-se por baixo do chuveiro, no mesmo ritual de todos os dias.

Depois de um duche rápido, secou o cabelo, vestiu-se, passou um pouco de sombra nas pálpebras que realçavam o dourado dos olhos, puxou as orelhas à cama e antes de ir para a cozinha bateu à porta do quarto da filha.

- Está na hora de te levantares, Matilde! Não te demores, já vou fazer o pequeno-almoço!

Não esperou para ver se a filha de doze anos se levantava. Ela nunca se atrasava fosse de Verão ou Inverno. Já na cozinha, pôs o avental, colocou o leite ao lume, para os cereais da filha e colocou duas fatias de pão na torradeira. Ligou a máquina do café, e abriu uma carcaça. Barrou-a com manteiga, colocou-lhe em cima uma fatia de queijo. Ia embrulhá-la num guardanapo, mas desistiu ao sentir as fatias de pão saltarem na torradeira. Colocou-as num prato, e antes que arrefecessem, apressou-se a barrá-las.  Sem se sentar, deu uma trincadela numa, no momento em que a filha entrava na cozinha com a mochila, já preparada para tomar o pequeno almoço e ir para a escola.

-Bom dia mãe.  Hoje há a reunião de pais, não te esqueceste, pois não? – perguntou enquanto despejava o leite quente na taça, sobre os cereais.

- Não, claro que não, - respondeu Helena, dando mais uma trincadela na torrada, ao mesmo tempo que abria o frigorífico e tirava um sumo para juntar à sandes que acabara de preparar para a filha levar para o lanche.

Acabou de comer as torradas, meteu uma cápsula na máquina e tirou um café que bebeu de pé, enquanto lançava um olhar ao relógio.

-Acabei, mãe - disse a filha levantando-se da mesa.

- Guarda o dinheiro para a senha do almoço-- disse  estendendo-lhe umas moedas. - E vai lavar os dentes enquanto eu acabo isto.

Matilde agarrou nas moedas, colocou-as na bolsa a mochila e dirigiu-se à casa de banho

A mãe guardou a sandes e o sumo, na pequena lancheira plástica e esta na mochila, passou a chávena e a taça por água e meteu-as na máquina.

De seguida limpou as mãos, retirou o avental e dirigiu-se para a casa de banho, precisamente quando a filha saía dizendo:

-Estou ponta!

-Vê se não te esqueces de nada, eu não demoro.

Escovou os dentes, passou um pouco de brilho nos lábios, deu uma rápida olhadela ao espelho e saiu. No corredor retirou de uma mesinha de apoio, o porta-chaves, e o telemóvel, pegou na mala que tinha ali ao lado, pendurada no bengaleiro e saiu. Fechou a porta e apressou-se a seguir a filha, que já descia as escadas em direção à porta da rua.

Já instaladas no carro, e antes de ligar o motor, perguntou:

-Não te esqueceste do passe?

Os magníficos olhos azuis da filha, tão brilhantes que parecias duas safiras, olharam para a mãe com expressão de aborrecimento, enquanto respondia:

- Não mãe, está na bolsa da mochila. E já sei, quando sair apanho o autocarro e vou ter contigo à agência. Não precisas repetir o mesmo todos os dias, já não sou uma miúda.

Atenta à estrada, Helena não respondeu. A verdade é que a filha ia a caminho dos treze anos, e desde menina sempre fora muito responsável, mas o seu coração ficava sempre em sobressalto quando não podia ir buscá-la.

Estacionou junto ao portão da escola, recebeu o beijo de despedida da filha, esperou até que ela atravessou o portão e só depois arrancou e se dirigiu à agência.

 

3.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE I



A manhã ainda não tinha alvorecido no horizonte quando Teresa se levantou. Enfiou um robe e foi à cozinha onde pôs duas fatias de pão na torradeira, tirou do frigorífico duas laranjas e preparou um sumo. Saboreou o pequeno almoço com gosto.  Quando terminou, lavou o prato e o copo e foi para a casa de banho.
Escovou os dentes, prendeu os seus longos cabelos castanhos no alto da cabeça, cobriu-os com uma touca, despiu-se e entrou no duche. Quando terminou enrolou ao corpo uma toalha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta da cómoda, donde tirou um conjunto de roupa interior de algodão aos quadrados.
Retirou a toalha do corpo e vestiu-o. Olhou-se ao espelho. Não eram peças finas, de seda e rendas, mas ajustavam-se-lhe perfeitamente ao corpo, eram cómodas, e isso era o que lhe importava, não pretendia seduzir ninguém. Vestiu umas calças de ganga, e um camiseiro branco. Tirou a touca, desprendeu o cabelo, escovou-o e prendeu-o numa trança. Calçou uns ténis brancos, puxou a roupa da cama para trás, e abriu um pouco a janela a fim de arejar o quarto, saindo em seguida.
Na cozinha, pegou nas chaves da casa, e no telemóvel que meteu no bolso das calças e abrindo a porta que dava para as traseiras, saiu. Contornou a habitação, uma casa térrea, pintada de branco como quase todas as outras da aldeia, passou pela porta principal e seguiu em direção ao fundo da rua.
O sol apenas despontava no horizonte, mas ali acordava-se cedo. A maioria dos homens, já se encontrava nos terrenos, cavando ou regando, que Junho estava no fim, e era necessário aproveitar aquelas horas, já que pelo meio-dia, o calor começava a apertar e de tarde era impossível fazer trabalhos ao ar livre.
- Bom dia Teresa! – saudou uma mulher que dava milho às galinhas no seu quintal.
- Bom dia, dona Arminda. Como vai a senhora?
- Como Deus quer, filha, como Deus quer. Sempre com o coração apertado com muitas saudades da minha Lena, mas que fazer? Deus quis assim, há que aceitar, a Sua vontade!
- É a vida dona Arminda. Cada um procura o sítio onde pode ter melhor vida. O que interessa é que ela e a família estejam bem. E não tarda chega Agosto e estão aí todos para matar saudades. Vou andando. Até logo
- Vai com Deus - respondeu a mulher
 Teresa continuou o seu caminho. Ao chegar ao fundo da rua, a principal da aldeia, virou à esquerda, e entrou num pedaço de terreno onde pontuavam apenas meia dúzia de oliveiras, e a erva crescia solta, por todo o terreno  que se estendia até ao ribeiro, onde tantas vezes em menina se banhara nos dias de maior canícula.
Ao chegar ao leito do mesmo, agora quase seco devido ao calor intenso que se fizera sentir durante todo o mês, sentou-se numa pedra e olhou ao seu redor. Na sua frente do outro lado do ribeiro, para lá dos campos de milho, erguiam-se as montanhas. Atrás de si, o campo inculto que atravessara, e que lhe pertencia, destoava dos campos de outros vizinhos, todos cultivados com os mais diversos legumes, que o cercavam.
-Bom dia, Teresa! Por cá de novo?
Levantou a cabeça. Ali perto um homem de cabelos brancos com umas quantas cebolas numa mão e o boné na outra, os pequenos olhos meio escondidos entre as rugas, mirava-a.

24.6.20

ISABEL - PARTE XXXI



Perturbada, Isabel levou alguns segundos para reagir. Algo dentro dela lhe dizia que não podia, nem devia fugir.
- Boa noite, Luís. Não esperava encontrá-lo aqui.
“Caramba não te ocorre nada mais original?”- pensou sem saber se devia ou não estender-lhe a mão.
Ele sorriu. Um sorriso que iluminava o seu rosto dando-lhe um ar mais jovial.
- Com os encontros que a vida nos tem proporcionado, eu já não me admiro se a encontrar à mesa do pequeno-almoço.
A alusão era inconveniente,  pensou Isabel corando.
- Desculpe Luís, preciso comprar umas coisas para o jantar. Outro dia falamos, - disse tentando sair dali o mais depressa possível.
- Não precisa, - disse rápido. Vai jantar comigo. E não me diga que não, será um jantar de amigos, aqui mesmo num destes restaurantes.
- Não pode ser. Mal nos conhecemos…
- Então? Mais uma razão. Vamos conhecer-nos durante o jantar.
 Baixou a cabeça e murmurou quase ao seu ouvido.
- Não tenha medo. Não sou o lobo mau. E depois estamos num lugar público, cheio de gente, que mal podia fazer-lhe?
Ela hesitou. No fundo desejava aceitar. Mas por outro lado aquele homem mexia demasiado com ela, e isso dava-lhe medo.
Luís era um homem experiente. Por isso não lhe passou ao lado, a  hesitação de Isabel. Suavemente pousou a sua mão no ombro dela.
- Venha. Prometo que a deixo seguir em paz, mal termine o jantar.
Sentir o calor da mão masculina na sua pele quase fazia Isabel perder o equilíbrio. Afastou-se rapidamente.
- Sendo assim vamos lá jantar, - disse.
Ele colocou-se a seu lado mas não voltou a tocar-lhe. Percebera perfeitamente a reacção dela e de novo se mostrava perplexo.
Porque é que aquela mulher era tão diferente de todas as que conhecera até ali? Lembrou-se de uma conversa que tivera com a mãe, nos tempos em que ela tentava a todo o custo, convencê-lo de que devia casar. A mãe dizia-lhe, que ele não podia tratar todas as mulheres da mesma maneira. 
Havia milhares de mulheres abnegadas e amorosas, incapazes de qualquer espécie de traição. Claro que ele soltara uma gargalhada de incredulidade.
Porém, ali estava ele, junto de uma mulher que não cabia em nenhum dos padrões, que ele conhecera até ao momento. Não era nenhuma adolescente, e no entanto parecia mais insegura que se o fosse. E por muito que duvidasse das mulheres, os olhos dela, e a linguagem corporal, mostravam que não estava a fingir.  

5.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE II


Naquele dia, Eva levantara-se cedo. Quase não conseguira dormir, de nervosa que estava. Tinha pedido dispensa, no emprego, a fim de tratar de alguns assuntos relacionados com a sua recente viuvez, e para ir ao escritório de advocacia. Depois do banho matinal, tomou o pequeno-almoço, meteu a mala e o saco com as roupas do falecido no carro e dirigiu-se à instituição onde ia deixá-las. Depois passou pelo orfanato onde sempre vivera, a fim de se aconselhar com a Irmã Madalena com quem sempre tivera uma relação especial, e que foi para ela aquilo que mais se assemelhava com uma mãe. 
Na verdade a jovem freira apaixonara-se por aquela bebé tão pequenina e frágil, e a tomara sob a sua proteção desde o primeiro dia. Às vezes Eva pensava, que o amor da Irmã Madalena, fora a causa de nunca ter sido adotada.
Mais calma, regressou a casa, e entreteve-se com uma breve limpeza, enquanto fazia o almoço. Mais tarde, depois da refeição, vestiu uma saia preta, que se lhe ajustava ao corpo, delineando-o na perfeição, e um camiseiro branco. Completou o conjunto com umas sandálias de salto alto e uma bolsa em tons de bege.
Não tinha por hábito, a maquilhagem que usava muito raramente em ocasiões especiais, e naquele momento não achou necessária. Demorou a encontrar lugar para estacionar, pelo que entrou na sala de recepção do escritório, apenas dois minutos antes da hora marcada. Na sala, além da recepcionista, encontrava-se um homem, de pé junto à janela, que se voltou  ao ouvi-la entrar.
Eva, identificou-se com a empregada, que pelo telefone interno falou com o advogado, e disse de seguida.
-Podem entrar. O doutor espera-os.
Surpreendida ela lançou um breve olhar para o homem que se dirigia para a porta.
Era alto, vestia umas calças de sarja bege, e uma camisa desportiva branca, cujas mangas tinha arregaçado até ao cotovelo. Não se atreveu a olhar-lhe para o rosto, mas se já estava nervosa, pior ficou naquele momento. Quem seria aquele homem e que tinha a ver com o falecido Alfredo?
Entraram no escritório, onde atrás da secretária se encontrava um homem de aproximadamente cinquenta anos, meio calvo, que depois de os cumprimentar, os mandou sentar. Abriu a pasta, e tirou de dentro dela uma carta, que entregou a Eva, dizendo-lhe que a deveria ler, após a leitura do testamento. Depois deu início à leitura do mesmo. Eva não queria acreditar naquilo que ouvia. Como fora possível que o marido tivesse deixado a sua casa, aquele desconhecido? E que raio de cláusula era aquela de que devia viver com ele, durante seis meses? Que loucura era aquela? Sentiu que uma onda de mal-estar lhe invadia o corpo, que um garrote lhe apertava a garganta impedindo-a de respirar, e teria caído no chão, não fora a pronta intervenção do homem a seu lado.


11.12.19

CONTOS DE NATAL - ANJOS A DOBRAR








Ao acordar ao som do despertador, sorri de alegria por ter que esperar só mais um dia.

Saí da cama e vesti-me com as primeiras roupas que apanhei. Revistando a cozinha à procura de algo para o pequeno-almoço, decidi-me por uma taça de cereais e umas sobras de pizza da noite anterior. Depois de ver desenhos animados, jogar alguns jogos de vídeo e conversar on-line com alguns amigos, ocorreu-me de repente que não tinha comprado um presente para a minha mãe. Era véspera de Natal e as lojas iriam fechar dentro em breve. Enfiei uns sapatos, agarrei na minha prancha de skate e lá fui eu para o centro comercial.


Abri a pesada porta de vidro para entrar no centro comercial e defrontei-me com uma visão inacreditável. As pessoas corriam em pânico por todo o lado, tentando encontrar o presente perfeito para os seus entes queridos. Era a loucura total. Decidi começar a abrir caminho através da multidão, quando um homem de casaco preto se dirigiu a mim e, com uma voz desesperada, me disse que tinha perdido a carteira. Antes que eu pudesse dizer uma só palavra, pôs na minha mão um cartão-de-visita cinzento.

— Por favor, telefone-me para o número que está no cartão se, por acaso, a encontrar — pediu.

Olhei para ele, encolhi os ombros e respondi:

— Está bem, assim farei. 

O homem virou-se para abordar outra pessoa e eu fui tentar encontrar o presente para a minha mãe. Procurei por todo o lado, mas sem sorte nenhuma. Finalmente, quase mesmo no fim do centro, vislumbrei uma pequena loja de antiguidades e artigos de arte em vidro. Pareceu-me que poderia ter algo de interessante — algo diferente do que eu tinha visto em todas as outras lojas. Como não tinha nada a perder, entrei.

Havia papéis e caixas por todo o lado, arremessados por pessoas em busca da prenda perfeita. Enquanto tentava abrir caminho através daquela pilha de coisas, tropecei numa caixa no corredor e caí. Quando peguei na caixa para a repor na prateleira, reparei numa embalagem verde e plana escondida por trás do papel de embrulho. Abri-a e encontrei um belíssimo prato de vidro com a imagem de um presépio. Ali estava ela, a prenda perfeita, atirada para o meio do lixo à espera de que eu a encontrasse.

Sorri abertamente, agarrei no objeto e dirigi-me à caixa. Enquanto a empregada registava a minha compra, pus a mão no bolso para tirar o dinheiro. O meu bolso estava vazio! Comecei a remexer em todos os bolsos quando me apercebi de que tinha deixado a carteira em casa. Esta era a minha última oportunidade de arranjar uma prenda para a minha mãe! O centro comercial fechava dentro de dez minutos e eu levaria vinte minutos para ir até casa e voltar. Comecei a entrar em pânico.

Fiz, então, a única coisa de que me lembrei naquele momento: corri para fora da loja e comecei a pedir dinheiro às pessoas. Algumas olharam para mim como se eu fosse louco; outras ignoraram-me. Finalmente, desisti, e atirei-me para cima de um banco, sentindo-me totalmente derrotado. Ao reparar que um dos meus sapatos tinha os cordões desatados, baixei-me para os apertar.

 De repente, vi uma carteira castanha mesmo ao lado da perna da frente do banco. Pus-me a pensar se poderia ser a carteira que o homem de casaco preto tinha perdido. Abri-a e li o nome que constava na carta de condução. Sim. Era dele. Quando descobri lá dentro trezentos dólares, a minha boca abriu-se de espanto.

Sem qualquer hesitação, procurei um telefone público e fiz uma chamada a pagar no destino para o número no cartão-de-visita cinzento. O homem atendeu e disse que ainda se encontrava no centro comercial. Feliz e aliviado, perguntou se eu podia ir ter com ele a uma sapataria que, por acaso, era precisamente ao lado da loja de antiguidades. Quando lá cheguei, o homem estava tão entusiasmado que me agradeceu vezes sem conta, enquanto verificava se o dinheiro e os cartões de crédito ainda lá estavam dentro.

Virei-me para sair do centro comercial e regressar a casa, quando senti uma mão no ombro.

— Acho que nunca encontrei um miúdo como tu, que devolvesse todo esse dinheiro quando podia ter ficado com ele e ninguém se teria apercebido — disse o homem.

Depois, abriu a carteira e estendeu-me quatro notas de vinte dólares, agradecendo-me de novo. Agradeci-lhe, excitado, e disse-lhe que tinha que me apressar para comprar a prenda da minha mãe antes que o centro fechasse.

Comprei o prato de vidro e fui para casa. De repente, fez-se luz na minha cabeça e compreendi que tinha sido uma espécie de anjo do Natal para o homem que tinha perdido a carteira, e que ele tinha sido o mesmo para mim quando eu tinha esquecido a minha. “Anjos a dobrar!” pensei. Tinha a certeza de que nunca iria esquecer aquela véspera de Natal enquanto fosse vivo.

Na manhã seguinte, a minha mãe abriu a minha “prenda milagrosa” e o seu olhar revelou o quanto tinha gostado dela. Contei-lhe tudo o que tinha acontecido quando tentava encontrar a prenda ideal e a história ainda tornou o prato mais especial. Guarda-o ainda hoje.

O prato fá-la lembrar de mim, claro, e continua a lembrar-me de que podem acontecer coisas espantosas quando menos esperamos. Especialmente durante essa época especial chamada Natal.

David Scott

30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


26.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXII




Eram oito e trinta e cinco quando Paula tocou a campainha da casa do pai.
-Bom dia, menina,- saudou a velha empregada que a conhecia desde que nascera.
-Bom dia, Teresa. Como tens passado?
-Como Deus quer e o reumático deixa. Mas entre. Os senhores estão à sua espera?
- Não, mas não te preocupes. Eu conheço bem a casa e os costumes do meu pai. Estão na sala?
- A tomar o pequeno-almoço. A menina toma alguma coisa?
-Não, obrigada. Podes voltar aos teus afazeres.
Esperou que a empregada se afastasse na direção da cozinha e então encaminhou-se para a sala.
- Bons dias, - saudou ao entrar. Avançou para o pequeno Miguel que se voltara na cadeira e lhe estendia os braços.
- Como está o irmão mais querido do planeta, - perguntou abraçando-o. Mas porque estás já levantado? É sábado, não tens aulas hoje pois não?
-A turma vai acampar. A mãe vai levar-me à escola, e daí vamos de camioneta com o professor, - respondeu o garoto,
- Lembraste-te hoje, que tens família? – perguntou o pai  com amargura.
Paula olhou-o e admirou-se. Não voltara a vê-lo desde que estivera no seu escritório, e estava muito diferente. Tinha perdido a arrogância natural, era agora um homem triste, amargurado. 
- Embora não acredites, lembro-me de vós todos os dias. Infelizmente não posso vir sempre que me lembro ou teria de me mudar para cá, - respondeu sentando-se à mesa junto do irmão. -Vim porque tenho um assunto urgente para tratar contigo.
- Hoje é mau dia para tratar de qualquer assunto. Mas enfim, desembucha.
- No escritório, depois de tomares o pequeno-almoço,- respondeu enquanto apertava carinhosamente a mão de Cidália, o que fez com que a mesma calasse a intervenção que se preparava para ter na conversa.
O pai não respondeu. Acabou de beber o café, afastou a cadeira e levantou-se. Sem uma palavra dirigiu-se ao escritório.
- Eu não me demoro, e depois levo-te à escola , - sussurrou ao irmão antes de se levantar e seguir o pai.
- O que tens de tão importante para me dizer, -perguntou o pai assim que ela fechou a porta. – Espero que não venhas pedir dinheiro, estou completamente arruinado.
- E desde quando é que te peço dinheiro?- respondeu
Abriu a mala, retirou o envelope e atirou-o para cima da mesa. 
- Vim trazer-te isto. Reconheces o envelope?
O rosto de Jorge tornou-se lívido. Pegou no envelope, e despejou o seu conteúdo em cima da mesa. Com mãos trémulas, pegou no cheque, verificou a quantia, viu o documento da hipoteca com o carimbo de liquidado e os restantes documentos.
- Que quer isto dizer? – perguntou encarando a filha.
-Quer dizer que a “Casa Nova” é tua de novo. A hipoteca no Banco foi saldada e o cheque é o teu fundo de maneio, para que a empresa volte a ser o que era.
- Vais casar com ele?
-Não.
- Então como o conseguiste? Ele estava cheio de ódio, não te daria isto a troco de nada.
- Podia dizer-te que o bom julgador por si se julga, mas prefiro pensar que a tua capacidade para julgar as pessoas é nula. Bom, vou-me embora. Prometi ao Miguel que o ia levar à escola. Mas um dia ainda vou querer saber, o que lhe fizeste.
- Ele não te contou?
-Não. Disse-me para te dizer, que o resgate da hipoteca e o cheque te indemnizam de todos os prejuízos que possa ter-te causado e que a partir de hoje estás por conta própria, ele não interferirá mais nos teus negócios.
Voltou-se e saiu fechando a porta atrás de si. Quando chegou à sala disse a Cidália.
-Vai ter com ele. Eu levo o Miguel à escola.

20.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE III




Francisca ficou uns momentos indecisa, olhando a porta fechada. Naquela manhã de Sábado, tomavam o pequeno-almoço, quando Ana chegou. Era sempre assim. Ela e o pai, trabalhavam juntos no mesmo escritório, mas quando a filha queria falar das suas coisas, procurava o pai em casa. Tinham-se encerrado no escritório, e Afonso continuava lá após a saída da filha. Sabia que ele não gostava de ser interrompido quando lá estava. Tinha-lho dito há quase vinte e cinco anos, logo após o casamento, e ela sempre respeitara essa regra. Mas também sabia que naquele momento, se estaria a debater com sentimentos contraditórios, e a precisar dela. Pousou o livro e levantou-se. Alisou a saia justa que lhe moldava o corpo, ainda esbelto, passou a mão pelos cabelos e dirigiu-se ao escritório.
Deu uma pancada com os nós dos dedos na porta e girou o puxador.
Afonso, levantou a cabeça quando a porta se abriu e viu Francisca, na ombreira esperando um convite para entrar. Esboçou um sorriso.
- Entra. Que milagre te traz aqui?
- Pensei que precisavas de conversar, -disse ela sorrindo.
Ele levantou-se, colocou-lhe um braço à roda da cintura e conduziu-a até ao sofá.
-Já sabes, a última da Ana?
Assentiu com um movimento de cabeça.
-Desorienta-me. Não sei o que se passa com ela. Profissionalmente é uma excelente advogada, capaz de competir com os melhores do país. Mas na vida pessoal é um desastre. Gostava de vê-la casada. Três vezes anunciou que ia casar, para desistir pouco tempo depois. Não é como os irmãos. Não sei a quem sai. Tu não és assim.
- Não tem de ser como eu, - disse com suavidade, ao mesmo tempo que a sua mão tocou o rosto do marido numa terna carícia. Não sou a sua mãe biológica.
- Mas és a única que ela conhece. E depois, Olga também não era assim.
- Não te preocupes. Ela ainda não conheceu o amor. Quando o conhecer casará e será muito feliz, vais ver. Não podes pressioná-la. Um casamento sem amor é um inferno em vida.
-Mas se estava  tão entusiasmada com o Paulo, algum encanto lhe achou. E o amor também pode nascer depois do casamento. Connosco foi assim.
- É demasiado arriscado. É como voar num trapézio sem rede. Nós arriscamos por causa das crianças. Pensa, ter-te-ias casado com uma desconhecida, se não precisasses dela para criar as miúdas? Claro que não. Eu também não o teria feito, se não fosse por igual motivo. O destino foi bom connosco. Apaixonamos-nos e somos felizes. Mas imagina que isso não tinha acontecido? Ou pior, que um de nós se tinha apaixonado por outra pessoa? O que teria sido a nossa vida? Ana é jovem, não tem filhos nem necessidades materiais. Não tem porque correr esse risco. É melhor ter acabado agora, do que meio ano depois de um casamento desastroso, com um divórcio que acarreta sempre sofrimento.
Afonso segurou-lhe o rosto, entre as mãos, mergulhou os seus olhos no olhar cálido da mulher.
- És sempre tão doce, tão sensata. Não sei o que faria sem ti.
Sem desviar o olhar inclinou-se para ela e os seus lábios buscaram a boca feminina.

reedição










24.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXVIII



No dia seguinte, Ricardo apareceu na cozinha  à hora do costume. Não ia para o quartel, mas não queria deixar de tomar o pequeno-almoço com os filhos. 
Porém quando eles se preparavam para sair, e lhe perguntaram se ia levá-las à escola, desculpou-se dizendo que não podia. E dando um beijo em cada um, retirou-se para a biblioteca. Era evidente para todos que estava de mau-humor.
Clara deixou os pequenos na escola e seguiu para a Secundária com o irmão.
- O Ricardo parecia aborrecido, - disse Tiago quando ficou sozinho no carro com a irmã. – Zangaram-se?
- Não. Mas eu fui estúpida e incorreta com ele e decerto o magoei.
- Tem cuidado maninha. O Ricardo é um bom homem e adora-te.
- Donde tiraste essa ideia?
- Basta ver como te olha. Não me digas que tens dúvidas.
- Não sei. Penso que me vê mais como amiga que como esposa.
-Ninguém olha assim para uma simples amiga. Não gostaria de saber que vocês são infelizes por falta de confiança. Até logo, – disse abrindo a porta do carro e saindo.
No caminho de regresso, Clara ia pensando no que o irmão lhe dissera. Seria verdade que Ricardo a amava? Deveria ser. Ela mesma suspeitara disso, mas quem sabe, não era apenas a sua vontade que a fazia ver aquilo que queria ver. E agora? Por causa da sua estupidez teria estragado as suas hipóteses de ser feliz?
Chegou a casa e dirigiu-se à biblioteca. Bateu levemente na porta e entrou. Ricardo estava sentado à secretária com um monte de cadernos na sua frente. Não levantou os olhos do caderno que lia.
- Posso falar contigo? – Perguntou
Continuando a manusear os cadernos, ele respondeu com outra pergunta:
-É importante?
- Para mim é. Fui irrefletida, falei sem pensar e sei que te ofendi. Quero pedir desculpa. Nestes nove meses, tens sido sempre correto comigo e atencioso com o meu irmão.  Não tinha o direito de te ter dito, o que te disse ontem.
- Desculpas aceites. Agora se não te importas, tenho muito trabalho pela frente.
Sentindo-se quase a chorar, voltou-se e dirigiu-se para a porta. Quando se preparava para a abrir, ele levantou a cabeça e disse.
-Suponho que não mudaste de ideia em relação à adoção das crianças.
- Claro que não.
- Obrigado. Vou telefonar ao Francisco.
Durante o resto da semana, a situação não se alterou. Quando as crianças estavam presentes, os dois tratavam-se com a maior cordialidade possível, mas assim que elas saíam para a escola, Ricardo fechava-se na biblioteca, de onde só voltava a sair quando regressavam à hora do almoço. Por seu lado Clara, quando não estava com as crianças, ou estava na cozinha ajudando Antónia, na confeção de algum prato que sabia ser de especial agrado delas, ou no terraço lendo, ou ainda no seu quarto muitas vezes a chorar.
Sentia que Ricardo continuava magoado, e recriminava-se por isso.
Enquanto isso, na biblioteca, ele olhava a página em branco, sem saber como começar a delinear as personagens que se iam movimentar na trama do romance que queria escrever.
Começava a pensar que se tinha metido numa camisa-de-onze-varas, quando seguiu o conselho de Francisco. É verdade que os seus filhos tinham encontrado uma mãe. E para ser justo, uma excelente mãe. Nesse aspeto nada a apontar. Já como mulher era outra história. Fizera-lhe questionar-se e acabara revolucionando toda a sua vida.  Fizera-o sonhar com uma família, libertara a sua libido, e abrira o seu coração, a novos desejos. E acabara traindo-o como todas as outras mulheres que passaram pela sua vida.
Como fora capaz de lhe jurar amor, se não confiava nele, se duvidava da retidão do seu carater? Poderia existir amor sem confiança? Por outro lado de que tinham servido aqueles seis meses de mensagens constantes onde sem pudor ele desnudou a sua alma?
Certo que ele não a amava. Mas a admiração, respeito e carinho que sentia por ela, não contavam? E a química que existia entre os dois? E o desejo de a fazer feliz? E o desejo de partilhar com ela o resto da sua vida? Isso não valia nada?
Ricardo estava tão obcecado em nunca mais amar, que não se dava conta de que o amor não era mais do que aquilo que ele sentia. Será que o ia reconhecer algum dia? E será que Clara o compreendia e o aceitava, desistindo de esperar que ele reconhecesse os seus sentimentos?


6.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXI






Retirou a mão masculina da sua cintura, com extremo cuidado, para não acordá-lo, aguardou uns segundos sem se mexer, e como Pedro continuava a dormir, deslizou da cama, e esgueirou-se para a casa de banho. Quando voltou, depois de ter tomado banho, secado o cabelo e escovado os dentes, Pedro já tinha acordado, e encontrava-se observando a rua pela janela da suite. Tinha apenas vestido os calções do pijama, mostrando toda a parte superior do corpo. Lembrando de como tinha adormecido sobre aquele peito forte, Joana corou desviando o olhar.
Calmo, ele avançou para a porta, falando com aparente naturalidade.
- Bom dia. Espero que tenhas dormido bem. Já pedi o pequeno-almoço, que deve estar a chegar. Enquanto isso vou tomar um duche.
Desapareceu no interior da casa de banho, enquanto ela se dirigia para a sala, e se sentava no sofá tentando acalmar-se.
Quando mais tarde, ele voltou impecável nas suas calças azuis, a camisa branca de manga comprida dobrada até ao cotovelo, e desabotoada nos dois primeiros botões, o pequeno-almoço já se encontrava na sala.
Iniciaram a refeição em silêncio, 
Ambos queriam falar sobre a noite anterior, mas nenhum sabia bem como o fazer. Agora à luz do dia era ainda mais difícil para Joana falar. Para ele não era mais fácil, temia agravar a situação, não queria que a jovem começasse a chorar de novo, ou que ficasse ainda mais traumatizada.
Sem o olhar, Joana rompeu o silêncio.
-Ontem à noite…
-Não precisas, falar mais disso, nem agravar memórias que te fazem sofrer, - interrompeu ele. Compreendi perfeitamente a tua atitude. Vou confessar-te uma coisa. Desde que entraste no meu escritório, que me senti atraído por ti e te desejo. Sabendo o que sei hoje, dou graças por não ter surgido uma oportunidade de termos chegado a maiores intimidades antes do casamento. Vendo como estavas ontem, tenho a certeza que terias desistido dele.  E manter a nossa união é muito importante. Lembra-te que temos um filho para criar e educar. O Ricardo disse-me ontem, durante a cerimónia, que a nossa adoção do pequeno Pedro não demorará muito, e eu quero tanto esse filho, como te quero a ti. Não vou permitir, que renuncies à tua parte do combinado, nem que para isso tenha que tomar um duche gelado todas as noites.
Estendeu a mão, segurou a dela que se encontrava trémula, e continuou.
-Tens que confiar em mim. Juro-te que não te vou forçar, nem magoar, ainda que procure estimular as tuas sensações ou o teu desejo, só avançarei quando tu o desejes tanto, quanto eu.
- Ontem, deste-me provas de que posso confiar em ti. Pelo bem do menino, mas também por nós próprios, eu quero que esta união dê certo, mas sinceramente tenho medo de não ser capaz.  É mais forte do que eu.
- Não temas. Vamos tentar resolver a situação só entre nós. Se não resultar, procuraremos a ajuda de um profissional. Não vamos desistir daquilo que queremos. Agora esquece tudo o que não seja o dia maravilhoso que está lá fora, e vamos aproveitá-lo.


16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXII





Acabava o pequeno-almoço, quando a sogra e a irmã chegaram da missa.
- Bons-dias. Passaram bem a noite? – Perguntou Antónia, a mãe de João.
- Que pergunta mulher. Na idade deles só passam mal a noite se estão doentes, - disse a tia Margarida.  E acrescentou de seguida, - vou assar um pedaço de cabrito para o almoço. Vocês só vão depois de almoçar, não é verdade?
- Estávamos a pensar ir antes, tia. Vai estar um dia de calor infernal, é melhor irmos já. Almoçamos pelo caminho, e chegamos com tempo suficiente para descansar um pouco e ir visitar a minha sogra. A Odete está preocupada com a mãe, não é verdade querida?
Não pôde deixar de o olhar, desconcertada. Minutos antes, estava a propor-lhe uma manhã de praia, e agora estava com pressa de regressar?
- É verdade que estou preocupada. Me desculpem, mas a ideia de vir foi do João, eu teria preferido ficar junto dela, mas apesar disso acreditem que gostei muito de conhecer a cidade, e de estar convosco. E prometo-vos que voltarei noutra altura para ficar mais tempo, - disse sem olhar para o marido. Agora se me dão licença, vou arrumar as minhas coisas.
Já no quarto, procurou no armário, lençóis limpos para fazer a cama, levando os outros para a casa de banho, onde se encontrava o recetáculo para a roupa suja.
Depois colocou a maleta em cima da cama e começou a meter nela as suas coisas. Estava desesperada. Devia estar doida quando pensou que conseguia enfrentar o marido com indiferença. Que a raiva que sentia lhe daria forças. E ali estava, sem saber qual o jogo que o marido estava a jogar, e por causa da doença da mãe, completamente nas suas mãos.  E pensar que ela pensara, que ele era a sua alma gémea. Sobressaltou-se com o toque do telemóvel. Atendeu, e durante uns minutos falou com a irmã que lhe telefonava para saber como estava a mãe. Terminava a chamada quando João entrou no quarto. Desligou o telemóvel e guardou-o, sem dar nenhuma explicação ao marido que a olhava com um ar interrogativo. Ele que pensasse o que quisesse.
- Estás pronta?
- Para dançar ao toque da tua música? Sim meu senhor, e meu amo, - disse com ironia
Ele não respondeu. Limitou-se a pegar na maleta e a sair sem olhar para ver se o seguia.



Parece que a maioria já entendeu que a Inês foi a culpada da separação destes dois. Mas será que foi mesmo? Será que os complexos dos dois, a sua insegurança não foi a real culpada?
Que vos parece? Vai acabar bem ou vai acabar num divórcio? 



5.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE IV





A sua estatura, não ultrapassava o metro e sessenta, mas era bem proporcionada e o corpo apresentava umas curvas tentadoras. Era empregada de uma pastelaria perto da sua casa, onde ele entrara uma vez por acaso, a fim de tomar o pequeno-almoço antes de ir para o hospital, e de onde acabou por se tornar freguês diário por causa dos lindos olhos de Odete, e do seu jeito tímido e simpático tão diferente das mulheres com quem ele se dava ultimamente.
Encantou-se com ela, mas se por um lado compreendeu que a jovem não era mulher que se contentasse com uma simples aventura sem compromisso por outro lado assustava-o a juventude dela, que tinha exatamente menos dez anos do que ele.  Porém um dia convidou-a para uma ida ao cinema, depois para um passeio e quase sem dar por isso, estavam apaixonados.
Odete era a mais nova dos quatro filhos da família Oliveira. Os dois irmãos mais velhos, ainda solteiros, eram emigrantes em França, para onde tinham partido em busca de uma vida melhor. A sua irmã casara com um inglês, que conhecera no Algarve onde estava a trabalhar, e vivia em Leeds. O seu pai era camionista e a mãe, trabalhava numa firma de limpezas. A jovem terminara o secundário e aceitou o primeiro emprego que lhe apareceu, precisamente naquela pastelaria perto da casa do médico. Aurora, a mãe de João aprovou feliz a escolha do filho. “Odete é uma mulher a sério, filho. Uma das nossas” dissera-lhe depois de conhecer a jovem. Casaram meio ano depois. Uma cerimónia simples mas muito emotiva. E durante  mais de três anos foram muito felizes.
Odete era uma mulher maravilhosa, apaixonada, que transformara a sua vida solitária e sem graça, numa vida alegre e feliz.  De súbito, um dia, a sua mulher começou a mudar. Naquela época ele trabalhava muito. Saía do hospital às quatro horas e seguia para o seu consultório, onde atendia até às oito, nove horas. E depois ainda havia as noites de plantão no hospital. Acabava por chegar a casa, como se costuma dizer de rastos e talvez por isso inicialmente nem se tivesse dado conta da mudança subtil da mulher. Uma manhã ao chegar depois de mais uma noite de plantão, encontrou-a com sinais evidentes de ter chorado. Interrogou-a e ela disse-lhe, que eram saudades de Laura a sua irmã. Pensou que era normal e como estava demasiado cansado foi-se deitar. 

14.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XLI





Acordou, sentindo que alguém lhe acariciava o rosto. Abriu os olhos e viu Paulo de pé ao lado da cama, preparado para sair.
- Que horas são? – Perguntou
- Quase seis,- disse ele. Vou a casa, buscar algumas coisas e volto para seguir convosco.  É melhor que vá já, antes que o Martim acorde. Não quero que veja que dormi aqui. Não antes que saiba que sou o seu pai.
Baixou-se para a beijar e disse.
-Quero que saibas, que me sinto o homem mais feliz à face da terra. Amo-te muito.
- Eu também te amo. 
Trocaram mais um beijo e depois ele endireitou-se e saiu silenciosamente. Sem sono, Amélia deixou-se ficar recordando o que acontecera. Paulo fora muito além das suas expectativas. Fora um homem atencioso e um amante ardente. E ela estava tão feliz, que se fosse gata, começaria a ronronar.
Quando  ele voltou duas horas mais tarde, já ela se preparava para tomar o pequeno-almoço com o filho. Fez mais torradas e os três tomaram a refeição juntos, numa antecipação do que seriam as suas vidas após o casamento. Depois partiram em direção à quinta.  Amélia imaginava a surpresa da avó quando lhe contasse que Paulo era o pai de Martim.
Após a chegada, o menino beijou a bisavó e disse que ia brincar com o Rex.
- Espera por nós, no local onde te encontrei da outra vez. Eu e a mãe temos uma coisa muito importante para te contar, - disse Paulo.
Depois que ele saiu, contaram à avó, que no entanto não pareceu muito surpreendida.
- Toda a vida ouvi dizer, que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Quando estas coisas acontecem, vemos que é mesmo verdade.  Abraçou o jovem e disse.
- ELE já vos abençoou com a chegada do Martim. Por isso, tenho a certeza, que serão muito felizes.
- Agora vamos contar a verdade ao Martim. Até logo, avó.
Encontraram-no sentado num tronco de árvore, perto do rio. Sentaram-se um de cada lado.
- Martim a mãe tem uma coisa muito importante para te contar, sobre o teu pai.
- Vais-me dizer que ele morreu? Não me importo, nunca o vi. E o Paulo vai ser meu pai, não vais?- Perguntou virando-se para ele.
- Escuta o que a mãe te diz, filho, - disse-lhe ele
- A mãe nunca te disse que o teu pai tinha morrido. A mãe disse que ele estava em viagem. E quem está em viagem pode voltar.
A criança levantou-se sobressaltada.
- Não quero que volte. O Paulo vai ser meu pai, não quero outro.
- E se eu te disser que o Paulo é o teu pai?
- Não acredito. Se fosse não me deixava toda a vida sozinho. Ele gosta de mim.
- Tens razão, filho. Eu nunca te teria deixado sozinho se soubesse que existias. Mas não sabia, acredita. E a tua mãe, também não. Soubemo-lo ontem pelo teu tio Ricardo.
- As pessoas não têm filhos sem saber. As pessoas namoram, casam e têm filhos. Não me venham com histórias.
O menino estava revoltado, Fazia esforço para não chorar. Amélia não sabia que lhe dizer. Foi Paulo quem continuou.
-Tens razão, normalmente é assim. Mas sabes, existe uma coisa que se chama banco de esperma, um local onde os homens deixam a sua semente, para mulheres que querem muito ter um filho e não têm namorado ou marido. O marido da tua mãe, morreu sem lhe dar o filho que ela tanto queria. Então o tio Ricardo pediu-me para doar a minha semente a uma sua amiga. Fui a uma clinica fazê-lo. Na clinica injetaram a minha semente na tua mãe, e tu nasceste. Nem eu sabia da existência da tua mãe, nem ela sabia da minha, porque a lei assim o determina. O único que sabia era o tio Ricardo e só ontem, depois do jantar nos contou.  Eu estou muito feliz e orgulhoso de ser teu pai. Já te amava como tal antes de o saber.
A criança ficou uns momentos calado como se tentasse compreender o que tinha ouvido. Depois abriu os braços e abraçou o pai.